A quem pertence realmente a Seleção Brasileira?

Daqui a dez dias começa a Copa do Mundo de Futebol, cercada mais uma vez de grande expectativa e da esperança do sonhado hexa. A cada quatro anos, a publicidade apela ao nosso sentimento patriótico, afinal Nelson Rodrigues já havia dito muito tempo atrás que o futebol é a pátria em chuteiras. Por isso, uma vitória da seleção brasileira no Mundial é sempre vista como uma vitória da nacionalidade, assim como a derrota, uma mácula em nossa história.

De fato, o futebol nunca deixou de ser uma representação simbólica da guerra. Uniformes, hinos, bandeiras, campo, capitão, ataque, defesa, tática, estratégia, todos esses elementos da prática futebolística remetem à esfera militar. Um time de futebol é um pequeno exército defendendo uma nação, seja a nação corintiana, a nação flamenguista ou qualquer outra. E o sentido de nação é tão presente que não só os times pelejam simbolicamente como as torcidas guerreiam de verdade. Dentro do campo há adversários, mas fora há inimigos.

Se isso vale para times, tanto mais vale para seleções. A execução dos hinos nacionais antes das partidas, as camisas com as cores da bandeira pátria, tudo nos faz crer que é a nossa nação que está em campo lutando contra outras nações. Nesse contexto, a desclassificação representa uma humilhação perante o mundo. E uma derrota por goleada, como o fatídico 7 a 1 de 2014, é a humilhação suprema, equivalente à aniquilação do Estado, à perda da independência, subjugados que fomos pelas tropas estrangeiras.

Mas será tudo isso mesmo verdade? A seleção canarinho é de fato nosso exército defendendo a pátria ou é isso o que a mídia nos induz a acreditar?

Até onde sei, os clubes de futebol e também a CBF são sociedades de direito privado com fins lucrativos — e bota lucrativo nisso! Afinal, as verbas de publicidade dos patrocinadores da Seleção vão para os cofres da confederação e não para o erário público. A vitória da Seleção não se traduz em mais saúde, educação e segurança para o povo brasileiro. Os jogadores da nossa seleção não estão lá por um dever patriótico e sim por um salário milionário.

Em outros tempos, quando jogar futebol era uma atividade marginal que nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho exercesse, jogava-se por vocação e por amor à camisa. Naqueles tempos, um jogador começava e terminava sua carreira num mesmo time, sempre em seu próprio país.

Hoje, quando garotos vão jogar no Exterior antes mesmo de chegar à idade adulta e, portanto, jamais jogaram profissionalmente em seu país, faz algum sentido apelar ao seu sentimento patriótico? Que patriotismo se pode esperar de uma seleção como a suíça, cuja metade do elenco não nasceu na Suíça? Nesse nosso futebol globalizado, em que temos franceses com nome de Mbappé e Pogba, belgas chamados Chadli e Fellaini, e russos com sobrenome Fernandes, e em que um jogador de futebol troca de nacionalidade como troca de camisa, ao sabor de seus interesses financeiros, que sentido tem falar em pátria de chuteiras, pintar a rua com as cores da bandeira, pôr a mão no peito na hora de cantar o hino?

É claro que é legal torcer pela Seleção, é legal ver o Brasil vencer, embora eu ache um exagero suspender as atividades profissionais na hora do jogo, mas a vitória ou a derrota do nosso escrete não muda nada em nossa vida diária, não resolve nossos problemas, nem os pessoais nem os nacionais. E parece que o nosso povo está se conscientizando disso, tanto que hoje o futebol já não cria uma cortina de fumaça sobre a nossa política nem é mais o ópio do povo como em tempos passados — talvez pela própria falta de entusiasmo que nossa atual seleção ancelótica produza. Quem está desesperançado com os destinos da nação não gasta mais dinheiro com pincel e tinta verde e amarela nem perde de vista a crise moral em que vivemos. Hoje a imagem de um Neymar rolando no gramado combalido de dor já não nos comove mais, pois sentir dor ganhando milhões é bem diferente de sentir dor na fila do SUS.

Faz tempo que eu deixei de ver a Seleção Brasileira de Futebol como o exército do meu país me defendendo no campo de batalha. Se nem os exércitos de verdade representam nações, mas antes governos, como poderia um grupo de esportistas muito bem remunerados e recrutados por uma entidade privada para competir num evento promovido por outra entidade privada representar nosso povo? Claro que eu torço pela Seleção. Mas em nenhum momento deixo que esses sentimentos se misturem com o que sinto pelo Brasil como país. E jamais desvio minha atenção daquilo que realmente importa em minha vida, em nossas vidas.

Justiça, Direito e Poder Judiciário

É muito comum no Brasil chamar o Poder Judiciário de Justiça, como quando dizemos “vou entrar na Justiça contra você”. Aliás, o próprio Judiciário se intitula Justiça quando denomina uma corte “Tribunal de Justiça”. No entanto, faço questão de não confundir três conceitos distintos que muitos entendem como sinônimos: a Justiça, o Direito e o Poder Judiciário.

A justiça é um sentimento nobre, que, como disse Ruy Barbosa, todos trazemos de berço, já que até uma criancinha sofre quando é injustiçada. Já o Direito é um conjunto de dogmas criados pelos juristas a partir daquilo que eles supõem ser o justo (e que muitas vezes não é) com base em tratados filosóficos, alguns muito antigos, e na moral vigente (no nosso caso, totalmente permeada de valores cristãos, que não são os de todos os cidadãos). Em outras palavras, o Direito não é uma ciência nem se vale dela — embora os formados em Direito sejam bacharéis em ciências jurídicas e sociais. Por essa razão, sustenta preceitos anacrônicos como o rousseliano “todo homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”, já fartamente desmentido tanto pela neurociência e pela psiquiatria forense quanto pela antropologia. E, assim, dá uma segunda chance até mesmo a criminosos com extensíssima ficha criminal e mesmo psicopatas e serial killers. Da mesma maneira, os juristas jamais consultam a opinião pública para checar o que o cidadão comum, que sofre injustiças todo dia, entende como justo.

Quanto ao Poder Judiciário, em muitos casos não há nada mais distante da justiça do que ele. Especialmente no Brasil, em que juízes vendem sentenças, brigam por penduricalhos imorais, chamam um salário de 100 mil reais de “escravidão” e ainda dão carteiradas nos pobres mortais, assim como ministros do Supremo fazem negócios nebulosos com gangsters travestidos de banqueiros, fica difícil chamar o Judiciário de Justiça, mesmo que como força de expressão. Mas o problema não está só no Brasil. Até mesmo em países sérios, em que magistrados corruptos são raros, o Poder Judiciário não está realmente empenhado em buscar a verdade e fazer justiça e sim em cumprir ritos processuais burocráticos, bem como uma legislação injusta porque feita por legisladores que, como políticos, prezam mais seus interesses pessoais e partidários do que o bem comum. Como resultado, temos a odiosa prescrição, segundo a qual, depois de alguns anos, o crime deixa de ser crime e o criminoso deixa de ser criminoso. Ou a anulação de provas ou do próprio julgamento e o arquivamento de processos por questões meramente técnicas e não pelo mérito da questão em si. E é isso que permite a advogados tão espertos quanto inescrupulosos (e, as mais das vezes, muito bem pagos) realizar suas chicanas para absolver criminosos ou condenar inocentes. E o que dizer da infinidade de recursos que esses causídicos impetram, e que a lei permite, para levar o processo à prescrição? E a recusa dos tribunais em fazer justiça apenas porque um documento probatório foi entregue fora do prazo, como se a burocracia estatal fosse mais importante que a verdade?

Além disso, como falar em justiça quando não há paridade de armas entre um trabalhador humilde assistido por um defensor público ou advogado dativo que processa uma empresa poderosa e seu bem remunerado departamento jurídico? Há justiça quando quem pode pagar por um bom advogado tem vantagens como as próprias relações nada éticas entre esse advogado e o juiz, estabelecidas em trocas de favores, jantares, passeios de iate e viagens internacionais? Há justiça quando os ministros da Suprema Corte são indicados pelo presidente da República por afinidade política ou até religiosa, mesmo sem ter as qualificações necessárias ao cargo, como o nosso malfadado José Messias?

É por essas e por outras que nunca me refiro ao Judiciário como Justiça. É por essas e por outras que confio na justiça, mas não nos juízes. E não acredito no Direito, porque ele é criado em gabinetes acarpetados e com ar condicionado por pessoas que nunca sofreram na pele a dor da injustiça.

Sobre o ateísmo dos cientistas

Muitos cientistas são ou foram declaradamente ateus. Sobretudo os grandes. Mas também há cientistas confessamente religiosos. Não vou citar os antigos, como Newton ou Galileu, por exemplo, pois naquela época a ciência apenas engatinhava, a religião ainda era a principal forma de explicação da realidade e a Igreja era implacável com quem não seguisse seus preceitos. Mas ainda hoje há cientistas cristãos, judeus, muçulmanos, embora a maioria deles tenha o bom senso de não misturar suas convicções religiosas com sua pesquisa.

Mas o ponto que quero considerar — e que talvez explique essa divergência de atitudes — é que há dois tipos de cientistas: os técnicos e os pensadores. Cientistas que chamo aqui de técnicos são geralmente os experimentalistas e aplicativos, que realizam experiências em seus laboratórios, fazem descobertas notáveis, as mais das vezes buscando soluções para grandes problemas, mas em geral não se indagam sobre o porquê de os fenômenos ocorrerem como ocorrem. Pesquisadores em áreas como química, medicina, computação e economia costumam ser assim. Já os cientistas pensadores costumam ser os teóricos, aqueles que se debruçam sobre os resultados das pesquisas experimentais para buscar justamente a explicação sobre como e por que as coisas são como são e que desejam achar respostas às grandes perguntas existenciais. Certa vez escrevi que os primeiros fazem ciência (com “c” minúsculo) e os segundos fazem Ciência (com “C” maiúsculo).

Essa postura de busca de uma explicação lógica, racional e naturalista para a realidade é o que os faz questionar os dogmas e as ideologias. Esses pesquisadores são verdadeiros filósofos, que escrevem livros para o grande público explicando a ciência e, no passado, foram os que mais sofreram a perseguição da Santa Inquisição (que de santa não tinha nada).

No primeiro grupo eu colocaria nomes como Albert Sabin, inventor da vacina contra a poliomielite, Alexander Fleming, criador da penicilina, Christian Barnard, cirurgião que realizou o primeiro transplante de coração, Michael Faraday, descobridor das leis do eletromagnetismo, dentre outros. Este último, por sinal, era um fervoroso protestante anglicano. Muitos desses cientistas atribuíam a causa de suas descobertas e mesmo seus próprios dons de investigadores a Deus. Para eles, a ciência era um instrumento de descrição da criação divina.

Já no segundo grupo eu coloco Charles Darwin, Albert Einstein, Sigmund Freud, Carl Jung, Max Planck, Carl Sagan, Richard Dawkins, Stephen Hawking, Steven Pinker, Daniel Dennett, Jared Diamond, Noam Chomsky, Marcelo Gleiser (para citar um brasileiro)… A obra desses cientistas não apenas descreve o funcionamento do Universo, da vida, da mente humana, mas busca a explicação última das questões fundamentais da humanidade: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, por que existe a realidade ao invés do nada, e assim por diante. E fazem isso sem jamais recorrer à “explicação” fácil mas errada (e ingênua) das doutrinas religiosas.

Há, no entanto, um tipo de cientista técnico que às vezes se aventura a ser um pensador sem ter o estofo suficiente para tanto. Cito particularmente o caso de Francis Collins, o famoso geneticista americano que sequenciou o genoma humano. Como excelente técnico que é, ele empregou os métodos mais modernos para realizar seu feito. E foi tecnicamente irrepreensível. No entanto, crente devoto que também é, interpretou o código genético como a assinatura do deus judaico-cristão em que acredita. E escreveu um livro chamado A linguagem de Deus, em que faz contorcionismos lógicos para adequar a molécula de DNA às Sagradas Escrituras, tal como Tomás de Aquino conformou (e sobretudo deformou) a lógica de Aristóteles à doutrina cristã.

Assim, os grandes pensadores da ciência são levados ao ateísmo ou, pelo menos, ao agnosticismo na medida em que conciliam os dados empíricos obtidos pelos cientistas técnicos ao raciocínio lógico, ao pensamento racional, ao mergulho filosófico que seu conhecimento lhes proporciona. Eles se dobram às evidências e se convencem de que as narrativas religiosas são simplesmente falsas. Portanto, vão ao mais profundo que a mente humana consegue ir em busca de respostas. Já os técnicos nadam mais perto da superfície. Nada contra pesquisadores que têm fé, desde que, ao fazer ciência, não embutam nela o viés metafísico, mas tenho para mim que esses serão sempre técnicos, nunca pensadores de fato.

O cancelamento de pessoas que prestaram grandes serviços à humanidade

Desde 2013, a síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo, foi renomeada para suprimir o sobrenome de seu descobridor, o médico austríaco Hans Asperger. Os motivos seriam dois: primeiro, a incorporação da síndrome ao espectro autista; segundo, a atuação do médico no regime nazista. De fato, Asperger colaborou com os nazistas, e muitas das crianças autistas que ele estudou foram depois mandadas para a câmara de gás. Mas alguns historiadores e biógrafos têm revisto sua atuação na medida em que, nas palavras do médico e historiador norueguês Ketil Slagstrad, “é muito fácil julgar um homem quando não é sua cabeça que está sob a mira de uma arma”.

O ponto em questão é que a vida e as convicções políticas de Asperger não invalidam sua inestimável contribuição à medicina. Mas a cultura do cancelamento, essa patrulha ideológica que muito se assemelha à antiga Inquisição, não perdoa. Tempos atrás, questionou-se o batismo do novo telescópio espacial com o nome do americano James Webb, diretor da NASA durante o icônico projeto Apollo, porque, segundo consta, ele era machista e racista.

Essa caça às bruxas promovida pela intolerância também vitimou o físico alemão Werner Heisenberg, fundador da mecânica quântica, que, apesar de opor-se ao nazismo, decidiu permanecer na Alemanha durante o governo de Hitler como forma de resistência, atitude que nunca lhe foi perdoada. Assim eu pergunto: deveríamos jogar fora toda a física quântica e os avanços tecnológicos que ela tem proporcionado porque seu fundador trabalhou para o governo nazista? Seguindo essa lógica, deveríamos lançar ao lixo a obra e a memória de Jorge Amado, Oscar Niemeyer ou Vladimir Herzog porque pertenceram ao Partido Comunista? Ou a de Nelson Rodrigues porque simpatizava com a ditadura militar? Será que devemos cancelar Chico Buarque, sua música e sua poesia porque ele apoia o regime cubano (embora goste de passar as férias em Paris e não em Havana)? Ou quem sabe Gilberto Gil por ter sido deputado pelo fisiológico MDB e ministro do “comunista” Lula? Deveríamos cancelar Aristóteles, base de todo o pensamento ocidental, porque ele tinha escravos — ou melhor, escravizados — e lecionou para o sanguinário Alexandre o Grande? Devemos ignorar o grande ator Tarcísio Meira porque ele criava gado de corte em sua fazenda?

Como disse Jesus, quem for livre de pecado que atire a primeira pedra. (Aliás, só estou citando Jesus aqui enquanto ele ainda não é cancelado.)

O maior país do mundo, parte 2: o retorno

Algumas semanas atrás, em outra postagem, comentei o chauvinismo brasileiro de achar que o nosso país é o maior do mundo em tudo e que por isso merecemos particular deferência por parte das outras nações. O fiasco do filme O agente secreto na cerimônia do Oscar deste ano e as subsequentes reações furiosas dos brasileiros comprovaram minha tese. Não que o filme e os atores não tenham lá os seus méritos: o simples fato de terem recebido várias indicações ao prêmio já é louvável por si só. Mas a realidade é que o clima de já ganhou, que também antecede as participações brasileiras em copas do mundo de futebol, mais uma vez impediu que a competição fosse encarada com serenidade e, sobretudo, humildade. O Brasil entrou na disputa de salto alto, como se o troféu já fosse seu por direito e, tal qual na Copa do Mundo, caiu antes do término. Sim, o filme, pelo que dizem (eu não o assisti), é muito bom, e a atuação de Wagner Moura estava impecável, mas havia outros tantos bons concorrentes, e o Brasil já havia ganhado o prêmio no ano passado, o que tornaria uma dobradinha pouco provável.

Mas o mais revelador de nosso bairrismo inveterado foram os comentários indignados na internet após a perda do Oscar. Comentários que foram desde a descredibilização do júri (a velha insinuação de que houve roubo) até o menosprezo pelos vencedores, como se eles não tivessem merecimento. Sobre o ganhador do Oscar de melhor ator, Michael B. Jordan, houve até comentários desprovidos de senso de ridículo como um que dizia: “Michael B. Jordan não é bem-vindo aqui em Xique-Xique, Bahia” (como se esse ator tivesse alguma intenção de um dia visitar Xique-Xique, coisa que nem os brasileiros têm). Outros tantos comentários enalteciam o “molho” do nosso povo como se isso fosse justificativa suficiente e indiscutível para fazer jus o prêmio.

Enfim, há muitos países no mundo que jamais ganharam um Oscar ou um campeonato mundial de futebol e têm, no entanto, muito mais razões para se orgulhar do que nós: educação de altíssima qualidade, baixíssima corrupção, alto desenvolvimento científico e tecnológico, grande importância geopolítica, e assim por diante. Enquanto isso, tal como Donald Trump, nos comportamos igual criança de quinta série despeitada quando contrariada: “Não ganhamos o Oscar? Bela porcaria, nós nem queríamos mesmo!”.

A nova ditadura

Nos anos 1960 e ’70, vivíamos sob a ditadura militar, com seu autoritarismo arbitrário e sua censura, que decidiam o que podíamos ou não podíamos dizer, que palavras podíamos ou não podíamos empregar, de que assuntos podíamos ou não podíamos tratar. O regime militar acabou, mas hoje vivemos uma nova ditadura, em que não são os militares e sim as mídias sociais e seus algoritmos que decidem o que podemos ou não dizer. Assim como nos tempos dos milicos tínhamos de exercer a autocensura para não ter problemas com a polícia e usar de metáforas para falar de temas proibidos, hoje precisamos mascarar palavras como M0RT3 ou 35TUPR0, ou então chamar manifestações contra o governo Trump de “festival de música”, como fizeram muitos manifestantes em Los Angeles em meados do ano passado. Criticar governos, apoiar palestinos, postar conteúdo pró-LGBT (e também anti-LGBT) é certeza de perder monetização ou mesmo ter seu conteúdo tirado do ar. E, bem nos moldes d’O processo de Kafka, não adianta recorrer: as redes nunca revelam a razão de sua censura, limitando-se a um lacônico comunicado “você infringiu as normas de conduta da plataforma”, normas estas que nunca estão suficientemente claras ao usuário.

O absurdo é que, por exemplo, vídeos de denúncia que expõem maus-tratos a animais são derrubados sob a alegação de que as plataformas não permitem a exibição de tortura. Ora, o algoritmo, burro que é como toda máquina, não sabe distinguir entre a apologia e a denúncia aos maus-tratos. E situações semelhantes se repetem em relação a outros temas sensíveis.

A diferença entre a ditadura tradicional e a algorítmica é que os inquisidores humanos podem ser sensibilizados por seus interrogados se perceberem que estes não são terroristas ou subversivos e que agiram de boa-fé — ou mesmo nem agiram, foram presos por engano —, ao passo que as plataformas digitais não permitem questionamento (como questionar um robô?), e os funcionários humanos das redes focam exclusivamente no lucro, não na justiça.

Mas há também outro tipo de censura: a ideológica. Hoje, sob o pretexto de serem preconceituosas ou contrárias à democracia, muitas postagens são retiradas do ar por ordem judicial, mesmo que as falas, ainda que moralmente indefensáveis, não configurem nenhum crime. Não só as big techs e seus algoritmos como também a própria opinião pública dominante nas redes lincha moralmente quem pensa diferente, transformando o que deveria ser debate em pensamento único, característica típica das autocracias. Viva o admirável mundo novo!

A política do ódio

Todo extremismo tende a aceitar, ou até mesmo defender, a violência como método. Vemos isso no Irã dos aiatolás, na Venezuela de Maduro, no Brasil da ditadura militar (e de ambos os lados, tanto o do regime quanto o dos militantes socialistas). Mas percebo uma diferença crucial entre a extrema-esquerda e a extrema-direita: embora ambas achem legítimo o uso da força para impor sua visão de mundo, os radicais de esquerda parecem ser movidos por um fanatismo quase religioso, em que se sentem detentores do monopólio da Verdade (aquilo a que chamam “estar do lado certo da História”) e por isso acham justos assaltos a bancos, atentados terroristas, etc., em nome de sua causa, ao passo que os extremistas de direita são movidos por muito ódio — ódio à democracia, ódio às liberdades individuais (exceto as suas, é claro), ódio às minorias, ao meio ambiente, aos animais…

Noto um traço comum a todos os direitistas radicais, como Jair Bolsonaro (que, diante de milhares de mortos pela covid-19, disse “e daí, não sou coveiro”), seu filho Eduardo, os ex-deputados Daniel Silveira, Roberto Jefferson e Carla Zambelli (a qual responde a uma gozação com uma arma em punho), Donald Trump, J. D. Vance, Pete Hegseth, Kristi Noem (a xerifa do ICE, que executou a tiros seu próprio cachorro), e muitos outros: o amor que esses indivíduos têm às armas (as portadas por cidadãos comuns e as usadas nas guerras, que eles adoram promover) tem o mesmo tamanho do desprezo que eles têm pelos mais pobres e desprotegidos, por todos aqueles que para eles são losers (“perdedores”, em inglês), incluindo animais indefesos como o cãozinho Orelha. Para eles, só o dinheiro e o poder importam, e tudo o que atrapalhe o seu projeto político deve ser eliminado, inclusive pessoas. Para isso, não hesitam em lançar mão de mentiras e de apontar para um suposto inimigo (os judeus na Alemanha nazista, os imigrantes na América de hoje, os intelectuais, os artistas, as mulheres, os gays, e assim por diante). E, para combatê-los, não bastam as medidas legais, é preciso acrescentar muita truculência. O radicalismo que se esconde sob o eufemismo de “conservadores” é turbinado por pura maldade.

A extrema-direita é basicamente composta por pessoas más, perversas, cruéis, sádicas. Pessoas que não apenas querem prender ou banir seus alegados inimigos, mas querem antes humilhá-los e torturá-los, como o latrocida que não se contenta em roubar, mas precisa matar, mesmo depois de já ter obtido o que desejava.

Não que todas as pessoas desalmadas e sem empatia sejam de extrema-direita, mas penso que todos os militantes e simpatizantes dessa ala são abjetos, desalmados, pérfidos. O extremo direito do espectro político é o lugar ideal para brigões, encrenqueiros, grosseirões e também para sociopatas de toda ordem. O crescimento dessa corrente no mundo inteiro acende um alerta: pessoas comuns, que não têm necessariamente perfil antissocial, estão aderindo a essa facção por ignorância, falta de cultura política — e geral — e crença ingênua em falsos profetas que prometem soluções milagrosas, o que as torna mera massa de manobra nas mãos de canalhas. Pior do que quem pratica o mal é quem nele consente.

O senhor, a senhora

Não gosto de ser tratado por senhor. Nunca gostei. Mas, depois de uma certa idade, tenho gostado menos ainda. Quando criança, aprendi que deveríamos tratar os mais velhos por senhor ou senhora em sinal de respeito. Quando se é criança, mais velhos são todos os adultos, inclusive os de 18, 19 anos. E o respeito aos mais velhos é um princípio basilar da civilização. Afinal, o primeiro fundamento de uma sociedade organizada é o respeito à autoridade, começando pelos próprios pais. Portanto, não respeitamos nossos pais por serem mais velhos que nós, mas por serem hierarquicamente superiores. Embora a palavra senhor provenha do latim senior, que significa “mais velho”, a ideia é que senhor é aquele que tem poder: senhor de si mesmo, senhor de escravos, senhor feudal, assenhorear-se… No entanto, sempre tratei meus pais por você e nunca faltei ao respeito com eles. Em contrapartida, parlamentares se tratam por Vossa Excelência mesmo quando se xingam e se acusam de corruptos.

É por essa razão que tratamos por senhor aqueles que têm autoridade política, administrativa ou intelectual: delegados de polícia, médicos, advogados, professores, nosso chefe, o diretor da empresa, e assim por diante. Também tratamos por senhor ou senhora pessoas desconhecidas, com quem não temos proximidade, desde que não sejam mais jovens que nós.

Assim, depois que passei dos 40 anos comecei a ser tratado por senhor por balconistas, manobristas, atendentes e todo tipo de prestadores de serviço, o que significa que esse tratamento tem a ver com idade, mas também com posição social. Aliás, hoje em dia, a etiqueta empresarial recomenda que todo cliente seja tratado por senhor mesmo que seja jovem. Também sou tratado por senhor por muitos de meus alunos, embora eu nunca tenha feito questão disso e, desde o primeiro dia de aula, os deixe à vontade para dirigir-se a mim como quiserem, desde que com respeito.

Mas a questão é que o uso dos pronomes de tratamento o senhor e a senhora encobre um certo etarismo. Afinal, somos quem somos desde que nascemos e até quando morrermos. Por que deveríamos ser tratados pelas pessoas de modo diferente só porque envelhecemos? Chamar alguém de senhor sem que haja um desnível hierárquico é uma maneira sutil de dizer “você é velho”. E por que deveríamos tratar os velhos de maneira diferenciada? Nas sociedades tribais e ágrafas, os velhos são os detentores do conhecimento ancestral, que passa de geração a geração; portanto, merecem respeito porque são a própria salvaguarda da continuidade da tribo e de sua cultura. Além disso, são os detentores do poder na tribo. Mas, na nossa sociedade “civilizada”, o velho é geralmente visto como alguém não produtivo, desatualizado, frágil, dependente, sem autonomia, “bananeira que já deu cacho” — enfim, numa palavra, alguém inútil, quando não um fardo que a sociedade tem de carregar. E numa sociedade que exalta a juventude, a vitalidade e a produtividade, o velho é a antítese de tudo isso.

É por essa razão que não gosto de ser chamado de senhor. Porque, mesmo já não tão jovem, sou ativo, produtivo, antenado com as novas tendências, e porque, como disse, o tratamento mais formal não necessariamente indica respeito e sim um preconceito disfarçado. É por isso também que não pretendo ser velho: quero ser vintage.

Receita para viver melhor (nos dias de hoje)

Hoje em dia, fala-se muito em qualidade de vida, mas o fato é que nossa qualidade de vida nunca foi tão ruim. Sem dúvida, há muitos fatores que deterioram ou mesmo podem dar cabo de nossa estadia neste planeta e são inevitáveis: poluição atmosférica (a menos que você viva no meio do mato), mudança climática, guerra nuclear, pandemias, criminalidade, domínio total dos seres humanos pela inteligência artificial… Mas há também muita coisa que podemos fazer para ter uma vida melhor, e não estou me referindo a ter uma alimentação saudável ou praticar exercícios físicos, o que, com certeza, também é muito importante. Refiro-me a certas atitudes que, nos dias atuais, são essenciais para preservar sobretudo nossa sanidade mental.

Primeiro, se você é uma pessoa seletiva, que gosta de ter conversas inteligentes sobre temas relevantes, afaste-se das pessoas tóxicas e sem conteúdo, que nada lhe acrescentam. Tenha um pequeno e seleto grupo de amigos (lembre-se, o importante é qualidade, não quantidade), de preferência com o mesmo nível cultural que você (mais um adendo: nível cultural é diferente de grau de escolaridade, hein!), que curtam as mesmas coisas que você curte e que sejam leais e sinceros, não “amigos da onça”. Quando você precisar, e também quando não precisar, eles estarão lá. E um lembrete: os amigos são a família que escolhemos ter. Vizinhos, parentes e colegas de trabalho não são necessariamente amigos; as mais das vezes, são ameaças.

Em segundo lugar, ouça boa música. Pagode, sertanejo, funk, forró, esqueça! Anitta, Marília Mendonça, Luísa Sonza, Pablo Vittar, MC Não Sei O Quê…, se você já ouviu falar, finja que nunca ouviu. Use uma plataforma de streaming para selecionar uma playlist que valha a pena ser ouvida. Ou, melhor ainda, compre um aparelho de som tudo em um e visite regularmente sebos de discos; há excelentes CDs e LPs por preço módico.

Tenha uma TV por assinatura (TV aberta, nem pensar!) e só assista a canais que veiculem cultura: filmes (de preferência mais antigos) que não sejam blockbusters, séries que não sejam pastelão ou bubble gum, música que não seja rap ou hip hop, viagens, culinária, ciência, história, literatura, debates de alto nível sobre temas da atualidade. Se bem que vai ser difícil achar canais assim, mesmo na TV a cabo. Mas tente.

Ainda falando sobre televisão, no intervalo comercial, tire o som ou mude de canal. Além de os anúncios estarem ficando cada vez mais irritantes, com trilha sonora de funk e locutores berrando, lembre-se: a publicidade visa aos interesses do anunciante e não aos seus.

Além disso, leia bons livros, tanto de ficção quanto de não ficção. Obviamente, Harold Robbins, Dan Brown, Paulo Coelho e best sellers em geral estão fora. Autoajuda e esoterismo idem.

Tenha nos seus telefones (fixo e celular) sistemas de bloqueio de chamadas; autorize apenas chamadas dos seus entes queridos. Pode bloquear o resto sem pena: o resto, no caso, é telemarketing ou golpes.

Por falar em celular, use-o o mínimo possível. Mantenha-o ligado apenas em horário comercial, das 9 às 18 horas; depois disso, esqueça que ele existe. Com as redes sociais, faça o seguinte (eu faço isso): no Facebook, só poste quando tiver algo realmente relevante para postar (o prato que você vai comer no restaurante não está incluído nesse quesito) e nunca veja o que os outros postam; com certeza é só bobagem. No Instagram, siga apenas quem é realmente importante para você e ignore os perfis patrocinados e as recomendações da plataforma; eles só fazem você perder tempo. Do TikTok, X e similares, passe longe. No YouTube, busque conteúdo semelhante ao que recomendei em relação à TV fechada.

Se for possível optar entre tecnologia digital e o bom e velho método analógico, escolha o segundo. No menu eletrônico, vá o mais depressa possível (e nem sempre é possível) para a opção “falar com atendente”; por mais ignorante que seja o rapaz ou moça do call center, pelo menos são humanos, portanto dotados de uma inteligência que nenhum robô, menu eletrônico, bot ou IA possui.

Se você mora em cidade grande, evite ao máximo sair de casa; o delivery existe para isso. Trânsito caótico, motoboys enfurecidos, fumaça de óleo diesel, buzinas, pra quê? Se precisar mesmo sair, chame um táxi ou uber; pelo menos, não será o seu retrovisor que o entregador por aplicativo vai destruir.

Outra coisa: não assista a telejornais nem leia sites de notícias: eles só o(a) deixarão deprimido(a). Visto que você não pode mudar o mundo, tomar conhecimento de suas mazelas só vai lhe fazer mal. Evite especialmente o noticiário de política, afinal já bastam os golpes que malandros comuns tentam lhe aplicar, que dizer dos malandros de colarinho branco?

Por falar em política, não assista à propaganda política na TV nem tome conhecimento dos candidatos. Vote nulo em todas as eleições. Mesmo que você decida votar num candidato honesto e com boas ideias, lembre-se: bons políticos são uma ínfima minoria e, mesmo quando eleitos, pouco ou nada podem fazer. Aliás, duvido que haja um número suficiente de bons políticos para preencher as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e as 81 do Senado. Portanto, os pilantras sempre serão maioria.

Ah, e se você é uma pessoa sociável, que gosta de puxar conversa com estranhos ou que é receptivo quando estranhos puxam conversa com você, fique atento: jamais discuta assuntos polêmicos, como religião ou Lula x Bolsonaro. Se o assunto descambar para tais temas, peça licença, finja que vai ao banheiro e desapareça.

Enfim, estes são alguns conselhos que eu dou de graça e princípios que eu mesmo pratico. Talvez eles não tornem sua vida melhor, mas pelo menos podem torná-la mais suportável. Boas festas!

A hipocrisia brasileira na COP-30

Nesta COP-30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, o Brasil pretende despontar como a grande liderança mundial na transição energética, na redução da emissão de gases de efeito-estufa e na defesa do meio ambiente. No entanto, uma série de fatos relativos ao nosso país indicam que talvez tudo não passe de hipocrisia. E não me refiro só à exploração de petróleo na Margem Equatorial, tão criticada por especialistas e por opositores ao governo Lula, embora essa seja uma contradição flagrante.

A questão, a meu ver mais profunda, é que diversas características peculiares do Brasil se colocam na contramão das propostas apresentadas na COP.

Em primeiro lugar, o Brasil sempre foi um país predominantemente agrícola. Até o final do século XIX, o único produto de exportação brasileiro foi o café, e 90% da população vivia no meio rural. Houve um primeiro surto de industrialização com a chegada dos imigrantes estrangeiros (o conde Francesco Matarazzo é um exemplo) e um segundo no governo Juscelino Kubitschek. Ainda assim, o carro-chefe da nossa economia ainda hoje é o agronegócio, que desmata florestas para criar gado — e os gases emitidos pelos rebanhos (acho que não preciso explicar por onde, né?) são uma das maiores causas da mudança climática —, além de despejar toneladas de agrotóxicos no solo, nos rios e nos lençóis freáticos. Em pleno século XXI, ainda somos um país eminentemente agrícola e, desta vez, donos de uma agricultura poluidora, que derruba e queima florestas, além de envenenar as águas. Enquanto isso, o governo (este e todos os anteriores) é refém da chamada bancada ruralista do Congresso, além de não fiscalizar devidamente o desmatamento ilegal, que até tem diminuído, mas continua existindo.

Por sinal, para atender ao escoamento de soja, o governo pretende construir a polêmica ferrovia Ferrogrão, interligando o Norte e o Centro-Oeste do país. Dizem as más línguas que esse empreendimento atravessará áreas de conservação, terras demarcadas e ainda atrairá mais garimpo ilegal às reservas indígenas.

Por outro lado, o Estado não constrói ferrovias onde elas são realmente necessárias. Contraditoriamente, nosso país, que tem uma matriz energética majoritariamente limpa, com sobra de energia hidrelétrica — e agora também solar, eólica e da biomassa — optou há décadas pelo transporte rodoviário de mercadorias e pessoas, desprezando os outros modais e, assim, queimando óleo Diesel e poluindo ainda mais o planeta, bem como encarecendo desnecessariamente os bens transportados. Isso sem falar de como ficamos reféns das greves de caminhoneiros.

Nossa ministra do meio ambiente, Marina Silva, fala muito em floresta de pé, como se meio ambiente se resumisse a florestas. Há muitas alternativas não poluentes à matéria plástica, algumas até mais baratas (até cerca de 50 anos atrás, quase nada era feito de plástico, e vivíamos muito bem, obrigado), mas nenhum governo e nenhum parlamentar são capazes de propor uma lei restringindo seu uso ao estritamente necessário e insubstituível.

Apesar de catador de resíduos ser uma das principais “profissões” no Brasil, haja vista o grande número de puxadores de carrinho em nossas ruas, apenas 2% de nosso lixo reciclável é efetivamente reciclado. E o que dizer dos lixões, que deveriam ter acabado 10 anos atrás, mas seguem firmes e fortes para alegria dos urubus?

Enfim, pode até haver no governo pessoas bem-intencionadas com relação à busca de soluções à emergência climática, mas, como se sabe, de boas intenções o Inferno está cheio.