O (extenso) espectro das cores em português

Praticamente todas as línguas do mundo têm nomes para cores. Algumas línguas de povos tribais, como o bassa, da Libéria, ou o pirahã, do Brasil, têm apenas dois nomes. Em bassa há um nome de cor que resume o que chamamos de “cores quentes” do espectro luminoso (do vermelho ao amarelo) e outro para as “cores frias” (do verde ao violeta). Em pirahã, só há termos para “claro” e “escuro”.

Mas a maioria das línguas de povos “civilizados”, isto é, que vivem em cidades e não em tribos, têm seis ou sete cores básicas: as famosas sete cores do arco-íris. Só que a civilização moderna nos obrigou a nomear uma série de outros matizes para os quais não havia nomes herdados quer do latim quer do germânico, nossas duas principais fontes de étimos para colorações.

Além das cores básicas e mais comuns (branco, preto, azul, vermelho, verde, amarelo), tivemos de arranjar nomes para outros tons comuns e fomos buscá-los nos nomes de coisas que tinham tal tonalidade. Assim surgiu o laranja (uma fruta), o rosa (uma flor), o marrom (“castanha” em francês), o cinza (da cinza das fogueiras), o violeta (outra flor), o anil (nome de planta em árabe), o bege (provavelmente do italiano bambagia, “algodão”, pelo francês), o creme (um alimento), o esmeralda (um mineral) e assim por diante.

Então veio a indústria de tecidos e seu corolário, a indústria da moda, com uma gama muito mais específica de cores. Surgiram então nomes como grená, ocre, cáqui, solferino… Só para se ter um exemplo, o que um simples mortal chama de marrom um estilista pode denominar castanho, terra, camurça, café com leite, tabaco, chocolate e mais uma enormidade de matizes indistinguível aos olhos do leigo. Isso sem falar nos adjetivos apostos ao nome da cor que lhe dão uma especificidade quase infinita: azul petróleo, azul-marinho, azul-celeste, azul jacinto… (Não me perguntem por que alguns desses nomes levam hífen e outros não!)

Por incrível que pareça, até o branco e o preto admitem nuances: branco gelo, branco neve, preto absoluto, preto azulado. Basta ver o catálogo de cores das agências de automóveis para constatar que, mesmo numa mesma marca, o vermelho capri de um ano é substituído pelo vermelho carrara do ano seguinte, o verde montana pelo verde amazônia, o azul polara pelo azul flash – ufa, haja criatividade para bolar nomes!

Por essa e por outras, certo está um primo meu que foi a uma concessionária comprar um carro. Ao que o vendedor lhe perguntou “Que cor o senhor prefere?”, meu primo respondeu: “Qualquer uma, eu vou andar dentro do carro e não fora”.

Como se referir a nove gêmeos?

Esta semana foi anunciado que uma mulher no Marrocos deu à luz nove crianças gêmeas. O fato é tão inusitado que jamais havia ocorrido antes e nem os cientistas imaginavam que isso fosse possível. Mas esse prodígio não afeta apenas a medicina, afeta também a língua, afinal como podemos nos referir a essas crianças numa única palavra?

Sabemos que dois bebês que nascem ao mesmo tempo de uma mesma barriga materna são gêmeos; que três bebês em tal situação são trigêmeos; que quatro são quadrigêmeos, e assim por diante. Mas até agora a conta parava em cinco ou, no máximo, seis. Como nunca houve notícia de nove gêmeos, a palavra para denominar essa situação terá de ser criada. Minha sugestão é nonagêmeos. O raciocínio é o seguinte: se os prefixos (na realidade, semipalavras) tri- e quadri- provêm do latim, é de se esperar que o prefixo relativo a “nove” também tenha essa origem. Pois esse prefixo em latim é nona-, daí termos nonagêmeos. Não creio que essa palavra chegue a ser dicionarizada, uma vez que esse parto nônuplo talvez nunca mais se repita. Mas o exemplo serve para mostrar como a língua busca soluções para novos problemas, como denominar algo que até então não existia e passa de repente a existir.

Fica aí a minha sugestão de neologismo.

A origem da palavra “trabalho”

Hoje, Dia do Trabalho, o assunto não podia ser outro se não ele mesmo, o trabalho – ou melhor, a palavra trabalho. Se hoje se acredita que o trabalho dignifica o homem (isto é, o ser humano, o que inclui evidentemente as mulheres), a origem da palavra não é tão digna assim. Afinal, durante muito tempo, a ideia de trabalho esteve ligada às classes mais baixas da sociedade, ou seja, escravos, servos e operários. Tanto que trabalho se origina do latim tardio tripalium, um instrumento de tortura formado de três estacas de madeira cruzadas (tripalium quer dizer literalmente “três paus”), em que os escravos eram amarrados para ser açoitados.

Essa palavra latina também passou a outras línguas românicas como o espanhol trabajo, o catalão treball e o francês travail, sempre com o sentido de “trabalho”. Do francês, passou ao inglês travel, “viajar”, pois, segundo consta, as estradas inglesas na Idade Média eram tão ruins que viajar por elas era um verdadeiro suplício.

Menos estigmatizada que trabalho era a palavra lavor, do latim labor, tanto que os intelectuais não se referiam à sua atividade como um trabalho e sim como um lavor do espírito.

Labor e seu derivado laborare deram em português, além de lavor, o verbo lavrar (isto é, trabalhar a terra para semeá-la) e, deste, os substantivos lavra e lavrador, assim como lavoura (do latim laboria, derivado de labor). “Trabalho” em italiano é até hoje lavoro, derivado de lavorare, do latim laborare. Esse verbo também aparece em termos cultos como elaborar e colaborar, designativos de ações que implicam a ideia de trabalho: elaborar é criar do nada, e colaborar é trabalhar juntos.

O adjetivo “trabalhista” em espanhol é laboral e o partido trabalhista inglês é o Labour Party.

Mas também em outros idiomas a palavra para “trabalho” remete às classes baixas. Por exemplo, o alemão Arbeit provém de uma raiz indo-europeia *orbh, que significava “órfão” (por sinal, o português órfão vem do grego orphanós, que descende dessa raiz indo-europeia). Mas o que tem o órfão a ver com trabalho? É que, na Antiguidade e Idade Média, as crianças órfãs eram recolhidas pelas famílias na condição de serviçais, ou seja, não tinham os direitos que tem hoje uma criança adotada; os órfãos eram meros prestadores de serviços, em troca dos quais recebiam casa e comida, mas não tinham direito a herança. (E aqui vai mais uma curiosidade: a palavra alemã para “herdeiro” é Erbe, que também procede da raiz indo-europeia *orbh. É que o herdeiro só tinha acesso aos bens dos pais quando estes morressem, ou seja, quando se tornasse órfão.

Mas vou parando por aqui porque este texto está me dando trabalho, e hoje, Dia do Trabalho, é dia de descanso. Até a próxima!

A evolução do computês

No mundo da informática, tudo muda muito depressa – inclusive os nomes das coisas. A começar pela própria informática, palavra-valise formada pelo truncamento e justaposição de informação e automática, termo que os computólogos detestam, contrapondo-lhe o mais acadêmico computação. Aliás, computólogo é gíria, o certo mesmo é cientista da computação.

No entanto, até os anos 1970 o termo que designava essa tecnologia era cibernética, que hoje sobrevive apenas no prefixoide ciber (às vezes, cyber) de ciberespaço, cybercafé, etc. Naquela década, havia uma série famosa de TV chamada Cyborg, amálgama de cybernetic organism, misto de organismo biológico e máquina, que acabou aportuguesado para ciborgue. O herói da série era um militar que tivera partes de seu corpo substituídas por próteses de altíssima tecnologia, o que lhe garantia superpoderes, dentre os quais o olho biônico, que enxergava a longa distância. Como o órgão biônico era uma parte artificial do corpo, ganharam o apelido de “biônicos” também os senadores nomeados pelo Poder Executivo (portanto, não eleitos por voto direto) para garantir que o partido do governo militar tivesse maioria no Senado. É por essa razão, aliás, que até hoje cada estado brasileiro tem três senadores em vez de dois, como era originalmente.

Nessa mesma época, o computador era chamado de cérebro eletrônico. Há até uma canção de Gilberto Gil homenageando a então oitava maravilha do mundo moderno: “O cérebro eletrônico faz tudo / Faz quase tudo / Faz quase tudo / Mas ele é mudo / O cérebro eletrônico comanda / Manda e desmanda / Ele é quem manda / Mas ele não anda” (Gilberto Gil, Cérebro Eletrônico). Os computadores que inspiraram o poeta baiano eram monstrengos que ocupavam uma sala inteira e processavam dados por meio de fitas magnéticas; o input de dados era feito com cartões de papel perfurados. Aliás, é dessa época também a designação processamento de dados como sinônimo de computação. (Hoje se diz tecnologia da informação ou simplesmente TI.)

Quem ainda se lembra de que na década de 1990 o HD (ou disco rígido) dos microcomputadores era conhecido por winchester, alusão à famosa espingarda dos tempos do velho Oeste? E que os saudosos disquetes eram chamados de bolachas ou de floppy disks? E que um computador de mesa era um desktop (geralmente do modelo minitorre)?

Os computadores pessoais, fossem eles desktops ou laptops (também chamados de notebooks), eram conhecidos como micros, e havia quem ‘micrasse’ (isto é, digitasse) um texto. Nada estranho, afinal muitos ‘printavam’ (imprimiam) documentos e ‘inputavam’ dados! Isso mesmo, inputavam com n, do inglês input, pois imputar com m é termo jurídico. E quando se ‘inputava’ algo no micro, este ‘outputava’ (de output) um resultado. Exceto quando travava, situação em que era preciso dar um boot, ou simplesmente ‘rebootar’ a máquina.

Bons tempos!

País cristão ou país laico?

A recente polêmica sobre os decretos de fechamento temporário de templos religiosos, em que felizmente prevaleceu o bom senso, dá a dimensão do quão realmente laico é o estado brasileiro.

Como se sabe, a Proclamação da República, em 1889, marcou não só o fim da monarquia como também a separação entre Igreja Católica e estado brasileiro – até então, o catolicismo era a religião oficial do Brasil, com sérias implicações políticas em cujo mérito não vou entrar aqui. Só quero lembrar que o estado laico, isto é, que não privilegia nenhuma religião e dá ao cidadão a liberdade de consciência, credo e expressão, é uma conquista da modernidade que devemos aos filósofos iluministas do século XVIII.

Embora a ideia de que todos têm direito a escolher a crença religiosa (que implica o direito de não escolher nenhuma), como, de resto, o direito de escolher a tendência política, os governantes e parlamentares, o time de futebol preferido, etc., nos pareça óbvia hoje em dia, ela tem pouco mais de duzentos anos e só foi posta em prática efetivamente há pouco mais de cem anos. Por isso, a maioria dos países ocidentais, que vivem o chamado estado de direito, ainda não assimilaram totalmente esse princípio. O Brasil, que em matéria de estado de direito ainda está engatinhando, revela isso quando a legislação oficial prevê uma série de feriados religiosos católicos, mas não contempla as datas sagradas de outras religiões. Certa vez tive, por conta própria, de dispensar da aula uma aluna judia numa data comemorativa da sua religião que, obviamente, não estava prevista no calendário escolar da universidade.

Como, evidentemente, o calendário oficial não pode contemplar todas as datas sagradas de todas as religiões, até porque existem centenas de religiões no mundo e pelos menos várias dezenas delas no Brasil, o mais lógico numa república que se diz laica seria que apenas as datas cívicas fossem feriados. Muitos alegam que o Brasil é um país católico, daí comemorarmos até o dia da Padroeira do Brasil. Isso não é verdade: o Brasil é um país cujo povo é predominantemente, mas não totalmente católico. Portanto, católica é uma parcela da população, não o povo como um todo, menos ainda o estado.

Mas o que quero ressaltar aqui é o chauvinismo católico enrustido na nossa própria língua. Os defensores do politicamente correto, que vivem caçando as bruxas da intolerância racial, sexual, social, etc., ainda não atentaram para o fato de que expressões como “Nosso Senhor” ou “Nossa Senhora” embutem uma reverência a Jesus e a Maria que só cabe aos cristãos fervorosos. Num estado laico, o dia de Nossa Senhora Aparecida não deveria ser feriado pela razão acima exposta, bem como órgãos oficiais e meios de comunicação não vinculados à Igreja deveriam substituir “Nosso Senhor” e “Nossa Senhora” pelas denominações mais neutras “Jesus Cristo” e “Maria”, da mesma forma como deveriam evitar chamar o papa de Sua Santidade, a menos que dispensassem o mesmo tratamento (o que não costuma ocorrer) ao patriarca de Constantinopla, ao dalai-lama, e assim por diante. Aliás, tampouco tenho ouvido a mídia se referir à rainha da Inglaterra como “Sua Majestade” ou ao recém-falecido duque de Edimburgo como “Sua Alteza Real”.

Cotas raciais/sociais e educação de qualidade no Brasil

Uma questão que sempre provoca polêmica em nosso país é a política de cotas para negros, indígenas e estudantes pobres provenientes do ensino público em nossas universidades. De um lado, os que são contra essa política afirmam que ela fere o princípio da meritocracia, fazendo com que estudantes mais qualificados sejam preteridos em favor de outros menos preparados; de outro, os defensores da medida sustentam que ela é um importante instrumento de justiça social e que, não fosse ela, estudantes de baixa renda ou de determinadas etnias não teriam acesso à universidade.

Minha posição oscila entre ambas. Por um lado, acredito que o ingresso na universidade deveria pautar-se pelo mérito do candidato. As grandes universidades do mundo são grandes, não em tamanho, mas em importância, exatamente porque não só têm em seu corpo docente as mentes mais brilhantes, incluindo alguns ganhadores do prêmio Nobel, mas também porque selecionam os melhores candidatos para o seu corpo discente. Ou seja, produto bom é resultado de boa matéria-prima e bom processo de fabricação. Nesse sentido, uma universidade que faz assistencialismo social na seleção de seus alunos teria pouca relevância acadêmica.

Por outro lado, reconheço que, no momento, a política de cotas tem sido o mecanismo mais eficiente de inclusão social de que dispomos em termos da educação superior. Talvez isso rebaixe um pouco o nível da produção científica e mesmo o da qualidade dos profissionais que forma, mas sem dúvida eleva o nível social de seus egressos mais pobres.

No entanto, para mim o melhor dos mundos é aquele em que ricos e pobres, brancos e negros tenham igual acesso a um ensino básico de qualidade, o que significa melhorar substancialmente – radicalmente seria o termo ideal – a qualidade do ensino público, que atende à maioria da população de baixa renda no Brasil, aí incluída a maioria dos negros. Num cenário como esse, políticas de cotas seriam desnecessárias, e o mérito poderia ser o critério único de seleção.

Mas por que a educação pública brasileira não tem qualidade? Muitos dizem que falta investimento na área, portanto o problema seria financeiro. Todos sabemos que para a classe política brasileira em geral educação não é prioridade porque não dá voto. Mesmo assim, a verba constitucionalmente destinada à educação básica não é pequena – talvez ela seja, isso sim, mal gerida.

Fala-se muito dos baixos salários de professores. Não conheço a realidade em cada município brasileiro, mas tenho notícia de muitos professores do ensino público que se aposentam com proventos de 12, 13 mil reais. Ao mesmo tempo, se é verdade que há alguns colégios particulares que pagam muito bem aos docentes, os salários dos professores da maioria dos estabelecimentos privados chegam a ficar abaixo da média do que percebe um professor de escola pública de mesmo nível.

A meu ver, o grande problema do ensino público é justamente ser público. Não, não estou defendendo a privatização da educação básica, nada disso! O que quero dizer é que o modelo de gestão da esfera estatal é pouco eficiente. E explico por quê.

Em primeiro lugar, os gestores máximos da educação pública, isto é, ministros e secretários de educação, são, as mais das vezes, políticos, em geral cabos eleitorais dos governantes municipais, estaduais e federal, e não técnicos especialistas em educação. Assim, sua gestão está voltada à próxima eleição e não a um projeto educacional de longo prazo, uma política de estado que transcenda governos. Isso sem falar na corrupção, chaga que assola o estado brasileiro há séculos.

Em segundo lugar, considero que o próprio corpo docente das escolas públicas deixa muito a desejar. Embora haja professores muito bons tanto em formação acadêmica quanto em esforço e abnegação, a maior parte dos docentes tem formação ruim e pouca motivação. De fato, a admissão de professores por concurso público nos moldes em que ele é hoje realizado não permite aferir a real competência desses profissionais. O concurso público consiste em um teste de múltipla escolha, em grande parte voltado a questões de legislação, e uma redação. Não há análise de curriculum, prova didática, entrevista com recrutadores, nada! Não à toa, muitos dos aprovados nesses concursos provêm de péssimas faculdades, onde cursaram uma licenciatura de apenas três anos cheia de deficiências.

Sendo esse o contingente de profissionais à disposição do coordenador pedagógico, este fica impossibilitado de montar sua própria equipe, pois deve trabalhar com os professores que foram lotados em sua escola, sejam eles bons ou ruins. Esses professores, por sua vez, têm pouco estímulo ao crescimento profissional – em alguns casos, é preciso cursar um mestrado para subir apenas um ponto na carreira! Na verdade, a progressão se dá muito mais por antiguidade do que por mérito. Por outro lado, não há uma avaliação contínua de seu desempenho, o que significa que, qualquer que seja o grau de aproveitamento de seus alunos, os educadores não são nem premiados nem punidos. Sobretudo a estabilidade no emprego, a que todo servidor público concursado tem direito, leva à acomodação e à mediocridade.

Acredito num modelo em que coordenadores pedagógicos pudessem fazer eles próprios a seleção dos docentes que vão compor a sua equipe, tal como ocorre nas escolas privadas, e que esses coordenadores fossem cobrados pelos resultados que suas equipes apresentam – por exemplo, um sistema de pontos que resultasse na destinação de mais verba às escolas com melhores resultados, o que, por sinal, favoreceria uma salutar competição entre elas. E que essa cobrança não viesse apenas da Secretaria ou do Ministério da Educação, mas da própria comunidade usuária desse serviço público, isto é, pais e alunos. E esses coordenadores também seriam demissíveis, como, de resto, deveriam sê-lo todos os servidores públicos, com umas poucas exceções. Essa é, aliás, a proposta de reforma administrativa que está no Congresso Nacional à espera de votação.

Acredito também que é preciso restaurar a autoridade do professor, especialmente porque, na escola estatal, ele não está sujeito às pressões do mercado como ocorre no ensino privado, onde prevalece a lógica capitalista. Que as escolas tenham obrigatoriamente biblioteca, laboratórios, quadra poliesportiva, refeitório, psicólogo, médico e dentista. E que, de preferência, estejam situadas em local seguro, afastado de comunidades dominadas pelo crime. As crianças e jovens moradores desses locais disporiam de transporte escolar gratuito para chegar até a escola.

Enfim, sonho com uma educação pública de Primeiro Mundo, nos moldes do que ocorre hoje nos países desenvolvidos. Infelizmente, nossa realidade atual parece me mostrar que sou mesmo só um sonhador…

“Impeachment” é o mesmo que impedimento?

Nestes dias em que, diante de todas as ações e omissões de Bolsonaro que representam o contrário de como um governante deveria agir, já há mais de 60 pedidos de impeachment do Presidente da República sobre a mesa de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, alguns jornalistas têm empregado o termo vernáculo “impedimento” em substituição ao anglicismo impeachment, o que faz ressurgir a dúvida: impeachment e impedimento são a mesma coisa? Em outras palavras, é lícito traduzir o termo inglês pelo português? Mais ainda, é aconselhável fazer isso?

O impeachment é a figura jurídica surgida no mundo anglo-saxônico que permite ao parlamento cassar o mandato do chefe do Executivo diante de acusações comprovadas de improbidade no exercício do cargo. O substantivo inglês impeachment, assim como o verbo impeach, provêm do antigo francês empêcher, “impedir”, e empêchement, “impedimento”, por sua vez originários do baixo latim impedicare, derivado de pedica, “ferros que se prendem aos pés do prisioneiro para impedir seu movimento”. Daí talvez a tendência de traduzir impeachment como “impedimento”. No entanto, o próprio inglês distingue impeach, “fazer acusações contra, acusar de improbidade no exercício de mandato”, de impede, “impedir, obstruir, impossibilitar”. E a Constituição brasileira prevê o impedimento, temporário ou permanente, de um mandatário como justificativa para que seu suplente ocupe o cargo. Ou seja, uma doença ou viagem ao Exterior são motivos de impedimento do presidente, quando então o vice assume o posto. Esses impedimentos por razões corriqueiras nada têm a ver com o impeachment, que só se aplica em caso de acusação grave, que desautorize moralmente o presidente de permanecer no cargo. Nesse sentido, seria melhor traduzir impeachment por “cassação” do que por “impedimento”.

Logo, a tradução de impeachment por “impedimento” é inadequada, embora favorecida por uma certa semelhança sonora e parentesco etimológico. Evidentemente, o presidente cassado por impeachment fica definitivamente impedido de exercer seu mandato, mas, se o impeachment é um caso particular de impedimento, a recíproca não é verdadeira: nem todo impedimento se dá por impeachment.

A Butanvac, as telenovelas e os casais-valise

Foi anunciada na semana passada uma vacina contra a covid-19 cem por cento nacional – embora a tecnologia inicial seja americana – a ser fabricada pelo Instituto Butantan e batizada de Butanvac. A escolha do nome é uma clara junção de “Butan” (de Butantan) e “vac” (de vacina). Esse processo de formação de nomes de produtos e mesmo de palavras comuns da língua juntando pedaços de outras palavras é bastante frequente, especialmente na indústria farmacêutica. Aliás, várias das vacinas anticovid têm nomes formados assim: Coronavac = coronavirus + vaccine, Novavax = nova + vaccine, e assim por diante.

Esse processo de formação de palavras é chamado tecnicamente de fractocomposição, e seu resultado é o fractocomposto ou palavra-valise. Há muitos exemplos em português:

  • ataca|do| + |va|rejo = atacarejo;
  • auto|móvel| + peça = autopeça;
  • brasi|leiro| + |para|guaio = brasiguaio;
  • cant|ora| + atriz = cantatriz;
  • mini|atura| + saia = minissaia;
  • portu|guês| + |espa|nhol = portunhol;
  • repro|dução| + |foto|grafia = reprografia;
  • show + |co|mício = showmício.

A fractocomposição é um processo relativamente moderno de formação de palavras, já que a maioria delas tem menos de 100 anos. Um dos primeiros campos a adotar esse processo foi a química, cujos compostos são formados a partir de fractomorfemas como met- (do grego méthy, “vinho”), et- (de “éter”), prop- (de “propiônico”, nome de um ácido), but- (do latim butyrum, “manteiga”), etc. Depois veio a informática (de “informação” + “automática”) com blog (de web + log), flog (de “foto” + blog), Instagram (de instant, “instantâneo” + photogram, “fotograma”), e muitos mais.

Os fãs de telenovelas também costumam usar esse processo, que eles chamam de “shippar”. Trata-se de juntar por meio de truncamento seguido de aglutinação os nomes de dois personagens que eles desejam que terminem juntos, ou seja, que formem par romântico. Assim, já tivemos laurique (Laura e Caíque), perina (Pedro e Karina), peju (Pedro e Júlia), shirlipe (Shirlei e Filipe), e muitos outros. Às vezes, também os nomes de celebridades são “shippados”, como aconteceu com o casal Dillzé (e também Guizill) no tempo em que os atores Nathalia Dill e Sérgio Guizé namoravam.

Ou seja, assim como ocorre com medicamentos, é muito comum que nomes de personagens de telenovela se transformem em palavras-valise. O que às vezes vem a calhar, já que certos personagens são realmente muito “malas”.

A norma culta do futuro

Que a língua ela evolui todo mundo sabe. E que a gramática normativa, mais cedo ou mais tarde, ela acaba mudando também pra acompanhá a evolução da língua todo mundo também já sabe. Então por que que a gente não começa desde já a escrevê na norma culta do futuro, aquela que vai sê usada daqui uns cem, duzentos ano?

Cê pode achá esse meu exercício de futurologia meio esquisito, mas eu aposto de que é assim que as gerações futura vão redigi textos culto. Não vai mais tê tempo futuro sintético, só o analítico, não vai mais tê o verbo “haver” e talvez nem tenha mais concordância verbal e nominal, ou seja, as palavra não vai mais precisá sê flexionada no singular e no plural, a não sê a primeira palavra da oração.

Em compensação, vai tê concordância de numeral (duas milhões de vacina), e os infinitivos pessoal vão concordarem sempre com os sujeito. Os verbo vão sê facílimo de conjugá: eu sô, cê é, ele é, a gente é, cês são (ou é), eles são (ou é). Cês viram que moleza vai sê?

Os sujeito eles vão sê sempre duplo, que nem nessa mesma frase. Aliás, os demonstrativo “este”, “esta”, “estes”, “estas” eles vão sê puro arcaísmo. Ninguém mais vai escrevê como o Machado de Assis, o José de Alencar, ou mesmo o Jorge Amado e a Raquel de Queiroz. Escrevê que nem o Rui Barbosa, nem pensá!

Cê deve tá achando esse meu artigo bem provocativo, e é essa mesmo a intenção dele. Afinal, a língua da gente, isto é, a língua portuguesa do Brasil, que até lá ela já vai sê língua brasileira, divorciada do idioma de Portugal, já tá hoje mesmo dando sinais de como ela vai sê no futuro, e não só na fala, mas também na escrita. Afinal, o Brasil ele é e sempre vai sê o país do futuro, como disse certa vez o Stefan Zweig, e por isso a língua dele também tem que caminhá sempre pro futuro e não se apegá no passado. Pra onde a língua tá indo, e em que lugar a gente vai chegá eu não sei, mas eu preciso falá pra vocês de que não adianta nada nadá contra a corrente, porque o trem da história e da evolução passa e atropela quem se pôr na frente dele.

A minha hipótese é de que um dia todes vão falá e escrevê assim. Pelo menos tem vários linguista atualmente que eles pensam que nem eu. Pra gente escrevê bem e com correção textos culto e formal, a gente vai tê que aprendê a dominá a norma-padrão e, consequentemente, a gramática normativa. Que eu acho que vai sê mais ou menos assim como eu tô escrevendo nesse momento.

Eu e você a gente pode até não concordá com isso hoje em dia, mas o que que se pode fazê? A língua ela muda inexoravelmente (será que essa palavra ela ainda vai existi?). E quem que vai sabê dizê se daqui um ou dois século não vai sê essa a forma mais correta e elegante de se expressá? Até porque, se a norma culta for assim, é porque a norma coloquial vai sê ainda mais futurista. Cês não acha?

A origem da palavra “feriado”

Na tentativa desesperada de frear a disseminação da covid-19, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, antecipou para o período de 26 de março a 4 de abril diversos feriados deste e do próximo ano. Alguns outros prefeitos estão fazendo ou pretendem fazer o mesmo. Ou seja, teremos um feriadão prolongado – e bem prolongado –, mas nada de viajar à praia ou ao campo nem muito menos fazer festas, hein!

Por falar em feriado e festa, republico aqui uma postagem de tempos atrás em que eu explicava a origem dessas palavras.

Primeiramente, por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, e, no caso presente, baixar os índices de contágio, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. “Feriado” deriva de “féria”, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações “segunda-feira”, “terça-feira”, etc., em que “feira”, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra “férias” seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de “féria”, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra “féria”, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra “feira” vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, “feira” passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras “teologia” e “ateu”, dentre outras.

Portanto, “feira”, “féria”, “férias”, “feriado”, festa”, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, fiquem em casa no feriadão e não façam festa para que a sua vida e a dos que vocês amam não tenham um final nefasto.

A intérprete da pronúncia

Esta semana Elis Regina teria completado 76 anos de vida. A Pimentinha, como era chamada, foi indubitavelmente uma das maiores intérpretes de nossa música popular, não só por seu grande talento e estilo inconfundível, mas também por ter lançado ao estrelado alguns dos maiores compositores da MPB dos anos 1960 e ’70, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, João Bosco e tantos outros.

Elis dava às músicas interpretações definitivas, tanto que alguns autores admitiam compor para ela, mesmo que a canção acabasse gravada por outro intérprete.

Elis brincava com a voz, cantava rindo, chorando, resmungando, imitando vozes e sotaques, da impostação à la Ângela Maria ao caipirês de Renato Teixeira e ao bexiguês de Adoniran Barbosa. Da dicção afetada das socialites ao timbre rouco de Louis Armstrong, tudo era pretexto para um malabarismo melódico-rítmico-fonético. Elis explorou como poucos as potencialidades da voz e fala humanas ao cantar. Mas, além das vozes e sotaques que simulava, tinha sua própria pronúncia, que evoluiu ao longo da carreira, confirmando o traço camaleônico de sua personalidade.

É difícil, se não impossível, saber o quanto de intencionalidade havia nas pronúncias que Elis adotou, o quanto esse processo era consciente e deliberado.

Sabe-se que há pessoas mais propensas do que outras a incorporar hábitos linguísticos do lugar em que passam a viver. Embora a idade seja um fator importante na sedimentação desses hábitos (quanto mais jovem alguém muda de cidade ou país, maior sua facilidade em incorporar o novo padrão sem deixar vestígios do antigo), algumas pessoas imitam com perfeição a fala alheia, enquanto outras são capazes de viver décadas numa nova terra sem jamais perder as características de sua fala original.

O fato é que, se num primeiro momento, Elis simplesmente adotou a pronúncia carioca, talvez para se inserir melhor num mercado profissional em que o sotaque sulista não seria bem aceito, após algum tempo desenvolveu uma pronúncia própria e única, um sotaque “elisiano”, se é que se pode assim chamá-lo.

Nossa querida Pimentinha constitui um riquíssimo caso de estudo, não só para musicólogos e críticos, mas também para linguistas.

Luso e nordestino numa só voz
As gravações de Elis entre 1975 e 1979 revelam características fonéticas um pouco diferentes do período anterior: um “r” cada vez mais gutural, incomum até no Rio de Janeiro; um “l” mais velarizado (como na pronúncia lusitana) e, vez por outra, a abertura das vogais pré-tônicas à maneira nordestina; momentos em que a voz soa mais anasalada, em outros menos; e assim por diante.
O sotaque carioca da gaúcha
Elis Regina Carvalho Costa era natural de Porto Alegre, portanto imagina-se que, até o momento de abraçar a carreira musical, falasse como uma típica cidadã gaúcha. No entanto, ao lançar seu primeiro disco, no Rio de Janeiro, em 1961, ela já esboça uma pronúncia carioca que, por conta da bossa-nova, começava a se tornar hegemônica na MPB, substituindo a articulação (e a impostação vocal) operística que predominara nas décadas de 1930 e ’40.
O falar paulista de Elis
Elis fixou residência em São Paulo a partir de 1964, e nessa cidade permaneceu até sua morte, em 1982. Seu “s” carioca (isto é, chiado em fim de sílaba) permaneceu inalterado até meados dos anos 70, quando, aos poucos, foi substituído pelo impropriamente denominado “s” paulista (não chiado). Pessoas não versadas em fonética ou dialetologia costumam referir-se a certos sons da fala brasileira por seus modelos prototípicos. Assim, o chamado “r” carioca (velar ou uvular, tecnicamente falando) não é próprio só do Rio, é padrão na maior parte do país. Da mesma forma, o “r” caipira deixou há muito de ser só interiorano, já que é usado por nativos de cidades como São Paulo e Curitiba.
As três fases do s “elisiano”
Especificamente em relação ao “s” final de sílaba, pode-se reconhecer em Elis três fases: 1) a primeira, em que o fonema soa tal como pronunciado no Rio (por exemplo, “casas” pronunciado como “cásach” ou “cásaich”). 2) A seguir, uma pronúncia mais próxima do brasileiro padrão (“cásaç”). 3) Finalmente, um misto dos dois: “cásaiç”. Esta pronúncia a levou a articular “céus” como “céuis” em determinada canção.

Esfia de muçarela?

Muitas palavras estrangeiras acabam cedo ou tarde sendo aportuguesadas. Num primeiro momento, mantém-se a grafia importada e tenta-se tanto quanto possível preservar também a pronúncia original. O que, por sinal, é bem difícil. Pronunciar, ainda que com alguma adaptação, sons estranhos aos nossos hábitos articulatórios gera dois tipos de embaraço: em primeiro lugar, é preciso parar no meio da frase para mudar de “registro” fonético (isto é, a programação motora dos músculos fonadores, há muitos anos consolidada) no momento de articular a palavra alienígena; em segundo lugar, tal pronúncia frequentemente soa afetada e causa estranheza.

Depois que a pronúncia da palavra já se aclimatou em nosso sistema fonológico, chega a hora de adaptar a grafia a essa pronúncia. Foi assim que football (pronunciado “fútbol”) passou, primeiro foneticamente, depois graficamente, a futebol.

Mas há palavras cuja versão nacionalizada simplesmente não pega, ou porque a forma estrangeira está demasiado consagrada, ou talvez porque o aportuguesamento lhe dê um aspecto “vulgar”. É o caso de garçom e acordeom, que, malgrado o m final em lugar do n original, mantêm incólume a terminação francesa. As versões portuguesas garção e acordeão, embora registradas nos dicionários e propugnadas por gramáticos, quase não se ouvem nas ruas.

Às vezes, a grafia incorreta de uma palavra se torna tão disseminada que a certa é que parece errada. Quem sabe por isso a maioria dos restaurantes self-service venda comida a kilo e não a quilo. Por essa mesma razão, poucos sabem que a grafia correta de mussarela é muçarela – assim mesmo, com cê-cedilha e tudo! Há também mozarela, mais aderente ao étimo italiano mozzarella, mas quem grafa ou pronuncia assim?

Temos ainda a esfia, forma preferida pelos gramáticos a esfirra e sobretudo a esfiha, que nem é compatível com a nossa ortografia. Não obstante, é esta última forma a única que se lê nos anúncios das pastelarias e restaurantes de comida árabe. Esfia tem, aliás, o inconveniente de omitir um fonema (rr ou h aspirado) que todos pronunciam. Portanto, soa profundamente artificial.

Como o uso é o senhor absoluto da língua, é de se questionar se a grafia não deveria pautar-se justamente por ele, especialmente em casos consagrados como esses, em que o certo parece errado. É o que fazem outros idiomas, cujas regras ortográficas são bem menos rígidas que as nossas. Afinal, que comerciante teria coragem de anunciar esfias de muçarela? Grafado assim, esse prato fica até sem gosto!

A graça da palavra “graça”

O que há de comum entre as palavras graça, grato, gratidão, agradecer, agradar, desgraça, desgraçado, engraçado, grátis, gratificar, congratular, e destas com favor, mercê e obrigado? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical graç‑, grat‑ ou grad‑, que remete à raiz latina grat‑, de gratus (grato, agradecido). Portanto, o latim gratia, qualidade de gratus, e que deu o nosso graça, era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra favor, da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário. (Será que hoje essa reciprocidade ainda existe?) E assim temos a explicação de por que dizemos “obrigado” ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, “de graça” ou “grátis”. Por isso, em espanhol se diz gracias, em italiano grazie e em francês merci (que quer dizer “mercê”, ou seja, “favor”) em lugar do nosso obrigado. Por isso também, a Virgem Maria é “cheia de graça”, de generosidade. E a exclamação “Graças a Deus!” é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, agradar significa “tornar grato, receptivo, simpático”. E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, “engraçado”. Daí que graça também passou a significar “alegria, jovialidade” (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, “hilaridade, comédia”. Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o – financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça. Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um desgraçado. Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas “infeliz”, assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Finalmente, favor, que não tem relação etimológica com graça, mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, favorito, que quer dizer “favorecido”. Assim, quando dizemos que num concurso público houve favorecimento a um dos candidatos, o que estamos dizendo é que o vencedor era favorito desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país.

As muitas faces (linguísticas) da mulher

No Dia Internacional da Mulher, vale a pena mergulharmos nos significados primitivos – isto é, na etimologia – da palavra “mulher” em várias línguas.

O português mulher, assim como o espanhol mujer, provém do latim mulier, “mulher em geral”, mas, sobretudo “mulher casada, esposa” (como no italiano moglie, “esposa”), o que significa que mulher de verdade é a casada, o que faz sentido numa sociedade como a romana (e por séculos também a nossa) em que o destino da mulher jovem e virgem (virgo em latim) era casar-se; a mulher adulta que não fosse casada era alvo de desprezo, pois ou era prostituta ou solteirona (e, neste último caso, nas sociedades católicas ia para o convento).

O francês femme remonta ao latim fēmina, “fêmea”, que se opunha a mās, “macho”. Portanto, a mulher era vista como a fêmea do homem (e não o homem como o macho da mulher), revelando uma visão androcêntrica – ou falocêntrica, como querem as feministas – do mundo; numa palavra, uma visão machista.

Como curiosidade, fēmina remete à raiz latina fē-, que também aparece em fecundar e significa “parir”. Ou seja, a qualidade distintiva da fêmea em geral e da mulher em particular é o dom de dar à luz, de procriar.

Em inglês, woman também remete à ideia de fêmea, já que provém de wīfman, que no inglês antigo era a composição de wīf, “fêmea” (que deu o inglês moderno wife, “esposa”), e man, “homem”. Portanto, wīfman era a fêmea do homem.

O italiano donna provém do latim domina, “senhora, mulher casada, dona da casa” (e, posteriormente, “dona de casa”), e tem, portanto, a mesma etimologia que o português dona. Logo, a mulher confunde-se com a esposa do dominus (“dono da casa, chefe da família”).

A mesma visão de mundo reflete-se no alemão Frau, igualmente “mulher” e “senhora”. A palavra original para “mulher”, Weib (cognata do inglês wife), vem caindo em desuso (cerca de 8.250.000 ocorrências no Google contra cerca de 251.000.000 de Frau).

Uma observação curiosa: em alemão, Frau é palavra feminina, enquanto Weib é neutra. É errado associar gênero gramatical com sexo biológico, mas esse dado não deixa de chamar a atenção.

Nas línguas escandinavas, temos kvinna (sueco), kvinne (norueguês) e kvinde (dinamarquês), todas cognatas do inglês queen, “rainha”. Não é que os escandinavos considerem toda mulher como uma rainha (o que até seria justo): na verdade, o étimo de todos esses termos queria dizer apenas “mulher”; o inglês é que especializou o termo como “a esposa do rei”.

Por sinal, a raiz indo-europeia de queen, kvinna, etc., é a mesma do grego gyné, “mulher”, que aparece em ginecologia, por exemplo.

Qualquer que seja a etimologia do vocábulo, seja “mulher”, “fêmea”, “senhora”, “rainha”, meus parabéns a todas vocês.

O que significa “déficit” e “superávit”?

Volta e meia nos deparamos nos noticiários com expressões como “déficit fiscal” ou “superávit primário”, dentre outros termos do economês. Mas o que significam essas expressões?

“Déficit” vem do latim deficit, terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo deficere, resultante de de- + facere, que significa “faltar”. Portanto, deficit quer dizer “falta, está faltando”.

Já “superávit” veio do latim superavit, terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo superare, que deu em português “superar” por via culta e “sobrar” por herança direta do latim. Portanto, superavit significa “sobrou”.

Esses termos nasceram com os antigos comerciantes, que, ao fechar o balanço diário de seus negócios, anotavam superavit no livro contábil quando sobrava dinheiro; quando terminavam o dia no prejuízo, escreviam deficit.

Essas palavras passaram ao uso dos contabilistas e, em seguida, dos economistas como termos técnicos, por isso foram mantidos em latim até hoje. O português apenas acrescentou o acento agudo para aportuguesar a grafia.

Uma curiosidade: em Portugal, “déficit” se diz “défice”, o que é um aportuguesamento um pouco mais avançado.

Os impasses da etimologia: o caso de “fidalgo”

Um dos grandes entraves à pesquisa etimológica de cunho científico é a larga tradição que temos no exercício de uma etimologia “achista”, feita por gramáticos e dicionaristas que pouco ou nada sabem da verdadeira ciência etimológica. Esses autores costumam dar explicações simplistas, remontando todas as palavras ao latim, não importa se foram herdadas ou nos chegaram por via culta, não importa se vieram diretamente do latim ou por intermédio de outra língua. Além disso, substituem frequentemente a etimologia propriamente dita pela decomposição morfológica da palavra, como se todos os vocábulos portugueses tivessem nascido aqui mesmo, no português, por composição ou derivação de outras palavras igualmente portuguesas ou, no máximo, a partir de radicais greco-latinos.

Um exemplo desse desatino etimológico é a palavra “fidalgo”. Basta consultar qualquer dicionário de português que traga informações etimológicas e lá está: “fidalgo”, contração de “filho de algo”. Essa explicação aparece, por exemplo, em Antenor Nascentes (p. 255). Isso nos faz crer que em algum momento da história do português, a expressão “filho de algo” sofreu sucessivas síncopes, nessa sequência: filho de algo > filho d’algo > filh’ d’algo > fi’ d’algo > fidalgo. Tudo parece muito lógico à luz da própria história fonética do português, cheia de síncopes de vogais e consoantes. (Síncope é o desaparecimento de um fonema em meio de palavra.) Além disso, “algo” significava “riqueza” no português medieval, o que parece fazer de “filho d’algo” uma expressão tipicamente portuguesa.

Só que há um complicador nessa história: o espanhol registra hijo dalgo no poema épico El Cid, do século XI, anterior portanto aos primeiros registros em português. E o dicionário etimológico espanhol Corominas, um dos mais completos do mundo, registra fidalgus num documento de cerca de 1197, o Fuero de Castroverde (p. 178).

Será então que o português e o espanhol cunharam ambos a mesma expressão “filho de algo” (isto é, filho de família rica e nobre) independentemente um do outro? E, mais surpreendente ainda, ambos sincoparam e aglutinaram suas respectivas expressões, chegando aos resultados idênticos fidalgo e hidalgo? Qualquer pessoa medianamente inteligente veria que tal explicação é inverossímil demais para se sustentar.

Na verdade, fidalgo não vem de filho d’algo, mas sim do espanhol hidalgo. Ou seja, foi em espanhol que a locução hijo de algo surgiu (o próprio significado de algo como “riqueza, nobreza” nasceu no espanhol e foi importado pelo português, o que pode ser provado pela datação das ocorrências dessas acepções em cada uma das línguas).

Pois bem, algo (no sentido de “riqueza”), hijo de algo, hijo dalgo e hidalgo são todas palavras espanholas emprestadas ao português com a respectiva tradução de hijo por “filho”. O próprio Corominas, muito mais detalhado e embasado que os dicionários etimológicos do português, menciona esse fato.

Esse é apenas um exemplo de por que é tão importante e urgente elaborarmos um dicionário etimológico da língua portuguesa calcado em premissas e métodos científicos, que busque o étimo e a origem das palavras de nossa língua por meio de investigação empírica e não através da mera consulta a outras obras, igualmente equivocadas, ou do achismo de seus autores. É isso que dá a nós, pesquisadores do NEHiLP-USP – Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (https://nehilp.prp.usp.br) –, a convicção de que estávamos no caminho certo e realizando um trabalho importantíssimo, que é a elaboração do DELPo – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Infelizmente, como mencionei em meu post anterior, semana retrasada, esse projeto está parado, sem data para voltar. Pior ainda, sua página no site do NEHiLP, na qual já era possível fazer algumas consultas, está fora do ar. Assim caminha a pesquisa científica no Brasil.

Como os dicionários etimológicos falham

Dicionários etimológicos do português explicam o substantivo concreto mancebo, “rapaz, moço” e também “amásio”, como procedente do latim vulgar mancipiu (latim clássico mancipium), bem como afirmam que o verbo amancebar-se é derivado de mancebo. Mas essa explicação é pouco convincente por duas razões. Em primeiro lugar, mancipium é substantivo abstrato, derivado de manceps, mancipis, “comprador, fiador” (literalmente, aquele que toma em suas mãos: lat. manus, “mão” e capere, “tomar”). Mancipium significa, portanto, “qualidade de quem é comprador ou fiador”, isto é, “compra, arremate, fiança”. Em segundo lugar, não há nenhuma ocorrência, mesmo em latim vulgar, da palavra mancipiu como substantivo concreto, designando pessoa.

O que ocorreu de fato é que mancebo derivou de amancebar, e não o contrário. Esse verbo amancebar, que os mesmos dicionários etimológicos dão como proveniente de mancebo por formação parassintética (isto é, acréscimo do prefixo a‑ e do sufixo de infinitivo ‑ar), na verdade, provém por evolução fonética regular do latim emancipare, “emancipar, libertar, deixar de tutelar”, que significava, dentre outras coisas, “conceder a um filho poderes civis quando este completasse a maioridade”. Portanto, manceps e emancipatus queriam dizer “maior de idade”. (No direito civil brasileiro temos o mesmo termo emancipado para designar o indivíduo que atingiu a maioridade ou a quem, sendo menor, a justiça concedeu as prerrogativas de cidadão adulto.)

Em resumo, manceps deu emancipare, que passou por herança ao português amancebar (emancipar é latinismo importado bem mais tarde), o qual, por sua vez, originou mancebo por derivação regressiva. Este, sim, produziu o derivado mancebia, “estado ou condição de mancebo”, isto é, “concubinato”. Ou seja, o que mais provavelmente se deu foi o contrário do que alguns etimólogos afirmam.

Esse exemplo mostra que os (poucos) dicionários etimológicos do português nem sempre são muito confiáveis, principalmente em se tratando das datações de primeira ocorrência do vocábulo, que, em alguns casos, pecam por coisa de vários séculos. Mas também por étimos “chutados”, como o do exemplo citado aqui.

É por isso que o NEHiLP (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa), ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo, no qual atuo como pesquisador, decidiu anos atrás criar o Projeto DELPo – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Um dicionário totalmente on line, atualizável a todo momento, elaborado com o máximo rigor científico e as ferramentas tecnológicas mais modernas, algumas das quais desenvolvidas por nós mesmos, e de acesso totalmente livre, sem custo algum. Um dicionário que pretende sanar todas as falhas dos atuais dicionários etimológicos e dar ao nosso idioma uma obra de qualidade comparável aos melhores dicionários etimológicos do mundo: os de língua inglesa, francesa, espanhola, italiana e alemã.

Infelizmente, esse projeto está há meses parado por falta de verba, situação agravada ainda pela pandemia de covid-19. E assim caminha a pesquisa científica no Brasil. Se falta dinheiro até para pesquisas sobre vacinas que podem salvar milhares de vidas, que dizer de pesquisas sobre a origem das palavras?

Pequeno Dicionário Tabi-Português Português-Tabi

Quinta-feira passada, publiquei no meu canal do YouTube uma entrevista que fiz com um jovem paquistanês, agora naturalizado brasileiro, que aqui chegou em 2015 sem saber falar uma palavra de português e que, tendo morado na minha casa de 2016 até 2019, me permitiu acompanhar o seu processo de aprendizagem do nosso idioma, ocorrido basicamente no âmbito da minha família, já que os contatos externos que ele tinha, pelo menos nos primeiros meses, eram com conterrâneos seus radicados no Brasil.

Aftab, cujo apelido é Tabi, e que hoje goza o status extraoficial de meu afilhado, veio ao Brasil a trabalho, trazido por uma indústria farmacêutica indiana exatamente no ano em que eclodiu nossa pior crise econômica de todos os tempos – a famosa crise financeira da Dilma e do Mantega. Como resultado, Tabi se viu desempregado seis meses depois, quando a farmacêutica indiana resolveu encerrar suas atividades no Brasil. Ele, que até então morava num hotel pago pela empresa, viu-se obrigado a ir viver numa república de imigrantes do Oriente Médio, onde só se falava árabe, hindi, urdu e punjabi.

Mas qual a relação desse rapaz comigo? É que ele é irmão de uma ex-colega de colégio da minha esposa, uma paquistanesa que hoje vive na Alemanha, mas cuja família inteira morava no Brasil vinte e tantos anos atrás. Aliás, o próprio Tabi é nascido em São Paulo, embora tenha sido registrado como paquistanês, de modo que sua recente naturalização não deixou de ser a correção de um equívoco do destino.

O fato é que essa ex-colega pediu à minha esposa que recebesse Tabi no Brasil, já que ele não conhecia ninguém aqui. Mais do que recepcioná-lo, ela acabou tornando-se uma assessora desse meu agora afilhado, acompanhando-o a cartórios, consulado, polícia federal e demais instâncias burocráticas que um imigrante precisa visitar.

Quando o dinheiro acabou e ele não pôde mais pagar pela república, nos vimos na obrigação moral e já também afetiva de acolhê-lo em nossa casa. E foi nessa imersão num lar onde só se fala português que ele foi pouco a pouco adquirindo a nova língua.

Não sou psicolinguista nem especialista em aquisição de segunda  língua, portanto o processo que testemunhei foi muito mais uma vivência empírica do que a testagem e confirmação de conhecimentos teóricos que não tenho.

Mas pude perceber alguns fatos interessantes. Primeiro, que ele sofria uma certa influência da língua inglesa, um dos idiomas oficiais de seu país. Por isso, às vezes algum termo inglês pipocava em meio à sua fala. Depois vim a saber que o uso de palavras inglesas é prática comum no urdu, língua pátria do Paquistão. Outro fato curioso é que ele associava palavras novas a outras já conhecidas e por vezes confundia termos parecidos, trocando um pelo outro.

Mas o aspecto mais hilário e peculiar de seu esforço para falar português era a invenção de termos, o que me fez começar a anotá-los e elaborar um pequeno dicionário Tabi-português português-Tabi. Uma breve amostra desse “dicionário” (na verdade, um glossário) é o que eu lhes dou a seguir. Divirtam-se! Ah, e não deixem de assistir ao vídeo, hein!

  • acender → acesar;
  • açúcar mascavo → açúcar mascado (que nojo!);
  • água sanitária → água cemitéria;
  • alcachofra → cachorra;
  • alface → alfaço;
  • alumínio → alimúnio;
  • antidepressivo → depreciativo;
  • anti-impacto → antipático;
  • antirraiva → antirruiva;
  • Aracaju → Acaraju;
  • Armarinhos Fernando (uma rede de lojas em São Paulo) → Armênios Fernânios;
  • arroz com passas → arroz com Páscoa;
  • arroz parboilizado → arroz parabolizado;
  • até → atita;
  • babão → babaqueiro;
  • barulho → balu, barulu;
  • batata palha → batata palhada;
  • Bauducco (marca de panetone) → bugudutucu;
  • bisteca → biscuíta;
  • bolacha → borracha;
  • brócolis → Brooklins;
  • camada → camisinha;
  • cara de pau → cara de pão;
  • carambola → caramba rola;
  • chorão → chorento;
  • churrascaria → churrasqueira;
  • cilindrada → celindário;
  • coco → cocô;
  • colorau → coral;
  • configurar → confurigar;
  • costurar → escuturar;
  • criativo → crioso;
  • dívida → dúvida;
  • dúvida → dívida;
  • engenheiro → engenérico;
  • entupir → entupidar;
  • esmola → mola;
  • esteira → estrela;
  • estuprar → estupidar;
  • esvaziar → desvazar;
  • fazendeiro → fazendador;
  • feirante → barraqueiro;
  • f*dido → fudado;
  • folheto → foelho;
  • freguesia → fressiguesa;
  • fumaça → fumasca;
  • funerária, funilaria → funelária;
  • golpista → golpeiro;
  • grana → grama;
  • inventivo → inventoso;
  • Itubaína (marca de refrigerante) → Tabuína;
  • jabuticaba → jabaticuíba;
  • Jardim Cambará (bairro de São Paulo) → Jardim Caramba;
  • Jardim João XIII (outro bairro de São Paulo) → Jardim João Xixi;
  • leilão → lilá;
  • leite fermentado → leite Fernando;
  • leite Ninho → leite Nino;
  • lixa → lixeira;
  • lua → luva;
  • madrasta → madastrada;
  • máquina → maquina (provável influência do inglês machine);
  • maracujá → macurujá;
  • margarina → margarita;
  • massa → maçã;
  • mijão → xixeiro;
  • noz sem casca → noz sem casaca;
  • oftalmo → ofotônomo;
  • Otacílio Tomanik (avenida de São Paulo) → Tomacilo;
  • pão de forma → pão de forno;
  • papel higiênico → papel ingenético;
  • paralelepípedo → parelepíparo;
  • patinador → patineiro;
  • pepino → pepinho;
  • pesquisa → pesquisita;
  • pizza margherita → pizza de margarina;
  • polipropileno → popireoplano;
  • por exemplo → for exemplo (influência do inglês);
  • preguiça → pirissiguese;
  • presunto Seara → presunto Ceará;
  • psicopata → pescopata;
  • quiabo → tiabo;
  • quilômetro → quilomitro (influência do inglês);
  • recusar → cruzar, recruzar;
  • Rivotril (calmante) → Rotivil;
  • salada de frutas → fruta de salada;
  • sambódromo → sabadôrnomo;
  • serralheiro → ferralheiro;
  • sobremesa → sobresma;
  • sortudo → sorteado;
  • Sukita (refrigerante) → sicuta;
  • tampa → tâmpada (provável influência de lâmpada);
  • tapete → capete (influência do inglês carpet);
  • taxista → taxeza;
  • temperatura → tempura;
  • terno → térmica;
  • tigela → tijolo;
  • tuberculose → tuberculatose;
  • uva passa → uva páscoa, uva pasta;
  • vácuo → vacume (influência do inglês vacuum);
  • varal → verão, varão.

Entre o Céu e o Inferno

Praticamente todas as religiões e tradições míticas consideram a existência de um plano superior à vida terrena, habitado pelos deuses e eventualmente pelas almas bondosas, e um plano inferior, dominado por divindades maléficas, para onde vão as almas dos impuros, dos iníquos e também as dos adeptos de outras religiões.

Essa visão de que há três níveis de existência, da qual os vivos ocupam o intermediário, é uma constante nas mitologias e demais narrativas fundadoras da cultura. Em termos da nossa tradição judaico-cristã, há uma Terra, um Céu e um Inferno (o Cristianismo considera uma quarta instância, o Purgatório).

A palavra “céu” proveio do latim caelum ou coelum, por sua vez descentente de um hipotético indo-europeu *kailom, gênero neutro do adjetivo *kailos, “íntegro, intacto, puro” e, por extensão, “sagrado”. Essa mesma raiz indo-europeia deu o germânico *hailaz, e daí o inglês whole (inteiro) e o alemão heil (são, sadio). Um derivado germânico *hailigaz gerou dentre outras línguas o inglês holy e o alemão heilig, ambos significando “santo, sagrado”. E o verbo germânico *hailjan, “tornar íntegro, tornar inteiro” produziu o inglês heal e o alemão heilen, ambos com o sentido de “curar”. Ou seja, curar uma pessoa é torná-la íntegra novamente (pois a doença é uma forma de desintegração do organismo). E sagrado é aquilo que está intacto, afinal muitas culturas associam o tocar ao conspurcar, à profanação. Essa é, por sinal, a raiz da metáfora em que a virgindade feminina é um estado de pureza que o contato sexual macula (e daí a visão do sexo como impureza). Aliás, as palavras latinas intactus e integer, que deram respectivamente “intacto”, “inteiro” e “íntegro” em português provêm da união do prefixo negativo in- com radicais do verbo tangere, “tocar”. Logo, intacto, íntegro ou inteiro é aquilo que não foi tocado. E, por conseguinte, “céu” é, literalmente, o lugar do sagrado, bem como o espaço intocável, o que mostra seu caráter místico já na Pré-História.

As palavras germânicas para “céu” (dentre as quais heaven em inglês e Himmel em alemão) remetem à raiz indo-europeia *kemen (abóbada), mostrando uma visão mais física e menos espiritual do firmamento.

Já “inferno”, do latim infernum, “lugar baixo”, provém de infer (de “inferior”, “ínfimo”, etc.), do indo-europeu *ndher, que também resultou no inglês under e no alemão unter (embaixo, sob). O inglês hell e o alemão Hölle remontam ao indo-europeu *k’el, “encobrir”, donde o latim celare “esconder” e seu derivado occultus, “oculto”.

Quanto a “terra”, nome do nosso planeta e da matéria de que ele é feito, a origem está na raiz indo-europeia *ters, “seco”, de que também provém o latim torrere (torrar, isto é, secar pelo fogo), torridus (tórrido) e tostus (tostado). Da mesma raiz vieram o inglês thirst e o alemão Durst, “sede, secura na boca”. Portanto, a terra era originalmente a parte seca da superfície do planeta, por oposição aos oceanos. Por uma extensão de significado, passa a designar todo o planeta e, na visão geocêntrica dos antigos, o centro do Universo, único lugar com vida e, portanto, com seres dotados de alma, a qual, sendo boa, subiria para a abóbada celeste, morada dos deuses, e, sendo má, desceria às profundezas do inferno, no interior da própria Terra – um lugar muito quente, como o provam as lavas vulcânicas que, de quando em vez, emergem à superfície.

Finalmente, o Purgatório cristão é o lugar onde se purgam as almas. E o que é purgar? É tornar puro (o latim purgare provém de *purigare, formado de purus + agere, isto é, “fazer puro, conduzir à pureza”). Não por outra razão, os laxantes também são chamados de purgantes, já que fazem o corpo expelir as impurezas que causam mal-estar.

Um bolo de significados

Muitos já devem ter notado a semelhança entre as palavras “bolo”, “bola”, “bula”, “bolha”, e talvez até tenham intuído alguma relação com “bulir” e “ebulição”. Pois é, todas essas palavras são aparentadas, embora nos tenham chegado pelos mais diversos caminhos.

A mais antiga delas é “bola”, herdada diretamente do latim bulla, “bolha”, assim como o francês boule, o italiano bolla e o espanhol bolla. Aliás, foi esta última forma o étimo do português “bolha”. Em compensação, o espanhol bola veio do português, num empréstimo recíproco.

Já “bula”, tanto a papal quanto a de remédio, é empréstimo do latim bulla por via culta (por isso, o u se manteve, enquanto em “bola” transformou-se em o). É que bulla também era o selo em forma de bola com que o papa selava seus decretos. Por metonímia, passou a designar o próprio decreto papal (e depois, por extensão de significado, o impresso que acompanha os medicamentos).

De “bola” saiu, por mudança de gênero, “bolo”, no sentido culinário da palavra (bolo de aniversário, etc.). Curiosamente, o bolo alimentar, fecal, assim como o bolo de dinheiro (e, por consequência, a “bolada”, no sentido monetário), provém do grego bôlos, da mesma raiz que deu “êmbolo”, “símbolo”, “emblema”, “problema”, “bólido”, “parábola” “diabo” (diábolos), etc. Portanto, nada a ver com o latim bulla.

Essa palavra, aliás, produziu os derivados bullire e ebullire (de ex-, “para fora” + bullire), “ferver, borbulhar, fazer bolhas”. Deste último saiu ebullitio, que nos deu, por via culta, “ebulição”. Já “bulir”, de bullire, nos chegou por via popular: algo que bole (isto é, ferve) é algo em constante movimento. Daí que “bulir” passou a significar “mexer”. No Nordeste brasileiro, por sinal, “bulir” tanto se refere ao movimento de misturar a comida que ferve na panela quanto ao mexer em algo (“Posso bulir no seu livro?”) ou em/com alguém (“Pare de bulir comigo, seu menino!”).

Quanto a bol, palavra com que cada vez mais se designa um certo tipo de tigela nos meios chiques, vem do francês bol, que por sua vez provém do inglês bowl, “tigela, bacia, cuia”, palavra de origem germânica. Já o bule não tem nada a ver com bulla (embora o café ferva dentro dele) nem com bowl (não, o bule não é um parente distante da tigela!), mas sua origem é o malaio buli, palavra que os portugueses incorporaram em seus contatos com o Oriente no tempo das navegações.

Finalmente, o “bullying” tampouco faz parte dessa família de palavras (já tratei deste assunto anteriormente), embora alguns desavisados se queixem de estar sofrendo “bule” dos colegas.

Deve-se ensinar alta literatura a adolescentes?

A polêmica da semana é a postagem do digital influencer Felipe Neto, segundo a qual “forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”. E acrescentou: “o fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”.

Sem dúvida, em um país que pouco lê e cuja cultura letrada, mesmo entre as classes mais abastadas, é bem baixa, questionar o ensino de literatura é algo bastante temerário e até mesmo iconoclasta. (Bem, talvez tenha sido realmente essa a intenção do famoso e controverso youtuber.)

Mas a questão é bem complexa e delicada, já que envolve vários aspectos, e o próprio ponto de vista dos estudantes não pode deixar de ser levado em conta. O filósofo e historiador Leandro Karnal afirma em seu Instagram que

Machado é um gênio, talvez o maior na prosa. É bom forçar um adolescente a ler Dom Casmurro para fazer uma prova? Acredito que isto precisa ser muito debatido. A diferença entre remédio e veneno é a dose. Como professor e amante da obra de Machado, eu diria: a) primeiro textos curtos e sedutores; b) avaliar idade e maturidade de cada turma; c) preparar o ambiente e trabalhar, talvez, O Alienista ou um conto curto; d) valorizar mais a ideia e as ironias, um pouco menos as personagens em uma avaliação. A questão está na gradação, no método, no prazer e na capacidade crítica. Eu começaria mostrando uma imagem tradicional de Machado “embranquecido” e o Machado real e perguntaria: “por que o gênio foi mudado na aparência?” Talvez, preparando O Alienista, lançaria o debate: “quem é louco para vocês?”. Dar uma obra densa, explicar que é realista e marcar uma prova é o caminho para despertar a raiva ou o tédio… De novo: ensinar alunos jovens é um desafio gigantesco.

O saudoso Rubem Alves diz em seu artigo O prazer da leitura:

Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. (…) [A criança] Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. (…) Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão.

Devo confessar que eu próprio sou uma das vítimas desse ensino equivocado de literatura. Sempre gostei de escrever, amo as línguas desde que me entendo por gente – ou, pelo menos, desde descobri que há muitas línguas no mundo. Abandonei o curso de física no quinto semestre para me dedicar à linguística por amor à palavra. No entanto, ter sido obrigado a ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, ou, pior ainda, A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, e O Cabeleira, de Franklin Távora, provocaram em mim um trauma que carrego até hoje: sou totalmente avesso à prosa de ficção. Na verdade, leio muito, desde filosofia, passando por divulgação científica, história, biografias, atualidades, política, crônica, música, até humor e poesia, mas há anos não pego nas mãos um romance ou livro de contos. Não que eu desmereça a literatura ou não tenha consciência de sua importância artística e cultural. Pelo contrário, admiro muito as pessoas que têm a paciência de ler a descrição de um ambiente ou do vestido da heroína feita em três longas páginas, cheias de figuras de linguagem e torneios sintáticos inusitados! Assim como admiro as pessoas que, lendo uma narrativa ficcional, conseguem transportar-se mentalmente aos ambientes que ela visita e conseguem visualizar as feições dos personagens sem associá-las a atores de televisão. Mas admito que, em matéria de ficção, sou de uma geração mais imediatista, que de fato achava um saco passar dias e dias lendo uma estória quando o cinema nos conta essa mesma estória em pouco menos de duas horas, com trilha sonora, recursos audiovisuais, maravilhosos cenários, belos atores e atrizes e, em alguns casos, até narrador (aquela voz em off que fala com o espectador como o narrador onisciente ou como um dos personagens contando sua própria história).

Lembro-me que no ano de 2000 publiquei um artigo na Folha de S. Paulo com o título Repensando o ensino de literatura. Nele, eu dizia:

[o] ensino de literatura portuguesa e brasileira faz parte do currículo escolar de primeiro e segundo graus, e o conhecimento dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares. A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão. Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação geral e humanística que se espera de qualquer cidadão escolarizado.
No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem-se restringido, as mais das vezes, à história da literatura brasileira e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de que o início do Romantismo no Brasil se deu com a publicação, em 1836, de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns livros enfadonhos (…).
Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música, a pintura, a escultura, o teatro… Entretanto, o ensino de educação artística nas escolas não se restringe à história da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos por meio da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente, o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é claro, para as carreiras de música e de artes plásticas).

Minha tese, que ainda sustento, é que o contato com a leitura deve ser prazeroso e que o aluno deveria ter a liberdade de escolher o que ler, seja ficção ou não ficção, seja nacional ou estrangeiro. Pois a cultura geral do cidadão não se faz apenas com narrativas de ficção, mas também e principalmente com a leitura de grandes intelectuais e pensadores, e o conhecimento que forma a cultura não está restrito a autores de língua portuguesa. Aliás, venhamos e convenhamos que a literatura de língua portuguesa goza de bem pouco prestígio em termos mundiais, o que parece indicar que há muito mais coisas boas a serem lidas lá fora do que aqui dentro.

Por isso, naquele artigo eu também defendia que,

[s]e o objetivo do ensino de literatura na escola média é estimular no aluno o hábito da leitura, então por que, em vez de obrigá-lo a ler obras de ficção de séculos passados, não se propõe a ele a leitura de obras importantes de não ficção da atualidade, como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos, por sinal muito bem escritos, ou os de Carl Sagan, que possuem, aliás, excelentes traduções em português? Será que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões reais do mundo contemporâneo, como a globalização e a poluição, por exemplo, não é mais relevante que o estudo de obras ficcionais?

Ou seja, eu considerava que a literatura de ficção, como arte, deve ser, sim, conhecida e apreciada, e que, para isso, é preciso educar a mente assim como se educam os ouvidos para apreciar boa música ou o paladar para degustar um bom vinho. E que o modo como essa literatura vinha – e pelo jeito ainda vem – sendo ensinada simplesmente desestimula o estudante a ler, mata-lhe a capacidade da fruição estética e o enche de enfado e tédio. Finalmente, a cobrança dessas leituras em concursos vestibulares favorece o surgimento de cursinhos e sites que fornecem resumos, de modo que o candidato possa responder às questões da prova sem ter passado pelo suplício de ler as obras.

À época, recebi muitas cartas de apoio (os e-mails ainda estavam engatinhando; comentários e likes nem sonhavam em existir). Mas também fui detonado por dois ou três professores de literatura de universidades renomadas, que, defendendo seu feudo, chamaram meu arrazoado de “barbárie”.

Portanto, não espero que você, leitor, concorde comigo, mas que reflita sobre a problematização que fiz. E que não pegue o atalho fácil de sair malhando essa ou aquela celebridade que posta alguma opinião polêmica nas redes sociais sem ter analisado a fundo a questão. Às vezes, até um Felipe Neto da vida pode dizer algo que faça sentido. Ou propor um debate que valha a pena.

Todos os indígenas são índios?

A campanha de vacinação contra a covid-19, iniciada tardiamente e ameaçada de não ter continuidade por causa do isolacionismo diplomático em que nosso presidente coloca o Brasil, prioriza, neste primeiro momento, os profissionais de saúde que lutam na linha de frente, os idosos e os indígenas – estes últimos, também popularmente conhecidos como índios. A semelhança fonética entre “índio” e “indígena”, somada à semelhança de significados, nos induz logo a pensar que se trate de palavras aparentadas, o que não é verdade: trata-se, antes, de uma dessas coincidências capciosas, uma peça que a língua nos prega.

É que “indígena” provém do latim indigena, formado de indu, “dentro”, e geno, “gerar, dar à luz”, significando “natural do próprio país, nativo”. Ou seja, na Roma antiga, indígenas eram os próprios romanos (no Império Romano obviamente não havia índios). Por outro lado, na Renascença a palavra “índio” designava (e em espanhol ainda designa) os indianos; a confusão entre “índio” e “indiano” se deu justamente porque, segundo reza a lenda, os primeiros europeus a chegar à América, com a expedição de Cristóvão Colombo, acreditavam ter chegado às Índias. (Por causa disso, até hoje, a palavra inglesa Indian denomina tanto os indianos quanto os índios.)

Por outro lado, os índios não deixam de ser os nativos do continente americano, portanto legítimos indígenas. E aí está feita a confusão! Embora não seja usual, a palavra “indígena” seria perfeitamente aplicável a qualquer população nativa em relação aos exploradores europeus: nativos africanos, aborígines australianos, esquimós, habitantes das estepes siberianas, etc. Só que o uso reiterado de “indígena” em relação ao ameríndio e somente a este acaba reforçando a ilusão de parentesco entre palavras cuja similitude é puramente fortuita.

Quanto aos termos “índio” e “indiano”, suas origens remontam à Índia, terra assim chamada por causa do rio Indo, cujo nome no antigo persa era Hinduš. Essa denominação veio, por sua vez, do sânscrito Sindhu. É do persa, por meio do grego, que se origina o nome “hindu”, designativo de uma das religiões da Índia, e que muitos confundem com a própria etnia indiana. Como, na Antiguidade, muitas civilizações cresceram em torno de religiões, não é absurdo falar-se de uma civilização hindu, já que, naquela época, etnia e religião andavam juntas; entretanto, nos dias de hoje, é mais adequado nos referirmos à Índia como estado ou governo indiano do que estado ou governo hindu – até porque a nação indiana é composta de um sem-número de comunidades religiosas, das quais a hindu é a maior, mas não a única.

O atual uso dos pronomes pessoais oblíquos “o/a” e “lhe”

O emprego dos pronomes pessoais oblíquos em português brasileiro contemporâneo falado (e às vezes também escrito) tem sido um daqueles complexos problemas da nossa língua. É que, em primeiro lugar, temos a tendência a substituir os pronomes átonos o/a/os/as/lhe/lhes pelos tônicos ele/ela/eles/elas: “Eu não vi ele hoje”; “Eu dei o livro pra ele”. Em segundo lugar, muitas vezes omitimos o objeto direto quando este é um pronome: “Você viu o Zé? Não vi, não”. Em terceiro lugar, o uso do pronome pessoal reto você, que exige os oblíquos o/a/os/as/lhe/lhes, em lugar de tu, acaba criando ambiguidades: “Eu não o conheço!” (não conheço você ou ele?). Por isso, costumamos desfazer a ambiguidade por meio das formas “Não te conheço” (informal) ou “Não lhe conheço” (formal) em oposição a “Não conheço ele”.

No exemplo acima, é possível perceber que, ao nos dirigirmos a uma pessoa com quem não temos intimidade, ao mesmo tempo evitamos o uso de te e do pronome objeto direto o/a, utilizando em seu lugar o pronome objeto indireto lhe: “Não lhe conheço!”.

Só que agora está surgindo o uso exatamente inverso a esse, isto é, a substituição do pronome objeto indireto lhe pelo direto o/a. Tenho visto cada vez com mais frequência construções do tipo “Eu quero proporcioná-lo a melhor qualidade de vida possível” ou “Recebeu o amigo e o ofereceu um drinque”.

Por que isso acontece? Evolução linguística, dirão vocês. Eu, como linguista, não posso negar que isso seja uma inovação que poderá vir a tornar-se uso corrente e predominante. Ou seja, como cientista da língua, não posso deixar de observar o fenômeno como algo natural a que todas as línguas estão sujeitas.

Porém, como falante do português e amante da cultura letrada, tampouco posso deixar de apontar um fato desolador que, em meu diagnóstico, é a causa dessa mutação: nossa péssima educação escolar. Ou seja, o emprego padrão (isto é, normativo) dos pronomes pessoais em português é um tanto complexo, e, particularmente na variedade brasileira, o uso de pronomes de terceira pessoa com função de segunda traz certa ambiguidade que os falantes procuram contornar como podem. Mas, na hora de redigir é que o bicho pega, pois a maioria das pessoas não sabe usar tais pronomes no registro culto e acaba metendo os pés pelas mãos – ou melhor, acaba metendo o/a no lugar de lhe e vice-versa. Fatos como esses certamente não aconteceriam se as pessoas fossem mais bem escolarizadas e se o hábito da leitura fosse mais difundido. Aliás, desconfio que a própria preguiça que o brasileiro em geral tem de ler se deve à má escolarização, pois os livros, jornais e revistas costumam ser redigidos num linguajar bastante distante do usado no dia a dia, o que requer da parte de quem tem pouca afinidade com o léxico e a gramática um grande esforço intelectual. Ou seja, para essas pessoas, ler cansa.

Dos quatro tipos de professores pesquisadores

Em outro artigo, falei sobre a diferença que a língua inglesa faz entre as palavras teacher e professor. Apenas relembrando, teachers são professores de ensino básico, técnico e cursos livres, ao passo que professors são docentes de universidades, que, além de ensinar, fazem pesquisa, portanto são também e principalmente cientistas. É justamente devido a essa diferença que nem todo professor é pesquisador (na verdade, a maioria não é), mas quase todo pesquisador é também professor. Claro, pesquisadores que trabalham em institutos como o Butantan ou a Fiocruz não necessariamente dão aulas, mas, como a maioria dos cientistas está nas universidades e não em institutos de pesquisa (até porque estes são em bem menor número), é natural que eles dividam sua jornada de trabalho entre produzir e transmitir conhecimentos. Por isso mesmo, eles têm de desenvolver duas diferentes competências profissionais.

Mas, sendo essas competências bem diferentes entre si, é natural que nem todas as pessoas sejam aquinhoadas pela natureza com ambos os talentos. Daí decorre que há quatro tipos básicos de docentes universitários.

Em primeiro lugar, há aqueles que são grandes professores, donos de uma didática e de um cabedal de conhecimento incríveis, mas cuja produção científica é pífia ou, pelo menos, pouco relevante. Estes costumam ser a maior parte dos professores, ao menos nas grandes universidades.

Em segundo lugar, há aqueles (bem poucos) que são cientistas geniais, grandes produtores de saber e pensadores da realidade, mas que, na sala de aula, não se saem assim tão bem. Alguns desses gênios até têm certa preguiça de lecionar, já que sua verdadeira vocação é a ciência e não o magistério. Por isso, suas aulas são muitas vezes propositalmente displicentes.

O terceiro grupo (raríssimo) é o dos indivíduos que são ao mesmo tempo cientistas e intelectuais brilhantes e exímios educadores. Estes, aliás, costumam ser também grandes popularizadores do conhecimento científico, inspirando no público em geral a mesma paixão pela descoberta que eles próprios sentem.

Finalmente, há o grupo, infelizmente muito comum no Brasil, daqueles que não são bons nem na docência nem na pesquisa e estão em grandes universidades porque foram aprovados em concurso muito mais por razões políticas do que por mérito.

Vivi a experiência de ter na universidade professores de todos os tipos, exceto o terceiro. Já fui aluno de alguns luminares, mas também de vários medíocres. Alguns me fascinaram; de outros, nem me lembro direito. Alguns deles ficaram famosos, outros viveram na mais profunda obscuridade embora fossem bons professores e razoáveis pesquisadores. Muitos dedicaram sua vida predominantemente ao magistério e deixaram ternas lembranças em seus alunos, mas não ganharam projeção social. Outros fizeram fama e fortuna apesar de detestarmos suas aulas – ou pior, dormirmos nelas.

De todo modo, sou grato a todos eles, afinal me fizeram ser quem sou e chegar aonde cheguei. Alguns me mostraram com seu exemplo que tipo de profissional eu devia ser. Outros, também com seu exemplo, me mostraram o que eu jamais quero ser ou fazer.

A origem do nome do panetone

Semana passada, falei sobre a etimologia das palavras ligadas ao Natal e ao Ano Novo. Hoje vou falar sobre o panetone, essa guloseima indefectível nas mesas do Natal. Corre uma lenda, que vem até impressa em algumas embalagens de panetone, de que esse pão doce recheado de frutas cristalizadas (e hoje também de chocolate e outros ingredientes) teria sido criado na cidade de Milão, na Idade Média, por um confeiteiro chamado Tony, o qual teria dedicado seu invento à mulher amada. Daí o porquê do nome panetone: seria “o pão de Tony”.

Embora romântica, essa lenda não tem o menor fundamento. Primeiro, porque não há nenhuma evidência histórica que respalde essa versão. Segundo, porque é pouquíssimo provável que na Itália medieval houvesse alguém com o apelido de Tony. Trata-se da forma reduzida do nome inglês Anthony, e, como se sabe, a influência anglo-americana sobre o italiano só surgiu após a Segunda Guerra Mundial.

Na verdade, a palavra italiana panettone é aumentativo de panetto (pãozinho), e, portanto, nada tem a ver com um possível confeiteiro de nome Tony. O fato é que muitas vezes nos refugiamos nas lendas porque a realidade parece bem sem graça. A origem mítica do panetone, alimento símbolo do Natal, é, com certeza, mais sedutora ao nosso imaginário do que sua prosaica etimologia verdadeira. E, como os próprios italianos costumam dizer, “se non è vero, è bene trovato”: não é verdade, mas bem que poderia ser.

Feliz Ano Novo!

De onde surgiram as palavras que marcam as festas de fim de ano?

Semana passada, falei sobre a origem da palavra Natal. Mas faltou dizer que, enquanto o português denomina essa data com uma palavra de origem culta, tomada de empréstimo ao latim Natalis, outras línguas empregam termos hereditários, que sofreram ao longo dos séculos todo o processo da evolução fonética. É assim com o galego Nadal, em que o t intervocálico do latim se transmutou em d num fenômeno evolutivo bem conhecido. A mesma palavra latina deu o francês Noël, cuja mutação fonética foi ainda mais severa que em galego. Em espanhol, temos Navidad, do latim Nativitatem, a natividade de Jesus.

Nas línguas germânicas, as origens da palavra para Natal são diversas: em inglês, Christmas provém de Christ mass, a missa de Cristo; o alemão Weihnachten significa “noites sagradas” e refere-se às noites de inverno que já eram celebradas pelos antigos germanos antes do cristianismo, assim como o sueco Jul (e também o inglês Yule), festa nórdica pagã que depois assumiu o sentido cristão atual.

Nosso Papai Noel veio do francês Père Noël, literalmente o Pai Natal (por sinal, é assim que o bom velhinho é chamado em Portugal). Na Inglaterra, ele é o Father Christmas, expressão em tudo equivalente às portuguesas e à francesa. Já nos Estados Unidos, prevaleceu Santa Claus, corruptela do holandês Sinter Klaas ou Sinter Klaes (São Nicolau) devido à grande influência que os holandeses tiveram na colonização americana. Em alemão temos Weihnachtsmann, o homem do Natal.

Já que falamos em Papai Noel, é curioso que aqui no Brasil utilizemos o nome francês da data natalina enquanto os portugueses parecem mais nacionalistas a esse respeito. Igualmente, a palavra Réveillon é muito usada no Brasil e na França (claro, os franceses são os criadores do termo!). Em outros países, preferem-se outras denominações, como o inglês New Year’s Eve (Véspera do Ano Novo). O francês Réveillon vem do verbo réveiller (acordar, ficar acordado) e designava, originalmente, o jantar da noite de Natal; depois passou a referir-se à ceia da véspera do Ano Novo e, finalmente, à própria virada do ano.

Então feliz 2021 a todos! Que no novo ano tenhamos a cura da pandemia, mas principalmente a cura do egoísmo que leva pessoas a se aglomerar em festinhas e nações a comprar mais vacinas do que o necessário para vacinar toda a sua população.

A história da palavra “Natal”

Depois de amanhã é Natal, e parece que o fim de um ano nunca foi tão esperado quanto agora. Enfim, sobrevivemos, embora muitos não tenham tido a mesma sorte. E, já que chegamos até aqui, resolvi republicar o post que lancei no ano passado nesta mesma época. É o que segue.

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Que Natal tem a ver com nascimento, todos sabemos. No entanto, estamos tão acostumados a ver essa palavra associada ao nascimento de Jesus Cristo que a longa história desse termo acaba obscurecida. Por isso, vale a pena revisitá-la.

O latim natalis surgiu como adjetivo derivado do substantivo natus, “nascimento”, mediante o sufixo -alis. Portanto, significava “relativo ao nascimento”. Exemplos desse uso são as expressões natalis humus, “terra natal”, e natale solum, “solo natal”, ambas referentes à pátria (também chamada de natio, “nação”, do mesmo radical). Nesse mesmo sentido, temos também dies natalis, o dia do nascimento de alguém (por isso, o aniversário natalício, que aqui no Brasil reduzimos para aniversário, chama-se em Portugal natalício). Finalmente, natale astrum é o astro que preside o nascimento, portanto relacionado aos signos do zodíaco.

Aqui cabe mencionar que o substantivo natus deriva do radical do particípio natum, do verbo nascor, “nascer”, que por sua vez remonta à raiz indo-europeia *ĝenh1, cujo grau zero (isto é, sem a vogal) acrescido do sufixo incoativo -sk- deu *gnasco em latim arcaico e nascor no clássico. Do mesmo grau zero com redobro do radical saiu gigno, “gerar, parir”. Logo, nascor significava originalmente “ser gerado”. Da mesma raiz indo-europeia temos também o grego génesis, “criação, geração”, palavra de grande simbolismo.

Mas o adjetivo natalis passou a atuar também como substantivo comum, num processo chamado conversão (ou derivação imprópria). É que dies natalis foi reduzido a natalis por economia linguística (assim como o já citado “aniversário natalício” encolheu para “natalício”). E, nessa acepção, natalis era o dia do nascimento de uma pessoa, o próprio ato de nascer e ainda o ano da fundação de Roma.

Mas natalis ganharia ainda dois outros empregos pagãos antes de ser incorporado pelo cristianismo: como designativo do gênio ou deus que preside o nascimento de uma pessoa e a acompanha durante toda a vida (algo como o nosso anjo da guarda) e como nome próprio masculino (em português também temos pessoas chamadas Natal).

Mas foi na acepção de “nascimento” que Natalis se especializou como denominativo do nascimento de Jesus e, por conseguinte, da festa cristã que comemora esse evento. Tanto que jamais usamos tal substantivo fora desse contexto, para falar do nascimento de outras pessoas que não a figura central do cristianismo.

Dito isto, só me resta agora desejar votos de felicidades a todos os amigos leitores e seguidores do nosso blog e do nosso canal no YouTube que nos acompanharam ao longo de mais um ano, por sinal, um ano bem difícil. Feliz Natal!

Extremismos na língua e o “caminho do meio”

Como todos sabemos e sentimos, o Brasil atravessa uma excruciante polarização política entre extremos. Cada uma de seu lado, esquerda e direita se digladiam em defesa de suas ideologias enquanto a maioria silenciosa, adepta da moderação e do equilíbrio, permanece tal, silenciosa – ou melhor, silenciada pela grita histérica que se eleva das extremidades do espectro político.

Pois a mesmíssima coisa está ocorrendo neste momento no âmbito da língua. Temos de um lado uma esquerda radical, com sua neutralização de gênero, seu “todos, todas, todes e todxs”, sua defesa incondicional do “se deu pra intendê, tá tudo certo” e outras bandeirolas ideológicas; de outro, temos os guardiães da tradição, que veem a norma-padrão do idioma como entidade metafísica, sacrossanta, impoluta e inquestionável, e que advoga a normatização gramatical com base na tradição pré-científica que remonta à Grécia antiga e no uso da arte literária em lugar da ciência como parâmetro para essa normatização.

O grande “muso” da extrema esquerda, o super-herói defensor dos fracos e oprimidos da língua é Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, que, embora o negue, é o paladino do vale-tudo linguístico, o salvador das variedades estigmatizadas, vítimas do preconceito linguístico (conceito que ele mesmo criou), um sujeito que diz coisas como “o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado” ou “toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo”, ou ainda “a norma culta que se lasque, que se dane, que se esboroe! Saber falar o ‘bom português’ nunca permitiu a ascensão social de ninguém, ao contrário do que prega a propaganda enganosa da pequena, pequeníssima burguesia”.

No outro extremo, cujo pontífice é o finado Napoleão Mendes de Almeida, temos os gramáticos normativos tradicionalistas, cujo método de descrição gramatical remonta a Dionísio, o Trácio (séculos II-I a.C.) e sua Tekhné Grammatiké (“Arte Gramatical”), e cujo corpus de onde extraem os modelos de “língua exemplar” são as obras dos grandes literatos, especialmente os clássicos.

Para esses gramáticos puristas, a palavra de ordem é tradição; ou seja, devemos falar e escrever como nossos antepassados o fizeram e como o fazem os mais ilustres prosadores de nosso idioma, especialmente os ficcionistas, aqueles que levam a língua ao “estado mais puro de arte” e fazem malabarismos linguísticos como “fá-lo”, “fê-lo”, “fi-lo”, “pô-lo”, “pu-lo” ou mesmo “qué-lo” (outra variante seria “quere-o”), sem falar nas mesóclises do tipo “dar-lho-ás” e “dir-no-los-ia”.

Enquanto isso, os pobres mortais que apenas desejam – ou pior, têm por obrigação – redigir textos formais e para os quais a norma-padrão tem valor meramente operacional, isto é, como ferramenta de trabalho e não de criação artística, se veem diante de um emaranhado pouco lógico de regras e exceções, de definições francamente falhas porque não científicas (“sujeito é aquele de quem se declara algo” ou “é o autor da ação”; “os termos essenciais da oração são sujeito e predicado” – só que existem orações sem sujeito, e por aí vai).

Ou seja, para uma maioria “de centro”, tanto política quanto linguisticamente, nem tanto ao mar nem tanto à terra: nem a abolição total da norma-padrão e sua substituição pelo “cada um fala como pode e como qué” nem a idolatria de uma norma anacrônica, pedante mesmo, vista como sagrada.

O fato é que as línguas mudam com o tempo (a isso se chama evolução), e a norma-padrão também precisa ser atualizada periodicamente. Como instrumento de comunicação formal que deve ser, sobretudo, funcional, ela tem de ser estabelecida com base no conhecimento científico e não nos arroubos estéticos de escritores que, por mais prestigiados que sejam, também erram (José de Alencar, por exemplo, costumava separar sujeito e predicado por vírgula). Ela deve ter como norte a simplicidade, regularidade e racionalidade. Nesse sentido, gramáticos que abonam certas construções que tornam a regra mais complexa e criam exceções de difícil explicação apenas porque um grande literato as usou prestam um grande desserviço à língua e seus usuários.

Da mesma forma, linguistas “progressistas” que defendem a incorporação à norma de certos usos populares que irregularizam o que até então era regular apenas porque tais usos são isso mesmo, “populares” – e é preciso valorizar a fala do povo para ser um verdadeiro democrata, não é mesmo? – igualmente mais atrapalham do que ajudam.

A realidade é que nossa norma-padrão precisa, sim, ser atualizada, racionalizada e simplificada, da mesma maneira como o fizeram nos últimos cem anos outras línguas neolatinas, notadamente o espanhol e o italiano. Precisamos, sim, de gramáticas normativas que incorporem o método científico e substituam definições, categorias e terminologias ultrapassadas por outras, sustentadas por dados e modelos fornecidos pela ciência.

Mas também é fato que precisamos da norma-padrão, pois nenhuma língua de cultura existe sem ela, e é ela que garante a intercomunicação dos variados grupos que constituem a sociedade sem que haja mal-entendidos, seja em nível profissional, acadêmico ou mesmo prático, como num manual de instruções, por exemplo. É ela que nos dá acesso a direitos e à cidadania; é ela que permite ascensão social a quem não sabe jogar futebol nem cantar pagode; é ela que nos possibilita ler e entender o que lemos; é ela que nos permite redigir e ser compreendidos.

Por via de consequência, a posição “centrista”, de bom senso, livre de extremismos demagógicos, é a que defende ambos os movimentos: de um lado, através da educação, a aproximação dos falantes à gramática normativa; de outro, por meio da reforma desta, a aproximação da gramática aos falantes. É pena que, nesse ambiente radicalizado em que vivemos, a voz da sensatez e da razoabilidade não esteja sendo ouvida.

Por favor, curta esta postagem!

Em tempos de Facebook, a onda é “curtir”. Seja foto, vídeo, piada, frase de efeito, convocação para passeata ou mesmo as informações mais inúteis (basta uma celebridade postar na web que adora sushi e pronto: milhares de “curtidas” dos fãs). Essa ferramenta aparentemente tola das redes sociais se tornou tão crucial às pessoas conectadas que, para muitas delas, ser curtível, isto é, receber muitos likes, é questão de vida ou morte. E já que ser curtido tornou-se objetivo de vida, não me admira que os profissionais de marketing tenham criado uma espécie de “Índice de Curtibilidade” que afere o grau de popularidade das nossas postagens – com possibilidade de ganharmos algum dinheiro em verbas de publicidade.

O curioso é que a palavra inglesa para “curtir” – em seu uso virtual, bem entendido – é o insípido like, literalmente “gostar”. Se pensarmos que “curtir”, no brasileiríssimo sentido de “aproveitar, adorar, deliciar-se”, se diz divertirse em espanhol, have fun ou have a good time em inglês e avoir le bon temps em francês, veremos que essa palavra, originalmente negativa (afinal curtir é deixar a carne ou a pele de um animal ao sol durante dias para que fique bem ressequida), tem conotações em português que escapam aos outros idiomas. “Curtir de montão” é bem diferente de “gostar muito” ou “aproveitar intensamente”. E curtir uma pessoa, é apenas gostar dela? Ou é sentir um prazer único em sua presença, rir com suas tiradas, admirar sua perspicácia? Portanto, ao traduzir like como “curtir”, o Facebook brasileiro conseguiu ser mais criativo que o original americano.

E tudo começou com a expressão “curtir uma dor” (ou “curtir uma fossa”, como se dizia lá pelos anos setenta), que veio substituir o tradicional “carpir a dor”. Por exemplo, o clássico do cancioneiro nacional Lábios que beijei, de J. Cascata e Leonel Azevedo, imortalizado na voz de Orlando Silva, diz a certa altura: “Passo os dias soluçando com meu pinho / Carpindo a minha dor, sozinho / Sem esperanças de vê-la jamais”. É o mesmo sentido do lema latino carpe diem (curta o dia de hoje). Mas por que curtir a dor? Talvez a ideia seja a de sofrer por muito tempo (às vezes meses ou anos) como o couro curtindo ao sol ao longo de dias. E assim como o couro seca e se torna rígido e impermeável, o coração de quem sofre se torna insensível, indiferente à dor.

Seja como for, nos dias de hoje, o cantor das multidões não carpiria, mas curtiria a sua dor. E não com seu pinho, isto é, seu violão, mas talvez com uma guitarra elétrica.

O particípio presente em português

Como se sabe, são três as formas nominais do verbo: o infinitivo, o gerúndio e o particípio, este dividido em particípio presente, de sentido ativo (amante, vivente, seguinte), e particípio passado, ou pretérito, de sentido passivo (amado, vivido, seguido). No entanto, o particípio presente não costuma ser considerado uma forma verbal legítima em português. Por quê?

Primeiramente, lembremos que as formas nominais do verbo servem para formar tempos compostos (vou fazer, estou fazendo, tenho feito). E não há nenhum tempo composto formado com particípio presente (algo como estou fazente). O próprio exemplo esdrúxulo que acabo de dar demonstra que a maioria dos verbos em português não tem particípio presente (alguns poetas, como Drummond, brincam com isso inventando particípios que não existem: “ser pensante, sentinte e solidário”). Tampouco há orações reduzidas de particípio presente em nossa língua.

Em muitos idiomas, o particípio presente é uma forma verbal genuína. As línguas germânicas, que, com exceção do inglês, não têm gerúndio, usam em seu lugar esse particípio. Em italiano e alemão, é possível e até corriqueiro dizer coisas como “todos os funcionários trabalhantes no setor de produção terão férias coletivas”. Em português, só se pode dizer “todos os funcionários que trabalham no setor” (mesmo a construção gerundiva “todos os funcionários trabalhando no setor” é condenada pela maioria dos gramáticos).

Outro indício de que o particípio presente não é uma forma verbal legítima do português é que muitos desses particípios têm etimologia diferente da do verbo a que correspondem (em geral, são empréstimos cultos, enquanto os verbos são palavras vernáculas). Vejamos alguns exemplos: ver/vidente, carecer/carente, sentir/senciente, cair/cadente, intervir/interveniente, etc. Se tais particípios derivassem de fato dos verbos, teríamos vente, carecente, sentinte, cainte, intervinte, etc.

Portanto, o particípio presente é, na verdade, um adjetivo formado a partir do verbo mediante o sufixo ‑nte, ou mesmo importado do latim, que, como adjetivo, pertence à classe dos nomes e não à dos verbos.

Portanto, nossa língua é bem pobre em matéria de tipos de particípio (só temos o particípio passado passivo), exceto pelo fato de que alguns verbos admitem dois tipos de particípio, o longo e o breve (aceitado/aceito, pagado/pago, etc.).

Ao contrário, línguas como o grego têm particípios ativos e passivos no presente, pretérito e futuro. O esperanto, idioma artificial criado para ser prático e lógico, segue esse padrão. Na língua inventada por Ludwig Zamenhof, a vogal temática -a- indica o presente, -i- o pretérito, e -o- o futuro. O sufixo -nt- representa a voz ativa, e -t- a voz passiva. Temos, então, para o verbo ami, “amar”:

  • amanta = que ama, que está amando;
  • aminta = que amou ou amava;
  • amonta = que amará;
  • amata = que é ou está sendo amado;
  • amita = que foi ou era amado;
  • amota = que será amado.

Em português, temos alguns adjetivos ou substantivos com sentido de particípio presente ativo (cambiante, reluzente, constituinte) e uns poucos com sentido futuro ativo (vindouro, duradouro, imorredouro) ou passivo (formando, reeducando). Por isso, usamos por vezes um particípio pretérito passivo em função não pretérita ou não passiva. Por exemplo, quando empregamos necessitado com significado de “pobre, carente”, note que o sentido é presente e ativo: a necessidade de ajuda existe hoje, e a pessoa em questão necessita, não é necessitada por alguém. Portanto, o indivíduo carente deveria ser necessitante e não necessitado.

Do mesmo modo, quando digo que um filme é divertido, não estou querendo dizer que ele foi divertido por mim (pretérito passivo) e sim que ele me diverte (presente ativo). Em italiano se diz no mesmo caso que o filme é divertente.

Ainda segundo essa lógica, o indivíduo malcheiroso não deveria ser fedido, mas fedente, o intrometido deveria ser abusante e não abusado, e assim por diante.

Essa ambiguidade no uso dos particípios em português é o que enseja trocadilhos como o do sujeito que, recusando o convite para almoçar, responde: “Obrigado, mas já estou comido”.

O nascimento de uma língua

Toda língua evolui. Este é um dos mantras da linguística desde os seus primórdios, ainda em princípios do século XIX. Na verdade, desde que a espécie humana começou a falar, nunca houve solução de continuidade na história da linguagem, portanto toda língua é a continuação histórica de algum sistema linguístico precedente, e um sistema se transforma em outro lenta e imperceptivelmente, num lavor de séculos ou milênios. Sendo assim, pode a qualquer momento surgir uma nova língua? É possível que uma comunidade humana invente um idioma sincronicamente, sem tê-lo herdado de seus antepassados?

Pois foi descoberto alguns anos atrás em Lajamanu, um pequeno vilarejo de 700 pessoas no norte da Austrália, um novo idioma, chamado warlpiri rampaku, ou warlpiri rápido, língua falada exclusivamente por menores de 35 anos.

A pesquisadora Carmel O’Shannessy, da Universidade de Michigan, que descobriu o idioma, afirma tratar-se realmente de um novo sistema linguístico, pois, embora majoritariamente composto por palavras e estruturas gramaticais de outros idiomas, esses elementos se combinam de modo sistemático e inovador, como numa língua natural que fosse produto da evolução.

Os habitantes de Lajamanu falam warlpiri (língua aborígine australiana), inglês e crioulo (mistura de warlpiri e inglês), mas, curiosamente, metade da população fala o warlpiri rápido, alguns como primeiro idioma.

Essa nova língua está sendo comparada à linguagem usada pelos adolescentes, com seus termos próprios, incompreensíveis aos adultos. Mas com a diferença de que, ao contrário do que acontece com as gírias infanto-juvenis, que são abandonadas à medida que os jovens crescem, neste caso os falantes continuam utilizando o mesmo código depois de adultos, e a próxima geração o aprende desde o nascimento.

Segundo O’Shannessy, o surgimento dessa língua deve ter-se dado porque os pais, sendo bilíngues, misturavam os idiomas ao falar com os filhos.

Em sua opinião, a aparição de novas línguas é mais comum do que se imagina, embora o fato nem sempre seja detectado por linguistas. Para ela, a ocorrência do fenômeno é mais provável em comunidades em que haja muitas pessoas multilíngues, especialmente jovens.

Apesar de recém-nascido em termos da escala evolutiva das línguas, o warlpiri rápido apresenta grande vitalidade. Como língua minoritária dentro da Austrália, não é possível saber por quanto tempo sobreviverá, mas o simples fato de estar sendo falada, inclusive como língua materna, por um número considerável de pessoas atesta que línguas podem, sim, ser criadas sincronicamente, e não como meros experimentos de laboratório, como é o caso dos idiomas artificiais, mas como sistemas efetivos de comunicação cotidiana.

A cartilha antirracista dos juízes de Pernambuco

Já falei mais de uma vez aqui neste espaço sobre esse assunto, mas parece que certos grupos não compreendem – ou melhor, não querem compreender, pois há razões políticas e ideológicas envolvidas –, e por isso sou obrigado a voltar ao tema, mesmo sabendo que, mais uma vez, de nada adiantará. Em todo caso, vamos lá.

A Associação dos Magistrados de Pernambuco (Amape) elaborou recentemente uma cartilha de 13 páginas intitulada Racismo nas Palavras, a qual sugere a substituição de dez expressões ou palavras tidas como “racistas”. Em vez de denegrir, a cartilha sugere difamar; no lugar de mercado negro, propõe mercado ilegal; em substituição a lista negra, teríamos lista de restrições, e ainda a coisa está preta daria lugar a a situação está difícil, dentre outras sugestões de mudança.

Essa cartilha provocou a reação de 34 magistrados filiados à Associação, que assinaram manifesto contra a introdução de pautas ideológicas na categoria profissional, o que poderia, segundo eles, levar a cisões internas.

Diz a certa altura o manifesto:

Por fim apresentamos esse MANIFESTO em repúdio à produção de cursos, lives, webinários, panfletos, cartilhas e similares que nos ponham em apoio a correntes ideológicas e provoque cisões internas, criação de subgrupos de juízes.

A juíza Andrea Rose Borges Cartaxo, uma das subscritoras do manifesto, afirma que a crítica não se dirige às causas de minorias. Segundo ela, “as causas são legítimas. O motivo do manifesto é que o estatuto da associação está sendo ferido”. E acrescenta: “A Justiça precisa ser cega, não abraçar causas ideológicas, e essa causa é de uma ideologia”.

Ou seja, segundo esses juízes “dissidentes” (a maioria dos associados concordou com a cartilha e a realização de cursos sobre o tema do racismo), o problema não é o combate de expressões supostamente racistas e sim o desvio de função da Associação.

Já para mim, o pecado da cartilha é outro: como já havia demonstrado em artigo anterior, o erro dessas cartilhas politicamente corretas é atribuir conotação racista a expressões que nada têm de discriminatórias à raça negra pelo simples fato de que elas contêm as palavras preto ou negro ou fazem alusão à cor preta, um matiz do espectro cromático como qualquer outro.

Ou seja, mais uma vez, os movimentos sociais e seus defensores partem de premissas falsas para sustentar suas bandeiras. Mas, se essas bandeiras são justas – e eu particularmente acho que são –, por que contaminá-las e enfraquecê-las com falsos argumentos? Por que não se ater a fatos reais (exemplos de racismo existem – infelizmente – aos montes em nosso país) em vez de criar inimigos imaginários?

Senão, vejamos: denegrir provém do latim denigrare, que significava originalmente “enegrecer, tingir de preto” e posteriormente “difamar, tornar negra a reputação de alguém”. Ora, esse verbo foi cunhado pelos romanos dois milênios antes da escravidão de africanos por europeus, portanto refere-se às conotações sombrias que a cor preta suscita, sem qualquer relação com tom de pele, mas sim com escuridão, trevas, morte, etc.

Eu poderia explicar a origem não preconceituosa das demais palavras e expressões proscritas pela dita cartilha, mas, como disse, já fiz isso em outro artigo e convido os leitores a lê-lo (basta clicar no link acima).

Ou seja, além do alegado gasto de recursos da Amape com empreendimento alheio à sua finalidade, os juízes que subscreveram o manifesto poderiam também ter questionado a falsidade dos argumentos apresentados na malsinada cartilha a respeito do cunho racista de certas palavras e expressões.

Pelo modo como a coisa anda, daqui a um tempo o próprio uso das palavras preto e negro será proibido, mesmo que você esteja se referindo meramente a um lápis de cor ou ao tom de um vestido.

O politicamente correto, a ideologia da neutralização de gênero e a Constituição alemã

O politicamente correto e seu mais novo rebento, a ideologia da neutralização de gênero, têm dado muito o que falar – mal, principalmente. Não à toa, tal a bizarrice dessa proposta, que, apesar de bem-intencionada, promete não chegar a lugar algum, pois suas bases lógicas, científicas e políticas são frágeis como bolha de sabão em espinheiro.

O problema é que a vida imita a arte, e vice-versa, e aquilo que achamos absurdo a ponto de virar motivo de piada de repente é levado a sério por gente insuspeita. Pois ontem o humorista português Ricardo Araújo Pereira publicou uma crônica satírica cuja leitura recomendo vivamente às minhas leitoras e aos meus leitores e que deveria fazer corarem as defensoras e os defensores do tal gênero neutro. Só que elas e eles não coram. Pelo contrário, elas e eles levam muito a sério uma ideia que não tem a menor possibilidade de prosperar. Tanto que elas e eles chegam a redigir documentos oficiais como a Carta Magna de um país de respeito nessa linguagem que nenhum ser humano ou ser humana em estado normal consegue falar.

Para verem que não estou mentindo, transcrevo abaixo a tradução para o português de um pequeno trecho da Constituição da República Federal da Alemanha, em sua redação mais recente, após a reunificação.

  • O Governo Federal: O Governo Federal é composto pela Chanceler Federal ou Chanceler Federal e pelas Ministras Federais ou Ministros Federais. Juntos, elas ou eles compõem o Gabinete.
  • O papel da Chanceler Federal ou do Chanceler Federal: A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tem uma posição de destaque no governo. A Chanceler Federal ou  o Chanceler decide quem se torna membro do governo, pois só ela ou ele tem o direito de formar um Gabinete. A Chefe do Governo ou o Chefe do Governo escolhe as Ministras ou os Ministros e faz uma proposta vinculativa para a sua nomeação ou exoneração do Presidente Federal. Ela ou ele também decide sobre o número de Ministras ou de Ministros e define suas áreas de responsabilidade. A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal determina os pilares da política governamental (Princípio do Chanceler).
  • O papel da Ministra ou do Ministro: Embora a Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tenha o direito de emitir instruções às Ministras ou aos Ministros, a Constituição também enfatiza que as Ministras Federais ou os Ministros Federais administram sua área de responsabilidade de forma independente e sob sua própria responsabilidade dentro do quadro político definido (Princípio Departamental).

Pois é, minhas amigas, meus amigos e mees amigues, cabe a todas, todos e todes vocês julgar se esse negócio de linguagem neutra de gênero faz algum sentido ou não – ou, como se diz lá em Minas: Tem base esse trem?

A língua muda por conta da moda

Alguém disse certa vez que a língua é um vírus mutante. A ideia da linguagem como vírus não é nova: ainda no século XX, o escritor norte-americano William S. Burroughs defendia essa tese, só que de maneira literal, isto é, para ele a aptidão linguística do ser humano era o resultado da contaminação de nossos antepassados hominídeos por uma infecção viral, talvez vinda do espaço.

Mais recentemente, a também norte-americana cantora Laurie Anderson disse – ou melhor, cantou – que a linguagem é um vírus, só que agora de maneira metafórica.

Essa metáfora é bastante útil na linguística, já que os fenômenos da mutação e do contágio, correntes na microbiologia, também estão presentes em nossa ciência.

Um exemplo recente de mutação de significado e consequente disseminação do significado mutante é a locução prepositiva por conta de. Essa expressão, que originalmente significava apenas “em nome de, por incumbência ou responsabilidade de”, ultimamente vem sendo cada vez mais empregada no sentido de “por causa de, em consequência de, graças a”. Antes, o entregador batia à porta do destinatário da mercadoria e dizia: “vim entregar estes pães por conta do padeiro Sr. Manuel”; ou seja, o padeiro Manuel era o remetente da entrega e não a sua causa. Hoje se diz que “o atraso na divulgação dos resultados da eleição ocorreu por conta de uma falha técnica no supercomputador do TSE”.

Como a evolução linguística é um caminho sem volta, e como quase toda mutação começa como um erro que, com o tempo e o uso disseminado, acaba se tornando um acerto, por conta de foi usado como sinônimo de por causa de por algum burocrata desinformado que desejava escrever de forma elegante e fugir do lugar-comum, da mesmice das palavras de largo uso. E os que leram o que ele escreveu acharam tão belo e original o emprego dessa locução que logo tal uso se espalharia por contágio, isto é, eu falo, você gosta, você repete, ele ouve, ele gosta, ele repete, eles ouvem, eles adoram, eles repetem…

Toda vez que ocorre uma inovação linguística, duas forças contrárias passam a agir sobre ela: de um lado, a força do contágio, que dissemina a inovação entre os falantes; de outro, a força dos professores e gramáticos, que tentam, quase sempre em vão, combater a inovação alegando que ela está errada, não está prevista nas gramáticas nem nos dicionários, que é um modismo tolo e passageiro e que a língua já dispõe de outras formas consagradas com a mesma função. É exatamente isso que está acontecendo agora mesmo. Só que o modismo tolo muitas vezes se consolida no uso, começa a ser usado generalizadamente pelas classes mais escolarizadas e, dali a algum tempo, os grandes literatos passam a usá-las correntemente em suas obras.

Portanto, alguém aí dúvida de que por conta de já conquistou seu espaço como alternativa “elegante” do desgastado por causa de?

É claro que o inverso também pode ocorrer. De tão usada, essa expressão pode tornar-se um clichê sem graça, e daqui a pouco por causa de poderá surgir como a nova maneira elegante de indicar causa, motivo, razão, mais ou menos como uma fênix que renasce das cinzas.

É esperar para ver o que acontece.

As nuances da verdade

Algumas línguas apresentam mais nuances semânticas a respeito de certos conceitos do que outras. Já se disse que a língua inuíte, dos esquimós do Alasca, tem mais palavras para neve do que o português porque, para um povo que vive no gelo, essa distinção é fundamental; já para quem vive nos trópicos como nós, é irrelevante.

Se em português há uma diferença sutil entre ter razão e dizer a verdade, e uma diferença gritante entre estar errado e mentir, em algumas línguas da Polinésia se usam as mesmas expressões para ambos os sentidos.

Para nós, razão ou equívoco são julgamentos a respeito de uma opinião (portanto de uma crença sobre a realidade). Já verdade e mentira são julgamentos sobre a postura de alguém perante um fato. No primeiro caso, o erro ou acerto decorre do grau de conhecimento (ou de ignorância) do sujeito sobre a realidade; no segundo, verdade e falsidade decorrem de uma intencionalidade (sinceridade ou malícia) do falante. Por isso, dizer a uma pessoa que ela está equivocada é menos ofensivo do que acusá-la de estar mentindo. Ao mesmo tempo, dar razão a alguém é solidarizar-se com sua convicção, não necessariamente legitimá-la como quem prova uma tese.

Ao transformar os esquemas mentais em sentenças lógicas, a semiótica cognitiva tem contribuído para aclarar questões como essa. Se digo que o sujeito S1 está dizendo a verdade (ou mentindo) sobre um fato F, pressuponho primeiro que existe uma verdade objetiva a respeito de F e que S1 conhece essa verdade. Então se S1 diz F a um sujeito S2 (isto é, faz S2 saber F), ele diz a verdade; se diz o contrário, está mentindo.

Em termos lógicos:

  • F é um fato real objetivo: F(+real);
  • S1 sabe disso: S1 saber F(+real);
  • S1 afirma F(+real) a S2 (portanto diz a verdade): S1 fazer S2 saber F(+real);
  • S1 afirma F(–real) a S2 (portanto mente): S1 fazer S2 saber F(–real).

Por outro lado, se F é verdade e S1 não tem certeza disso, mas apenas uma convicção, então o esquema lógico é o seguinte:

  • S1 é de opinião que F(+real): S1 crer F(+real);
  • S2 sabe ou acredita que F(+real): S2 saber/crer F(+real);
  • S1 afirma F(+real) a S2 (portanto S2 lhe dá razão): S1 fazer S2 saber F(+real);

ou:

  • S1 é de opinião que F(–real): S1 crer F(–real);
  • S2 sabe ou acredita que F(+real): S2 saber/crer F(+real);
  • S1 afirma F(–real) a S2 (portanto S2 o julga equivocado): S1 fazer S2 saber F(–real).

Muito complexo? Deu nó na cabeça? De fato, não vou dizer que é totalmente simples. Mas esse tipo de álgebra cognitiva, embora pareça complicada aos não iniciados, descortina o que, em seu nível mais profundo, um enunciado significa. A questão é que cada língua, ao transformar essa descrição lógica hiperprofunda (isto é, em nível de raciocínio) da realidade em enunciados linguísticos de superfície (em nível de discurso), filtra uma série de informações. No exemplo aqui citado, as línguas polinésias se atêm mais à congruência entre o que é dito e o que é real do que à intencionalidade do falante. Para nós, talvez a intenção de quem fala seja mais relevante do que a veracidade ou não do conteúdo de sua fala. Essas diferentes nuances de significado revelam muito da cultura de cada povo, de seus valores e do modo como as pessoas se relacionam. Nos tempos atuais, em que a opinião vale mais do que a verdade, seria bom que todos entendessem a lógica por trás dos discursos.

O estupro culposo e a polêmica da semana

A língua portuguesa ganhou esta semana uma nova expressão: estupro culposo. Para quem não tem acompanhado o noticiário, trata-se do caso da jovem promoter catarinense Mariana Ferrer, que alega ter sido violada sexualmente por um empresário após ter sido drogada por ele. Exames comprovaram que, até então, ela era virgem.

A divulgação do vídeo da audiência on line de julgamento do empresário, de que participaram o juiz do caso, o promotor de justiça, o advogado de defesa do réu e a vítima, causou enorme indignação na sociedade pelo modo desrespeitoso como o advogado tratou a jovem e pela omissão tanto do juiz quanto do promotor perante tamanho acinte.

Mas o que mais surpreendeu a opinião pública foi o parecer do promotor e o consequente veredicto do magistrado absolvendo o empresário da acusação de estupro de vulnerável, já que, segundo o entendimento destes, não houve dolo na ação do réu, que não tinha como saber que a vítima estava em condição de vulnerabilidade.

Diante dessa alegada ausência de dolo, o site jornalístico The Intercept, que divulgara o vídeo, chamou jocosa e inteligentemente o ato do empresário de “estupro culposo”.

Cabe ressaltar que essa expressão jamais foi empregada durante o processo e o julgamento, até porque tal tipo penal não existe na legislação brasileira, tendo sido, portanto, uma criação poético-humorístico-mercadológica do site jornalístico. No entanto, a desinformação logo se alastrou na rede, e a turma da “lacração” passou a contestar de forma indignada o tal estupro culposo, viralizando hashtags como #nãoexisteestuproculposo, dentre outras.

Lacrações e desinformações à parte, o fato é que a expressão pegou e, a meu ver, veio a calhar, já que expressa bem o que foi o entendimento da corte. Afinal, venhamos e convenhamos, como é possível acreditar que um homem que realiza intercurso sexual com uma mulher não tenha condições de saber se ela está acordada ou dormindo, se está sóbria ou bêbada, lúcida ou drogada?

Ou seja, a aceitação da absurda tese da defesa pela acusação e pelo juiz, somada ao comportamento totalmente antiético e desumano dispensado pelo advogado à vítima, reforçaram ainda mais o aspecto viral da supracitada hashtag e do neologismo pseudojurídico veiculado por ela.

Portanto, galera, que fique claro: “estupro culposo” não é um tipo penal existente e, portanto, jamais foi invocado no processo, mas sim uma chamada espirituosa de um veículo de imprensa. Porém lembro aqui que o estupro doloso existe, ocorre no Brasil a cada oito minutos e, na opinião deste humilde cronista que pouco entende de Direito, foi o que aconteceu no caso Mari Ferrer.

A origem da palavra “luto”

Hoje, dia de Finados, vou responder à pergunta do leitor Paulo Sérgio Rezende Santos, que vem a calhar:

Bom dia. Ouvi dizer que a palavra “luto” veio do latim “lutus” porque o amarelo era a cor do luto na Roma antiga. Isso é verdade? Obrigado.

Meu caro Paulo, quem lhe disse isso fez uma pequena confusão entre duas palavras latinas, que são lūteus (e não lutus), adjetivo que significa “amarelo”, e lūctus, substantivo derivado do verbo lūgēre, que quer dizer exatamente “luto”.

Ou seja, a palavra portuguesa “luto” é empréstimo do latim lūctus, de mesmo significado. Quanto à ideia incorreta de que “luto” teria algo a ver com lūteus, isto é, com a cor amarela, justifica-se o equívoco: é que, na Roma antiga, as pessoas em estado de luto se vestiam de amarelo. Aliás, no Oriente, a cor do luto é o branco; a cor preta é uma adoção do Cristianismo. Esse hábito de vestir-se de negro após a morte de um ente querido surge na Idade Média e provavelmente tem origem na associação da morte com a escuridão e, consequentemente, com o desconhecido e também o sono eterno.

O fato é que muitos povos têm o costume de demonstrar pesar através da roupa. Mesmo os índios brasileiros, que geralmente não usam roupas, têm uma pintura corporal específica para celebrar os mortos.

Mas quem lhe disse que “luto” vem de lutus também deve ter confundido lūteus, “amarelo”, com lutum, “lodo”, já que a inexistente palavra lutus parece resultar do cruzamento de lutum com lūteus, talvez motivado pela impressão de que a lama às vezes tem cor amarelada. Mas trata-se de mera etimologia popular, isto é, sem base científica, pois em latim há o adjetivo lūteus (com u longo), que, como vimos, significa “amarelo” e luteus (com u breve), derivado de lutum, “lama”, que significa “feito de lama, feito de argila” e também conotativamente “negro, sujo”. Portanto, para os romanos a lama era negra e não amarela.

Uma última curiosidade: a palavra latina lūteus, “amarelo”, deriva de lūtum, nome de uma planta (a gauda, ou lírio-dos-tintureiros) que era justamente usada para tingir os tecidos de amarelo. E a origem remota de lūtum é a raiz indo-europeia *gl̥tom, que também deu em inglês gold, “ouro” (pois o ouro é amarelo).

Bom feriado a todos!

Mitos e verdades sobre a linguística – e os linguistas

A linguística já tem 200 anos de existência, mas ainda é uma ciência pouco conhecida da maioria das pessoas. De fato, muitas delas acreditam que a única disciplina que se ocupa da língua é a gramática, já que é a única que se estuda no ensino básico.

Consequentemente, nós linguistas somos muitas vezes confundidos com gramáticos ou professores de português. Não raro, quando digo que sou linguista, a pessoa fica imediatamente constrangida e diz: “Puxa, então a partir de agora eu preciso me policiar para não falar errado na sua frente”. Na coluna Pergunte ao Linguista deste blog, a maioria das perguntas que recebo diz respeito à famosa dicotomia certo x errado ou traz dúvidas de gramática normativa. Até aí, tudo bem: se sei a resposta, respondo; se não sei, pesquiso; se está totalmente fora da minha área de atuação profissional, me desculpo, e pronto.

Mas, mesmo aqueles que têm alguma noção do que venha a ser a linguística revelam por vezes certas crenças equivocadas que lhes foram inculcadas ou por professores de português mal (in)formados ou por divulgadores da linguística pouco preparados (e, sim, há muitos divulgadores científicos na área da linguística, mas a maioria são estudantes de graduação ou pós-graduação, portanto profissionais ainda não totalmente formados, com pouca experiência profissional e sobretudo com pouca maturidade).

Decorrência disso é que há muitos mitos cercando a nossa profissão. Por isso, resolvi aqui discutir alguns deles e tentar esclarecer o que há de verdade e o que há de fantasia em cada um.

Primeiro mito: a linguística só estuda a língua falada, especialmente no registro coloquial; a língua escrita formal é território exclusivo da gramática normativa. Na verdade, durante todo o século XIX, em que a pesquisa linguística foi basicamente histórica, os linguistas se debruçaram sobre os únicos registros existentes de estados passados das línguas, e estes eram todos documentos escritos. Foi só no início do século XX, a partir da obra de Ferdinand de Saussure, que a linguística se voltou mais à língua falada, até porque 96% das línguas do mundo não têm expressão escrita (são as chamadas línguas ágrafas). Em outros dois artigos (A importância da escrita na pesquisa linguística e Língua oral ou língua escrita: qual é melhor?), no entanto, já expliquei que a modalidade escrita da língua é objeto legítimo da linguística tanto quanto a língua oral. Isso continua valendo para os estudos históricos, mas também para a análise do modo como as pessoas escrevem hoje em dia. E isso tem implicações no ensino da língua. Aliás, a linguística pode contribuir muito com os gramáticos normativos, ortógrafos e educadores, fornecendo-lhes subsídios científicos para guiar suas tarefas técnicas.

Segundo mito: a linguística é contra a gramática normativa e defende que cada um deve se expressar como quiser, qualquer que seja a situação de discurso. Nada mais falso! É bem verdade que há alguns colegas falsamente progressistas, inclusive professores de prestigiosas universidades públicas, que, influenciados por uma leitura enviesada da sociolinguística, defendem que a inclusão social passa pela legitimação em todas as esferas da sociedade do modo de falar dos menos escolarizados. Mas o que a própria sociolinguística ajudou a demonstrar é que a língua varia não só de uma classe social a outra como também de uma situação de comunicação a outra. Isso significa que há situações, principalmente profissionais, em que é legítimo exigir o uso da norma-padrão, aquela regulamentada pela gramática normativa. O que linguistas verdadeiramente progressistas entendem como inclusão social é o ensino dessa norma-padrão a todos os cidadãos, para que todos tenham acesso a melhores posições sociais e profissionais e, por conseguinte, acedam a uma vida melhor. Tanto não é verdade que a linguística defenda o vale-tudo na língua ou que deseje demolir a norma-padrão que os próprios linguistas pseudoprogressistas se expressam nessa norma nos artigos em que advogam a abolição da dita-cuja. Ou seja, esse combate à norma é posição absolutamente minoritária entre os linguistas e não passa de hipocrisia com viés ideológico e político-partidário.

Terceiro mito: todo linguista é poliglota. Não, não necessariamente. Aliás, a maioria dos linguistas que conheço fala no máximo duas línguas: português e inglês. No entanto, é natural que as pessoas vocacionadas a trabalhar com o objeto língua amem as línguas e se interessem por várias delas. Ou seja, muitos linguistas (inclusive este cronista) são, de fato, poliglotas. Eu particularmente acredito que um linguista poliglota seja melhor profissional do que um monoglota. E explico: quando só falamos a nossa própria língua, ou no máximo mais uma muito próxima da nossa, como é o caso do inglês ou do espanhol, tendemos a não perceber certos fenômenos e certas relações que transcendem o nosso idioma; corremos, além disso, o risco de tomar por gerais fatos que são particulares da língua que falamos/estudamos ou, ao contrário, de considerar como particularidades da nossa língua fatos que são gerais ou, pelo menos, comuns a muitos idiomas.

O que ocorre é que grande parte dos nossos linguistas se formou em Letras com especialização em um único idioma, geralmente o próprio português, e só foi trabalhar efetivamente com a ciência da linguagem na pós-graduação, acabando por dedicar-se ao estudo da língua em que se especializou. Contudo, enquanto no Brasil a maior parte dos linguistas se dedica ao estudo da língua portuguesa, e mais especificamente ao português brasileiro, em países do Primeiro Mundo estuda-se de tudo, desde a própria língua pátria até idiomas muito exóticos e mesmo línguas mortas. O que sabemos sobre a antiga língua egípcia, por exemplo, se deve muito mais a linguistas franceses, britânicos e norte-americanos do que aos próprios egípcios.

Daqui decorre o quarto mito, o de que o linguista deve necessariamente estudar sua própria língua e, mais, o ensino dessa língua. Como disse, se esta é a tendência no Brasil, não é uma regra geral. Aliás, as grandes teorias linguísticas nasceram de pesquisadores que não só estudaram muitas línguas diferentes como também analisaram a linguagem humana de maneira abstrata, como sistema universal ligado aos processos cognitivos da mente. Nesse sentido, fazemos aqui no Brasil, com raras e louváveis exceções, o que chamo de a pequena ciência, enquanto nos países mais desenvolvidos se faz a grande ciência.

Quanto a dedicar-se a pesquisas sobre o ensino de língua, trata-se de tarefa da chamada linguística aplicada. É evidentemente uma tarefa muito digna e muito importante, sobremaneira num país com um déficit educacional tão grande como o nosso. Mas trata-se apenas de uma dentre dezenas, talvez centenas, de aplicações possíveis dessa ciência. Logo, nem todo linguista entende de ensino de línguas; tudo depende da área em que ele é especialista.

Bem, acho que por ora é suficiente. Meu conselho aos leitores é que não acreditem em tudo o que se diz sobre a linguística: há muita fake news e muita manipulação ideológica a respeito.

O preconceito linguístico é um problema dos linguistas?

Um dos temas mais frequentes nos círculos linguísticos atualmente é a questão do chamado preconceito linguístico. O conceito, instituído por Marcos Bagno no livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, é definido como qualquer forma de discriminação a uma pessoa ou grupo pelo modo como fala. No entanto, o próprio Bagno reconhece que o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social, pois o que se discrimina não é propriamente o linguajar de certas pessoas e sim as próprias pessoas. Quando, por exemplo, censuramos os erros gramaticais (do ponto de vista normativo, bem entendido) de um falante de pouco estudo, o problema não é a fala desse indivíduo em si, mas o fato de que essa fala “rústica” é indício de uma origem pobre. Portanto, o problema não é a fala, mas a posição social do sujeito falante.

Não à toa, o preconceito linguístico se dirige as mais das vezes aos membros das classes mais baixas e aos cidadãos procedentes das regiões mais atrasadas economicamente. No caso brasileiro, seu alvo preferencial são os pobres em geral e os moradores da periferia em particular, os “caipiras” (isto é, habitantes do meio rural) e os nordestinos, em especial os migrantes para os grandes centros urbanos.

Nota-se isso mesmo em situações inocentes como um programa humorístico em que o caipira e o nordestino são sempre figuras cômicas, cuja fala é caricatural. De modo mais geral, todos temos a tendência a rechaçar aquilo que de nós é muito diferente, o que significa que os próprios interioranos e nordestinos podem ter preconceito contra os falantes urbanos do Centro-Sul do país.

Além disso, tendemos a estranhar e, no limite, rejeitar falas que se afastem muito do padrão gramatical, vocabular ou fonético da língua. (Sobre este último padrão já falei no artigo Qual o sotaque mais bonito? E o mais feio?.)

Mas, se o preconceito linguístico é, na verdade, preconceito social, quem deve se ocupar dele: os linguistas ou os sociólogos?

Existem muitos tipos de preconceito: o preconceito racial, ou racismo, o preconceito étnico ou de origem geográfica, que também é uma forma de racismo, o preconceito religioso, o preconceito sexual/de gênero, ou sexismo, e muitos outros.

Bem, o racismo como fenômeno social é objeto das chamadas ciências sociais (história, sociologia e antropologia, principalmente) e não da biologia, a quem o conceito de raça está mais intimamente ligado. Igualmente, o preconceito de origem geográfica não é objeto de estudo dos geógrafos, nem o sexismo é estudado pelos sexólogos, e menos ainda o preconceito religioso faz parte da teologia ou da ciência da religião. Essa constatação suscita a pergunta: por que os linguistas deveriam estudar o preconceito linguístico? A meu ver (e esta é uma posição estritamente particular minha), todo preconceito social, seja ele de raça, origem, sexo, religião, origem ou posição política, é um fenômeno a ser estudado pela sociologia, e o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social do qual a língua é só um índice.

Na verdade, há muito pouco de linguístico a ser estudado no preconceito linguístico: quando estudamos a fala dos menos favorecidos e dos grupos discriminados, nosso foco é a sintaxe, a morfologia, o léxico, a semântica e a fonética desses falantes – ou seja, a questão social propriamente dita não entra em linha de conta. Ao mesmo tempo, vemos que a maioria, se não a totalidade, dos trabalhos acadêmicos sobre preconceito linguístico pouco fala da língua em si e muito da condição social dos falantes e de seu sofrimento diante da discriminação.

O fato é que muitos linguistas não analisam simplesmente o fenômeno sob o ponto de vista científico (isto é, utilizando o chamado método científico), mas fazem militância político-ideológica, o que não tem nada a ver com o fazer científico. De fato, a ciência faz juízos de verdade, não juízos de valor. É claro que todo cientista é, antes de mais nada, um cidadão e, como tal, tem todo o direito de manifestar suas posições político-ideológicas e até partidárias, mas um trabalho acadêmico não é o melhor lugar para fazer isso.

Todos sabemos que há muito preconceito e mesmo violência fatal contra os integrantes do grupo LGBT, mas, se estes são reconhecidos por seus perseguidores pelo modo como se vestem ou gesticulam, seguramente não compete aos estudiosos da moda ou da gestualidade (no caso, os semioticistas) analisar esse triste fenômeno.

Evidentemente, o preconceito é fruto da ignorância. Mas, como também mostrei no artigo anterior, o preconceito, no sentido de prejulgamento, é um mecanismo de origem biológica que em muitos casos pode salvar nossas vidas. O exercício do preconceito no meio social é um resquício de nossa ancestralidade animal, que só a educação e a cultura podem ajudar a domesticar.

Por isso mesmo, todo ser humano tem o direito a ter seus preconceitos e a ser ignorante. O preconceito só se transforma em crime quando passa do simples sentimento de repulsa a alguém à violência física, psicológica, moral ou verbal, ou quando se traduz em cerceamento do direito alheio. É digno de nota que o preconceito linguístico nunca se traduz em crime. Pelo menos, eu nunca tive notícia de que alguém tenha sido espancado ou morto por falar português “errado”.

Mesmo em casos famosos, como o do linchamento moral do polêmico ex-ministro da educação Abraham Weintraub após este ter grafado “imprecionante” e “paralizar”, é preciso levar em conta que a crítica da mídia e de parte da população não se dirigiu ao nível cultural do ministro em si, mas sim à inadequação desse nível ao cargo que ele ocupava.

O preconceito linguístico pode ser de três tipos: gramatical, lexical e fonético. O preconceito gramatical é voltado contra os que falam “errado”, ou seja, aos que não se expressam segundo a norma culta. Só que, se quem fala errado não teve a chance de estudar, esse preconceito é injusto. Mas, mais uma vez, identifica-se a falta de estudo com a pobreza. Logo, o verdadeiro alvo do preconceito é a classe social e não a gramática do indivíduo.

Já o preconceito fonético e o vocabular se direcionam preferencialmente contra os que são de outra região ou estrato social e, por isso, têm vocabulário e pronúncia peculiares. Nesse caso, como afirmei no início, o preconceito não é contra a fala e sim contra a origem do falante.

A melhor forma de acabar com todos esses preconceitos ligados à linguagem é disseminar entre todos educação de qualidade: quando todos forem bem educados, o “erro gramatical”, especialmente o erro crasso, praticamente desaparecerá. Quando todas as regiões do país forem igualmente desenvolvidas, o preconceito contra o modo de falar desta ou daquela região também será bastante mitigado – a não ser, é claro, naquelas brincadeiras saudáveis e desprovidas de maldade em que paulistas gozam a cara de cariocas e vice-versa.

As raízes biológicas do preconceito

Vê-se, nos dias atuais, um grande esforço em prol da inclusão social, por meio de campanhas educativas, ações afirmativas, valorização da diversidade, repressão à intolerância, adoção de cotas para minorias, e outras. No entanto, por mais que se tente combatê-lo, o preconceito segue firme e forte em todas as sociedades, das mais primitivas às mais desenvolvidas.

Discriminação por motivos étnicos, raciais, religiosos, sociais e até linguísticos parece uma chaga longe de ser superada.

A explicação para esse comportamento pode estar em nossa biologia. Estudos conduzidos de maneira independente em diversas universidades, uns com viés biológico, outros com foco psicológico ou social, apontam que a rejeição que sentimos pelo diferente pode ter sido moldada por milênios de evolução da espécie humana.

Para a bióloga Marta Fischer, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o preconceito é algo natural. “É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies”, afirma a especialista.

Como o homem é um ser gregário, o sentimento de pertencer a um grupo e, consequentemente, o impulso a rechaçar os elementos estranhos foi uma estratégia inteligente de sobrevivência numa época em que estávamos longe de dominar o planeta. Criar vínculos sociais com base em características semelhantes parece natural e é algo que transcende a espécie humana.

Segundo Marta, ao formarmos grupos, atentamos ao que nos aproxima de determinados indivíduos e que nos diferencia dos demais. “Assim, a discriminação ajuda a manter a identidade e união do nosso grupo. Isso nada mais é do que o preconceito. Um animal com cheiro ou aparência distinta dos demais de sua espécie pode chamar a atenção de predadores. Isso faz com que seja discriminado, abandonado ou até mesmo morto por alguém do grupo.”

Em Prejudice, its social psychology (Preconceito, sua psicologia social), Rupert Brown, professor de psicologia da Universidade de Sussex, descreve várias experiências sugerindo que superestimamos características que fogem da normalidade, especialmente em relação a minorias. “Coisas menos comuns que a média, ou que acontecem raramente, parecem atrair uma parcela desproporcional da nossa atenção e são lembradas mais facilmente. Esse fenômeno pode dar origem a estereótipos.”

Segundo uma pesquisa americana, bebês de menos de dois anos usando a mesma roupa tendem a não brincar com uma criança vestida com roupas de cores diferentes das suas.

O papel da evolução biológica na formação do preconceito é claro: toda vez que nossos ancestrais pré-históricos ouviam um barulho estranho, imaginavam algum perigo iminente, como um predador, por exemplo, e tratavam de se proteger. Poderia não ser nada, apenas o vento entre as folhagens, mas, como diz o biólogo britânico Richard Dawkins, um falso positivo pode ser apenas perda de tempo; já um falso negativo pode significar a morte. Ou seja, a seleção natural favoreceu aqueles que tinham um olhar mais desconfiado sobre os outros à sua volta, isto é, os mais preconceituosos.

O mesmo raciocínio se aplica ainda hoje: se estou caminhando por uma rua escura e avisto um sujeito mal-encarado caminhando em minha direção, minha tendência natural – se eu for esperto, claro – é fugir dali. É bem possível que o tal sujeito não seja de fato um criminoso, mas vinha visão preconcebida sobre o seu caráter baseada em sua aparência pode, eventualmente, salvar a minha vida.

Dentre as várias formas de discriminação, está o preconceito linguístico. Esse termo, difundido por Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, denomina a aversão por aqueles que falam de modo diferente, especialmente as pessoas menos escolarizadas, por isso mesmo mais distantes do padrão linguístico, e as provenientes de rincões afastados dos grandes centros, cuja fala é mais regional. Em suma, pessoas que utilizam variedades linguísticas de menor prestígio.

Segundo Bagno, o preconceito linguístico encobre, na verdade, formas mais profundas de discriminação. O indivíduo cuja fala revela origem rural é identificado com traços como pobreza, ignorância, alienação, falta de polidez, de bom gosto, bom senso, cidadania… Ou seja, sua pronúncia e sua gramática nos levam a traçar um raio X — verdadeiro ou equivocado, mas de todo modo preconcebido — dessa pessoa. E aí o preconceito linguístico se torna preconceito social, étnico, religioso ou racial.

Mas, se o preconceito, seja linguístico ou de qualquer outra natureza, existe e é um instinto biológico instalado em nossos genes, então a educação pode — como em relação aos nossos demais instintos —, no máximo, atenuar essa pulsão, jamais eliminá-la: até as pessoas mais cultas e conscientes do problema deixam extravasar, em momentos de descontrole emocional (quando aflora o “instinto animal”), sua ira contra o diferente, em especial se este é visto como inferior.

No caso específico da língua, o preconceito tem duas vertentes: uma de índole grupal e chauvinista, resquício de nossa herança tribal, e outra social, ligada à dinâmica da vida numa sociedade estratificada.

De um lado, o falante reage positivamente a quem se expressa como ele (há imediata identidade: se ele fala como eu, é porque é igual a mim) e negativamente a quem fala de modo diferente. A lógica subjacente, ainda que inconsciente, é: pessoas de outras regiões, classes sociais, credos religiosos, modos de vida não podem me compreender, nem eu as compreendo, então eu as vejo com desconfiança.

De outro lado, há uma tendência a valorizar o que pertence às classes sociais mais elevadas. Assim, tudo o que foge ao padrão, à norma, ao bom uso da língua deve ser rechaçado.

Embora essa postura seja de fato um preconceito e, como tal, seja injusta na maioria das vezes, é um dado real com o qual se tem de lidar. É preciso ter claro que ações educativas ou coercitivas podem reduzir o problema, mas dificilmente erradicá-lo, já que suas causas são biológicas.

Nesse sentido, muitos trabalhos teóricos têm equivocadamente enfatizado os aspectos sociais da questão — alguns linguistas, como Marta Scherre, da Universidade Federal do Espírito Santo, chegam a defender a criminalização do preconceito linguístico — quando seria mais proveitoso unir as teorias da linguagem aos conhecimentos da biologia, psicologia e neurociência para compreender melhor o fenômeno e saber até que ponto somos ou não capazes de combatê-lo. A ciência deve primeiro conhecer os fatos para depois julgar os valores.

Ainda sobre a linguagem neutra de gênero

A mais recente polêmica a agitar a língua portuguesa é, sem dúvida, a questão da chamada linguagem neutra de gênero. Por isso, achei oportuno republicar aqui um artigo meu lançado pela primeira vez alguns anos atrás na extinta revista Língua e que trata da distinção entre o gênero gramatical e o sexo biológico. Hoje incluiríamos também o gênero biopsicossocial. Vamos ao artigo.

O GÊNERO DA NATUREZA

A confusão entre gênero gramatical e sexo influencia nosso imaginário e as representações culturais que fazemos no dia a dia

O gênero é, ao lado do número, uma das categorias gramaticais mais próximas da universalidade. Tanto que a maioria das línguas a tem. Mas se o número pode, de algum modo, expressar propriedade física objetiva (a quantidade), o gênero só faria sentido se estivesse relacionado apenas a seres sexuados. Daí a associação, muitas vezes errônea, que se faz entre gênero gramatical e sexo.

Afinal, seres animados do sexo masculino, em especial humanos, costumam ser designados por substantivos masculinos, e seres animados do sexo feminino, por substantivos femininos. Há contra-exemplos que conturbam essa aparente lógica: em alemão, por exemplo, a palavra Mädchen, “moça, menina”, é do gênero neutro.

Então, por que a maior parte das línguas tem gêneros? É verdade que há línguas, como o húngaro, o finlandês, o japonês e o malgaxe, que não têm, e isso aparentemente não lhes faz falta. Diante disso, qual a utilidade prática da classificação dos seres em categorias como masculino, feminino e neutro?

A origem dos gêneros gramaticais remonta a tempos imemoriais e a línguas pré-históricas das quais não temos registro. Talvez as primeiras línguas, logo que o Homo sapiens começou a falar de modo articulado, já apresentassem tal categorização. Só o que sabemos é que as línguas atuais com gêneros os herdaram de suas ancestrais. Não dá para saber se línguas modernas sem gêneros derivam de outras que também não os tinham ou se essa distinção se perdeu em algum momento de sua evolução.

Estamos tão acostumados a associar gênero e sexo que até mesmo os termos gramaticais “masculino” e “feminino” remetem aos conceitos de macho e fêmea (respectivamente, mas e femina em latim). Mas há uma diferença crucial entre o gênero gramatical e o natural ou semântico, este ligado à sexualidade do objeto. Pode-se comprovar o fato observando que diferentes línguas comportam diferentes sistemas de gêneros, das que não têm, passando pelas que têm dois (português) ou três (inglês), até quatro gêneros, como o sueco.

Cinco gêneros

Em português, temos os gêneros masculino e feminino. Portanto, os substantivos de nossa língua pertencem a um ou outro desses gêneros e são substituídos pelos pronomes pessoais “ele” ou “ela” (o uso do pronome “isso” em alguns casos revela reminiscências de um antigo gênero neutro, mas “isso” não é pronome pessoal) e, principalmente, precedidos dos artigos definidos “o” ou “a”. Como resultado, seres inanimados como “lápis” e “caneta” são tratados lingüisticamente como se tivessem sexo, e seres animados como “águia” e “testemunha”, como se não tivessem. O gênero natural está ligado a dicotomias semânticas como animado/inanimado, sexuado/assexuado, macho/fêmea e espécime/espécie. Trata-se de classificação fundada nos aspectos físicos e biológicos dos seres. Desse ponto de vista, os gêneros naturais são cinco:

Masculino (seres animados do sexo masculino) – Pai, menino, Joãozinho (O meu cachorro se chama Toby);

Feminino (seres animados do sexo feminino) – Mãe, menina, Mariazinha (A minha cadela se chama Viki);

Neutro (nem masculino nem feminino, para seres inanimados e abstratos) – Caderno, felicidade (A ração dos cachorros acabou);

Sobrecomum (masculino ou feminino, para seres animados cujo sexo não está determinado) – Criança, testemunha, vítima (O animal que vi estava ferido);

Complexo (masculino e feminino, para coletivo de seres animados de ambos os sexos): Ser humano, humanidade (O cão é um animal mamífero).

Algumas línguas adotam um sistema de gêneros dito “natural”, fazendo corresponder ao masculino e feminino semânticos o masculino e feminino gramaticais, e atribuindo aos demais gêneros semânticos o neutro gramatical. Todavia, mesmo essas línguas têm exceções. Em inglês são neutros todos os substantivos relativos a seres inanimados, com exceção dos navios, automóveis, aviões e máquinas em geral, que são femininos. Essas exceções têm a ver, em muitos casos, com uma visão de mundo particular da sociedade.

Visão de mundo

Se, em princípio, seres sexuados conduzem a uma coincidência entre o gênero gramatical e o natural, a coisa se complica em línguas de povos que classificam as coisas do mundo segundo uma visão mítico-religiosa ou metafísica.

Em latim, as árvores tinham nomes femininos por serem associadas à figura materna que gera a vida (isto é, dá frutos). Em muitas línguas, predomina uma visão animista do Universo, segundo a qual todas as coisas têm vida e alma, daí terem um gênero animado e por vezes sexuado. Entre certos povos, a palavra para “moça” é neutra, tornando-se feminina no momento em que a jovem concebe. Nessa visão de mundo, a mulher só é vista como tal quando cumpre seu papel procriador.

A atribuição do gênero gramatical às palavras é arbitrária porque não parte, em geral, da análise semântica (gênero natural), mas de uma herança histórica, por vezes transtornada por mutações aleatórias ao longo da evolução. Assim, o latim calor era masculino; em português, seu descendente “calor” manteve o gênero, mas em francês chaleur é feminino. Há exemplos semelhantes: português “costume” (masc.) x espanhol costumbre (fem.); português “flor” (fem.) x italiano fiore (masc.). “Vinho” é masculino em português, francês (vin), alemão (Wein) e grego (oînos), e é neutro em latim (vinum), inglês (wine), sueco (vin) e russo (vino).

Em alemão, as palavras diminutivas com sufixos ‑chen e ‑lein são neutras, não importando o gênero da palavra primitiva. Em inglês, quando se sabe o sexo do animal, é normal referir-se a ele por he ou she; quando não, usa-se o neutro it ou o plural they. A arbitrariedade do gênero gramatical já suscitou até críticas como a de Protágoras, para quem o grego era uma língua enganosa, em que palavras “viris” como capacete, coroa e cólera eram femininas.

O fato é que o gênero gramatical das palavras influencia o imaginário de tal forma que as representações culturais que fazemos refletem a confusão entre gênero e sexo. Nas histórias infantis, o Sol é homem e a Lua é mulher em línguas como o português e o espanhol, em que as palavras para Sol e Lua pertencem a esses gêneros. No imaginário alemão, o Sol é mulher e a Lua, homem, porque a palavra para Sol, Sonne, é feminina, enquanto a para Lua, Mond, é masculina. Em inglês, a figura da Morte é homem; já em português é mulher. O inglês usa expressões como mother nature (mãe natureza) e mother language (língua-mãe) por pura imitação das línguas românicas, notadamente o francês, pois em inglês nature e language são palavras neutras.

Arbitrário

Há outros aspectos sobre gênero. Em primeiro lugar, há uma relação entre animado e agente, bem como entre agente e sujeito. Por isso, nas línguas indo-europeias, substantivos animados, que podem exercer a função de sujeito da oração, costumam ter formas distintas no caso reto e no oblíquo, enquanto os inanimados têm uma só forma em ambos os casos.

Em latim, dominus (senhor), é sujeito e dominum, objeto direto; já templum pode ser sujeito e objeto. No inglês, os pronomes pessoais masculinos e femininos têm formas para sujeito e objeto (he/him, she/her), mas o neutro tem uma só, it.

Em segundo lugar, muitas línguas associam o feminino ao coletivo. Em árabe, o feminino de “juiz” significa igualmente “magistratura”. Em grego, o neutro plural faz concordância no singular, como se fosse coletivo: to grámma estìn, “a letra é”; ta grámmata estìn, “as letras são” (literalmente, “as letras é”). Parece que em grego ta grámmata é entendido tanto como “as letras” quanto “o alfabeto”. Não por acaso, muitos coletivos em português são femininos (mulherada, bicharada). Em italiano, algumas palavras masculinas fazem um plural feminino: ginocchio/ginocchia, “joelho(s)”, uovo/uova, “ovo(s)”, e assim por diante.

Ao menos no indo-europeu, a distinção de gênero mais importante era entre “animado” e “não-animado”; a oposição masculino/feminino seria detalhamento da classe “animado”. Daí surgirem os três gêneros da maioria das línguas indo-europeias: masculino, feminino e neutro. Este, por sinal, tem seu nome derivado do latim ne uter, “nem um nem outro”.

Militantes contra o preconceito de sexo – erroneamente chamado de “preconceito de gênero” – acusam as línguas de ter pronomes “sexistas” e exigem mudança até no texto da Bíblia (frases como “nem só de pão vive o homem” seriam machistas). Tudo porque a evolução fonética fortuita tornou masculinas palavras neutras. E porque a confusão entre gênero gramatical, natural e sexo biológico, estimulada pela adoção de termos gramaticais inadequados, está enraizada em nossas crenças sobre a natureza da linguagem.

A globalização da linguagem neutra de gênero

A onda da linguagem neutra de gênero não atinge só a língua portuguesa. O inglês, que, por sinal, é o idioma pátrio do politicamente correto, tem nos dado diversos exemplos disso, facilitados pelo fato de que a própria gramática da língua não distingue gêneros a não ser em situações muito específicas. Assim, teacher pode referir-se tanto a um professor quanto a uma professora; doctor, a um médico ou médica; e assim por diante.

No entanto, há algumas profissões que admitem masculino e feminino. Aquelas terminadas por man, por exemplo, como postman (carteiro), milkman (leiteiro) e chairman (presidente) permitem a substituição de man por ‑woman – embora isso não fosse muito comum até as mulheres passarem a exercer as funções de carteira (não confundir com o objeto em que se guarda dinheiro), leiteira e presidenta (esta última principalmente depois do mandato da inesquecível Dilma Rousseff).

Além dessas profissões, temos waiter (garçom) x waitress (garçonete) e actor (ator) x actress (atriz). Não obstante, já há algum tempo a imprensa e a Wikipédia vêm empregando o termo actor indistintamente para nomear homens e mulheres (algo parecido aconteceu na língua portuguesa, que decidiu aposentar poetisa e chamar a mulher que verseja de poeta).

Pois Cate Blanchett, que foi a presidente/presidenta do júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza deste ano, afirmou que sempre foi “ator”. Durante a coletiva de imprensa de abertura do evento, quando perguntada sobre o que achou da decisão do Festival de Berlim de dar “prêmios neutros” em gênero em vez das tradicionais categorias de “melhor ator” e “melhor atriz”, respondeu:

— Não é um posicionamento político, mas eu sempre me referi a mim mesma como ator. Eu acho que não temos uma linguagem de gênero específica e sou de uma geração em que a palavra “atriz” era sempre usada de modo pejorativo.

Sua colega, a atriz Tilda Swinton, acrescentou:

— Eu fiquei realmente muito feliz em saber dessa decisão de Berlim e acho inevitável que todos venham a fazer o mesmo. É algo tão óbvio para mim.

Faz algum tempo que a língua inglesa também neutralizou a palavra dog para designar tanto cães quanto cadelas. É que a palavra específica para “cadela” em inglês, bitch, assumiu a conotação depreciativa de “prostituta” – quem já foi xingado de son of a bitch sabe bem disso.

O inglês também modificou sua gramática em função da neutralização de gênero. Com isso, uma frase como “Todo mundo sabe o que quer”, que antes se dizia Everybody knows what he wants, hoje é formulada como Everybody knows what they want, ou seja “Todo mundo sabe o que querem”, pois they é pronome pessoal único de plural e corresponde tanto ao plural de he quanto ao de she.

Enquanto isso, no Brasil, alguns malucos propõem substituir ele e ela por ile, aquele e aquela por aquile, este e esta por iste, e assim por diante. Vocês se imaginam falando desse jeito? Eu não.

Pessoas transgêneras?!

Volta e meia a novilíngua politicamente correta resolve mudar o significante de certas palavras sem alterar o significado e, o que é pior, sem modificar a realidade que ela representa. A mais nova vítima dessa camuflagem do sentido pela manipulação da forma parece ter sido a palavra “transexual”, que agora atende pelo nome de “transgênero”. Já falei em outra postagem sobre a (não) diferença entre sexo e gênero. Seguindo a mesma linha de raciocínio, houve-se por bem substituir o termo “transexual” por “transgênero” quando adjetivo (não faz sentido dizer que na minha sala de aula há três transgêneros e sim que há três alunos/alunas/alunes/alunxs transgênero).

Ocorre que “transexual” admite flexão de número (plural “transexuais”), ao passo que “transgênero” é palavra invariável em gênero e número. Ou era até certos estagiários de jornalismo, que hoje fazem as vezes de redatores, decidirem flexioná-la. E eis que lemos coisas como “mulher transgênera”, “pessoas transgêneras”, etc. Transgêneras?! Será possível isso? Bem, a linguagem politicamente correta e os estagiários de jornalismo podem tudo, certo?

Mas o fato é que, sendo resultante da mera aposição de um prefixo trans- ao substantivo gênero, “transgênero” é impossível de flexionar. Assim como temos “aulas-piloto” e não “aulas-pilotas”, bem como “casamentos intra-raça” e não “intra-raços” (intrarraciais ainda é a melhor solução), não faz nenhum sentido do ponto de vista gramatical flexionar “transgênero/transgênera/transgêneros/transgêneras”.

Uma solução bem menos traumática para a língua seria a adoção dos adjetivos “transgenérico” ou “transgênere”. Observem que o uso de “genérico” como adjetivo referente a gênero é corrente em zoologia e botânica, assim como se usa “específico” em relação a espécie biológica. Ou seja, genérico não é só aquilo que é geral, que não tem especificidade, mas também um termo técnico usado na biologia. E o gênero masculino, feminino ou outro não deixa de ser um traço biológico, embora muitos sustentem que também tem muito de psicológico (de toda maneira, continuamos no campo das ciências naturais).

Mas a minha preferência é mesmo por “transgênere”, cuja terminação em “e”, tomada do latim e ocorrente em palavras como “congênere” (que é do mesmo gênero), “imberbe” (que não tem barba), “insone” (que não tem sono) e muitas outras, também tem o charme politicamente correto de ser comum de dois gêneros (gramaticais), portanto um prato cheio para quem adora linguagem neutra de gênero (sexual).

Nestes nossos tempos de menines, amigues, namorades e outres, “transgênere” já vem terminada em “e” sem ferir a morfologia de herança latina da língua portuguesa. Gostaram da sugestão?

O pronome inventado

É possível inventar um pronome? Certas categorias de palavras são inventários fechadíssimos, cujas unidades, herdadas de uma língua ancestral, estão lá desde sempre, e nos quais nenhuma nova unidade pode entrar. Dentre essas categorias estão os numerais (pelo menos os de um a três), os nomes das partes do corpo e os pronomes, principalmente os demonstrativos e os pessoais.

Por isso, pesquisas filogenéticas, que tentam reconstituir as árvores genealógicas das línguas, costumam usar essas palavras para determinar com segurança o parentesco entre dois idiomas. Sendo quase nula a possibilidade de esses termos passarem de uma língua a outra por empréstimo, se duas línguas apresentam formas aparentadas dessas palavras, provavelmente pertencem à mesma família.

Alguns pronomes até podem surgir ao longo da história da língua. Na verdade, eles evoluem a partir de outros pronomes. É o caso de “você”, que proveio do antigo pronome de tratamento “vossa mercê”. Mas não se trata de empréstimo, muito menos de invenção.

Apesar disso, o sueco ganhou na década de 1960 um novo pronome pessoal: trata-se do hen, proposto por linguistas com o objetivo de neutralizar a oposição masculino/feminino numa época dominada pelos movimentos feministas e de direitos civis, em que o uso do gênero masculino em expressões como “ser humano” era malvisto. (Reflexos disso se encontram até hoje em expressões como “brasileiras e brasileiros”.)

Em sueco, há quatro gêneros gramaticais – e consequentemente quatro pronomes pessoais: masculino (pronome reto han), feminino (hon), comum (den) e neutro (det). Praticamente todas as palavras dessa língua pertencem ao gênero comum (chamado de realgenus em sueco); o masculino e o feminino são reservados a seres animados, especialmente humanos, cujo sexo está determinado (portanto, “pessoa”, “animal”, “vítima”, etc., são do gênero comum). As palavras neutras formam uma pequena classe de substantivos abstratos ou inanimados que, por razões históricas, não foram incorporados ao realgenus.

Porém, em qualquer língua em que haja distinção de gênero, há casos em que é preciso falar de alguém cujo sexo não se sabe, mas que seria deselegante tratar por um pronome neutro. Em inglês, por exemplo, seria absurdo usar o pronome it para referir-se a uma pessoa que se desconhece se é homem ou mulher. Por isso, as línguas tentam contornar essa dificuldade inventando formas gráficas que camuflem a distinção.

Em português, inúmeras cartas se iniciam por um “Prezado(a) Senhor(a)”. (Um modismo idiota vem utilizando, sobretudo na internet, o sinal “@” para desfazer a oposição de gênero: “querid@s amig@s”.) Pior ainda é o uso de “x”, que torna as palavras impronunciáveis: “queridxs amigxs”.

No inglês, é comum empregar he or she (“ele ou ela”) para expressar o chamado gênero complexo (isto é, ao mesmo tempo masculino e feminino, abarcando homens e mulheres). Uma versão piorada desse estratagema é a grafia (s)he. Em textos informais, usa-se atualmente they (“eles” ou “elas”) para neutralizar a oposição de gênero, mesmo que o referente seja singular.

Outra estratégia do inglês foi adotar o termo chairperson para designar o cargo de presidente, já que o tradicional chairman contém o elemento man, “homem”, remontando aos tempos em que todos os dirigentes eram homens. (O nosso “Presidenta” vai na direção oposta.)

O próprio sueco já adotava grafias estranhas para neutralizar han e hon: h*n, h?n, h_n, haon, hoan, todas reprovadas pela gramática. E a maioria delas impossível de pronunciar. O fato é que não se faz uma mudança na língua “de cima para baixo”, a partir de uma criação de laboratório, sem provocar estranheza nos falantes – e, acima de tudo, muita polêmica. O resultado prático é que o hen acabou abandonado pouco após sua criação, até que, em 1994, o linguista Hans Karlgren o propôs novamente como um pronome neutralizador de gênero para determinadas situações de escrita. Em 2009, hen aparece na Enciclopédia Nacional Sueca descrito como pronome pessoal neutro a ser usado em lugar de han e hon. E em 2012 Jesper Lundqvist lançou o livro infantil Kivi och Monsterhund (“Kivi e o cachorro-monstro”, sem tradução para o português), em que utiliza hen para falar às crianças sem discriminá-las entre meninos e meninas.

Segundo Susanna Karlsson, chefe do Språkrådet (Conselho da Língua), o polêmico pronome serve para disseminar a ideia de igualdade. Não só a igualdade entre homens e mulheres, mas também a de pessoas transgênero. No que é contestada por seu colega Mikael Parkvall, para quem a ideia de que a língua determine o pensamento, embora popular, é bastante questionável em termos científicos. “O laço entre o idioma e o pensamento não é especialmente forte e não se torna mais paritário só porque se utiliza um pronome neutro”, diz.

Para Sven-Göran Malmgren, redator do dicionário da Academia Sueca, “não há um único exemplo no mundo em que um pronome tenha sido inventado e depois imposto”. A própria inclusão da palavra nas próximas edições do mais prestigioso dicionário do idioma depende da adesão popular ao termo. O que, até o momento, parece não estar acontecendo. Segundo pesquisa realizada pelo jornal Aftonbladet, 96% das pessoas entrevistadas não utilizam hen nem acreditam que se possa construir uma sociedade igualitária pela simples invenção de palavras.

MPB, MPP e pop

Outro dia, ouvi um cantor português relatar que os intérpretes da terrinha em geral não gostam de cantar MPB por causa do uso do pronome “você” nas letras. É que em Portugal “você” é tratamento formal, de modo que um verso como “eu amo você” significa para eles algo como “eu amo o senhor” ou “eu amo a senhora”, o que parece uma declaração de amor aos avós.

Por outro lado, se cantores brasileiros cantassem canções portuguesas (o que, por sinal, não fazem), letras dizendo “tu és”, “tu foste”, “dizes” ou “fizeste” soariam para nós como aquelas valsas antigas com letras parnasianas dos tempos de Vicente Celestino, Pixinguinha e Ernesto Nazareth.

Ou seja, diferenças linguísticas acabam por atrapalhar o intercâmbio cultural entre nações irmãs. O fato é que a música popular brasileira faz algum sucesso em Portugal porque, apesar das letras, nossa música é realmente muito boa. Já a MPP (música popular portuguesa, na sigla inventada por mim) não é sequer conhecida por aqui e, pelo que sei, não faz sucesso nem entre os demais europeus.

Enquanto isso, a música pop anglo-saxônica circula livremente entre todos os países anglófonos sem obstáculos linguísticos. É que, salvo uma ou outra palavra, uma ou outra gíria, a língua inglesa é exatamente a mesma em todos os lugares. Aliás, a própria difusão internacional de filmes, séries de TV e canções de língua inglesa se encarrega de espalhar as novas gírias.

É claro que o soft power exercido pelas nações anglófonas se deve a uma série de razões, históricas, políticas, econômicas, sociais e culturais. Mas que a homogeneidade da língua contribui para isso não há dúvida.

Brasil il il il il!!!

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DISCLAIMER:

Atenção, haters, este artigo contém altas doses de ironia. (Caso você não saiba o que é ironia, consulte um dicionário; caso você não saiba o que é um dicionário, nem se dê ao trabalho de ler o texto abaixo – se é que você consegue.
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Talvez por causa de nosso complexo de vira-latas, nós brasileiros temos a mania de querer ser os melhores do mundo em tudo. E assim vamos criando nossa mitologia: melhor futebol do mundo, maior carnaval do planeta, o povo mais simpático, acolhedor e cordial de todos, a melhor música popular, a modelo mais famosa, o maior campeão mundial de fórmula um…

Pois bem, em matéria de covid também estamos mostrando a que viemos. Começamos timidamente e, “comendo pelas beiradas”, chegamos ao segundo lugar no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos (mas aí também é covardia, afinal o país mais rico e poderoso tinha de ser o primeiro; os EUA são hors-concours, ainda mais com Trump à frente). Portanto, diante dessa superpotência, nosso segundo lugar tem gosto de primeiro, ou, como diria o técnico da seleção de 1978 Cláudio Coutinho, somos os “campeões morais” dessa competição.

E não é que, de repente, sem aviso, na semana passada a Índia nos ultrapassou em número de casos? Também, com uma população de mais de um bilhão de habitantes, fica difícil concorrer. Mesmo assim, o valente povo brasileiro não se dá por vencido. Tanto que ainda detemos o segundo lugar em número de mortes, e este os indianos não vão nos roubar, ah não vão mesmo!

Foi com toda essa determinação que, mesmo com regras rígidas de isolamento e até lockdown, nossos patrióticos cidadãos saíram às ruas, lotaram bares, restaurantes, shoppings e praias, sem máscara e sem distanciamento social, mostrando que, em matéria de disseminação de epidemias, não somos nem um pouco amadores.

Também contribuíram muito para nosso sucesso os diligentes prefeitos, que, atendendo ao clamor popular – especialmente em ano de eleição –, flexibilizaram o distanciamento de maneira precoce e descoordenada. Afinal, quem é que pode viver sem ir ao shopping? E assim, sensíveis a essa necessidade básica e premente da população, liberaram o comércio de rua, os barzinhos, os parques, as praias e relaxaram a fiscalização para que esta não importunasse os beberrões e os boêmios.

Por falar em descoordenação, não podemos deixar de louvar nosso valoroso Presidente da República, que, com seu exemplo de não usar máscara em público, provocar aglomerações, rodear-se de criancinhas, passar a mão no nariz e em seguida cumprimentar apoiadores, de demitir ministros técnicos e substituí-los por militares e ainda de recomendar o uso de um medicamento sem qualquer eficácia contra a doença, contribuiu muito para insuflar nos brasileiros esse sentimento de que, se depender de nós, ganhar a corrida da covid será uma barbada.

Mas que fique claro que não fazemos tudo isso apenas pelo espírito de competição com outras nações do mundo, especialmente a do Tio Sam, mas porque temos a plena consciência de que precisamos a todo custo salvar as empresas e os empregos mesmo que isso custe algumas centenas de milhares de vidas. Afinal, a maioria dos mortos não é mais produtiva mesmo, já que se trata de idosos aposentados. Aliás, isso até aliviará as contas da Previdência – ou seja, matamos (literalmente) dois coelhos com uma só cajadada.

É bem verdade que sempre haverá os derrotistas e estraga-prazeres a dizer que vidas são mais importantes do que a economia, que nosso brilhante primeiro-mandatário se eximiu de responsabilidade em coordenar esforços contra a pandemia, culpando o STF e os governadores e prefeitos pelo nosso quadro atual, mas não liguem: essas pessoas são antipatriotas e torcem pelo nosso fracasso. Mesmo assim, tenho certeza de que essa momentânea reação indiana não nos desanimará: continuaremos dando nosso melhor, frequentando lojas, templos e baladas, fazendo festas clandestinas, dando carteirada nos fiscais chatos que insistem em cercear nossa liberdade civil e nosso direito democrático de sair à ruas sem máscara e disseminar a doença porque, afinal, somos brasileiros, e brasileiro não desiste nunca.

Ei, americanos, aguardem-nos que estamos chegando, e a corrida ainda não terminou!

No dia da Independência, a origem da palavra

Acho nossa data nacional, o Sete de Setembro, uma expressão bastante sonora e, portanto, retumbante como devem ser as datas nacionais. E é retumbante talvez pela reiteração do número sete no nome do mês – em documentos medievais, setembro chegava a ser grafado como 7bro –, embora saibamos que setembro não é o sétimo e sim o nono mês do ano. A explicação para esse desencontro entre número e mês o leitor pode conferir no vídeo “Abril tem a ver com abrir?”, no meu canal do YouTube.

Mas hoje quero falar sobre a origem da palavra independência. Segundo a maioria dos dicionários, independência deriva por prefixação do substantivo dependência, que por sua vez provém do adjetivo dependente, por sua vez do verbo depender, sendo este empréstimo do latim dependere.

Na verdade, as palavras independência, dependência e dependente vieram todas do francês, cujos registros mais antigos são anteriores aos nossos. Mas, de fato, depender, assim como o francês dépendre, proveio do latim dependere, formado de de‑, “para baixo” e pendere, “pender, estar pendurado”. Portanto, “depender” é literalmente “pender para baixo, estar pendurado (em algo ou alguém)”.

É muito interessante essa visão da dependência como a situação de alguém que só se sustenta em pé ou no ar na medida em que pende (por uma corda, por exemplo) de alguém ou de algum lugar. Isso significa que o dependente pode cair a qualquer momento se a pessoa ou coisa que o sustenta retirar seu apoio, mais ou menos como cabides pendem de um varão, roupas pendem de um varal ou filhos menores dependem dos pais. Isso vale também para a dependência química, em que a abstinência provoca intenso mal-estar.

Como resultado, independência é a condição de quem não está amarrado a nada, de quem não precisa de nada ou ninguém em quem se pendurar. O que me faz questionar se somos de fato uma nação independente. Mas isso já é outra história.

Bom final de feriado a todos!

Os muitos significados de “dar”

A maioria das palavras de qualquer língua é polissêmica, isto é, tem  mais de um significado. Na verdade, muito poucas são as palavras monossêmicas, aquelas que significam uma só e única coisa, como hexaclorofeno ou tromboflebite. Entre as campeãs da polissemia em português está, sem dúvida, o verbo “dar”. Basta “dar” uma consultada no dicionário para constatar o sem-número de acepções desse vocábulo (o Michaelis, edição 2002, dedica uma página e meia, o equivalente a cinco colunas, a esse verbete).

É fácil perceber como tal verbo se presta às mais variadas necessidades expressivas. Numa simples frase como “Agora deu pra dar pernilongo nesta casa”, “dar” significa “começar” e a seguir “aparecer”. Para muito além do sentido original de ofertar algo a alguém (“João deu o livro à sua irmã”), esse verbo foi assumindo outras nuances, algumas inusitadas e imprevisíveis. Afinal, se é possível dar coisas concretas (um livro, maçãs, dinheiro), também se pode dar coisas menos palpáveis, como um beijo ou um tapa. Daí para “dar uma olhada”, “dar cabo”, “dar com a cara na porta” (ou “com a língua nos dentes”) foi um pulinho.

Vejamos apenas alguns dos inúmeros significados de “dar”.

  • Fazer, executar: dar uma limpada no quarto, dar um escândalo;
  • Importar-se: pouco se me dá que ele não tenha gostado;
  • Brotar: em se plantando, tudo dá;
  • Produzir: esta terra dá de tudo;
  • Ser possível: não deu para esperar por ele;
  • Fazer sexo: ela dá para qualquer um;
  • Ocorrer: faço o que me dá na telha;
  • Passar-se por: ele vive dando uma de rico;
  • Bater: vou dar na cara desse idiota;
  • Ser veiculado: essa notícia não deu nos jornais;
  • Chegar: andei tanto que fui dar em outra cidade;
  • Resultar: de um jeito ou de outro dá no mesmo;
  • Bastar: pra mim já deu!

O citado Michaelis “dá” 59 acepções da palavra, algumas delas com outro tanto de sub-acepções. E, com certeza, nem todos os sentidos correntes na fala diária estão contemplados. Afinal, novos empregos desse verbo surgem a todo momento, e a gente nem se “dá” conta.

“Dar” não é só um dos verbos mais polissêmicos do português, mas quem sabe de todas as línguas europeias (talvez apenas o inglês “get” supere o nosso “dar”). Dá para acreditar?

O óculos? A calça?

Os gramáticos reclamam quando o povo diz “vestir a calça” em vez de “vestir as calças”. O problema é que ninguém consegue vestir uma calça só! Ou seja, não faz sentido, segundo a lógica dos falantes, dar um nome plural a um objeto singular. Por isso, as pessoas dizem coisas do tipo “eu gozei duas férias, mas ele gozou só uma”. Só uma “férias”? Soa estranho, mas faz sentido: “férias” não é plural de “féria” (que é a renda que um prestador de serviço aufere por dia de trabalho), mas é uma outra coisa, e uma coisa só, indivisível (exceto quando alguém resolve gozar as férias em partes: uma quinzena no meio e outra no fim do ano, por exemplo).

Mais alarmante para os gramáticos do que “a calça” é “o óculos”. Dizem eles: óculos é substantivo plural (ou pluralício, isto é, que não admite singular), portanto o correto é “os óculos”. Mas, e se me perguntarem quantos óculos eu tenho, o que devo responder? Devo contar cada lente como um óculo separado? Ou devo computar os óculos aos pares? Se tenho dois pares de óculos, devo responder que tenho dois óculos ou quatro? (A expressão “usar um par de óculos” é tão pouco prática na comunicação cotidiana quanto “vestir um par de calças” e “pedir duas xícaras de café”: o comum é usar um óculos, vestir uma calça e pedir dois cafés.)

Esse rigor em relação à concordância de número é bem menor na língua inglesa, em que substantivos como means, news, politics e physics, por exemplo, têm forma plural mas concordam no singular (the news is not good), ao passo que people e police, dentre outros, têm forma singular e concordam no plural (two people, many people, the police were called). Os gramáticos de língua inglesa não veem muito problema nisso, tanto que até recomendam a concordância de um substantivo singular com um verbo no plural quando o sentido desse substantivo é coletivo, como no caso de police, que significa indiferentemente “a polícia” ou “os policiais”. Temos ainda casos como o de fish, que pode ser singular ou plural (one fish, two fish, etc.), sem que os gramáticos exijam a flexão fishes. Trata-se das idiossincrasias de cada idioma — e dos gramáticos de cada idioma.

Vou encher tua boca de porrada

No último fim de semana, nosso desbocado presidente, perguntado por um repórter sobre os depósitos na conta da primeira-dama que totalizaram 89 mil reais, respondeu com um “minha vontade é encher tua boca de porrada”. Não vou entrar aqui na questão já muito debatida do total despreparo e destempero de Bolsonaro ao lidar com a imprensa livre e sua notória postura antirrepublicana e antidemocrática de não prestar contas de seus atos ou dos de seus familiares e amigos.

O que quero comentar é o termo usado por ele para ameaçar o jornalista: porrada. Essa palavra, assim como porrete e porretada, deriva de porra, termo de origem espanhola que primitivamente designa uma clava constituída de um pau curto com cabeça de metal e que hoje é mais conhecida por seu uso chulo com o significado de “esperma, sêmen”.

Em português, porra aparece pela primeira vez em 1136 significando exatamente “porrete”. Segundo o dicionário etimológico Corominas da língua castelhana, deve ter provindo do latim porrum ou porrus, literalmente “alho-porro” (no Brasil também chamado de alho-poró), por analogia entre o bastão de cabo grosso e a hortaliça de talo longo e bulbo largo em uma das extremidades. Tanto assim que, no próprio latim, porrum ou porrus, além do vegetal, também denominava uma espécie de palmatória usada para castigar crianças e escravos.

Portanto, porrada é originalmente o golpe dado com a porra, isto é, o porrete, e que hoje é mais comumente desferido com o punho cerrado (o golpe com o instrumento é normalmente referido como porretada).

Mas, e o sentido de “esperma”, de onde teria vindo? Minha tese é de que houve aí uma metonímia do tipo continente pelo conteúdo. O vocábulo porra teria sido empregado inicialmente para nomear metafórica e eufemisticamente o órgão sexual masculino, dada a semelhança física entre ambos. Daí surge por derivação parassintética o verbo esporrar, formado do prefixo es- (do latim ex-), que quer dizer “para fora” e do radical de porra. Significando, portanto, pôr para fora do pênis. E é aí que entra a metonímia: esporrar passa a ser entendido como “expelir porra”, ou seja, o termo deixa de denominar o órgão sexual e passa a nomear seu conteúdo, o sêmen.

De esporrar sai o derivado regressivo esporro, com o sentido primeiro de “barulho, escândalo, gritaria de quem está zangado” e, a seguir, o de “bronca que se dá a alguém de forma gritada”. Ou seja, ao dizer que ia encher a boca do repórter de porrada, o presidente acabou limitando-se a dar-lhe um esporro.

De onde vem o sufixo “-alha”?

Olá, Professor! Gostaria de saber de onde vem o sufixo de palavras como “gentalha”, “parentalha” etc.
Muito obrigado.
Wilberley Araújo Gomes

O português tem muitas palavras terminadas em -alha, como as citadas gentalha e parentalha, e também canalha, migalha, muralha, mortalha… Também tem palavras terminadas em -ália, como genitália e parafernália, por exemplo. Ambos os sufixos provêm do latim -alia, plural neutro de ‑alis, sufixo que em português forma adjetivos como nacional, central, cultural, etc. A diferença é que -alha nos chegou por herança latina ou empréstimo de outra língua românica, enquanto -ália é forma culta, vinda do latim por empréstimo.

O sentido latino desse sufixo era plural e coletivo. Assim, se genitale era a redução por elipse da expressão genitale organum, “órgão genital”, o plural genitalia significava “os genitais” (novamente subentendendo “órgãos”). Igualmente, Saturnalia eram as Saturnais, festas em honra do deus Saturno (redução de Saturnalia festa, plural de Saturnale festum, “festa saturnal”). Como a festa durava vários dias, era natural que se usasse sua denominação no plural. E paraphernalia eram os pertences pessoais que a noiva levava para seu novo lar após o casamento. Muitas dessas palavras passaram ao português em sua forma erudita, introduzidas por literatos, como genitália e parafernália. Outras herdamos diretamente do latim e, nesse caso, houve evolução fonética transformando o l seguido de i na consoante palatal lh. Foi assim que o latim Parentalia, “festa anual em homenagem aos parentes mortos” (plural neutro de parentalis, derivado de parentes, “antepassados, parentes”) resultou no português parentalha, com o sentido de “reunião de parentes, conjunto de todos os parentes”. A partir daí, o sufixo -alha se tornou produtivo na formação de coletivos, especialmente depreciativos, como gentalha (reunião de gente baixa, populacho, ralé). Aliás, canalha, que nos chegou do italiano canaglia (o sufixo italiano -aglia tem a mesma origem e significados que o português -alha) também significa “ralé, populacho, escória”, portanto tem sentido coletivo, e posteriormente passou a designar também o membro dessa classe. E como a tradição costuma associar às pessoas de baixa extração social os piores defeitos, daí para canalha passar a significar “calhorda, patife” foi um pulinho. Da mesma forma, migalha é um diminutivo um tanto quanto depreciativo de miga, que já é por si só qualquer coisa insignificante.

O sufixo culto -ália se presta à formação de nomes designativos de reuniões de pessoas, como o movimento musical da Tropicália (reunião de músicos de um país tropical) ou a Carnavália, feira de negócios relacionados ao Carnaval (e também título de uma canção dos Tribalistas).

Mas atenção: nem toda palavra portuguesa terminada em -alha ou -ália possui esse sufixo. Palha vem do latim palea, tralha vem de tragula, fornalha de fornacula, navalha de novacula, e assim por diante.