Récorde ou recorde? Stress ou estresse?

Meu grande amigo, colega e editor Deonísio da Silva me perguntou: “O que você acha de quem prefere récorde a recorde?”.

Respondi-lhe que sou suspeito para falar, porque eu mesmo digo récorde às vezes. Mas não condeno quem fala assim porque se trata de uma palavra de origem estrangeira que permaneceu muito tempo em nossa língua sem ser aportuguesada. Quando se grafava record, isto é, até a reforma ortográfica de 1943, a pronúncia récorde era plenamente justificável, e muitos falantes conservaram esse hábito até hoje. O mesmo se dá com estresse, que muitos ainda grafam e pronunciam stress. Ou surfe, que eu mesmo por vezes pronuncio sârf. Há ainda os pedantes, que pronunciam fêiçbok e cócteil.

Mas o processo de nacionalização de empréstimos é relativamente lento e bastante complexo. Tanto que certas palavras, como pizza, nunca se nacionalizam; outras, como blogue, acabam não pegando (parece que só blogs de professores de português adotam essa grafia; como acabaram de ver, eu não a adoto).

Já tratei desse assunto em outras postagens (vejam ao final deste post). Mas, em resumo, se o aportuguesamento de certas palavras é bastante simples (por exemplo, posso transformar sushi e sashimi em suxi e saximi, ou shopping em xópim), em muitos casos isso obriga a uma mudança de pronúncia, como em surf para surfe ou flirt para flerte. Ou ainda em bluetooth para o popular blutufe. Por isso mesmo, línguas como o francês e o inglês adaptam a pronúncia sem alterar a grafia original. Idiomas mais nacionalistas chegam a substituir um termo estrangeiro por outro mais afeito à fonologia local. Foi assim que o caqui virou dióspiro em Portugal. Já no Brasil lidamos bem com estrangeirismos, como coaching, delivery, game, spread, swap, overdose e outros. Devemos lembrar ainda que, até a década de 1950, ainda havia quem pronunciasse fútbol: é que a grafia football só foi substituída por futebol na referida reforma de 1943. Essas diferentes pronúncias são não raro utilizadas como demarcador de classe social: o grã-fino diz Hollywood e o plebeu, Roliúde.

Postagens falando sobre aportuguesamento de palavras:

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