O preconceito linguístico é um problema dos linguistas?

Um dos temas mais frequentes nos círculos linguísticos atualmente é a questão do chamado preconceito linguístico. O conceito, instituído por Marcos Bagno no livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, é definido como qualquer forma de discriminação a uma pessoa ou grupo pelo modo como fala. No entanto, o próprio Bagno reconhece que o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social, pois o que se discrimina não é propriamente o linguajar de certas pessoas e sim as próprias pessoas. Quando, por exemplo, censuramos os erros gramaticais (do ponto de vista normativo, bem entendido) de um falante de pouco estudo, o problema não é a fala desse indivíduo em si, mas o fato de que essa fala “rústica” é indício de uma origem pobre. Portanto, o problema não é a fala, mas a posição social do sujeito falante.

Não à toa, o preconceito linguístico se dirige as mais das vezes aos membros das classes mais baixas e aos cidadãos procedentes das regiões mais atrasadas economicamente. No caso brasileiro, seu alvo preferencial são os pobres em geral e os moradores da periferia em particular, os “caipiras” (isto é, habitantes do meio rural) e os nordestinos, em especial os migrantes para os grandes centros urbanos.

Nota-se isso mesmo em situações inocentes como um programa humorístico em que o caipira e o nordestino são sempre figuras cômicas, cuja fala é caricatural. De modo mais geral, todos temos a tendência a rechaçar aquilo que de nós é muito diferente, o que significa que os próprios interioranos e nordestinos podem ter preconceito contra os falantes urbanos do Centro-Sul do país.

Além disso, tendemos a estranhar e, no limite, rejeitar falas que se afastem muito do padrão gramatical, vocabular ou fonético da língua. (Sobre este último padrão já falei no artigo Qual o sotaque mais bonito? E o mais feio?.)

Mas, se o preconceito linguístico é, na verdade, preconceito social, quem deve se ocupar dele: os linguistas ou os sociólogos?

Existem muitos tipos de preconceito: o preconceito racial, ou racismo, o preconceito étnico ou de origem geográfica, que também é uma forma de racismo, o preconceito religioso, o preconceito sexual/de gênero, ou sexismo, e muitos outros.

Bem, o racismo como fenômeno social é objeto das chamadas ciências sociais (história, sociologia e antropologia, principalmente) e não da biologia, a quem o conceito de raça está mais intimamente ligado. Igualmente, o preconceito de origem geográfica não é objeto de estudo dos geógrafos, nem o sexismo é estudado pelos sexólogos, e menos ainda o preconceito religioso faz parte da teologia ou da ciência da religião. Essa constatação suscita a pergunta: por que os linguistas deveriam estudar o preconceito linguístico? A meu ver (e esta é uma posição estritamente particular minha), todo preconceito social, seja ele de raça, origem, sexo, religião, origem ou posição política, é um fenômeno a ser estudado pela sociologia, e o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social do qual a língua é só um índice.

Na verdade, há muito pouco de linguístico a ser estudado no preconceito linguístico: quando estudamos a fala dos menos favorecidos e dos grupos discriminados, nosso foco é a sintaxe, a morfologia, o léxico, a semântica e a fonética desses falantes – ou seja, a questão social propriamente dita não entra em linha de conta. Ao mesmo tempo, vemos que a maioria, se não a totalidade, dos trabalhos acadêmicos sobre preconceito linguístico pouco fala da língua em si e muito da condição social dos falantes e de seu sofrimento diante da discriminação.

O fato é que muitos linguistas não analisam simplesmente o fenômeno sob o ponto de vista científico (isto é, utilizando o chamado método científico), mas fazem militância político-ideológica, o que não tem nada a ver com o fazer científico. De fato, a ciência faz juízos de verdade, não juízos de valor. É claro que todo cientista é, antes de mais nada, um cidadão e, como tal, tem todo o direito de manifestar suas posições político-ideológicas e até partidárias, mas um trabalho acadêmico não é o melhor lugar para fazer isso.

Todos sabemos que há muito preconceito e mesmo violência fatal contra os integrantes do grupo LGBT, mas, se estes são reconhecidos por seus perseguidores pelo modo como se vestem ou gesticulam, seguramente não compete aos estudiosos da moda ou da gestualidade (no caso, os semioticistas) analisar esse triste fenômeno.

Evidentemente, o preconceito é fruto da ignorância. Mas, como também mostrei no artigo anterior, o preconceito, no sentido de prejulgamento, é um mecanismo de origem biológica que em muitos casos pode salvar nossas vidas. O exercício do preconceito no meio social é um resquício de nossa ancestralidade animal, que só a educação e a cultura podem ajudar a domesticar.

Por isso mesmo, todo ser humano tem o direito a ter seus preconceitos e a ser ignorante. O preconceito só se transforma em crime quando passa do simples sentimento de repulsa a alguém à violência física, psicológica, moral ou verbal, ou quando se traduz em cerceamento do direito alheio. É digno de nota que o preconceito linguístico nunca se traduz em crime. Pelo menos, eu nunca tive notícia de que alguém tenha sido espancado ou morto por falar português “errado”.

Mesmo em casos famosos, como o do linchamento moral do polêmico ex-ministro da educação Abraham Weintraub após este ter grafado “imprecionante” e “paralizar”, é preciso levar em conta que a crítica da mídia e de parte da população não se dirigiu ao nível cultural do ministro em si, mas sim à inadequação desse nível ao cargo que ele ocupava.

O preconceito linguístico pode ser de três tipos: gramatical, lexical e fonético. O preconceito gramatical é voltado contra os que falam “errado”, ou seja, aos que não se expressam segundo a norma culta. Só que, se quem fala errado não teve a chance de estudar, esse preconceito é injusto. Mas, mais uma vez, identifica-se a falta de estudo com a pobreza. Logo, o verdadeiro alvo do preconceito é a classe social e não a gramática do indivíduo.

Já o preconceito fonético e o vocabular se direcionam preferencialmente contra os que são de outra região ou estrato social e, por isso, têm vocabulário e pronúncia peculiares. Nesse caso, como afirmei no início, o preconceito não é contra a fala e sim contra a origem do falante.

A melhor forma de acabar com todos esses preconceitos ligados à linguagem é disseminar entre todos educação de qualidade: quando todos forem bem educados, o “erro gramatical”, especialmente o erro crasso, praticamente desaparecerá. Quando todas as regiões do país forem igualmente desenvolvidas, o preconceito contra o modo de falar desta ou daquela região também será bastante mitigado – a não ser, é claro, naquelas brincadeiras saudáveis e desprovidas de maldade em que paulistas gozam a cara de cariocas e vice-versa.

As raízes biológicas do preconceito

Vê-se, nos dias atuais, um grande esforço em prol da inclusão social, por meio de campanhas educativas, ações afirmativas, valorização da diversidade, repressão à intolerância, adoção de cotas para minorias, e outras. No entanto, por mais que se tente combatê-lo, o preconceito segue firme e forte em todas as sociedades, das mais primitivas às mais desenvolvidas.

Discriminação por motivos étnicos, raciais, religiosos, sociais e até linguísticos parece uma chaga longe de ser superada.

A explicação para esse comportamento pode estar em nossa biologia. Estudos conduzidos de maneira independente em diversas universidades, uns com viés biológico, outros com foco psicológico ou social, apontam que a rejeição que sentimos pelo diferente pode ter sido moldada por milênios de evolução da espécie humana.

Para a bióloga Marta Fischer, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o preconceito é algo natural. “É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies”, afirma a especialista.

Como o homem é um ser gregário, o sentimento de pertencer a um grupo e, consequentemente, o impulso a rechaçar os elementos estranhos foi uma estratégia inteligente de sobrevivência numa época em que estávamos longe de dominar o planeta. Criar vínculos sociais com base em características semelhantes parece natural e é algo que transcende a espécie humana.

Segundo Marta, ao formarmos grupos, atentamos ao que nos aproxima de determinados indivíduos e que nos diferencia dos demais. “Assim, a discriminação ajuda a manter a identidade e união do nosso grupo. Isso nada mais é do que o preconceito. Um animal com cheiro ou aparência distinta dos demais de sua espécie pode chamar a atenção de predadores. Isso faz com que seja discriminado, abandonado ou até mesmo morto por alguém do grupo.”

Em Prejudice, its social psychology (Preconceito, sua psicologia social), Rupert Brown, professor de psicologia da Universidade de Sussex, descreve várias experiências sugerindo que superestimamos características que fogem da normalidade, especialmente em relação a minorias. “Coisas menos comuns que a média, ou que acontecem raramente, parecem atrair uma parcela desproporcional da nossa atenção e são lembradas mais facilmente. Esse fenômeno pode dar origem a estereótipos.”

Segundo uma pesquisa americana, bebês de menos de dois anos usando a mesma roupa tendem a não brincar com uma criança vestida com roupas de cores diferentes das suas.

O papel da evolução biológica na formação do preconceito é claro: toda vez que nossos ancestrais pré-históricos ouviam um barulho estranho, imaginavam algum perigo iminente, como um predador, por exemplo, e tratavam de se proteger. Poderia não ser nada, apenas o vento entre as folhagens, mas, como diz o biólogo britânico Richard Dawkins, um falso positivo pode ser apenas perda de tempo; já um falso negativo pode significar a morte. Ou seja, a seleção natural favoreceu aqueles que tinham um olhar mais desconfiado sobre os outros à sua volta, isto é, os mais preconceituosos.

O mesmo raciocínio se aplica ainda hoje: se estou caminhando por uma rua escura e avisto um sujeito mal-encarado caminhando em minha direção, minha tendência natural – se eu for esperto, claro – é fugir dali. É bem possível que o tal sujeito não seja de fato um criminoso, mas vinha visão preconcebida sobre o seu caráter baseada em sua aparência pode, eventualmente, salvar a minha vida.

Dentre as várias formas de discriminação, está o preconceito linguístico. Esse termo, difundido por Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, denomina a aversão por aqueles que falam de modo diferente, especialmente as pessoas menos escolarizadas, por isso mesmo mais distantes do padrão linguístico, e as provenientes de rincões afastados dos grandes centros, cuja fala é mais regional. Em suma, pessoas que utilizam variedades linguísticas de menor prestígio.

Segundo Bagno, o preconceito linguístico encobre, na verdade, formas mais profundas de discriminação. O indivíduo cuja fala revela origem rural é identificado com traços como pobreza, ignorância, alienação, falta de polidez, de bom gosto, bom senso, cidadania… Ou seja, sua pronúncia e sua gramática nos levam a traçar um raio X — verdadeiro ou equivocado, mas de todo modo preconcebido — dessa pessoa. E aí o preconceito linguístico se torna preconceito social, étnico, religioso ou racial.

Mas, se o preconceito, seja linguístico ou de qualquer outra natureza, existe e é um instinto biológico instalado em nossos genes, então a educação pode — como em relação aos nossos demais instintos —, no máximo, atenuar essa pulsão, jamais eliminá-la: até as pessoas mais cultas e conscientes do problema deixam extravasar, em momentos de descontrole emocional (quando aflora o “instinto animal”), sua ira contra o diferente, em especial se este é visto como inferior.

No caso específico da língua, o preconceito tem duas vertentes: uma de índole grupal e chauvinista, resquício de nossa herança tribal, e outra social, ligada à dinâmica da vida numa sociedade estratificada.

De um lado, o falante reage positivamente a quem se expressa como ele (há imediata identidade: se ele fala como eu, é porque é igual a mim) e negativamente a quem fala de modo diferente. A lógica subjacente, ainda que inconsciente, é: pessoas de outras regiões, classes sociais, credos religiosos, modos de vida não podem me compreender, nem eu as compreendo, então eu as vejo com desconfiança.

De outro lado, há uma tendência a valorizar o que pertence às classes sociais mais elevadas. Assim, tudo o que foge ao padrão, à norma, ao bom uso da língua deve ser rechaçado.

Embora essa postura seja de fato um preconceito e, como tal, seja injusta na maioria das vezes, é um dado real com o qual se tem de lidar. É preciso ter claro que ações educativas ou coercitivas podem reduzir o problema, mas dificilmente erradicá-lo, já que suas causas são biológicas.

Nesse sentido, muitos trabalhos teóricos têm equivocadamente enfatizado os aspectos sociais da questão — alguns linguistas, como Marta Scherre, da Universidade Federal do Espírito Santo, chegam a defender a criminalização do preconceito linguístico — quando seria mais proveitoso unir as teorias da linguagem aos conhecimentos da biologia, psicologia e neurociência para compreender melhor o fenômeno e saber até que ponto somos ou não capazes de combatê-lo. A ciência deve primeiro conhecer os fatos para depois julgar os valores.

Brasil il il il il!!!

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DISCLAIMER:

Atenção, haters, este artigo contém altas doses de ironia. (Caso você não saiba o que é ironia, consulte um dicionário; caso você não saiba o que é um dicionário, nem se dê ao trabalho de ler o texto abaixo – se é que você consegue.
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Talvez por causa de nosso complexo de vira-latas, nós brasileiros temos a mania de querer ser os melhores do mundo em tudo. E assim vamos criando nossa mitologia: melhor futebol do mundo, maior carnaval do planeta, o povo mais simpático, acolhedor e cordial de todos, a melhor música popular, a modelo mais famosa, o maior campeão mundial de fórmula um…

Pois bem, em matéria de covid também estamos mostrando a que viemos. Começamos timidamente e, “comendo pelas beiradas”, chegamos ao segundo lugar no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos (mas aí também é covardia, afinal o país mais rico e poderoso tinha de ser o primeiro; os EUA são hors-concours, ainda mais com Trump à frente). Portanto, diante dessa superpotência, nosso segundo lugar tem gosto de primeiro, ou, como diria o técnico da seleção de 1978 Cláudio Coutinho, somos os “campeões morais” dessa competição.

E não é que, de repente, sem aviso, na semana passada a Índia nos ultrapassou em número de casos? Também, com uma população de mais de um bilhão de habitantes, fica difícil concorrer. Mesmo assim, o valente povo brasileiro não se dá por vencido. Tanto que ainda detemos o segundo lugar em número de mortes, e este os indianos não vão nos roubar, ah não vão mesmo!

Foi com toda essa determinação que, mesmo com regras rígidas de isolamento e até lockdown, nossos patrióticos cidadãos saíram às ruas, lotaram bares, restaurantes, shoppings e praias, sem máscara e sem distanciamento social, mostrando que, em matéria de disseminação de epidemias, não somos nem um pouco amadores.

Também contribuíram muito para nosso sucesso os diligentes prefeitos, que, atendendo ao clamor popular – especialmente em ano de eleição –, flexibilizaram o distanciamento de maneira precoce e descoordenada. Afinal, quem é que pode viver sem ir ao shopping? E assim, sensíveis a essa necessidade básica e premente da população, liberaram o comércio de rua, os barzinhos, os parques, as praias e relaxaram a fiscalização para que esta não importunasse os beberrões e os boêmios.

Por falar em descoordenação, não podemos deixar de louvar nosso valoroso Presidente da República, que, com seu exemplo de não usar máscara em público, provocar aglomerações, rodear-se de criancinhas, passar a mão no nariz e em seguida cumprimentar apoiadores, de demitir ministros técnicos e substituí-los por militares e ainda de recomendar o uso de um medicamento sem qualquer eficácia contra a doença, contribuiu muito para insuflar nos brasileiros esse sentimento de que, se depender de nós, ganhar a corrida da covid será uma barbada.

Mas que fique claro que não fazemos tudo isso apenas pelo espírito de competição com outras nações do mundo, especialmente a do Tio Sam, mas porque temos a plena consciência de que precisamos a todo custo salvar as empresas e os empregos mesmo que isso custe algumas centenas de milhares de vidas. Afinal, a maioria dos mortos não é mais produtiva mesmo, já que se trata de idosos aposentados. Aliás, isso até aliviará as contas da Previdência – ou seja, matamos (literalmente) dois coelhos com uma só cajadada.

É bem verdade que sempre haverá os derrotistas e estraga-prazeres a dizer que vidas são mais importantes do que a economia, que nosso brilhante primeiro-mandatário se eximiu de responsabilidade em coordenar esforços contra a pandemia, culpando o STF e os governadores e prefeitos pelo nosso quadro atual, mas não liguem: essas pessoas são antipatriotas e torcem pelo nosso fracasso. Mesmo assim, tenho certeza de que essa momentânea reação indiana não nos desanimará: continuaremos dando nosso melhor, frequentando lojas, templos e baladas, fazendo festas clandestinas, dando carteirada nos fiscais chatos que insistem em cercear nossa liberdade civil e nosso direito democrático de sair à ruas sem máscara e disseminar a doença porque, afinal, somos brasileiros, e brasileiro não desiste nunca.

Ei, americanos, aguardem-nos que estamos chegando, e a corrida ainda não terminou!

Os cães e a comunicação

O que cachorros passeando têm a ver com a comunicação humana? Pois estava eu, certo dia, bem antes da pandemia, passeando na rua com os meus dois “filhos” de quatro patas quando me dei conta de que, guardadas as devidas proporções, cães e homens têm muito em comum, inclusive em seus interesses sociais. Durante um passeio, os cães basicamente farejam tudo à sua volta em busca de indícios da passagem de outros cães pelo mesmo local. Aliás, cachorros deixam seu rastro de xixi nos postes e troncos das árvores para marcar território, ou seja, para que outros animais saibam que eles passaram por ali. Quando um cão encontra outro na rua (e eles não se estranham logo de cara), é normal que um cheire a glândula anal e os órgãos sexuais do outro. Esse comportamento permite saber algo da vida do novo conhecido: se é macho ou fêmea, se é castrado, que tipo de alimento come, se é amistoso…

Ora, nós humanos nos comunicamos fundamentalmente pelo mesmo motivo – para saber da vida alheia. Algumas teorias sobre a origem da linguagem especulam, por sinal, que a aptidão linguística do homem teria se desenvolvido graças a uma prática cada vez mais comum no tempo das cavernas: a fofoca. Isso mesmo, a fofoca! Falar do outro – bem ou, principalmente, mal – sempre foi o nosso esporte preferido.

Pois a comunicação, especialmente a de massas, existe para nos informar da vida alheia – e não estou falando só das revistas e programas de mexericos sobre celebridades. Se pensarmos bem, tudo o que lemos, ouvimos ou vemos nos meios de comunicação nos conta o que os outros estão fazendo. Seja as notícias dos jornais, as entrevistas da TV e até mesmo as obras de ficção (porque nossa curiosidade sobre a vida alheia é tanta que mesmo a vida de personagens inventados nos interessa e prende nossa atenção), tudo nos mostra, voyeuristicamente, o que se passa com o outro. Parece que temos a crença de que a vida alheia é sempre mais excitante do que a nossa. Até quando descobrimos que a vida privada dos artistas também tem momentos de tédio, isso nos conforta e alivia o nosso próprio tédio.

Além disso, assim como os cães deixam suas marcas urinárias para que os demais saibam de sua existência, nós humanos temos uma necessidade muito grande de ser conhecidos. Aquela artista famosa que se queixa de não poder ir à praia em paz, tão assediada que é pelos paparazzi, está simplesmente blefando: ela fica realmente preocupada quando, por mais de duas semanas, não sai nenhuma nota sobre a sua pessoa na imprensa. Algumas celebridades até convocam os indiscretos fotógrafos para flagrá-las em situações íntimas – mesmo que depois ameacem processá-los por invasão de privacidade, ameaça aliás nunca levada adiante.

O fato é que precisamos desesperadamente saber da vida alheia, assim como precisamos que os outros saibam da nossa. Talvez até esta crônica seja, no fundo, uma forma de eu me mostrar. É, nós e os cachorros temos mesmo muito em comum…

Campanha da Rede Globo contra o racismo peca por ignorância

Por ocasião dos 132 anos da abolição da escravatura no Brasil, a Rede Globo acaba de lançar uma campanha contra expressões verbais consideradas racistas por conterem as palavras “negro” ou “preto” (ou suas flexões de gênero e número). O comercial consiste em omitir a palavra em questão em expressões consagradas na língua portuguesa – e que têm equivalentes em outras línguas –, substituindo-a por uma lacuna (o famoso underline, para quem é da geração digital). Temos então: a coisa está _____, não sou tuas _____, serviço de _____, ovelha _____, mercado _____, lista _____, e por aí vai. O problema é que boa parte dessas expressões não tem nenhuma relação com a raça negra, portanto não tem nada de racista.

Se, de fato, serviço de preto significa “serviço malfeito” porque feito por negros (na época da origem da expressão, escravos), e não sou tuas negas se refere às negras com quem o senhor de escravos se deitava, as demais expressões remetem ao negro como cor e não como raça.

Desde tempos imemoriais, o homem teme a escuridão – e na época das cavernas muito mais do que hoje –, afinal à noite o risco de ser atacado por predadores ou inimigos era muito maior. Da mesma forma, uma caverna escura poderia conter ameaças, desde um buraco até uma fera. Não por outra razão, o negro foi escolhido como a cor do luto, já que a escuridão evoca a tristeza e o medo do desconhecido. Evoca sobretudo o maior de nossos medos: a morte. Daí deriva também o uso da cor negra como símbolo de tudo que é negativo, nefasto e fora do padrão, assim como o branco sempre foi associado à pureza e à virtude. Se todas as ovelhas são brancas, o indivíduo que destoa de seu grupo só poderia ser uma ovelha negra – ovelhas azuis ou amarelas não surtiriam o mesmo efeito de contraste. A lista negra é a que contém os nomes dos indesejáveis, dos que não merecem confiança porque são impuros no caráter. O mercado negro é o comércio ilegal, clandestino, que opera às escuras, sem ser visto pela lei. “A coisa está preta” é mera alusão às nuvens negras anunciando tempestade, e assim por diante.

A maior parte dessas expressões nasceu na Antiguidade ou na Europa medieval, num tempo portanto muito anterior à escravidão negra na América e ao preconceito racial dela decorrente, num tempo em que os europeus praticamente não tinham nenhum contato com os africanos.

O que se passa é que a ideologia do politicamente correto promove uma caça às bruxas, tentando encontrar culpados a todo custo e criminalizando palavras e expressões que, em sua origem, não tinham nada de preconceituoso. Querendo combater o fascismo da sociedade, é o politicamente correto que se torna fascista, censurando qualquer um que não se comporte ou fale segundo sua cartilha. A seguir essa lógica, logo estaremos proibidos de escrever com caneta preta, e as mulheres não poderão mais usar vestido pretinho básico.

A intenção da Globo foi boa, mas de boas intenções o inferno está cheio. Nota zero para essa campanha, que demonstra ignorância da origem das expressões que condena!

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Acho que já contei essa história aqui, mas, em todo caso, vale repeti-la. Certa vez, eu estava dando aula enquanto um temporal medonho se avizinhava lá fora, com enormes nuvens negras, raios e trovões dignos de filme de terror. Olhei pela janela e disse aos alunos: “Pessoal, a coisa lá fora tá preta”. Nisso, uma aluna negra me interpelou dizendo que eu não deveria usar essa expressão, que eu deveria demonstrar mais respeito pelo holocausto africano, etc. etc. (Sim, meus amigos, em seu longo sermão ela usou o termo “holocausto” em relação à escravidão). Um tanto perplexo, eu não perdi a pose e voltei à janela, olhei para fora novamente e remendei: “Pessoal, me desculpem, eu quis dizer que a coisa lá fora está afrodescendente”.

Os excluídos da ciência

Minha especialidade, como todos sabem, é a linguística. E, como nem todos sabem, a linguística é uma ciência (a classificação “humanidades” que às vezes lhe é aposta não lhe faz justiça). Mais ainda, eu diria que é uma hard science, do mesmo nível de complexidade e de precisão na descrição de seu objeto que a física ou a biologia.

Mas o fato é que, como a pandemia de covid-19 colocou sob os holofotes mas também na berlinda a ciência em geral e a medicina em particular, como cientista que sou (e como professor de metodologia científica e orientador de pesquisas que fui durante vários anos), sinto-me autorizado e até mesmo instigado a falar sobre a ciência em geral e não só sobre linguística.

No meu artigo retrasado, falei sobre o renascimento da ciência, ou melhor, da credibilidade na ciência, em face do momento crítico que estamos atravessando. Mas é preciso reconhecer que, apesar de todos os sucessos que o trabalho abnegado de cientistas obteve nos últimos quatro séculos e, consequentemente, da substancial melhoria das condições de vida e da constante demolição de mitos que a ciência nos tem proporcionado, ela está longe de ser unanimidade, sobretudo entre as pessoas comuns, aquelas que têm da ciência apenas uma ideia vaga e, não raro, distorcida.

A religião, que os cientistas nunca consideraram sua inimiga (há até cientistas religiosos), mas que sempre teve a ciência e o pensamento lógico-racional como inimigos, ainda é muito forte e muito presente, principalmente nas sociedades menos desenvolvidas, com altos índices de pobreza e baixos níveis de escolaridade. Além dela, as bolhas produtoras de fake news das redes sociais também se comprazem em alardear informações anticientíficas, por vezes em tom catastrofista, por vezes em tom de escárnio.

É claro que a ciência jamais será unanimidade (diz o ditado popular que nem Jesus Cristo conseguiu atingi-la), mas o alto índice de desconfiança nas teorias científicas e nos alertas dos cientistas é, em grande parte, resultado da incompreensão da ciência pelo cidadão médio, muitas vezes até detentor de formação superior, mas ignorante do modo como a ciência funciona e de como as verdades científicas são construídas. E nesse ponto vale fazer um mea culpa: os próprios cientistas e professores são responsáveis em grande parte pela existência daquilo que Gabriela Prioli chamou de “os excluídos da ciência”.

De fato, a ciência não é fácil de entender porque a realidade que ela se propõe explicar não é simples. A teoria que descreve um fenômeno complexo, tentando ser fidedigna a esse fenômeno, também precisa ser complexa. Nesse sentido, aliás, as “explicações” religiosas são muito mais atraentes ao indivíduo leigo porque são fáceis de entender: tudo acontece por um passe de mágica ou um milagre divino (como Deus ou os deuses fazem para realizar esses prodígios a religião não explica nem os devotos perguntam). Mas a péssima educação científica de nossas escolas, que enfatiza mais o lado burocrático do que o criativo da pesquisa e se ocupa mais de fórmulas do que de ideias, além da complexidade do próprio discurso científico, contribuem para afastar os cidadãos comuns da ciência, embotando-lhes o interesse pelo assunto, o que é terrível se pensarmos que nossa vida é impactada todos os dias pela ciência e seu principal corolário, a tecnologia.

E, para completar, temos a indiferença dos próprios cientistas, mais preocupados em ter seu trabalho legitimado por seus pares do que em falar sobre suas descobertas ao público leigo, à grande massa. A meu ver, faltam em nossos cursos de formação de pesquisadores disciplinas voltadas à preparação de divulgadores científicos, de comunicadores sociais que, cientes do impacto de seu trabalho sobre a sociedade e também de que é essa sociedade que financia tal trabalho, sejam capazes de explicar o complexo em linguagem simples. Apesar das tecnologias digitais, às quais praticamente qualquer um pode ter acesso, ainda são muito poucos os cientistas que são também blogueiros, youtubers, colunistas de jornais e revistas, apresentadores de programas de TV ou conferencistas para o grande público. O prejuízo da sociedade com isso é enorme, pois, sem a informação correta, não podemos tomar decisões corretas sobre nossa própria vida. E aí damos mais ouvidos a quem não sabe mas acha que sabe (políticos, artistas, esportistas, participantes do BBB, sacerdotes, astrólogos, publicitários, o dono do bar da esquina) do que a quem de fato sabe.

A desconfiança dos leigos perpassa toda a história da ciência. Claro, as pessoas suspeitam e até têm medo daquilo que não entendem. Daí por que é tão importante fazer o maior número de pessoas, sobretudo as tomadoras de decisões, entender a ciência. Como ela, diferentemente das crenças e das opiniões – da doxa, diriam os gregos – é um conhecimento que se acumula e se aperfeiçoa com o tempo, fica ao leigo a impressão de que a ciência não sabe nada e de que os cientistas estão perdidos. O caso típico é a história do ovo, que no passado era tachado pelos médicos como um veneno para o nosso sistema circulatório e que hoje é considerado o alimento mais completo que existe.

Ocorre que as pessoas comuns querem respostas prontas e definitivas às suas dúvidas (e principalmente aos seus medos), e a ciência não tem tais respostas. É que a verdade científica, contrariamente à religiosa ou à política, é sempre provisória porque estamos sempre aprendendo mais e melhor sobre o mundo que nos cerca. A descrição do mundo natural feita por Einstein é melhor que a de Newton, que é melhor que a de Galileu, que é melhor que a de Aristóteles. E logo o mundo tal como desenhado por Einstein também será redesenhado por novas descobertas e novas teorias, que explicarão aquilo que as atuais não explicam. Portanto, o conhecimento científico é um conhecimento em permanente (re)construção. O máximo que a ciência pode dizer é que, neste momento, tudo o que sabemos aponta nessa direção. Dito de outro modo, a ciência aprende com seus próprios erros. Logo, ela não é infalível, mas não há nada que substitua a pesquisa sistemática e bem feita, o estudo do cientista submetido aos seus pares em revistas de grande peso e debatido em público. Em O mundo assombrado pelos demônios, o astrônomo americano Carl Sagan diz que ainda não inventaram nenhum método para chegar ao conhecimento melhor do que a ciência. O que equivale a dizer que a ciência é, das ferramentas de que dispomos atualmente, a que mais nos aproxima da verdade.

Mas o que é a verdade? Cada um tem a sua própria definição de verdade, e para a maioria das pessoas a verdade é aquilo em que elas acreditam. Ou seja, para o crente, sua crença não é crença, é “A Verdade”.

Na Idade Média, por exemplo, verdade era o que constava nas Sagradas Escrituras ou o que diziam o padre, o bispo ou o Papa. O argumento de autoridade era suficiente para legitimar uma afirmação como verdadeira.

Já a verdade científica é aquilo que pode ser provado – e já foi provado muitas vezes – e é assim independentemente de crermos nela ou não. A verdade objetiva é diferente da verdade pessoal (ou convicção) e da verdade dogmática (ou crença na autoridade), pois ela é verdade independentemente de qualquer outra coisa, inclusive do que pensemos a respeito dela. Eu posso não acreditar que a água ferva a 100 graus Celsius ao nível do mar, mas isso continuará a acontecer a despeito da minha descrença.

A ciência apresenta hipóteses verificáveis e as testa de maneira metódica. Se em muitos e muitos testes a hipótese se verifica e em nenhum ela falha, passa a ser uma teoria, isto é, uma verdade científica. A ciência, portanto, recusa o argumento de autoridade (isso é assim porque foi dito pelo profeta X ou porque está escrito no livro sagrado Y).

Ciência não é crença, é a percepção dos fatos concretos a partir da nossa observação e experimentação sistemática e controlada (isto é, em que fatores externos ao objeto investigado não interfiram em seu comportamento, conduzindo a conclusões erradas). E, como nossa capacidade de observação e experimentação são sempre limitadas, fica a impressão de que a ciência mais erra do que acerta. De fato, o que sabemos hoje pode estar baseado em dados incorretos ou, mais provavelmente, incompletos. Mas a ciência tem seu mecanismo de autocorreção, o que a religião, por exemplo, não tem. Por isso, ela insiste em seus dogmas mesmo quando há provas concretas contra eles.

Cientistas do passado erraram bastante (o heliocentrismo é um exemplo clássico), mas nem por isso seu trabalho deve ser jogado no lixo ou apontado como um fracasso da ciência. Eles construíram os degraus que permitiram que outros cientistas avançassem na escalada do conhecimento. O mundo como o conhecemos hoje é bem diferente da descrição que dele faziam no século XVI. Mas foi graças ao conhecimento do século XVI que chegamos ao conhecimento do século XXI. Caso contrário, ainda estaríamos na Idade da Pedra.

A cada dia, a ciência explica novas coisas, que até então só tinham uma explicação místico-religiosa ou achística. Opiniões, intuições ou supostas revelações divinas não podem contrapor o conhecimento científico. Nada é verdade porque eu acho que é, ou porque alguém que eu respeito muito disse que é, ou porque consta neste ou naquele site. Só um novo estudo científico, mais perfeito, com mais dados, mais variáveis e realizado com maior rigor pode contestar outro estudo. Portanto, não é um site, não é um estudo isolado, mas o consenso da comunidade científica que dita o que provavelmente é verdade. Por isso, um estudo só não basta. Uma pequena amostra não prova. A opinião de uma grande autoridade menos ainda.

O astrofísico americano Neil deGrasse Tyson disse: “Um dos grandes desafios deste mundo é saber o suficiente sobre um objeto para pensar que você está certo, mas não o suficiente para saber que você está errado”.

A ciência acima de tudo ensina a pensar (aquilo que o cidadão médio tem preguiça de fazer) e a questionar o que os outros dizem. A falta do hábito de questionar leva a indivíduos crédulos e facilmente ludibriáveis, seja por publicitários, vendedores ou líderes políticos e religiosos.

Sendo uma forma de pensar (a melhor delas, em minha opinião), a ciência também é uma forma de cultura, tanto quanto a arte, a filosofia, as humanidades e os esportes. Assim, a popularização científica tem o duplo papel de esclarecer as massas, ajudando-as a tomar melhores decisões e tirando-as da condição de excluídas do conhecimento – e do poder –, e de revelar ao homem uma visão de mundo e uma compreensão da realidade tanto quanto a literatura, o teatro, o cinema, a música, a filosofia, a psicologia e a religião. Pena que tão poucos cientistas se deem conta disso!

A observação, a experiência e o raciocínio lógico, partilhados com a sociedade, levam ao conhecimento, que leva à sabedoria.

O coronavírus e o renascimento da ciência

Se é que podemos dizer que há algo de positivo nessa pandemia de covid-19, é o retorno triunfante do pensamento racional, especialmente em sua forma mais elaborada, a ciência. A coitadinha andava desacreditada e com pouco ibope desde inícios do presente século, quando uma avalanche de tentativas de restabelecer os dogmas religiosos e ideológicos como verdades absolutas, chegando-se mesmo a lançar dúvidas sobre fatos cientificamente comprovados, como o de que a Terra é redonda e vacinas funcionam, passou a assolar a humanidade – principalmente sua parcela menos informada e mais temerosa do desconhecido, que ela erroneamente chama de sobrenatural ou de realidade transcendente.

Claro, a história passa por ciclos: já vivemos a Pré-História, o humanismo clássico da Grécia antiga, o obscurantismo da Idade Média, o novo culto do homem e da razão durante a Renascença e o Iluminismo, que desaguou no incrível avanço científico-tecnológico dos séculos XIX e sobretudo XX. Mas talvez a sordidez dos líderes políticos desse período, com seus campos de concentração, seus gulags e duas guerras mundiais, tenha levado certas pessoas a um desencanto com o racionalismo e, consequentemente, à busca do suposto transcendente.

No entanto, a crise do coronavírus está nos mostrando que somente a ciência pode nos tirar dessa encrenca em que nós mesmos nos metemos. Que me desculpem os terraplanistas e antivacinistas de plantão, mas o que vai nos salvar não são as preces do Papa nem o jejum do nosso Presidente da República. Aliás, as constantes e vexatórias derrotas que ele tem sofrido ao insistir em contrariar a ciência mostram que, se quisermos compreender pelo menos um pouquinho como a natureza funciona, não é nos livros sagrados que encontraremos as respostas – pelo menos não as verdadeiras.

Tudo bem, se você acredita que terremotos, tsunamis, pandemias e desastres aéreos são enviados por Deus para testar a fé dos homens e que, rezando para ele, você conseguirá escapar são e salvo, isso é problema seu. Mais do que isso, é um direito seu!

Porém, como diria Karl Marx, outro ideólogo dogmático, você pode saltar do vigésimo andar de um edifício e acreditar que, graças à sua fé, você sairá voando, mas infelizmente é no chão que você vai se arrebentar. Dito de outro modo, contra fatos não há argumentos.

É claro que a ciência, no seu atual estágio, não tem todas as respostas (e talvez nunca venha a ter, pois a própria mente humana tem seus limites), mas ela tem o método seguro que nos leva da dúvida à certeza. Mesmo que você não acredite no método científico (provavelmente não se trata de descrer mas de não conhecê-lo e compreendê-lo), não há nada que prove que as explicações metafísicas funcionam melhor. Senão, não teríamos hospitais, as igrejas dariam conta de tudo.

Também certas teorias pseudocientíficas, na verdade, dogmas disfarçados, precisam ser combatidos, como o de que o aquecimento global tem causas naturais, de que a culpa pela existência da pobreza é dos ricos, ou de que a desigualdade entre brancos e negros começou no século XVIII com a escravidão. Claro que é preciso eliminar a injustiça, bem como salvar o planeta, mas não é maquiando a verdade e apontando falsos culpados que conseguiremos isso.

Infelizmente, a crença em dogmas é inculcada no ser humano desde a mais tenra idade e em casa (quem nunca ouviu falar de papai do céu?). Já o ensino de ciência só começa bem mais tarde, na escola, é fraco, precário e sobretudo burocrático. Ou seja, é mais importante decorar fórmulas que cairão no vestibular do que compreender o método científico, com seus experimentos e observações, testes e refutações de hipóteses, até chegar a um conhecimento que, se não é completo, pelo menos funciona para nossas necessidades e avança cada vez mais.

Outro ponto que quero destacar é que mesmo as curas supostamente milagrosas não resistem a uma análise científica mais rigorosa. Ou seja, muitos santos do passado foram canonizados com base em “milagres” que hoje são perfeitamente explicáveis pela razão. É claro que o Papa nem cogita descanonizar essas pessoas, mas o fato é que os milagres de hoje serão os casos clínicos rotineiros de amanhã. Além disso, a religião se apega muito ao milagre que salvou uma pessoa, mas não ao descaso de Deus com os milhares de outras pessoas, que não receberam a graça divina.

Portanto, se lhe faz bem rezar, meditar, fazer rituais e frequentar cultos (virtualmente, é claro!), continue; não tenho nada contra isso. Mas, por favor, fique em casa, lave bem as mãos e, quando a vacina contra a covid-19 estiver disponível – e estará, pode confiar – não deixe de tomá-la. Não vale a pena apostar contra a ciência; o preço dessa aposta pode ser alto demais.

A (suposta) conspiração chinesa

Muitos anos atrás, meu pai me contava uma história que hoje parece fazer todo o sentido. Ele dizia que, no século XIX, a China era dominada pelo imperialismo europeu, especialmente britânico, e que os ingleses obrigavam o império chinês a comprar suas mercadorias, especialmente o ópio produzido na Índia, então colônia britânica. Mais do que isso, os ingleses forçavam o povo chinês a viciar-se em ópio, o que garantia o consumo e, consequentemente, a demanda pelo produto. Houve até duas Guerras do Ópio naquele século. Além de render lucro à Inglaterra, o ópio mantinha o povo chinês entorpecido e, por conseguinte, incapacitado de revoltar-se contra o domínio britânico.

Até que, no princípio do século passado, a China finalmente se libertou do jugo econômico europeu, e um de seus líderes, Sun Yatsen (ou Chiang Kaishek, ou Mao Tsetung, ou Xu Enlai, não me lembro) teria dito: “Um dia, nos vingaremos do Ocidente”.

O fato é que hoje correm paralelamente duas teorias sobre a pandemia de Covid-19 que assola o mundo. Uma, a de que o vírus surgiu espontaneamente de uma mutação ocorrida graças aos péssimos hábitos alimentares dos chineses (diz uma piada que a única coisa de quatro pés que chinês não come é mesa). De fato, o epicentro da contaminação parece ter sido um mercado de Wuhan onde se comercia todo tipo de animais silvestres, tanto vivos quanto mortos.

A outra teoria é a de que o vírus teria escapado – por acidente ou intencionalmente – de um laboratório de bioengenharia da mesma cidade, por sinal, próximo ao mercado.

Como sempre, logo surgiu uma “teoria da conspiração”, cujo enredo é o de que o governo chinês teria desenvolvido o vírus (e obviamente a sua cura) e o espalhado entre seu próprio povo a fim de que ele se disseminasse rapidamente pelo mundo e forçasse a paralisação da economia mundial, gerando uma crise econômica sem precedentes. Em tempos de fake news, este sim o vírus mais danoso da atualidade, passou a circular na internet um texto falsamente atribuído ao jornalista Alexandre Garcia, que transcrevo a seguir:

“1. Crie um vírus e o antídoto.

2. Dissemine o vírus.

3. Dê uma demonstração de eficiência, construindo hospitais em poucos dias. Afinal
você já estava preparado, com os projetos, a encomenda dos equipamentos, a
contratação da mão-de-obra, a rede de água e esgoto, os materiais de construção pré-
fabricados e estocados em um volume impressionante.

4. Provoque o caos no mundo, começando pela Europa.

5. Engesse rapidamente a economia de dezenas de países.

6. Interrompa as linhas de produção das fábricas de outros países.

7. Provoque a queda das bolsas e compre empresas a preço de banana.

8. Controle rapidamente a epidemia no seu país. Afinal você já estava preparado.

9. Abaixe o preço das commodities, inclusive o preço do petróleo que você compra em
larga escala.

10. Volte a produzir rapidamente, enquanto o mundo está parado. Compre o que você
negociou barato na crise e venda mais caro o que está em falta nos países que
paralisaram as suas indústrias.

Afinal, você leu mais Confúcio do que Karl Marx.

PS: Antes de rir, leia o livro dos coronéis chineses Qiao Liang e Wang Xiangsui, de
1999, “Unrestricted Warfare: China’s master plan to destroy America”, na Amazon,
depois a gente conversa. Está tudo lá.”

Essa teoria da conspiração ganhou ainda alguns outros condimentos, como a fala do líder chinês Xi Jinping de que “chegou a hora de a China liderar o mundo” (só que essa frase é de 2017) e blogs e vídeos falando sobre uma suposta Nova Ordem Mundial, em que a economia do planeta será capitalista mas monopolista, e os donos do monopólio serão os estados socialistas. Portanto, preparem-se porque em breve Cuba e a Venezuela dominarão o mundo!

Brincadeiras à parte, antevejo um futuro sombrio se o mundo for liderado por uma ditadura comunista como a China, mas não acredito que seja tão fácil assim derrubar os Estados Unidos e a Europa, mesmo com suas contradições internas. Também acho pouco provável que a maioria dos países do mundo, mesmo os periféricos, adote o socialismo como modelo político e econômico.

Não há dúvida de que o coronavírus pode representar uma oportunidade para a China ao mesmo tempo em que é uma ameaça às economias ocidentais, especialmente às mais frágeis, como a nossa. E, a meu ver, a China deve mais do que desculpas ao mundo, deve uma indenização pelos prejuízos causados; afinal, intencionalmente ou não, a pandemia é duplamente produto chinês, seja porque o vírus surgiu na China, seja porque o governo chinês, com sua habitual falta de transparência, tentou num primeiro momento ocultar a crise, chegando a perseguir – e, segundo a teoria conspiratória corrente, a matar – o médico que dera o alarme em primeiro lugar. A pergunta é: quem vai cobrar a China? Quem vai pendurar o guiso no pescoço do gato?

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Em tempo: o que foi aquele pronunciamento de Sua Excelência o Presidente da República na noite de ontem?!!

Feliz Ano Novo! Feliz?!

“Eu voltei, agora pra ficar…”. Pois é, amigos, brincadeiras à parte, andei sumido nos últimos meses. Na verdade, tirei um semestre sabático, seguido de férias e Carnaval, para resolver problemas particulares inadiáveis e também para preparar um superprojeto que vem por aí. (Aguardem, vocês vão se surpreender!)

E como no Brasil o ano só começa após o Carnaval (e o ano legislativo acaba mais cedo quando há eleições, isto é, ano sim, ano não), desejo a todos um feliz Ano Novo, embora eu tenha cá minhas dúvidas se este ano será realmente feliz. Desculpem-me o pessimismo, mas nestes meses em que andei ausente das mídias sociais observei e ponderei muita coisa que me deixou cético a respeito do futuro do Brasil e da humanidade.

Estamos vivendo uma era de extremos: no clima, na política, na economia, nas relações sociais, em tudo impera o extremismo. E tudo isso reforça minha convicção de que a virtude, mais do que nunca, está no centro. Ou, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Virtus in medio, como diriam os romanos.

Se os eventos climáticos deste século estão se mostrando cada vez mais extremos (chuvas torrenciais, calor e frio fora de hora, derretimento das calotas polares, morte de rios e oceanos, espécies sendo extintas, ar irrespirável em certas cidades), também são extremas as posições políticas em relação ao meio ambiente: de um lado, os ecoterroristas, que exigem a suspensão imediata de todas as emissões de carbono na atmosfera como se isso fosse possível a curtíssimo prazo sem causar uma catástrofe econômica e social no planeta de proporções jamais vistas; de outro, os negacionistas, para quem o aquecimento global é uma ficção criada pelos chineses ou pela esquerda anticapitalista.

Na política, tem-se o tempo todo que escolher entre uma extrema esquerda simpática às ditaduras socialistas e uma extrema direita reacionária e com pendores fascistas, saudosa dos Anos de Chumbo. Fomos jogados na pior crise econômica de nossa história por governos de esquerda corruptos, irresponsáveis e incompetentes. Mas o pior legado desses governos foi pavimentar o caminho para a eleição de um presidente da república ultraconservador, voluntarioso, inexperiente e de tendência autoritária.

Nesse cenário, quem pensa com ponderação, defende a liberdade com responsabilidade e acha que o equilíbrio está sempre no meio-termo é tachado por um e outro lado de “isentão”, alguém que não toma posição, que está sempre em cima do muro. Nesses meses todos, cheguei à conclusão de que em cima do muro é o melhor lugar para estar, pois de lá se veem os dois lados, ao passo que quem está de um dos lados do muro só vê seu próprio lado. Hoje, amigos de anos rompem a amizade e famílias se dividem por questões ideológicas. As redes sociais se tornaram antissociais, um mar de impropérios e insultos pessoais acobertados por um suposto anonimato. Hoje, mais do que nunca, os jovens são rebeldes sem causa, culpando a tudo e a todos por seu vazio existencial. Para a geração do mimimi, que meu amigo Eduardo Affonso lucidamente chamou de geração raudério, todos são vítimas, todos querem muitos direitos e nenhum dever, e tudo, absolutamente tudo, é ofensivo ou opressor.

Hoje, as pessoas ditas “normais” – isto é, as que representam a maioria esmagadora da sociedade – têm seu sexo biológico questionado, seus padrões morais e de comportamento estigmatizados e suas escolhas estéticas e de vida repreendidas. Em resumo, hoje ser normal é que é aberrante.

Também vi a pátria língua portuguesa, esse território que me é tão caro e em que há tantos anos milito, sofrer as mais absurdas intervenções, ser acusada de machista e opressora, como se mudar a língua mudasse a realidade.

Nesses tempos de petralhas, feminazis e bolsominions, vi a ascensão do terraplanismo, o triunfo da superstição sobre a ciência, o Carnaval politicamente correto, a China e seu principal produto de exportação, as epidemias. Mas, verdade seja dita, também vi o crescimento de causas que nos dão alguma esperança, como a da defesa dos animais e a do veganismo.

O fato é que, com tantos conflitos sem sentido e ódios exalando por todos os poros, o mundo simplesmente ficou chato. Como dizia meu pai, em mesa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Bom Ano Novo e até a próxima semana.

Os coletes amarelos, o Museu Nacional e os milionários

Neste último fim de semana, os chamados “coletes amarelos”, manifestantes contra o governo francês conhecidos pelos coletes usados em suas manifestações, voltaram às ruas de Paris, desta vez não para protestar contra o preço dos combustíveis e sim contra o fato de inúmeros magnatas – inclusive a filantropa e socialite brasileira Lily Safra – estarem doando vultosas quantias ao fundo de reconstrução da catedral de Notre-Dame em vez de usarem seu dinheiro para combater a fome no mundo, especialmente na África.

Esse protesto segue, à primeira vista, uma lógica bem-intencionada e humanitária, portanto digna de louvor, ao mesmo tempo em que exporia o egoísmo e a indiferença dos milionários, mais preocupados com edifícios históricos do que com pessoas. No entanto, um exame mais profundo da questão revela que, por trás desses protestos, há um misto de idealismo romântico e falta de uma melhor compreensão da nossa realidade mundial.

Imagine que você disponha de 88 milhões de reais, quantia doada a Notre-Dame pela Senhora Lily, e deseje acabar com a fome na África. O que você faria? Procuraria o presidente de algum país africano para oferecer-lhe a generosa doação? E quem você encontraria? Provavelmente, um ditador com uniforme militar e o peito cheio de medalhas, que está há décadas no poder vivendo uma vida de luxo enquanto seu povo passa fome. Você entregaria seu dinheiro a esse indivíduo?

Mas, vamos supor que, em vez disso, você crie uma organização encarregada de distribuir os recursos diretamente à população. Você poderia fazer duas coisas: entregar às pessoas carentes sua ajuda em forma de alimentos ou entregá-la em dinheiro para que as próprias pessoas comprassem seus alimentos. Isso acabaria com a fome e a miséria na África? A meu ver, certamente não. O que mais provavelmente aconteceria é que, uma vez gastos todos os recursos, o povo voltaria a passar fome. Na verdade, é isso que vem acontecendo há décadas com as doações feitas por países ricos aos países pobres, notadamente da África e da América Latina: ou caem nas mãos de tiranos corruptos, que gastam o dinheiro com luxo e ostentação pessoal, jamais em benefício de seu povo, ou são gastos em ações assistencialistas que dão o peixe, mas não ensinam a pescar.

O fato é que a África, especialmente a subsaariana, é pobre há milênios, jamais tendo assistido ao surgimento de alguma civilização. A maior parte da população africana não tem uma ideia clara do que seja o Estado, mais acostumados que estão com a noção de tribo. Por isso mesmo, os Estados africanos, em grande parte desenhados pelos colonizadores europeus, têm servido apenas para legitimar governos ditatoriais e corruptos. Com um quadro desses, a doação de dinheiro não é um investimento no futuro dessas populações, é simplesmente um gasto a fundo perdido. E os magnatas, assim como os líderes dos países ricos, sabem disso.

Outro argumento ingênuo é o daqueles que reclamam que os milionários, dentre os quais uma brasileira, estão colaborando com a restauração da catedral parisiense mas não com a do nosso Museu Nacional, consumido pelas chamas em setembro passado.

Mais uma vez, eu lhe pergunto: você teria confiança em entregar 88 milhões de reais nas mãos dos burocratas do Ministério da Educação? Nas mãos do reitor da UFRJ? Nas mãos do diretor do Museu Nacional? Nas mãos do governo brasileiro?

Que garantia você teria de que o seu dinheiro, uma vez entregue ao governo ou à Universidade curadora do Museu, seria realmente aplicado na reconstrução desse patrimônio? E como você, milionário capitalista, espera ser recebido e tratado por burocratas de esquerda, como o são os dirigentes da Universidade e do Museu, que declaradamente têm ódio e desprezo por capitalistas?

É por essas e por outras, que nosso Museu, assim como o povo da África, vai continuar por um bom tempo passando o chapéu – inutilmente.