De Roma ao romance

E hoje vamos responder à dúvida da leitora Maria Helena Morgado Fontes, que pergunta:

 Bom Dia. Gostaria de saber se existe alguma relação entre a palavra “romance” e o nome “Roma”. Obrigado.

Cara Maria Helena, existe sim. Como se sabe, Roma constituiu um grande império da Antiguidade, que dominou a maior parte da Europa e vastas regiões do Oriente Próximo e norte da África. Nem todos esses territórios tinham o latim como língua materna, nem os romanos impuseram pela força o seu idioma. Mas a tendência era que os súditos do Império Romano falassem a língua latina, pelo menos em locais públicos ou como segunda língua.

Dada a extensão territorial do Império e a consequente dificuldade de comunicação entre as províncias, somada aos substratos linguísticos de cada região (isto é, as línguas nativas faladas concomitantemente ao latim), era natural que houvesse alguma dialetação. Por isso, passou-se a chamar de România o conjunto dos povos e territórios que falavam alguma forma de latim.

Depois que as invasões germânicas ocasionaram a queda do Império Romano, em 476 d.C., a diversidade linguística aumentou de tal modo que dialetos se transformaram progressivamente em línguas, às vezes não intercompreensíveis. Por essa época, já se fazia clara distinção entre o latim e os dialetos populares, chamados de românicos. Falava-se latim (latine loqui)  em situações formais e românico (romanice loqui) no dia a dia. É de romanice que provém a palavra romance. Portanto, romance era qualquer dialeto proveniente do latim.

Na Idade Média, vários desses romances tornaram-se o que hoje conhecemos por línguas românicas ou neolatinas, dentre as quais o português. Nessa mesma época, narrativas literárias escritas nessas línguas também eram chamadas de romances. Está aí a origem do romance como gênero literário. É claro que o formato atual do romance é uma criação do século XIX que tem pouco a ver com os romances medievais. Por sinal, a escola literária que o criou foi também a que mais se inspirou na atmosfera medieval: o Romantismo, cujo nome deriva igualmente da palavra romance (romant em francês antigo).

Como os romances daquele século transbordavam de situações amorosas (assim como também os romances medievais, com temas de cavalaria e amor galante), romance passou por metonímia a designar o caso amoroso, o relacionamento afetivo entre um homem e uma mulher. E romantismo deixou de ser apenas um movimento literário para denominar todo um conjunto de atitudes próprias de quem ama.

Pausa, pouso e repouso

Hoje vou responder a um e-mail do leitor Jackson Bezerra de Albuquerque, que diz:

Prezado Aldo, admiro muito o seu trabalho e grande conhecimento sobre línguas, mas a razão da minha consulta é uma curiosidade etimológica que você, como especialista no assunto, certamente poderá me esclarecer. É verdade que “pouso” tem a ver com “pausa”? E se tem, qual é a relação? Muito obrigado.

Prezado Jackson, você tem toda a razão: pausa e pouso têm tudo a ver. Em latim, a palavra pausa queria dizer o mesmo que em português: parada, cessação, interrupção de uma atividade. No entanto, se pausa e pausar nos chegaram por via culta, temos o verbo pousar e seu derivado regressivo pouso, da mesma origem, só que desta vez recebidos por herança.

Mas o que há de comum entre pausar e pousar? Se a pausa é a interrupção de uma atividade, então, dizer que uma ave pousou equivale a dizer que ela fez uma pausa, interrompeu o voo. E como as aves precisam pousar para descansar, o pouso é também o momento de descanso, ou de repouso. Nem é preciso dizer que esta última palavra também se originou de pausa, porém trata-se agora de uma pausa mais longa, para repor as energias. Daí o prefixo reforçativo re‑.

Ou seja, a pausa em qualquer atividade pode ser associada a um “repouso”, mesmo que em sentido metafórico. Por isso, dizemos que um equipamento que não está sendo usado está em repouso (ou em stand by, isto é, de prontidão). Ora, o pouso, seja de um pássaro, avião, astronave, etc., é a entrada em estado de repouso, de inatividade, a cessação do voo.

De modo mais geral, toda interrupção é uma pausa. Assim, apertamos a tecla pause dos aparelhos de CD ou DVD para suspender a execução de uma música ou filme, e também fazemos pausas no nosso trabalho, seja a pausa para o almoço, o cafezinho, o descanso semanal ou as férias.

Uma última curiosidade: em francês, o verbo poser, proveniente da mesma fonte latina, significa “pôr, colocar”, isto é, “pousar” (sobre uma mesa, por exemplo). E pose, a atitude de quem fica imóvel durante uma foto ou retrato, não deixa de ser um estado de pausa, de inatividade.

 

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Jacaré fêmeo e cobra macha

Em 2013, quando eu mantinha um blog no portal da extinta revista Língua Portuguesa, o leitor Jota Paschoal me enviou a seguinte pergunta: “Se o adjetivo segue o gênero do substantivo (menina bonita, rapaz malvado), então é correto dizermos ‘jacaré fêmeo’ e ‘cobra macha’?”. Como outro leitor, Patrick Medeiros, me pede agora para republicar a resposta, aqui vai.

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Como na canção Macha, Fêmeo, de Arnaldo Antunes, os adjetivos “macho” e “fêmeo” admitem flexão de gênero e número. No dicionário Houaiss, “macho” é definido como “relativo ou próprio do sexo masculino”, e “fêmeo” (assim mesmo, no masculino, como costuma ser a entrada de todos os adjetivos no dicionário) define-se como “relativo a fêmea ou a mulher” e também “diz-se de qualquer objeto que se ajusta a outro, que nele penetra (o macho)” e exemplifica com “tomada fêmea” (mas poderíamos ter também “plugue fêmeo”).

A estranheza se dá pela confusão que por vezes se faz entre gênero gramatical e sexo biológico. É o caso do adjetivo “grávido”, que parece incoerente com o fato de que somente fêmeas engravidam. No entanto, nesse caso é possível pensar em machos grávidos (por exemplo, o cavalo-marinho é uma espécie de peixe em que é o macho quem gesta as ovas) ou empregar o termo em sentido metafórico: muitos maridos se dizem grávidos enquanto suas esposas é que esperam o bebê. Há até uma peça teatral em cartaz atualmente com esse título. Grávido também é o nome de uma canção que Gonzaguinha compôs durante a gestação de sua mulher.

Mas voltando à questão levantada pelo amigo Jota Paschoal, por que dizemos “jacaré-fêmea” e “cobra-macho”? Como se sabe, os nomes de alguns animais são substantivos epicenos ou comuns de dois gêneros (embora algumas pessoas erradamente façam o feminino de “jacaré” como “jacaroa”), o que torna necessário lançar mão de um expediente morfológico para distinguir os gêneros. Esse expediente consiste em formar uma palavra composta com os substantivos “macho” e “fêmea”. E aí está a explicação de por que não se diz “jacaré fêmeo” ou “cobra macha”: é que “macho” e “fêmea” neste caso são substantivos e não adjetivos. É por isso também que tais palavras se escrevem com hífen.

Ou seja, “jacaré-fêmea” é a fêmea do jacaré; “cobra-macho” é o macho da cobra, e assim por diante. Entretanto, não está errado dizer “este jacaré é fêmeo” ou “esta cobra é macha”. Só que, dado o conflito entre gênero e sexo acima mencionado, prefere-se dizer “este jacaré é (uma) fêmea” e “esta cobra é (um) macho”. Em outras palavras, prefere-se empregar o substantivo no lugar do adjetivo. Isso se aplica até a “mulher-macho”, como na canção eternizada por Luiz Gonzaga.

Ética e moral são a mesma coisa?

Nesta semana, respondo à pergunta de um assíduo leitor desta coluna. Edilson Zafira de Sousa, de São Paulo, questiona:

Qual é a etimologia de ética e de moral? São sinônimas?

“A ética está ligada à filosofia. A moral está ligada à religião.” Está correta essa definição?

Embora no linguajar corrente ambos os termos sejam utilizados como sinônimos – e a razão disso explico mais abaixo –, eles têm diferentes significados. “Moral” deriva do latim mores, “usos, costumes”, e corresponde ao conjunto das práticas toleradas e mesmo recomendadas por uma sociedade a seus membros – os chamados “bons costumes”. Portanto, moral é algo aceito como normal pela coletividade, seja um povo inteiro ou uma comunidade restrita (as Forças Armadas, a Igreja Católica, um determinado colégio).

A moral é fruto de uma convenção social e, por isso mesmo, muda com o passar do tempo e de uma sociedade para outra. Muitas práticas comuns hoje em dia, como usar biquíni na praia, já foram noutros tempos consideradas imorais. O topless ainda é visto como atentado ao pudor pela maioria dos brasileiros, mas em lugares como Ibiza (Espanha) e Saint-Tropez (França) é prática normal e corrente.

Como se pode ver, a moral é relativa e está intimamente ligada à cultura, embora, para os membros da comunidade que a adotam, tenha valor de verdade indiscutível.

A ética, por outro lado, é a especulação filosófica a respeito da moral e dos costumes. Derivada do grego éthos, “modo, jeito de ser, costume”, a ética busca valores universais, como o bem comum. Para Sócrates, o segredo do bem viver é viver com sabedoria, algo que só se atinge pelo autoconhecimento. Já Aristóteles, em sua Ética a Nicômano, afirma que somos o produto de nossas escolhas. Cada um tem a liberdade de fazer o que quiser, mas, se todos fizerem isso, a convivência social se torna impossível. Portanto, a reflexão filosófica visa responder à pergunta: o que posso ou não posso, devo ou não devo fazer se quiser viver em paz comigo mesmo e com os outros? A resposta parece ser a chamada Regra de Prata: “não faça aos outros o que não quer que os outros lhe façam”. E que pode ser complementada pela Regra de Ouro, ensinada por Jesus: “faça aos outros o que quer que os outros lhe façam”. Ou, simplesmente, “amai-vos uns aos outros”. Sendo uma reflexão filosófica, guiada pois pela razão, a ética pode até mesmo confrontar regras morais vigentes por considerá-las ultrapassadas ou injustas. A ética reflete sobre o bem comum, o bem da coletividade, ao passo que a moral disciplina o comportamento individual.

Mas, se, na teoria, ética e moral são coisas diferentes (a ética seria o estudo filosófico da moral), na prática elas se confundem, pois é comum usarmos o nome de uma ciência para designar o próprio objeto dessa ciência. É assim que “economia” é tanto o conjunto dos bens e recursos de uma sociedade quanto a ciência que estuda a circulação desses bens e recursos; “história” é tanto o conjunto dos fatos passados de uma sociedade quanto a disciplina que estuda esses fatos.

Portanto, é possível falar em moral católica ou em ética empresarial como códigos de conduta a ser seguidos. Na verdade, a sociedade ocidental, que por séculos viveu dominada pela ideologia religiosa, ainda atrela, mesmo que inconscientemente, a moral secular aos preceitos do Cristianismo, por sua vez herdados do Judaísmo. É nesse sentido que muitos setores da nossa sociedade veem como imoralidade a nudez em público ou o homossexualismo.

É preciso lembrar, no entanto, que nem tudo que é ético é estritamente moral, assim como nem tudo o que é legal é moral ou ético. Furar fila não é ilegal, mas não é moral, pois contraria os ensinamentos que todos deveríamos trazer do berço, nem tampouco é ético, já que ninguém gosta de ter seu direito violado. Mentir é geralmente visto como atitude reprovável, logo imoral, mas, e se mentimos para salvar uma vida? Não seria algo perfeitamente ético e mesmo louvável?

Portanto, ética e moral não têm necessariamente a ver com fé religiosa, embora na maioria das sociedades ainda seja a religião a principal referência do bom comportamento. Sobretudo a ética busca o justo, o que garanta a harmonia social.

Nesses nossos tempos em que a ética parece andar tão distante da política, em que basta que um gesto não seja ilegal para que seja considerado moral, recordar o significado dessas duas palavras pode ser de algum proveito.

Questão de gênero

Atualmente, usam-se cada vez mais expressões como “questão de gênero” quando se debatem problemas relativos à discriminação e aos direitos das mulheres, dos homossexuais e dos transexuais (já correntemente chamados de “transgêneros”). Já que não se trata de questão linguística, mas de diferença e discriminação entre os seres humanos quanto a seu sexo, é apropriado o uso da palavra “gênero” nesse caso?

Nota-se, de algum tempo para cá, a tendência a empregar a palavra “gênero”, antes reservada ao discurso da gramática, no sentido de “sexo” (masculino ou feminino). Existe uma óbvia diferença entre o gênero gramatical e o sexo biológico. Afinal, alguns idiomas atribuem gênero masculino ou feminino a substantivos inanimados ou assexuados, enquanto outros atribuem gênero neutro a esses substantivos ou então prescindem completamente da noção de gênero. Mesmo em línguas que fazem essa distinção, o gênero gramatical não necessariamente coincide com o sexo biológico: em alemão, por exemplo, Mädchen (“menina”) é do gênero neutro.

De onde veio, então, essa tendência a usar “gênero” em lugar de “sexo”? Vários fatores concorreram para isso.

Em primeiro lugar, a ambiguidade da palavra “sexo”, que tanto pode se referir à distinção masculino/feminino quanto ao ato sexual. (Há até algumas anedotas brincando com essa ambiguidade, como a do sujeito que, ao preencher um formulário, respondeu: nome – José da Silva; idade – 38 anos; sexo – 7 vezes por semana.)

Em segundo lugar, há uma pitada de “politicamente correto” nessa história, já que “gênero” seria, supostamente, uma palavra mais “neutra”, sem conotações sexistas.

Em terceiro lugar, temos a influência do jargão acadêmico, já que esse emprego surge primeiramente em textos de sociologia e antropologia, sobretudo em inglês. Aliás, é cada vez mais comum nos países de língua inglesa o uso de gender em lugar de sex em formulários e cadastros, tanto que o biólogo britânico Richard Dawkins, o maior evolucionista da atualidade, se levanta contra esse uso no livro Desvendando o arco-íris, até porque “gênero” em biologia designa outro conceito, o de subgrupo que reúne várias espécies de uma mesma família (por exemplo, o gênero Homo, ou gênero humano).

Ou seja, se um cientista do porte de Dawkins considera equivocado esse emprego, é algo a ser seriamente considerado. Outro dado a ser levado em conta é que a maioria dos dicionários ainda não abonou o emprego de “gênero” nessa acepção, exceto no discurso das ciências sociais. Daí porque, do meu ponto de vista, a acepção de “gênero” como “sexo” ainda está restrita ao jargão sociológico. Só que é cada vez mais comum que termos técnicos escapem do universo estritamente acadêmico para invadir até os bate-papos de boteco. Foi assim que “neurose” e “esquizofrênico” deixaram há muito de ser termos exclusivos do ambiente médico.

Em resumo, quando se emprega numa conversa ou em matéria jornalística a expressão “questão de gênero”, faz-se óbvia referência ao discurso sociológico. Não dá para dizer que esse uso está errado; no entanto, em hipótese alguma se pode afirmar que o emprego de “questão de sexo” esteja. Qualquer objeção nesse sentido não passa de patrulhamento ideológico.

“Eu irei” ou “eu vou ir”: como se faz o futuro do presente do indicativo?

Eu gostaria de saber qual a diferença entre “Eu irei” e “Eu vou ir” para indicação do Futuro do Presente do Indicativo? Pesquisei sobre o assunto em alguns livros de Gramática, mas não achei nada de esclarecedor.

Helton Anderson

 

Caro Helton, assim como a maioria das línguas europeias, o português tem duas formas de indicar o tempo futuro do indicativo: uma sintética (que outros idiomas chamam de “futuro distante”) e uma analítica (ou “futuro próximo”). A forma sintética, que é também a mais formal, corresponde ao tempo simples “farei”, “direi”, “amarei”, “correrei”, “dormirei”, etc. Já a forma analítica é composta pelo presente do indicativo do verbo “ir” seguido do infinitivo do verbo principal: “vou fazer”, “vou dizer”, etc.

A diferença de uso entre essas duas formas verbais diz respeito, em tese, ao grau de certeza da ação a ser praticada: enquanto “Um dia terei bastante dinheiro e então viajarei pelo mundo” expressa uma ação futura relativamente distante no tempo e não totalmente certa, “Vou enviar este documento agora mesmo” ou “Amanhã vou chegar um pouco mais tarde” são ações bem próximas no tempo (“agora mesmo”, “amanhã”) e sobre as quais tenho uma forte certeza. É o mesmo raciocínio que disciplina, por exemplo, a distinção de uso entre os dois futuros do inglês, o futuro com will (Someday I will do this, “Um dia farei isso”) e o futuro com going to (I am going to answer your message soon, “Vou responder à sua mensagem em breve”).

É bem verdade que o português brasileiro falado praticamente abandonou o futuro sintético e o substituiu em praticamente todos os casos pelo analítico (“Um dia vou ter muito dinheiro e aí vou viajar pelo mundo”), mas, no registro culto, ainda se deve fazer a distinção entre um futuro próximo e certo e um futuro distante e provável/possível.

Nos exemplos que você dá, “eu irei” é o futuro sintético, e “eu vou ir” é o analítico. Ocorre que alguns gramáticos hostilizam a construção “eu vou ir” por achá-la redundante, já que há repetição do verbo “ir”, e por isso preferem simplesmente “eu vou”. Todavia, outros tantos gramáticos não veem problema algum na construção “eu vou ir”, já que “vou” é verbo auxiliar (indicativo de tempo futuro) e está no presente, ao passo que “ir” é o verbo principal (indicativo da ação) e está no infinitivo. Ou seja, em cada uma das ocorrências, o verbo “ir” tem uma função diferente, e elas estão bem demarcadas.

O português brasileiro também acabou consagrando uma terceira forma de futuro, usada às vezes no discurso formal como equivalente ao futuro sintético, mas que deve ser evitada tanto quanto possível. Trata-se de “irei fazer”, “irei dizer”, etc., que, no caso do seu exemplo, daria o horrível “eu irei ir”. Essa construção, com o auxiliar “ir” no futuro, é mais prolixa que simplesmente “eu farei, direi”, etc., e nada acrescenta em termos de nuance semântica. Trata-se de um mero preciosismo que algumas pessoas empregam supondo estar-se expressando bem. Ledo engano!

Por que “DKW” se pronuncia “dê-ká-vê” e “BMW” se pronuncia “bê-eme-dábliu”?

Dr. Aldo, poderia me explicar por que razão falamos “dê-ká-vê” para DKW mas “bê-eme-dábliu” para BMW, se ambas as palavras, mesmo significando coisas diversas, terminam com a mesma letra W? Grato, e parabéns pelos artigos em Língua Portuguesa.

Antonio Adroaldo de Andrade

 

A resposta a essa pergunta é simples. Quem é um pouco mais velho deve se lembrar que, até algumas décadas atrás, não só o DKW era chamado de “dê-ká-vê” como também o BMW era chamado de “bê-eme-vê”. Havia até uma piada em que o pobre dizia possuir uma “bê-eme-vê”, isto é, uma Brasília Muito Velha rs. Mas por que essas siglas se pronunciavam assim? É que é dessa maneira que os alemães pronunciam (em alemão, a consoante W se chama “vê” e a consoante V se chama “fau”), e os brasileiros costumavam nomear esses carros à moda alemã.

O que aconteceu foi que o DKW deixou de ser fabricado ainda na década de 1960 e o BMW, que era importado, tornou-se raro pela mesma época (talvez resultado da implantação da indústria automobilística no Brasil). Somente nos anos ’90, com a abertura do mercado automobilístico brasileiro às importações promovida pelo governo Collor, voltamos a ter a marca BMW no Brasil. Só que o público desse produto, na maioria jovens que não viveram nos anos ’60, não tinha mais conexão com o hábito de pronunciar “bê-eme-vê”, como faziam os mais velhos. E por isso começou a pronunciar “bê-eme-dábliu”, à moda brasileira.

Hoje, mesmo as pessoas mais velhas acabaram aderindo a esta última pronúncia por pressão do uso, de modo que a pronúncia “bê-eme-vê” está praticamente extinta. No entanto, o bom e velho DKW continua sendo chamado de “dê-ká-vê” por tradição, já que a pronúncia “dê-ká-dábliu” nunca existiu (ou, se existiu um dia, nunca pegou).

Em resumo, essa incoerência de pronúncias é o resultado de uma lacuna linguística entre gerações.