A quem pertence realmente a Seleção Brasileira?

Daqui a dez dias começa a Copa do Mundo de Futebol, cercada mais uma vez de grande expectativa e da esperança do sonhado hexa. A cada quatro anos, a publicidade apela ao nosso sentimento patriótico, afinal Nelson Rodrigues já havia dito muito tempo atrás que o futebol é a pátria em chuteiras. Por isso, uma vitória da seleção brasileira no Mundial é sempre vista como uma vitória da nacionalidade, assim como a derrota, uma mácula em nossa história.

De fato, o futebol nunca deixou de ser uma representação simbólica da guerra. Uniformes, hinos, bandeiras, campo, capitão, ataque, defesa, tática, estratégia, todos esses elementos da prática futebolística remetem à esfera militar. Um time de futebol é um pequeno exército defendendo uma nação, seja a nação corintiana, a nação flamenguista ou qualquer outra. E o sentido de nação é tão presente que não só os times pelejam simbolicamente como as torcidas guerreiam de verdade. Dentro do campo há adversários, mas fora há inimigos.

Se isso vale para times, tanto mais vale para seleções. A execução dos hinos nacionais antes das partidas, as camisas com as cores da bandeira pátria, tudo nos faz crer que é a nossa nação que está em campo lutando contra outras nações. Nesse contexto, a desclassificação representa uma humilhação perante o mundo. E uma derrota por goleada, como o fatídico 7 a 1 de 2014, é a humilhação suprema, equivalente à aniquilação do Estado, à perda da independência, subjugados que fomos pelas tropas estrangeiras.

Mas será tudo isso mesmo verdade? A seleção canarinho é de fato nosso exército defendendo a pátria ou é isso o que a mídia nos induz a acreditar?

Até onde sei, os clubes de futebol e também a CBF são sociedades de direito privado com fins lucrativos — e bota lucrativo nisso! Afinal, as verbas de publicidade dos patrocinadores da Seleção vão para os cofres da confederação e não para o erário público. A vitória da Seleção não se traduz em mais saúde, educação e segurança para o povo brasileiro. Os jogadores da nossa seleção não estão lá por um dever patriótico e sim por um salário milionário.

Em outros tempos, quando jogar futebol era uma atividade marginal que nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho exercesse, jogava-se por vocação e por amor à camisa. Naqueles tempos, um jogador começava e terminava sua carreira num mesmo time, sempre em seu próprio país.

Hoje, quando garotos vão jogar no Exterior antes mesmo de chegar à idade adulta e, portanto, jamais jogaram profissionalmente em seu país, faz algum sentido apelar ao seu sentimento patriótico? Que patriotismo se pode esperar de uma seleção como a suíça, cuja metade do elenco não nasceu na Suíça? Nesse nosso futebol globalizado, em que temos franceses com nome de Mbappé e Pogba, belgas chamados Chadli e Fellaini, e russos com sobrenome Fernandes, e em que um jogador de futebol troca de nacionalidade como troca de camisa, ao sabor de seus interesses financeiros, que sentido tem falar em pátria de chuteiras, pintar a rua com as cores da bandeira, pôr a mão no peito na hora de cantar o hino?

É claro que é legal torcer pela Seleção, é legal ver o Brasil vencer, embora eu ache um exagero suspender as atividades profissionais na hora do jogo, mas a vitória ou a derrota do nosso escrete não muda nada em nossa vida diária, não resolve nossos problemas, nem os pessoais nem os nacionais. E parece que o nosso povo está se conscientizando disso, tanto que hoje o futebol já não cria uma cortina de fumaça sobre a nossa política nem é mais o ópio do povo como em tempos passados — talvez pela própria falta de entusiasmo que nossa atual seleção ancelótica produza. Quem está desesperançado com os destinos da nação não gasta mais dinheiro com pincel e tinta verde e amarela nem perde de vista a crise moral em que vivemos. Hoje a imagem de um Neymar rolando no gramado combalido de dor já não nos comove mais, pois sentir dor ganhando milhões é bem diferente de sentir dor na fila do SUS.

Faz tempo que eu deixei de ver a Seleção Brasileira de Futebol como o exército do meu país me defendendo no campo de batalha. Se nem os exércitos de verdade representam nações, mas antes governos, como poderia um grupo de esportistas muito bem remunerados e recrutados por uma entidade privada para competir num evento promovido por outra entidade privada representar nosso povo? Claro que eu torço pela Seleção. Mas em nenhum momento deixo que esses sentimentos se misturem com o que sinto pelo Brasil como país. E jamais desvio minha atenção daquilo que realmente importa em minha vida, em nossas vidas.

Justiça, Direito e Poder Judiciário

É muito comum no Brasil chamar o Poder Judiciário de Justiça, como quando dizemos “vou entrar na Justiça contra você”. Aliás, o próprio Judiciário se intitula Justiça quando denomina uma corte “Tribunal de Justiça”. No entanto, faço questão de não confundir três conceitos distintos que muitos entendem como sinônimos: a Justiça, o Direito e o Poder Judiciário.

A justiça é um sentimento nobre, que, como disse Ruy Barbosa, todos trazemos de berço, já que até uma criancinha sofre quando é injustiçada. Já o Direito é um conjunto de dogmas criados pelos juristas a partir daquilo que eles supõem ser o justo (e que muitas vezes não é) com base em tratados filosóficos, alguns muito antigos, e na moral vigente (no nosso caso, totalmente permeada de valores cristãos, que não são os de todos os cidadãos). Em outras palavras, o Direito não é uma ciência nem se vale dela — embora os formados em Direito sejam bacharéis em ciências jurídicas e sociais. Por essa razão, sustenta preceitos anacrônicos como o rousseliano “todo homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”, já fartamente desmentido tanto pela neurociência e pela psiquiatria forense quanto pela antropologia. E, assim, dá uma segunda chance até mesmo a criminosos com extensíssima ficha criminal e mesmo psicopatas e serial killers. Da mesma maneira, os juristas jamais consultam a opinião pública para checar o que o cidadão comum, que sofre injustiças todo dia, entende como justo.

Quanto ao Poder Judiciário, em muitos casos não há nada mais distante da justiça do que ele. Especialmente no Brasil, em que juízes vendem sentenças, brigam por penduricalhos imorais, chamam um salário de 100 mil reais de “escravidão” e ainda dão carteiradas nos pobres mortais, assim como ministros do Supremo fazem negócios nebulosos com gangsters travestidos de banqueiros, fica difícil chamar o Judiciário de Justiça, mesmo que como força de expressão. Mas o problema não está só no Brasil. Até mesmo em países sérios, em que magistrados corruptos são raros, o Poder Judiciário não está realmente empenhado em buscar a verdade e fazer justiça e sim em cumprir ritos processuais burocráticos, bem como uma legislação injusta porque feita por legisladores que, como políticos, prezam mais seus interesses pessoais e partidários do que o bem comum. Como resultado, temos a odiosa prescrição, segundo a qual, depois de alguns anos, o crime deixa de ser crime e o criminoso deixa de ser criminoso. Ou a anulação de provas ou do próprio julgamento e o arquivamento de processos por questões meramente técnicas e não pelo mérito da questão em si. E é isso que permite a advogados tão espertos quanto inescrupulosos (e, as mais das vezes, muito bem pagos) realizar suas chicanas para absolver criminosos ou condenar inocentes. E o que dizer da infinidade de recursos que esses causídicos impetram, e que a lei permite, para levar o processo à prescrição? E a recusa dos tribunais em fazer justiça apenas porque um documento probatório foi entregue fora do prazo, como se a burocracia estatal fosse mais importante que a verdade?

Além disso, como falar em justiça quando não há paridade de armas entre um trabalhador humilde assistido por um defensor público ou advogado dativo que processa uma empresa poderosa e seu bem remunerado departamento jurídico? Há justiça quando quem pode pagar por um bom advogado tem vantagens como as próprias relações nada éticas entre esse advogado e o juiz, estabelecidas em trocas de favores, jantares, passeios de iate e viagens internacionais? Há justiça quando os ministros da Suprema Corte são indicados pelo presidente da República por afinidade política ou até religiosa, mesmo sem ter as qualificações necessárias ao cargo, como o nosso malfadado José Messias?

É por essas e por outras que nunca me refiro ao Judiciário como Justiça. É por essas e por outras que confio na justiça, mas não nos juízes. E não acredito no Direito, porque ele é criado em gabinetes acarpetados e com ar condicionado por pessoas que nunca sofreram na pele a dor da injustiça.

O desprestígio da área de Letras

Pode soar estranho para a maioria das pessoas, mas a língua é, das instituições sociais criadas pelo homem, a mais “exata”, no sentido matemático do termo. Isso porque, na verdade, a língua não foi propriamente “criada” pela espécie humana, mas é o desenvolvimento natural de uma aptidão que tem raízes biológicas. Como disse o linguista israelense Guy Deutscher, “a língua é a maior invenção da humanidade, exceto pelo fato de que nunca foi inventada”. Como quer que seja, as línguas humanas são estruturas formadas de elementos que se combinam segundo regras precisas para formar elementos de um nível superior, que por sua vez se combinam segundo as mesmas regras, e assim por diante, seguindo um princípio hierárquico que vai dos elementos mínimos (os fonemas) até os enunciados máximos (os textos e discursos).

Embora haja também fenômenos psicossociais envolvidos na comunicação humana verbal, o fato é que a ferramenta básica dessa comunicação é um sistema cujo funcionamento segue leis matemáticas e, por isso mesmo, permite coisas como tradução automática, inteligência artificial e muito mais.

Olhando desse ponto de vista, um profissional de Letras deveria ser muito respeitado em nossa sociedade, já que é detentor de um conhecimento técnico tão complexo quanto o dos engenheiros, médicos, advogados, economistas, analistas de sistemas, cientistas… Só que não, e é fácil entender por quê. Enquanto um médico estuda no mínimo seis anos e um engenheiro ou advogado no mínimo cinco para se formarem, além de outros profissionais universitários, que estudam pelo menos quatro anos, um professor de português ou inglês estuda, na maioria das faculdades de Letras do nosso país, apenas três anos. E boa parte desse tempo é dedicada a disciplinas pedagógicas (como dar uma aula, como elaborar um plano de ensino, etc.). E hoje, com o advento hegemônico da educação à distância, até a prática pedagógica é ensinada… teoricamente.

Não bastasse isso, no pouco tempo que sobra para estudar a língua propriamente dita, o que se estuda não é a gramática normativa, que é a que deverá ser ensinada pelos futuros professores. Enquanto médicos, engenheiros e advogados, dentre outros, são bem remunerados por serem profissionais “pensantes”, que têm de usar seu conhecimento técnico e seu raciocínio para resolver problemas complexos, o professor é visto como alguém que não pensa, apenas repete como papagaio as informações que memorizou em seus poucos anos de estudo superior. E, nesse entremeio, o professor de Letras é o mais desvalorizado, afinal um professor de matemática ou química, bem ou mal, lida com coisas “exatas”.

Infelizmente, o ensino de Letras em nosso país só faz justificar essa visão preconceituosa da profissão. Não é à toa que cursos de medicina ou engenharia existem principalmente em universidades de grande porte, muitas das quais famosas e conceituadas (bem, hoje em dia as faculdades de medicina de fundo de quintal já são quase tão onipresentes quanto as igrejas do Edir Macedo). Já cursos de Letras costumavam até pouco tempo atrás pulular em faculdadezinhas sem nenhuma qualidade. (É evidente que também há cursos ruins de medicina e engenharia em faculdades igualmente ruins, mas para cada curso ruim de medicina ou engenharia havia cinco ou seis de Letras ou Pedagogia. Esse cenário mudou nos últimos anos, quando o desinteresse geral dos estudantes em seguir a carreira do magistério levou ao fechamento da maioria dos cursos de Letras ou à sua transferência para a modalidade à distância, com redução ainda maior da carga horária e nenhuma prática pedagógica, ao mesmo tempo que cresceu a busca pelos cursos de Direito, Informática e Medicina.)

Outro ponto importante é que um estudante de Engenharia é alguém que supostamente estudou bastante matemática e física no colégio e, por isso, chega aos bancos universitários relativamente preparado para o que vem pela frente. (Bem, novamente aqui tenho que fazer essa afirmação com certa ressalva, pois posso estar redondamente enganado.) Ao contrário, o estudante de Letras é, via de regra, alguém cuja educação básica não estimulou seu raciocínio lógico. Em outras palavras, é alguém que não está acostumado a pensar, a fazer abstrações, a visualizar diagramas e esquemas em duas ou mais dimensões — em resumo, é alguém que está na área de Humanas para fugir do raciocínio, alguém que, vindo das classes mais baixas e de um ensino público falido, escolhe o curso “mais fácil”. Então, quando esse aluno depara com uma disciplina chamada Linguística e suas subdivisões (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, pragmática) e começa a ver esquemas, diagramas em árvore, oposições binárias, linguagem de conjuntos e outros que-tais, entra em desespero e desiste do curso. Ou conclui a faculdade odiando a linguística e, assim, vai ser mais um profissional não pensante, mal remunerado e desprezado socialmente. Infelizmente, na maioria dos casos, esse indivíduo fez por merecer — ainda que involuntariamente — o preconceito que se lhe abate.

Sobre o ateísmo dos cientistas

Muitos cientistas são ou foram declaradamente ateus. Sobretudo os grandes. Mas também há cientistas confessamente religiosos. Não vou citar os antigos, como Newton ou Galileu, por exemplo, pois naquela época a ciência apenas engatinhava, a religião ainda era a principal forma de explicação da realidade e a Igreja era implacável com quem não seguisse seus preceitos. Mas ainda hoje há cientistas cristãos, judeus, muçulmanos, embora a maioria deles tenha o bom senso de não misturar suas convicções religiosas com sua pesquisa.

Mas o ponto que quero considerar — e que talvez explique essa divergência de atitudes — é que há dois tipos de cientistas: os técnicos e os pensadores. Cientistas que chamo aqui de técnicos são geralmente os experimentalistas e aplicativos, que realizam experiências em seus laboratórios, fazem descobertas notáveis, as mais das vezes buscando soluções para grandes problemas, mas em geral não se indagam sobre o porquê de os fenômenos ocorrerem como ocorrem. Pesquisadores em áreas como química, medicina, computação e economia costumam ser assim. Já os cientistas pensadores costumam ser os teóricos, aqueles que se debruçam sobre os resultados das pesquisas experimentais para buscar justamente a explicação sobre como e por que as coisas são como são e que desejam achar respostas às grandes perguntas existenciais. Certa vez escrevi que os primeiros fazem ciência (com “c” minúsculo) e os segundos fazem Ciência (com “C” maiúsculo).

Essa postura de busca de uma explicação lógica, racional e naturalista para a realidade é o que os faz questionar os dogmas e as ideologias. Esses pesquisadores são verdadeiros filósofos, que escrevem livros para o grande público explicando a ciência e, no passado, foram os que mais sofreram a perseguição da Santa Inquisição (que de santa não tinha nada).

No primeiro grupo eu colocaria nomes como Albert Sabin, inventor da vacina contra a poliomielite, Alexander Fleming, criador da penicilina, Christian Barnard, cirurgião que realizou o primeiro transplante de coração, Michael Faraday, descobridor das leis do eletromagnetismo, dentre outros. Este último, por sinal, era um fervoroso protestante anglicano. Muitos desses cientistas atribuíam a causa de suas descobertas e mesmo seus próprios dons de investigadores a Deus. Para eles, a ciência era um instrumento de descrição da criação divina.

Já no segundo grupo eu coloco Charles Darwin, Albert Einstein, Sigmund Freud, Carl Jung, Max Planck, Carl Sagan, Richard Dawkins, Stephen Hawking, Steven Pinker, Daniel Dennett, Jared Diamond, Noam Chomsky, Marcelo Gleiser (para citar um brasileiro)… A obra desses cientistas não apenas descreve o funcionamento do Universo, da vida, da mente humana, mas busca a explicação última das questões fundamentais da humanidade: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, por que existe a realidade ao invés do nada, e assim por diante. E fazem isso sem jamais recorrer à “explicação” fácil mas errada (e ingênua) das doutrinas religiosas.

Há, no entanto, um tipo de cientista técnico que às vezes se aventura a ser um pensador sem ter o estofo suficiente para tanto. Cito particularmente o caso de Francis Collins, o famoso geneticista americano que sequenciou o genoma humano. Como excelente técnico que é, ele empregou os métodos mais modernos para realizar seu feito. E foi tecnicamente irrepreensível. No entanto, crente devoto que também é, interpretou o código genético como a assinatura do deus judaico-cristão em que acredita. E escreveu um livro chamado A linguagem de Deus, em que faz contorcionismos lógicos para adequar a molécula de DNA às Sagradas Escrituras, tal como Tomás de Aquino conformou (e sobretudo deformou) a lógica de Aristóteles à doutrina cristã.

Assim, os grandes pensadores da ciência são levados ao ateísmo ou, pelo menos, ao agnosticismo na medida em que conciliam os dados empíricos obtidos pelos cientistas técnicos ao raciocínio lógico, ao pensamento racional, ao mergulho filosófico que seu conhecimento lhes proporciona. Eles se dobram às evidências e se convencem de que as narrativas religiosas são simplesmente falsas. Portanto, vão ao mais profundo que a mente humana consegue ir em busca de respostas. Já os técnicos nadam mais perto da superfície. Nada contra pesquisadores que têm fé, desde que, ao fazer ciência, não embutam nela o viés metafísico, mas tenho para mim que esses serão sempre técnicos, nunca pensadores de fato.

O cancelamento de pessoas que prestaram grandes serviços à humanidade

Desde 2013, a síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo, foi renomeada para suprimir o sobrenome de seu descobridor, o médico austríaco Hans Asperger. Os motivos seriam dois: primeiro, a incorporação da síndrome ao espectro autista; segundo, a atuação do médico no regime nazista. De fato, Asperger colaborou com os nazistas, e muitas das crianças autistas que ele estudou foram depois mandadas para a câmara de gás. Mas alguns historiadores e biógrafos têm revisto sua atuação na medida em que, nas palavras do médico e historiador norueguês Ketil Slagstrad, “é muito fácil julgar um homem quando não é sua cabeça que está sob a mira de uma arma”.

O ponto em questão é que a vida e as convicções políticas de Asperger não invalidam sua inestimável contribuição à medicina. Mas a cultura do cancelamento, essa patrulha ideológica que muito se assemelha à antiga Inquisição, não perdoa. Tempos atrás, questionou-se o batismo do novo telescópio espacial com o nome do americano James Webb, diretor da NASA durante o icônico projeto Apollo, porque, segundo consta, ele era machista e racista.

Essa caça às bruxas promovida pela intolerância também vitimou o físico alemão Werner Heisenberg, fundador da mecânica quântica, que, apesar de opor-se ao nazismo, decidiu permanecer na Alemanha durante o governo de Hitler como forma de resistência, atitude que nunca lhe foi perdoada. Assim eu pergunto: deveríamos jogar fora toda a física quântica e os avanços tecnológicos que ela tem proporcionado porque seu fundador trabalhou para o governo nazista? Seguindo essa lógica, deveríamos lançar ao lixo a obra e a memória de Jorge Amado, Oscar Niemeyer ou Vladimir Herzog porque pertenceram ao Partido Comunista? Ou a de Nelson Rodrigues porque simpatizava com a ditadura militar? Será que devemos cancelar Chico Buarque, sua música e sua poesia porque ele apoia o regime cubano (embora goste de passar as férias em Paris e não em Havana)? Ou quem sabe Gilberto Gil por ter sido deputado pelo fisiológico MDB e ministro do “comunista” Lula? Deveríamos cancelar Aristóteles, base de todo o pensamento ocidental, porque ele tinha escravos — ou melhor, escravizados — e lecionou para o sanguinário Alexandre o Grande? Devemos ignorar o grande ator Tarcísio Meira porque ele criava gado de corte em sua fazenda?

Como disse Jesus, quem for livre de pecado que atire a primeira pedra. (Aliás, só estou citando Jesus aqui enquanto ele ainda não é cancelado.)

O pretuguês é realmente português de preto?

Esta semana me chamou a atenção um vídeo no Instagram de uma jovem de nome Camilla, cujo perfil é @pretaletrada, falando sobre o pretuguês, isto é, o português brasileiro falado, especialmente pelas pessoas pouco ou nada letradas. Esse conceito, o pretuguês, ou “português de preto”, foi criado pela ativista negra Lélia González (que não era linguista) provavelmente baseado no consagrado Black English, o dialeto (sim, dialeto!) dos negros americanos pobres e iletrados, sobretudo os do Sul dos Estados Unidos. Lá, séculos atrás, surgiu um dialeto crioulo resultante da tentativa de escravos negros africanos de falar inglês, língua estrangeira para eles, sendo que os próprios africanos pertenciam a várias etnias e tinham línguas maternas distintas. (Atenção: língua crioula não é língua de preto, como podem pensar os desavisados; é uma língua nascida nas colônias europeias da América, da África e da Ásia, resultante da mistura das línguas dos colonizadores e dos colonizados.)

Nos EUA, o linguajar popular tem de fato uma forte influência africana, mas muito pouco indígena, pois os índios americanos foram simplesmente dizimados, o que justifica a denominação Black English. Já no Brasil, o dialeto crioulo que surgiu era um português inculto falado pelos primeiros colonizadores, gente de baixa cultura, altamente influenciado em primeiro lugar pelas línguas indígenas, especialmente o tupi, e posteriormente pelas línguas africanas, com destaque para o quimbundo e o iorubá. Logo, o pretuguês não é apenas preto e português, é também índio, ou pretindiuguês. E por que isso é importante? É o que veremos a seguir.

A moça preta e letrada do vídeo afirma que brusa, pobrema, os menino e as casa não são erros e sim produtos da herança africana na nossa língua. Em primeiro lugar, ela aparentemente ignora os diferentes significados da palavra erro em linguística e em gramática (ela tampouco é linguista). Em linguística, não há erros, há variedades distintas (de região, de idade, de nível social, de escolaridade, etc.), logo os menino e os meninos são variantes diastráticas, isto é, de classe sociocultural, da mesma expressão portuguesa. Já na gramática normativa, é considerado erro o uso em um texto ou discurso formal de tudo aquilo que não é próprio da variedade chamada de norma-padrão. Portanto, erro é o uso inadequado de uma variedade linguística em contexto de comunicação em que ela não é recomendada. Assim, numa sociedade letrada como a nossa, em que ocorreu há várias décadas a universalização do ensino básico, dizer brusa ou os menino só não é inadequado aos analfabetos (absolutos ou funcionais).

Dito isso, muitos dos fatos que a preta letrada aponta como africanismos no português brasileiro oral são de fato herdados das línguas africanas, especialmente das línguas bantu, dentre as quais o mencionado quimbundo. A marcação do plural apenas no artigo (os menino) é quase consensualmente aceita como uma marca africana.

Em compensação, construções como os tempos contínuos ou cursivos, formados pelo verbo estar mais um gerúndio (estou fazendo, por exemplo), não são herança africana, já que esse tipo de construção existe em espanhol, galego, catalão, italiano e inglês, dentre outros. No próprio português lusitano, essa construção predominou até o século XIX (mais uma vez, é a mais usual em Camões); foi a partir daí que estou a fazer acabou suplantando estou fazendo. Mesmo assim, em algumas regiões de Portugal ainda prevalece estou fazendo.

Já o rotacismo, isto é, a troca de l por r, que a jovem argumenta ser causada pelo fato de as línguas africanas trazidas ao Brasil não terem o fonema /l/, é bastante discutível. Em primeiro lugar, esse fenômeno já existia no português medieval (latim plattu, fluxu, clavu > português prato, frouxo, cravo), de modo que pode ter sido trazido pelos próprios portugueses. Até Camões, n’Os Lusíadas, emprega simpres por simples. Mas a causa também pode ser indígena, pois o tupi, este sim, não tinha o som de l, tanto que pronúncias como carça, asfarto, borso por calça, asfalto, bolso se originam de regiões como o interior do Estado de São Paulo, onde a língua de substrato era o tupi e não o quimbundo.

Por outro lado, inúmeras palavras brasileiras de origem afro têm l e justamente porque tinham l no quimbundo da era colonial. Por exemplo, moleque (< quimbundo mu’leke, “menino”), quizília (< kizila, “aborrecimento”), beleléu (< mbalale, “cemitério”), caçula (< kasakula), lundu, quilombo, senzala, Luanda

Esta última, nome da capital de Angola, situada na ilha do mesmo nome, deriva de lu’ndandu, formada por lu, “litoral”, e ndandu, “búzio”. Curiosamente, foi no Brasil que o nome Luanda deu origem ao termo religioso Aruanda, “Paraíso”. Por falar em religião, a palavra candomblé se origina da junção do quimbundo candombe, “dança ao som de atabaques”, com o iorubá ilê, “casa”. Como vocês podem ver (e o baiano Ilê Aiyê confirma), o iorubá também tem l.

Pois bem, é nisso que dá quando militantes woke resolvem sustentar suas pautas identitárias em informações falsas, resultado de falta de pesquisa ou, em certos casos, de desonestidade intelectual. E a jovem Camilla, que sintomaticamente usa termos como bacharela e escravizados (em 2010 e 2014, ela deve ter votado na presidenta), é declaradamente uma militante, assim como Lélia González também o era. A causa defendida por ambas ganharia muito em força argumentativa se se apoiasse em fatos cientificamente comprovados e não em achismos disseminados em grupos de militância, onde quase ninguém sabe realmente do que está falando.

A raiz do feminicídio

A matança de mulheres pelo simples fato de serem mulheres é uma das grandes chagas do nosso tempo e, no Brasil, uma verdadeira e vergonhosa epidemia. Mas, mais do que um fenômeno policial, trata-se de um problema social. As estatísticas mostram que cerca de 60% das vítimas brasileiras de feminicídio são mulheres negras pobres de periferia. E que seus executores são igualmente homens negros pobres de periferia. Portanto, embora esse crime ocorra em todas as classes sociais, ele é mais frequente nas classes mais baixas, onde estão presentes diversas características que, aliadas ao mau caráter dos criminosos, acabam turbinando a incidência desses assassinatos, como a baixa escolaridade, famílias desestruturadas, amiúde formadas por uma mãe solteira e muitos filhos, às vezes de pais diferentes, com um pai ausente ou então alcoólatra, drogado e/ou marginal e, em todos os casos, violento, além de o próprio entorno favorecer a violência, já que na periferia mesmo as pessoas de bem são obrigadas a conviver muito de perto com a criminalidade (toda favela tem sua boca de fumo, e muitas favelas são totalmente dominadas pelo tráfico ou pelas milícias).

Assim, o feminicídio é apenas mais uma das mazelas produzidas por nossa brutal desigualdade social. Mas não é só isso: nossa cultura machista, herdada dos colonizadores ibéricos, que resultou no típico machão latino-americano, também é um ingrediente importante do problema. E o pior é que mudanças culturais levam décadas e gerações para ocorrer, além de dependerem da educação que se dá às crianças em casa (e que o ambiente periférico tem falhado em prover) e da que se dá na escola, onde a péssima qualidade do serviço oferecido pelo Estado igualmente falha.

Por isso sou pessimista em relação a uma solução de curto ou médio prazo para essa epidemia de crimes contra as mulheres. O poder público ataca o sintoma e não a causa da doença na medida em que endurece punições para esse crime, mas não resolve a questão estrutural básica da desigualdade social crônica. E aumentar penas não adianta: os criminosos não temem a cadeia, ainda mais com todas as regalias que a legislação oferece aos criminosos. Sem falar que esses crimes são cometidos por impulso, movidos a emoção e não a razão; logo, nenhum feminicida pondera antes de praticar o crime se vale a pena ou não executá-lo, qual o custo-benefício de seu ato em face de uma possível punição. Aliás, muitos assassinos se suicidam logo após o crime. Trata-se de selvageria pura, combinada à visão de que a mulher é propriedade do homem, à vergonha da “dor de corno” e à sensação de impunidade que nossa legislação e nosso Judiciário contribuem para reafirmar.

O maior país do mundo, parte 2: o retorno

Algumas semanas atrás, em outra postagem, comentei o chauvinismo brasileiro de achar que o nosso país é o maior do mundo em tudo e que por isso merecemos particular deferência por parte das outras nações. O fiasco do filme O agente secreto na cerimônia do Oscar deste ano e as subsequentes reações furiosas dos brasileiros comprovaram minha tese. Não que o filme e os atores não tenham lá os seus méritos: o simples fato de terem recebido várias indicações ao prêmio já é louvável por si só. Mas a realidade é que o clima de já ganhou, que também antecede as participações brasileiras em copas do mundo de futebol, mais uma vez impediu que a competição fosse encarada com serenidade e, sobretudo, humildade. O Brasil entrou na disputa de salto alto, como se o troféu já fosse seu por direito e, tal qual na Copa do Mundo, caiu antes do término. Sim, o filme, pelo que dizem (eu não o assisti), é muito bom, e a atuação de Wagner Moura estava impecável, mas havia outros tantos bons concorrentes, e o Brasil já havia ganhado o prêmio no ano passado, o que tornaria uma dobradinha pouco provável.

Mas o mais revelador de nosso bairrismo inveterado foram os comentários indignados na internet após a perda do Oscar. Comentários que foram desde a descredibilização do júri (a velha insinuação de que houve roubo) até o menosprezo pelos vencedores, como se eles não tivessem merecimento. Sobre o ganhador do Oscar de melhor ator, Michael B. Jordan, houve até comentários desprovidos de senso de ridículo como um que dizia: “Michael B. Jordan não é bem-vindo aqui em Xique-Xique, Bahia” (como se esse ator tivesse alguma intenção de um dia visitar Xique-Xique, coisa que nem os brasileiros têm). Outros tantos comentários enalteciam o “molho” do nosso povo como se isso fosse justificativa suficiente e indiscutível para fazer jus o prêmio.

Enfim, há muitos países no mundo que jamais ganharam um Oscar ou um campeonato mundial de futebol e têm, no entanto, muito mais razões para se orgulhar do que nós: educação de altíssima qualidade, baixíssima corrupção, alto desenvolvimento científico e tecnológico, grande importância geopolítica, e assim por diante. Enquanto isso, tal como Donald Trump, nos comportamos igual criança de quinta série despeitada quando contrariada: “Não ganhamos o Oscar? Bela porcaria, nós nem queríamos mesmo!”.

A nova ditadura

Nos anos 1960 e ’70, vivíamos sob a ditadura militar, com seu autoritarismo arbitrário e sua censura, que decidiam o que podíamos ou não podíamos dizer, que palavras podíamos ou não podíamos empregar, de que assuntos podíamos ou não podíamos tratar. O regime militar acabou, mas hoje vivemos uma nova ditadura, em que não são os militares e sim as mídias sociais e seus algoritmos que decidem o que podemos ou não dizer. Assim como nos tempos dos milicos tínhamos de exercer a autocensura para não ter problemas com a polícia e usar de metáforas para falar de temas proibidos, hoje precisamos mascarar palavras como M0RT3 ou 35TUPR0, ou então chamar manifestações contra o governo Trump de “festival de música”, como fizeram muitos manifestantes em Los Angeles em meados do ano passado. Criticar governos, apoiar palestinos, postar conteúdo pró-LGBT (e também anti-LGBT) é certeza de perder monetização ou mesmo ter seu conteúdo tirado do ar. E, bem nos moldes d’O processo de Kafka, não adianta recorrer: as redes nunca revelam a razão de sua censura, limitando-se a um lacônico comunicado “você infringiu as normas de conduta da plataforma”, normas estas que nunca estão suficientemente claras ao usuário.

O absurdo é que, por exemplo, vídeos de denúncia que expõem maus-tratos a animais são derrubados sob a alegação de que as plataformas não permitem a exibição de tortura. Ora, o algoritmo, burro que é como toda máquina, não sabe distinguir entre a apologia e a denúncia aos maus-tratos. E situações semelhantes se repetem em relação a outros temas sensíveis.

A diferença entre a ditadura tradicional e a algorítmica é que os inquisidores humanos podem ser sensibilizados por seus interrogados se perceberem que estes não são terroristas ou subversivos e que agiram de boa-fé — ou mesmo nem agiram, foram presos por engano —, ao passo que as plataformas digitais não permitem questionamento (como questionar um robô?), e os funcionários humanos das redes focam exclusivamente no lucro, não na justiça.

Mas há também outro tipo de censura: a ideológica. Hoje, sob o pretexto de serem preconceituosas ou contrárias à democracia, muitas postagens são retiradas do ar por ordem judicial, mesmo que as falas, ainda que moralmente indefensáveis, não configurem nenhum crime. Não só as big techs e seus algoritmos como também a própria opinião pública dominante nas redes lincha moralmente quem pensa diferente, transformando o que deveria ser debate em pensamento único, característica típica das autocracias. Viva o admirável mundo novo!

Ainda sobre a ortoépia — ou ortoepia

Semana passada publiquei aqui um texto cômico para explicar o que é ortoépia, ramo da gramática que indica a pronúncia correta das palavras — e cujo nome tem, ele próprio, duas pronúncias corretas, já que também pode ser grafado e pronunciado ortoepia.

Pode parecer bobagem, mas há muitos casos em nossa língua de palavras com duas grafias e pronúncias igualmente corretas, como autópsia e autopsia, necrópsia e necropsia, biópsia e biopsia, catorze e quatorze, e assim por diante. Esse assunto se tornou relevante depois que um certo membro do Ministério Público resolveu processar a Rede Globo porque seus repórteres pronunciam récorde em vez de recorde. Ora, acho que a maioria do povo brasileiro, incluindo pessoas cultas, pronuncia récorde. E também transístor e bêisebol em lugar de transistor e beisebol. Portanto, já é hora de os dicionários e o próprio VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) abonarem essas formas, afinal língua é uso, e o uso é soberano.

Mas aqui quero tratar de um fenômeno curioso que vem acontecendo após a reforma ortográfica de 2009. Embora na maioria das línguas a grafia não represente fielmente a pronúncia, parece que os falantes do português são tão apegados ao modo de escrever das palavras que, quando ele muda, a pronúncia muda junto.

Na América do Sul há dois países chamados Guiana, a República da Guiana e a Guiana Francesa (antigamente, o Suriname também se chamava Guiana Holandesa). Pois até 2009 a grafia do nome desses países era Güiana, seguindo a forma como são chamados em outros idiomas. Aliás, até 1943 essa grafia era Guyana, que se mantém nas demais línguas. Pois foi só a reforma ortográfica abolir o trema que as pessoas, inclusive jornalistas, passaram a pronunciar esse nome como se o u fosse mudo.

Outro fato curioso é que até a oficialização da reforma, grafávamos protéico, nucléico, estóico, paranóico, e assim por diante. Já faz algum tempo que ouço pessoas dizerem protêico, com e fechado, mas minha maior surpresa foi ouvir na televisão Luiz Felipe Pondé pronunciar estôico. Justo ele, que é filósofo e grande estudioso do estoicismo desde quando estóico tinha acento. Duvido que naquela época ele ou qualquer outra pessoa pronunciasse estôico. No entanto, é assim que ele se refere atualmente aos seguidores dessa escola de pensamento. Resta saber se Pondé está fazendo isso por ignorância de que mudanças na grafia não implicam mudanças na língua (duvido muito dessa hipótese) ou se por pura gozação ou protesto contra a nova ortografia da língua portuguesa. Em todo caso, a ortoépia (ou ortoepia) ensina que todas as palavras terminadas em ‑eico, ‑oico ou ‑oide se pronunciam com a vogal aberta e não fechada.

O fato é que o português já passou por muitas reformas ortográficas (quatro só no último século), sendo que, na minha opinião, nenhuma foi satisfatória, e essas mudanças constantes só atrapalham quem procura escrever corretamente. E agora estão atrapalhando também a fala. Enquanto isso, outras línguas europeias não sofrem reformas ortográficas há séculos, e ninguém tem problema para pronunciar as palavras.