A realeza da língua

Como pesquisador da história das línguas e, mais especificamente, de suas palavras, sempre me interessei pelo estudo da língua que deu origem à maior parte dos idiomas europeus, inclusive o português, e por isso volta e meia falo dela: o indo-europeu. Mais ainda, quando abordo a origem das palavras do português, sempre gosto de recuar no tempo até o Cáucaso de 6 mil anos atrás e trazer a origem primeira de nossas palavras, qual seja, a raiz indo-europeia que lhes serviu de berço.

Diante do falecimento da rainha Elizabeth e consequente ascensão ao trono de seu filho Charles III, quero falar sobre uma raiz que foi muito produtiva nas línguas da Europa e, sem dúvida, na nossa e que tem tudo a ver com reis. Trata-se da raiz *rēĝ- (na verdade, *h3rēĝ- nas reconstruções mais recentes do indo-europeu). É uma raiz verbal que significa “conduzir, reger, liderar”, mas produziu também o adjetivo (particípio) *h3reĝtós, que quer dizer “reto” (já deu para perceber o que isso tem a ver com o português, né?).

Pois é, essa raiz deu palavras em muitas línguas indo-europeias, como o sânscrito, o persa, o grego, o russo, o lituano, o gaélico, mas o que nos interessa aqui são os vocábulos que passaram ao latim e deste ao português. O primeiro deles é rex, genitivo regis, cujo significado é “rei” (literalmente, “condutor, líder”) e que tem como feminino regina, “rainha”. Um cognato germânico dessa palavra é *riks, que aparece nos nomes próprios Érico, Frederico, Henrique e Rodrigo, dentre outros. Por exemplo, Teodorico é “rei do povo”, de *theudo, “povo”, e *riks, “rei”. E o nome próprio português Régis vem do genitivo de rex e significa “do rei”.

De rex saíram regalis, “real”, regius, “régio”, e regnum, “reino”. De real brotaram realeza e realista (isto é, adepto do rei, da monarquia). E de reino vieram reinar, reinado, reinante.

Mas a raiz *h3rēĝ- também produziu o verbo latino regere, “reger”, e seus derivados dirigere, “dirigir”, erigere, “erigir, erguer”, e corrigere, “corrigir”. Em todos há a ideia de linha reta, de direção (para frente ou para cima). E reto se liga à ideia de “certo, justo”. Logo, corrigir é tornar certo (fala-se na vida reta como aquela sem vícios, uma vida certa, correta, justa, bem como se fala da retidão de caráter). A ideia de linha reta também aparece em régua, que permite desenhar linhas retas, e regra, aquilo que dirige uma atividade.

Mas dos verbos acima vieram outras tantas palavras em nosso idioma: direito, direto, direção, diretor, diretriz, diretiva, dirigente, endireitar, correção, corretor, correto, corregedor, corregedoria, escorreito, ereção, ereto, regente, regência, reitor, reitoria, retificar, retificação, e até mesmo termos insuspeitos como endereçar, endereço, adereçar e adereço.

No antigo germânico, *h3reĝtós resultou em *rehtaz, que é a origem do inglês right e do alemão recht, “direito, certo”. O alemão também tem richtig, de mesma origem e mesmo significado.

Em francês, o latim directus, particípio de dirigere, produziu droit, que aparece no lema da monarquia britânica Dieu et mon Droit, “Deus e meu Direito”, ao passo que indirectus gerou o substantivo endroit, “lugar, local” (originalmente, “endereço”).

Mas o latim vulgar não documentado *directiare passou ao francês dresser, “endireitar, arranjar”, que por sua vez chegou ao inglês como to dress, “arranjar, adornar” e, por conseguinte, “vestir”, donde o substantivo dress, “vestido”.

E de dresser o francês criou por prefixação adresser, “endereçar”, e seu derivado adresse, “endereço”, que, mais uma vez, foram dar em inglês o verbo e o substantivo address.

Em linha reta ou às vezes fazendo algumas curvas, a raiz indo-europeia chegou até nós e enriqueceu muito nosso vocabulário. Ah, e antes que eu me esqueça, enriquecer vem de rico, do germânico *rikjaz, “régio, digno de rei”. Como é rica a história das palavras, não?

Um esclarecimento sobre o “imbrochável”

Há alguns dias, publiquei um artigo sobre a correta grafia do neologismo bolsonarista imbroxável. Desde então, tenho recebido vários comentários, alguns dos quais mal-educados e agressivos, que nem me dou ao trabalho de responder, argumentando que certos dicionários abonam a grafia brocha (com ch) com significado de “pincel”. Nesse caso, segundo esses dicionários, broxa (com x) é somente “pincel”, mas brocha (com ch) pode ser “prego” ou “pincel”.

É preciso fazer algumas considerações sobre isso. Em primeiro lugar, até a reforma ortográfica de 2009, os dicionários registravam exclusivamente broxa, “pincel”, e brocha, “prego”. Num primeiro momento, imaginei que talvez essa tendência de considerar que brocha também pode ser “pincel” fosse uma inovação introduzida pelo Acordo Ortográfico de 1990, implantado no Brasil em 2009. Por isso, fui consultar o VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, no site https://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario. Pesquisando por brocha, encontro: brocha s.f. “prego”, etc.; cf. broxa “pincel”. Já ao pesquisar por broxa, encontro: broxa adj. 2g. s.f. “pincel” s.m.; cf. brocha “prego”, etc.

Como podemos ver, o VOLP distingue claramente os significados de brocha, “prego” e de broxa, “pincel”. Mais ainda, indica que broxa é substantivo feminino (referente a “pincel”), bem como adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino (referente ao indivíduo sexualmente impotente). No verbete brocha, temos cf. (isto é, “confira”) broxa “pincel”. E no verbete broxa, temos cf. brocha “prego”. Fica claro que as duas grafias correspondem a dois significados distintos. E que em cada verbete o VOLP remete ao outro verbete, de grafia e significado diferentes.

Portanto, quando edições pós-reforma ortográfica de dicionários estabelecem que brocha (com ch) significa tanto “prego” quanto “pincel” e põem ambas as acepções no mesmo verbete, ao mesmo tempo em que desaconselham a grafia broxa (com x), temos aí vários problemas.

O primeiro é que não cabe ao dicionário proscrever uma grafia: ou ela é válida porque reconhecida pelo VOLP ou é inexistente. Ora, a grafia broxa consta no Vocabulário Ortográfico, logo é válida e sua interdição pelos dicionários é indevida.

Em segundo lugar, temos o problema etimológico. Broxa vem do francês brosse, que quer dizer “pincel”. Já brocha vem do francês broche, que significa “broca, tacha, prego, fuso de tear” e também “broche” (tendo dado, por sinal, a palavra broche em português). Logo, a diferença de grafia se justifica, afinal o ch francês passa ao português também com ch (veja, por exemplo, chauffeur > chofer), ao passo que ss corresponde em português ora a ss mesmo ora a x (francês passer x português passar, francês caisse, coussin x português caixa, coxim).

Mesmo que a reforma ortográfica tivesse instituído a substituição da grafia broxa por brocha – o que, a meu juízo, não fez –, os vocábulos brocha, “pincel”, e brocha, “prego”, teriam de constituir dois verbetes separados. Dito de outro modo, não seriam duas acepções da mesma palavra e sim duas palavras homônimas. Portanto, os dicionários “moderninhos” erram também aí.

Por fim, se, por absurdo, admitíssemos que os dois significados do termo pertencem à mesma palavra, teríamos o único caso na língua portuguesa de palavra única com duas grafias possíveis e autorizadas. O que temos em nosso idioma e também em muitos outros são palavras homógrafas (mesma grafia e pronúncias diferentes), como leste (do verbo ler) e leste (ponto cardeal), palavras homófonas (mesma pronúncia e grafias diferentes), como concerto e conserto, palavras homônimas (mesma grafia e pronúncia, mas significados e etimologias distintas) como manga (fruta, do malaio) e manga (de camisa, do latim). Temos ainda os chamados alomorfes, palavras de grafia e pronúncia parcialmente diferente, mas com significado idêntico. É o caso de loiro e louro, catorze e quatorze. Aproveito aqui para alertar que alguns dicionários chamam a esses alomorfes de formas divergentes, o que é errado: formas divergentes, alótropos ou dobretes são palavras totalmente distintas, com mesma origem mas étimos (isto é, trajetórias de chegada à língua) diferentes. São formas divergentes aurícula e orelha; desígnio e desenho; prumo e chumbo; defensa, defesa e devesa; plano, porão, piano e chão, dentre outros.

Em resumo e como resposta aos leitores que me advertiram de que eu estaria errado – alguns, como disse, de modo rude e contrário aos princípios da civilidade –, reafirmo que broxa é pincel, brocha é prego e que imbroxável no sentido dado por nosso histriônico presidente é com x e apenas com x. E tenho dito!

Monarquia ou república?

Desde o falecimento da rainha Elizabeth II do Reino Unido e a consequente ascensão ao trono de seu filho, o agora rei Charles III, vem ganhando corpo naquele país o debate sobre o possível fim da monarquia britânica. Pesquisas mostram que cerca de 40% dos britânicos são republicanos, e hashtags como #notmyqueen e #notmyking pulularam nas redes sociais nestes últimos dias.

Sem dúvida, a república é um regime de governo mais moderno que a monarquia, tanto que a maior parte dos países do mundo foi monárquica até o século XIX e, desde então adotou o sistema republicano.

No entanto, gostaria de fazer algumas considerações sobre essa possível opção entre monarquia e república que a eventual impopularidade do novo soberano britânico pode quem sabe levar seus súditos a ter de fazer dentro de algum tempo.

Antes de mais nada, quero esclarecer que não sou monarquista e, apesar do clima romântico que a monarquia brasileira inspirou e que até hoje rende telenovelas de época de grande sucesso, penso que o Brasil teria se desenvolvido mais se tivesse sido uma república desde a Independência. Mas há alguns fatos a serem analisados e ponderados.

Em primeiro lugar, alguns dos países mais desenvolvidos do mundo, como Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Japão, são monarquias, e não parece que os povos dessas nações estejam descontentes com seus soberanos. Nesses países, o índice de defensores da república é baixo, talvez porque o custo financeiro desses regimes seja menor que o da coroa britânica. De fato, a principal reclamação dos súditos de Charles III diz respeito ao fausto em que vive a família real sustentado pelo dinheiro dos contribuintes – embora há já algum tempo a realeza pague impostos. De todo modo, essas monarquias que citei estão entre os países mais ricos do mundo, perfeitamente capazes de custear esse regime sem prejuízo da qualidade dos serviços públicos. O fato é que, enquanto a pequena parcela mais rica e desenvolvida da humanidade é governada por reis, a imensa maioria dos países mais pobres do mundo é de repúblicas, muitas delas comandadas por ditadores.

Outro fato que talvez explique a antipatia de parcela do povo britânico pela sua monarquia são os escândalos em que volta e meia a família real se envolve. Mas escândalos não são exclusividade da realeza, é bom lembrar. Aliás, o Brasil republicano é pródigo neles.

Por outro lado, a monarquia britânica, com seus rituais de troca da guarda, passeios do monarca em carruagem dourada pela cidade, aparições públicas do soberano na sacada do Palácio de Buckingham, além da existência de palácios e castelos, soldados com fardas belíssimas, títulos de nobreza, etc., tudo isso atrai turistas do mundo inteiro e, por conseguinte, gera renda ao país. É bem verdade que parte dessa renda vai para a própria família real, que licencia produtos – canecas, chaveirinhos, camisetas e outros souvenirs – com a imagem da rainha ou o brasão real, mas, em vez de acabar com a monarquia, bastaria transferir para o estado essa arrecadação. Para se ter uma ideia, a realeza britânica é uma das marcas de maior valor agregado que existem. Se fosse uma empresa, seria uma das mais caras do mundo.

Outro aspecto a ser considerado e que explica a grande atração e fascínio que esse regime exerce é o próprio imaginário popular, muito ligado a reis, rainhas, príncipes e princesas. Aqui no Ocidente, fomos governados por monarcas por pelo menos 2 mil anos, desde o Império Romano, passando pelos reinos europeus medievais, com suas histórias de cavalaria, depois pelas monarquias absolutistas da Idade Moderna, representadas nos romances de capa-e-espada como Os Três Mosqueteiros, até chegarmos às monarquias nórdicas da atualidade. Esse sistema de governo e todo o estilo de vida a ele ligado ainda está tão impregnado em nós que até hoje ninguém chama a um filho pequeno de “meu presidentinho” ou “minha primeira-daminha”: ainda são os príncipes e princesas que nos fascinam e é como eles que as crianças gostam de se fantasiar nas festas infantis. E ainda são contos de fada com príncipes e princesas que contamos aos nossos filhos.

Há ainda a questão da estabilidade política que o regime monárquico proporciona. Em países governados por soberanos, é raro vermos crises institucionais, ameaças de golpe ou coisa parecida. É claro que há reinos e reinos. Uma coisa é a Grã-Bretanha, cujos 70 anos de reinado de uma rainha Elizabeth carismática e popular garantiram essa estabilidade, muito embora a última revolução ocorrida na Inglaterra tenha se dado no século XVII. Outra coisa são reinos como a Tunísia, a Arábia Saudita e a Tailândia. Mas o que pesa aí não é o regime em si, é o nível de desenvolvimento do país. Em outras palavras, nações subdesenvolvidas estão sujeitas a conviver com a instabilidade política qualquer que seja o sistema de governo. Ademais, o risco de corrupção num reinado é menor do que numa república: reis já são ricos e desfrutam dessa riqueza de forma vitalícia, portanto não precisam desviar dinheiro público.

Por sinal, a monarquia britânica tem sido até hoje a responsável por manter o Reino Unido unido, isto é, por impedir a desagregação do estado em face de separatismos como o escocês, por exemplo.

De todo modo, a troca constante de governantes, própria do regime republicano, gera sempre mais instabilidade, especialmente em países como o Brasil, em que é costume cada novo mandatário desfazer todas as realizações de seu antecessor, não necessariamente porque não fossem boas, mas por puro revanchismo político.

Em estados como o Reino Unido, cujo sistema de governo é parlamentarista, o papel do rei é puramente simbólico, assim como também o seria o de um presidente da república. Basta ver que em repúblicas parlamentaristas como Portugal, Itália e Alemanha o presidente pouco apita. Nesse caso, que diferença faria trocar o rei por um presidente? Aliás, grande parte da culpa que se atribui aos monarcas ingleses pelos desmandos do Império Britânico – exploração colonialista, escravidão, roubo de relíquias históricas das colônias – cabe na verdade aos primeiros-ministros do Império, os reais governantes a perpetrar essas barbaridades. Por sinal, a França, republicana desde 1870, cometeu os mesmos abusos em suas colônias.

Por fim, vale lembrar que, se a grande queixa dos republicanos britânicos é o alto custo da monarquia, repúblicas também custam caro. Basta ver os gastos do governo norte-americano com seu presidente em termos de segurança, mas também de cerimonial. Aliás, o estado republicano brasileiro é um dos mais caros do mundo – haja vista o quanto pagamos de impostos – a despeito da pobreza da maior parte de nossa população e dos péssimos serviços públicos oferecidos em troca. Fica aí uma questão para se pensar.

Rei Charles ou rei Carlos?

A recente ascensão do príncipe Charles, filho primogênito da falecida rainha Elizabeth II do Reino Unido, ao trono britânico, fez com que toda a imprensa brasileira passasse a chamá-lo de rei Charles III (houve dois outros monarcas ingleses com esse nome antes dele).

Em Portugal, o príncipe foi chamado de Carlos desde sempre, assim como a rainha era Isabel II, e os filhos de Charles, a saber, William e Harry, são Guilherme e Henrique. O mesmo princípio de tradução de nomes de soberanos vale para os países de língua espanhola, francesa, italiana e alemã.

Mesmo no Brasil é costume referir-se aos monarcas  e papas pelas traduções portuguesas de seus nomes originais. Assim, falamos do rei Luís XIV de França, de Henrique VIII de Inglaterra, do imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, do papa João Paulo II, e assim por diante. Inclusive os dois supracitados reis ingleses homônimos de Charles são conhecidos no Brasil como Carlos I e Carlos II. Portanto, o mais lógico seria que desde já passássemos a nos referir ao novo rei da Grã-Bretanha como Carlos III e não como Charles III. Aliás, a expressão “rei Charles”, que tem sido veiculada na mídia falada (rádio, TV e podcasts), gera certa confusão com Ray Charles, o famoso cantor americano de rhythm’n’blues e soul.

Quanto a Elizabeth, poderia ter sido aportuguesado para Elisabete, uma vez que o nome em inglês da rainha Isabel de Castela é Isabella e não Elizabeth, o que indica que se trata de dois nomes distintos, ainda que tenham a mesma origem hebraica. O mesmo ocorre com Diogo, Diego, Tiago, Iago, Jaime e Jacó, que são nomes diferentes (por exemplo, ninguém se refere a Santiago como São Jaime ou São Jacó), embora se originem todos do hebraico Ya’akov.

Imbrochável ou imbroxável?

O coro de apoiadores de Bolsonaro que, no último Sete de Setembro, entoou o grito “imbroxável, imbroxável” suscitou, além de perplexidade em muitas pessoas, algumas dúvidas linguísticas. Primeira: essa palavra existe? Segunda: qual a sua origem? Terceira: a grafia correta é imbrochável ou imbroxável?

Primeiramente, é preciso dizer que, ao contrário do que afirmam muitos gramáticos, uma palavra existe na língua a partir do momento em que é criada e passa a ser usada socialmente. Essa nova palavra, que ainda não consta nos dicionários, é chamada de neologismo. Nesse sentido, pode-se dizer que Bolsonaro e os bolsonaristas criaram um neologismo. Se ele sobreviverá a ponto de ser dicionarizado ou se desaparecerá após algum tempo como moda passageira, só a história dirá. Muitos neologismos são assim criados como termos da moda (vide as gírias dos jovens) e, meses depois, caem em desuso. É a lei da seleção natural agindo sobre as palavras como age sobre os seres vivos. Algumas sobrevivem e até deixam descendentes (palavras derivadas, por exemplo), outras morrem e por vezes nem deixam vestígio.

Quanto à origem da palavra imbroxável, é um derivado parassintético do verbo broxar (parassíntese é um processo de derivação que consiste em prefixar e sufixar a palavra primitiva ao mesmo tempo). Trata-se de um termo um tanto chulo para designar a perda da ereção do pênis durante a relação sexual. Logo, imbroxável é o indivíduo que supostamente (apenas supostamente) nunca broxa.

E broxar, de onde vem? Vem de broxa. E broxa, todos sabem, é aquele pincel graúdo que os pintores usam para pintar paredes, especialmente com tinta à base de cal. A relação entre a broxa de pintura e a disfunção erétil é bem sugestiva: quando o pintor mergulha a broxa na tinta e depois a retira da respectiva lata, os pelos do pincel arqueiam todos para baixo sob o peso da tinta impregnada neles.

Como o leitor deve ter percebido, até o momento utilizei broxa, broxar e imbroxável com x, mas também existe em português a brocha com ch, só que com outro significado. Brocha é um tipo de prego, ao passo que o pincel se grafa broxa. Essa é mais uma das pegadinhas do nosso idioma que podem representar uma casca de banana no caminho de vestibulandos e concurseiros. Brocha e broxa são denominadas palavras homófonas, isto é, que têm a mesma pronúncia, mas grafias diferentes.

Portanto, se imbroxável deriva de broxar, e este de broxa, a grafia correta do primeiro é com x e não com ch, como tem saído na imprensa.

Motociata ou motosseata?

Neste Sete de Setembro, o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez promoveu uma motociata – e mais uma vez sem usar capacete –, o que, por sinal, se tornou marca registrada de seu governo. Tanto que essa prática até plasmou a própria palavra motociata, uma passeata de motocicleta. Mas quem consolidou a grafia do termo foi a imprensa escrita. E de maneira errada.

Em primeiro lugar, voltemos à palavra passeata, a primeira da família que surgiu em nosso idioma, como empréstimo do italiano passeggiata, “passeio”, derivada do verbo passeggiare, que, como o nosso passear, remete ao primitivo vocábulo passo. Ou seja, trata-se de um percurso cumprido a pé, dando passos. O que o português fez foi aclimatar o termo italiano ao nosso idioma, substituindo o radical original do verbo passeggiare pelo do verbo vernáculo passear. Em ambas as línguas, a palavra passou em certo momento a designar um deslocamento coletivo, especialmente para protestar ou comemorar.

Quando essas passeatas de celebração ou protesto passaram a ser feitas de carro, cunhou-se o termo carreata utilizando o mesmo sufixo ‑ata de passeata. Agora que Bolsonaro introduziu o hábito de fazer passeatas de motocicleta, o lógico é que se fizesse um mix (chamado de palavra-valise) de moto e passeata, que resultaria na grafia motosseata e não motociata, como trazem a mídia impressa e a eletrônica.

Será que quem cunhou essa grafia motociata estava pensando em negociata, por exemplo? Não seria estranho em se tratando do governo Bolsonaro e seus aliados do Centrão ou da quantidade de imóveis que sua família comprou com dinheiro vivo. Mas não deve ter sido esse o caso. Acho mais provável creditar essa grafia esquisita à ignorância do jornalista que deu à luz o termo, seguida da ignorância dos jornalistas que o replicaram. O problema é que, uma vez consolidada uma grafia errada, leva tempo para consertá-la. Haja vista o tempo que demorou para que as pessoas entendessem que grafar mussarela com ss era errado e começassem a escrever muçarela corretamente com ç.

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Em tempo: como brasileiro, me sinto envergonhado pelo papel ridículo que fizemos mais uma vez perante o mundo na comemoração dos 200 anos da independência. “Imbrochável”, comparação machista entre primeiras-damas, uso da cerimônia para fazer campanha política em vez de saudar a importância da data, menosprezo ao convidado de honra da solenidade, o presidente de Portugal, posto no palanque em posição secundária enquanto a lateral do presidente Bolsonaro era ocupada por um Luciano Hang fantasiado de Zé Carioca… Enfim, nenhum respeito à liturgia e às responsabilidades do cargo de Presidente da República, ainda mais em data tão importante e que só se repetirá daqui a 100 anos. Que lástima!

Programas, shows e concertos

Uma das coisas mais interessantes que a linguística nos ensina é que cada língua, espelho de uma cultura, “recorta” a realidade de modo diferente, mesmo quando se trata de línguas muito próximas, que partilham em grande parte uma mesma visão de mundo, como é o caso das línguas europeias.

Um exemplo disso é o curioso caso das palavras programa, show e concerto. Para nós brasileiros, a primeira representa um espetáculo de televisão, seja um musical, uma série, um documentário, uma atração humorística ou “de auditório”, como se diz. Já a segunda é para nós essencialmente um espetáculo de música popular a que se assiste num teatro ou casa de espetáculos (mais raramente num ginásio ou estádio) e que pode eventualmente ser transmitido pela TV. Finalmente, a terceira é um espetáculo de música erudita – também chamada de música clássica, sinfônica ou de concerto –, seja ele presencial ou televisionado.

Em contraste, a língua inglesa raramente emprega program (ou programme) para programas de TV: o usual nesse caso é falar-se em TV show. Em compensação, o que aqui chamamos de show lá nos países de língua inglesa eles chamam de concert, isto é, “concerto”. Igualmente, os concertos de música erudita são concerts para os anglofalantes. O que, a meu ver, faz todo o sentido. Afinal, até o século XIX havia uma clara distinção entre a música erudita, que tinha esse nome justamente por ser consumida pela elite econômica e cultural da sociedade, e a música popular, essencialmente tocada e dançada nos folguedos e festas populares com instrumentos rústicos como pandeiro e banjo.

Naquela época, a música chamada erudita tinha nomes como “Concerto n.º 1 para piano e orquestra opus 31” e era executada em um teatro centenário, com acústica que dispensava microfones e amplificadores, por uma orquestra sinfônica composta de músicos trajando casaca e regida por um maestro que ficava de costas para a plateia. Enquanto isso, a música popular eram valsinhas e modinhas ou então aquilo que hoje chamamos de música folclórica (coco, caboclinho, maracatu, xote, catira, vanerão, fandango, polca, tarantela) e tinha nomes como “A primeira vez em que te vi”, “Não te apartes de mim, ó, linda dama”, e outras cousas do gênero.

O fato é que, a partir do século XX, quando a música sinfônica descamba para coisas como música estocástica e música eletroacústica, utilizando até utensílios como panelas, bigornas e folhas de zinco como instrumentos musicais, e a música popular se torna um conjunto de gêneros muito diferentes entre si, como jazz, tango, bolero, rumba, salsa, merengue, samba, MPB, rock, pop, soul, blues, rhythm’n’blues, funk, dance, house, lounge, K-pop, world music, etc., utilizando orquestras, instrumentos eletrônicos e produções milionárias, fica difícil dizer o que é erudito e o que é popular. Ou seja, atualmente existe apenas música, e a própria música sinfônica ou de concerto se tornou apenas mais um dentre os muitos gêneros que encontramos nas lojas de discos (as que ainda existem, evidentemente) e nas plataformas de streaming.

Hoje, temos o jazz moderno e a música instrumental em geral, além de música new age, jazz-rock, rock progressivo e rock sinfônico, que se aproximam muito da música erudita. Aliás, muitos arranjos do pop internacional e da MPB abusam de elementos sinfônicos, como naipe de cordas ou metais, piano, cravo, órgão, harpa, tímpanos, enquanto músicos sinfônicos compõem peças para sintetizadores, guitarra elétrica, violão, cavaquinho, etc. Isso sem falar de arranjos sinfônicos para canções populares, tipo The Royal Symphony Orchestra Plays Beatles. E sem falar também que compositores populares como Paul McCartney, Robin Gibb e Francis Hime já enveredaram pelos concertos e sinfonias.

Temos ainda as trilhas sonoras incidentais de filmes, compostas por mestres como John Williams, Ennio Morricone, Nino Rota, Michel Legrand e outros grandes nomes com formação erudita e tocadas por orquestras sinfônicas. Temas como os de Indiana Jones, E.T. e Superman são verdadeiras sinfonias.

Ao mesmo tempo, quão populares são Tom Jobim, Burt Bacharach ou Yanni? Dá para metê-los no mesmo balaio de Zeca Pagodinho, Anitta, Michel Teló e Bonde do Tigrão?

Ou seja, voltamos ao que a música era na Antiguidade e Idade Média: uma única forma de arte e uma única profissão, a de músico, que apenas se divide em gêneros por razões estéticas. Sempre haverá aquela música que agrada mais ao ouvido apurado do ouvinte culto e refinado e aquela que agita as multidões, o chamado “povão”. Mas também sempre haverá literatura, teatro, cinema, dança, teledramaturgia e artes visuais para todos os gostos. No entanto, Marcel Proust e cordel nordestino são apenas literatura e não literatura erudita e literatura popular. O mesmo se diga de Leonardo da Vinci e dos grafittis de rua (é bem verdade que, na dança, ainda há quem distinga entre balé clássico e balé moderno, mas as companhias de dança de hoje em dia sabiamente misturam as duas coisas, e as escolas de dança atualmente formam bailarinos versáteis).

Por isso, certos estão os ingleses e americanos, que chamam qualquer espetáculo de música, das sinfonias de Beethoven ao rap de Eminem, de concerto. Afinal, as palavras ganham novos significados conforme evolui a sociedade. Por exemplo, hoje um estúdio é um local onde se gravam discos, vídeos, filmes e novelas e também se fazem fotos e produtos gráficos enquanto, no passado, um estúdio era, como diz o próprio nome, o lugar onde se estuda – um misto de biblioteca e escritório. De uma década para cá, estúdio passou também a ser um nome chique para apartamento conjugado ou quitinete. O mundo muda, a língua muda junto. Simples assim.

Racionalidade, não racionalidade e irracionalidade

A semiótica, ou ciência da significação, é um poderoso instrumento de explicação e compreensão do sentido – tanto explícito quanto oculto – dos discursos. E para cumprir esse objetivo, uma das ferramentas da chamada semiótica greimasiana (proposta inicialmente pelo estudioso lituano Algirdas Julien Greimas) é o quadrado lógico-semiótico. Segundo sua teoria, todo discurso e, por extensão, toda ação humana (que para ele é discurso) se apoia na tensão dialética entre opostos. Seu quadrado semiótico baseia-se no quadrado lógico de Aristóteles, cujos vértices superiores representam dois conceitos contrários (por exemplo, vivo e morto), ao passo que cada um dos vértices inferiores representa o contraditório do atributo situado no vértice superior diametralmente oposto. Seriam eles, respectivamente, não morto e não vivo. Como é óbvio, um ser animado só pode estar num dos estados vivo ou morto. Já um ser inanimado, como uma caneta ou uma pedra, não está nem vivo nem morto.

Para compreender semioticamente a psique humana, vamos colocar nos vértices superiores do quadrado os contrários racionalidade e irracionalidade; teremos então quatro combinações possíveis de situações, conforme a figura abaixo.

Como podemos ver, a não racionalidade, contraditório da racionalidade, não é o mesmo que a irracionalidade. Quando dizemos que os animais são irracionais, na verdade queremos dizer que são não racionais, isto é, não agem segundo a razão, o raciocínio lógico (tenho sérias dúvidas disso); já irracional é toda atitude contrária à razão, como rasgar dinheiro, por exemplo.

A não irracionalidade é o estado de quem está, digamos assim, em seu juízo perfeito. É o que podemos chamar de sensatez ou equilíbrio mental. Já a não racionalidade envolve aqueles processos em que somos guiados por outras instâncias da mente, como a intuição e a emoção. Dito em outros termos, racionalidade é pensar com a cabeça, ao passo que não racionalidade é pensar com o coração. Todos nós fazemos ambas as coisas dependendo da situação. Ninguém responde a uma prova de matemática pensando com o coração: “Vou escolher a alternativa b) porque é a equação mais bonita” (até há alguns vestibulandos que fazem isso, mas não aconselho). Igualmente, ninguém é racional quando está apaixonado. Declarar seu amor ao ente amado com a cabeça em vez do coração certamente não funcionará.

Como resultado, quando somos racionais e não irracionais, portanto, sensatos, estamos no domínio da razão. Já quando não somos nem racionais nem irracionais, somos emocionais: estamos no domínio da emoção, do sentimento.

E quando alguém é ao mesmo tempo irracional e não racional? Essa pessoa está naquele estado que chamamos de loucura: só emoção, nenhuma razão, nenhuma sensatez. Essa loucura a que me refiro aqui não é só a condição patológica identificada pelos psiquiatras como psicose, aquilo que leva muitas pessoas a uma internação em clinicas psiquiátricas e manicômios (nos países em que ainda existem); trata-se na verdade de um estado em que todos nós podemos nos encontrar em determinados momentos da vida. Aquele indivíduo que vê seu bem mais precioso, que levou a vida inteira para conquistar, ser tomado por um assaltante e se atraca com o criminoso sem pensar que pode perder a vida se encontra nesse estado de loucura transitória. Aquele sujeito que, diante de uma situação banal como um arranhão em seu carro ou uma fechada no trânsito, parte para a agressão ou mesmo saca uma arma e mata também está nesse estado. Quem se encontra em depressão profunda e tenta o suicídio, idem. Quem frequenta um culto religioso cujo pastor grita histericamente durante vários minutos, onde se toca e canta música alta e repetitiva até que todos entrem em transe, costuma experimentar esse estado – sim, semioticamente falando, o transe é uma espécie de loucura, que, no caso em questão, leva facilmente o indivíduo a doar dez por cento de sua renda à igreja, dinheiro com o qual o pastor vai comprar sua mansão, seu jatinho particular, seu canal de televisão e vai formar sua bancada no Congresso Nacional. Ou seja, o fanatismo, quer religioso, quer político ou futebolístico, é uma forma perigosa de loucura.

Se razão é pensar com a cabeça e emoção é pensar com o coração, a loucura é o não pensar, o agir sem pensar, o agir por impulso, por instinto ou por perda das faculdades mentais.

Como se pode ver, a semiótica é um instrumento poderoso de explicação da realidade.

Latente e patente

Cada vez mais escuto dizer de algo muito evidente que “está latente”. Outro dia ouvi no rádio que a vitória de Lula nas próximas eleições é um fato latente. E também que é latente a constatação de que há corrupção no governo Bolsonaro. Só que, querendo dizer uma coisa, as pessoas estão dizendo exatamente o contrário. Na verdade, latente quer dizer “oculto, não manifesto, não evidente”. O que as gentes estão querendo dizer é que a vitória do petista e a corrupção no governo do “mito” são fatos patentes. Sim, patente é aquilo que está exposto para todos verem, escancarado mesmo, aquilo que até cego enxerga.

Por pura obra do acaso, o latim patens, particípio presente do verbo patere, “estar aberto, exposto”, que deu patente em português, rima com latens, particípio presente do verbo latere, “estar escondido”, origem do nosso latente.

Essas confusões entre palavras não são raras. Já presenciei muitas pessoas empregarem o adjetivo lívido, que quer dizer “escuro, da cor de chumbo, cinza-chumbo”, no sentido de pálido, isto é, “branco”. Talvez a confusão seja motivada por termos de sonoridade assemelhada como vívido e níveo, que normalmente se aplicam a coisas claras. Ou então seja efeito do chamado impressionismo linguístico, em que costumamos atribuir certos sentidos a palavras com certas sonoridades. Em geral, termos que denotam tristeza ou escuridão contêm vogais posteriores e fechadas como o e u. É o caso de turvo, túrbido, plúmbeo, lôbrego, lúgubre, tumba, túmulo, catacumba, soturno, macambúzio, fúnebre, etc. Ao contrário, palavras com a vogal anterior i costumam soar alegres e sugerir cores claras e sons agudos. É o caso dos citados vívido e níveo, e também de pífano, zinir, tinir, tilintar, clique, tuim, tiziu, sino, campainha, tamborim

A realidade é que certos fatos do nosso cotidiano estão é muito patentes e não latentes. Então, leitor, fique atento para não cometer essa gafe e depois ficar lívido – ou melhor, pálido – de vergonha.

Brasileiros e brasileiras

Foi o ex-presidente da república José Sarney quem eternizou a expressão “brasileiros e brasileiras”, com a qual iniciava seus discursos. Antes dele, o general-presidente João Figueiredo dizia apenas “meus amigos”. E Getúlio Vargas começava suas preleções com “trabalhadores do Brasil”.

Hoje, por influência da linguagem politicamente correta e das pautas identitárias, é cada vez mais comum ouvirmos “bom dia a todos e todas”, “Vossas Excelências senadoras e senadores”, e assim por diante. É bem verdade que a expressão “senhoras e senhores” é muito antiga e existe em todas as línguas – quem não conhece o famoso ladies and gentlemen? –, o que indica que a preocupação em abarcar na comunicação homens e mulheres (ou, antes, mulheres e homens) não é nova.

O problema é que, desde que se passou a disseminar a fake news de que o português é uma língua machista porque faz a concordância no plural pelo gênero masculino (por exemplo, brasileiros inclui homens e mulheres nascidos no Brasil), a distinção todos e todas, cidadãs e cidadãos, etc., passou a ser sentida como uma necessidade e uma forma de deferência ao chamado “sexo frágil” – isto sim uma denominação machista, já que de frágil as mulheres não têm nada!

Tenho ressaltado muitas vezes que essa ideia de que línguas são machistas decorre da confusão que se tem feito entre quatro coisas diferentes: sexo biológico, gênero psicossocial, gênero semântico e gênero gramatical. Mas não custa esclarecer essa diferença mais uma vez.

Sexo biológico é uma característica que todos os seres vivos sexuados têm e é algo que herdamos “de fábrica”, ou seja, praticamente todo animal pluricelular, incluindo nós seres humanos, nasce macho ou fêmea – a única exceção são alguns animais hermafroditas, que são macho e fêmea ao mesmo tempo.

No entanto, o ser humano, por sua complexidade psíquica, desenvolveu paralelamente ao seu sexo biológico a característica de gênero psicossocial, a qual, por sinal, foi ignorada pela ciência durante muito tempo. Ocorre que muitos indivíduos têm uma orientação sexual distinta da majoritária heterossexualidade: são os homossexuais, os bissexuais e os assexuais (não confundir com assexuados, que são animais não dotados da distinção macho/fêmea). Além disso, independentemente de sua orientação sexual, muitas pessoas se reconhecem como transexuais ou transgênero (não recomendo a forma “transgêneras” e já comentei esse ponto em outra postagem), não binárias, gender-fluid e muitas outras denominações, o que tem feito a sigla LGBTQIA+ crescer cada vez mais (a despeito de o sinal + já abrir espaço para novos acréscimos).

Quanto ao gênero semântico, trata-se de como as línguas interpretam – ou interpretaram até hoje – a realidade dos sexos biológicos e dos gêneros psicossociais. Os gêneros semânticos são cinco:

  • masculino (seres animados do sexo masculino): pai, menino, Joãozinho (O meu cachorro se chama Toby);
  • feminino (seres animados do sexo feminino): mãe, menina, Mariazinha (A minha cadela se chama Viki);
  • neutro (nem masculino nem feminino, para seres inanimados e abstratos): caderno, felicidade (A ração dos cachorros acabou);
  • sobrecomum (masculino ou feminino, para seres animados cujo sexo não está determinado): criança, testemunha, vítima (O animal que vi na rua estava ferido);
  • complexo (masculino e feminino, para coletivo de seres animados de ambos os sexos): ser humano, brasileiros, humanidade (O cão é um animal mamífero).

Esses cinco gêneros semânticos se manifestam nas diferentes línguas através dos gêneros gramaticais. Nesse sentido, há desde línguas com quatro gêneros gramaticais, como o sueco (masculino, feminino, neutro e comum) até línguas sem gênero, como o hopi, da América do Norte. O alemão e o inglês têm três gêneros, masculino, feminino e neutro, sendo que em alemão a distribuição dos seres entre esses gêneros é bastante arbitrária (por exemplo, Sonne, “Sol”, é feminino, Mond, “Lua”, é masculino, Mädchen, “menina”, é neutro). Já em inglês, seres com gênero semântico masculino ou feminino têm igualmente gênero gramatical masculino ou feminino (man é masculino e substituível pelo pronome pessoal he, woman é feminino e substituível por she); os demais entes são todos agrupados no gênero neutro. Os gêneros sobrecomum e complexo são frequentemente representados pelo pronome plural invariável they.

Por fim, o português e todas as línguas neolatinas com exceção do romeno têm dois gêneros gramaticais, masculino e feminino, resultado da convergência entre o masculino e o neutro latinos num único gênero por força da evolução fonética fortuita.

Como resultado, o português subsume nos gêneros masculino e feminino conceitos portadores dos cinco gêneros semânticos e faz a concordância no plural pelo gênero gramatical masculino por uma simples questão de convenção decorrente da evolução histórica do idioma, desprovida de qualquer viés ideológico.

Aliás, justamente por não corresponderem exatamente a nenhum gênero semântico e menos ainda a gênero psicossocial ou sexo biológico, os gêneros gramaticais deveriam chamar-se gênero 1 e gênero 2 ou gênero marcado e gênero não marcado, como sugerem muitos linguistas. Isso acabaria de vez com essa ideia equivocada de que a língua é machista baseada na confusão irrefletida entre gramática, psicologia e biologia. Vou além: a própria denominação gênero dada a uma categoria gramatical deveria ser trocada por outra para não se confundir com a noção de gênero psicossocial. Fica aí a minha sugestão aos colegas linguistas e aos gramáticos.

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Em agosto de 1977, como reação à ditadura militar então vigente, o Prof. Goffredo da Silva Telles Junior leu diante das arcadas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – a famosa faculdade do Largo de São Francisco – a hoje histórica Carta aos Brasileiros, um libelo em favor da restauração do estado democrático de direito. Hoje, exatos 45 anos depois, quando nossa democracia volta a ser ameaçada, um novo manifesto é lido no mesmo local, com igual impacto social, desta vez batizado de Carta às Brasileiras e aos Brasileiros. Sinal dos tempos, a nova carta enfatiza a distinção de gênero e gentilmente coloca as mulheres em primeiro lugar. Pelo andar da carruagem, se dentro de mais algum tempo surgir nova ameaça à nossa democracia, terá de ser redigida uma Carta aos Brasileiros, Brasileiras e Brasileires.

Atma, o sopro da vida

Semana passada, falei sobre a etimologia e o significado das palavras mente, alma e espírito. E, como vimos, tanto alma quanto espírito trazem dentro de si a ideia de sopro, o sopro divino que dá vida à matéria de outro modo inerte. E vimos também que a ideia de vida está intimamente ligada à de respiração. Hoje quero falar sobre outro conceito também pertencente à esfera do imaterial que anima a matéria e que igualmente habita o campo semântico do sopro, da respiração e do ar: é o conceito hinduísta de Atma ou Atman.

Em sânscrito, língua sagrada da religião hindu, essa palavra, grafada no alfabeto devanágari como आत्म, significa “alma” ou “sopro vital”. O Atma é o mais elevado princípio humano, a própria essência divina, informe e indivisível. Para alguns filósofos orientalistas, é a própria conexão com Brahman, o Absoluto (aquilo que numa visão monoteísta chamaríamos de Deus, mas que, para as religiões orientais, não tem esse sentido).

Esse termo Atma aparece em Mahatma, “grande alma”, título dado a pessoas que, por meio da vontade e pela evolução espiritual através de muitas encarnações, atingiram um estágio espiritual avançado. O mais famoso dos Mahatmas, como se sabe, é Gandhi, herói nacional indiano.

Mas, como não sou teólogo, filósofo ou cientista da religião, quero aqui falar sobre a etimologia desse termo.

Em primeiro lugar, temos o grego ἀτμός (atmós), “vapor, ar quente”, que nos deu atmosfera, e que se tentou conectar etimologicamente com o sânscrito ātmán, mas parece que atmós, assim como atmís, nada tem a ver com aquela palavra, já que o a longo (ā) do sânscrito pressupõe um e longo (ē) em indo-europeu. De fato, o Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch (Dicionário Etimológico Indo-Europeu), de Julius Pokorny, apresenta a raiz *ēt-mén-, “vento, alma”, como origem tanto do sânscrito ātmán quanto do antigo alto alemão ātum (alemão moderno Atem, “respiração”, atmen, “respirar”).

Portanto, parte-se de uma raiz primitiva *ēt-, já que *-mén é um sufixo (o mesmo que aparece em palavras latinas como abdomen, dictamen, regimen, etc., que nos deram abdômen, ditame, regime, e tantas outras terminadas em ‑me ou ‑men).

Por fim, quem é mais velho deve se lembrar que antigamente havia no Brasil uma fábrica de produtos plásticos e brinquedos chamada Atma.

Corpo, mente, alma, espírito

As palavras que compõem o título desta postagem aparecem com muita frequência em textos de autoajuda, filosofia, religião e espiritualidade, e todas elas já existiam em latim: corpus, mens, anima, spiritus. Aliás, os romanos já tinham um lema que até hoje é muito verdadeiro: mens sana in corpore sano, “mente sã em corpo são”, um estímulo à prática da atividade física como benefício também à mente.

Embora cada um desses vocábulos represente um conceito distinto e bem definido, o fato é que, com exceção do corpo, entidade física e biológica de cuja conceituação ninguém tem dúvida, os demais conceitos por vezes se confundem, especialmente em línguas que não dispõem de todas as quatro palavras como o português. Então tentemos defini-las para mostrar por que seus significados às vezes se sobrepõem.

Segundo a moderna concepção da neurociência, a mente é o cérebro em funcionamento. Mas o produto da bioquímica do cérebro já era concebido como a sede da racionalidade humana bem antes do advento da neurociência. A mente racional é o instrumento do raciocínio e também da imaginação, do devaneio e dos sentimentos. Desde a Antiguidade, a mente era vista como algo inerente ao corpo vivo, isto é, como a inteligência e a capacidade de discernimento. Não por acaso, mens provém da raiz indo-europeia *men-, que significa “pensar”. Logo, a mente é o lugar onde mora o pensamento, o intelecto.

Os conceitos de alma e espírito se confundem até etimologicamente, pois anima e seu correlato animus significavam primitivamente “sopro”: anima/animus têm a ver com o grego ánemos, “vento”, ao passo que spiritus deriva do verbo spirare, “soprar”, que sobrevive em português em espirar, respirar, inspirar, expirar, aspirar, conspirar, suspirar, etc. Tanto a alma quanto o espírito eram concebidos pelos antigos como o sopro de vida ou sopro divino (essa visão estava presente em várias tradições, da Grécia e Roma antigas ao judaísmo, ao hinduísmo e ao budismo). É que, não podendo explicar racionalmente a natureza da vida e o porquê de alguns entes serem animados e outros não, pensava-se que a vida fosse um dom divino, algo soprado pelos deuses dentro da matéria inerte, dando-lhe vida e consciência. Além disso, no entendimento da época a vida estava diretamente ligada à respiração: se respira, é vivo; se é vivo, respira.

A alma (em grego psykhé) foi desde o início associada a um princípio sobrenatural, que só os seres vivos – e, segundo algumas tradições filosóficas, só o homem – possuem. E desde logo foi vista como algo que habita o corpo, mas distingue-se dele e dele se desprende ao morrermos. Assim, a alma poderia existir sem o corpo, mas não este sem a alma: seres inertes como as pedras não têm e nunca terão alma; o corpo animal ou vegetal, ao ser desprovido da alma, apodrece.

O espírito é um conceito que, para a filosofia, às vezes se confunde com a mente e às vezes com a alma. Para os estoicos, o espírito (em grego pneûma) é o que distingue o vivo do bruto: o intelecto, mas também os sentimentos, as emoções, os estados de alma (ou de espírito). Nesse sentido, a alma é o que dá vida, a mente é a faculdade da razão, e o espírito é a inspiração (vejam aqui o verbo spirare mais uma vez), a imaginação, a criatividade, a emoção, o senso estético, a moral, a ética, a virtude…

Mas o adjetivo espiritual é também muitas vezes empregado como sinônimo de religioso, como em “líder espiritual”, referindo-se a chefes de igrejas ou de seitas. Donde se deduz que o espírito seria um conceito sobretudo religioso.

Já para os espíritas, a alma é o espírito encarnado num corpo físico, e o espírito é uma realidade transcendente que, de tempos em tempos, se incorpora na matéria, dando origem aos seres vivos. É forçoso dizer que essa concepção se restringe à doutrina espírita, não sendo necessariamente partilhada pelas correntes filosóficas.

Essa nebulosidade na definição de mente, alma e espírito no âmbito tanto da filosofia quanto da religião levou a que certas línguas não dispusessem dos três conceitos, mas de apenas dois. Enquanto o português, o espanhol (mente, alma, espíritu), o italiano (mente, anima, spirito) e o inglês (mind, soul, spirit) dispõem dos três significados, o francês (âme, esprit), o alemão (Seele, Geist) e as línguas escandinavas, como, por exemplo, o sueco (själ, ande) admitem apenas dois. O resultado é que a palavra para “espírito” acaba sendo usada também para denominar a mente. Pode-se perceber isso ao consultar os verbetes “mente” e “espírito” em português na Wikipédia e depois carregar as páginas correspondentes nas demais línguas. O leitor verá que será redirecionado em ambos os casos à palavra correspondente a “espírito” em francês ou alemão, por exemplo.

Enquanto em português ou inglês a definição de mente na enciclopédia é fundamentalmente técnica e científica, e a de espírito é filosófica e místico-religiosa, em francês ou alemão tem-se no verbete “esprit” ou “Geist” uma mistura de ambas as coisas.

Nessas línguas, há um certo embaraço quando se trata de um texto técnico de neurociência, por exemplo, em que o conceito de mente, muito bem delimitado, não tem nada a ver com o de espírito, seja em seu sentido filosófico, religioso ou do senso comum. Nesses casos, o francês utiliza às vezes o termo mental (substantivo) para referir-se à mente enquanto fenômeno biológico. Em alemão, usa-se às vezes Verstand ou Vernunft (literalmente, “intelecto” ou “razão”) para distinguir a mente do espírito (Geist). Só que a mente em sentido neurológico não é exatamente o mesmo que o intelecto ou a razão, termos mais afeitos ao vocabulário da filosofia e do senso comum.

É curioso que, embora o latim tivesse o termo mens, este não tenha passado ao francês, língua da lógica e da razão (pelo menos é o que dizem), assim como o vocábulo germânico *mundiz, “mente”, de mesma origem que mens, só passou ao inglês mind, mas não às demais línguas germânicas, como o alemão, idioma que, segundo alguns, é o único no qual é possível filosofar.

Idiomas sem parentesco com características em comum

Um dos princípios da linguística histórica e da linguística comparada para a classificação filogenética de línguas é a busca por traços fonéticos, morfológicos, sintáticos e léxicos comuns entre idiomas distintos. A presença dessas semelhanças estruturais entre línguas costuma ser um bom indício de parentesco entre elas.

No entanto, muitas vezes os linguistas foram induzidos a erro por similaridades estruturais que não decorriam de verdadeiro parentesco – em alguns casos, havia no máximo um parentesco muito distante, que não justificava as coincidências – nem de convergência fortuita, em que processos evolucionários diferentes conduzem casualmente ao mesmo resultado.

Um terceiro fator leva às vezes a que línguas não aparentadas apresentem traços muito semelhantes, como o emprego dos mesmos sons fonéticos, modos semelhantes de formar palavras ou frases e vocabulário comum. Trata-se da interação que historicamente se deu entre elas pelo contato e/ou pelo bilinguismo. Em ambos os casos, a influência recíproca entre os idiomas decorre de sua proximidade geográfica.

Em 1904, o linguista polonês Jan Courtenay argumentou que era preciso distinguir entre semelhanças linguísticas decorrentes de uma relação genética (que ele chamou de rodstvo, “parentesco”) e aquelas decorrentes de convergência devida ao contato linguístico (srodstvo, “afinidade”). Outro linguista, o russo Nikolai Trubetzkoy, introduziu o termo языковой союз (yazykovoy soyuz; isto é, “união linguística”) para denotar essas similaridades não genéticas. Posteriormente, propôs um decalque alemão desse termo, Sprachbund, definindo-o como um grupo de línguas com semelhanças na estrutura morfológica, sintaxe, vocabulário de cultura e sistema fonológico, mas sem correspondências fonéticas sistemáticas nem morfologia básica ou vocabulário básico compartilhados.

O que normalmente ocorre é que populações de línguas diferentes que estão em contato numa fronteira linguística ou por habitarem uma mesma região acabam aprendendo em maior ou menor grau a língua uma do outra e se tornam bilíngues – às vezes, quando há mais de duas populações distintas em contato, trilíngues ou plurilíngues.

Quando isso acontece, surge um fenômeno chamado interferência linguística, em que o falante utiliza inconscientemente elementos de sua língua materna ao falar o idioma estrangeiro. Podem ser sons (o famoso sotaque), palavras (um exemplo típico são falantes do espanhol dizendo una em vez de uma ou usando o sufixo ‑ción no lugar de ‑ção ao falar português) ou mesmo construções sintáticas (novamente um hispanofalante dizendo “me gosta muito isso” em vez de “eu gosto muito disso”).

O resultado é que línguas em convívio acabam adquirindo traços umas das outras mesmo que não tenham relações filogenéticas entre si.

Um exemplo disso são as chamadas “vogais mestiças”, típicas do francês e das línguas germânicas. São vogais anteriores arredondadas, ou, trocando em miúdos, aquelas vogais que pronunciamos como “é”, “ê” ou “i”, mas fazendo “biquinho”. Tecnicamente, essas vogais são representadas no Alfabeto Fonético Internacional como [œ], [ø], [ʏ] e [y]. Essas vogais nasceram nas línguas germânicas quando um o ou u longos ou breves eram seguidos de sílaba contendo i vocálico ou semivocálico. Porém o francês, que é língua românica, mas sempre viveu cercada de dialetos germânicos, adotou essas vogais.

Em contrapartida, o r gutural francês (que aqui no Brasil chamamos de r carioca) surgiu por volta do século XVII como uma pronúncia vulgar da plebe parisiense e acabou, dois séculos depois, tornando-se a pronúncia padrão do r não apenas do francês, mas também do alemão, holandês, luxemburguês e dinamarquês (dialetalmente também do norueguês). E, pasmem, chegou até Lisboa, de onde veio para o nosso país com a Família Real em 1808 e tornou-se um século depois a pronúncia usual não só do Rio de Janeiro como de boa parte do Brasil.

Outro caso interessante de convergência areal (isto é, de área linguística) em línguas não relacionadas geneticamente são as línguas dos Bálcãs (albanês, búlgaro, macedônio, romeno, turco), todas tendo artigo definido posposto ao substantivo (algo como menino-o em vez de o menino), a presença da vogal [ɨ] (cujo som se assemelha ao que emitimos quando levamos um soco no estômago), todas evitando o infinitivo e formando o futuro da mesma forma.

Vale citar também o fato de muitas línguas do sudeste asiático e Extremo Oriente, de famílias tão díspares como o sino-tibetano, hmong-mien, tai-kadai, austronésio e mon-khmer, que se estendem da China à Tailândia, serem isolantes, formadas de palavras monossilábicas, e tonais, apresentando três tons diferentes que distinguem significado.

Temos também a presença do chamado “l escuro” (o l da pronúncia lusitana do português) opondo-se fonologicamente ao l palatalizado (parecido com nosso lh) em línguas eslavas e túrcicas da Ásia central, as consoantes retroflexas (pronunciadas com a ponta da língua no céu da boca) em vários idiomas não aparentados da Índia, os cliques (estalos da língua) tanto nas línguas khoisan quanto nas bantu da África, a ausência do u semivocálico (isto é, [w]) e sua substituição por v nas línguas do leste europeu, a ausência de p no árabe e em línguas do norte da África, e assim por diante.

Na Europa, podemos citar, além dos exemplos já mencionados, construções sintáticas absolutamente paralelas nas línguas românicas e nas germânicas, como os tempos cursivos formados com o verbo “ser/estar” + gerúndio (estou/estava/estarei estudando), presente em português, espanhol, italiano e inglês, os tempos perfectivos com “ter/haver” + particípio (tenho estudado, havia estudado) em todas as línguas de ambas as famílias, a voz passiva analítica com “ser” + particípio (a lição foi estudada) igualmente em todos esses idiomas, além, é claro, de muitas coincidências vocabulares decorrentes de empréstimos mútuos entre essas línguas, bem como importações do grego e do latim clássicos.

O planeta tem esse nome porque é plano?

Parece incrível, mas em pleno século XXI ainda tem gente acreditando que a Terra é plana: são os terraplanistas, que, juntamente com os antivacinistas, formam a maior parte dos chamados negacionistas (o sufixo ‑ista de todos eles evidencia que são seguidores de ideologias ou doutrinas e constituem verdadeiros movimentos – ou seitas).

Existem negacionistas menos populares que esses dois tipos acima, como os que negam a morte de Elvis Presley e os que negam a morte de Hitler (claro, o Führer está vivo e forte aos 133 anos de idade!). Ao contrário, há aqueles que acreditam que Paul McCartney morreu em 1967 e quem está até hoje gravando discos e fazendo shows em seu lugar é um impostor.

Mas um dos comentários mais hilários que li de um terraplanista é que o planeta Terra se chama planeta justamente porque é plano. Tudo bem que nossos antepassados da Antiguidade ou da Pré-História pensassem que a Terra é chata, afinal a extensão de território que eles conseguiam percorrer era pequena demais para perceber a curvatura do nosso corpo celeste. Mesmo o horizonte marítimo visto da praia parece retilíneo, mas Aristóteles sabiamente já argumentava que, se a Terra fosse de fato plana, os navios não desapareceriam no horizonte. E os eclipses mostravam sobre a Lua a sombra circular da Terra, o que os gregos também já haviam percebido. Aliás, foi na Grécia antiga que, pela primeira vez, se mediu a circunferência da Terra. O autor do brilhante feito foi o matemático e astrônomo Eratóstenes de Cirene, e seu erro em relação à medida atual foi de apenas 300 quilômetros!

Mas, se os gregos já sabiam que nosso planeta é esférico, porque lhe deram justamente o nome de planeta? A resposta é simples, pelo menos para quem estuda etimologia e sabe um pouco de grego: é que a palavra grega planétes, que deu nosso planeta, não tem nenhum parentesco com o latim planus, que deu o português plano. Na verdade, planétes quer dizer “viajante”, do verbo plánasthai, “vagar, viajar”. Ou seja, os gregos não só sabiam que os planetas são esféricos como também que se movem no espaço. É verdade que o modelo geocêntrico de Ptolomeu colocava a Terra no centro do mundo, portanto numa posição imóvel em torno da qual os outros planetas giravam. Logo, a denominação planeta inicialmente não se aplicava à Terra. Foram os astrônomos renascentistas, a partir de Copérnico, que compreenderam que o centro era o Sol e que a Terra também se movia (eppur si muove, “e no entanto se move”, teria dito Galileu após ter abjurado do sistema heliocêntrico perante a Santa Inquisição a fim de preservar a própria vida). Portanto, agora a Terra também era um planeta, isto é, um viajante, um corpo errante no Universo.

Infelizmente, 400 anos depois disso e malgrado os esforços empreendidos e os riscos corridos pelos cientistas, ainda tem gente acreditando que a Terra é plana. E usando da falsa etimologia, ou etimologia de botequim, para sustentar sua esdrúxula teoria.

Tá doido, rapaz? Ou melhor, tá inclusão?

Outro dia, publiquei neste espaço um artigo em que teci uma certa crítica à chamada linguagem politicamente correta e à militância que, em nome do justo combate a preconceitos e desrespeito a direitos humanos, sentencia de morte certas palavras, atribuindo-lhes uma carga depreciativa que elas efetivamente não têm, como, por exemplo, afirmar (erroneamente) que denegrir faça alguma alusão à raça negra.

Como era de se esperar, minha crítica, embora fundamentada, gerou algum incômodo em espíritos mais sensíveis a essas causas, na maioria das vezes pessoas bem-intencionadas mas mal-informadas. Um leitor me questionou:

Não entendi se o senhor aceita a mudança da troca das palavras?

E se trocar mudaria para você o que?

E se estudamos a língua com afinco em saber a suas origens, e entendimento ao longo de nossa existência, ela não vale ser revista? Ou que momento isso pode acontecer? Ou não pode?

Sobre o apontamento a pessoas portadoras de deficiências, é algo que está em constante mudança par atingir mais pessoas sem distingui-las como “defeito de fábrica”, já que a sociedade cria um modelo de ser “humano” a ser normatizado e qualquer outro ser humano fora desse padrão é estigmatizado com termos que são excludentes. A empatia no uso dos termos tenta amenizar as diferenças que são consideradas pejorativas por outros (nas mesma definições). […]

Respondi-lhe que, como linguista, sei mais do que ninguém que a língua evolui e, portanto, o léxico muda com o tempo. No entanto, existe uma diferença entre a mudança espontânea feita pelo consenso dos falantes e uma tentativa de mudança imposta por certos grupos de poder. Por exemplo, quem decidiu trocar negro por afrodescendente não foram os falantes do português em geral, nem mesmo os próprios negros; foram sociólogos e antropólogos de universidades públicas na esteira do inglês African American, que tampouco foi criado pelos falantes da língua inglesa, mas por cientistas sociais e intelectuais americanos. O resultado mais concreto dessas tentativas de imposição daquilo que chamei de “novilíngua politicamente correta” é que termos como afrodescendente ou pessoa portadora de necessidades especiais não têm adesão popular; são usados exclusivamente pela imprensa e por ativistas. Os próprios negros em geral se chamam de negros e não de afrodescendentes. Aliás, tenho vários amigos negros e já os vi chamando-se uns aos outros de “negão” ou “crioulo” de forma carinhosa.

Portanto, o que eu critico não é a mudança da língua em si, fato inevitável e que constitui a própria essência da linguagem humana (talvez até de tudo que é humano); minha crítica é à tentativa artificial de imposição de novos termos, bem como a proibição de outros, sem um critério objetivo e por razões meramente ideológicas por parte de grupos políticos que, por vezes, se sentem donos da verdade. Aliás, o fanatismo e o extremismo, sejam eles religiosos, políticos ou até mesmo futebolísticos, surgem quando indivíduos, imbuídos da convicção de que a causa pela qual militam é justa, se sentem no direito (ou, mais do que isso, no dever) de impor sua visão de mundo a toda a sociedade. A Inquisição católica medieval, o nazismo e o comunismo, com suas consequentes atrocidades, nasceram de crenças assim, de que almas precisavam ser salvas, de que o mundo sem judeus ou sem capitalistas seria um mundo melhor.

Em nome do combate ao preconceito e à exclusão social, já tentaram até censurar os dicionários com o objetivo de banir certas acepções consideradas demeritórias a certos grupos. Ora, o dicionário é um espelho da língua: se certos sentidos existem nele é porque existem na língua. Aqui vale o velho adágio: “Não culpes o espelho se tua cara é torta”. Acima de tudo, minha crítica se dirige à hipocrisia de setores políticos que acham que, mudando a linguagem, mudam a realidade. Nesse aspecto, prefiro, por exemplo, continuar chamando os índios de índios, mas vê-los ser tratados com a dignidade que merecem (o que, diga-se de passagem, nunca o foram, e menos ainda neste atual governo) a chamá-los de indígenas ou povos originários e continuar tratando-os com o mesmo descaso histórico como os tratamos atualmente.

Pois bem, um dos efeitos mais deletérios da chamada linguagem politicamente correta (ou linguagem PC, para os íntimos) é o mascaramento da realidade, como se dar nomes bonitos e pomposos a coisas feias as tornasse menos feias. Ou seja, o PC não deixa de ser uma forma dissimulada de manipulação por meio das palavras, e as pessoas comuns, especialmente aquelas que não se deixam influenciar por ideologias (políticas, publicitárias, religiosas, etc.) percebem isso. O cidadão idoso que sempre chamou os afrodescendentes de pretos sem nenhuma conotação pejorativa tem razão de sentir-se perplexo quando agora é advertido de que sua maneira de expressar-se é inadequada, politicamente incorreta ou, o que é pior, racista.

Uma das reações ao patrulhamento ideológico que tenta impor essa novilíngua é a zombaria: expressões PC acabam ganhando sentido bem-humorado (por exemplo, diante de uma tempestade iminente, dizer que o céu está cheio de nuvens afrodescendentes). Expressões politicamente corretas logo produzem versões humorísticas ou paródias, como chamar o careca de “portador de deficiência capilar” ou o baixinho de “pessoa verticalmente deficiente”.

O mais novo rebento desse humor politicamente incorreto (aliás, humor politicamente correto não tem graça nenhuma) decorre da atual – e, a meu ver, acertada – política educacional de incluir nas salas de aula regulares alunos com deficiência cognitiva ou intelectual (outrora deficiência mental), como autistas, portadores da síndrome de Down e outros.

Como se trata de uma política de inclusão social (e a própria legislação educacional assim a denomina), eis que surge a gíria maliciosa entre os profissionais da educação pública: qualquer pessoa que pareça lelé da cuca agora é “inclusão”. A Maria pôs a marmita no micro-ondas e se esqueceu de ligá-lo? Tá na cara que ela é inclusão! O Antônio considera Bolsonaro um defensor da democracia? Só pode estar inclusão! João acredita na honestidade dos políticos do Centrão? Xi, inclusão sem sombra de dúvida!

Como o humor é sempre mais inteligente que o patrulhamento das consciências (o semanário francês Charlie Hebdo que o diga!), não importa quantos termos estrambóticos e rebuscados a linguagem PC invente, o povo vai sempre achar um uso bem-humorado para eles. Mesmo que criado com boas intenções, o PC logo se torna ridículo, e as pessoas cuja fala espontânea não tem maldade nem preconceito utilizam da comicidade como instrumento de defesa contra a “assepsia da linguagem” promovida por esse nosso admirável mundo novo.

Os processos cognitivos e o funcionamento da mente

O que é a mente? Essa questão vem inquietando há séculos os filósofos e os cientistas. Sabemos que a atividade mental é uma das características que distinguem os animais das plantas e dos seres inanimados e que, nos animais superiores, como nós humanos, essa atividade produz algo ainda mais intrigante, que é a consciência.

Para muitos pensadores do passado (e ainda alguns do presente), o conceito de mente se confunde com o de alma ou espírito. O fato de percebermos a realidade, pensarmos e sentirmos é visto por eles como algo divino, sobrenatural, um dom dado por Deus a certas criaturas e não a outras. Já para a moderna neurociência, a mente nada mais é do que o cérebro em funcionamento: são as reações químicas e as descargas elétricas que ocorrem nas sinapses de nossos neurônios cerebrais que produzem em nós a consciência e, com ela, sensações, emoções, imagens mentais e nosso discurso linguístico interno.

A atividade da mente consciente pode ser explicada pelo modelo dos processos cognitivos enunciado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung no livro Tipos psicológicos.

Os processos cognitivos dividem-se em dois tipos: processos de percepção e processos de julgamento. Os processos de percepção constituem-se nos canais de entrada das informações na mente. Fazendo uma analogia com um computador, podemos dizer que os processos de percepção correspondem ao input, isto é, à entrada de dados na máquina, como quando digitamos algo no teclado ou inserimos um pendrive. Há dois tipos de processos de percepção: a sensação e a intuição.

A sensação consiste nos cinco sentidos básicos do ser humano: visão, audição, tato, olfato e paladar. Portanto, percepções sensoriais são estímulos produzidos pelos fenômenos físicos externos ao nosso corpo e que este é capaz de reconhecer por meio dos órgãos dos sentidos e enviar ao cérebro, como a luz que chega à nossa retina e, através do nervo óptico, é levada como impulso elétrico à região do cérebro responsável pela sua “tradução” em termos de imagem. O mesmo vale para o som em relação aos ouvidos, o tato em relação à pele, e assim por diante.

A intuição, por vezes chamada erroneamente de “sexto sentido”, manifesta-se por meio de lembranças, lampejos, insights, atos de imaginação, momentos de inspiração, sonhos, delírios, alucinações, etc. Todos os conteúdos mentais (imagens, sons, palavras, sensações) que afloram à nossa consciência e não provêm diretamente de estímulos externos (sensoriais) ou do raciocínio são fruto da intuição.

Ela é tecnicamente a emergência ao nível consciente de memórias estocadas (Freud diria “recalcadas”) no inconsciente. Afinal, tudo o que vivenciamos a cada instante de nossa vida é registrado por nossa consciência, mas a maior parte dessas informações não fica nela nem em nossa memória de curto prazo: elas vão direto para o inconsciente e lá ficam guardadas por toda a vida. Por sinal, é justamente porque não podemos nos lembrar de tudo o que vivenciamos que não ficamos loucos. Só que, de repente e de maneira inexplicável, num dado momento aflora à nossa lembrança um fato ocorrido muitos anos atrás e do qual já não nos lembrávamos até porque não tinha maior importância. Mas algo no momento presente suscitou o resgate dessa memória inconsciente.

Essas memórias, por serem inconscientes, não podem ser acessadas diretamente pela consciência, ao contrário das memórias subconscientes, que podem, a qualquer momento, ser recuperadas, como, por exemplo, meu nome, endereço, número de telefone e outras informações que, embora não estejam na minha consciência a todo momento, podem ser facilmente trazidas a ela quando requisitadas. Nesse sentido, podemos considerar as memórias subconscientes como a pasta “Meus Documentos” do nosso cérebro e a consciência como a tela do nosso computador cerebral. Quando precisamos de uma determinada informação (digamos, meu número de telefone), basta abrirmos uma espécie de arquivo “Meu_telefone.docx” da nossa pasta cerebral “Meus Documentos”, isto é, do nosso subconsciente, e o número do telefone desejado aparece na tela do nosso computador, ou seja, vem à nossa consciência.

Já o conteúdo do inconsciente corresponderia, grosso modo, àqueles arquivos ocultos do computador, aos quais não podemos ter acesso, mas que de alguma forma interferem no desempenho da nossa “máquina”. Esse conteúdo revela-se à consciência por meio de sonhos, práticas meditativas, e também pode aflorar aleatoriamente, como quando temos um “estalo” e descobrimos, de modo não intencional, algo de que até então não tínhamos nos dado conta. É o insight, a chamada inspiração. Não à toa, o que chega à nossa consciência a partir do inconsciente é uma combinação, por vezes aleatória, de informações lá arquivadas. Quando um compositor recebe a inspiração para uma nova melodia, isto é, começa a ouvir mentalmente uma música que até então não existe fora de sua mente, o que ele está ouvindo – e, portanto, criando – é uma nova combinação de notas e acordes que ele, como músico, já conhece porque já ouviu muitas vezes, uma espécie de recortar e colar de muitas melodias já existentes e já estocadas em sua memória. É por isso que um indígena do Xingu que nunca teve contato com o homem branco jamais sonhará que está regendo uma orquestra sinfônica. Ele provavelmente sonha todas as noites com caçadas na floresta, animais e plantas de seu habitat, com sua aldeia, seus familiares, e outras coisas do gênero.

Uma vez que a consciência tenha captado informações provenientes do meio externo através dos sentidos ou do inconsciente por meio da intuição, a mente agora precisa processar essas informações. É aí que entram em ação os processos de julgamento. Eles são os responsáveis pelo processamento dessas informações no cérebro e equivalem, na metáfora computacional, ao throughput, isto é, ao processamento dos dados pelos softwares do computador. A mente humana processa as informações da consciência por meio de dois “softwares” básicos: a razão (isto é, o pensamento, o raciocínio) e a emoção (os sentimentos). Isso significa que, quando uma informação qualquer chega à nossa mente via sensações ou intuição, ela suscita em nós pensamentos e/ou sentimentos.

Os sentimentos ou emoções que surgem em nossa consciência, como alegria, medo, saudade, tédio, como resposta a percepções ou pensamentos são na verdade reações bioquímicas produzidas por hormônios e neurotransmissores como a adrenalina, a dopamina, a endorfina, a acetilcolina e outros. Por isso mesmo, muitas emoções que sentimos são acompanhadas de reações corporais, como arrepios ou suores.

Por sua vez, o que chamamos de pensamentos são o produto da nossa razão, ou raciocínio; pensamentos são, na prática, enunciados linguísticos mentais, algo como um diálogo interno entre nós e nós mesmos. Esse diálogo não necessariamente ocorre somente por meio da língua que falamos (o português, por exemplo); na verdade, o pensamento se processa numa linguagem puramente cerebral a que os neurocientistas e os linguistas dão o nome de mentalês, do qual falo em outra postagem, e na qual todas as línguas naturais, isto é, os idiomas humanos, se baseiam. Em linguagem computacional, o mentalês é o sistema operacional no qual rodam todos os “programas” que são as línguas. É como se, para executarmos o software “Português.exe” ou “English.exe”, precisássemos de um sistema operacional pré-instalado chamado “Mentalês®”. Nós, brasileiros, produzimos o tempo todo, ininterruptamente, nossos discursos mentais – uma pequena parte dos quais se transforma em discursos orais ou escritos que externamos aos outros seres humanos – no software “Português.exe”, que é como nosso processador de texto, e é nesse “Word” que redigimos mentalmente nossos pensamentos.

A resposta aos pensamentos e sentimentos que surgem em nossa mente (o equivalente ao output dos computadores) não é um processo cognitivo, mas uma reação aos estímulos que as informações do meio produzem em nós. É em geral uma conduta motora, isto é, uma ação. Por exemplo, ao ouvirmos (sensação auditiva) alguém nos pedir para fechar a porta, compreendemos intelectualmente esse pedido por meio do pensamento e respondemos com a ação motora de caminhar até a porta e fechá-la. Quando assistimos a um filme triste (sensações visual e auditiva), surgem pensamentos e emoções em nossa mente, aos quais podemos eventualmente responder com a ação de chorar. Mesmo ações reflexas, como desviar instantaneamente e sem pensar de uma pedra que é atirada em nossa direção, são respostas motoras a uma percepção sensorial (a visão da pedra se aproximando) e a um julgamento emocional (um susto).

Portanto, o que nossa mente faz o tempo todo, inclusive enquanto estamos dormindo, é captar informações do ambiente pelos sentidos e do inconsciente pela intuição e processá-los em forma de sentimentos e pensamentos. Numa palavra, são a sensação, a intuição, a razão e a emoção que comandam todas as nossas ações, sejam elas voluntárias ou involuntárias, conscientes ou inconscientes.

Os poderes da República

Nos últimos tempos, os três Poderes da República não têm saído dos noticiários. E, como todos sabemos, esses poderes são: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. A Constituição de 1988 separou uma quarta instituição, o Ministério Público, desses poderes, dando-lhe autonomia. Embora do ponto de vista jurídico não seja propriamente um dos poderes, o Ministério Público pode, de alguma forma, ser considerado uma espécie de quarto poder. E nos tempos do Império havia ainda o Poder Moderador, exercido pelo imperador, que dava a este, dentre outras, a prerrogativa de dissolver o parlamento e convocar novas eleições, o que o tornava quase um monarca absoluto.

Mas de onde vêm as palavras legislativo, executivo e judiciário?

Legislativo deriva de legislar, palavra formada a partir de legislador por derivação regressiva (derivação regressiva é aquela em que, em vez de acrescentar, subtraem-se afixos). Já legislador e legislação provêm, respectivamente, do latim legislator e legislatio, sendo que legis é o genitivo de lex, “lei”, ao passo que lator, “aquele que leva”, e latio, “ato de levar”, decorrem do particípio latus do verbo ferre, “levar, transportar” e, por conseguinte, “propor”. (Sim, o particípio de ferre é latus, por incrível que pareça!) Portanto, legislar significa “propor uma lei”, logo o Poder Legislativo é a instituição responsável pela elaboração das leis.

executivo vem de executar, formado a partir do particípio latino executus ou exsecutus do verbo exsequi, “seguir até o fim, levar a cabo, executar”. Esse verbo subsiste em português no adjetivo exequível, “que pode ser executado, factível”. O Poder Executivo é então aquele que executa as leis e também projetos, políticas e demais ações de gestão de um governo.

Finalmente, judiciário radica no latim judiciarius, derivado de judex, “juiz”, por sua vez formado de jus, “direito, justiça”, e do verbo dicare, “indicar, mostrar”, relacionado com dicere, “dizer”. Ou seja, o juiz é aquele que diz ou mostra o que é justo, aquele que arbitra um conflito, buscando uma solução satisfatória a ambas as partes.

Sobre o extinto Poder Moderador, podemos dizer que moderar é diminuir, restringir, tornar menos intenso (por exemplo, moderar na bebida, moderar os gastos, etc.). Nesse sentido, o poder dado ao imperador do Brasil era o de moderar, isto é, de restringir os três demais poderes (na prática, de interferir nas decisões deles). E moderar, do latim moderari, provém de modo (latim modus), que quer dizer originalmente “medida”. Logo, moderar é manter dentro da medida, do aceitável, do razoável. É por essa razão, aliás, que a mãe costuma dizer ao filho desobediente “menino, tenha modos!”, isto é, “contenha-se!”.

Militância política e apadrinhamento na área de Letras das universidades públicas

Uma das grandes controvérsias que agitam o meio acadêmico na área de Letras é provocada pelo mau uso, decorrente do mau entendimento, da chamada teoria da variação linguística. Essa teoria, em sua essência, apenas revela o óbvio: que a língua varia de uma época para outra (é a chamada evolução linguística), de uma região para outra (dando origem aos regionalismos e, em certos casos, aos dialetos), de uma classe ou grupo social para outro e, finalmente, de uma situação de comunicação (como uma palestra ou um bate-papo entre amigos) para outra. Mais recentemente, acrescentou-se a essa teoria a variação entre língua falada e língua escrita.

Em nenhum momento, os propositores dessa teoria, como o linguista americano William Labov, disseram que determinada variedade linguística deveria ter mais direito à existência do que outra, assim como nunca disseram que qualquer variedade pode ser empregada em qualquer situação indiferentemente. No entanto, muitos maus linguistas, bem como muitos professores de língua mal formados (ou doutrinados em sala de aula), passaram a “politizar” a língua, vendo na defesa de certas variedades linguísticas e no ataque a outras uma bandeira político-ideológica a ser desfraldada.

E por que esses linguistas, invariavelmente encastelados em universidades públicas brasileiras, têm essa postura? Minha hipótese – e trata-se apenas disso, uma hipótese, pois, em conversas que tenho com eles, jamais confessam seus verdadeiros propósitos – é a de que, como militantes ou simpatizantes de certos partidos políticos de extrema esquerda, adotam a tese gramsciana de que é preciso fomentar a revolução aos poucos, de dentro para fora, “comendo pelas beiradas”, como se diz.

Mas por que esses profissionais e servidores públicos são, em sua grande maioria, de esquerda? Um observador ingênuo (ou nem tanto) diria que, por serem pessoas estudiosas e, portanto, esclarecidas, só poderiam situar-se no flanco esquerdo do espectro político. No entanto, conhecendo melhor os critérios utilizados pelas bancas examinadoras de concursos para preenchimento de vagas docentes em instituições públicas, percebe-se que a escolha feita por essas bancas não é neutra ou isenta nem prima exclusivamente pelo exame do mérito dos candidatos.

Quem já participou de algum desses concursos pode ter presenciado situações como as que eu presenciei ou das quais tive notícia e que passo agora a relatar.

Imagine um concurso para professor doutor em que há quatro candidatos, três dos quais doutorados pela maior universidade brasileira e um pela Sorbonne, sendo que um dos doutorados no Brasil já era professor de uma respeitada universidade pública, e, no entanto, todos os quatro foram reprovados porque aquela que seria a quinta candidata e que havia sido orientanda do presidente da banca no mestrado não pôde participar do concurso porque seu doutorado, feito no exterior, não havia sido convalidado no Brasil a tempo do concurso. Pois dois meses depois, foi aberto novo concurso para aquela mesma vaga, só que desta vez para professor mestre. E, para surpresa de todos (disclaimer: nesta expressão, uso ironia), a moça cujo doutorado não fora reconhecido no Brasil foi a vencedora!

Imagine agora um concurso que ainda nem havia sido oficialmente aberto, mas cujo vencedor já estava previamente escolhido. Um professor de determinado departamento de determinada faculdade de determinada universidade pública pretendia candidatar-se à vaga em outro departamento da mesma faculdade que havia sido aberta com a aposentadoria de determinado professor. O fato é que ele foi aconselhado a não concorrer, uma vez que, na própria reunião departamental que discutiu a abertura do concurso, veiculou-se a informação de que aquela vaga estava prometida a certa professora de uma certa PUC (não digo qual) que desejava encerrar sua carreira numa universidade pública. Realizado o concurso, adivinhem quem venceu? Quem disser que foi a professora vinda da PUC ganha um doce!

Para finalizar, pois os exemplos abundam, mas não quero abusar da paciência do leitor, tem aquele caso do concurso em que certo membro da banca atribuiu nota zero (ZERO!) a todos os candidatos exceto àquele que ele queria “emplacar”. Só que a presidente da banca fez o mesmo com todos os candidatos menos aquela que ela queria ver escolhida. Conclusão: todos os candidatos foram eliminados, a não ser os dois que não receberam zero. (E aqui vai uma consideração: por menos apto à vaga que seja um candidato, jamais alguém detentor de um doutorado é merecedor de uma nota zero.)

Comentou-se à boca pequena que o embate entre os dois membros da banca, ocorrido a portas fechadas como manda o regulamento dos concursos, foi tão vigoroso que pôde ser ouvido do lado de fora. Ao final, venceu o concurso a candidata preferida da presidente da banca. Detalhe: a moça já havia sido coautora da professora em diversos trabalhos publicados, e ambas, ainda por cima, eram colegas de sinagoga.

Esses poucos exemplos mostram que, não raro, os vencedores de concursos docentes em universidades públicas, especialmente na área de Letras, são escolhidos por critérios de afinidade pessoal, profissional e também, como não poderia deixar de ser, político-partidária.

Afinal, o que é o Ocidente?

Nesta última terça-feira, o Vice-Presidente do Conselho de Segurança da Rússia,  Dmitri Medvedev, escreveu em sua conta na rede social Telegram: “Eu odeio os ocidentais. Eles são bastardos e degenerados. Querem a morte para nós e para a Rússia. E, enquanto eu estiver vivo, farei todo o possível para fazê-los desaparecer”. Como temos visto, desde que a guerra na Ucrânia começou, tem havido uma constante e crescente tensão entre a Rússia e o chamado Ocidente. E fica claro que os russos – pelos menos os que estão no poder – não se consideram parte desse Ocidente. No entanto, a Rússia é um país europeu, em que pese ter grande parte do seu território na Ásia, fruto de conquistas ao longo da História. Afinal de contas, o berço do povo russo é a Europa oriental, mais precisamente o reino medieval chamado Rússia de Kiev, que existiu do século IX ao XIII e foi fundado por vikings suecos. O próprio nome Rússia deriva de rus ou russi, palavra do antigo nórdico, língua que deu origem  ao sueco, norueguês, dinamarquês e islandês. E os russos são eslavos, povo de origem indo-europeia surgido no Leste europeu, onde se encontram até hoje.

Se os russos não se sentem ocidentais, e mesmo muitos ocidentais não os consideram como tal, então convém definir o que se convencionou chamar de Ocidente, Mundo Ocidental ou ainda Civilização Ocidental.

O embrião da nossa civilização foi a Grécia antiga, onde, por volta do século VI a.C. surgiu a primeira civilização do homem, isto é, que colocava o ser humano e sua capacidade de raciocínio no centro da realidade. O pensamento racional por oposição ao misticismo foi a primeira grande marca da cultura ocidental, que a distinguiu das culturas orientais.

Esse modelo de cultura pouco depois se espalhou para Roma, misturando-se em parte a tradições locais e resultando no que chamamos hoje de cultura greco-romana. A partir do século I d.C., Roma passou a sofrer a influência do cristianismo e sua moral de origem judaica, tendo mesmo adotado essa religião como oficial do Império Romano em 325 d.C. Agora, a civilização greco-romana era civilização greco-romano-judaico-cristã. Para muitos historiadores, Civilização Ocidental é sinônimo de Civilização Cristã; logo, pertenceriam ao mundo ocidental todos os povos majoritariamente cristãos, incluindo os russos.

O Império Romano nunca foi uma unidade étnica e, desde que conquistou a Grécia, a parte oriental do Império sempre foi mais grega do que latina. Em 395 d.C., o imperador romano Teodósio dividiu o Império em dois: Império do Ocidente, cuja capital permaneceu sendo Roma, e Império do Oriente, com capital em Constantinopla (atual Istambul).

Com o esfacelamento do Império Romano, outro povo incorporava sua cultura a esse substrato: os germanos. Com eles, veio o feudalismo, o direito consuetudinário, que ainda prevalece nos países nórdicos, a cavalaria medieval e sua ética cavalheiresca, os castelos, etc. É a partir dessa época, chamada de Alta Idade Média, que surgem os reinos que depois se transformariam nos atuais Estados europeus: França, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Espanha, e assim por diante. É também o momento em que línguas como o francês, o inglês e outras produzem seus primeiros registros escritos e suas primeiras obras literárias. Como mencionei acima, é nessa época também que surge a Rússia.

Enquanto isso, o Império do Oriente sobreviveria ainda por mil anos com o nome de Império Bizantino. Sua cultura era eminentemente grega.

Em 1054, o Grande Cisma do Oriente provoca uma ruptura no seio do cristianismo, dando origem a duas igrejas: a Católica Apostólica Romana, com sede em Roma, e a Católica Apostólica Ortodoxa, sediada em Constantinopla, atual Istambul. Essa ruptura aumentou a distância cultural que já havia na Europa: é nesse momento que os europeus mais a oeste, que permaneceram fiéis à Igreja de Roma e submetidos à influência da língua latina, passam a ver os europeus do leste, ortodoxos e influenciados pela língua e pela cultura gregas, como algo que já não fazia parte de sua civilização.

O Renascimento e sua retomada dos valores culturais e artísticos greco-romanos, que não chegou ao Leste europeu, aprofundou ainda mais a diferença entre as duas Europas. Embora continuasse a haver um mundo cristão em oposição ao mundo muçulmano que o ameaçava, começava a haver também dois conceitos de Ocidente: o conjunto de toda a cristandade ou somente a cristandade católica.

No século XVI, um novo cisma religioso abalaria a Europa: a Reforma Protestante, que separaria os países do norte, fundamentalmente germânicos, daqueles do sul, predominantemente latinos. Entretanto, esse novo cisma não seria suficiente para romper com o conceito mais restritivo de Ocidente: a ruptura religiosa não representava uma ruptura cultural, e os europeus do norte e do sul continuaram a intercambiar literatura, arte, ciência, filosofia, além de mercadorias. As revoluções da Idade Moderna – a Comercial, a Científica, a Francesa e a Industrial – afetaram toda essa região, mas não chegaram ao extremo leste da Europa. Somente no século XVIII, o czar russo Pedro o Grande promoveu a ocidentalização da Rússia, forçando sua corte a adotar costumes sobretudo franceses. Nesse momento, pode-se dizer que a Rússia voltava a fazer parte do Ocidente.

Os Grandes Descobrimentos do século XVI ampliaram o conceito de Ocidente, incluindo agora também as Américas. O descobrimento da Austrália e da Nova Zelândia no século XVIII levava essa civilização até o Oceano Pacífico. E em 1861 o Japão se abria ao Ocidente, adotando sua cultura. Apesar de manter algumas de suas tradições, pode-se dizer que hoje a terra do Sol nascente também é uma nação ocidental, assim como a Coreia do Sul e também Israel.

A Revolução Bolchevique de 1917, que fundou a União Soviética e inaugurou o comunismo como regime de governo, criou novo fosso entre leste e oeste. Agora o Ocidente era capitalista e o Oriente, ainda mais com a Revolução Chinesa de 1949, socialista. Surgiam o chamado Mundo Livre e a Cortina de Ferro.

A queda do muro de Berlim e o subsequente fim da União Soviética fez com que os países do Leste europeu novamente se aproximassem do Oeste, adotando o capitalismo, a democracia liberal e os costumes e o estilo ocidentais na moda, na música, no cinema, etc.

Agora, Vladimir Putin parece querer distanciar novamente a Rússia da Europa ocidental e dos Estados Unidos e, com a guerra na Ucrânia, parece querer também arrastar os antigos países satélites da extinta URSS para junto de si. O que move Putin a esse intento é sua filiação ideológica ao chamado eurasianismo, movimento político surgido em princípios do século XX, inicialmente inspirado nas ideias de Konstantin Leontiev e liderado, dentre outros, pelo príncipe Nikolai Trubetzkoy, que por sinal era linguista e foi o fundador da fonologia, ou estudo dos fonemas da língua.

O eurasianismo prega que a Rússia não pertence nem à categoria “europeia” nem à “asiática”, mas constitui o conceito geopolítico de “Eurásia”. Situando-se geograficamente entre os dois continentes e tendo em seu território populações de origem tanto europeia, sobretudo eslava, quanto asiática (turcos, fino-úgrios, cartvélios, sino-tibetanos, dentre outros), bem como tendo toda uma história em que se sucedem momentos de aproximação e de afastamento em relação à Europa ocidental, é natural que pelo menos parte dos russos não se sinta realmente pertencente ao mundo ocidental. O nacionalismo russo, que sempre esteve presente, também joga um papel importante nesse posicionamento.

Em seu livro Choque de civilizações, de 1996, o cientista político americano Samuel Huntington define Ocidente como toda a Europa católica e protestante (mas não a ortodoxa, o que exclui até a Grécia, berço de nossa civilização), os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. Curiosamente, ele distingue a América Latina do Ocidente, embora nossa cultura seja predominantemente ocidental (contribuições africanas e ameríndias existem também nos Estados Unidos e Canadá).

Já a definição clássica de Ocidente compreende toda a Europa, inclusive a Rússia europeia, toda a América, a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. E há ainda algumas outras definições, baseadas em critérios políticos, como, por exemplo, pertencimento ou não à OTAN.

Como vimos, não há um conceito único de Ocidente, mas conceitos apenas parcialmente coincidentes, de modo que a única parte do globo terrestre que está presente em todos é a chamada Europa ocidental, basicamente católica ou protestante e, em termos étnico-linguísticos, fundamentalmente latino-germânica. Mas o Ocidente que Putin e Medvedev querem destruir se chama simplesmente Estados Unidos – a Europa ocidental e, mais ainda, América Latina e Oceania são para eles meros satélites que cairiam junto com o Tio Sam.

Índio ou indígena?

O presidente Jair Bolsonaro recentemente vetou uma lei aprovada pelo Congresso Nacional que propunha alterar o nome do Dia do Índio para Dia dos Povos Indígenas. Essa atitude reacendeu uma polêmica que já dura algum tempo e que põe em xeque a palavra índio como designativa dos povos de origem asiática que já habitavam as Américas antes da chegada dos europeus, bem como de seus atuais descendentes. Nesse embalo, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz chegou a postar um vídeo no YouTube de reprimenda ao presidente com o título É indígena, sr. Presidente!.

Como todos devem saber, a palavra índio tem a ver com a Índia, e a primeira das acepções desse vocábulo nos dicionários é justamente “o mesmo que indiano” (em espanhol, até hoje, os indianos, habitantes da Índia, são chamados de indios, e em inglês Indian significa indistintamente “indiano” e “índio”). É que, segundo consta, ao chegar ao continente americano, Cristóvão Colombo acreditava ter chegado às Índias. E naquele tempo, Índias era a designação que os europeus davam não só à Índia propriamente dita, mas a todo o sudeste asiático, daí o termo no plural.

Desse modo, Colombo chamou os aborígines americanos de índios, e esse nome ficou consagrado por séculos. Como esses aborígines tinham características físicas peculiares (pele moreno-avermelhada, cabelos pretos e lisos, olhos negros ligeiramente amendoados, nariz discretamente achatado), os antropólogos do século XIX decidiram chamar de índia essa suposta raça humana por oposição aos brancos, negros e amarelos (na verdade, os orientais, que de amarelo não têm nada). Uma classificação antropológica mais moderna denomina os brancos de europoides ou caucasianos, os negros de negroides e os amarelos de mongoloides (não confundir com os portadores da síndrome de Down). Quanto aos índios, são atualmente classificados entre os mongoloides, isto é, são um subgrupo dos humanos que habitam o Extremo Oriente e que um dia, há cerca de 30 mil anos, cruzaram o estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, num tempo em que a calota polar o permitia, e povoaram a América.

Hoje em dia se questiona muito o conceito de raça, visto que, do ponto de vista genético e graças à análise do DNA, se sabe que os humanos têm entre si muito mais semelhanças do que diferenças. Mesmo assim, ainda costumamos dividir a humanidade em raças com base nas características físicas de cada povo. Isso é tão verdade que hoje, mais do que nunca, os negros procuram afirmar-se como tal em sua luta contra o racismo e pela preservação de seus valores culturais.

Quanto a indígena, esse termo que normalmente usamos para nos referir aos ameríndios (e olhe a palavra índio aí de novo, disfarçada!) nada tem a ver etimologicamente com os índios. A palavra vem do latim, portanto já existia bem antes de os europeus terem chegado à América, e significa simplesmente “natural da terra, nativo”, do latim indu-, “dentro”, e geno, “nascer”. Ou seja, indígena é quem nasceu dentro (do país). A semelhança fonética fortuita entre índio e indígena foi um prato cheio para estabelecer-se a confusão e passar-se a achar que só os habitantes originários do Novo Continente são indígenas.

Mas a polêmica, alimentada pelo famigerado movimento politicamente correto, está na crença, trajada de fake news, de que o termo índio é pejorativo e de que põe no mesmo balaio povos de etnias muito diferentes. Em primeiro lugar, ninguém ignora hoje em dia que um txucarramãe é etnicamente muito distinto de um ianomâmi; no entanto, chamá-los todos de índios não é muito diferente de chamar povos tão distintos quanto portugueses e húngaros de europeus. Em segundo lugar, qual a evidência científica de que o termo índio tem conotação pejorativa? Há alguma estatística de uso da palavra que comprove que, na maioria das vezes, é empregada em tom depreciativo? Como homem de ciência, me apego aos fatos e não a opiniões ou crenças, e fatos são comprováveis por dados observáveis. Sem eles, o que há é mera especulação, por vezes a serviço de certas agendas ideológicas. O “cancelamento” de palavras legitimamente vernáculas e sem nenhum cunho preconceituoso como gordo, cego, surdo, vesgo, paralítico, careca, etc., e sua substituição por paráfrases longas e pouco práticas de ser pronunciadas como pessoa portadora de deficiência ou pessoa não vidente (até a expressão deficiente visual vem sendo evitada ultimamente) procura criar uma espécie de novilíngua à moda daquela descrita por George Orwell em seu romance distópico 1984, na qual determinadas palavras ou acepções são banidas com o objetivo de restringir a amplitude do pensamento. Assim, se algo não pode ser dito, não pode ser pensado, logo não existe. O que o politicamente correto faz é justamente isso: em vez de procurar mudar a realidade para melhor, ele a mascara, dando nomes bonitos a coisas feias para que elas pareçam mais bonitas – ou menos feias.

A vítima mais recente da orwellização da língua portuguesa é a palavra escravo, sistematicamente substituída por escravizado – como se pessoas escravizadas não fossem escravas. Por essa lógica, não podemos mais nos referir à Abolição da Escravatura, mas devemos em vez disso aludir à Abolição da Escravização.

O pior de tudo é que essa proscrição de palavras feita pela linguagem politicamente correta não tem embasamento nas ciências da linguagem e é feita por pessoas, em geral militantes ideológicos de cultura rasa, sem nenhum cabedal de conhecimento etimológico ou de história da língua. Recentemente, uma deputada federal propôs banir o vocábulo travestido por afirmar erroneamente que seria uma alusão depreciativa aos travestis.

O fato é que muitos jornalistas, intelectuais e ativistas políticos têm evitado até referir-se aos nativos brasileiros como indígenas e empregado em seu lugar a expressão povos originários. Ou seja, já fizeram o revisionismo do próprio revisionismo linguístico.

Será que falamos todos a mesma língua?

Outro dia comprei um mouse novo para o meu computador. Produzido por uma conhecida marca americana, veio acompanhado de um manual de instruções nas seguintes línguas, e nesta ordem: inglês, português brasileiro, francês, grego, italiano, português lusitano, espanhol e hebraico. Achei curioso que o manual trouxesse duas versões das instruções em português, uma para cada variedade do idioma – e separadas entre si por três outros idiomas. Mais curiosamente ainda, não há nesse manual versões distintas para as variedades do inglês (britânico e americano), francês (europeu e canadense) e espanhol (ibérico, mexicano, argentino, etc.). Mas há duas versões, por sinal diferentes, para a nossa língua.

Lendo mais detidamente as instruções, fica claro por que não foi preciso acrescentar redações alternativas em inglês, francês ou espanhol. É que nessas línguas, os dizeres seriam os mesmos qualquer que fosse a variedade considerada (europeia ou ultramarina).

A empresa fabricante do mouse, que, como disse, é americana, certamente não desconhece as diferenças de seu inglês para o dos britânicos, mas o fato é que uma segunda redação não seria absolutamente necessária, já que coisas como “Insert the AA alkaline battery. For safety information, see the Product Guide” se dizem exatamente da mesma maneira dos dois lados do Atlântico. Já em português a coisa não é bem assim. Senão vejamos (nos exemplos a seguir, a versão brasileira está indicada com PB e a lusitana, com PP):

PB: Insira a pilha alcalina do tipo AA. Para obter informações sobre segurança, consulte o Guia do Produto.
PP: Insira a pilha alcalina AA. Para obter informações de segurança, consulte o Manual do Produto.

PB: Insira o transceptor em uma porta USB do computador.
PP: Insira o transceptor numa porta USB do computador.

PB: Baixe e instale o software … (necessário para usar o botão Lupa).
PP: Transfira e instale o software … (necessário para o botão Lupa).

PB: Quando não estiver em uso, desligue o mouse para prolongar a vida útil da pilha.
PP: Quando não estiver a ser utilizado, desligue o rato para prolongar a vida útil da pilha.

PB: Se o transceptor estiver armazenado no mouse, pressione o botão para soltá-lo.
PP: Se guarda o transceptor no rato, prima o botão para o libertar.

PB: Para obter informações importantes sobre segurança e meio ambiente, consulte o Guia do Produto. Para obter as informações e atualizações mais recentes vá para www…
PP: Para obter informações de segurança e ambientais importantes, consulte o Manual do Produto. Para obter as informações e actualizações mais recentes vá para www…

Bem, acho que os exemplos acima dispensam comentários. E depois dizem que a internacionalização do idioma depende da unificação ortográfica…

As duas maneiras de sofrer

Nos últimos anos, o Brasil tem sofrido com três crises: sanitária, política e econômica. Muitos sentiram na pele – e principalmente nos pulmões – os efeitos da covid-19, outros padeceram a perda de entes queridos, e muitos mais sofreram com o isolamento forçado. Além disso, sofre-se atualmente com a inflação alta e o desemprego idem, além das constantes ameaças à nossa democracia. Mas, diante de tanto sofrimento, vocês sabiam que em português há duas maneiras de sofrer?

A palavra “sofrer” chegou ao português por herança do latim sufferre, passando pelo estágio intermediário sufferere (ou sufferrere) no latim vulgar. Os dicionários registram basicamente duas acepções para essa palavra: padecer, ter dor física ou moral (“Meu avô sofreu muito antes de morrer”; “Ele está sofrendo por amor”); e suportar, ser submetido a, passar por (“Meu avô sofreu uma cirurgia”; “Meu time sofreu uma fragorosa derrota” “Os vírus sofrem mutação”).

A primeira acepção é geralmente intransitiva e admite o substantivo deverbal (isto é, derivado de um verbo) “sofrimento”. A segunda é transitiva e não tem deverbal. Pode-se até pensar que quem sofre uma cirurgia ou uma derrota de alguma forma tem dor. Talvez por isso tal verbo, que em latim significava originalmente “sustentar”, tenha assumido também o sentido de “padecer”.

O latim sufferre é formado de sub- (sob, embaixo, de baixo para cima) e ferre (levar, transportar). Portanto, significa levar algo sobre si, estando embaixo da coisa transportada. Como carregar coisas – especialmente pesadas – não é tarefa das mais agradáveis, sufferre logo passou a ter o sentido de “padecer”, para o qual o latim já dispunha do verbo pati (no latim vulgar, patere), do qual derivaram palavras como “paixão”, “passivo”, “paciente”, etc. Em Valério Máximo temos stuprum pati coacta (forçada a sofrer estupro). E em Sêneca, iniuriam pati (sofrer uma injúria).

No entanto, o latim também tinha um terceiro verbo com o mesmo significado: subire, formado de sub- e ire (ir para debaixo de, portanto, submeter-se ou ser submetido a), que também significa “subir” (isto é, “ir de baixo para cima”), sentido que passou ao português.

Curiosamente, outras línguas europeias usam dois verbos diferentes para as acepções “padecer” e “submeter-se”, em geral empréstimos respectivamente de sufferre e subire. No francês temos souffrir e subir; no italiano, soffrire e subire; no inglês suffer e undergo, este último tradução de subire (under = sub, go = ire).

O que se nota é que tanto sufferre quanto subire contêm o prefixo sub-, que significa “embaixo, de baixo”. Assim, em ambos os casos há a ideia de rebaixamento, inferioridade, submissão. Metaforicamente, quem padece uma dor ou se submete a uma experiência está debaixo de algo. Podemos pensar no escravo que sofre ao carregar peso ou que sofre um castigo. No paciente (do latim patiens, “aquele que padece”) que sofre uma cirurgia, situação em que está deitado e tem os cirurgiões trabalhando por cima. Na coluna que suporta (do latim supportare, “levar, portar embaixo”) o edifício. Ou ainda no trabalhador que sustenta (do latim sustentare, forma intensiva de sustinere, “segurar por baixo”) a família.

Consequentemente, o sentido básico de ambos os verbos sufferre e subire é o de suportar, sustentar, isto é, ficar embaixo de algo, resistindo para não deixar cair. Como o velho Atlas, mítico rei da Mauritânia que, segundo a lenda, tendo-se recusado a hospedar Perseu, foi por este metamorfoseado em montanha – o monte Atlas, no norte da África. Como essa montanha era a mais alta dentre as conhecidas pelos gregos, surgiu o mito de que Atlas suportava o céu sobre os ombros. Não por acaso, as estátuas que representam esse personagem o mostram com uma fisionomia sofredora.

Riberrô? Vierrá?

Outro dia ouvi num intervalo comercial de uma TV pública que uma certa cantora lírica francesa, cujo nome me parece que era Catherine Ribeiro (ou Marguerite, ou Jacqueline…), viria se apresentar no Brasil. O curioso – e, para mim, principalmente irritante – é que o locutor pronunciava o seu sobrenome como “riberrô”. Tudo bem que os franceses pronunciem nomes estrangeiros à moda deles, afinal nós também fazemos isso. Aliás, todos os povos fazem isso. É por essa razão que eles pronunciam os sobrenomes do falecido antropólogo Lévi-Strauss (de origem alemã) e do eterno craque do futebol Platini (do italiano) como “levistrrôss” e “platiní”, respectivamente. Como esses sobrenomes são estrangeiros também para nós, tanto faz dizê-los à maneira dos franceses, dos alemães ou dos italianos. Optamos então por pronunciá-los como os próprios donos dos sobrenomes os pronunciam. Pela mesma razão, o linguista Noam Chomsky é conhecido como “tchómski” tanto aqui quanto nos EUA, sua terra natal, embora a pronúncia original do sobrenome, de origem judeu-russa, seja “khómski”.

Agora, pronunciar à moda estrangeira nomes que são legitimamente portugueses já é demais! Lembro que nas Copas do Mundo de futebol de 1998 e 2002 tivemos que aguentar os narradores esportivos brasileiros chamando os jogadores franceses Vieira, Pires e Fernandez de “vierrá”, “pirrés” e “fernandês”. (Na contramão dessa tendência, esses mesmos narradores chamam o futebolista colombiano James Rodríguez de “rames”, à moda espanhola, quando os próprios colombianos – e o próprio detentor do nome – o chamam de “djeims”, tal como o fazem os ingleses, criadores do nome.)

Mas será que os franceses são tão zelosos assim com nossa pronúncia quando se referem a brasileiros com nomes de origem francesa, como o infeliz eletricista-confundido-com-terrorista Jean Charles de Menezes, morto pela polícia londrina em 2005? Há no Brasil uns poucos sobrenomes franceses, como Bittencourt e Fleury, que pronunciamos erradamente como “bitencur” e “fleurí” quando o certo seria “bitãcur” e “flörrí”. E também pronunciamos Jean como “jiã” e não “jã”, e Charles como “xarles” e não “xarl”. Também temos inúmeros brasileirinhos chamados Rian (ou Ryan), nome inglês que virou moda nas classes mais baixas, onde são chamados de “riã” e não de “ráian”. E “riã” (isto é, rien) quer dizer “nada” em francês. Se for mesmo verdade que um nome pode determinar o futuro de uma pessoa…

Mas voltando ao ponto: será que franceses e ingleses pronunciam Jean, Charles, Rian, Bittencourt e Fleury à moda brasileira quando os donos de tais nomes são nossos patrícios? Certa vez ouvi numa emissora de rádio em Buenos Aires o locutor mencionar um filósofo suíço de nome Rota Punto Rota Punto Ru-ce-au e só após alguns segundos de perplexidade compreendi tratar-se de J. J. Rousseau (ou melhor, Jean-Jacques Rousseau), que muitos no Brasil, inclusive na universidade, tratam na intimidade por “jiã-jaques”.

O chauvinismo linguístico

Chauvinismo é o sentimento patriótico exagerado e fanático, que leva o indivíduo a supervalorizar as qualidades de seu país, ao mesmo tempo em que despreza ou abomina tudo que é estrangeiro. Logo, o chauvinista é também um xenófobo, quando não um racista. De modo mais geral, o termo se aplica igualmente a qualquer defensor radical de um conceito, ideia ou ideologia, que tem atitude agressiva contra todos que sejam contrários ao objeto de sua defesa.

Embora apenas uns poucos tenham esse sentimento exacerbado ou sejam capazes de atitudes virulentas, é muito comum que as pessoas nutram um sentimento de amor ao próprio país pelo simples fato de terem nascido nele. Nesse sentido, o chauvinismo nacional decorre do desconhecimento de outras nações e outras culturas.

Da mesma forma, é muito comum o chauvinismo linguístico, o amor que o falante tem pela própria língua, independente de qual seja, apenas pelo fato de que é a língua que ele fala, a primeira – e, na maioria das vezes, a única – que aprendeu.

Gostar ou não gostar de alguma coisa, seja um país, uma cultura, uma língua ou o que quer que seja, é algo bem subjetivo: em geral, não temos motivos racionais para essa ou aquela preferência, mas somos movidos apenas por sentimentos. E estes, muitas vezes, nos são inculcados desde a infância pelos pais, professores, sacerdotes, governantes, meios de comunicação, etc.

No entanto, para a pessoa que crê, sua crença tem valor de verdade. A maioria dos brasileiros, inclusive os que passam as maiores privações neste país, acha o Brasil a melhor nação do mundo. Obviamente, americanos, franceses, japoneses, costa-riquenhos e ugandenses pensam o mesmo de seus países.

De igual maneira, o chauvinismo também aflora quando o assunto é a língua. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi brasileiros dizerem que o português é um idioma belíssimo, que nenhum outro consegue expressar tão bem e de forma tão poética os sentimentos humanos, que nossa língua é a mais linda e perfeita do mundo, e por aí vai. Chauvinismo puro!

Em primeiro lugar, de um ponto de vista estritamente objetivo, não há línguas melhores ou piores: toda língua é igualmente eficiente em sua função de comunicação. Todos os povos usam diariamente seus idiomas nas mais diversas situações de modo fluente e eficaz. Todo idioma dá conta das necessidades de pensamento e expressão dos seus falantes dentro de sua cultura específica.

Em segundo lugar, se quisermos medir de alguma forma e segundo algum critério a “qualidade” das línguas em termos de sua simplicidade, facilidade de aprendizado, praticidade de criar novas palavras, etc., devemos recorrer a uma área da ciência chamada linguística comparada ou comparativa, que faz o cotejo e a análise das semelhanças e diferenças estruturais entre as línguas de todos os seus pontos de vista: fonético, fonológico, morfológico, sintático, lexicológico, semântico e até ortográfico.

Em outro artigo, falei sobre essa especialidade linguística, à qual me dedico formalmente há pelo menos 30 anos e informalmente desde a adolescência. Por meio dela, é possível dizer que o português não é das línguas mais complexas do mundo, mas é mais complexa gramaticalmente do que a maioria de suas irmãs românicas, tendo uma série de irregularidades estruturais que outras línguas não têm ou têm em menor grau, ou, ainda, já tiveram, mas eliminaram. Por exemplo, o português é a única língua-padrão europeia a ter mesóclise, futuro do subjuntivo, pretérito mais-que-perfeito sintético e infinitivo pessoal. É também a língua com a colocação pronominal mais cheia de regras. Do meu ponto de vista particular, embora nenhuma língua seja perfeita (nem o esperanto, idioma artificial extremamente simples em todos os aspectos), há várias línguas próximas ao português com gramática mais simples, pronúncia mais suave e grafia mais lógica do que ele. Quanto a questões subjetivas, como a expressividade ou a beleza poética do idioma, posso garantir que, nas mãos do bom poeta e do bom escritor, qualquer língua é um instrumento perfeito para criar beleza e eloquência.

Mas o chauvinismo linguístico, alheio a todas essas considerações de cunho técnico-científico, endeusa a língua pátria e a cultura que ela expressa sem se dar conta da real importância que essa língua e cultura têm no concerto mundial.

Assim, os falantes ufanistas do português ignoram que nosso idioma, embora seja o quinto mais falado no mundo, só detém essa posição por causa da grande população do Brasil. E que, mesmo sendo muito falada, é muito pouco difundida internacionalmente. Como resultado, também a literatura e a cultura veiculadas por ela são pouco conhecidas, com exceção talvez de Paulo Coelho, das telenovelas brasileiras, do nosso futebol e de alguns artistas da MPB. Em termos de relevância ou interesse dentro da própria Europa, o português ocupa mais ou menos a mesma posição que o norueguês ou o polonês.

No aspecto político, econômico, científico e tecnológico, nenhum país lusófono tem destaque mundial. Portugal foi um grande império colonial no século XVI, mas, mesmo assim, jamais foi uma potência política ou militar na Europa, capaz de influir nos destinos da história do continente, que sempre girou em torno de players mais centrais, como a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Áustria e a Itália. Mesmo países periféricos como a Espanha, a Suécia e a Rússia tiveram papel maior que Portugal na história europeia e ocidental. O Brasil é, sem dúvida, a nação lusofalante mais destacada no plano econômico, mas ainda uma economia secundária e pouco confiável. No terreno político, nem Brasil nem Portugal têm peso em termos globais. (Que dirá os demais países de língua portuguesa, como Angola, Cabo Verde ou Timor Leste!) Na verdade, grande parte do noticiário sobre nós que chega ao mundo desenvolvido trata de mazelas como fome e doenças ou acontecimentos folclóricos, como o mau comportamento de nossos dirigentes.

Por tudo isso, vejo com perplexidade e certo desalento as manifestações chauvinistas com relação ao nosso país e à nossa língua. Falta-nos um certo senso de realidade. Mas fazer o quê? A maioria dos povos do mundo não têm nenhuma razão objetiva para se orgulhar de si mesmos, mas se orgulham. O chauvinismo é próprio da natureza humana.

A graça do indulto

Desde que o presidente Jair Bolsonaro concedeu ao seu aliado político, o deputado Daniel Silveira, o indulto individual à pena a que fora condenado pelo Supremo Tribunal Federal, indulto esse chamado tecnicamente de graça, essa palavra veio à baila e ao noticiário nesse sentido em que quase ninguém, a não ser os juristas, a conhecia. Vamos então falar sobre esse vocábulo, um dos mais polissêmicos (isto é, que têm mais significados) da língua portuguesa.

Em primeiro lugar, graça quer dizer favor, mercê. Mas também pode ser benevolência, estima, amizade. Pode ainda, segundo a teologia, ser a participação do homem na vida divina, antes do pecado, assim como um socorro espiritual concedido por Deus. E também perdão, indulgência, indulto (aqui temos o sentido do ato de Bolsonaro). Pode ser algum atrativo pessoal, físico ou moral, um certo charme ou elegância. Pode ser um chiste, uma pilhéria. E ainda o nome de uma pessoa (Qual é a sua graça?). Isso sem falar que há mulheres cujo nome é Graça. Como nome próprio, é também o designativo de três deusas gregas, as três Graças. E de graça quer dizer “grátis”. Pode-se ainda cair nas graças de alguém ou estar em estado de graça. E, até que, no século XVI, o rei de França Francisco I instituísse o tratamento de “majestade” para reis, os súditos se dirigiam ao soberano pelo pronome de tratamento Vossa Graça. Finalmente, é graças à graça presidencial (desculpem o trocadilho) que trato hoje deste assunto aqui no blog.

O que há de comum entre as palavras graça, grato, gratidão, agradecer, agradar, desgraça, desgraçado, engraçado, grátis, gratificar, congratular, agraciar, congraçar, e destas com favor, mercê e obrigado? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical graç‑, graci‑, grat‑ ou grad‑, que remete à raiz latina grat‑, de gratus, “grato, agradecido”. Portanto, o latim gratia, qualidade de gratus, e que deu o nosso graça, era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra favor, da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário (será que hoje essa reciprocidade ainda existe?). E assim temos a explicação de por que dizemos obrigado ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, “de graça” ou “grátis”. Por isso, em espanhol se diz gracias, em italiano grazie e em francês merci (que quer dizer “mercê”, ou seja, “favor”) em lugar do nosso obrigado. Por isso também, a Virgem Maria é “cheia de graça”, de generosidade. E a exclamação “Graças a Deus!” é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, agradar significa “tornar grato, receptivo, simpático”. E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, “engraçado”. Daí que graça também passou a significar “alegria, jovialidade” (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, “hilaridade, comédia”. Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o – financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas, se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça. Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um desgraçado. Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas “infeliz”, assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Voltando ao caso Silveira, é possível dizer que ele foi “agraciado” com o perdão presidencial.

Finalmente, favor, que não tem relação etimológica com graça, mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, favorito, que quer dizer “favorecido”. Assim, quando dizemos que numa licitação pública houve favorecimento a um dos concorrentes, o que estamos dizendo é que a empresa vencedora era favorita desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país. Da mesma forma que anistiar por razões políticas ou pessoais quem é condenado pela justiça não tem a menor graça.

O dengo e a dengue

Ainda nem terminou a pandemia de covid-19, e o Brasil já vê explodirem os casos de dengue, mal que nos assola quase todos os anos dada a dificuldade no combate ao seu transmissor, o mosquito Aedes aegyptii, em parte por descaso de parcela da população, que deixa água acumulada em vasos, latas, pneus, piscinas não tratadas e outros repositórios de água parada que servem de criadouro ao inseto.

Mas de onde veio a palavra que nomeia essa doença? Há uma controvérsia sobre isso. Alguns dicionários trazem dois verbetes distintos com a denominação dengue, o que configuraria um caso de homonímia. Temos então dengue1, proveniente do quimbundo ndenge, cuja forma paralela é dengo, que significa “birra, melindre, faceirice, requebro”. É aquele charminho que as crianças – e também certos adultos, especialmente mulheres – fazem, donde chamá-los de dengosos. E temos também dengue2, de origem castelhana, referente à doença contagiosa propriamente dita.

Só que o dicionário etimológico Corominas da língua espanhola só registra uma entrada para dengue e a ela atribui tanto o significado de “melindre” quanto o de “doença epidêmica”. Segundo essa obra, por sinal um dos melhores dicionários etimológicos que existem, tal palavra seria de origem expressiva na primeira acepção e relacionada a outras, como dingolondango, “mimo”, tenguedengue, “melindre, afetação”, e tenguerengue, “a ponto de cair”. Portanto, justamente aquela acepção que em português se atribui ao quimbundo, língua africana falada em Angola, parece ser tão castelhana quanto a segunda, a de doença.

No entanto, como a palavra data em espanhol de 1732, época em que os colonizadores ibéricos já traficavam escravos da África, não é impossível que a língua espanhola tenha tomado o vocábulo do quimbundo. Quanto aos supostos cognatos dingolondango, tenguedengue e tenguerengue, tudo pode não passar de mera coincidência. Esses impasses deixam louco qualquer etimólogo.

Pelo menos, no Brasil fazemos a distinção entre o dengo, isto é, a qualidade de quem é dengoso, e a dengue, enfermidade que mata pessoas todo ano, de modo que, qualquer que seja a origem da palavra – ou das palavras, caso sejam de fato homônimas –, jamais associamos os sintomas da infecção com uma possível frescura do doente.

De onde vem o nome da Páscoa?

Novamente estamos na Semana Santa e desta vez podemos comemorá-la com um pouco mais de esperança, já que a pandemia de covid-19 parece estar chegando ao fim. Em compensação, passaremos mais uma Páscoa sem que a humanidade esteja totalmente em paz, haja vista a insana guerra agora travada entre Rússia e Ucrânia.

Em todo caso, já que é Páscoa, vamos explorar um pouco a origem do nome dessa festa. O termo Páscoa nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Mas, se o termo latino é Pascha, por que em português temos Páscoa e não Pasca, como seria de se esperar? É que o vocábulo se alterou por influência do latim pascua, feminino do adjetivo pascuus, “próprio para pastagem”, derivado do verbo pascere, “apascentar o gado”. Pascua (subentendido terra) era a terra própria para pastagem, ou seja, o pasto. A causa dessa confusão entre Pascha, “Páscoa”, e pascua, “pastagem” seria o término do período de jejum, que se dava na Páscoa, quando as pessoas podiam enfim voltar a se alimentar, visto que, além de “pasto”, pascua tinha o sentido mais geral de “alimento dos animais” – e, por extensão semântica, dos homens.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou *h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a estrela d’alva ou estrela da manhã).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha ou Pascua, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Então só me resta agora desejar feliz Páscoa a todos!

A pobreza do debate na internet

Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Ao que alguns arrematam com o argumento teológico: “Nem Jesus Cristo atingiu a unanimidade”. Qualquer que seja a posição defendida, sempre haverá apoiadores e detratores. Alguns economistas e analistas políticos são declaradamente de esquerda; outros são assumidamente neoliberais. Certos gramáticos são tradicionalistas, outros mais reformistas. O problema é que, tanto quanto a unanimidade, toda rotulação é burra: ninguém é só uma coisa ou só outra. E os rótulos resultam em geral de uma avaliação apressada, quando não preconceituosa. A discordância e o debate de ideias são absolutamente saudáveis numa sociedade democrática. Mais do que isso: são imprescindíveis. Entretanto, esse debate se vê empobrecido por certas posturas, que a internet ajuda a revelar.

Lendo notícias na web ou os blogs de meus colunistas preferidos, sempre dou uma olhada nos comentários que os leitores postam. Por sinal, antigamente o jornalismo era um monólogo: o articulista escrevia, o leitor lia, e pronto. Hoje, graças à tecnologia, a relação ficou mais interativa, de modo que é possível fazer o contraponto entre a ação e a reação. Para estudiosos do discurso como eu, é fascinante comparar o que o autor disse e o que os leitores entenderam. Mas, em muitos casos, é também decepcionante.

Se é verdade que alguns comentários são brilhantes, complementando e enriquecendo os argumentos do autor da matéria, bem como lançando perguntas que ensejariam um novo artigo, há outros para os quais vale a máxima chinesa “a palavra é prata, o silêncio é ouro”.

Em primeiro lugar, boa parte dos comentários postados em blogs e sites de notícias é bem mal redigida. E não me refiro apenas a erros de grafia ou gramática, mas à falta de concatenação das ideias, um vácuo mental de quem quer se expressar, mas não sabe fazê-lo. E como quem não se expressa com clareza em geral não pensa com clareza, é de se deduzir que tais pessoas dificilmente entendem o que leem – portanto atiram no que não veem. (Fico ainda mais estarrecido ao ler comentários desse tipo em blogs que tratam da língua portuguesa.)

Em segundo lugar, muitos leitores questionam as afirmações do texto de maneira superficial, apoiados apenas no senso comum, sem meditar mais profundamente sobre o tema, sem se informar a respeito para saber o quanto daquilo realmente procede. Em certos casos, leitores acusam de achismo ou viés pessoal informações objetivas, de cunho científico, fundamentadas por farta documentação (evidentemente, não é usual incluir bibliografia em matérias jornalísticas, o que não significa que ela não exista). A situação é ainda pior quando o artigo contrapõe a racionalidade ao senso comum, mostrando o quanto a intuição do leigo sobre a realidade é equivocada, quão estreita é sua visão, como frequentemente acontece em matérias sobre biologia evolucionária, cosmologia, política, economia e mesmo sobre a língua. Nesses casos, uma crítica vazia, sem embasamento, acaba produzindo exatamente o efeito inverso do que pretende, isto é, provando a estupidez do senso comum.

Mas há também o dogmatismo. Política, futebol e língua são assuntos-tabu tanto quanto a religião. Nesses casos, se o dogma está em desacordo com a realidade, errada está a realidade, não o dogma. Se o autor do texto é identificado, ainda que erroneamente (por leitura superficial ou rotulação burra), como adepto de uma linha de pensamento diferente da do leitor, este por vezes nem se dá ao trabalho de ler e já discorda a priori de tudo o que não leu.

Temos ainda a leviandade, irmã siamesa da arrogância, facilitada pelo suposto anonimato que a rede proporciona. Aí entra a acusação de se ter dito o que não se disse, a crítica pela crítica (mais raramente o elogio pelo elogio), e para tal vale de tudo, até desconsiderar todas as qualidades da matéria para se apegar a algum deslize perdoável do autor – ou do revisor.

Por último, há a pura e simples falta de polidez. Que o leitor discorde do conteúdo ou das posições do texto, não importa se com razão ou não, é um direito seu. Mas muitos abusam dessa fantástica possibilidade tecnológica de exercer online e em tempo real o direito à liberdade de expressão para insultar as pessoas citadas na matéria, quando não o próprio redator. Aristóteles, em suas Refutações Sofísticas, já alertava para a falácia do argumentum ad hominem: a grosseria é o argumento de quem não tem argumentos.

Em resumo, nunca tivemos tanta facilidade de debater ideias e opiniões na mídia como nos dias de hoje; nunca o receber e o transmitir informação foram tão fáceis e acessíveis como agora; e, no entanto, muitas pessoas desperdiçam essa oportunidade falando sem ter o que dizer.

Nossa formação baseada em educação ruim e cultura alienante deve ter-nos deixado assim. Pelos artigos que tenho lido e pelos comentários que lhes são apostos, chego à conclusão de que no Brasil não faltam cabeças pensantes: falta quem as compreenda.

A doença de Bruce Willis

Esta semana foi revelado que o ator americano Bruce Willis teve de se aposentar das telas por causa de uma doença que afeta sua capacidade de falar chamada afasia. Trata-se de uma condição neurológica causada por lesão no cérebro que pode ser devida a acidente, derrame, tumor ou processo degenerativo. Parece que o caso do ator é este último. Outra celebridade que também sofre dessa patologia é o ex-locutor esportivo Osmar Santos, que perdeu a faculdade da fala após um acidente automobilístico que lesou a região de seu cérebro responsável pela linguagem, a chamada área de Broca.

A afasia é uma velha conhecida dos linguistas. É graças ao estudo de pacientes com essa doença que uma área da linguística chamada psicolinguística conseguiu, juntamente com a neurociência, descobrir como o cérebro humano processa a linguagem. Hoje já se sabe que a aptidão linguística está ligada à atividade do hemisfério esquerdo do cérebro, onde se localiza a supracitada área de Broca, que tem esse nome por ter sido descoberta no século XIX pelo médico francês Paul Broca.

A área de Broca localiza-se no giro frontal inferior e, juntamente com a área de Wernicke, descoberta pelo neurologista alemão Carl Wernicke, é responsável pela decodificação das mensagens faladas ou escritas em termos fonológicos, léxicos e sintáticos e pela codificação das respostas motoras (isto é, da fala) a essas mensagens.

Os afásicos geralmente compreendem perfeitamente o que lhes é dito, mas têm dificuldade ou mesmo impossibilidade de formular enunciados. Certos tipos de afasia afetam apenas algumas faculdades linguísticas, como o vocabulário ou então a sintaxe. Por exemplo, certos pacientes, quando lhes é mostrada a figura de um rato, dizem: “Eu sei que animal é, é um bicho extremamente nojento, mas não consigo dizer o nome dele”. Outros dominam as palavras, mas não conseguem formar frases; suas emissões limitam-se a duas ou três palavras encadeadas, como “eu quero” ou “muito obrigado”. Há ainda aqueles que só emitem sílabas. O doutor Broca descobriu a função linguística da área cerebral que leva seu nome justamente ao autopsiar um paciente que só conseguia pronunciar tan.

Os avanços da neurociência têm demonstrado que os vários níveis da estruturação linguística – fonético-fonologica, morfológica, sintática, semântica – são comandados por diferentes módulos cerebrais. Isso explica por que, dependendo do tipo e da localização da lesão, o resultado em termos de déficit linguístico é diferente. Por conseguinte, há inúmeros tipos de afasia reconhecidos pela medicina. Dependendo do tipo, pode haver (ou não) uma estratégia específica de tratamento para minorar os prejuízos causados por essa deficiência. Em certos casos, estimula-se o córtex cerebral direito a fim de que desenvolva supletivamente e de forma compensatória as habilidades linguísticas perdidas pelo esquerdo.

A psicolinguística é um campo fértil de investigações científicas, e suas constantes interações com a neurociência a tornam uma área de fronteira onde se desenvolvem pesquisas de ponta sobre a linguagem e sobre o cérebro humano.

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Em tempo: quero aqui prestar minha homenagem à imortal Lygia Fagundes Teles, que faleceu ontem aos 98 anos. Viveu muito e viveu bem; escreveu muito e escreveu maravilhosamente bem!

Envolver a língua portuguesa

Na semana que passou, a cantora Anitta, que completa 29 anos hoje, realizou um feito inédito e memorável: tornou-se a primeira artista brasileira a chegar ao top one da plataforma de streaming Spotify com o sucesso Envolver. Claro que devemos estar contentes e orgulhosos com essa conquista, pela qual Anitta merece nossos parabéns, afinal trata-se de uma vitória no universo extremamente competitivo da música pop mundial. Mas acho que aqui também cabem algumas considerações sobre esse fato.

Em primeiro lugar, a música popular brasileira não vive hoje seu melhor momento. Pelo contrário, nosso país, que já produziu gênios como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Elis Regina, hoje tem como mainstream musical gêneros popularescos como o sertanejo e o funk. Mesmo a MPB de hoje em dia não tem produzido nomes com perspectivas de passar à posteridade. Que me perdoem os fãs de Anitta e da música atual se meu comentário parece ter um ranço saudosista, mas qualquer crítico musical sério pode confirmar o que estou dizendo. Aliás, esse cenário é um reflexo do próprio momento que o Brasil e o mundo estão vivendo.

Nesse contexto, Anitta se torna a número um do ranking musical mundial com uma canção “descartável”, num ritmo caribenho que visa a atingir sobretudo o público da América Latina e o grande mercado dos hispânicos que vivem nos Estados Unidos, tudo produzido segundo uma estética estritamente norte-americana e cantada em… espanhol. Quanta brasilidade!

É neste último ponto que, como linguista, gostaria de centrar a minha análise. Embora o Brasil seja o mais importante país da América Latina tanto em termos políticos e econômicos quanto culturais, é a única nação do continente a falar português. E nosso idioma, assim como toda a cultura que produz, é bastante periférico em termos mundiais. Não só não tem a importância histórica de línguas europeias mais “centrais”, como o francês, o inglês, o italiano e o alemão, como ainda sofre a concorrência de uma língua muito próxima à nossa e que, no último meio século, ganhou importância internacional: o espanhol. Sim, a língua de Cervantes já é a terceira mais importante língua europeia (em alguns casos até mesmo a segunda), atrás apenas do inglês e do francês. Justifica essa posição a enorme presença dos países hispanofalantes no hemisfério ocidental e o gigantesco mercado que representam. A própria comunidade hispânica dos Estados Unidos, por seu tamanho e peso político, fez com que o espanhol se tornasse a segunda língua daquele país, o que, convenhamos, não é pouca coisa. Some-se a isso o aumento da relevância da Espanha no âmbito da União Europeia, no que não é acompanhada por Portugal.

Por outro lado, a semelhança entre o espanhol e o português leva muitos estrangeiros que já sabem falar castelhano a não se interessar em aprender nosso idioma, uma vez que conseguem se comunicar conosco sem maiores embaraços.

Não faz muito tempo, costumava-se dizer que a ignorância dos países desenvolvidos em relação a nós era tanta que os americanos acreditavam que a capital do Brasil fosse Buenos Aires. (Hoje eles já sabem que é o Rio de Janeiro rs rs.) Infelizmente, ainda hoje, as notícias que chegam a eles sobre nós continuam a ter grande dose de folclore, já que nada de importante acontece ao sul do Equador. Sem dúvida, temos grandes artistas que fazem sucesso lá fora, mas, na maioria dos casos, ainda se trata de um sucesso localizado (por exemplo, apenas no Japão ou em certos países europeus) e que atinge um público mais elitizado, de cabeça mais aberta, que conhece e aprecia música além do que é oferecido pelas plataformas de streaming e pela indústria do marketing cultural.

É certo que nem Carmen Miranda, nem Tom Jobim, nem Milton Nascimento chegaram ao top one do Spotify (na época em que brilharam, por sinal, nem havia essa tecnologia), mas fizeram – e ainda fazem – sucesso levando ao mundo uma música verdadeiramente brasileira, única e original mesmo quando incorpora aqui e ali, de maneira discreta, elementos do jazz ou do rock anglo-saxônicos. Não vejo essa mesma qualidade em Anitta: parece que ela se rendeu totalmente ao sistema do show business americano, pondo a meta do sucesso planetário e do dinheiro que o acompanha acima do primor estético, da riqueza de conteúdo e da exaltação da nossa cultura.

Ironicamente, o filme brasileiro que concorreu este ano ao Oscar é um documentário rodado nos Estados Unidos e falado em inglês abordando a questão dos sem-teto norte-americanos. Parece que é só assim, na terra e na língua deles, que nós brasileiros temos condições de competir hoje em dia.

Qual é o plural de “Oscar”?

Ontem, com a cerimônia de entrega do Oscar 2022, ressurgiu a dúvida: qual é o plural de Oscar? Essa palavra é um daqueles nomes próprios que tendem a se tornar comuns, como gilete e band-aid (ou bandeide). No entanto, enquanto gilete pode ser qualquer lâmina de barbear, seja ou não da marca Gillette, o Oscar continua sendo por enquanto um prêmio único, conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e não qualquer prêmio cinematográfico; por isso, muitos dicionários não o registram como substantivo comum (embora a Wikipédia em português traga a grafia Óscar e seu plural Óscares). O mesmo vale para o prêmio Nobel, cuja grafia nobel e plural nobéis não são reconhecidos pela maioria das gramáticas.

Como se pluraliza então um nome próprio estrangeiro? Nesse ponto, os gramáticos também divergem, mas, de modo geral, vale a regra do emprego da forma plural da língua de origem. Assim, o plural de blitz em português é blitze (como em alemão). Só que essa regra exige que o redator seja poliglota (será que todos sabem o plural dos substantivos em alemão?), razão pela qual se permite a formação de um plural à moda portuguesa (isto é, acrescentando-se s), como em pizza x pizzas (e não pizze, como em italiano), o que soa mais familiar para nós.

Por tudo isso, entendo que o plural óscares (como dólares) só é possível se tivermos um substantivo comum singular óscar. De fato, o VOLP – Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa – registra essa forma, indicando que já se trata de um substantivo comum. Mas penso que ganhar um Oscar é como comprar um Ford: ninguém compra um forde, pois esse carro não existe. Logo, ou o sujeito ganhou “dois Oscar” (pois antropônimos em geral não admitem plural) ou ganhou “dois Oscars”, com plural à moda inglesa. Tenho notado que, na dúvida, os jornalistas costumam, nesse caso, dizer que o ator Fulano de Tal voltou para casa com duas estatuetas.

PC strikes again!

Tenho um conhecido que costumava praticar o famoso esporte do levantamento de copos. E nessa modalidade ele era tão imbatível que acabou ganhando como “prêmio” uma estadia forçada numa clínica de recuperação de dependentes químicos (para quem não sabe, o álcool também é droga, e seu tratamento não é diferente do da dependência de maconha, cocaína, crack, etc.). Pois não é que certo dia, tendo ido visitá-lo na clínica, acabei participando de um bate-papo com os coordenadores em que eles insistentemente se referiam aos dependentes do álcool como “alcoolistas”. Estranhei o neologismo, já que o termo que sempre me vem à cabeça no caso é “alcoólatra”.

Lembrei dos Alcoólicos Anônimos e, embora nunca tenha ouvido ninguém dizer que Fulano é alcoólico, mas sim alcoólatra, imaginei que o uso dessa palavra seja um eufemismo, já que o elemento de composição ‑latra assumiu uma carga pejorativa, ou então uma tradução direta do inglês alcoholic, visto que essa associação nasceu nos Estados Unidos.

Mas “alcoolista” já é um pouco demais para o meu gosto. Pode ser que derive do substantivo “alcoolismo” assim como “tabagista” (isto é, “fumante”) deriva de “tabagismo”, “automobilista” tem a ver com “automobilismo”, “comunista” com “comunismo”, e assim por diante. Mas o fato é que criaram o eufemismo do eufemismo! Agora já temos até o bebum politicamente correto!

Russofobia e outras fobias

Uma das ironias dessa guerra na Ucrânia é que o governo Putin resolveu se queixar de que a Rússia está sofrendo uma onda de “russofobia”, uma ojeriza e rejeição a tudo que é russo ou tem a ver com os russos. Por que será, né?

Bem, mas deixando de lado os aspectos políticos e até folclóricos da campanha anti-Rússia, como o boicote ao estrogonofe por certo bar de São Paulo, o fato é que esse neologismo, russofobia, vem somar-se a uma série de outras fobias instituídas de tempos para cá pelo politicamente correto: xenofobia, homofobia, transfobia, gordofobia… Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco até a claustrofobia e a agorafobia serão consideradas politicamente incorretas!

Brincadeiras à parte, o elemento de composição ‑fobia, que em grego quer dizer “aversão, repulsa”, tem sido bastante usado para identificar discursos de ódio contra certas minorias, o que indica que a tal russofobia segue essa onda. Com a única ressalva de que, no caso do governo russo, os discursos de ódio são plenamente justificáveis. Afinal, por mais amor e perdão que se tenha no coração, como não odiar um indivíduo e seus asseclas que massacram sobretudo mulheres e crianças do modo mais desleal e desumano por mera ambição de poder e vaidade pessoal?

Ah, e quanto ao estrogonofe, há controvérsia se sua origem é realmente russa. Parece que a ideia original veio de lá, mas foi tremendamente aperfeiçoada pelos franceses. Ou seja, o prato que conhecemos hoje como estrogonofe é muito mais uma iguaria francesa do que russa.

Pior ainda, certo vereador paulistano sugeriu a alteração do nome da Rua Rússia para Rua Ucrânia, bem como a da Avenida Lineu de Paula Machado, onde fica o consulado russo em São Paulo, para Avenida dos Heróis Ucranianos.

Só que, além do transtorno que a mudança do nome de um logradouro causa aos seus moradores e comerciantes, eu pergunto: e quando acabar a guerra, o governo Putin cair e as relações diplomáticas e comerciais com a Rússia voltarem ao normal, os nomes dos logradouros serão alterados de novo? Convém não confundir as justas e necessárias sanções econômicas, esportivas e culturais que os governos e empresas do Ocidente vêm impondo a Putin com essa atitude infantil que ganhou o nome de russofobia.

O peso das palavras

A linguagem é a mais maravilhosa invenção humana, aquilo que de fato nos tornou humanos e nos distinguiu para sempre dos outros animais, para o bem e para o mal – embora o linguista israelense Guy Deutscher faça a ressalva de que a linguagem nunca foi realmente inventada, já que é, ao que tudo indica, um instinto natural. De todo modo, poder fazer os outros compreenderem o que estamos pensando, transplantar para eles o nosso pensamento e os nossos sentimentos por meio da fala ou da escrita é verdadeiramente sensacional.

Mas a linguagem também tem sido ao longo dos tempos a principal fonte de discórdias e mesmo de conflitos sangrentos. Por isso, é preciso sempre dosar as palavras que empregamos, pois elas têm um peso que às vezes não somos capazes de avaliar. E palavra dita não volta atrás. Além disso, o que importa na comunicação não é o que dizemos, mas o que o outro entende daquilo que dizemos.

Nessa guerra da Ucrânia, estamos tendo vários exemplos de como as palavras são manipuladas para produzir certos efeitos de sentido. Em primeiro lugar, a própria guerra está sendo chamada pelo governo Putin de “operação militar especial” e a invasão de um país soberano, de “libertação”. E quem na Rússia utilizar os termos “guerra” ou “invasão” pode pegar até 15 anos de cadeia. Aliás, a própria censura imposta por Putin à imprensa e à internet mostra como os poderosos, especialmente os autocratas, têm medo das palavras e da informação que elas portam.

A resolução votada e aprovada pela ONU semana passada substituiu o termo “condena” por “lamenta” em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia por receio de irritar ainda mais um indivíduo que já provou não estar na plenitude de sua sanidade mental e tem o dedo no botão vermelho das armas nucleares.

Enquanto isso, o chanceler brasileiro Carlos França substitui a palavra “neutralidade”, usada por Bolsonaro, por “equilíbrio”, tentando dar um ar positivo à indiferença pelos mortos, feridos, desabrigados e exilados, pois o que importa são nossos interesses comerciais – leia-se fertilizantes –, mesmo sabendo que nossa neutralidade, ou melhor, equilíbrio, não vai permitir a importação desses insumos de que éramos autossuficientes décadas atrás, já que o comércio com a Rússia está internacionalmente bloqueado.

Por outro lado, é também com palavras que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, insufla em seu povo a coragem e o patriotismo para lutar contra os invasores. Zelensky, inicialmente desacreditado por ser um comediante que chegou ao poder na onda da antipolítica, revela-se com sua retórica poderosa um grande estadista, um verdadeiro líder, cuja maior arma, na falta de material bélico efetivo, são suas palavras. E que, com elas, conseguiu a proeza de unir o Ocidente e fazê-lo tomar medidas corajosas que, de outro modo, jamais seriam tomadas contra uma potência como a Rússia.

Neste grave momento da História, é preciso mais do que nunca saber usar bem as palavras, seja para aplacar ditadores, seja para enfrentá-los. Só o que não se pode é ficar calado.

Sobre bielorrussos e oligarcas

Nesta absurda e inexplicável guerra na Ucrânia, temos ouvido falar bastante sobre o país cúmplice das atrocidades de Putin: Belarus. Para quem não sabe, esse país, independente a partir de 1991 e desde 1994 governado com mão de ferro pelo ditador Aleksandr Lukashenko, era até então a república soviética da Bielorrússia, ou Rússia Branca (é exatamente isso que Bielorrússia quer dizer em russo).

Desde que se tornou independente, passou a ser chamada aqui no Ocidente (capitaneado pela língua inglesa, claro) de Belarus, mas o curioso é que os habitantes desse país continuam a chamar-se bielorrussos – e não belarusos, como seria de se esperar. Essas mudanças de nome, como Pequim para Beijing ou Kiev para Kyiv, são como trocar seis por meia dúzia. Na verdade, até tornam a pronúncia mais complicada.

Ao mesmo tempo, tem-se falado muito nas sanções econômicas contra aliados de Putin, como o bloqueio financeiro dos oligarcas russos. E eis que aí aparece outra palavra com a qual não estamos muito acostumados. Claro, todos já ouviram falar em oligarquias – por exemplo, aqui no Brasil é comum falarmos da oligarquia que domina a política no Nordeste –, mas dificilmente nos referimos aos coronéis nordestinos que têm mandato em Brasília como oligarcas. A oligarquia é o sistema econômico e também político em que uns poucos detêm todo o poder. Aristóteles dividia as formas de governo em monarquia (o poder nas mãos de um só mandatário), oligarquia (o poder em mãos de um pequeno grupo) e democracia (o poder para todos). Como se pode deduzir, o poder na Rússia está nas mãos de uns poucos amigos de Putin – na verdade, como este pode mandar matar qualquer “amigo” que se oponha a seus interesses, o poder, na prática, está todo nas mãos sujas de sangue do tirano Putin.

Para terminar, um recadinho ao nosso presidente: quem vê o mal ser praticado e se cala ou não se posiciona é cúmplice do mal. A neutralidade beneficia o agressor, não a vítima.

O palíndromo dos números

Ontem, dia 22 de fevereiro de 2022, ocorreu um fenômeno numérico e uma efeméride chamada capicua. Trata-se de uma data que, lida de trás para frente ou de frente para trás, dá no mesmo. Confiram: 22/02/2022. A capicua é o equivalente numérico do palíndromo. Para quem não sabe, palíndromo é uma palavra ou frase que pode ser lida igualmente em ambas as direções. Por exemplo, as palavras ovo e reviver são palíndromos em português. Igualmente, a frase “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos” é um palíndromo.

O termo palíndromo vem do grego pálin, “para trás, de volta, inversamente”, mais drómos, “corrida, percurso”. Já capicua vem do catalão e significa “cabeça e cauda”.

Pelos meus cálculos, a próxima capicua será no dia 32 de fevereiro de 2023 – só que essa data não existe! Mas nunca se sabe, né? Eu, por exemplo, jamais imaginei que um dia o Carnaval fosse cair em abril.

Além do erro ortográfico

Estreou semana passada na Rede Globo a nova novela das 18 horas, Além da Ilusão, que conta a história do romance proibido entre um jovem ilusionista e uma moça rica. Mais uma vez, a Globo se esmera na reconstituição de época (anos 1930 e 1940), nos cenários, figurinos, locações, etc. – e mais uma vez escorrega na linguagem. Num dos capítulos, o mágico é preso injustamente e, ao ser fichado, aparece na tradicional foto de frente e de lado segurando uma plaquinha com seu nome e data de nascimento (hoje em dia, essas placas também trazem o artigo do Código Penal em que o suspeito está incurso). Pois não é que nessa placa aparece o nome Davi e a data de nascimento cujo ano é 1934? E o que há de errado nisso? É que em 1934, portanto antes da reforma ortográfica de 1943, o nome Davi se grafava David, com d final mudo. Ou seja, a Globo usou a ortografia atual numa novela de época, o que revela que, mais uma vez (casos semelhantes comentei no artigo A língua portuguesa e as novelas de época), a preocupação com a recriação realista de um momento histórico passado não se estendeu à língua. Falta à Vênus Platinada uma boa consultoria linguística – aproveito para avisar que estou disponível para prestar esse serviço – se for bem pago, é claro!

Ainda hoje há muitas pessoas com o nome David, da mesma forma como meu nome do meio é Luiz com z. Trata-se de uma grafia tradicional, assim como Mello, Mattos, etc. No entanto, pessoas de baixa cultura, que desconhecem ser essa grafia legitimamente portuguesa, costumam pronunciar o nome como Dêivid, achando que se trata de nome inglês. (Aliás, os de mais baixa extração social acham até chique essa pronúncia.) O desconhecimento dos mais jovens e dos menos letrados quanto à grafia antiga dos nomes portugueses faz com que se pronuncie consoantes que deveriam ser mudas, como o c de Victor e o p de Baptista. Só falta agora pronunciarem Jacob como Jacobe – se é que já não há alguém que o faça!

A cítara e a guitarra

Outro dia, um amigo meu que é roqueiro e toca guitarra elétrica me perguntou a origem da palavra guitarra. Como acho que essa pode ser também a curiosidade de outras pessoas, resolvi responder à sua pergunta neste espaço.

A palavra portuguesa guitarra, que aqui no Brasil empregamos como sinônimo de guitarra elétrica (ou violão elétrico, como se dizia antigamente), significa originalmente apenas “violão”. Esse é o sentido da palavra no português lusitano e também em outras línguas (francês guitare, inglês guitar, italiano chitarra, etc.). O inglês, por exemplo, faz distinção entre electric guitar (a nossa guitarra) e acoustic guitar (o nosso violão).

Aliás, em Portugal o termo guitarra também é empregado para designar um tipo particular de instrumento de cordas característico da música portuguesa – quem já escutou algum fado na vida com certeza ouviu o som da guitarra portuguesa.

Essa palavra nos chegou do espanhol guitarra, igualmente significando “violão” – aliás, a Espanha é o berço do violão moderno, este que conhecemos e que substituiu o alaúde como instrumento de música popular. Mas o espanhol tomou essa palavra do árabe kītâra ainda nos tempos da dominação islâmica na península Ibérica. E agora o mais incrível: o árabe kītâra é empréstimo do grego kithára, que quer dizer… “cítara”. Isso mesmo, a guitarra, elétrica ou não, é neta do alaúde e bisneta da cítara grega, aquele instrumento musical semelhante a uma lira (que, por sua vez, é semelhante a uma pequena harpa).

Um dado interessante: o italiano chitarra proveio diretamente do árabe, ao passo que, nas demais línguas, a origem é o espanhol. É que, na Idade Média, os italianos, em especial os venezianos, comerciavam diretamente com o Oriente, de onde trouxeram a palavra e também o instrumento.

Ladrões de ontem e de hoje

A língua evolui justamente porque a sociedade que a fala muda o tempo todo. Se assim não fosse, a língua deixaria de dar conta das novas realidades e se tornaria inútil para a maioria das comunicações. O aspecto da linguagem que mais depressa e com maior frequência se transforma é o vocabulário. Quantas palavras que usamos hoje, como globalização, internet, tablet, celular, formatar, covid, mimimi, antifascista, vitimismo, gordofobia, nem sonhávamos em empregar 40 anos atrás! E quantas palavras que usávamos frequentemente há pouco mais de duas décadas foram totalmente esquecidas! (Vitrola, disquete, videocassete, garrafeiro, carburador são apenas alguns exemplos.)

A notícia de que houve um substancial aumento no furto de aparelhos celulares no último ano me fez lembrar que, até o advento do smartphone, que tira fotos, faz vídeos, permite teleconferências, pesquisas na internet, mensagens instantâneas, orientação por GPS no trânsito e, last but not least, permite fazer e receber chamadas telefônicas, o tipo mais comum de ladrão era o batedor de carteiras, também chamado de punguista. Como esse meliante precisava “acessar” (olha outro termo jovem aí) o bolso ou a bolsa da vítima, costumava dar-lhe um tranco ou empurrão, surrupiando seu objeto de desejo e fugindo rapidamente no meio da multidão. Por causa exatamente desse tranco, o delinquente, muitas vezes menor de idade, passou em São Paulo a ser chamado de “trombadinha” (no Rio, ele era conhecido por “pivete”).

Quem é que emprega os termos batedor de carteiras, punguista, trombadinha ou pivete hoje em dia? O fato é que, enquanto quase ninguém mais carrega dinheiro na carteira, quase todos portam um celular – geralmente caro – junto à orelha ou em frente aos olhos enquanto andam nas ruas, o que fez o aparelhinho tornar-se o novo desejo de consumo de dez entre dez marginais, muito mais do que um par de tênis importado ou uma moto. Sem falar que, dentro de uma penitenciária, um telefone móvel é muito mais útil do que tênis ou motos. Além do valor do aparelho em si, os criminosos estão de olho nas informações que ele contém: dados pessoais e bancários da vítima, listas de contatos em quem aplicar golpes, etc.

E como as pessoas andam nas ruas carregando ostensivamente esse objeto, além de estarem a maior parte do tempo distraídas com seus chats e aplicativos, o larápio nem precisa mais dar uma trombadinha para furtá-lo; basta tomá-lo da mão do desavisado transeunte. Ou seja, a tecnologia contribuiu muito para a otimização do processo operacional de subtração inopinada de bem alheio, mais conhecido como furto. Só que, estranhamente, ainda não cunharam um termo em português para nomear esse novo tipo de profissional do crime. Mas, do jeito como tal delito anda aumentando de frequência, logo logo nossa língua criará o neologismo adequado para dar conta dessa triste realidade.

A intérprete da pronúncia

Hoje o Brasil está completando quatro décadas sem Elis Regina. A Pimentinha, como era chamada, foi indubitavelmente uma das maiores intérpretes de nossa música popular, não só por seu grande talento e estilo inconfundível, mas também por ter lançado ao estrelado alguns dos maiores compositores da MPB dos anos 60 e 70 do século passado, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, João Bosco e tantos outros.

Elis dava às músicas interpretações definitivas, tanto que alguns autores admitiam compor para ela, mesmo que a canção acabasse gravada por outro intérprete.

Elis brincava com a voz, cantava rindo, chorando, resmungando, imitando vozes e sotaques, da impostação à la Ângela Maria ao caipirês de Renato Teixeira e ao bexiguês de Adoniran Barbosa. Da dicção afetada das socialites ao timbre rouco de Louis Armstrong, tudo era pretexto para um malabarismo melódico-rítmico-fonético. Elis explorou como poucos as potencialidades da voz e fala humanas ao cantar. Mas, além das vozes e sotaques que simulava, tinha sua própria pronúncia, que evoluiu ao longo da carreira, confirmando o traço camaleônico de sua personalidade.

É difícil, se não impossível, saber o quanto de intencionalidade havia nas pronúncias que Elis adotou, o quanto esse processo era consciente e deliberado.

Sabe-se que há pessoas mais propensas do que outras a incorporar hábitos linguísticos do lugar em que passam a viver. Embora a idade seja um fator importante na sedimentação desses hábitos (quanto mais jovem alguém muda de cidade ou país, maior sua facilidade em incorporar o novo padrão sem deixar vestígios do antigo), algumas pessoas imitam com perfeição a fala alheia, enquanto outras são capazes de viver décadas numa nova terra sem jamais perder as características de sua fala original.

O fato é que, se num primeiro momento, Elis simplesmente adotou a pronúncia carioca, talvez para se inserir melhor num mercado profissional em que o sotaque sulista não seria bem aceito, após algum tempo desenvolveu uma pronúncia própria e única, um sotaque “elisiano”, se é que se pode assim chamá-lo.

Elis Regina Carvalho Costa era natural de Porto Alegre, portanto imagina-se que, até o momento de abraçar a carreira musical, falasse como uma típica cidadã gaúcha. No entanto, ao lançar seu primeiro disco, no Rio de Janeiro, em 1961, ela já esboça uma pronúncia carioca que, por conta da Bossa Nova, começava a se tornar hegemônica na MPB, substituindo a articulação (e a impostação vocal) operística que predominara nas décadas de 1930 e 40.

Elis fixou residência em São Paulo a partir de 1964, e nessa cidade permaneceu até sua morte, em 1982. Seu s carioca (isto é, palatalizado em fim de sílaba) permaneceu inalterado até meados dos anos 1970, quando, aos poucos, foi substituído pelo impropriamente denominado s paulista (não palatalizado).

Pessoas não versadas em fonética ou dialetologia costumam referir-se a certos sons da fala brasileira por seus modelos prototípicos. Assim, o chamado r carioca (velar ou uvular, tecnicamente falando) não é próprio só do Rio, é padrão em boa parte do país. Da mesma forma, o r caipira deixou há muito de ser só interiorano, já que é usado por nativos de cidades como São Paulo e Curitiba.

As gravações de Elis entre 1975 e 1979 revelam características fonéticas um pouco diferentes do período anterior: um r cada vez mais gutural, incomum até no Rio de Janeiro; um l mais velarizado (como na pronúncia lusitana) e, vez por outra, a abertura das vogais pré-tônicas à maneira nordestina; momentos em que a voz soa mais anasalada, em outros menos; e assim por diante.

Especificamente em relação ao s final de sílaba, pode-se reconhecer em Elis três fases:

1) a primeira, em que o fonema soa tal como pronunciado no Rio (por exemplo, “casas” pronunciado como “cásach” ou “cásaich”);

2) a seguir, uma pronúncia mais próxima do brasileiro padrão (“cásaç”);

3) finalmente, um misto dos dois: “cásaiç”. Esta pronúncia a levou a articular “céus” como “céuis” em determinada canção.

Nossa querida Pimentinha constitui um riquíssimo caso de estudo, não só para musicólogos e críticos, mas também para linguistas.

A origem do sorvete

Nesse calor doido que tem feito, resolvi refrescar as ideias e falar sobre a origem da palavra sorvete. Mas antes quero explicar a diferença, em etimologia, entre étimo e origem. O étimo de uma palavra é a palavra, da mesma língua ou de outra, que é sua antepassada direta numa etapa histórica anterior. Já a origem é o termo historicamente mais remoto a que se consegue chegar para traçar a linhagem de uma palavra.

Assim, no caso de sorvete, a origem está no árabe shurba, que passou ao turco sherbet e daí ao italiano sorbetto, que, por sua vez, deu o francês sorbet. O termo português veio do francês e teve ainda a influência analógica do verbo sorver, já que o sorvete é um alimento que se sorve. Portanto, a origem do vocábulo é árabe, mas o étimo é francês.

Nos tempos do Brasil Império, o sorvete era chamado de gelado, como o é até hoje em Portugal e também em outros países: espanhol helado, italiano gelato, alemão Gefrorenes ou Speiseeis, “comida de gelo”, francês glace, “gelo”, inglês ice cream, “creme de gelo”, e assim por diante.

O picolé é um tipo especial de sorvete, que normalmente utiliza água em vez de leite e é servido preso a um palito de madeira ou plástico. Só que em São Paulo é muito comum chamar-se o picolé de sorvete – mas não o inverso.

Os 450 anos de “Os Lusíadas”

Este ano completa 450 anos de sua publicação a obra máxima da literatura em língua portuguesa, a epopeia Os Lusíadas, de Luís de Camões (ou Luis de Camoẽs, como era a verdadeira grafia de seu nome). O poema, composto de 10 cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos decassílabos, narra, de forma romanceada e misturando elementos do fantástico e do maravilhoso (como a intervenção dos deuses do Olimpo na história), a viagem de Vasco da Gama em busca do caminho das Índias. Portugal se encontrava então, como de resto toda a Europa ocidental, em pleno Renascimento. O gênero épico estava muito em voga nessa época, pois uma das características mais marcantes da Renascença foi a imitação dos gêneros artísticos greco-romanos. Naquele período, influenciados pelas epopeias clássicas – a Ilíada e a Odisseia de Homero e a Eneida de Virgílio –, muitos poetas criaram obras da mesma natureza e segundo os mesmos padrões estéticos. Podemos citar dentre eles os italianos Matteo Maria Boiardo, autor de Orlando Enamorado, Ludovico Ariosto, criador de Orlando Furioso, e Torquato Tasso, de Jerusalém Libertada, além do inglês John Milton (O Paraíso Perdido), todos eles precedidos de Dante Alighieri e sua Divina Comédia.

Mas, embora a obra de Camões seja das epopeias renascentistas a menos difundida internacionalmente, é a que mais fielmente recupera os traços do gênero épico da Antiguidade. Por sinal, a narrativa de uma viagem marítima cheia de perigos e indo ao encontro do desconhecido retoma elementos d’Os Argonautas, de Apolônio de Rodes, por exemplo. Além disso, enquanto as demais epopeias evocam temas cristãos ou medievais, Os Lusíadas estão repletos de mitologia grega e referências ao mundo clássico, tema, aliás, em que Camões tinha grande erudição.

Não vou me deter aqui nos aspectos mais propriamente literários da obra, visto que não sou especialista em literatura, nem tampouco vou falar da biografia do autor, cuja vida aventureira daria, ela própria, uma epopeia. Quero relatar a minha experiência pessoal com a obra, que desde o início exerceu sobre mim um extremo fascínio. Na verdade, desde criança eu ouvia falar vagamente de uma obra chamada Os Lusíadas, mas até então não sabia nada a respeito. Quando, nas aulas de literatura do colégio, finalmente compreendi do que se tratava e pude ler alguns excertos no livro didático que utilizávamos, foi paixão à primeira vista: corri a comprar uma edição, que tenho até hoje, publicada pela Edições de Ouro e comentada por Francisco da Silveira Bueno, além de belissimamente ilustrada com gravuras do século XIX. Li a gigantesca obra de uma lufada só, dia após dia, e a reli, no todo ou em partes, diversas vezes depois.

Mais do que isso, me aventurei a arriscar uns versos imitando o estilo do autor. Embora no século passado a epopeia já estivesse superada como gênero literário, eu quis, mesmo que de brincadeira, redigir o meu próprio poema épico – aliás, não fui o único maluco a fazer isso: Fernando Pessoa, Jorge de Lima e Cecília Meireles também se arriscaram, e com sucesso. A verdade é que meu poema nunca passou do primeiro canto; para ser bem sincero, nunca passou de um devaneio adolescente. Mas foi válido como experiência. Arrisco-me a dizer que minhas estrofes em oitava-rima (isto é, padrão de rimas ABABABCC) não ficaram nada más. Se tivesse nascido nos séculos XVI ou XVII, eu teria talvez sido até um poeta clássico razoável. Mas, por outro lado, não teria conhecido Drummond e sua poesia ácida e cética, minha grande inspiração no tempo em que eu cometia versos, também influenciado pelas letras de MPB no tempo em que letras de canções brasileiras eram verdadeira literatura.

Não sei como serão os festejos pelos 450 anos do poema que não só inseriu Portugal e a língua portuguesa na história da literatura mundial como também fixou o padrão linguístico que usamos até hoje, que se convencionou chamar de “português moderno”. Em tempos de pandemia e de Bolsonaro, é pouco provável que se dê algum relevo aqui no Brasil a essa efeméride. Já em Portugal espera-se uma grande comemoração. Se você ama poesia e literatura clássica, não deixe de ler Os Lusíadas; há boas edições no mercado e mesmo na internet.

Corrigindo o correto

No clima de violência em que vivemos, é cada vez mais comum ver na televisão entrevistas de pessoas que não querem se identificar e, por isso, têm seu rosto encoberto e sua voz modificada eletronicamente. Como a voz assim alterada nem sempre soa de modo claro, as emissoras costumam adicionar legendas à cena. E como muitas dessas pessoas não se expressam segundo a norma-padrão (na prática, quase ninguém faz isso), as legendas reproduzem literalmente sua fala, inclusive com todos os “erros”. Mas, para não chancelar formas tidas como incorretas pela gramática, essas legendas geralmente trazem as formas não padrão em itálico ou entre aspas. É a maneira encontrada pela TV para ser fiel aos depoimentos dos entrevistados e ao mesmo tempo ficar de bem com os “vigilantes da língua”. Desse modo, pra, prum, tava, os menino, eles foi e demais pérolas do português popular aparecem sempre destacadas na legenda.

O problema é que os profissionais responsáveis pela digitação de tais legendas tampouco dominam cem por cento a norma culta. E às vezes acabam por “corrigir” o que está correto, destacando formas legítimas e fazendo crer aos desavisados que seriam erradas.

Um caso recorrente é o das contrações dum e duma. Muitos pensam que essas formas sejam incorretas ou vulgares e as evitam a todo custo, ignorando que alguns dos nossos melhores escritores e poetas as prefiram. E as legendas da TV não poupam itálicos ou aspas para elas.

Outro caso comum de hipercorreção (isto é, errar ao tentar corrigir o que já está correto) é “me deu um dó”, que os legendistas televisivos não perdoam e metem logo em destaque, ignorando que , do latim dolum, é palavra masculina e não feminina em português.

Outro dia, no Fantástico (Rede Globo), leu-se a seguinte legenda à fala de um policial: “Você dentro de uma base, num contêiner que facilmente um projetil atravessa”. Isso mesmo, com as palavras num e projetil destacadas em itálico, como se estivessem erradas!

Acontece que a contração num, resultante de em + um, é perfeitamente possível e gramaticalmente correta em nossa língua, sendo até de uso mais frequente do que a forma não contraída em um, mesmo em textos formais. E projetil (oxítono) é forma divergente de projétil (paroxítono), estando ambas dicionarizadas. Por sinal, projétil deve sua prosódia ao latim projectilis, cujo acento tônico cai no e, ao passo que projetil nos chegou pelo francês projectile, cujo acento é no i. As duas formas igualmente corretas constituem um exemplo de palavras com dupla prosódia, como ocorre também com biópsia e biopsia, necrópsia e necropsia, casos também já tratados aqui.

Em compensação, formas indiscutivelmente erradas como interviu por interveio e se eu ver em lugar de se eu vir costumam passar incólumes nas legendas das reportagens.

Qual a sua playlist preferida?

Assim como as línguas, os seres vivos e as sociedades, a tecnologia também evolui – nem sempre para melhor, diga-se de passagem. A pergunta do título é bastante frequente hoje em dia, em que a maioria das pessoas baixa músicas de aplicativos de celular. Sou do tempo, não tão distante assim, em que, para colecionarmos as canções de que gostávamos, precisávamos ficar ouvindo o rádio com o gravador a postos e, quando a canção começava a tocar, imediatamente a púnhamos para gravar. Às vezes, o locutor falava durante a execução da dita cuja, o que estragava nossa gravação. Mas a ansiedade com que esperávamos para poder gravá-la e o prazer de conseguir essa proeza é que eram o grande barato de toda a operação. E, além disso, era de graça.

Hoje as pessoas precisam pagar para baixar suas músicas prediletas – como aliás precisam pagar para assistir TV de qualidade (e a qualidade da TV paga nem sempre é lá essas coisas), pagar para acessar a internet, e assim por diante.

Mas o maior problema que eu vejo é que a possibilidade de comprar canções isoladas simplesmente acabou com o conceito de álbum, aquela obra que cada artista só lançava uma vez por ano e que trazia em geral 10 a 12 faixas embaladas numa capa que era uma obra de arte. Aliás, às vezes até o selo do disco era uma obra de arte.

Pois é, minha gente, o álbum de música, seja ele um LP ou CD, não era um simples amontoado de canções ou temas instrumentais colocados ali a esmo: a ordem das faixas tinha um propósito, havia uma faixa principal (a chamada música de trabalho), que era a que tocava nas rádios e aguçava em nós a vontade de comprar o disco inteiro para poder ouvir mais daquela maravilha.

Havia até álbuns em que a sequência das faixas contava uma história, de modo que ouvi-las fora de ordem, apertando o botão shuffle do toca-CD, não fazia sentido.

Mas o álbum, assim como o livro físico, feito de papel, tem uma mística que a playlist do celular não tem. Em primeiro lugar, havia a magia das lojas de discos, em que podíamos passar uma tarde inteira vasculhando as novidades, garimpando preciosidades, degustando faixa por faixa de cada disco, escolhendo o que íamos comprar. Hoje esse prazer só resiste nos velhos sebos de discos, único lugar em que ainda podemos ter contato físico com a obra do artista.

E esse contato incluía o cheiro típico do vinil e do papelão, a contemplação da capa, a possibilidade de ler na contracapa um texto que funcionava como espécie de prefácio em que o autor do álbum ou um crítico musical apresentava a obra ao público, a capa interna dos álbuns duplos, que geralmente traziam fotos do making of (os músicos dentro do estúdio ou em momentos de descontração entre as gravações), o famoso encarte, em que vinham escritas as letras das canções – o que era especialmente útil no caso das cantadas em inglês – e também os créditos (quem compôs cada canção, quem tocou o quê, quem produziu, onde e quando).

O álbum físico podia ser dado de presente, e em sua capa podíamos escrever uma dedicatória à pessoa presenteada, assim como podíamos guardar cartas de amor e pétalas de flores dentro dos álbuns. Quem hoje em dia presenteia playlists? E quem escreve cartas de amor hoje em dia?

Todo mundo já deve ter ouvido falar do álbum branco dos Beatles, ou do Abbey Road, ou do Sgt. Pepper’s, não? Pois é, existem até antologias do tipo 1.001 Álbuns que Você Precisa Ouvir antes de Morrer ou coisa parecida. Não acredito que futuramente se escreva algum livro do tipo 1.001 Playlists que Você Precisa Ouvir… Na verdade, ouvir playlists é para mim como ler um capítulo de cada livro: você nunca vai entender a história.

É claro que os mais jovens, que não conheceram outra realidade, podem achar perfeitamente mágico e maravilhoso ouvir playlists e podem até achar careta este meu papo. Na verdade, todos nós, à medida que vamos ficando mais velhos, temos a tendência de achar que nosso tempo de adolescência é que era bom. Mas, vendo a maneira veloz como o mundo atual está se deteriorando em todos os aspectos (social, afetivo, político, econômico, cultural, ambiental), chego a pensar que os mais velhos não estão de todo errados.

Feliz Ano Novo ou feliz Ano-Novo?

Estranharam o título desta postagem? Pois saibam que ambas as grafias existem – e significam coisas diferentes. Quem deseja feliz Ano-Novo (com hífen) está fazendo votos de que a noite do Réveillon e o subsequente primeiro dia do ano sejam felizes. Já quem deseja feliz Ano Novo (ou mesmo em minúsculas: ano novo) deseja que todo o ano que se inicia seja feliz, aquilo a que todos nós ansiamos, mesmo sabendo de antemão que é muito difícil de acontecer, pois momentos felizes e momentos infelizes ocorrem todos os anos a todas as pessoas.

Mas o que importa aqui é que o Ano-Novo dura somente um dia enquanto o Ano Novo dura 365 dias. Essa distinção também é feita em outras línguas. Por exemplo, o inglês distingue entre New Year’s Eve (o nosso Réveillon) e New Year (o novo ano). Por isso, a saudação Happy New Year sugere 365 dias de felicidade. Em italiano, pode-se desejar Buon Capodanno (bom começo de ano) ou Buon Anno (o ano inteiro). Os franceses dizem sempre Bonne Année (bom ano) almejando 12 meses felizes. O mesmo se aplica ao alemão Fröhliches Neues Jahr.

Portanto, quando enviamos saudações de Feliz Ano Novo a nossos amigos e parentes, o que queremos é que eles tenham um ano inteiro de paz, harmonia, realizações, sucesso, prosperidade e um mínimo de dissabores – se possível, nenhum.

Então quando se usa Ano-Novo? Usa-se em contextos como “Vou passar o Ano-Novo na praia”, o que significa que estarei à beira-mar nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro, não o ano todo. Por sinal, tenho um amigo que sempre me deseja um feliz Ano-Novo e um feliz Ano Novo. Trata-se de um gracejo que, afinal de contas, faz sentido, mas que, provavelmente, só é plenamente compreendido por quem conhece as minúcias da nossa ortografia.

Bem, o Ano-Novo já passou, e eu espero que tenha sido feliz para os meus leitores. Então agora quero desejar-lhes um feliz e maravilhoso Ano Novo, com 12 meses, 52 semanas e 365 dias de alegrias.

A importância do sufixo “‑ismo” na política brasileira

Vivemos numa democracia. Pelo menos, é o que dizem por aí. Nesse nosso regime de governo, o presidencialismo, mais especificamente chamado de presidencialismo de coalizão, em que, para conseguir governar, o presidente precisa fazer alianças até com inimigos para ter apoio no Congresso, abundam termos terminados em ‑ismo para denominar as mais diversas nuances de nossa peculiar vida política.

No Brasil, não temos apenas esquerda, centro e direita: temos esquerdismo, centrismo e direitismo, com direito a extremismo e tudo! Já vivemos a época do getulismo, do carlismo (de Antônio Carlos Magalhães), do brisolismo, do lulismo, também conhecido por lulopetismo (que pode voltar em 2023), e hoje atravessamos a era do bolsonarismo. Esta última “filosofia” política cresceu por meio do alarmismo de que nossa frágil sociedade estava na iminência de cair nas mãos do comunismo. No entanto, para nos livrar da ameaça do socialismo – ou marxismo-leninismo, se preferirem – acabamos nos entregando a um governo que flerta com o fascismo e que já teve até um secretário de cultura plagiando uma fala do nazismo.

No meio político tupiniquim, é costume um governo desfazer tudo o que seu antecessor fez, sendo essa atitude logo tachada de revanchismo. Quando a oposição aponta desmandos e descalabros dos governantes no trato da coisa pública, é logo acusada de denuncismo vazio. Porém, como nossos políticos são adeptos do patrimonialismo, logo que se instala um novo governo, seja de que ideologia for, diversos parlamentares dotados de cinismo fazem do adesismo e do arrivismo a ordem do dia, configurando assim o famigerado fisiologismo.

Outra prática muito comum a nossos políticos é o casuísmo, como quando, para impedir que Jango governasse, instituíram o parlamentarismo. Na época, a esquerda brasileira reclamou de conspiracionismo das forças conservadoras contra os apoiadores do progressismo.

Atualmente, quando nosso presidente se sente encurralado pela imprensa ou pelo Poder Judiciário por causa de algum dos muitos absurdos que comete, apela logo ao diversionismo, isto é, à chamada “cortina de fumaça”, como fazer ameaça de golpe institucional ou disparar uma fake news bem cabeluda, recheada de negacionismo.

O fato é que, mesmo quando nossos ilustres homens públicos são pegos com a boca na botija – ou melhor, com a mão na mala de dinheiro –, dificilmente são punidos graças ao garantismo de nossos juízes e dos ministros das cortes superiores. Antes assim, pois, do contrário, poderíamos ser acusados de punitivismo, e, no Brasil, como se sabe, todo cidadão deve ser considerado inocente até que se prove a sua culpa no trânsito em julgado, isto é, na centésima instância do Judiciário.

Mas, atenção, leitores, não quero com esta crônica provocar nenhum divisionismo entre vocês, afinal já basta o radicalismo que estamos vivenciando por causa da recente onda mundial de populismo. Quero apenas chamar a atenção para o uso abusivo desse sufixo, que beira o pedantismo.

Sobre livros acadêmicos

Quando fazia meu doutorado, nos anos 1990, precisei usar como corpus amostral da minha pesquisa textos acadêmicos de diversas áreas, tanto das ciências naturais quanto das humanas. E, para tornar a amostra mais abrangente e fidedigna, decidi utilizar tanto artigos quanto livros. Para minha surpresa, descobri que, nas ciências naturais, não se publicam mais livros científicos desde a Segunda Guerra Mundial. A tendência desde então é publicar papers em periódicos especializados, de preferência os chamados “top A”, isto é, os de maior prestígio e impacto no meio científico, como as revistas Science e Nature.

Enquanto isso, só nas humanas se manteve o hábito de publicar livros acadêmicos, em geral ensaios filosóficos em que um tema é esmiuçado em tal profundidade que ultrapassa os parcos limites de um artigo (de 15 a 20 páginas, no máximo). Ou então coletâneas de artigos, em que um organizador reúne as contribuições de vários colegas acerca de um tema.

O que se nota é que os atuais papers das ciências exatas e biológicas versam sobre descobertas pontuais, como a identificação de um novo vírus ou a apresentação de uma nova técnica, coisas que podem ser ditas em até 20 páginas. Já uma nova teoria sobre a vida ou o universo costuma resultar em livros de popularização, redigidos em estilo jornalístico e disponíveis ao público em geral em qualquer livraria. O mesmo vale para coletâneas de artigos de divulgação científica.

Em resumo, o livro propriamente acadêmico, dirigido à comunidade universitária, acabou restrito às ciências humanas e às humanidades (não confundir umas com as outras, pois humanidades não são ciências). Mas por que nessas áreas ainda se publicam livros em vez de seguir a tendência da comunicação direta, sucinta e objetiva dos papers? Em primeiro lugar, porque o discurso das humanidades, por sua própria natureza, não é direto, sucinto e objetivo. Discorrer profundamente sobre uma questão é algo que dificilmente se faz em poucas páginas. Além disso, em áreas como o Direito, por exemplo, a prolixidade e a eloquência fazem parte da própria lógica discursiva. Ou pelo menos do estilo do métier.

Outra razão para a existência de livros em humanas é que boa parte deles são coletâneas de comunicações apresentadas em congressos. Mas para isso já não existem os anais dos eventos? Por que então publicar novamente em livro? Em alguns casos, o livro acaba substituindo os anais. Ou melhor, os anais acabam publicados em forma de livro. Em outros casos, publicam-se os anais e o livro. E como a publicação de livro conta mais pontos nas avaliações institucionais das universidades do que a de artigo, essa estratégia acaba “engordando” os currículos dos autores.

Decerto há livros científicos em todas as áreas, e não só os lançados antes da Segunda Guerra, mas nas ciências naturais o mais comum são os tratados, que têm um caráter mais didático do que propriamente de pesquisa. Tanto que os tratados de anatomia são mais consumidos por estudantes de medicina do que por pesquisadores. A razão é simples: um tratado traz o que já se sabe sobre o assunto, aquilo que se ensina em sala de aula. Já uma obra de pesquisa apresenta o novo, o recém-descoberto. Como muitos trabalhos em ciências humanas ainda têm um forte viés filosófico, o esquema introdução-fundamentação-material-método-conclusões, típico das ciências experimentais, não cabe bem nessas ciências, frequentemente muito mais teóricas do que práticas (nesse ponto, a linguística, área em que atuo, é uma honrosa exceção).

Quanto à publicação de obras de difusão em ciências humanas, esbarra-se em dois empecilhos. Primeiro, o viés filosófico e o estilo retórico de que falei acima tornam esses livros pouco atraentes ao público leigo. Em segundo lugar, a curiosidade popular sempre recaiu sobre questões mais “existenciais”, como a origem da vida ou do universo do que sobre temas sociais, políticos ou econômicos, tidos como “chatos” pela maioria dos cidadãos comuns.

Entretanto, o livro de divulgação da linguística que acabei de lançar, chamado O Universo da Linguagem, disponível em https://www.editoracontexto.com.br/produto/o-universo-da-linguagem-sobre-a-lingua-e-as-linguas/4890530, está tendo ótima aceitação, o que significa, modéstia à parte, que nem todo livro de popularização das ciências humanas precisa ser chato.

Favelário nacional

Hoje, Dia Nacional da Favela, vou falar um pouco sobre essa palavra tão desprestigiada hoje em dia.

As nações tendem a exportar palavras correspondentes àquilo que seu povo faz de melhor. Não é á toa que grande parte do vocabulário referente à moda, à culinária e às artes em geral venha do francês, assim como os termos ligados à música se originem do italiano. Pela mesma razão, a maioria dos termos técnicos e científicos são ingleses. Há muitas línguas (a maioria, na verdade) que não exportam palavra alguma, demonstrando talvez a pouca criatividade de seus falantes, pelo menos em termos de ciência ou cultura, isto é, daquilo que mais influencia os outros povos.

O brasileiro, por exemplo, é um povo muito criativo, tanto nas artes – música popular, telenovela, Carnaval – quanto na malandragem (parece que a inventividade dos nossos patrícios em bolar golpes para subtrair o dinheiro alheio ou lesar os cofres públicos não tem limites), mas essa criatividade não resulta em vocábulos que interessem aos falantes de outros idiomas. Acaba que as palavras brasileiras com penetração no exterior se referem quase sempre à originalidade da nossa natureza, como nomes de frutas e animais (caju e piranha, dentre outros, conquistaram o mundo).

Também a nossa (triste) realidade social desperta a curiosidade dos estrangeiros, tanto que há concorridas excursões turísticas às favelas cariocas. Por falar em favela, eis aí uma palavra genuinamente brasileira que chegou aos quatro cantos do planeta. Outras línguas – especialmente as de países com distribuição de renda tão vergonhosa quanto a nossa – têm termos equivalentes para favela. O maravilhoso poema Favelário Nacional, de Carlos Drummond de Andrade, enumera alguns: bidonville, taudis, slum, witch-town, sanky-town, callampas, cogumelos, corraldas, hongos, barrio paracaidista, bairro de lata, gourbville, champa, court, villa miseria… Mas como o Brasil tem as favelas mais famosas do mundo, protótipo da pobreza, cenário de filmes desde a década de 1950 e de videoclipes desde Michael Jackson, berço do samba (e dos bailes funk), sede do tráfico e de facções criminosas, point de visitação de autoridades como o ex-presidente americano Barack Obama e o papa, é natural que os idiomas que não têm termo próprio – e mesmo muitos dos que têm – adotem favela para referir-se a esse aglomerado humano pouco ou nada urbanizado, embora urbano, que não chega a ser bairro embora seja maior do que muitas cidades (muitas são cidades dentro da cidade, com leis e administração próprias), tampouco é aldeia ou tribo, embora haja mais selvageria dentro delas do que na selva. Embora, mesmo derivada de fava, seja lugar de fome. Embora, mesmo assemelhada a favo, seja bem menos organizada que uma colmeia e bem mais caótica que um formigueiro.

É uma pena que a onda do politicamente correto esteja matando essa palavra tão inerente à nossa cultura. Afinal, hoje em dia ficou feio chamar as coisas pelo próprio nome – como se mudar a denominação mudasse a realidade –, e assim a favela virou comunidade, termo anódino que passa a impressão de mero estilo de vida, como se quem lá mora o fizesse por opção. Vale lembrar que um condomínio de alto luxo também é uma comunidade, embora seus moradores jamais empreguem tal termo para falar de si próprios, tal a carga pejorativa que essa palavra assumiu nos últimos anos, prova cabal de que não adianta maquiar o léxico. Enquanto isso, favela, palavra que, se não surgiu no Brasil, aqui ganhou seu pleno e doloroso sentido, segue viva em outras línguas ao mesmo tempo que vai morrendo entre nós. Vitória da hipocrisia sobre a criatividade.

O dia dos que se finaram

Amanhã é Dia de Finados, e, ao que parece, o nome dessa data em que celebramos a memória de nossos entes queridos que já se foram é um dos poucos exemplos de uso em português atual do substantivo finado, que, como todos sabem, quer dizer “falecido”. Pesquisas por essa palavra no Google demonstram que a ocorrência de finado em contextos outros que não a expressão Dia de Finados (ou simplesmente Finados) é pouco frequente. Antigamente era comum dizer-se “meu finado marido”, “minha finada avó”, mas parece que esse uso está em franca decadência: hoje é muito mais comum dizer “meu falecido marido”, “minha falecida avó”.

Finado é o particípio do igualmente raro verbo finar, derivado de fim. Mais comuns são os verbos acabar, terminar, concluir e mesmo findar, este derivado do adjetivo findo, herdado do latim finitus.

Mas a palavra latina finis, que quer dizer “fim”, produziu derivados na própria língua de Cícero e César. Por exemplo, o verbo finire, “acabar”, que existe até hoje em italiano, bem como seu cognato francês finir e o português de origem espanhola fenecer, “morrer”.

Em francês, tínhamos na Idade Média o verbo finer com o significado de “pagar, quitar uma dívida” (literalmente, “pôr fim a uma dívida”), cujo derivado finances, “pagamentos”, originou o nosso finanças. Desse verbo francês também proveio o inglês to fine, “multar” (o sentido original era “pagar uma multa”).

Ou seja, finados são aqueles que se finaram, isto é, morreram, chegaram ao fim da vida. Trata-se de uma maneira sutil de referir-se à morte. Em algumas regiões do Brasil, esse feriado de 2 de novembro também é chamado de Dia dos Mortos, denominação mais direta e menos cerimoniosa. Tenho a impressão – mas não dados empíricos sobre isso – de que os termos falecido e falecer são em geral usados como eufemismos para abrandar a carga semântica negativa das palavras morto e morrer.

Melhor ainda faz o inglês, que chama à data All Souls’ Day, “Dia de Todas as Almas”, certamente por influência da efeméride celebrada exatamente hoje, 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, ou All Saints’ Day.

Bom feriado!

Imortal, imatável, imorrível

O grego tem dois adjetivos, ambrósios e athanásios, para designar o que chamamos em português de “imortal”. Mas há uma diferença entre eles que nós não fazemos. Ambrósios significa literalmente algo como “imorrível” (ou “imorredouro”, como manda o bom português); já athanásios quer dizer “imatável”. Estranho? Pois, se para nós tanto faz, os gregos distinguiam duas situações que não são, a rigor, idênticas. Nós, seres humanos, somos, digamos assim, morríveis e matáveis, pois podemos morrer tanto de “morte morrida” quanto de “morte matada”. Mas há seres – pelo menos em tese – que podem morrer espontaneamente mas não ser mortos, enquanto outros só morrem quando assassinados, nunca de morte natural. Exemplos? Um vampiro é uma criatura condenada à vida eterna, exceto se alguém lhe cravar uma estaca ao coração ou fuzilá-lo com balas de prata. Ou seja, o vampiro é matável, mas não morrível. Já o vírus da gripe morre espontaneamente após concluir o ciclo de infecção do organismo, mas até agora a medicina não desenvolveu nenhum medicamento capaz de fulminá-lo. Por isso, quando se está gripado, é usual tratar os sintomas e esperar pacientemente o ciclo infeccioso chegar ao fim por si próprio. Dito de outro modo, esse vírus é morrível mas não matável – pelo menos por enquanto.