A posição do sujeito e sua concordância com o verbo — respondendo a uma leitora

Minha leitora Patricia B. Limongi me fez uma pergunta interessante sobre uma dúvida que também pode ser, creio, de muitos outros leitores. Ela pergunta:

Em seu artigo Ainda sobre o português e o “brasileiro”, de 24 de março, o senhor critica os linguistas que defendem a abonação de construções como “aconteceu dois acidentes”.

De acordo com a gramática tradicional, que delimita nitidamente o grupo restrito dos verbos impessoais e classifica como pessoais todos os outros, nesse exemplo faltou a concordância verbal com o sujeito posposto. Mas, de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal, o que leva à tentativa de compreender a causa do fenômeno sintático e propor novas descrições para ele.

No livro Não é errado falar assim!, capítulo “Concordância com sujeito posposto”, Marcos Bagno diz que a ordem SVO está “tão enraizada no nosso processamento mental da língua que nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”. Ele cita a hipótese de Mattoso, segundo a qual, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal. E conclui:

O mais democrático a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância. Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal.

Acho essa explicação muito lúcida e convincente. A minha dúvida é esta: existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?

Em resposta a ela, esclareço que, em primeiro lugar, existe uma diferença entre a linguística descritiva e a gramática normativa. A primeira descreve e explica como as pessoas falam e/ou escrevem nas mais diversas situações de comunicação. A segunda prescreve como as pessoas devem escrever textos formais (acadêmicos, técnicos, científicos, jurídicos, jornalísticos, literários, etc.) consoante o próprio modelo de referência já empregado nesses textos. A gramática estabelece uma norma, um modelo exemplar de uso da língua nas situações mais formais, como são os textos profissionais. E, para isso, ela toma como padrão o uso feito pelos melhores prosadores do idioma, pessoas de comprovada alta cultura linguística — e, evidentemente, cultura geral — e não apenas portadoras de diploma de nível superior (muitas das quais hoje em dia analfabetas funcionais). Se queremos estabelecer um padrão exemplar de bom uso da língua, devemos buscar os melhores exemplos (literários e não literários) de uso e não nos pautar pela mediocridade de textos jornalísticos de internet escritos por estagiários (isto é, estudantes ainda não formados de faculdades de jornalismo de qualidade duvidosa) ou de textos técnicos (relatórios, petições, contratos, trabalhos escolares — incluindo teses acadêmicas) redigidos por profissionais de letramento deficiente, que não são raros entre nossos advogados, engenheiros, médicos e pós-graduandos em geral.

Portanto, os exemplos supostamente encontrados pelos linguistas descritivistas de construções desviantes da norma-padrão, mesmo que produzidos por redatores de nível superior, não podem justificar a mudança dessa norma — ainda mais para acolher usos que são fruto de má escolarização.

Aliás, normatizar o padrão culto da língua é tarefa dos gramáticos e não de linguistas. Ao tentar legislar sobre a norma-padrão, certos linguistas invadem uma atribuição profissional que não é sua. E o fato é que, por mais que esbravejem contra a gramática normativa, os gramáticos vão continuar a exercer seu ofício sem lhes dar ouvidos, e as pessoas de bom senso vão continuar a seguir as recomendações da gramática ao redigir seus textos. O mal que esses linguistas causam é que eles doutrinam seus alunos, futuros professores de português, a não ensinar gramática, e assim a educação no Brasil, que já é péssima, fica ainda pior.

A questão é justamente a confusão que linguistas como Marcos Bagno fazem entre descrição e normatividade. Confundem registro coloquial com registro culto, modalidade falada com modalidade escrita, gêneros textuais menos formais com gêneros textuais mais formais e colocam tudo num mesmo balaio. Pior: usam critérios da linguística descritiva para orientar a elaboração da gramática normativa, duas atividades que têm lógicas e propósitos totalmente diferentes. O papel da gramática normativa é descrever e, em consequência disso, normatizar os usos linguísticos das pessoas verdadeiramente cultas da sociedade, a partir da modalidade escrita desses indivíduos em gêneros textuais de maior grau de cultivo, esmero, cuidado da língua, ou, se se desejar, de formalidade, visando a uma norma supradialetal — a norma-padrão. Isso não tem nada a ver com o modo como as pessoas de média ou baixa cultura linguística falam ou escrevem no seu dia a dia em situações de pouca ou nenhuma formalidade ou mesmo em situações em que deveriam ser formais, mas não têm plena proficiência para isso.

Outro ponto que preciso destacar é quando Patricia afirma que “de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”. A questão é que esses linguistas jamais provam o que afirmam. E ciência se faz com provas, fatos concretos, evidências que possam ser constatadas e não com opiniões, impressões pessoais ou achismos. Eu mesmo leio frequentemente textos formais dos mais diversos tipos (livros, artigos científicos, dissertações, teses, colunas em jornais e revistas, etc.) e, contrariamente ao que afirmam Bagno e seus colegas, nunca encontro construções como “aconteceu dois acidentes”. Mas, para não contrapor a minha visão pessoal à deles, cito o meu colega Prof. Fernando Pestana, que em sua dissertação de mestrado desmascarou as mentiras (sim, mentiras!) propaladas por Bagno, Faraco, Possenti, Perini, Ataliba e outros, fazendo um extenso, exaustivo e minucioso levantamento dos usos encontrados em textos cultos. Sobre a não concordância do verbo com sujeito posposto, ele apresenta os números que estão na seguinte tabela, na qual DNP significa “dentro da norma-padrão” e FNP, “fora da norma-padrão”:

Vejam os números e concluam por vocês mesmos. São números como esses que os linguistas citados por ela jamais apresentam, provavelmente porque contradizem suas teses.

O fato é que a definição de sujeito apresentada pelas gramáticas normativas dá conta perfeitamente da realidade dos usos que compõem a norma que elas delineiam.

Se, portanto, é um fato comprovado e comprovável que os usuários realmente cultos 99% das vezes pluralizam o verbo cujo sujeito simples plural venha posposto, o papel da gramática normativa é registrar essa regularidade, esse padrão, delimitando assim tal concordância verbal.

Quando Bagno afirma que “essa forma [Aconteceu dois acidentes] é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”, está apenas reiterando a arbitrariedade mentirosa registrada em sua própria gramática.

Quanto à definição de sujeito, é preciso esclarecer que o que define um elemento sintático como sujeito ou como objeto direto não é sua posição na oração (antes ou depois do verbo) e sim sua função sintáxico-semântica, também chamada de papel temático. Tanto que, em latim, a ordem das palavras na oração é totalmente livre, mas sujeito e objeto jamais se confundem, e o verbo sempre concorda com o sujeito.

Segundo Bernard Pottier, criador da sintaxe-semântica, o sujeito exerce funções, chamadas por ele de casos, que são o nominativo, o ergativo, etc., ao passo que o objeto exerce os casos acusativo, dativo, benefactivo, e assim por diante.

Na teoria dos papéis temáticos, as funções semânticas (ou “papéis”) são: agente, fonte, experienciador, locativo, alvo e tema. O sujeito é sempre agente, fonte ou experienciador; o objeto é sempre alvo ou tema. Portanto, em “aconteceu dois acidentes”, dois acidentes está no caso ergativo e não no acusativo, logo não pode ser objeto de um suposto verbo impessoal transitivo direto acontecer. Segundo a teoria dos papéis temáticos, dois acidentes é fonte e não alvo, portanto novamente só pode ser sujeito e não objeto direto.

Quando Bagno afirma “nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”, eu pergunto: nós quem, cara pálida? Uma coisa é a análise subjetiva e ingênua (no sentido de “não técnica, não especializada”) que um falante comum, de baixa ou média escolaridade, faz da língua; outra é a análise técnica e abalizada que um estudioso faz com base em modelos científicos testados e comprovados.

Quando Mattoso Câmara, um linguista mil vezes maior do que Bagno, afirma que, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal, ele está se referindo à análise subjetiva e ingênua do falante comum de baixa ou média escolaridade e não à estrutura sintática real da língua, só acessível mediante estudo por pessoas de alto letramento e pesquisadores qualificados, como o próprio Mattoso. Aliás, ele próprio contrapõe em sua obra a visão ingênua e subjetiva do falante comum à estrutura real da língua, objeto de estudo da linguística. E em nenhum momento ele afirma que esta deva ser substituída por aquela, especialmente na elaboração de gramáticas normativas. A linguística descritiva explica como o falante comum interpreta os fatos de língua, o que não significa que essa interpretação seja sempre correta.

Por fim, gostaria de chamar a atenção para as palavras de Bagno: “O mais democrático (grifo meu) a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância”. Agora temos Bagno fazendo o que ele sempre faz: introduzindo juízos de valor de natureza político-ideológica em um discurso científico, que, como tal, deveria primar pela impessoalidade, imparcialidade, objetividade e isenção, atendo-se estritamente aos fatos observáveis e eximindo-se de qualquer opinião. Ciência se faz com juízos de verdade e não com juízos de valor. Não existe ciência democrática, inclusiva, identitária, antirracista, liberal, conservadora, esquerdista, direitista…, existe apenas ciência. Seu papel é descrever e tentar explicar fatos concretos, objetivos e efetivamente observados à luz da razão, do raciocínio lógico e de modelos teóricos já testados e comprovados. O pesquisador pode ter suas convicções políticas e pode inclusive externá-las em artigos jornalísticos, em entrevistas à imprensa, em palestras, mas não em trabalhos científicos; aí, ele deve exclusivamente expor os fatos e apresentar conclusões que decorram estritamente desses fatos e não de seus desejos pessoais, por mais nobres que sejam. Defender uma posição política num trabalho científico é absolutamente inadmissível e depõe contra a própria credibilidade desse trabalho!

Quando um autor como Bagno publica um livro chamado Não é errado falar assim!, ele induz o leitor incauto a pensar que certas construções são aceitáveis em situações formais quando não o são e assim leva esse leitor a ter prejuízos pessoais, como ser reprovado em um processo seletivo. O que ele faz é um desserviço à sociedade!

Acrescento ainda que o que Bagno propõe é uma complicação ainda maior da norma-padrão. Hoje o verbo concorda com o sujeito em 100% dos casos; na proposta dele, passaríamos a ter casos em que há concordância e casos em que não. Por que criar exceções a uma regra e tornar ainda mais complexo o que já não é simples?

Bagno ainda afirma: “Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal”. Ora, como um mesmo elemento pode exercer duas funções sintáticas tão distintas quanto sujeito e objeto direto? Que tipo de análise sintática é essa? Bagno fala tanto em ciência e, no entanto, sua análise “científica” pode ser qualquer uma, ao gosto do freguês?

Em resumo, o papel da gramática normativa é registrar o que efetivamente se usa na norma culta do idioma e recomendar que se obedeça a esse padrão ao se escreverem textos formais. A gramática normativa não é nem pode ser democrática e muito menos demagógica, como propõe Bagno. Sua proposta é simplesmente populista e anticientífica. O fato de existir no sistema da língua e na norma coloquial/popular/vulgar uma estrutura A e uma estrutura B, facilmente comprovadas (seja na fala, seja na escrita de qualquer brasileiro), não implica a automática existência de ambas na norma culta, pois só uma delas efetivamente existe nessa norma, a saber: “aconteceram dois acidentes”. É isso que Bagno e todos os seus seguidores não entendem (ou fingem não entender), apesar de quererem muito acreditar que “aconteceu dois acidentes” já faz parte da norma culta escrita do português brasileiro, o que é nada menos do que uma insustentável mentira.

Assim, à pergunta de Patricia “existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?”, o que posso responder é que toda a tradição gramatical, com sua definição clássica de sujeito, e também toda a teoria sintática desenvolvida pela linguística estruturalista e pós-estruturalista (gerativista, cognitivista, etc.) invalidam essa análise, que, como disse, é descritiva e não normativa e parte da interpretação do falante ingênuo sobre um fato de língua e não sobre o fato de língua em si.

Espero que esta minha resposta tenha sido esclarecedora a Patricia e a todos os meus leitores.

Palavras que morrem sem deixar herdeiros

Boa tarde, Aldo. Estou lendo uma novela policial de Henning Mankell (A quinta mulher, Companhia das Letras, edição de 2002, tradução de Luciano Vieira Machado, formato epub). O que me chamou a atenção foi o uso de certos verbos que já foram muito comuns em traduções antigas, mas que caíram em desuso já há algumas décadas, tais como: redarguiu, retorquiu, anuiu. Você poderia dar sua visão sobre isso?
Marcus Frederico Ferreira Lopes

Caro Marcus, na minha visão (que não é só minha), está havendo um progressivo empobrecimento vocabular da população devido à decadência da educação, fruto do descaso do poder público e de uma campanha de certos grupos políticos que tentam (e, por sinal, estão conseguindo) deslegitimar o conhecimento do vernáculo, da norma-padrão, da gramática, tidos por eles como elitistas e opressores — como se a ignorância fosse libertadora! Com isso, verbos como os que você citou, que eram muito comuns em textos literários e mesmo jornalísticos do passado, vêm sendo proscritos, e quase ninguém mais os usa ou mesmo sabe o que significam.

Na verdade, muitas palavras têm caído em desuso, e não porque novas palavras de significado equivalente ou até mais preciso estejam nascendo para substituí-las, mas simplesmente porque as pessoas, sobretudo os mais jovens, não tendo mais contato íntimo com a leitura, especialmente de boas obras, sequer chegam a conhecer tais vocábulos. A partir disso ocorrem duas coisas: ou o falante busca um termo mais corriqueiro para expressar aquela ideia (por vezes até uma gíria), termo este que quase nunca exprime tão bem o conceito em questão quanto a palavra que se perdeu, ou o falante sequer concebe a ideia que aquela palavra expressava. Em outras palavras, pobreza de linguagem é pobreza de pensamento. Que se reflete em pobreza material e espiritual. Como disse Esaias Tegnér Jr., “o que é confusamente dito é confusamente pensado”.

Li recentemente uma pesquisa que procurava compreender por que no Brasil a taxa de alfabetização das crianças em idade escolar é tão baixa, mesmo comparada a outros países em desenvolvimento — ou, como se costuma dizer hoje em dia, do Sul Global. Pois o resultado foi que, além da má qualidade da nossa educação, as crianças das camadas mais baixas da população não veem sentido na escrita: há um abismo entre o mundo letrado e a realidade em que vivem. De fato, crianças filhas de pais com pouca ou nenhuma instrução, que pouco falam com elas e, quando o fazem, é somente sobre assuntos de pouca relevância e complexidade, que não leem para elas (nem para si próprios, diga-se) e, com isso, não cultivam nelas o hábito de ler, percebem a leitura e a escrita como algo inútil e enfadonho, que nada tem a ver com seu dia a dia e sua perspectiva de futuro, se é que têm alguma.

E, como disse acima, há grupos de intelectuais e acadêmicos que procuram legitimar essa situação porque é mais fácil e cômodo dar o pão do que ensinar a pescar e porque precisam da massa de manobra que essas pessoas vulneráveis representam para sustentar seu projeto político.

Infelizmente, é assim que eu vejo.

Assuntando o verbo “assuntar”

Qual a regência verbal correta do verbo assuntar? Em alguma situação, esse verbo reclamaria a preposição “para”?
Douglas Ferreira de Oliveira

Caro Douglas, vamos assuntar no dicionário os significados do verbo assuntar. Sim, pois um desses significados é justamente “verificar”. Senão vejamos.

O dicionário Michaelis dá as seguintes regências de assuntar:

  1. como verbo transitivo direto: prestar atenção a (assuntar um sermão, por exemplo); apurar, verificar (o que foi que você assuntou?);
  2. como verbo transitivo indireto regendo a preposição em: considerar, meditar (assuntou bem no que vai fazer?);
  3. como verbo intransitivo: tomar conta de, vigiar (fique por aí assuntando, a fim de que as crianças se comportem bem).

Já o Houaiss apresenta a acepção “prestar atenção” como transitiva direta ou intransitiva, em nenhum dos casos, portanto, requerendo preposição. A acepção “verificar com detalhes, apurar” é transitiva direta, ao passo que a acepção “pensar longamente, refletir” é transitiva indireta (neste caso regendo a preposição em) e intransitiva.

Portanto, meu caro Douglas, em nenhum dos casos assuntar pede a preposição para. No entanto, note que, no exemplo dado na 3ª acepção do Michaelis, a locução conjuntiva a fim de que poderia ser substituída por para que: “fique por aí assuntando para que as crianças se comportem bem”. Observe que para não é preposição regida pelo verbo assuntar, é parte da locução conjuntiva para que, que introduz uma oração subordinada final. Se esta for substituída pela sua versão reduzida de infinitivo, teremos: “fique por aí assuntando para as crianças se comportarem bem”. Agora temos assuntando para; mesmo assim, a preposição continua a não ter relação com o verbo assuntar, pertencendo à oração reduzida.

Em resumo, o verbo assuntar pode ser intransitivo, transitivo direto ou transitivo indireto, mas, neste último caso, rege sempre a preposição em, nunca a preposição para.

Corrigir o aluno é preconceito?

“O que o senhor pensa sobre a posição de muitos linguistas que criticam o ensino de gramática normativa nas escolas? Segundo essa visão, corrigir o aluno é considerado preconceito linguístico. Tenho consciência da variação linguística, mas isso vale para tudo? Por exemplo, se alguém não pronuncia uma palavra da forma como ela é, isso é variação? Qual o limite entre o preconceito linguístico e o ensino da gramática normativa (GN)? Como podemos diferenciar variação de uso incorreto? Que obras/materiais/vídeos o senhor indica que tratam dessas questões? Creio que essas são dúvidas de muitos professores de Língua Portuguesa pelo Brasil.”

A pergunta do leitor, que infelizmente não se identificou, é muito oportuna, e espero que a reflexão que faço a seguir seja proveitosa aos professores de português em geral.

A finalidade de ensinar língua portuguesa na escola é, num primeiro momento, ensinar a ler e escrever, isto é, alfabetizar o aluno. Num segundo momento, ensiná-lo a interpretar textos, ou seja, ler e compreender o que está lendo, bem como ensiná-lo a redigir com coesão, coerência, riqueza vocabular e de acordo com as regras da norma-padrão, que estão codificadas nas gramáticas normativas. Todas essas habilidades lhe serão cobradas em sua vida como cidadão e como profissional.

Uma decorrência desse aprendizado é que ele também saberá falar segundo a norma-padrão quando isso for necessário e tenderá a falar de modo mais próximo desse padrão mesmo em situações informais. Ou seja, a função do ensino de LP é preparar o aluno para ser um cidadão pleno e um profissional qualificado, não um mero trabalhador braçal ou um excluído social.

De fato, a variação linguística existe e deve ser respeitada, mas ensinar o padrão não é exercer preconceito linguístico. Se um professor de educação física corrige a postura de um aluno durante um exercício, ele está cumprindo seu papel de educador e não sendo preconceituoso. Portanto, a função da escola é corrigir o uso inadequado da língua. E inadequado é usar a norma que se trouxe de casa em situações que exigem linguagem formal, como uma reunião de trabalho, a redação de um documento, etc.

Se o papel do professor de LP fosse deixar o aluno se expressar em todas as situações como ele já o faz, essa disciplina não seria de modo algum necessária, pois todos já chegam à escola sabendo falar.

O que ocorre é que hoje a escola pública recebe um grande contingente de alunos provindos das classes mais baixas da sociedade, nascidos em famílias cujos pais são ignorantes e nas quais não há incentivo ao estudo, à leitura, e, sobretudo nas chamadas “comunidades” (leia-se “favelas”), há um preconceito em sentido contrário, isto é, quem tem mais estudo e se expressa melhor é que é discriminado.

A postura de certos linguistas de querer abolir o ensino da gramática normativa e de não corrigir a fala e a escrita do aluno atende a uma finalidade ideológica e a uma finalidade prática. A ideológica é a implementação de uma agenda “de esquerda” — na verdade, esquerda burra, pois esquerdistas inteligentes dão valor ao conhecimento e têm, eles próprios, grande proficiência na norma-padrão — que considera que inclusão social é normalizar o anormal e não transformar para melhor a realidade social dos menos favorecidos. A finalidade prática dessa postura é não criar conflitos com alunos que, por sua origem familiar e social, são potencialmente violentos. Ou seja, “deixe os alunos falarem como quiserem e fazerem o que bem entenderem; meu salário de professor está garantido do mesmo jeito”.

Observe que a questão do ensino ou não da gramática normativa afeta basicamente a escola pública, pois nas escolas particulares, em que a maioria dos alunos provém da classe média ou alta, esse debate praticamente não se coloca. A menos, é claro, que algum professor militante de esquerda lecione nessas escolas. E quando digo “militante”, não me refiro à escolha ideológica que o docente, como qualquer cidadão, tem o direito de fazer em sua vida privada; refiro-me ao extremismo ideológico que invade o fazer pedagógico e o deturpa, sobrepondo convicções pessoais aos fatos científicos.

O cumprimento de uma agenda político-partidária por boa parte dos professores dos cursos de Letras traz um viés nocivo ao fazer científico. Imagine um biólogo adepto do criacionismo bíblico confrontado com evidências da evolução das espécies em suas pesquisas. Ele tem dois caminhos a seguir: ou aceita as evidências concretas da evolução e renega sua crença no criacionismo ou nega as evidências em favor de seu dogma religioso. Em nome do cumprimento de sua agenda ideológica, o docente universitário dessa que chamo de “esquerda burra” — e há muitíssimos deles nas áreas de Humanas, especialmente das universidades públicas — recusa os fatos que, como cientista, deveria prezar e sobre os quais deveria apoiar suas pesquisas e reflexões.

O uso incorreto (segundo a gramática normativa, bem entendido) da língua é, sim, uma forma de variação, que em certos casos chega a se constituir como um dialeto (“nós fumo”, “nós vai”, “a gente cheguemo”, “pobrema” podem ser perfeitamente considerados como um dialeto do português — veja a esse respeito a obra de Amadeu Amaral).

Por que pronunciamos “adivogado”, “rítimo” e “pineu”?

O gramático Evanildo Bechara diz que os encontros consonantais devem ser sempre pronunciados sem epêntese (acréscimo de uma vogal), mas ela é tão natural que é difícil não fazê-la: /adivôgádu/, /áfita/, /rítimu/, /pissicôlogia/, /pineu/, etc. Então:
1. A epêntese, em casos como esses, é adequada ou permitida na linguagem formal?
2. Por que a epêntese é mais comum no Brasil que em Portugal?
David Gamer

Caro David,

Para responder às suas perguntas, vou fazer um pequeno retrocesso histórico. Até aproximadamente o século XVII ou XVIII, o português lusitano pronunciava claramente todas as vogais. Assim, a pronúncia de captar era perfeitamente distinta da de apetite, isto é, pronunciava-se distintamente pt e pet. Sobretudo a partir do século XIX, os portugueses passaram a “comer” as vogais átonas, principalmente o e. Com isso, apetite passou a pronunciar-se aptit, Ferreira passou a Frraira, pessoa a psoa e socialista já soa cialista na fala de Lisboa.

Com esse apagamento das vogais átonas no meio (síncope) e no fim das palavras (apócope), passou-se a fazer confusão entre encontros consonantais legítimos, ou seja, aqueles que têm justificativa etimológica e são grafados como tais, e os falsos encontros, aqueles que surgem pela simples omissão da vogal intermediária. Consequentemente, hoje muitos portugueses pronunciam mar como mare e marcar como marecar (esse e lusitano soa como [ɨ]). Em compensação, pronunciam telefone como tlfón.

Essa confusão entre encontros consonantais legítimos e ilegítimos chegou ao Brasil, só que nós não temos a tendência de engolir as vogais; por isso, em vez de sincopá-las, passamos a inserir vogais no meio (epêntese) e no fim das palavras (paragoge), inclusive em palavras estrangeiras: club > clube, team > time, stress > estresse, Tibet > Tibete.

Outro fator que estimulou a epêntese e a paragoge são os substratos linguísticos indígena e africano presentes no Brasil, pois muitas dessas línguas não admitem encontros consonantais, o que forçava os falantes a introduzir uma vogal de apoio entre as consoantes.

Quanto a evitar a epêntese na fala formal, há pessoas que fazem isso e pronunciam advogado e objeção em vez de adivogado e obijeção, mas isso soa bastante afetado e pedante. A norma-padrão, objeto dos estudos de Bechara, se aplica à modalidade escrita e sobretudo à gramática, não à fonética. Senão, poderíamos também postular que o r caipira ou o sotaque nordestino devem ser evitados na fala formal, o que seria absurdo.

Por falar em sotaque nordestino, alguns falantes do Nordeste realizam a epêntese em palavras em que os brasileiros do centro-sul não o fazem. Por exemplo, enquanto um paulista ou mineiro pronunciam psicologia, muitos nordestinos pronunciam pissicòlugia.

Pouco muito?

Uma curiosidade sobre os advérbios de intensidade “muito” e “pouco”. É muito comum utilizarmos a expressão “muito pouco” para nos referirmos a algo cuja quantidade ou intensidade é menor do que a utilização isolada do termo “pouco” expressaria. E faz sentido. O interessante é que, caso utilizássemos da maneira contrária, ou seja, “pouco muito”, denotando quantidade ou intensidade leve ou moderadamente aumentadas, ficaria bizarro e isso nunca aparece na linguagem diária ou em textos. Como explicar esse tratamento tão diverso para situações teoricamente semelhantes? Obrigado.
Luiz Otavio Andrade

Luiz, sua pergunta é muito interessante. O que ocorre é que em português a palavra muito exerce duas funções: pronome indefinido adjetivo e advérbio elativo. Em várias outras línguas há termos distintos para cada uma dessas funções. Por exemplo, em inglês o pronome é much, mas o elativo é very. Observe: “He has much money” (Ele tem muito dinheiro), mas “He is very rich” (Ele é muito rico). O mesmo se dá em francês (beaucoup x très), alemão (viel x sehr) e espanhol (mucho x muy), dentre outras. O pronome adjetivo qualifica ou quantifica o substantivo, enquanto o advérbio elativo intensifica o pronome ou adjetivo.

Quando digo, por exemplo, “muito pouco dinheiro”, muito é elativo do pronome adjetivo pouco, que por sua vez é adjunto adnominal de dinheiro. Só que pouco não pode atuar como elativo — não dizemos, por exemplo, “Ele é pouco rico” —; por isso, a combinação pouco muito não é possível em português. Além disso, pouco muito tem o mesmo significado de pouco: “ele tem pouco dinheiro”, razão pela qual pouco muito é uma expressão desnecessária.

A nação que roda sem sair do lugar

Caro Aldo, recentemente, o jornalista David Ribeiro disse em seu blog que “o Brasil não consegue sair de seu estado de colônia nem mesmo etimologicamente, pois, ao longo da história, tem sempre rodado sem sair do lugar”. O que ele quis dizer com isso? Por que o Brasil não sai do estado de colônia nem mesmo etimologicamente? Enfim, o que a etimologia tem a ver com isso?
Obrigado.
Emerson Felipe Lascuola

O colunista citado por Emerson utilizou uma fina imagem para representar a estagnação histórica do nosso país que, no entanto, exige para ser plenamente compreendida um conhecimento mais aprofundado de etimologia. É que a palavra colônia, assim como “colono” e “cultura”, provém do verbo latino colere, “cultivar, cuidar, tratar, preparar, habitar (especialmente a terra)”. Ou seja, colônia é a terra entregue ao colono para ser cultivada. E o colono é aquele que cultiva, isto é, o lavrador. Nos tempos coloniais, as terras brasileiras eram entregues pela coroa portuguesa a nobres que nela vinham morar e instalar plantações. O sentido básico de “cultivar” do verbo colere se estendeu a toda uma família de palavras designativas de cultivo, inclusive em sentido metafórico: agricultura (cultivo do campo — em latim, ager), piscicultura (criação de peixes), cultura (de soja, de bactérias, do intelecto), etc.

Mas qual a relação etimológica, levantada pelo blogueiro, entre a palavra colônia e nosso eterno rodar sem sair do lugar, que nos impede de ser uma grande nação, embora tenhamos tudo para isso? É que colere, descendente da raiz indo-europeia *kwel, significava originalmente “rodar, revolver”. Portanto, ao rodar sem sair do lugar, o Brasil está fazendo o mesmo movimento que o colono faz ao revolver a terra para cultivá-la.

Essa raiz indo-europeia também deu o grego kyklos, “roda, círculo”, que passou via latim ao português ciclo; boukolos, “criador de bois”, que nos deu bucólico; e polos (do indo-europeu *kwolos), “eixo” (em torno do qual a roda gira, donde, por metáfora, temos os polos da Terra). De *kwel também vieram o sânscrito chacra (cada um dos círculos energéticos do nosso corpo), o inglês wheel, “roda”, e o latim collum, “pescoço”, do qual derivaram colo, colete, colar e colarinho.

E por falar em coluna, esta palavra, embora pareça também pertencer à família de colere, tem outra origem: o verbo latino *cellere, “elevar-se”, de que também procedem excelso, excelência e colina.

Uma pergunta sobre o prefixo “mis-”

Bom dia,

Fiquei curioso com o prefixo mis- em palavras como misógino, misantropo etc. É um prefixo grego? E em palavras do Inglês como misconceptions, misguided e o verbo miss (dar falta), onde também parece dar a idéia de mal ou coisa errada, é da mesma raiz? Imagino que o pronome de tratamento miss, senhorita, já seja de outra raiz, correto?
Um abraço,
Cleverson

Cleverson, o prefixo mis‑ (na verdade, um prefixoide, ou elemento de composição) de misantropo e misógino vem do grego mîsos, que quer dizer “ódio”, portanto temos “ódio à humanidade”, “ódio às mulheres”, etc.

Já o prefixo inglês mis‑ de misguided, misconception, etc., é o resultado do cruzamento de dois prefixos semelhantes, mas de origem diferente: o inglês antigo mis‑, da mesma origem do verbo to miss (antigo inglês missan, “errar, falhar”), e o antigo francês mes‑“(francês atual mé‑), do latim minus, “menos”, que aparece no português menosprezar (francês mépriser).

Finalmente, o pronome de tratamento Miss, “senhorita”, é uma redução de mistress, do francês antigo maistresse (francês atual maîtresse), “senhora, mestra”, que no inglês atual deu Missis, “senhora”.

Mentiras e inverdades

Boa tarde, Prof. Vejo os políticos se acusarem uns aos outros de estarem dizendo inverdades quando de fato estão é falando mentiras. Afinal qual a diferença entre uma mentira e uma inverdade? Obrigado,
Paulo César Lourenço

Caro Paulo, tanto a mentira quanto a inverdade correspondem a informações falsas, que não procedem, o que poderia nos levar a crer que são palavras sinônimas, mas não é bem assim.

Uma inverdade é apenas uma afirmação que não corresponde à realidade, o que pode ser fruto de equívoco ou ignorância. Já uma mentira tem sempre uma carga de intencionalidade, o desejo deliberado de enganar. Portanto, quem diz uma inverdade pode de fato acreditar no que está dizendo, ao passo que quem mente sempre sabe que está mentindo.

É claro que nem sempre dizemos uma mentira movidos de má-fé: às vezes mentimos até por compaixão, como, por exemplo, ao dizermos que está tudo bem quando não está apenas para não preocupar desnecessariamente nossos entes queridos.

Mas, no caso dos políticos, que se acusam mutuamente, alegar que o adversário está dizendo uma inverdade é apenas um eufemismo para acusá-lo de mentir. É que uma acusação direta requer provas, caso contrário configura calúnia. Mas todos sabemos que os políticos mentem descaradamente, e quem acusa o oponente de mentir com certeza também mente.

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De onde vem o sufixo “‑alha”?

Olá, Professor! Gostaria de saber de onde vem o sufixo de palavras como “gentalha”, “parentalha” etc. Muito obrigado.
Wilberley Araújo Gomes

O português tem muitas palavras terminadas em -alha, como as citadas gentalha e parentalha, e também canalha, migalha, muralha, mortalha

Também tem palavras terminadas em -ália, como genitália, parafernália e Tropicália. Ambos os sufixos provêm do latim -alia, plural neutro de -alis, sufixo que em português forma adjetivos como nacional, central, cultural, etc. A diferença é que -alha nos chegou por herança latina ou empréstimo de outra língua românica, enquanto -ália é forma culta, vinda do latim por empréstimo.

O sentido latino desse sufixo era plural e coletivo. Assim, se genitale era a redução por elipse da expressão genitale organum (“órgão genital”), o plural genitalia significava “os genitais” (novamente subentendendo “órgãos”). Igualmente, Saturnalia eram as Saturnais, festas em honra do deus Saturno (redução de Saturnalia festa, plural de Saturnale festum, “festa saturnal”). Como a festa durava vários dias, era natural que se usasse sua denominação no plural. E paraphernalia eram os pertences pessoais que a noiva levava para seu novo lar após o casamento. Muitas dessas palavras passaram ao português em sua forma erudita, introduzidas por literatos, como genitália e parafernália. Outras herdamos diretamente do latim e, nesse caso, houve evolução fonética transformando o l seguido de i na consoante palatal lh. Foi assim que o latim Parentalia, “festa anual em homenagem aos parentes mortos” (plural neutro de parentalis, derivado de parentes, “antepassados, parentes”) resultou no português parentalha, com o sentido de “reunião de parentes, conjunto de todos os parentes”. A partir daí, o sufixo -alha se tornou produtivo na formação de coletivos, especialmente depreciativos, como gentalha (reunião de gente baixa, populacho, ralé). Aliás, canalha, que nos chegou do italiano canaglia (o sufixo italiano -aglia tem a mesma origem e significados que o português -alha) também significa “ralé, populacho, escória”, portanto tem sentido coletivo, e posteriormente passou a designar também o membro dessa classe. E como a tradição costuma associar às pessoas de baixa extração social os piores defeitos, daí para “canalha” passar a significar “calhorda, patife” foi um pulinho. Da mesma forma, migalha é um diminutivo um tanto quanto depreciativo de miga, que já é por si só qualquer coisa insignificante.

Aqui um comentário: o italiano canaglia era um coletivo de cães (cane em italiano), não em seu sentido literal de matilha de cachorros e sim no de pessoas biltres. É que em italiano cane também significa “biltre, patife, calhorda”, como na expressão figlio di un cane, cujo equivalente em português acho que não preciso mencionar, né?

Portanto, nós seres humanos sempre atribuindo aos pobres animais os defeitos que são nossos e exclusivamente nossos!

O sufixo culto -ália se presta à formação de nomes designativos de reuniões de pessoas, como o movimento musical da Tropicália (reunião de músicos de um país tropical) ou a Carnavália, feira de negócios relacionados ao Carnaval (e também título de uma canção dos Tribalistas).

Mas atenção: nem toda palavra portuguesa terminada em -alha ou -ália possui esse sufixo. Palha vem do latim palea, tralha vem de tragula, fornalha de fornacula, navalha de novacula, e assim por diante.