Corrigir o aluno é preconceito?

“O que o senhor pensa sobre a posição de muitos linguistas que criticam o ensino de gramática normativa nas escolas? Segundo essa visão, corrigir o aluno é considerado preconceito linguístico. Tenho consciência da variação linguística, mas isso vale para tudo? Por exemplo, se alguém não pronuncia uma palavra da forma como ela é, isso é variação? Qual o limite entre o preconceito linguístico e o ensino da gramática normativa (GN)? Como podemos diferenciar variação de uso incorreto? Que obras/materiais/vídeos o senhor indica que tratam dessas questões? Creio que essas são dúvidas de muitos professores de Língua Portuguesa pelo Brasil.”

A pergunta do leitor, que infelizmente não se identificou, é muito oportuna, e espero que a reflexão que faço a seguir seja proveitosa aos professores de português em geral.

A finalidade de ensinar língua portuguesa na escola é, num primeiro momento, ensinar a ler e escrever, isto é, alfabetizar o aluno. Num segundo momento, ensiná-lo a interpretar textos, ou seja, ler e compreender o que está lendo, bem como ensiná-lo a redigir com coesão, coerência, riqueza vocabular e de acordo com as regras da norma-padrão, que estão codificadas nas gramáticas normativas. Todas essas habilidades lhe serão cobradas em sua vida como cidadão e como profissional.

Uma decorrência desse aprendizado é que ele também saberá falar segundo a norma-padrão quando isso for necessário e tenderá a falar de modo mais próximo desse padrão mesmo em situações informais. Ou seja, a função do ensino de LP é preparar o aluno para ser um cidadão pleno e um profissional qualificado, não um mero trabalhador braçal ou um excluído social.

De fato, a variação linguística existe e deve ser respeitada, mas ensinar o padrão não é exercer preconceito linguístico. Se um professor de educação física corrige a postura de um aluno durante um exercício, ele está cumprindo seu papel de educador e não sendo preconceituoso. Portanto, a função da escola é corrigir o uso inadequado da língua. E inadequado é usar a norma que se trouxe de casa em situações que exigem linguagem formal, como uma reunião de trabalho, a redação de um documento, etc.

Se o papel do professor de LP fosse deixar o aluno se expressar em todas as situações como ele já o faz, essa disciplina não seria de modo algum necessária, pois todos já chegam à escola sabendo falar.

O que ocorre é que hoje a escola pública recebe um grande contingente de alunos provindos das classes mais baixas da sociedade, nascidos em famílias cujos pais são ignorantes e nas quais não há incentivo ao estudo, à leitura, e, sobretudo nas chamadas “comunidades” (leia-se “favelas”), há um preconceito em sentido contrário, isto é, quem tem mais estudo e se expressa melhor é que é discriminado.

A postura de certos linguistas de querer abolir o ensino da gramática normativa e de não corrigir a fala e a escrita do aluno atende a uma finalidade ideológica e a uma finalidade prática. A ideológica é a implementação de uma agenda “de esquerda” — na verdade, esquerda burra, pois esquerdistas inteligentes dão valor ao conhecimento e têm, eles próprios, grande proficiência na norma-padrão — que considera que inclusão social é normalizar o anormal e não transformar para melhor a realidade social dos menos favorecidos. A finalidade prática dessa postura é não criar conflitos com alunos que, por sua origem familiar e social, são potencialmente violentos. Ou seja, “deixe os alunos falarem como quiserem e fazerem o que bem entenderem; meu salário de professor está garantido do mesmo jeito”.

Observe que a questão do ensino ou não da gramática normativa afeta basicamente a escola pública, pois nas escolas particulares, em que a maioria dos alunos provém da classe média ou alta, esse debate praticamente não se coloca. A menos, é claro, que algum professor militante de esquerda lecione nessas escolas. E quando digo “militante”, não me refiro à escolha ideológica que o docente, como qualquer cidadão, tem o direito de fazer em sua vida privada; refiro-me ao extremismo ideológico que invade o fazer pedagógico e o deturpa, sobrepondo convicções pessoais aos fatos científicos.

O cumprimento de uma agenda político-partidária por boa parte dos professores dos cursos de Letras traz um viés nocivo ao fazer científico. Imagine um biólogo adepto do criacionismo bíblico confrontado com evidências da evolução das espécies em suas pesquisas. Ele tem dois caminhos a seguir: ou aceita as evidências concretas da evolução e renega sua crença no criacionismo ou nega as evidências em favor de seu dogma religioso. Em nome do cumprimento de sua agenda ideológica, o docente universitário dessa que chamo de “esquerda burra” — e há muitíssimos deles nas áreas de Humanas, especialmente das universidades públicas — recusa os fatos que, como cientista, deveria prezar e sobre os quais deveria apoiar suas pesquisas e reflexões.

O uso incorreto (segundo a gramática normativa, bem entendido) da língua é, sim, uma forma de variação, que em certos casos chega a se constituir como um dialeto (“nós fumo”, “nós vai”, “a gente cheguemo”, “pobrema” podem ser perfeitamente considerados como um dialeto do português — veja a esse respeito a obra de Amadeu Amaral).

9 comentários sobre “Corrigir o aluno é preconceito?

  1. Caro Prof. Aldo, permita-me parafraser a pergunta e a resposta, como se o consulente fosse português, e o consultor, também:

    “Que pensa o senhor sobre a posição de muitos linguistas que criticam a imposição da norma europeia do português aos alunos brasileiros? Segundo essa visão, corrigir o aluno brasileiro, sobretudo aquele que fala conforme a norma-padrão da sua variedade, é considerado preconceito linguístico. Tenho consciência da variação linguística, mas vale isso para tudo? Por exemplo, se alguém não pronuncia uma palavra da forma como é, isso é sempre variação? Qual o limite entre o preconceito linguístico e o ensino da gramática normativa (GN)? Como podemos diferenciar variação de uso incorreto? Que obras/materiais/vídeos que tratam dessas questões indica o senhor? Creio que essas são dúvidas de muitos professores de Língua Portuguesa em Portugal.”

    A resposta do Aldo português é igual à do brasileiro nos primeiros parágrafos, até que o seu homólogo europeu chega ao trecho seguinte:

    “De facto, a variação linguística existe e deve ser respeitada, mas ensinar o padrão europeu do português não é exercer preconceito linguístico. Se um professor de educação física corrige a postura a um aluno durante um exercício, ele está a cumprir o seu papel de educador e não a ser preconceituoso. Portanto, a função da escola portuguesa é corrigir o uso da língua que seja inadequado em Portugal. E inadequado em Portugal é usar a norma que se trouxe de casa, em situações que exigem linguagem formal à luz da norma-padrão europeia, como uma reunião de trabalho ou a redação de um documento em Portugal.

    Se o papel do professor de LP fosse deixar o aluno brasileiro se expressar em todas as situações como ele já o faz, ainda que o faça como se ensinava na escola brasileira, essa disciplina não seria de modo algum necessária a esse aluno.

    O que ocorre é que hoje a escola pública recebe um grande contingente de alunos provindos de todas as classes da sociedade brasileira, e mesmo os nascidos em famílias de melhor situação têm, geralmente, pais ignorantes, que pouco leem. Não é raro encontrar, em universidades brasileiras, analfabetos funcionais. Há um preconceito em sentido contrário, isto é, quem tem mais estudo e se expressa melhor é que é discriminado.

    A postura de certos linguistas de querer abolir o ensino da norma-padrão europeia aos imigrantes da Lusofonia e de não lhes corrigir a fala e a escrita atende a uma finalidade ideológica e a uma finalidade prática. A ideológica é a implementação de uma agenda “da esquerda” — na verdade, da esquerda estulta, pois a inteligente dá valor ao conhecimento e têm, eles próprios, grande proficiência na norma-padrão (europeia) — que considera que inclusão social é normalizar as deficiências educacionais de países de terceiro mundo (do sul global, diriam os de esquerda), e não transformar para melhor a realidade social dos seus cidadãos que foram aqui acolhidos. A finalidade prática dessa postura é não criar conflitos com alunos que, por sua origem nacional, são tendencialmente melindrosos com admoestações dos seus antigos colonizadores. Ou seja, “deixe os alunos falarem como quiserem e fazerem o que bem entenderem; o meu salário de professor está garantido do mesmo jeito”.

    Que diferenciaria substancialmente, não aos nossos olhos brasileiros, não aos olhos de um linguista brasileiro, mas aos olhos do Aldo português, um brasileiro inculto, que emprega apenas duas flexões verbais, de um culto, que emprega três, na fala, e quatro, na escrita monitorada:

    Inculto: eu vô, tu/ele/ela/cê/a gentchi (aos ouvidos portugueses)/nóis/eles/elas/cêis vai

    Culto (fala/escrita corrente): eu vou, ele/ela/você/a gente vai, eles/elas/vocês vão

    Culto (escrita monitorada): eu vou, ele/ela/você vai, nós vamos, eles/elas/vocês vão

    Que diferenciaria, aos olhos do Aldo português, um brasileiro inculto, que escreve “cheguei tarde no trabalho”, de um brasileiro culto, que escreve “precisamos envidar esforços para melhorar a sintaxe dos nossos alunos”, ou, ainda, “combinamos de nos reunir amanhã na sala da reitoria”?

    A partir de que grau a simplificação do paradigma verbal sai do asfalto para subir o morro? De três para duas formas, na fala?

    Se fossemos loiros e tivéssemos olhos azuis como os suecos, poderíamos radicalizar a simplificação de seis formas para uma única?

    1. Caro Antônio, não compreendi bem a intenção por trás do seu comentário, se foi um estímulo à minha reflexão ou uma crítica ao meu ponto de vista. Como quer que seja, você cometeu uma lamentável confusão entre registro (formal x informal/coloquial) e variedade (lusitana, brasileira, africana, nordestina, sulista, etc.), assim como entre sistema e norma e também entre sincronia e diacronia.
      Primeiramente, tanto no Brasil quanto em Portugal há diferenças entre o registro formal, usado principalmente na escrita, sobretudo em livros, artigos, teses, contratos, relatórios e documentos em geral, e o registro informal ou coloquial, predominante na fala em momentos de descontração. Logo, os professores portugueses também ensinam seus alunos a redigir de forma diferente da que falam com os colegas, amigos ou familiares.
      Em segundo lugar, um brasileiro que viva em Portugal pode se expressar, inclusive na escrita formal, como o faria no Brasil, mas pode causar alguma estranheza aqui ou ali, de modo que será mais razoável — e é o que normalmente acontece — que ele incorpore em sua fala e/ou escrita os hábitos vocabulares e sintáticos (quem sabe até fonéticos) lusitanos, especialmente em tempos de polarização política e xenofobia exacerbadas. Mas note que as tão propaladas diferenças entre o português brasileiro e o europeu são diferenças em nível de norma e não de sistema. O sistema que é a língua portuguesa contemporânea (séculos XX e XXI) admite tanto “estou estudando” quanto “estou a estudar”, “eu te amo” ou “amo-te”, “trem” ou “comboio”, “conjectura” ou “conjetura”, e assim por diante. As diferentes escolhas que os falantes de cá e de lá fazem são muito mais estilísticas do que coerções do sistema. E quando escolhas estilísticas extravasam o nível individual (da ‘parole’) e ganham adesão grupal, tornam-se norma. Já o sistema que é a ‘langue’ permanece inalterado.
      E aí entra o terceiro ponto, a diferença entre a perspectiva sincrônica e a diacrônica. A língua, isto é, o sistema, muda com o tempo e com as condições sociais, mas esse processo leva décadas ou séculos para acontecer. Assim, as línguas escandinavas e em parte também o inglês simplificaram drasticamente sua conjugação verbal, mas isso se deu paulatinamente entre os séculos XI e XVII, com resquícios da antiga conjugação até meados do século XX. E o mais importante: isso se deu numa época em que cem por cento dos falantes do antigo nórdico eram iletrados (quando o alfabeto rúnico surgiu, apenas os místicos tinham acesso a ele), portanto não havia norma culta, norma-padrão, gramática normativa, ensino de língua, língua nacional oficial nem a Real Academia Sueca (a ‘Svenska Akademien’). Logo, essa redução de seis formas verbais para uma levou séculos e não encontrou os obstáculos naturais de uma sociedade altamente letrada, como são os países nórdicos hoje, em que o ensino de língua, por sinal excelente, também enfatiza a diferença entre o linguajar formal e o coloquial — além, é claro, do linguajar miscigenado dos imigrantes que afluem a esses países.
      Por fim, convido-o a ler o meu artigo “Gramática normativa e ensino de gramática: duas perspectivas diferentes”, que você encontrará no link https://www.facebook.com/linguaetradicao no próximo fim de semana.
      Um abraço.

      1. Caro Prof. Aldo, não entendeu a minha paráfrase, que não pressupõe que o PB e o PE constituam sistemas diferentes nem confunde registro e variedade, sistema e norma e diacronia e sincronia, como logo perceberá.

        Todos os dialetos dum mesmo sistema têm normas próprias, até mesmo os mais desprestigiados. Não há línguas sem normas, e os dialetos, considerados em si mesmos, são línguas, ainda que não lhes chamemos assim para não os confundirmos com os sistemas linguísticos, a que costumamos reservar a dignidade desse nome. Somente a partir de certo grau de diferenciação estrutural é que um grupo de dialetos se demarca dos demais e passa a constituir um novo sistema, ou uma nova língua.

        Alguns linguistas brasileiros defendem que já houve essa clivagem no sistema português e que os dialetos brasileiros já constituem um novo sistema, o brasileiro, mas o Aldo português não é adepto dessa tese heterodoxa. Ele apenas defende que se ensine aos alunos brasileiros, nas escolas portuguesas, a norma-padrão europeia, porque sabe que esta é a norma-padrão que se lhes exigirá em Portugal, fora da escola. A norma-padrão brasileira tem prestígio no Brasil, mas não em Portugal, embora a norma-padrão europeia ainda tenha algum prestígio no Brasil, nem que seja como pano de fundo de algumas polêmicas.

        Como terá percebido, eu não estava sugerindo que não houvesse diferenças de registro em Portugal, que os portugueses falassem como escrevessem ou redigissem bilhetes à namorada no mesmo registro que empregam em teses de doutorado. A minha paráfrase pressupunha que se poderia estender à mesma argumentação a um consultor português que respondesse a uma pergunta semelhante, a partir da premissa defensável de que a norma-padrão da variedade brasileira é, em Portugal, uma norma não-padrão, ou a norma do dialeto brasileiro escrito.

        Sobre a variação diacrônica da conjugação verbal no sueco, a sua simplificação drástica demorou séculos, mas como bem lembrou, ainda havia resquícios da antiga conjugação em meados do século XX. Que outro motivo explicaria a persistência desses resquícios na escrita muito depois que já não se encontravam na fala, senão a resistência normatizadora?

        Quem critica a persistência de certos resquícios na escrita brasileira de usos que já não se encontram na fala, nem sequer na monitorada, não aponta para o mesmo tipo de resistência excessiva que fez persistirem, no sueco escrito, conjugações verbais desaparecidas da fala havia séculos?

        Tome o exemplo do verbo haver: já não resistirá, no PB, da mesma forma, ligado a aparelhos de ventilação mecânica? Não tem a substituição de haver por ter raízes profundas no português? Primeiro, como verbo pleno, indicativo de posse; depois, como verbo auxiliar (em que ainda há alguma concorrência na escrita culta); e, por fim, como verbo existencial, no PB, nos PALOPs e no português popular da Madeira.

        Como sei que o pano de fundo de toda essa conversa é o tipo de polêmica que, volta e meia, há com o Marcos Bagno, aproveito o ensejo para dizer que nunca entendi nem um lado nem o outro lado dessa falsa polêmica.

        Fazendo o mesmo tipo de concessão pragmática que os brasileiros, em Portugal, quando assimilam usos linguísticos europeus, o próprio Marcos Bagno já disse algumas vezes que se deve ensinar gramática normativa aos alunos, para que dominem a norma-padrão. Se não o interpreto mal, ele apenas defende que se atualize a norma-padrão, para que espelhe a norma culta real, do mesmo modo que fizeram os suecos quando abandonaram as formas verbais de plural, embora fossem usadas na escrita culta até meados do século XX.

        O ponto mais mal interpretado da obra dele, muito por culpa do histrionismo dele próprio, nascido da sua militância política, é o do preconceito linguístico. Se não o interpreto mal, ele chama linguisticamente preconceituosa à visão de que as normas não-padrão não são apenas socialmente, mas tambem linguisticamente inferiores à norma-padrão; o tipo de visão segundo a qual os brasileiros falariam mal a própria língua materna, por ignorância.

        Toda essa falsa polêmica desapareceria se se dissesse: está bem, Bagno, é verdade que nenhum falante materno fala mal a própria língua, se quisermos dizer com isso que todos produzem enunciados considerados gramaticais por outros falantes da mesma língua, independentemente de terem estudado a norma-padrão; o que se quer dizer, no entanto, quando se afirma que o brasileiro fala mal a sua própria língua é que a maioria não domina a norma-padrão da variedade brasileira do português. E não domina porque a norma-padrão não é a norma de nenhuma variedade da língua falada, mas uma norma aprendida na escola, que tem falhado com os brasileiros.

        Aposto que o Bagno vai responder, furioso, que nunca disse nada de diferente disso. Ao que o Aldo português, e o brasileiro também, poderiam responder: mas todo o seu ponto era dizer que todo Homo sapiens sapiens produz enunciados considerados gramaticais por falantes do seu dialeto (língua) justamente porque os produz conforme a norma desse dialeto? Mas isso não é ínsito à ideia de falar com sentido? Pensei que fosse um ponto muito básico para merecer tanta tinta.

  2. Antônio, não quero me alongar neste debate. Compreendi o que você disse e percebo que você concorda em grande parte comigo.

    Sobre modernizar a norma-padrão, é uma ideia que eu também defendo, basta você ler meus artigos mais antigos e assistir aos meus vídeos no YouTube. No entanto, modernizar, simplificar e racionalizar a norma-padrão, como já ocorreu no espanhol, francês e italiano, é bem diferente do que Marcos Bagno propõe ao publicar uma gramática em que não sugere ou propõe que se usem, ou que se deveria usar, mas afirma que já são usadas na escrita formal e por isso devem ser abonadas, construções como “aconteceu dois acidentes”, “ela está meia cansada”, “eu encontrei ela” ou “eu lhe vi”, em flagrante contradição com os dados empíricos em que deveria se basear alguém que se pretende “cientista da linguagem”. Aliás, o que mais critico nele não é sua militância política ou seu histrionismo, é sua desonestidade intelectual e sua manipulação desavergonhada dos dados científicos para tentar provar suas teses.

    Quanto à questão central do meu artigo, o de que ensinar ao aluno a norma-padrão vigente, goste-se ou não dela, seja ela lusitana ou brasileira, natural ou artificial, não constitui preconceito, pois a função do professor é exatamente essa. Não é o professor de português de escola de periferia quem deve decidir se a norma-padrão já mudou ou não, se a variedade brasileira já é uma língua distinta da europeia ou mesmo se a Gramática Pedagógica de Bagno deve ser adotada nas aulas de português. Seu papel é ensinar a crianças e jovens carentes a norma-padrão vigente; não fazê-lo é que é preconceito, é condenar essas pessoas à eterna pobreza e marginalidade social.

    1. Sim, concordamos em grande parte. Concordo também com o Bagno em grande parte, mas supunha que fosse honesto no tratamento dos dados. De qualquer maneira, penso que a temperatura do debate diminuiria muito se se evitassem provocações desnecessárias. Por exemplo: é verdade que não é o professor de português de escola de periferia quem deve decidir se a norma-padrão já mudou ou não, mas também não é o do Colégio Bandeirantes nem tampouco um linguista, individualmente.

      Seria, provavelmente, o resultado do trabalho de uma comissão instituída para esse fim pelo órgão a quem coubesse definir as diretrizes básicas para a educação. Uma comissão que até poderia fazer um trabalho ruim, caso em que caberia aos linguistas demonstrar que a gramática modernizada não reflete a norma da escrita culta brasileira. Pensei que fosse este o ponto do Bagno: o de que a gramática normativa usada hoje nas escolas brasileiras reflete a norma-padrão da escrita literária do século XIX, e não a norma urbana culta atual.

      Descontado o tom panfletário da gramática pedagógica do Bagno, penso que lhe interesse demonstrar que os dialetos dos alunos não são linguisticamente inferiores à norma-padrão, porque têm eles próprios as suas normas, como quaisquer outras línguas, e que os alunos podem ter orgulho dos seus dialetos, ainda que usem a norma-padrão em contextos formais, assim como os suíços têm orgulho dos seus, ainda que usem a norma-padrão do alemão suíço em contextos formais.

  3. Antônio, como já havia dito na resposta anterior que não quero me alongar, vou lhe responder desta vez e encerrar o debate, até porque essa questão está tomando muito do meu precioso tempo.

    Primeiro, Bagno falseia dados, faz afirmações sem provas e acusações infundadas contra os gramáticos da atualidade como se fossem os mesmos e usassem os mesmos métodos dos de 100 anos atrás – em suma, ele critica o que não conhece ou o faz por má-fé mesmo, apenas para dar sustentação à sua agenda político-ideológica. Se a linguística fosse uma profissão regulamentada como é a medicina ou o direito, ele certamente já teria tido seu diploma cassado.

    Segundo, ninguém está dizendo que os socioletos (e não, pelo menos ainda, dialetos) dos alunos são inferiores à norma-padrão DE UM PONTO DE VISTA ESTRITAMENTE LINGUÍSTICO. No entanto, o que está em questão é: qual é a norma que os alunos devem aprender para ser futuramente cidadãos plenos e profissionais bem remunerados? Os suíços que se orgulham de seus dialetos (e aí, sim, temos dialetos) sabem que, em contextos formais, devem utilizar o alemão, o francês, o italiano ou o romanche padrão, e são essas línguas standard que eles aprendem na escola.

    Terceiro, o que deve ser ensinado na escola poderia perfeitamente ser deliberado por uma comissão de especialistas que incluísse linguistas, gramáticos e educadores, sempre à luz da ciência e do bom senso. O problema é que os departamentos de Letras das universidades públicas brasileiras (aquelas onde mais provavelmente os especialistas seriam buscados) estão completamente aparelhados por militantes de esquerda do tipo do Bagno, assim como os departamentos de Educação dessas universidades. Por outro lado, os gramáticos atuais, que têm uma metodologia consoante ao método científico, não são ouvidos, são simplesmente estigmatizados pela turminha do Bagno, Faraco, Possenti e outros, e por muitos de seus alunos, futuros professores, que, doutrinados por eles, fazem coro a esses linguistas. Até mesmo a Academia Brasileira de Letras, que poderia fazer o papel dessa comissão que você sugeriu, é um órgão muito mais político e decorativo do que linguístico, haja vista que lá estão José Sarney, Paulo Coelho, Cacá Diegues, Antonio Cicero, Fernanda Montenegro e outros “grandes especialistas” em questões de língua e de ensino. (Disclaimer: aqui usei de ironia.)

    Portanto, e para finalizar, 1) do ponto de vista linguístico, dialetos são línguas tanto quanto as línguas standard, apenas não têm uma norma-padrão; 2) dialetos são variedades regionais, ao passo que socioletos são variedades sociais; 3) os linguajares dos alunos de periferia e do Colégio Bandeirantes são socioletos diferentes, que traduzem o meio cultural em que eles vivem; 4) tanto os alunos quanto os professores, quer de escolas de periferia quer de escolas de luxo, conversam num registro informal, mas redigem – ou pelo menos deveriam redigir – as provas (no caso dos professores) e os trabalhos escolares (no caso dos alunos) em português padrão; 5) todas as línguas de cultura, ou línguas standard, evoluem com o tempo, e a gramática normativa procura acompanhar essa evolução, mas sempre de forma mais lenta, não por preguiça dos gramáticos, mas pelo próprio cuidado metodológico que o fazer gramatical exige. Nesse sentido, a língua portuguesa e sua gramática normativa não são exceção, não sendo necessário que linguistas militantes interfiram nesse processo, ainda mais com segundas intenções, que eles jamais confessam.

    1. Não é uma nova réplica, até porque o assunto se esgotou e porque nem sequer temos discordâncias relevantes, mas apenas uma pergunta específica: quando diz que, “do ponto de vista linguístico, dialetos são línguas tanto quanto as línguas standard, apenas não têm uma norma-padrão”, gostaria de saber se as normas dos dialetos não constituem norma-padrão apenas porque não são a norma da língua standard (língua-padrão) ou também porque não costumam ser objeto de padronização deliberada.

      Suponho que não o sejam por ambas as razões, até porque as normas dos dialetos não serem objeto de padronização deliberada é provavelmente uma consequência de não serem a norma do dialeto de prestígio alçado ao estatuto de língua standard.

      Poderíamos dizer que as normas dos dialetos são normas em sentido descritivo, ou seja, leis que se deduzem a partir das regularidades desses dialetos, e a norma-padrão é norma em sentido não apenas descritivo, mas também prescritivo, pois é positivada como norma que seguir pelas gramáticas normativas da língua standard?

  4. Em suma, há quem defenda uma nova Babel. Tal como o Acordo Ortográfico, vamos ajavardar tudo isto, albardar o burro à vontade do dono, porque a escolarização brasileira é miserável em grande percentagem.

    A regressão do intelecto humano está aí, a galope.

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