A (suposta) conspiração chinesa

Muitos anos atrás, meu pai me contava uma história que hoje parece fazer todo o sentido. Ele dizia que, no século XIX, a China era dominada pelo imperialismo europeu, especialmente britânico, e que os ingleses obrigavam o império chinês a comprar suas mercadorias, especialmente o ópio produzido na Índia, então colônia britânica. Mais do que isso, os ingleses forçavam o povo chinês a viciar-se em ópio, o que garantia o consumo e, consequentemente, a demanda pelo produto. Houve até duas Guerras do Ópio naquele século. Além de render lucro à Inglaterra, o ópio mantinha o povo chinês entorpecido e, por conseguinte, incapacitado de revoltar-se contra o domínio britânico.

Até que, no princípio do século passado, a China finalmente se libertou do jugo econômico europeu, e um de seus líderes, Sun Yatsen (ou Chiang Kaishek, ou Mao Tsetung, ou Xu Enlai, não me lembro) teria dito: “Um dia, nos vingaremos do Ocidente”.

O fato é que hoje correm paralelamente duas teorias sobre a pandemia de Covid-19 que assola o mundo. Uma, a de que o vírus surgiu espontaneamente de uma mutação ocorrida graças aos péssimos hábitos alimentares dos chineses (diz uma piada que a única coisa de quatro pés que chinês não come é mesa). De fato, o epicentro da contaminação parece ter sido um mercado de Wuhan onde se comercia todo tipo de animais silvestres, tanto vivos quanto mortos.

A outra teoria é a de que o vírus teria escapado – por acidente ou intencionalmente – de um laboratório de bioengenharia da mesma cidade, por sinal, próximo ao mercado.

Como sempre, logo surgiu uma “teoria da conspiração”, cujo enredo é o de que o governo chinês teria desenvolvido o vírus (e obviamente a sua cura) e o espalhado entre seu próprio povo a fim de que ele se disseminasse rapidamente pelo mundo e forçasse a paralisação da economia mundial, gerando uma crise econômica sem precedentes. Em tempos de fake news, este sim o vírus mais danoso da atualidade, passou a circular na internet um texto falsamente atribuído ao jornalista Alexandre Garcia, que transcrevo a seguir:

“1. Crie um vírus e o antídoto.

2. Dissemine o vírus.

3. Dê uma demonstração de eficiência, construindo hospitais em poucos dias. Afinal
você já estava preparado, com os projetos, a encomenda dos equipamentos, a
contratação da mão-de-obra, a rede de água e esgoto, os materiais de construção pré-
fabricados e estocados em um volume impressionante.

4. Provoque o caos no mundo, começando pela Europa.

5. Engesse rapidamente a economia de dezenas de países.

6. Interrompa as linhas de produção das fábricas de outros países.

7. Provoque a queda das bolsas e compre empresas a preço de banana.

8. Controle rapidamente a epidemia no seu país. Afinal você já estava preparado.

9. Abaixe o preço das commodities, inclusive o preço do petróleo que você compra em
larga escala.

10. Volte a produzir rapidamente, enquanto o mundo está parado. Compre o que você
negociou barato na crise e venda mais caro o que está em falta nos países que
paralisaram as suas indústrias.

Afinal, você leu mais Confúcio do que Karl Marx.

PS: Antes de rir, leia o livro dos coronéis chineses Qiao Liang e Wang Xiangsui, de
1999, “Unrestricted Warfare: China’s master plan to destroy America”, na Amazon,
depois a gente conversa. Está tudo lá.”

Essa teoria da conspiração ganhou ainda alguns outros condimentos, como a fala do líder chinês Xi Jinping de que “chegou a hora de a China liderar o mundo” (só que essa frase é de 2017) e blogs e vídeos falando sobre uma suposta Nova Ordem Mundial, em que a economia do planeta será capitalista mas monopolista, e os donos do monopólio serão os estados socialistas. Portanto, preparem-se porque em breve Cuba e a Venezuela dominarão o mundo!

Brincadeiras à parte, antevejo um futuro sombrio se o mundo for liderado por uma ditadura comunista como a China, mas não acredito que seja tão fácil assim derrubar os Estados Unidos e a Europa, mesmo com suas contradições internas. Também acho pouco provável que a maioria dos países do mundo, mesmo os periféricos, adote o socialismo como modelo político e econômico.

Não há dúvida de que o coronavírus pode representar uma oportunidade para a China ao mesmo tempo em que é uma ameaça às economias ocidentais, especialmente às mais frágeis, como a nossa. E, a meu ver, a China deve mais do que desculpas ao mundo, deve uma indenização pelos prejuízos causados; afinal, intencionalmente ou não, a pandemia é duplamente produto chinês, seja porque o vírus surgiu na China, seja porque o governo chinês, com sua habitual falta de transparência, tentou num primeiro momento ocultar a crise, chegando a perseguir – e, segundo a teoria conspiratória corrente, a matar – o médico que dera o alarme em primeiro lugar. A pergunta é: quem vai cobrar a China? Quem vai pendurar o guiso no pescoço do gato?

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Em tempo: o que foi aquele pronunciamento de Sua Excelência o Presidente da República na noite de ontem?!!

Feliz Ano Novo! Feliz?!

“Eu voltei, agora pra ficar…”. Pois é, amigos, brincadeiras à parte, andei sumido nos últimos meses. Na verdade, tirei um semestre sabático, seguido de férias e Carnaval, para resolver problemas particulares inadiáveis e também para preparar um superprojeto que vem por aí. (Aguardem, vocês vão se surpreender!)

E como no Brasil o ano só começa após o Carnaval (e o ano legislativo acaba mais cedo quando há eleições, isto é, ano sim, ano não), desejo a todos um feliz Ano Novo, embora eu tenha cá minhas dúvidas se este ano será realmente feliz. Desculpem-me o pessimismo, mas nestes meses em que andei ausente das mídias sociais observei e ponderei muita coisa que me deixou cético a respeito do futuro do Brasil e da humanidade.

Estamos vivendo uma era de extremos: no clima, na política, na economia, nas relações sociais, em tudo impera o extremismo. E tudo isso reforça minha convicção de que a virtude, mais do que nunca, está no centro. Ou, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Virtus in medio, como diriam os romanos.

Se os eventos climáticos deste século estão se mostrando cada vez mais extremos (chuvas torrenciais, calor e frio fora de hora, derretimento das calotas polares, morte de rios e oceanos, espécies sendo extintas, ar irrespirável em certas cidades), também são extremas as posições políticas em relação ao meio ambiente: de um lado, os ecoterroristas, que exigem a suspensão imediata de todas as emissões de carbono na atmosfera como se isso fosse possível a curtíssimo prazo sem causar uma catástrofe econômica e social no planeta de proporções jamais vistas; de outro, os negacionistas, para quem o aquecimento global é uma ficção criada pelos chineses ou pela esquerda anticapitalista.

Na política, tem-se o tempo todo que escolher entre uma extrema esquerda simpática às ditaduras socialistas e uma extrema direita reacionária e com pendores fascistas, saudosa dos Anos de Chumbo. Fomos jogados na pior crise econômica de nossa história por governos de esquerda corruptos, irresponsáveis e incompetentes. Mas o pior legado desses governos foi pavimentar o caminho para a eleição de um presidente da república ultraconservador, voluntarioso, inexperiente e de tendência autoritária.

Nesse cenário, quem pensa com ponderação, defende a liberdade com responsabilidade e acha que o equilíbrio está sempre no meio-termo é tachado por um e outro lado de “isentão”, alguém que não toma posição, que está sempre em cima do muro. Nesses meses todos, cheguei à conclusão de que em cima do muro é o melhor lugar para estar, pois de lá se veem os dois lados, ao passo que quem está de um dos lados do muro só vê seu próprio lado. Hoje, amigos de anos rompem a amizade e famílias se dividem por questões ideológicas. As redes sociais se tornaram antissociais, um mar de impropérios e insultos pessoais acobertados por um suposto anonimato. Hoje, mais do que nunca, os jovens são rebeldes sem causa, culpando a tudo e a todos por seu vazio existencial. Para a geração do mimimi, que meu amigo Eduardo Affonso lucidamente chamou de geração raudério, todos são vítimas, todos querem muitos direitos e nenhum dever, e tudo, absolutamente tudo, é ofensivo ou opressor.

Hoje, as pessoas ditas “normais” – isto é, as que representam a maioria esmagadora da sociedade – têm seu sexo biológico questionado, seus padrões morais e de comportamento estigmatizados e suas escolhas estéticas e de vida repreendidas. Em resumo, hoje ser normal é que é aberrante.

Também vi a pátria língua portuguesa, esse território que me é tão caro e em que há tantos anos milito, sofrer as mais absurdas intervenções, ser acusada de machista e opressora, como se mudar a língua mudasse a realidade.

Nesses tempos de petralhas, feminazis e bolsominions, vi a ascensão do terraplanismo, o triunfo da superstição sobre a ciência, o Carnaval politicamente correto, a China e seu principal produto de exportação, as epidemias. Mas, verdade seja dita, também vi o crescimento de causas que nos dão alguma esperança, como a da defesa dos animais e a do veganismo.

O fato é que, com tantos conflitos sem sentido e ódios exalando por todos os poros, o mundo simplesmente ficou chato. Como dizia meu pai, em mesa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Bom Ano Novo e até a próxima semana.

Os coletes amarelos, o Museu Nacional e os milionários

Neste último fim de semana, os chamados “coletes amarelos”, manifestantes contra o governo francês conhecidos pelos coletes usados em suas manifestações, voltaram às ruas de Paris, desta vez não para protestar contra o preço dos combustíveis e sim contra o fato de inúmeros magnatas – inclusive a filantropa e socialite brasileira Lily Safra – estarem doando vultosas quantias ao fundo de reconstrução da catedral de Notre-Dame em vez de usarem seu dinheiro para combater a fome no mundo, especialmente na África.

Esse protesto segue, à primeira vista, uma lógica bem-intencionada e humanitária, portanto digna de louvor, ao mesmo tempo em que exporia o egoísmo e a indiferença dos milionários, mais preocupados com edifícios históricos do que com pessoas. No entanto, um exame mais profundo da questão revela que, por trás desses protestos, há um misto de idealismo romântico e falta de uma melhor compreensão da nossa realidade mundial.

Imagine que você disponha de 88 milhões de reais, quantia doada a Notre-Dame pela Senhora Lily, e deseje acabar com a fome na África. O que você faria? Procuraria o presidente de algum país africano para oferecer-lhe a generosa doação? E quem você encontraria? Provavelmente, um ditador com uniforme militar e o peito cheio de medalhas, que está há décadas no poder vivendo uma vida de luxo enquanto seu povo passa fome. Você entregaria seu dinheiro a esse indivíduo?

Mas, vamos supor que, em vez disso, você crie uma organização encarregada de distribuir os recursos diretamente à população. Você poderia fazer duas coisas: entregar às pessoas carentes sua ajuda em forma de alimentos ou entregá-la em dinheiro para que as próprias pessoas comprassem seus alimentos. Isso acabaria com a fome e a miséria na África? A meu ver, certamente não. O que mais provavelmente aconteceria é que, uma vez gastos todos os recursos, o povo voltaria a passar fome. Na verdade, é isso que vem acontecendo há décadas com as doações feitas por países ricos aos países pobres, notadamente da África e da América Latina: ou caem nas mãos de tiranos corruptos, que gastam o dinheiro com luxo e ostentação pessoal, jamais em benefício de seu povo, ou são gastos em ações assistencialistas que dão o peixe, mas não ensinam a pescar.

O fato é que a África, especialmente a subsaariana, é pobre há milênios, jamais tendo assistido ao surgimento de alguma civilização. A maior parte da população africana não tem uma ideia clara do que seja o Estado, mais acostumados que estão com a noção de tribo. Por isso mesmo, os Estados africanos, em grande parte desenhados pelos colonizadores europeus, têm servido apenas para legitimar governos ditatoriais e corruptos. Com um quadro desses, a doação de dinheiro não é um investimento no futuro dessas populações, é simplesmente um gasto a fundo perdido. E os magnatas, assim como os líderes dos países ricos, sabem disso.

Outro argumento ingênuo é o daqueles que reclamam que os milionários, dentre os quais uma brasileira, estão colaborando com a restauração da catedral parisiense mas não com a do nosso Museu Nacional, consumido pelas chamas em setembro passado.

Mais uma vez, eu lhe pergunto: você teria confiança em entregar 88 milhões de reais nas mãos dos burocratas do Ministério da Educação? Nas mãos do reitor da UFRJ? Nas mãos do diretor do Museu Nacional? Nas mãos do governo brasileiro?

Que garantia você teria de que o seu dinheiro, uma vez entregue ao governo ou à Universidade curadora do Museu, seria realmente aplicado na reconstrução desse patrimônio? E como você, milionário capitalista, espera ser recebido e tratado por burocratas de esquerda, como o são os dirigentes da Universidade e do Museu, que declaradamente têm ódio e desprezo por capitalistas?

É por essas e por outras, que nosso Museu, assim como o povo da África, vai continuar por um bom tempo passando o chapéu – inutilmente.

Desigualdades sociais, desigualdades linguísticas

Toda sociedade complexa é bastante heterogênea, porque formada de indivíduos muito diferentes entre si. E essa diferença, que em princípio seria apenas de natureza, logo tende a tornar-se de valor. O Brasil, que, segundo dados recentemente divulgados, é a quarta nação mais desigual da América Latina, vive uma verdadeira luta de classes, permeada por todo tipo de preconceito e intolerância. E o que vale para a desigualdade social vale para a diversidade linguística, vista entre nós também como desigualdade: assim como há classes sociais dominantes e dominadas, certas variedades linguísticas são tidas como superiores, outras como inferiores.

Diante da desigualdade social, há três atitudes políticas possíveis: uma atitude conservadora, que procura manter tudo como está e estimula o preconceito contra os menos favorecidos; uma atitude pseudoprogressista,que valoriza a carência e trata a pobreza como virtude, como se ignorância,subnutrição, falta de recursos, fome e desestruturação familiar fossem um patrimônio cultural a ser preservado; e, finalmente, uma atitude verdadeiramente progressista que, reconhecendo o problema, procura saná-lo,atuando para que os pobres possam pouco a pouco sair da pobreza e usufruir os mesmos bens da civilização que as elites.

Em termos de língua, a atitude conservadora consiste em tachar aqueles que não dominam a norma culta como ignorantes e analfabetos,exercendo sobre eles o famoso preconceito linguístico (cerceamento do acesso a direitos, exclusão social, chacota, etc.), mas nada fazendo para mudar a situação. Já pseudoprogressista é afirmar que todas as variedades linguísticas,inclusive as de menor prestígio, devem ser respeitadas e estimuladas, que não se deve corrigir o aluno que diz “menas” ou “pobrema”, e que é legítimo que cada um fale como queira ou possa em qualquer situação. Esse tipo de atitude se assemelha muito a certas políticas demagógicas que, a pretexto de tirar crianças carentes de situações de risco, as ensinam a tocar tambor ou a cantar funk proibidão sob a alegação de que se trata de uma forma de inserção social e de incentivo à cultura. Resta saber em qual sociedade essas crianças serão inseridas e que tipo de cultura é essa que se está incentivando?

Realmente progressista num caso como esse não seria dar às crianças a possibilidade de aprender música de qualidade (um instrumento melódico, partitura, solfejo)? Não seria dar-lhes a chance de ter acesso a outras realidades (musicais, culturais e sociais) que abram sua cabeça e as portas de uma vida mais feliz e mais plena, inclusive de oportunidades?

Infelizmente, para certos setores que se dizem de esquerda (mas cuja ideologia de endeusamento da miséria – principalmente da espiritual – é de fato reacionária, já que só faz preservar a penúria), a pobreza é uma virtude (talvez porque renda votos) e o importante é elevar a autoestima do cidadão carente e não libertá-lo da carência.

Não há dúvida de que os pobres merecem respeito como cidadãos e seres humanos, mas respeitá-los em sua pobreza é uma coisa, tentar resgatá-los dessa condição é algo bem diferente.

Que a língua varia todos sabemos e a linguística já o provou há muito tempo: é uma verdade científica. Que a variação linguística é coextensiva da heterogeneidade social também já está provado. E, assim sendo, a variedade é natural (porque pessoas diferentes não podem se expressar de modo igual), irreprimível (pois não há como obrigar todos os cidadãos a ter um mesmo comportamento) e benéfica para a comunicação, já que só se pode dar conta de determinadas experiências em certas variedades. Também é fato que a diversidade linguística é um prato cheio para os cientistas da linguagem. Mas isso não quer dizer que os linguistas sejam contra a escolarização e o ensino da norma culta nas escolas – ainda que com todas as críticas que nossa gramática normativa merece e tem recebido. Dizer que “nós foi” e “teje” é algo que deva ser preservado e que reprimir tais usos com intuito educativo é intolerância linguística constitui uma postura obscurantista. Assim como o desejável não é respeitar, mas sim erradicar a pobreza, dando aos excluídos a possibilidade de ascender socialmente por meio da educação, o verdadeiro progressismo está em levar a todos o conhecimento das formas mais prestigiosas da língua, até para que se possa decidir com bom senso em que momento usá-las ou não. Do contrário,estaremos ensinando crianças carentes a bater tambor e a gostar de funk sob a alegação de que piano e violão são instrumentos pequeno-burgueses e de que Beethoven e Tom Jobim representam a música das elites dominantes e opressoras.Ou seja, em nome de um esquerdismo de salão, estaremos é sendo fascistas.

Pessoa humana e outras pessoas

A leitora Ana Cristina Fischmann me faz a seguinte pergunta:

Caro Aldo, tenho ouvido em muitos lugares, inclusive em palestras, a expressão “pessoa humana” (por exemplo, a dignidade da pessoa humana etc.). Isso está certo?! Existe pessoa não humana? Me esclareça, por favor. Muito obrigada.

De fato, Ana, eu também por muito tempo estranhei essa expressão, pois para mim a palavra “pessoa” sempre se refere a um ser humano (exceto, talvez, as três pessoas da Santíssima Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo). No entanto, o Direito define pessoa como “toda entidade natural ou moral com capacidade para ser sujeito ativo ou passivo de direito, na ordem civil” (definição do dicionário Houaiss). Daí termos a pessoa física (o cidadão) e a pessoa jurídica (organização, entidade ou empresa). O problema é que, na prática, a única realidade que nossa legislação reconhece como entidade capaz de ser sujeito do direito acaba sendo o ser humano, individualmente ou em grupo. Nesse sentido, toda pessoa é humana, e portanto a expressão “pessoa humana” seria uma redundância.

Entretanto, sobretudo nos últimos tempos, uma nova perspectiva tem dado um significado mais amplo à palavra “pessoa”: trata-se da teoria (ou filosofia) dos seres sencientes. O que é ser senciente? Segundo Luciano Carlos Cunha, no site Pensata Animal (www.pensataanimal.net/glossario-dm/97-senciencia), senciência é a

[j]unção de dois conceitos: sensibilidade e consciência. Diz-se de organismos vivos que não apenas apresentam reações orgânicas ou físico-químicas aos processos que afetam o seu corpo (sensibilidade), mas além dessas reações, possuem um acompanhamento no sentido em que essas reações são percebidas como estados mentais positivos ou negativos. É portanto, um indício de que existe um eu que vivencia e experimenta as sensações. É o que diferencia indivíduos vivos de meras coisas vivas.

Dito de outra maneira, um ser senciente (do latim sentiens, do verbo sentire, “sentir”) não apenas está vivo, no sentido biológico de processar e transformar energia, mas é capaz de sentir dor e prazer e, mais ainda, de fugir da primeira e buscar o segundo. O aspecto mais visível para nós de que um animal tem sensibilidade e consciência é a reação à dor. Sobre esta, a filósofa Sônia T. Felipe afirma em Por uma questão de princípios: Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Florianópolis: Fundação Boiteux, 2003, p. 113):

Para se poder dizer de um ser que este tem a capacidade de sofrimento, à qual se pode designar “capacidade para realizar a perda”, tal deve apresentar, de alguma maneira: 1) uma sensibilidade para os eventos que afetam o próprio organismo; 2) uma consciência dessa afecção, ou, em outras palavras, uma espécie de percepção das próprias experiências afetivas, a qual vem acrescida, na maior parte dos seres sensíveis, daquilo que chamamos de 3) memória, a qual torna o ser apto para reter ou manter o registro das informações de experiências passadas, e de 4) imaginação ou capacidade para ordenar as experiências sensíveis, as imagens da memória e a recordação consciente das mesmas de modo a prevenir-se contra situações de risco no presente. Quando tal capacidade se apresenta ainda mais elevada, o indivíduo pode, ainda, apresentar outra habilidade, qual seja, a de 5) ordenar atos em relação não apenas ao presente mas também ao futuro, demonstrando, desse modo, que tem 6) consciência temporal de si, o que caracteriza sua preferência por estar vivo e não pelas situações nas quais arrisca-se a morrer. Todas essas habilidades estão presentes em maior ou menor grau em todos os animais sensíveis. A diferença entre humanos e não humanos, no que diz respeito a tais experiências, é, pois, de grau, não de essência, tese apresentada por Darwin e incorporada por Singer em sua ética na defesa dos animais.

Segundo a Wikipédia, citando o filósofo Peter Singer, senciência é a “capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade”. E mais adiante afirma: “[n]ão se questiona que os humanos são seres sencientes […]. A questão que tem vindo a ser colocada é sobre se essa mesma capacidade de possuir percepções conscientes dos acontecimentos e da realidade em que estão envolvidos poderá ou não acontecer de igual forma com os outros animais”.

O fato é que, com o crescimento do movimento antiespecista nos últimos anos (especismo é a crença na superioridade da espécie humana sobre as outras espécies animais, da mesma forma que o racismo é a crença na superioridade de uma raça humana sobre outra), o Direito e a legislação aos poucos vão reconhecendo os animais como “pessoas” e não apenas como “coisas”. Exemplos disso são as recentes leis que proíbem experiências com animais na fabricação de cosméticos ou que criminalizam os maus-tratos e o abandono de animais.

Diante de tudo isso, a expressão “pessoa humana” passa a fazer sentido e deixa de ser um pleonasmo: existem, sim, pessoas não humanas, mesmo embora possa soar estranho para nós chamar um cachorro de pessoa. O que importa não é como os chamamos, mas como a justiça os considera.

O sentido linguístico da vida

Muitos livros, como As quatro faces do Universo, de Robert M. Kleinman, discutem o sentido da existência (e, particularmente, da existência humana), procurando provar, se é que isso é possível, que a nossa vida tem um propósito. Em muitos casos — este é um deles —, criticam a ciência, acusando-a de limitada, de reduzir a realidade à pura matéria, não dando conta da dimensão “espiritual” da existência. (Será que esses livros dão conta dessa dimensão?)

A ideia de que nossa vida não é mero produto do acaso ou do determinismo físico, que somos mais do que um amontoado de células organizadas pela seleção natural e que temos uma missão a cumprir é inegavelmente reconfortante, ainda que não tenhamos nenhuma garantia de que seja verdade. (Aliás, todas as evidências científicas, que tais livros questionam, apontam em sentido contrário.)

O fato é que vários pensadores, tanto místicos quanto racionalistas, vêm ao longo do tempo buscando uma resposta a essa questão. Para eles, sentido não é apenas propósito, mas direção, isto é, para onde vamos.

Não vou tratar aqui dos aspectos ontológicos do problema, que não teriam nada a ver com um artigo sobre linguagem, mas quero exatamente mostrar o que há de “linguístico” nessa questão.

O emprego da palavra sentido para denominar o propósito da existência não é gratuito: afinal, encontrar sentido em algo é descobrir o seu significado, é relacioná-lo a alguma experiência anterior, a alguma vivência que temos armazenada na memória, tal qual uma palavra, símbolo ou gesto evocam na mente uma imagem, concreta ou abstrata, de algo que conhecemos. O propósito dos signos é justamente significar, representar, ou seja, evocar algo à consciência. Portanto, encontrar sentido na vida, no trabalho ou num relacionamento é compreender o que tudo isso significa para nós, a que sentimentos ou vivências está ligado.

Para o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, que se dedicou à relação entre o pensamento e a linguagem, o significado não existe em si, é arbitrário e estabelecido pelo homem. Isso tem uma série de implicações importantes. Em primeiro lugar, remete à ideia, também presente nas ciências da linguagem, de que não vivemos num mundo “real”, mas no mundo artificialmente criado pela nossa própria língua.

Em segundo lugar, sugere que muitos dos nossos conflitos existenciais e ideológicos — Deus existe? Por que há o Ser em vez do Nada? E o que é o Nada? O tempo flui ou somos nós que nos deslocamos nele? Mas, afinal, o que é o tempo? O que não pode ser pensado pode existir? Por que estamos aqui? Qual o sentido da vida? — dependem basicamente do significado (arbitrário e culturalmente estabelecido) que atribuímos às palavras Deus, tempo, Ser, Nada

Mais ainda, dependem da própria existência dessas palavras, o que indica, sobretudo no caso de conceitos abstratos, que, inversamente ao que acontece com objetos concretos, é a palavra que institui a “coisa”.

Os quasares já existiam antes de tomarmos conhecimento deles, isto é, de criarmos a palavra que os designa. Mas será que “propósito”, “sentido”, “missão”, “consciência”, “infinito”, “eternidade” existem objetivamente na natureza ou somos nós que, com nossas palavras, criamos esses objetos?

Segundo consta, nós, humanos, somos as únicas criaturas do planeta a fazer perguntas ontológicas, a questionar a nossa própria existência. E isso se dá exatamente porque somos a única espécie dotada de linguagem. (Observe que falo em “linguagem” e não em “comunicação”, pois esta todas as espécies superiores possuem.) Em outras palavras, é a linguagem que permite a consciência.

Há três grandes mistérios a torturar o intelecto humano: a origem do Universo (e, portanto, de tudo o que existe), a origem da vida e a origem da consciência (isto é, de uma forma de vida que sabe que está viva e que o Universo ao redor existe). Mas este último mistério se prende a um quarto e bem menos explorado: a origem da linguagem, tema que também trato no vídeo Falo, logo existo.

Quatro condições são necessárias à existência da consciência. Em primeiro lugar, vida: seres inanimados não têm consciência (embora alguns filósofos new age afirmem que sim). Em segundo lugar, atividade mental: amebas são vivas mas não conscientes. Em terceiro, memória: só posso compreender que um pássaro em voo está em movimento porque me lembro de que, um instante atrás, ele estava em outro lugar do céu; só posso saber que estou vivo e quem sou porque me lembro do meu passado. Se eu não tivesse memória, cada instante da minha existência seria como o primeiro, e eu viveria um eterno “nascimento”. Enfim, a consciência está ligada à sensação, não importa se real ou ilusória, da passagem do tempo.

Finalmente, a quarta condição para a consciência é a linguagem. Animais superiores, como cães e chimpanzés, são vivos, inteligentes, dotados de memória e, no entanto, não parecem ter consciência de si mesmos além de suas sensações, sentimentos e pulsões de satisfazer necessidades fisiológicas.

Eles amam, sentem medo, fome, libido, procuram por comida ou afeto, mas nunca se fazem perguntas ontológicas. E não porque não tenham palavras (muitos animais domésticos compreendem palavras humanas e as relacionam a objetos ou ações), nem porque não tenham conceitos (eles os têm, pois reconhecem padrões familiares, como a casa, a comida, o rosto ou o cheiro do dono), mas porque não têm como associar conceitos para formar enunciados e sobretudo porque não têm conceitos abstratos.

Somente a linguagem humana realiza abstrações, ou seja, cria um mundo “que não existe” a partir do que existe. Por isso, o maior impasse da filosofia não é descobrir se a realidade que vemos está aí ou não (é bem provável que sim, ainda que não seja exatamente como a vemos); é saber se a realidade que só vemos em nossa mente existe fora dela. Enfim, nossa vida tem algum sentido ou somos nós que damos sentido a ela?

A quem pertence a Seleção Brasileira?

A cada quatro anos, em época de Copa do Mundo de Futebol, a publicidade apela ao nosso sentimento patriótico. Afinal, Nelson Rodrigues já havia dito muito tempo atrás que o futebol é a pátria em chuteiras. Por isso, a derrota da seleção brasileira no Mundial é vista como uma derrota da nacionalidade, uma mácula em nossa história.

De fato, o futebol nunca deixou de ser uma representação simbólica da guerra. Uniformes, hinos, bandeiras, campo, capitão, ataque, defesa, tática, estratégia, todos esses elementos da prática futebolística remetem à esfera militar. Um time de futebol é um pequeno exército defendendo uma nação, seja a nação corintiana, a nação flamenguista ou qualquer outra. E o sentido de nação é tão presente que não só os times pelejam simbolicamente como as torcidas guerreiam de verdade. Dentro do campo há adversários, mas fora há inimigos.

Se isso vale para times, tanto mais vale para seleções. A execução dos hinos nacionais antes das partidas, as camisas com as cores da bandeira pátria, tudo nos faz crer que é a nossa nação que está em campo lutando contra outras nações. Nesse contexto, a desclassificação representa uma humilhação perante o mundo. E uma derrota por goleada, como o fatídico 7 a 1 de quatro anos atrás, a humilhação suprema, equivalente à aniquilação do Estado, à perda da independência, subjugados que fomos pelas tropas estrangeiras.

Mas será tudo isso mesmo verdade? A seleção canarinho é de fato nosso exército defendendo a pátria ou é isso o que a mídia nos induz a acreditar?

Até onde sei, os clubes de futebol e também a CBF são sociedades de direito privado com fins lucrativos – e bota lucrativo nisso! Afinal, as verbas de publicidade dos patrocinadores da Seleção vão para os cofres da confederação e não para o erário público. A vitória da Seleção não se traduz em mais saúde, educação e segurança para o povo brasileiro. Os jogadores da nossa seleção não estão lá por um dever patriótico e sim por um salário milionário.

Em outros tempos, quando jogar futebol era uma atividade marginal que nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho exercesse, jogava-se por vocação e por amor à camisa. Naqueles tempos, um jogador começava e terminava sua carreira num mesmo time, sempre em seu próprio país.

Hoje, quando garotos vão jogar no Exterior antes mesmo de chegar à idade adulta e, portanto, jamais jogaram profissionalmente em seu país, faz algum sentido apelar ao seu sentimento patriótico? Que patriotismo se pode esperar de uma seleção como a suíça, cuja metade do elenco não nasceu na Suíça? Nesse nosso futebol globalizado, em que temos franceses com nome de Mbappé e Pogba, belgas chamados Chadli e Fellaini, e russos com sobrenome Fernandes, e em que um jogador de futebol troca de nacionalidade como troca de camisa, ao sabor de seus interesses financeiros, que sentido tem falar em pátria de chuteiras, pintar a rua com as cores da bandeira, pôr a mão no peito na hora de cantar o hino?

É claro que é legal torcer pela Seleção, é legal ver o Brasil vencer, embora eu ache um exagero suspender as atividades profissionais na hora do jogo, mas a vitória ou a derrota do nosso escrete não muda nada em nossa vida diária, não resolve nossos problemas, nem os pessoais nem os nacionais. E parece que o nosso povo está se conscientizando disso, tanto que hoje o futebol não cria mais uma cortina de fumaça sobre a nossa política nem é mais o ópio do povo como em tempos passados. Quem está desempregado e desesperançado com os destinos da nação não gasta mais dinheiro com pincel e tinta verde e amarela nem perde de vista a crise econômica e sobretudo moral em que vivemos. Hoje a imagem de um Neymar rolando no gramado combalido de dor já não nos comove mais, pois sentir dor ganhando milhões é bem diferente de sentir dor na fila do SUS.

Faz tempo que eu deixei de ver a Seleção Brasileira de Futebol como o exército do meu país me defendendo no campo de batalha. Se nem os exércitos de verdade representam nações, mas antes governos, como poderia um grupo de esportistas muito bem remunerados e recrutados por uma entidade privada para competir num evento promovido por outra entidade privada representar nosso povo? Claro que eu torci pela Seleção. E claro que eu fiquei chateado com a desclassificação. Mas em nenhum momento deixei que esses sentimentos se misturassem com o que sinto pelo Brasil como país. E jamais desviei minha atenção daquilo que realmente importa em minha vida, em nossas vidas.

A “língua” do pensamento

Por mais distintas que as línguas sejam, praticamente tudo que pode ser dito em uma língua pode ser dito nas demais. Certas palavras não encontram equivalentes exatos em outros idiomas, as estruturas sintáticas são muito diferentes, mas o sentido geral das frases tende a permanecer o mesmo. Tanto que, salvo em traduções de poesia, em que a expressão é tão importante quanto o conteúdo, o que se traduz num texto é o seu sentido geral e não o significado termo a termo, a chamada tradução literal, que muitas vezes conduz a enunciados sem sentido.

Essa possibilidade quase irrestrita de tradução é possível porque o “sentido geral” a que estou me referindo é algo que transcende a língua. Trata-se de uma representação mental que fazemos da realidade e que prescinde de palavras. Mas tampouco se dá por imagens ou outros símbolos dotados de um significante material. Tanto que cegos de nascença, surdos-mudos e indivíduos privados da linguagem por alguma patologia são perfeitamente capazes de pensar e compreender a realidade.

Também comprovam a existência dessa representação metal puramente abstrata situações como quando não recordamos uma palavra mas mesmo assim sabemos o que queremos dizer, ou quando alguém diz algo e, tempos depois, lembramos o que foi dito mesmo tendo esquecido as palavras exatas. A ideia de que pensamos independentemente da língua que falamos e mesmo de outros sistemas simbólicos (sons, gestos, desenhos, esquemas) é bem antiga e tem inquietado muitos pensadores e cientistas ao longo do tempo.

Aristóteles já havia postulado que o pensamento se estrutura em torno de categorias gerais (substância, qualidade, ação) de tal modo que tudo o que possamos conceber se encaixe numa dessas categorias. O raciocínio seria então a combinação dessas categorias ou conceitos por meio de regras bem definidas. Curiosamente, tais categorias inspiraram o que chamamos hoje de classes gramaticais: substantivo, adjetivo, verbo, etc. (Não que essas classes sejam um espelho fiel do nosso pensamento; trata-se de mera aproximação feita pelos gramáticos.) Igualmente, as regras de combinação das categorias aristotélicas deram origem, de um lado, à lógica e, de outro, à sintaxe.

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John Locke

No século 17, o filósofo inglês John Locke afirmou que tudo o que podemos conceber seria uma combinação de noções de base, ou qualidades (existência, extensão, forma, movimento, cor). Para Locke, haveria ideias primeiras (aquelas que não podem ser reduzidas a outras ainda mais simples) e conexões entre elas. Por exemplo, o ouro é a conjunção das qualidades material, inanimado, sólido, amarelo, brilhante, metálico, valioso, e assim por diante.

Afirmando que só é possível pensar por meio de algum tipo de linguagem, não importando a sua natureza, e inspirados na doutrina atomista dos gregos Leucipo e Demócrito, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein propuseram que qualquer conceito linguístico pode ser decomposto em conceitos cada vez mais simples, até o ponto em que não possam mais ser decompostos.

Decorre dessa teoria (embora os próprios autores não tenham dito isso) que o pensamento seria uma combinação sintática de conceitos que, por sua vez, seriam “pacotes” estruturados de atributos mínimos. Fazendo uma analogia, fatos do mundo real são interações entre objetos formados de átomos ou de partículas ainda menores. Se o pensamento é a representação mental da realidade exterior, então a mente seria povoada por “objetos” (conceitos) compostos de partículas mínimas hierarquicamente organizadas, os quais interagem por meio de relações lógicas e abstratas. Isso explicaria por que substância, qualidade e ação são categorias universais e por que classes como substantivo, adjetivo e verbo existem em todas as línguas – ainda que, no plano da superfície discursiva, possam estar mascaradas em algumas delas.

Paralelamente, os estudos de Noam Chomsky sobre a aquisição da linguagem e a competência linguística demonstraram que, por mais pobres que sejam os estímulos vindos do meio, toda criança aprende a falar muito cedo e é capaz de formular corretamente frases que jamais ouviu antes.

Para Chomsky, há um inatismo na linguagem: não importa em qual língua a criança seja criada nem quanto (ou quão pouco) esforço os adultos circundantes dediquem a educá-la, ela sempre aprende a dominar o código com total competência. (Não estou falando aqui de dominar a norma culta, que, por sinal, a maioria das línguas não tem, mas de ser plenamente capaz de comunicar-se com seus semelhantes.)

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Noam Chomsky

Para explicar esse paradoxo, Chomsky postula que a aptidão linguística é inata e se dá por meio de módulos cerebrais. É como se o cérebro fosse o hardware no qual já viesse de fábrica um sistema operacional capaz de processar qualquer software linguístico (isto é, qualquer língua). A esse sistema pré-instalado Chomsky chamou de Gramática Universal (GU). Assim, se o cérebro é como um computador, a GU é a plataforma (como o Windows, por exemplo) na qual roda o “software” linguístico instalado (no nosso caso, algo como o programa “português.exe”). A fala é então o produto do processamento desse programa, como o papel que sai da impressora.

Mas, se não pensamos só com palavras, a GU, sendo uma plataforma de processamento linguístico, provavelmente ainda não é o sistema de base do pensamento: deve haver um sistema ainda mais básico, que permite “rodar” não só línguas mas todos os demais códigos simbólicos já inventados ou por inventar.

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Jerry Fodor

Em 1975, o filósofo cognitivista Jerry Fodor publicou The Language of Thought (“A Linguagem do Pensamento”), em que propõe a existência de uma espécie de linguagem (LOT, na sigla em inglês) subjacente aos processos mentais. De modo geral, a teoria sustenta que o pensamento segue regras análogas às da língua. Só que sem palavras ou qualquer outro tipo de signos. Seria uma linguagem puramente abstrata, cuja representação simbólica para fins operacionais se assemelha a equações matemáticas. Essa “linguagem”, biológica (portanto, inata) e situada no nível hiperprofundo da mente, vem sendo chamada de “mentalês” por vários pesquisadores das ciências cognitivas e da neurociência.

Várias teorias paralelas à GU e à LOT têm sido desenvolvidas. Dentre as mais importantes estão a noêmica de Bernard Pottier, a semântica cognitiva de François Rastier e a psicologia cognitiva de Steven Pinker. Eu mesmo venho realizando pesquisas sobre o assunto, algumas já publicadas. É importante dizer que todas as teorias, apesar das diferenças, são tributárias de um mesmo princípio, já intuído pelos gregos na Antiguidade. Como diria Mário Quintana, não há nada que possamos pensar que algum grego já não tenha pensado.

O Iluminado

Hoje não posso deixar de prestar homenagem a um dos meus grandes ídolos, um dos caras que mais me fizeram ter amor pela ciência e pela popularização da ciência: o iluminado Stephen Hawking.

Iluminado sim, pois sua mente prodigiosa, mesmo aprisionada num corpo paralisado, nos auxiliou a compreender melhor os mistérios da nossa existência. Considerado o físico mais importante de nosso tempo e o mais insigne depois de Newton e Einstein, Hawking de certo modo complementou a obra desses outros dois gênios. Seu trabalho consistiu em explicar como o Universo surgiu e como evoluiu desde então, e por que as leis da física são como são.

Mais do que isso, seu pensamento tocou em questões ontológicas que perturbam a todos os que somos dotados de alguma curiosidade e temos espírito aberto: por que existimos? por que a realidade existe em vez do nada? poderia o nada existir? se o Universo existe, é porque ele foi criado?

Ateu convicto, Hawking tinha respostas convincentes a todas essas questões, embora sua modéstia, típica dos sábios, o levasse a nunca afirmar nada peremptoriamente. Afinal, diferentemente da religião, que tem respostas prontas para tudo (e sempre as mesmas respostas ao longo de milênios), a ciência não se baseia em argumentos de autoridade ou em verdades pretensamente reveladas, mas em pesquisa, isto é, observação meticulosa, investigação, experimentação e raciocínio lógico. Hawking sabia como ninguém que não existem verdades prontas e acabadas, o que existe é a possibilidade de o engenho humano descobrir mais e mais, chegando sempre mais perto da verdade sem jamais atingi-la por completo. Uma de suas frases célebres diz: “há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona”. É o que vemos todos os dias: a ciência provando suas teorias e demolindo as crenças religiosas. Pena que ela seja acessível a poucos.

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Por isso mesmo, o iluminado Hawking também teve a generosidade de partilhar conosco, simples mortais, suas descobertas e seu conhecimento. Ele foi um incansável e magistral divulgador da ciência, e sua paixão pela comunicação do saber o fez transpor as limitações de sua condição física, jamais deixando de escrever para o público leigo e de dar palestras em todo o mundo, mesmo tendo de usar um sintetizador de voz para falar. Seus livros tornaram-se best-sellers e ele, uma celebridade pop, digna de aparecer nos Simpsons, no Laboratório de Dexter, em The Big Bang Theory, em Star Trek, e de ter sua vida retratada em filme (A Teoria de Tudo, 2014).

Seu trabalho incansável de divulgador científico levou milhares de jovens a se apaixonar pela ciência e a abraçá-la como carreira, bem como iluminou a mente de muitas pessoas, livrando-as do obscurantismo da crendice e da superstição. Para mim, que tento ser um divulgador da ciência da linguagem e milito no campo das Humanas, às vezes tão avesso ao método científico, tão apegado ao dogmatismo marxista, Hawking é uma inspiração, alguém que me motiva a seguir adiante apesar de todas as diversidades.

Mas a vida de Stephen Hawking também tem a mística da trajetória dos grandes homens. Nascido no dia em que se completavam 300 anos da morte de Galileu e no ano em que se comemorava o 300º aniversário de nascimento de Newton, faleceu no dia do aniversário de nascimento de Einstein, no qual também é celebrado o Dia do Pi, a famosa constante matemática 3,14… (é que 14 de março se escreve em inglês como 3/14). E faleceu aos 76 anos, como o gênio alemão. Todas essas coincidências – ou sincronicidades, se preferirem – são peças que a realidade nos prega, talvez tentando nos revelar seus caprichos mais sutis. Pois, como disse Einstein, a natureza é sutil, mas não maliciosa.

Além de tudo, ele teve a grandeza moral dos fanais da humanidade. Preso a uma cadeira de rodas, ele viu melhor que ninguém e nos mostrou mais claramente o mundo que habitamos, qual um Beethoven tirando a mais bela música do silencio da surdez, qual um Aleijadinho que, sem mãos, esculpiu na pedra o orgulho da nossa nacionalidade, qual um Homero cego cantando a Ilíada.

Caro Steve, você fará uma baita falta!

O ser e o devir

A ontologia é a parte da filosofia que estuda o ser em si, independente de suas qualidades. Um dos primeiros filósofos a se preocupar com a questão do ser foi Parmênides, para quem “o ser é, o não-ser não é”. Essa afirmação algo enigmática pressupõe a imutabilidade do real e a inexistência do nada: a realidade é perene e eterna em sua plenitude, e a mudança que percebemos no mundo, mera ilusão.

Contrapondo-se a essa visão estática do ser, Heráclito afirmou que tudo flui e nada permanece, portanto não se pode atravessar duas vezes o mesmo rio. Estava instaurada a noção de “devir”, isto é, “tornar-se”, do latim devenire, que produziu o francês devenir e o italiano diventare.

Aristóteles procurou conciliar essas duas visões da realidade postulando a diferença entre potência e ato: a realidade é o que é, mas contém também a possibilidade do vir a ser (assim como a semente é uma árvore em potencial).

Se o ser é visto como algo estático, permanente, o devir é a mudança, o movimento. Talvez por isso os verbos que nomeiam esse processo de passar de um estado a outro (de um ser a um não ser e então a um novo ser) estejam relacionados ao deslocamento, seja de longe para perto (do ausente ao presente, diríamos), representado pelo “vir” (latim devenire, inglês become, português “vir a ser”), seja o deslocamento em torno ao próprio eixo (de costas para a frente), como algo que, ao girar, se nos apresenta.

Essa segunda concepção do devir como volta, giro, está presente no grego pélein, proveniente da raiz indo-europeia *kwel, que também deu pólos (polo, eixo), kýklos (círculo) e em latim produziu colere (revolver, cultivar), collum (pescoço), em sânscrito cakram (chacra, círculo) e em inglês wheel (roda).

Além do grego pélein, a ação de tornar-se se expressa em várias línguas com termos que significam “virar, verter”: alemão werden, espanhol volverse e convertirse, além do próprio português “tornar-se” (de “torno”) e “virar”, este último de uso popular. É como se aquilo que se transforma girasse em torno do próprio eixo e, ao completar a volta, fosse outro (como o super-herói disfarçado de cidadão comum que, ao girar rapidamente, ressurge já com sua máscara e sua capa, pronto para combater o mal).

Essa recorrência da imagem do giro como transformação espontânea é o que chamamos de metáfora cognitiva: é tão intuitivo associar mudança a movimento e a mudança de si mesmo ao giro em torno do próprio centro que muitos povos e culturas recorrem a essa concepção para nomear o devir. Talvez a própria percepção de que os movimentos do cosmos são cíclicos nos tenha levado a ver a transformação como ciclo: a realidade é um constante e eterno embate entre o ser e o devir – no fundo, um eterno retorno.