Educar é humilhar?

Em seu artigo “O preconceito linguístico disfarçado de elegância nas redes sociais”, publicado no site Folha Vitória, a professora Larissa O’Hara critica uma certa postura arrogante e preconceituosa de quem, tendo domínio da norma-padrão do idioma, ou mesmo sendo professor dela, usa de seu conhecimento linguístico para humilhar quem não a domina. Ela diz: “A elegância, quando usada para desqualificar o outro, não é uma virtude; ao contrário, torna-se um instrumento de exclusão. Utilizar o domínio da norma-padrão para menosprezar dialetos marginalizados reforça uma postura segregacionista e violenta”.

E justifica:

[…] foi apenas no final do século XX, em 1996, com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que a escola se universalizou e o perfil da população estudantil se diversificou. […] Antes, a escola era espaço das elites; com a democratização, passou a acolher também alunos das classes trabalhadoras e de segmentos à margem do sistema de produção. Nesse processo, a escola passou a receber estudantes que falam, por exemplo, “nóis vai”, “abrido”, “cheguemu”, expressões típicas de suas comunidades e contextos sociais.

De fato, a universalização do ensino básico levou para dentro da escola pública a quase totalidade das crianças e adolescentes das classes mais baixas da população (e, diga-se de passagem, introduziu no ambiente escolar muitos pequenos marginais que ameaçam a integridade física e a vida de colegas e professores). Mas, antes de continuarmos, deixem-me explicar algo que já mencionei em outras oportunidades.

A língua tem três níveis de linguagem, ou registros (na verdade, o terceiro deles é muito mais um dialeto do que um registro), que são o formal (iremos), o informal-coloquial (nós vamos, a gente vai) e o vulgar, ou iletrado (nóis vai, a gente vamo). Este último é antes um dialeto do que um registro porque registros são modos de expressão que adotamos conforme a situação de comunicação. Assim, o mesmo falante que emprega iremos num texto profissional utiliza a gente vai num bate-papo entre amigos. Mas ele jamais diria nóis vai, a não ser de brincadeira. Já quem diz nóis vai é incapaz de usar nós vamos ou nós iremos. Há uma barreira social e educacional entre a pessoa que alterna os dois primeiros registros e a que só utiliza o terceiro. Vale lembrar que a função da escola é tornar o aluno proficiente no primeiro registro, que é o que lhe abrirá portas em seu futuro profissional e civil, pois nos outros dois registros ele já é proficiente.

Vamos imaginar que, se o Brasil tivesse um ensino público gratuito e universal de altíssima qualidade como têm países como Finlândia ou Dinamarca e, portanto, todas as crianças recebessem desde cedo esse nível de educação, ninguém no país falaria nóis vai. É o que se espera de um país desenvolvido — eu diria até, civilizado.

Obviamente, crianças oriundas de favelas ou zonas rurais, filhas de pais analfabetos, que não podem dar aos filhos o que não têm nem conhecem, chegam à escola dizendo nóis vai. E concordo com a articulista de que não é justo que sejam humilhadas por isso, afinal não têm culpa da condição socioeconômica em que nasceram.

Citando Stela Maris, Ph.D. em Linguística, na obra Nós cheguemu na escola, e agora?, Larissa recomenda “que a norma culta seja ensinada nas escolas, mas que, ao mesmo tempo, sejam preservados os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social”. 

E é aí que discordo da colunista e da doutora em linguística. Os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social devem, sim, ser respeitados, mas não preservados. A escola deve, sim, corrigir o aluno que diz nóis vai e ensiná-lo de que, daqui para frente, deve dizer nós vamos, nós iremos ou a gente vai, dependendo do contexto. Mas, e quando esse aluno for para casa e conversar com seus pais, ele deve usar a nova forma que aprendeu ou mudar a chave e dizer: “hoje nóis aprendeu uma coisa nova lá na escola”? Ninguém passa pela escolarização impunemente. Portanto, o que se espera de alguém que está sendo escolarizado é que aplique na sua vida o que aprende na escola. Logo, esse aluno deve aos poucos se acostumar a empregar um linguajar mais condizente com sua condição escolar. Se os pais acharem estranha a nova forma de expressão da criança, esta deve dizer: “pai, mãe, a professora ensinou que essa é a forma correta de falar”. Essa criança estará indiretamente educando também os seus pais, num efeito multiplicador. Antes de causar estranheza, esse novo modo de falar deveria causar orgulho em pais que não puderam estudar, mas cujos filhos estudam para um dia ter uma posição social melhor que a deles. A menos que esses pais sonhem em ter um filho traficante, funkeiro, jogador de futebol ou influenciador digital.

Larissa prossegue: “Aprender a norma culta deve significar uma ampliação da competência linguística e comunicativa do aluno, capacitando-o a usar uma variedade ou outra, conforme a situação discursiva”. Fico imaginando um eminente jurista como Joaquim Barbosa, que veio de um meio muito humilde, chegando à casa de seus pais depois de dar uma palestra em português castiço e dizer “hoje eu di uma palestra numa facurdade pra lá de boa e os pessoal me apraudiu tudo”. Seria concebível essa situação?

Respeitar o socioleto do aluno vindo da favela é uma coisa, ensiná-lo a usar variedades de maior prestígio para seu próprio bem é outra. À medida que o aluno aprende uma forma de expressão mais prestigiosa, que o afasta do ambiente tóxico em que estaria condenado a viver, por que ele continuaria a usar uma forma linguística que só o prende a essa realidade?

A colunista finaliza:

Os alunos devem se sentir à vontade para falar em sala de aula, independentemente da variedade linguística que utilizem. Quando seus antecedentes culturais e linguísticos não são respeitados, podem desenvolver um sentimento de insegurança e inadequação. […] Como poderíamos ensinar menosprezando, desautorizando e humilhando nossos próprios alunos? Não somos contrários às regras, nem defensores de um “vale-tudo” linguístico.
Na verdade, apreciamos ensinar as normas do português padrão e promover uma boa escrita. No entanto, isso é muito diferente de diminuir alguém por sua forma de se expressar. […] Humilhar outra pessoa por sua forma de falar, não apenas silencia uma voz, mas também perpetua um ciclo de opressão.

Obviamente, sou contra qualquer humilhação que um professor possa impor a um aluno, especialmente por seu modo de falar. Mas a sociolinguística, base teórica da noção de variação e variedade linguísticas, que prega a igualdade de valor entre todas as variedades, tem sido frequentemente usada por professores inexperientes, preguiçosos ou mal-intencionados para deixar de ensinar a norma-padrão (até linguistas de universidades brasileiras recomendam que não se ensine mais gramática) sob a alegação de que corrigir o aluno constitui preconceito linguístico que pode traumatizá-lo e de a gramática normativa é uma forma de opressão das elites contra a classe trabalhadora; por isso, é melhor deixá-lo continuar a dizer nóis vai — e a vandalizar a sala de aula e ameaçar colegas, professores e diretores. É por isso que o artigo da professora O’Hara, embora bem-intencionado, pode ser perigoso se mal interpretado.

Ainda sobre o português e o “brasileiro”

Em dezembro de 2024, lancei no meu canal do YouTube Planeta Língua o vídeo “Brasileiro é uma língua distinta do português?”, no qual falo sobre a afirmação dos linguistas Fernando Venâncio e Marcos Bagno de que o português falado no Brasil será nas próximas décadas uma língua distinta do português de Portugal — segundo Bagno, essa cisão até já aconteceu. Teríamos então (ou já temos) a “língua brasileira”.

No vídeo, explico que há critérios científicos, portanto objetivos, para decidir se duas ou mais expressões linguísticas configuram uma só ou mais de uma língua, critérios estes que os dois linguistas conhecem, mas não aplicam, apresentando no lugar suas convicções pessoais, fruto de militância política e ideológica.

É uma realidade que nas ciências humanas é muito viva a crença de que não há dados objetivos, fatos concretos observáveis e testáveis segundo o método científico, mas tudo é questão de ponto de vista. E se esse ponto de vista for o marxista, melhor ainda. Nem a linguística, a mais exata das ciências humanas, consegue escapar desse dogma, jamais provado e muitas vezes desmentido.

A questão é que choveram comentários ao meu vídeo, a maioria vinda de pessoas leigas no assunto, algumas até semialfabetizadas, mas que, graças à “democratização” promovida pelas redes sociais, acham que sua opinião vale o mesmo que o parecer abalizado de um especialista no assunto. E na medida em que supostos especialistas como Bagno e Venâncio também substituem pareceres técnicos por opiniões pessoais, qualquer um pode ser doutor em linguística, não é mesmo? E dá-lhe coisas como “eu falo brasileiro, e pronto!”, “o português é a língua mais linda do mundo”, “eu não entendo o que os portugueses falam, então é outra língua”, e por aí vai. Esse tipo de comentário não merece que eu perca meu tempo nem o dos leitores comentando. Porém também há comentários de pessoas que se dizem formadas em Letras, mas que, novamente, apresentam visões pessoais e relativistas como verdades absolutas.

O que ocorre, e que já comentei certa vez num artigo chamado “200 milhões de linguistas”, é que, diferentemente de assuntos como astronomia e medicina, que as pessoas comuns sabem que não dominam e por isso não se atrevem a debater com especialistas, todo mundo acha que entende de língua (assim como todo mundo acha que entende de futebol) só porque é falante. Some-se a isso a suposta falta de cientificidade das ciências humanas, em que a opinião vale mais do que o fato, e temos o que temos.

No vídeo, expliquei que o que define uma língua é seu sistema, isto é, quantos e quais são seus fonemas, seu modo de flexionar nomes em gênero e número, seu modo de conjugar os verbos, a ordem das palavras na frase, etc. E nesse ponto há praticamente uma total concordância entre as variedades portuguesa e brasileira do idioma, o que já não é verdade em relação ao galego, língua muito próxima do português, mas com sistema distinto em muitos aspectos.

Na verdade, as pessoas tendem a prestar muito mais atenção às diferenças do que às semelhanças. Se compararmos duas versões do mesmo texto, uma lusitana e outra brasileira, notaremos que as diferenças não chegam a 2%: uma palavra diferente aqui ou ali, um infinitivo no lugar de um gerúndio acolá, e nada mais. Mesmo assim, essas diferenças não estão em nível de sistema e sim de norma (a gramática da língua portuguesa permite tanto estou estudando quanto estou a estudar). Em outras palavras, são usos e costumes diferentes dentro de uma mesma gramática, do mesmo modo como em São Paulo se usa você foi e no Pará se diz tu foste. Paulistas e paraenses falam línguas diferentes?

Portanto, sobretudo em nível formal, as diferenças entre português e “brasileiro” são meramente de uso, não de essência. O que chama a atenção de muita gente é a diferença entre o português brasileiro falado informal, especialmente o dos falantes menos escolarizados, e o português lusitano falado informal. Mas a língua portuguesa é muito mais do que apenas o registro informal em sua modalidade oral na boca dos menos letrados: a língua é uma construção histórica que, no caso do português, existe sem solução de continuidade do século XII até o presente e que, ao longo de todo esse tempo, passou por muitas mudanças, tendo tido, portanto, alguns sistemas diferentes. A cada uma dessas fases históricas da língua, com seu sistema particular, dá-se o nome de língua funcional. Logo, o português tem sido uma grande sucessão de línguas funcionais dentro da mesma língua histórica. Até o século XIV, o galego constituiu com o português um único sistema — em outras palavras, eram a mesma língua. Desde então, o português foi-se afastando do galego, que, por sua vez, foi-se aproximando do castelhano. Hoje, português e galego são línguas mutuamente intercompreensíveis, mas distintas, com sistemas fonológico, morfológico, sintático e léxico diferentes.

Aliás, o critério da inteligibilidade recíproca não é válido para distinguir idiomas. Muitos brasileiros têm dificuldade de entender a pronúncia lusitana, mas os portugueses entendem os brasileiros perfeitamente bem. Do mesmo modo, brasileiros e bolivianos se entendem bem, mesmo falando idiomas distintos. Já eu nem sempre entendo bem certos sulistas ou nordestinos, especialmente os da zona rural.

Vou contar um caso anedótico. Certa época, na minha sala na Universidade de São Paulo, todo dia duas senhoras nordestinas entravam para fazer a faxina. Elas conversavam entre si o tempo todo, mas eu não entendia bulhufas do que elas falavam. A única expressão que eu compreendia (ou pelo menos achava que compreendia) era “marrapai”, que eu deduzia ser “mas, rapaz!”. Será que essas senhoras não falavam a mesma língua que eu?

Se tomarmos a língua falada em Paris por imigrantes congoleses ou senegaleses e mesmo por seus filhos já nascidos e criados na capital francesa, diremos que aquilo não é francês. Se compararmos as normas orais informais das mais diversas línguas com suas normas-padrão, encontraremos abismos em quase todas. Se compararmos as normas orais informais dos vários países em que uma mesma língua (português, espanhol, francês, inglês) é falada, igualmente encontraremos diferenças chocantes.

Por exemplo, no espanhol platino usa-se o pronome pessoal reto vos, que inexiste na Espanha e no restante da América, e misturado ao oblíquo te; os canadenses usam vous no lugar de tu e constroem suas frases de modo bem diferente dos franceses; um americano de classe baixa diz coisas como I ain’t got no money em vez de I don’t have any money; em compensação, ingleses de classe baixa têm uma pronúncia chamada cockney que nem os próprios ingleses de outras classes sociais entendem. Seríamos então levados a concluir que nos Estados Unidos ou na Jamaica não se fala inglês, que no Quebec ou no Senegal não se fala francês, que na Argentina não se fala espanhol. Isso faz algum sentido?

É óbvio que o modo de falar dos brasileiros, especialmente os menos cultos, com seus anacolutos e topicalizações, orações clivadas, próclises generalizadas, mistura de pessoas verbais, etc., é gritantemente diferente do modo como os portugueses, mesmo os menos cultos, falam. Mas ao ouvirmos um professor brasileiro, um português e um angolano falando numa mesa-redonda sobre linguística (posso testemunhar porque já participei de muitas assim), temos clareza de estar ouvindo a mesma língua. O mesmo quando lemos textos escritos por esses professores. Um português ou um angolano que me leia neste momento — ou que assista aos meus vídeos — não terá dúvida de que estou usando a mesma língua que eles.

Senão vejamos. Leiam o trecho abaixo, escrito pelo meu colega, o Prof. Marco Neves, da Universidade de Lisboa:

Já recebi esta pergunta várias vezes. A resposta é esta: os portugueses não traduzem, em geral, os nomes das pessoas. Traduzimos os nomes de algumas personagens históricas, os nomes dos papas, os nomes da Bíblia, os nomes de alguns reis. É verdade que até o século XIX era muito habitual traduzirmos outros nomes, mas agora é algo excepcional.

Que lhes parece? É uma língua distinta da que vocês, meus leitores, falam ou escrevem? A versão oral do texto acima, disponível no canal de vídeos do Prof. Neves, tampouco difere do modo como um brasileiro falaria, exceto, é claro, pela pronúncia.

Leiam agora o seguinte trecho:

No fondo, o reintegracionismo non é máis que unha das dúas opcións normalizadoras que existen hoxe en día dentro do galego. Para comprender en que consiste esta opción e os fundamentos nos que se sustenta, cremos imprescindible coñecer primeiro en que consiste un proceso de normalización lingüística e as razóns polas que se levan a cabo estes procesos nas distintas sociedades. Para iso propoñémosche que vaias á páxina seguinte, onde ofrecemos, de forma resumida e sen complicacións, unha breve explicación destas realidades.

Isto é galego. É a mesma língua que o português? É bem parecida, sim, mas é a mesma língua?

Bagno e alguns colegas seus de universidades brasileiras defendem a construção de uma gramática normativa cem por cento brasileira, que abone coisas como “aconteceu dois acidentes” e “a mulher que o marido é médico”, sem falar da próclise em início de período e outros brasileirismos. Ao mesmo tempo, acusam SEM PROVAS a gramática atual de ser baseada no português lusitano do século XIX, de escolher arbitrariamente só os exemplos que comprovem as idiossincrasias dos gramáticos, e uma série de outras calúnias apresentadas como verdades científicas.

A questão é que eles forçam a barra ao tentar introduzir na norma-padrão do idioma usos que são exclusivos do português brasileiro informal oral — e a norma-padrão serve para guiar o registro formal escrito. No âmbito do português escrito formal (literário, acadêmico, jurídico, jornalístico, técnico, burocrático), o que os brasileiros usam correntemente é a gramática normativa que está em vigor tanto no Brasil quanto em Portugal — exceto por alguns deslizes resultantes de má escolarização. Portanto, não é possível comparar alhos com bugalhos. Uma coisa é constatar que a fala dos brasileiros, sobretudo dos menos letrados, que é a maioria da população, é diferente da portuguesa; mesmo assim, em nível de norma e não de sistema. Outra coisa é comparar a fala e a escrita das pessoas verdadeiramente cultas de todas as nações lusófonas.

É claro que falas informais são diferentes não só entre países, mas também entre regiões de um mesmo país. É claro que o português do século XXI é diferente do galaico-português do século XII. É claro sobretudo que diferentes regiões (incluindo diferentes países) têm pronúncias diferentes, às vezes difíceis de compreender, mas a língua não é sua fonética, é sua fonologia, sua morfologia, sua sintaxe e seu léxico. E nesse ponto diferenças, se há, são tão mínimas que qualquer pessoa de bom senso, que não esteja agindo de má-fé para sustentar uma ideologia política ou para “lacrar” nas redes sociais, reconhece que a afirmação de que no Brasil se fala ou se falará em breve um idioma distinto do português, uma nova língua românica, talvez uma língua crioula descendente do português, é tão absurda quanto afirmar que português e espanhol são a mesma língua.

Um último ponto: toda a argumentação de Bagno, Venâncio e dos comentaristas do meu vídeo se dão na mesma língua em que estou escrevendo agora. E que, salvo melhor juízo, é o português.

Como e por que as línguas mudam?

A mudança é o fenômeno fundamental da linguagem. Na medida em que a língua é, ao mesmo tempo, produtora e produto de uma cultura, que é algo dinâmico, é natural que a língua acompanhe esse dinamismo.

Na natureza, a mudança é sempre imperceptível. Num universo em que o comportamento dos seres é regido por leis físicas ou genéticas, prevalece o determinismo do instinto. Assim, a natureza parece funcionar sempre da mesma maneira, os fenômenos seguindo sua ordem natural, sem exceção. O que distingue o homem dos outros seres vivos é a capacidade de modificar a natureza com seu trabalho transformador. O homem foi o único animal capaz de criar diferentes modos de vida, distintas civilizações, de se adaptar a todos os habitats oferecidos pela natureza, além de ser o único animal a produzir história. No mundo natural, a mudança temporal é medida em termos de milhares ou milhões de anos, o que nos dá a falsa impressão de permanência e perenidade. Já os fatos sociais e as criações intelectuais evoluem a uma velocidade às vezes assustadora.

A língua foi chamada por Yuri Lotman de sistema modelizante primário por ser o primeiro e principal instrumento de comunicação e do pensamento de que dispomos. Segundo os linguistas americanos Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, ela é também o filtro através do qual o homem vê e pensa o mundo à sua volta e assim se dá conta de sua própria experiência. Para os adeptos do relativismo linguístico, a língua impõe a seus falantes uma visão de mundo que condiciona os comportamentos psíquicos e sociais dos indivíduos. Contudo, a capacidade humana de transformar o meio social e de explorar a natureza conduz o tempo todo a uma nova realidade, que obriga o homem a uma nova visão de mundo, levando a novos recortes, novas apreensões e novos tratamentos do continuum dos dados da experiência, o que força a língua a mudar para poder continuar dando conta dessa realidade e servindo de instrumento da comunicação e do pensamento.

Num jogo dialético, a língua muda para conservar-se e só se conserva na medida em que muda. Assim como para conservar uma casa é preciso submetê-la a periódicas reformas, a língua precisa adaptar-se constantemente às necessidades de comunicação da comunidade falante. Se não mudasse, em pouco tempo estaria divorciada da sociedade a que deve servir. Em resumo, a língua evolui porque funciona e funciona porque evolui: é o uso da linguagem que produz sua mudança e é esse permanente mudar que garante a continuidade de seu funcionamento.

Segundo Saussure, a língua possui duas características aparentemente contraditórias entre si: a imutabilidade e a mutabilidade. Para ele, a língua é dada aos falantes como uma realidade que nenhum indivíduo pode transformar por sua própria vontade; a língua é fruto de uma convenção social, e mudá-la exigiria o consenso social. Além disso, é uma instituição herdada de gerações anteriores e não um contrato firmado entre os falantes no presente. Saussure insiste na arbitrariedade dos signos linguísticos (as palavras) como uma escolha e, ao mesmo tempo, uma coerção. Por outro lado, a mutabilidade dos signos — e, portanto, da língua — está ligada à própria inconsciência que os falantes têm das leis que regem o sistema, assim como à própria tensão entre a língua como bem social e os atos de fala individuais, com seu caráter particular e transitório.

Mas, se a língua é produtora e produto da cultura, a diversidade cultural é causa da diversidade linguística e vice-versa. Além da mudança temporal, decorrente da evolução histórica, há também a diversidade geográfica, em que os diferentes habitats condicionam diferentes formas de cultura. Assim, a separação dos grupamentos humanos no tempo e no espaço conduz à sua diferenciação. Mais ainda, em sociedades complexas e extremamente heterogêneas como as pós-industriais, estratificadas pela organização política e a especialização das atividades econômicas, a classe social, o grupo profissional e a própria situação de comunicação levam à diferenciação.

Existem, portanto, quatro fatores responsáveis pela mudança linguística: o tempo histórico, o espaço geográfico, a divisão das classes sociais e a variedade das situações de discurso, entendidas como os diferentes ambientes sociais, ligados às diversas práticas profissionais, religiosas, recreativas, culturais, etc., que condicionam diferentes formas de expressão do pensamento (isto é, diferentes escolhas de vocabulário e construção sintática), como é o caso dos discursos científico, político, jurídico, jornalístico, publicitário, dos jargões e das gírias específicas de cada profissão e de cada grupo social (os médicos, os economistas, os surfistas…).

Na mudança histórica, o aspecto que mais chama a atenção é a mutação fonética. A alteração da pronúncia ao longo do tempo pode, muitas vezes, ser mascarada pela grafia: o português cozer era pronunciado na Idade Média como codzer, distinguindo-se perfeitamente de seu hoje homófono coser. Uma alteração de pronúncia pode implicar mudança no sistema de sons distintivos da língua, os fonemas, pelo acréscimo, supressão ou reorganização das relações entre as unidades. Uma mudança ao nível dos fonemas pode, por sua vez, acarretar alterações em categorias morfológicas, como no caso da flexão de número em latim. No latim arcaico, o plural de lupos, “lobo”, era lupoi. Portanto, depreendiam-se claramente um radical lup-, uma vogal temática -o- e as desinências do singular e do plural -s e -i, respectivamente. A evolução de lupos para lupus e de lupoi para lupi levou à oposição entre as terminações -us e -i, que passaram a ser vistas como unidades irredutíveis.

Frequentemente, a mudança histórica se dá não apenas na pronúncia, mas também no significado. É assim que muitas palavras, independentemente da conservação ou mutação de sua forma fonética ou gráfica, adquirem novos significados, podendo manter ou não os antigos. Finalmente, novas palavras são introduzidas na língua, fruto de criação interna ou de empréstimo, enquanto outras caem em desuso e desaparecem.

A mudança espacial é resultado da diferente evolução temporal da língua em comunidades linguísticas separadas geograficamente. A distância geográfica, responsável pela falta de comunicação entre dois grupos de falantes de uma mesma língua, produz em cada um dos grupos uma evolução histórica independente, que, a longo prazo, poderá resultar na não intercompreensão entre os grupos. As migrações humanas também são outro fator que conspira a favor da mudança espacial. Ocorre assim o fenômeno da dialetação, que pode, com o tempo, fazer surgirem novas línguas.

A separação entre classes sociais, tanto do ponto de vista físico quanto em termos do modo de vida, faz com que indivíduos pertencentes a classes sociais distintas se expressem de formas diferentes e reproduzam visões de mundo parcialmente diversas. Surgem então os socioletos, ou formas de expressão particulares de cada classe social. Finalmente, os diferentes grupos sociais (grupos profissionais, religiosos, etários, etc.) existentes numa sociedade complexa tendem a produzir discursos privativos desses grupos. Temos aí os vários idioletos e tecnoletos de uma sociedade.

A análise científica da mudança linguística em função desses fatores pode se dar centrando-se o foco da atenção num estado de língua isolado ou na comparação entre dois ou mais estados de língua. Por exemplo, em relação à mudança temporal, é possível fazer uma análise da língua num dado momento de sua evolução ou confrontar dois diferentes momentos dessa evolução e verificar que elementos ou relações se mantiveram ou mudaram. O mesmo raciocínio vale para os outros três fatores de mudança da língua.

Além disso, podemos realizar uma fusão e integração das análises individual e comparativa. No caso da evolução histórica, pode-se não apenas descrever e confrontar duas etapas distintas, mas também compreender como as relações internas entre os elementos do sistema no estado 1 conduziram ao estado 2, integrando a evolução e o funcionamento num único processo.

Podemos, igualmente, analisar de modo global as variações geográficas, de classe social e tipos de discurso. É essa tendência à visão holística da mudança linguística que norteia a maioria dos estudos científicos da linguagem atualmente, mostrando que hoje, ao contrário da fragmentação e da visão parcial que tínhamos até um passado relativamente recente, a linguística atual opta por uma análise global de seu objeto, a partir de um ponto de vista dinâmico.

A língua e o jogo de xadrez

A linguística só se consolidou como ciência propriamente dita, com objeto e método definidos (como ciência positiva, diria o filósofo francês Auguste Comte, ou como hard science, “ciência dura”, como dizem os americanos) a partir das ideias de Ferdinand de Saussure. Para lançar os fundamentos da linguística moderna, ele propôs uma série de dicotomias segundo as quais a língua deve ser analisada.

A primeira grande distinção que Saussure faz diz respeito às duas maneiras de abordar o fenômeno da linguagem: diacronicamente, isto é, estudando sua evolução histórica, ou sincronicamente, tomando um determinado momento dessa evolução e estudando as relações que seus elementos constituintes estabelecem entre si. Se compararmos a evolução da língua a um filme, cada cena, ou, mais ainda, cada fotograma, seria uma sincronia. Portanto, a análise sincrônica é estática e pressupõe que, no breve intervalo de tempo considerado, nada muda na língua. Já a análise diacrônica vê a língua em movimento: o linguista histórico assiste ao filme todo ou, pelo menos, a uma grande sequência de cenas para entender como a língua passa de uma sincronia a outra, ou seja, como se dá a mudança.

Para tornar mais claras as suas propostas inovadoras, Saussure lança mão de diversas analogias: com a biologia, a economia, a história, a sociologia… Mas sua analogia mais famosa e ilustrativa é com o xadrez. Sim, ele compara a língua a um jogo de xadrez, onde as peças são os diversos elementos linguísticos (por exemplo, fonemas ou palavras) e as regras são sua gramática. A configuração do tabuleiro após cada jogada constitui uma sincronia, ou estado da língua. Nele, não importa por que caminhos o jogo chegou a tal configuração, nem o material de que são feitas as peças. Apenas a posição relativa das peças e sua função — isto é, os movimentos que podem executar — é que têm importância para o desfecho do jogo. Na metáfora proposta por Saussure:

  • cada posição do jogo corresponde a um estado da língua (sincronia);
  • assim como o valor de cada peça depende de sua posição no tabuleiro, cada termo da língua tem seu valor por oposição aos outros termos (cada termo é o que os outros não são);
  • os valores (funções) de cada peça são fruto de uma convenção (a regra do jogo) preexistente à partida do mesmo modo como a língua, com sua gramática e vocabulário, preexistem a cada ato de fala;
  • basta mover uma peça do xadrez para passar de um estado de equilíbrio a outro (de uma sincronia a outra, diremos); igualmente, toda mudança linguística afeta um elemento isolado, mas essa mudança repercute no sistema como um todo;
  • no xadrez, a configuração do tabuleiro num dado momento independe de como se chegou até ela: quem assistiu à partida desde o início não leva qualquer vantagem sobre quem acabou de chegar; só as posições relativas das peças e seus movimentos permitidos é que importam para entender o andamento do jogo. Da mesma maneira, não preciso conhecer a história da língua inglesa para aprender inglês hoje.

Nascem daí outras importantes oposições. Em primeiro lugar, Saussure distingue entre língua e fala: língua é o conjunto abstrato e socialmente partilhado de signos e de regras combinatórias que permite aos falantes produzirem seus atos de fala; a fala, por sua vez, é cada produção concreta e individual feita por um falante utilizando-se da língua. É assim que, com o léxico e a gramática da língua portuguesa, todos nós brasileiros produzimos um sem-número de atos de fala todos os dias, em casa, na escola, no trabalho, no lazer e até quando falamos sozinhos — ou pensamos, o que não deixa de ser um diálogo interior. Em termos do xadrez, a língua é o jogo em si, com suas peças e suas regras; a fala é cada partida jogada.

Saussure também distingue entre a forma e a substância da língua. Sendo a língua um sistema onde cada elemento não tem valor em si, mas sim pela função que desempenha, ela é basicamente um sistema de formas cuja substância é irrelevante (assim como a substância de que são feitas as peças do xadrez não interfere em sua função), ou seja, a língua é um sistema formal. Esse sistema em que cada objeto só se define por oposição aos demais, em que os objetos não se distinguem por sua natureza e sim por sua função, e onde cada objeto mantém com cada um dos demais uma relação de semelhança que nos permite reconhecê-los como elementos do mesmo conjunto e uma relação de diferença que nos permite identificar cada um deles, foi chamado pelos discípulos de Saussure de estrutura. Portanto, a língua é uma estrutura, constatação que é a base do já mencionado estruturalismo.

No jogo de xadrez, se porventura eu perder uma peça (digamos, um cavalo) e combinar com meu adversário que vou usar em seu lugar uma tampinha de garrafa, a qual fará exatamente os mesmos movimentos que o cavalo, na prática, essa tampinha é o meu cavalo! Afinal, o que importa no jogo não é se a peça em questão se parece ou não com um cavalo e sim se ela se comporta como cavalo.

Analogamente, sei que a palavra porto é diferente de posto, pois elas significam coisas diferentes. Isso indica que os únicos elementos que as diferenciam, o fonema /r/ e o fonema /s/, são formas diferentes, pois têm funções diferentes. No entanto, quer eu pronuncie porto com um /r/ “carioca”, “paulistano” ou “caipira”, estarei sempre dizendo a mesma coisa: porto. Do mesmo modo, quer eu pronuncie posto com /s/ carioca ou paulista (isto é, com ou sem chiado), meu interlocutor continuará pensando num posto (de polícia, de gasolina, etc.). Já, se eu trocar qualquer uma das pronúncias do /s/ por qualquer uma das do /r/, meu interlocutor saberá imediatamente que estou falando de um porto e não de um posto. Não importa se o que está sobre o tabuleiro é um cavalo de madeira, de plástico, uma tampa de garrafa ou um parafuso: se essa peça executa os movimentos em L de um cavalo do xadrez, então ela é um cavalo do xadrez. Entretanto, se essa peça, mesmo que tenha a aparência de um cavalo, se deslocar diagonalmente como um bispo, ela será um bispo.

Saussure insiste no caráter social da língua, por oposição ao caráter individual da fala. A língua pertence a todos os falantes, e nenhum deles pode, sozinho, alterá-la. A língua é um patrimônio cultural da sociedade que a fala, que passa de geração a geração: essa língua nos é dada quando aprendemos a falar porque resulta de uma convenção social estabelecida muito antes de nascermos. É essa convenção que garante que as pessoas se comuniquem e se entendam por meio da língua. Assim como os jogadores não podem alterar as regras do jogo durante a partida, mas têm de jogar segundo regras predeterminadas, temos de usar adequadamente as palavras e a gramática da nossa língua se quisermos nos fazer entender. Se eu resolver inventar novas palavras e, além disso, combiná-las de um jeito inédito (por exemplo, colocando o artigo depois do nome e não antes, como é obrigatório em português), posso estar criando um novo idioma, mas como só eu sei falar essa língua, ninguém me entenderá.

Outra decorrência do caráter social da língua é a concepção de signo de Saussure. Até então, as palavras eram vistas como meros rótulos que se dão às coisas. Ao passarmos de uma língua para outra, apenas mudaríamos os nomes pelos quais continuaríamos a designar as mesmas coisas. Saussure mostra que, na verdade, as palavras são inerentes a cada língua e que línguas diferentes dão nomes diferentes a coisas igualmente diferentes. Um exemplo disso é o fato de que aquilo que nós, falantes do português, chamamos de rio os franceses chamam de fleuve ou de rivière, segundo o curso d’água em questão corra para o mar ou para outro rio. Uma história folclórica nos conta que alguns exploradores franceses ficaram surpresos ao descobrirem, na África, um curso d’água que nascia nas montanhas, corria pelas savanas e… desaparecia no deserto. Esses exploradores não sabiam dizer se o que tinham descoberto era um fleuve ou uma rivière. Ora, nós brasileiros diremos que se trata obviamente de um rio!

Isso mostra que cada povo expressa através de sua língua uma particular visão de mundo, que a natureza é uma realidade contínua que cada comunidade linguística “recorta” de modo diferente. Não é a natureza, e sim a língua, que diz onde um curso d’água deixa de ser riacho e se transforma em ribeirão. O modo particular como cada língua divide o mundo em conceitos influi no próprio modo de pensar de cada povo. Isso explica em parte o caráter racional e pragmático que em geral se atribui aos falantes do inglês ou o aspecto “romântico” e sentimental do espanhol, e assim por diante.

Se para Saussure o significado do signo varia de língua para língua, então o próprio significado é parte desse signo. Ele concebe o signo linguístico como uma entidade de duas faces, o significante, ou expressão, que é a forma material do signo, representada pela forma acústica (o som) da palavra ou por sua forma gráfica, e o significado, ou conteúdo, que é uma imagem mental, um conceito, que temos da coisa designada. A “coisa” propriamente dita (que Saussure chama de referente) não faz parte do signo e, em muitos casos, pode nem existir (qual é o referente, isto é, a coisa concreta, representado pela palavra amor?).

Assim, o signo árvore, por exemplo, tem na língua portuguesa um significante que é o som da palavra árvore (ou melhor, a representação mental que temos desse som) ou a sequência de letras que compõe a escrita dessa palavra, e um significado que é o modelo mental que temos de uma árvore, o qual construímos a partir da observação de inúmeras árvores concretas. O significado de árvore, isto é, o conceito de árvore que temos em português, é uma abstração em que retemos apenas aquilo que é constante em todas as árvores, aquilo que é geral: ter um tronco, uma raiz, folhas, estar plantada no solo, etc. O que é variável ou circunstancial não faz parte do conceito de árvore: o fato de ter ou não um coração flechado desenhado em seu tronco acompanhado de um nome de homem e um de mulher não faz parte da definição de árvore. Como se vê, Saussure colocou a visão de mundo particular de cada povo — o modo como cada povo “recorta” o mundo à sua volta — dentro da linguagem, e por isso o seu estudo passou a ser uma forma importantíssima de compreender o modo de pensar dos diferentes povos.

Quando alguns são mais iguais do que os outros

Há um dito jocoso, atribuído a George Orwell em seu romance A revolução dos bichos, que diz: “todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Pois nos últimos tempos instalou-se nas sociedades ocidentais uma mentalidade segundo a qual pessoas pertencentes a minorias, especialmente os pobres e os negros (que no nosso país estão longe de ser minoria), podem descumprir as leis sem que nada lhes aconteça.

Por exemplo, um grupo de moradores da periferia pode, nos fins de semana, especialmente à noite, fechar uma rua, impedindo o livre trânsito dos cidadãos e cerceando seu direito de ir e vir, para promover um baile funk ou pancadão e pode perturbar o sossego dos moradores da vizinhança e impedi-los de dormir — sem falar no tráfico e consumo de drogas, aliciamento de menores, estímulo à prostituição, presença de veículos roubados, etc. —, tudo isso com o apoio e o aplauso de certos políticos e sem que o poder público possa reprimi-los. Afinal, funk é cultura, certo? Afinal, os jovens da periferia não têm outra forma de lazer, certo? Afinal, a polícia, se tenta fazer cumprir a lei, é truculenta, certo?

Se um branco ofende um negro com base na cor de sua pele, pode ser preso sem direito a fiança ou prescrição de sua pena, mas se um negro ofende um branco com base na cor de sua pele, nada acontece, afinal não existe racismo reverso, certo? Pelo menos, esse é o entendimento do nosso Poder Judiciário.

Vivemos numa sociedade em que algumas pessoas podem aceder a vagas na universidade ou no serviço público sem ter mérito suficiente, passando assim à frente de outras pessoas mais qualificadas, apenas pela cor da pele ou pela situação socioeconômica. Vivemos numa sociedade em que alguns grupos têm certos privilégios, como se outros grupos lhes devessem algo, e esses privilégios, mesmo quando injustos ou ainda que um dia não sejam mais necessários, jamais serão revogados, pois “conquistas sociais” não podem retroceder, certo?

Quando certa mentalidade vigente, ainda mais tornada lei, divide os cidadãos entre “nós” e “eles” e estabelece que alguns são mais iguais do que os outros, é o início do esgarçamento do tecido social, com toda sorte de ressentimentos, que é a raiz dos discursos de ódio, da polarização política e do rompimento das relações entre amigos, entre familiares, entre colegas de trabalho, e ao resultado de tudo isso estamos assistindo hoje no país e no mundo.