O revisionismo dos nomes chineses

Outro dia, falei sobre a dificuldade de mudar hábitos linguísticos e, por conta disso, sobre a pouca adesão popular às novas denominações impostas a cidades e países, como Galiza em vez de Galícia ou Beijing em lugar de Pequim. Este último caso é bastante ilustrativo, pois têm sido os nomes chineses os maiores alvos desse revisionismo onomástico.

De uns tempos pra cá, percebe-se que a imprensa vem capitaneando uma política de reformulação da grafia e da pronúncia de nomes chineses aos quais já estávamos acostumados. Tudo parece ter começado quando os americanos mudaram o nome da capital chinesa de Peking para Beijing. Como tudo o que o Primeiro Mundo faz – de bom ou de mau – é imediatamente copiado por aqui (lembram-se do caso dos jogos paraolímpicos, que viraram “paralímpicos”), de repente os jornais brasileiros passaram a trazer “Beijing” e mesmo “Beijim” no lugar de “Pequim”.

A partir daí, tai-chi-chuan virou tai-jiquan, Mao Tse-Tung agora é Mao Zedong, e assim por diante. Evidentemente, nenhuma língua pronuncia nomes estrangeiros exatamente como se faz no idioma original. Assim, diante de um nome vindo de fora, costumamos nos pautar pela grafia (e hoje há uma tendência a atribuir pronúncia inglesa a palavras de qualquer idioma estrangeiro; por isso, o “Bank” do nome do banco alemão Deutsche Bank costuma soar “bénk” por aqui).

Um complicador a mais surge quando a palavra vem de língua que adota um alfabeto diferente do nosso. Nesses casos, é preciso transliterar o nome para o nosso sistema ortográfico (ou, o que mais frequentemente acontece, para o sistema da língua dominante, o inglês).

Anos atrás, quando à caça ao ex-ditador Muamar Kadafi corria solta, discutiu-se muito qual deveria ser a grafia de seu nome: Kadafi, Gaddafi, Khadaffy…? Vejam que só não estava em discussão uma grafia aportuguesada “Cadáfi”. O caso dos nomes chineses é ainda mais complexo: palavras de uma língua cuja escrita sequer é alfabética (a escrita chinesa é chamada de ideográfica).

Mas, se, com certeza, não pronunciamos tais nomes como os chineses o fazem, e se sua transliteração é totalmente arbitrária, já que não pode haver correspondência letra a letra entre alfabetos, por que, de uma hora para outra, mudar sua grafia? E com base em que critérios?

Certa vez, li numa crônica de cujo autor não me lembro o seguinte comentário maldoso a respeito da nova grafia “Beijing”: “beijim é aquilo que o minerim dá no rosto da minerinha, uai! E também aquele docim pra lá de bão que tem em festa junina, sô!”

7 comentários sobre “O revisionismo dos nomes chineses

  1. Caro Aldo,

    Quanto às formas Galiza e Galícia, tenho oscilado.

    Nunca me preocuparam o lugar e o seu nome até que me interessasse a história do português. Como com esta tive mais contato por textos, brasileiros e portugueses, que se referiam ao lugar por Galiza, e não por Galícia, e até taxavam de espanholismo a segunda forma, comecei por Galiza.

    Depois de ler a sua argumentação etimológica, fiquei convencido de que fosse mesmo Galícia; hoje, depois de ter visto no Corpus do Português do Mark Davies que, em todos os séculos, desde o XIII, Galiza é muito mais frequente que Galícia, estou supondo, até que mais e melhores razões se apontem noutro sentido, que, a despeito das derivações mais consentâneas com a normal evolução do nome do latim para o latim vulgar, deste para o galego medieval e deste para o português, o nome mais corrente era mesmo Galiza.

    Estou supondo ainda que, no Brasil, por não terem o lugar e o seu nome suscitado interesse algum, por séculos e séculos, de quem quer que fosse mais do que a outra Galícia (Europa Central), até que para cá imigrassem muitos e muitos galegos no século XIX, o nome terá chegado pronunciado e escrito como o pronunciavam e o escreviam os imigrantes naquela altura, o que, aliás, encontra apoio na observação do autor do artigo que indiquei, que reconhece ter sido essa a forma predominante nos Oitocentos.

    Um abraço,
    Rodrigo.

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    1. Obrigado pelo comentário, Rodrigo. De fato, esse tema sempre suscitou pouco interesse não só pela pouca importância que a Galícia/Galiza tem para nós brasileiros como pelo fato de que nomes próprios são pouco estudados pela etimologia. Ou seja, é preciso que haja mais estudos nesse sentido.
      Um abraço!

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  2. Concordo com você.
    Tendo a ser conservador em assuntos como este, por isso busco usar as formas tradicionais (pelo menos as que aprendi), mas isso fica cada vez mais difícil. Lembro-me de que a primeira vez que ouvi falar sobre Taiwan (ou melhor, li) foi em 1982, quando li o Almanaque Abril daquele ano, no qual esse país aparece como… FORMOSA, nome que os portugueses difundiram no Ocidente. Depois, com as primeiras importações de produtos de lá, veio o nome atual.
    Creio que essa tendência atual de recuperar formas “originais” tem relação com identitarismo e lugar de fala: já li por aí na Internet que há gente que acha que a Armênia, a Albânia, a Hungria, a Finlândia, a Grécia e outros países deveriam ser conhecidos nas línguas do Ocidente por seus endônimos, não pelos nomes tradicionais do português e outras línguas. Dizem que é mais respeitoso com esses países…
    Mas isso valeria apenas para as línguas europeias; parece que ninguém acha que uma mudança dessas deveria ocorrer também em árabe, hebraico e outras línguas.

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    1. Pois é, se formos levar essa atitude “respeitosa” a ferro e fogo, teremos de ser poliglotas para pronunciar corretamente o nome dos países como seus próprios cidadãos os pronunciam. E há nomes impronunciáveis aos brasileiros, como Tchetchnya, por exemplo (a nossa famosa Chechênia).

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