Ainda sobre a ortoépia — ou ortoepia

Semana passada publiquei aqui um texto cômico para explicar o que é ortoépia, ramo da gramática que indica a pronúncia correta das palavras — e cujo nome tem, ele próprio, duas pronúncias corretas, já que também pode ser grafado e pronunciado ortoepia.

Pode parecer bobagem, mas há muitos casos em nossa língua de palavras com duas grafias e pronúncias igualmente corretas, como autópsia e autopsia, necrópsia e necropsia, biópsia e biopsia, catorze e quatorze, e assim por diante. Esse assunto se tornou relevante depois que um certo membro do Ministério Público resolveu processar a Rede Globo porque seus repórteres pronunciam récorde em vez de recorde. Ora, acho que a maioria do povo brasileiro, incluindo pessoas cultas, pronuncia récorde. E também transístor e bêisebol em lugar de transistor e beisebol. Portanto, já é hora de os dicionários e o próprio VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) abonarem essas formas, afinal língua é uso, e o uso é soberano.

Mas aqui quero tratar de um fenômeno curioso que vem acontecendo após a reforma ortográfica de 2009. Embora na maioria das línguas a grafia não represente fielmente a pronúncia, parece que os falantes do português são tão apegados ao modo de escrever das palavras que, quando ele muda, a pronúncia muda junto.

Na América do Sul há dois países chamados Guiana, a República da Guiana e a Guiana Francesa (antigamente, o Suriname também se chamava Guiana Holandesa). Pois até 2009 a grafia do nome desses países era Güiana, seguindo a forma como são chamados em outros idiomas. Aliás, até 1943 essa grafia era Guyana, que se mantém nas demais línguas. Pois foi só a reforma ortográfica abolir o trema que as pessoas, inclusive jornalistas, passaram a pronunciar esse nome como se o u fosse mudo.

Outro fato curioso é que até a oficialização da reforma, grafávamos protéico, nucléico, estóico, paranóico, e assim por diante. Já faz algum tempo que ouço pessoas dizerem protêico, com e fechado, mas minha maior surpresa foi ouvir na televisão Luiz Felipe Pondé pronunciar estôico. Justo ele, que é filósofo e grande estudioso do estoicismo desde quando estóico tinha acento. Duvido que naquela época ele ou qualquer outra pessoa pronunciasse estôico. No entanto, é assim que ele se refere atualmente aos seguidores dessa escola de pensamento. Resta saber se Pondé está fazendo isso por ignorância de que mudanças na grafia não implicam mudanças na língua (duvido muito dessa hipótese) ou se por pura gozação ou protesto contra a nova ortografia da língua portuguesa. Em todo caso, a ortoépia (ou ortoepia) ensina que todas as palavras terminadas em ‑eico, ‑oico ou ‑oide se pronunciam com a vogal aberta e não fechada.

O fato é que o português já passou por muitas reformas ortográficas (quatro só no último século), sendo que, na minha opinião, nenhuma foi satisfatória, e essas mudanças constantes só atrapalham quem procura escrever corretamente. E agora estão atrapalhando também a fala. Enquanto isso, outras línguas europeias não sofrem reformas ortográficas há séculos, e ninguém tem problema para pronunciar as palavras.

O ortoepista

Germano estava em uma loja informando seus dados pessoais ao atendente do setor de crediário. Nome: Germano Fontes. Data de nascimento: tanto de tanto de mil novecentos e tanto. Profissão: ortoepista. Ao dizer isso, o rapaz do cadastro lançou-lhe um olhar de perplexidade: orto o quê?! “Ortoepista”, respondeu Germano.

— O senhor é médico? Trata de fraturas, né?

— Não, não, eu sou gramático, especialista em ortoépia — ou ortoepia.

— E, desculpa perguntar, o que faz um orto, orto…?

— Ortoepista. É o profissional que estuda e ensina a correta pronúncia das palavras.

— Ah, que interessante! O senhor podia dar um exemplo?

— Claro, o próprio nome da minha profissão é um exemplo. Você pode pronunciar ortoépia ou ortoepia, ambas as formas estão corretas.

— Puxa, mas essa profissão existe mesmo? Eu nunca tinha ouvido falar.

— Claro que existe, tanto que eu sou filiado ao Sindicado Nacional dos Ortoepistas e das Ortoepistas, membro da Sociedade Brasileira de Ortoépia — ou Ortoepia — e credenciado junto ao Conselho Federal de Ortoépia — ou Ortoepia.

— Nossa, agora eu fiquei pasmo! Pra ser sincero com o senhor, eu num intindi nada. Pra mim isso é uma compreta novidade.

— Então, só para lhe mostrar como um profissional como eu é útil, a pronúncia correta é “não entendi” e não “num intindi”. E o certo é “completa” e não “compreta”.

— Ah, doutor, mas o senhor tem estudo, né, eu não. Quer dizer então que o orto, orto… enfim, isso aí que o senhor falou, é a pessoa que correge os ignorantes?

— Olha, não é bem isso, meu trabalho não é humilhar ninguém, mas, já que você tocou no assunto, o certo é “corrige” e não “correge”.

— Legal, aprendi um monte de coisa com o senhor agora, vou voltar mais inteligente pra casa. O senhor pode assinar aqui embaixo? Pode ser só uma rúbrica.

— Rubrica, meu amigo, rubrica.

Récorde ou recorde? Stress ou estresse?

Meu grande amigo, colega e editor Deonísio da Silva me perguntou: “O que você acha de quem prefere récorde a recorde?”.

Respondi-lhe que sou suspeito para falar, porque eu mesmo digo récorde às vezes. Mas não condeno quem fala assim porque se trata de uma palavra de origem estrangeira que permaneceu muito tempo em nossa língua sem ser aportuguesada. Quando se grafava record, isto é, até a reforma ortográfica de 1943, a pronúncia récorde era plenamente justificável, e muitos falantes conservaram esse hábito até hoje. O mesmo se dá com estresse, que muitos ainda grafam e pronunciam stress. Ou surfe, que eu mesmo por vezes pronuncio sârf. Há ainda os pedantes, que pronunciam fêiçbok e cócteil.

Mas o processo de nacionalização de empréstimos é relativamente lento e bastante complexo. Tanto que certas palavras, como pizza, nunca se nacionalizam; outras, como blogue, acabam não pegando (parece que só blogs de professores de português adotam essa grafia; como acabaram de ver, eu não a adoto).

Já tratei desse assunto em outras postagens (vejam ao final deste post). Mas, em resumo, se o aportuguesamento de certas palavras é bastante simples (por exemplo, posso transformar sushi e sashimi em suxi e saximi, ou shopping em xópim), em muitos casos isso obriga a uma mudança de pronúncia, como em surf para surfe ou flirt para flerte. Ou ainda em bluetooth para o popular blutufe. Por isso mesmo, línguas como o francês e o inglês adaptam a pronúncia sem alterar a grafia original. Idiomas mais nacionalistas chegam a substituir um termo estrangeiro por outro mais afeito à fonologia local. Foi assim que o caqui virou dióspiro em Portugal. Já no Brasil lidamos bem com estrangeirismos, como coaching, delivery, game, spread, swap, overdose e outros. Devemos lembrar ainda que, até a década de 1950, ainda havia quem pronunciasse fútbol: é que a grafia football só foi substituída por futebol na referida reforma de 1943. Essas diferentes pronúncias são não raro utilizadas como demarcador de classe social: o grã-fino diz Hollywood e o plebeu, Roliúde.

Postagens falando sobre aportuguesamento de palavras:

Qual a pronúncia correta de sintaxe?

Prof. Aldo, gostaria de saber qual é a pronúncia correta da palavra “sintaxe”: “sintasse” ou “sintacse”? Muito obrigado.
Fábio Luiz Cerqueira

Essa é uma questão interessante de ortoépia. Trata-se de uma dessas palavras que, por serem escritas com “x”, letra de inúmeros valores fonológicos em português, acabam por confundir até os falantes mais cultos. Há uma crença disseminada na sociedade de que palavras de origem grega ou latina pertencentes à esfera da cultura devem ser pronunciadas tal como o eram naquelas línguas. E assim acaba ocorrendo o fenômeno da hipercorreção, em que o falante articula “x” como /ks/ e “qu” como /kw/ mesmo onde essa pronúncia não existe. Exemplos clássicos disso são “mácsimo” e “inqüérito”.

Todos os dicionários que consultei recomendam a pronúncia “sintasse”. E a razão é simples: o todo-poderoso uso. Isso porque “sintaxe”, “máximo” e “próximo” são empréstimos latinos antigos, em que a pronúncia /ss/, embora inicialmente errada, acabou se consagrando pelo uso repetido, tornando arcaica, pedante ou simplesmente errada a pronúncia latinizante /ks/.

Só que a coisa não é tão simples assim. “Sintaxe” é um termo técnico da linguística e da gramática cujo sentido é “ordenação”. A sintaxe se divide em dois processos: parataxe (isto é, coordenação) e hipotaxe (subordinação). Nestes dois últimos termos, a pronúncia do “x” é /ks/, o que tornaria lógica a pronúncia de “sintaxe” da mesma forma. No meu entender, articular “sintacse” não é um erro do mesmo nível de “mácsimo”, “inqüérito” ou “tóchico”. Por sinal, uma reforma ortográfica que venha a substituir “x” por “ss” terá de levar em conta essas variações.

Falo mais sobre esse assunto no meu vídeo “Palavras com duas pronúncias” do meu canal do YouTube Planeta Língua.

Qual é o certo: biópsia ou biopsia?

Bom dia, Aldo. Sou jornalista, e no órgão em que trabalho a norma é empregar “autopsia”, “biopsia”, “necropsia” e não “autópsia”, “biópsia”, “necrópsia”, só que eu acho isso meio forçado. Afinal, quais são as formas corretas? E quais as mais adequadas? Obrigado.
Ana Flávia Borges – Belo Horizonte

Cara Ana Flávia, ambas as prosódias – em -ópsia e em -opsia – estão dicionarizadas e, portanto, são corretas. E existem ainda as formas “autopse”, “biopse” e “necropse”. O que acontece é que determinados gramáticos têm suas preferências e idiossincrasias, o que é agravado no caso de elaboradores de manuais de estilo de jornais pela premência de adotar uma forma única, padronizada, que todos os redatores utilizem de modo uniforme.

Em todo caso, vale a pena explicar por que existem ambas as formas. A maioria das palavras portuguesas terminadas em -ia (com i tônico), como “teoria”, “democracia”, e mesmo outras mais vulgares como “padaria” e “ventania”, contêm um sufixo que se origina no grego ía. Em alguns casos, esse sufixo nos chegou por via culta junto com a própria palavra (como em “democracia”); em outros, veio através do latim vulgar, que havia adotado o sufixo (caso de “padaria”).

Só que muitas palavras gregas de origem culta nos chegaram pelo latim literário, em que esse sufixo era átono. Por exemplo, as palavras gregas historía e theoría passaram ao latim como historia e theoria (pronunciadas história e teória), pois em latim era norma que, se a penúltima sílaba fosse breve, o acento tônico recuasse para a antepenúltima. Com isso, historía e theoría, palavras paroxítonas em grego, tornaram-se proparoxítonas em latim (já que o encontro vocálico i-a era hiato nessa língua).

Então por que pronunciamos “história” (como ditongo) e “teoria” (como hiato)? Tudo depende do percurso pelo qual a palavra chegou até nós. “História” é um termo culto muito antigo, já presente em textos medievais (cuja grafia “estória”, ao contrário do que muitos pensam, é mais antiga do que “história”) e trazido do próprio latim, ao passo que “teoria”, e também “autopsia”, “biopsia” e “necropsia” vieram diretamente do grego literário para os manuais de medicina. Daí a opção pela prosódia grega e não a latina.

No entanto, dada sua dupla origem (grega e/ou latina), algumas dessas palavras sofrem flutuação de uma língua para outra (enquanto dizemos “polícia”, “democracía” e “estratégia”, o espanhol diz “policía” e “democrácia”, e o italiano diz “strategía”) ou mesmo dentro da própria língua, caso de “autópsia/autopsia”, etc.

Outro fator que pode ter influenciado certas pronúncias é a origem francesa do vocábulo: se a palavra veio do grego ou latim por via francesa (isto é, se emprestamos o termo do francês e não diretamente das línguas clássicas), então é natural que a terminação seja com i tônico, pois essa é a única pronúncia possível em francês.

Enfim, só uma pesquisa etimológica rigorosa pode elucidar o porquê dessas formas. O fato concreto é que o uso de “autópsia”, “biópsia” e “necrópsia” é preferido não só por você como pela imensa maioria dos brasileiros. Talvez só não seja pelo editor do seu jornal.