Sobre os textos de Marcio Esteves que ninguém (ninguém?) lê

Meu amigo de Facebook Marcio Esteves publicou há dois ou três dias uma crônica-desabafo que expressa bem o absurdo do tempo que vivemos, turbinado pelo veneno das redes sociais. Eis o texto:

Sobre meus textos que ninguém lê…

Quando a política vira religião, o diálogo se torna heresia: o ad hominem e a cegueira moral do nosso tempo.

Nos últimos meses, uma nova leva de países — Canadá, Austrália, Irlanda, Noruega e Espanha, entre outros — reconheceu formalmente o Estado Palestino. Trata-se de um movimento diplomático que pretende, em tese, reforçar a solução de dois Estados. No entanto, esse reconhecimento foi feito sem condições prévias, mesmo com o Hamas ainda controlando Gaza, o que o transforma, inevitavelmente, em um ato politicamente delicado.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reagiu com veemência. Segundo ele, reconhecer um Estado palestino governado pelo Hamas equivale a premiar o terrorismo — um gesto que, em suas palavras, “recompensa o ódio e a tentativa de destruir os judeus”. Ele lembrou ainda que, após os ataques de 7 de outubro de 2023, cerca de 90% da população palestina teria festejado nas ruas, subido em telhados e distribuído doces — uma tradição do Oriente Médio para comemorar eventos considerados vitoriosos.

Não é necessário ser admirador de Netanyahu para reconhecer que seu argumento possui consistência lógica. Nenhum líder israelense — seja de direita ou de esquerda — pode se dar ao luxo de ser leniente com um grupo cuja razão de existir é o extermínio dos judeus. Essa é uma linha vermelha que ultrapassa governos e ideologias.

Dito isso, é importante frisar: não gosto de Netanyahu. Vejo nele um político de viés autoritário, alinhado a uma direita religiosa e messiânica, que já comprometeu a democracia israelense com reformas judiciais regressivas e discursos divisionistas. Acredito sinceramente que ele deveria renunciar e permitir a ascensão de novas lideranças.

Mas uma coisa é sua política interna; outra, muito diferente, é a validade factual de um argumento. E é exatamente aqui que começa o problema mais profundo — o ad hominem moral e ideológico que domina o debate público atual.

Hoje, verdades deixam de ser aceitas não por serem falsas, mas por terem sido ditas pela pessoa “errada”. A lógica do tribalismo político passou a substituir o pensamento crítico. Em vez de analisarmos o conteúdo, julgamos o emissor; em vez de ponderarmos ideias, medimos lealdades.

Essa inversão ficou visível recentemente na ONU, quando um número expressivo de líderes mundiais virou as costas e deixou o plenário enquanto Netanyahu discursava. Vocês já viram algo parecido acontecer, por exemplo, com representantes do regime islâmico do Irã, responsável por execuções públicas e repressão brutal a mulheres e dissidentes? Ou com regimes sabidamente genocidas, como o da Nigéria, que permanece calado diante do massacre de milhares de cristãos por grupos islâmicos radicais?

Não. Vocês jamais verão isso. Esse tipo de repulsa diplomática seletiva parece reservado apenas ao representante de Israel, independentemente do que ele diga.

Esse é o retrato mais nítido do nosso tempo: não se trata mais de buscar a verdade, mas de punir quem a diz.

O psicólogo social Jonathan Haidt descreve esse fenômeno em The Righteous Mind: o ser humano moderno raciocina menos para descobrir a verdade e mais para defender a tribo à qual pertence. Quando a política vira religião, o diálogo se torna heresia.

O resultado disso é um empobrecimento brutal do debate público. As redes sociais se tornaram o campo perfeito para esse adestramento mental. Basta olhar para qualquer postagem sobre Israel: se o autor é visto como “de direita”, será acusado de genocida; se é “de esquerda”, será taxado de antissemita. O que se perde nesse jogo é justamente o direito de pensar fora das etiquetas — e o direito de dizer algo verdadeiro sem ser linchado por isso.

Percebo isso, inclusive, nas minhas próprias publicações. Quando escrevo sobre política brasileira, as reações são intensas; mas, quando o tema é Israel, mesmo aplicando a mesma lógica e o mesmo rigor, os engajamentos caem a níveis ínfimos. É como se o mero fato de tocar nesse assunto acionasse uma repulsa automática, não racional.

E é aí que reside o perigo. Porque quando a verdade passa a depender de quem a enuncia, ela deixa de ser verdade e vira opinião de grupo. E quando a opinião de grupo se torna critério moral, o diálogo morre — e com ele, a própria democracia.

Vivemos tempos em que o ad hominem não é mais apenas uma falácia lógica. É uma estrutura de pensamento. Uma brutalidade contra a razão, um esvaziamento da escuta e um sintoma grave da nossa regressão intelectual.

P.S. 1 — “Ad hominem” é uma das falácias clássicas do raciocínio argumentativo. Consiste em atacar a pessoa que formula uma ideia, em vez de discutir a ideia em si. É uma forma de desviar o foco do conteúdo para o emissor, substituindo a razão pelo preconceito intelectual.

P.S. 2 — Hoje o Hamas atacou um ônibus em Israel e matou seis israelenses inocentes que se dirigiam a seus trabalhos ou levavam filhos à escola.

Onde fica o Sul Global?

Nos tempos da Guerra Fria, o planeta estava dividido em Primeiro Mundo (os países capitalistas desenvolvidos), Segundo Mundo (os países comunistas) e Terceiro Mundo (os países subdesenvolvidos). Com a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo, o Segundo Mundo desapareceu, e seus países foram redistribuídos entre o Primeiro e o Terceiro Mundos. Portanto, desde então havia apenas dois mundos: o desenvolvido e o subdesenvolvido, cujos integrantes eram — e em parte ainda são — chamados de “países em desenvolvimento”, termo, por sinal, enganoso: outro dia, ouvi uma reportagem chamar o Senegal (ou seria a Zâmbia?) de país em desenvolvimento. Em desenvolvimento?! Que desenvolvimento?

Pois é, a academia e a imprensa não cansam de tentar mascarar a realidade inventando nomes positivos para coisas negativas, como se mudar o nome transformasse para melhor a (triste) realidade.

Agora inventaram de chamar as nações desenvolvidas de Norte Global e as subdesenvolvidas — ou, se preferirem, em desenvolvimento — de Sul Global. A ideia talvez seja referir-se aos países por sua posição geográfica, eliminando qualquer alusão a seu estado de (sub)desenvolvimento. Tudo seguindo estritamente a cartilha do politicamente correto. O problema é imaginar que as nações do norte são todas desenvolvidas e as do sul, “em vias de subdesenvolvimento”, como dizia jocosamente o meu saudoso orientador de doutorado referindo-se ao Brasil.

O fato é que os principais membros do Sul Global — China, Rússia e Índia — ficam no Hemisfério Norte. Metade da África fica acima da linha do Equador e metade, abaixo. Quer dizer que a África do Sul é atrasada, mas o Egito, a Líbia e o Sudão são superdesenvolvidos? E o que dizer da Austrália e da Nova Zelândia, dois dos países mais ricos e adiantados do mundo, que ficam no Hemisfério Sul? Enquanto isso, Turquia, Azerbaijão, Arábia Saudita, Afeganistão ficam no norte. Isso faz algum sentido? Por isso, continuo usando nos meus escritos os únicos dois termos que acho cabíveis e que descrevem com exatidão a atual conformação do mundo: nações desenvolvidas e nações subdesenvolvidas. Até porque não há nações em desenvolvimento: quem está “em desenvolvimento” não é desenvolvido, logo é subdesenvolvido, para não dizer atrasado, como é o caso do nosso Brasil com suas insolúveis mazelas políticas, econômicas e sociais.

Existem partidos políticos no Brasil?

Disse certa vez um analista político, não me lembro quem, que o Brasil não tem partidos, tem legendas. E legendas que são, na verdade, balcões de negócios onde se vendem votos e favores, desde que por um bom preço.

No Brasil temos um Partido Comunista que não é comunista (um de seus antigos caciques, por sinal, é latifundiário); temos um Partido Socialista que não é socialista; um Partido Social Democrata e um Partido da Social-Democracia Brasileira que não são social-democratas; um Partido Liberal que de liberal não tem nada; um Partido Progressista que é conservador; um partido chamado Republicanos que é complacente com ataques à república; um Partido Popular que tem desprezo pelo povo; um partido Avante que defende o retrocesso; e um partido Patriota que aplaude quem, dos Estados Unidos, conspira contra o Brasil. Também já tivemos um partido autointitulado Democratas, atual União Brasil, que também é complacente com ataques à democracia, bem como um Partido ao mesmo tempo Social e Liberal que não era nenhuma das duas coisas.

Como se pode constatar, essas legendas têm nomes pomposos, mas que nada significam e servem apenas para impressionar uma maioria de eleitores analfabetos políticos, que pensam, por exemplo, que Hitler era comunista. Legendas sem ideologia, meramente fisiológicas, que se aliam da extrema-esquerda à extrema-direita desde que estejam no poder e possam fartar-se com cargos e verbas. São os famosos “partidos-rolha”, que nunca afundam.

Seria ótimo que houvesse a tão prometida reforma política para acabar com essa pletora de legendas sem identidade, transformando-as em uns poucos partidos com ideologia e linha programática definidas. Isso contribuiria por sinal para o fim do chamado presidencialismo de coalizão, na verdade presidencialismo do toma lá dá cá. Mas desta, que é a pior legislatura da história do parlamento brasileiro, com suas blindagens, bandidagens e anistias a bandidos, nada de bom se pode esperar.

TV 3.0 pra quê?

Recentemente, o governo federal lançou a chamada TV 3.0, que promete revolucionar o modo como assistimos à televisão. Segundo o site governamental Agência Brasil, “a TV 3.0 vai integrar os serviços de internet (broadband) à habitual transmissão de sons e imagens (broadcast), possibilitando o uso de aplicativos que permitirão aos telespectadores interagir com parte da programação”.

Além da melhor qualidade de som e imagem, uma das principais inovações dessa nova televisão é a sua interface com aplicativos, por meio da qual as emissoras poderão oferecer conteúdos sob demanda: séries, jogos, programas especiais, etc. Graças à integração com a internet, o telespectador poderá votar num reality show em tempo real ou fazer compras, dentre outras coisas.

De fato, essa nova modalidade de TV aberta oferece um sem-número de possibilidades que colocam nossa experiência televisiva definitivamente no século XXI. No entanto, o que eu questiono é o descompasso entre o avanço tecnológico do veículo e a decadência da programação. Eu pergunto: para que melhor qualidade de som e imagem se a qualidade do conteúdo veiculado é cada vez pior? O noticiário da TV aberta consiste em sua maior parte no chamado “jornalismo justiceiro” — crônica policial que noticia crimes corriqueiros e de pouca relevância social em tom sensacionalista. O entretenimento é composto basicamente de programas de auditório popularescos, música brega (sertanejo, pagode, forró, funk), filmes blockbusters de super-heróis, humorísticos apelativos e sem criatividade (hoje em dia quase só baseados em stand up comedy), telenovelas água com açúcar com enredo clichê e muito merchandising, e assim por diante. Isso sem falar que a maior parte dos canais da TV aberta transmite programação religiosa (católica e sobretudo evangélica) grande parte do dia (algumas, pertencentes a igrejas, o dia inteiro).

Será que precisamos de tanta sofisticação e tecnologia para escutar música breganeja ou um pastor pregando a Bíblia com voz enfadonha? Precisamos de tantos recursos para votar em quem vai para o paredão do BBB, para ver receitas culinárias, futebol ou comprar o que está sendo anunciado, num incentivo frenético ao consumismo?

Em minha modesta opinião de quem quase não assiste TV, em vez de melhorar a forma, deveríamos melhorar o conteúdo. A televisão poderia ser um forte elemento de elevação do nível cultural e mesmo mental do cidadão, oferecendo-lhe novas possibilidades de conhecimento e conscientização ao invés de sempre lhe entregar mais do mesmo, mantendo-o preso em sua bolha. Afinal, ninguém pode gostar do que não conhece. E um dos princípios legais da concessão de canais de televisão à iniciativa privada é a pluralidade — que no caso brasileiro praticamente não existe.

O tipo de programação que povoa a televisão aberta só contribui para aprofundar o fosso de desigualdade social que separa ricos e pobres: enquanto quem tem possibilidade de acesso a uma TV por assinatura recebe conteúdo diversificado e de qualidade (mesmo assim, hoje em dia nem tanto), quem só pode assistir à TV aberta fica condenado à mesmice do entretenimento alienante e de mau gosto, à informação enviesada e pouco relevante e à lavagem cerebral da pregação religiosa. Mas é claro que não interessa aos capitalistas detentores das concessões de canais de mídia conscientizar, o importante é lucrar. E vejam que eles são concessionários e não proprietários desses canais porque, pela Constituição Federal, televisão é um serviço público.

De minha parte, vou continuar assistindo só aos programas que me acrescentam algo, tirando o som ou mudando de canal na hora do intervalo comercial, ouvindo música boa, assistindo a noticiosos com visão crítica e exposição de todos os lados da questão e ignorando todo o lixo que a TV, seja tradicional ou 3.0, tenta me impingir.

A língua e a vocação dos povos

Sempre achei — mas é apenas uma hipótese pessoal, sem nenhuma comprovação científica — que a língua falada por um povo influencia de alguma forma sua história e sua vocação cultural. Como estudioso das línguas românicas e germânicas, é sobre elas que faço algum juízo, mesmo que neste caso seja algo impressionista. E sempre achei que os povos latinos, falantes dos idiomas românicos, têm mais vocação para as artes, a literatura, a poesia, a culinária, a moda do que os saxônicos, mais afeitos à ciência, à engenharia, à tecnologia, à economia, à guerra. E que isso teria a ver com as características das línguas que falam.

De fato, as línguas românicas ou neolatinas têm uma gramática mais complexa, com maior abundância de flexões, mais irregularidades, maior variedade de construções sintáticas e, ao mesmo tempo, uma fonética mais simples, com poucos fonemas, poucos encontros consonantais, predominância de sons vocálicos, muitos ditongos, o que tornaria essas línguas a um só tempo muito plásticas gramaticalmente e muito musicais, favorecendo a poesia, a palavra cantada e o romance (nos dois sentidos: da literatura de ficção e do amor).

Já as línguas germânicas ou teutônicas têm gramática bastante simples e rígida (até monótona, eu diria), pouco afeita a grandes torneios, a hipérbatos e outras figuras de linguagem, um vocabulário com poucas palavras gregas ou latinas e uma fonética bem complicada, com muitos fonemas, vogais longas e breves, tônicas, subtônicas e átonas, consoantes simples e duplas, aspiradas e não aspiradas, tons ascendentes, descendentes e planos, støds, oclusões glotais e outras peculiaridades, com predomínio de consoantes e encontros consonantais às vezes assustadores (nunca me esqueço da palavra sueca hjälmskt, com suas impressionantes cinco consoantes em sequência). Em suma, idiomas definitivamente pouco recomendáveis a um poema ou declaração de amor.

Não por acaso, fala-se no romantismo da língua francesa ou da espanhola, na doçura do português, na musicalidade do italiano. E, por consequência, na figura do amante latino, do casanova, do Don Juan. Ao contrário, pensa-se sempre na língua alemã como imperativa, impositiva e símbolo de autoridade. Ou na língua inglesa como fria e imparcial.

A plasticidade e sonoridade das línguas latinas, contraposta à rigidez mecânica das anglo-saxônicas, me faz pensar que estas são essencialmente línguas do logos, do discurso lógico e racional, ao passo que aquelas são línguas do mythos, do conto, da fábula, da anedota, da fantasia e da imaginação. Talvez por isso só seja possível filosofar em alemão, como se diz. Lendas à parte, o idioma germânico permite uma exatidão de conceitos e definições que favorece muito o raciocínio lógico e matemático. Em contrapartida, a poesia inglesa, mesmo a de Shakespeare, é dura, estéril, não tem a eloquência de um Camões ou a leveza de um Vinicius de Moraes. Não consigo imaginar Saramago escrevendo em inglês, embora Joyce tenha feito grandes experimentos linguísticos e assim tirado leite de pedra. Também talvez por isso as letras das canções anglo-americanas sejam tão pobres estilisticamente, comparáveis no máximo ao nosso breganejo, muito distantes da genialidade de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo César Pinheiro, Fernando Brant, Arnaldo Antunes.

Penso mesmo que uma revolução cultural como o Renascimento só poderia ter nascido na Itália, assim como a Revolução Industrial só poderia ter surgido na Inglaterra. Não à toa a Itália é o país das artes plásticas e da música, a França a nação da literatura, da moda e da culinária, o Brasil o país do Carnaval e da alegria, e assim por diante. Da mesma maneira, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos são os países das ciências naturais, dos grandes institutos de pesquisa, da indústria, do comércio exterior, das inovações tecnológicas. São também os países da guerra (pense-se, por exemplo, no belicismo prussiano, no colonialismo britânico, no envolvimento norte-americano em quase todos os conflitos armados do século XIX ao XXI). O fascismo, mesmo nascido na Itália, só encontrou sua forma perfeita no nazismo alemão. Inversamente, o romantismo, embora gestado na Alemanha, extrapolou os limites de estilo literário e se tornou estilo de vida quando encontrou o calor humano dos povos latinos. É claro que o clima mediterrâneo do sul da Europa e o tropical da América do Sul devem ter ajudado; é claro que as baixas temperaturas e a paisagem gelada do norte da Europa e da América devem ter favorecido o trabalho, a engenhosidade, o sentido do dever acima do prazer, mas as línguas, sem dúvida, refletiram esse espírito. Aliás, há uma teoria linguística que afirma ter sido o contrário: o clima frio motivaria a que as línguas se tornassem mais consonantais, mais “fechadas”, mais guturais. Hipótese que tem muitos contraexemplos.

Mesmo assim, é curioso que o protestantismo, que prega a salvação pelas obras e promete a prosperidade nesta vida pelo trabalho e não no além-túmulo, tenha surgido na Alemanha e se propagado fundamentalmente pelos países germânicos. Em seu livro A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber demonstra como a ideologia protestante ensejou a Revolução Científica do século XVII e a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. E está impulsionando a revolução tecnológica dos séculos XX e XXI.

Bem, mas tudo isso são confabulações minhas num domingo de frio para ser publicadas na segunda-feira.

Revoluções científicas e a “revolução” na gramática

Nos últimos tempos, tenho me dedicado bastante a criticar a postura militante de certos colegas que, em vez de fazer ciência, fazem política identitária travestida de ciência. E defendem que o pesquisador de humanas deve ter uma atitude engajada — desde que esse engajamento seja na direção de uma certa ideologia política e não de outra qualquer.

Pois bem, no livro Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, organizado por Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira, este último afirma às páginas 40 e 41:

Kuhn afirma que as revoluções científicas assemelham-se às revoluções políticas, e eu alargo seu pensamento ao contexto das produções emergentes das gramáticas do português brasileiro. Seus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica. Não à toa as características que Kuhn afirma pertencerem às revoluções políticas e científicas podem ser apontadas como constitutivas da revolução do fazer gramatical brasileiro. Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário. (grifos meus)

Como se pode depreender das palavras de ordem inflamadas do autor, o que se pretende é uma revolução do fazer gramatical análoga provavelmente à Revolução Bolchevique ou à Revolução Cultural chinesa. Isso porque, segundo os autores do livro e os demais linguistas que militam nessa causa, a gramática normativa atual do português é elitista, excludente, opressora, conservadora/reacionária, elaborada por homens brancos, burgueses, heterossexuais, homofóbicos, racistas e misóginos. Talvez Vieira defenda que se faça com os gramáticos o que Mao Tsé-Tung fez com os intelectuais e os opositores de seu regime.

Mas vamos analisar o grande erro conceitual cometido por esse linguista e escorado numa leitura equivocada do filósofo da ciência americano Thomas Kuhn. Em seu livro A estrutura das revoluções científicas, Kuhn explica que o progresso científico passa pelas seguintes fases:

1) estabelecimento de um paradigma, isto é, de um metamodelo teórico que serve de base e guia para o desenvolvimento das teorias científicas numa determinada época histórica. Por exemplo, o geocentrismo de Cláudio Ptolomeu, o mecanicismo do século XVII, o positivismo do século XIX, o estruturalismo e o funcionalismo do século XX, e assim por diante. São as chamadas escolas ou correntes de pensamento cujas diretrizes norteiam as hipóteses que, se comprovadas, darão origem às teorias.

2) ciência normal, período durante o qual o paradigma vigente funciona bem e permite explicar satisfatoriamente os dados empíricos colhidos nos experimentos científicos.

3) crise do paradigma, quando novos dados experimentais já não podem ser explicados satisfatoriamente pelas teorias em vigor, e o paradigma começa a ser posto em xeque.

4) ciência extraordinária, quando novos paradigmas são propostos e competem entre si até que um deles se prove o mais adequado a explicar os novos dados e, ao mesmo tempo, a explicar igualmente bem os dados antigos, dos quais as teorias anteriores davam conta perfeitamente.

5) revolução científica, em que esse novo paradigma vitorioso suplanta definitivamente o anterior, ponto a partir do qual o ciclo recomeça.

Portanto, diferentemente das revoluções políticas, em que um determinado grupo, não necessariamente melhor que o então dominante, o depõe e toma o poder em seu lugar num ato de violência, uma revolução científica se inicia com uma descoberta que desafia o poder de explicação do conhecimento de que se dispunha até aquele momento e mostra que algo no paradigma vigente está errado ou incompleto.

A primeira grande revolução científica dos tempos modernos ocorreu com a publicação em 1543 do livro De revolutionibus orbium coelestium (Da revolução das esferas celestes), de Nicolau Copérnico, no qual ele mostrava que o modelo astronômico geocêntrico de Ptolomeu, do século I d.C., além de ser extremamente complexo, não dava conta do movimento de certos corpos celestes observados pelos astrônomos. Copérnico propõe que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. A seguir, o alemão Johannes Kepler demonstra que não só o Sol está de fato no centro do sistema, mas que as órbitas dos planetas são elípticas com o astro-rei ocupando um dos polos.

Então Galileu Galilei, fazendo experimentos com planos inclinados nos quais deslizam pequenos objetos e com pêndulos que oscilam suspensos por cordas fixas a grande altura (um desses pêndulos foi fixado no topo da torre de Pisa), enuncia as primeiras leis matemáticas do movimento. É o surgimento da física moderna.

Simultaneamente, dois filósofos, o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes, dão estrutura teórica a esse novo paradigma, em que o conhecimento deve ser construído a partir da lógica, da matemática e da observação dos fenômenos naturais e não a partir do argumento de autoridade de antigos pensadores ou de teólogos. Nasce assim o chamado método científico, em que a teoria deve conformar-se à realidade e não o inverso.

Ainda dentro desse período histórico (séculos XVI a XVIII) conhecido como Revolução Científica, Isaac Newton enuncia as três leis do movimento, conhecidas como Leis de Newton, e a Lei da Gravitação Universal, um corpo teórico chamado de física clássica, que explica tanto os fenômenos físicos aqui na Terra quanto os movimentos planetários. A mecânica newtoniana vigorou sem abalos até o fim do século XIX, quando estudos sobre o eletromagnetismo e a luz mostraram que esta é uma onda eletromagnética que se propaga a uma velocidade constante, representada pela letra c, independentemente do movimento da fonte luminosa ou do ponto de referência adotado, o que contradiz as Leis de Newton, segundo as quais a velocidade, inclusive a da luz, é sempre relativa e dependente do referencial escolhido.

Para explicar essa inconformidade, Albert Einstein propõe em 1905 uma mudança radical de paradigma, a Teoria da Relatividade, em que agora a velocidade da luz é uma grandeza absoluta e, contrariamente à nossa intuição, o espaço e o tempo é que são relativos.

Ao mesmo tempo, outra revolução se desenhava com a descoberta de que, no mundo microscópico das partículas subatômicas, não é possível determinar com precisão ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula, de que os valores das grandezas não são contínuos e sim discretos, chamados quanta, e de que uma partícula pode estar e não estar num determinado lugar ao mesmo tempo, dentre outras revelações assombrosas. Esse conjunto de fatos, que deixaram perplexos os físicos, deu origem a uma nova teoria, a mecânica quântica.

Ainda no século XIX, Charles Darwin propôs a sua Teoria da Evolução das Espécies pela Seleção Natural, que revolucionaria a biologia, e Louis Pasteur sepultava definitivamente a crença na geração espontânea de seres vivos, além de provar que certas doenças antes atribuídas a causas sobrenaturais são provocadas por micro-organismos.

A mais recente revolução científica foi a descoberta de que o Universo está se expandindo, o que ensejou a teoria do Big Bang, em que o Cosmos teve início há cerca de 13,7 bilhões de anos a partir de uma singularidade na qual toda a matéria e energia estavam extremamente concentradas.

Nos estudos da linguagem, a primeira revolução foi a descoberta, por William Jones, de que a maioria das línguas da Europa, do Irã e do subcontinente indiano descenderiam de uma língua ancestral batizada de indo-europeu. Isso fundou o método histórico-comparativo e inaugurou uma nova ciência, a linguística, separando definitivamente o estudo científico da linguagem da tradição gramatical que remontava à Grécia antiga.

A segunda revolução foi causada em 1916 pela publicação póstuma do Curso de linguística geral, de Ferdinand de Saussure, que lançou as bases da linguística moderna e do paradigma científico chamado Estruturalismo.

Em 1957, uma terceira revolução ocorre com a publicação de Estruturas sintáticas, de Noam Chomsky, revelando que a aptidão para a linguagem é inata, portanto de natureza biológica, e que as estruturas linguísticas seguem padrões matemáticos, tornando a linguística uma ciência ao mesmo tempo humana, exata e biológica.

Mais recentemente, a cooperação entre a linguística, a neurociência e as ciências cognitivas deu origem a pesquisas sobre como o cérebro humano processa a linguagem e a novas disciplinas, como a neurolinguística (não confundir com a Programação Neurolinguística, ou PNL, que é uma técnica de autoajuda), a semântica cognitiva e a semiótica cognitiva, áreas em que também atuo.

Finalmente, a Inteligência Artificial vem possibilitando a solução de uma série de problemas em todas as áreas do conhecimento que permaneciam insolúveis até agora.

Isso são revoluções científicas. A normatização da escrita formal é uma atividade técnica e não científica, que se pauta por critérios objetivos plenamente defensáveis e razoáveis, mas não necessariamente científicos. Mais ainda, o estabelecimento de uma nova norma-padrão, baseada na fala informal ou em textos formais escritos por pessoas de escolaridade deficiente, não é uma conduta científica nem técnica, é simplesmente um ato iconoclasta que privilegia a mediocridade num terreno em que deve imperar a excelência, e tudo por razões puramente ideológicas e político-partidárias. A “revolução” que Vieira, Faraco e outros querem fazer se assemelha mais à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 ou ao nosso 8 de Janeiro do que a uma revolução científica propriamente. Até porque elaborar gramáticas não é tarefa de cientistas, assim como elaborar leis de trânsito não é competência dos físicos.

O dilema da ciência

Mais ou menos desde o século XVIII, a ciência passou a gozar do prestígio e da credibilidade antes conferida somente à religião. Tanto que o conceito de verdade deixou de ser o que está escrito na Bíblia e passou a ser aquilo que pode ser provado cientificamente. Sobretudo os prodígios da aplicação do conhecimento científico à solução de problemas práticos, aquilo a que chamamos de tecnologia, mostraram que a ciência é um tipo de explicação da realidade muito superior à filosofia, à religião e ao senso comum. Mas também é verdade que, desde os seus primórdios, a ciência sempre manteve estreitas relações com a política e a economia. Já na Grécia antiga, o grande cientista Arquimedes desenvolveu várias técnicas e ferramentas para servir aos interesses do poder. Por exemplo, ele descobriu o princípio da hidrodinâmica — e saiu às ruas nu gritando eureca — porque o rei Hierão II lhe havia solicitado que medisse a densidade de ouro de sua coroa. Ele também inventou um espelho que concentrava os raios solares num único ponto (o ponto focal) e que, levado nos navios de guerra gregos, queimava as velas dos navios inimigos.

Ainda hoje, as descobertas científicas logo ganham aplicações tecnológicas que contribuem para a agricultura, a indústria, as comunicações, os transportes e mesmo o nosso dia a dia (veja-se o telefone celular, por exemplo). Se a indústria farmacêutica investe milhões de dólares para desenvolver novos medicamentos, não é porque se preocupa com a saúde das pessoas, é porque remédios geram lucro. Nesse sentido, enquanto uma pequena parte dos cientistas faz pesquisas para alargar os horizontes de conhecimento do ser humano e saciar nossa curiosidade, a maioria das pesquisas visa a produzir conhecimento aplicável nas atividades econômicas ou militares. Um exemplo é o recente e bem-sucedido ataque americano aos bunkers iranianos: nada disso teria sido possível sem muita investigação científica.

Mas, em razão da importância estratégica do saber científico, pesquisadores que produzem conhecimentos úteis para o Estado ou para a economia costumam ganhar muito dinheiro e prestígio. E é aí que começa o problema. Em primeiro lugar, as universidades, lócus principal da produção do conhecimento, têm pressionado cada vez mais seus docentes a gerar conhecimentos inovadores e a publicá-los; essa pressão é conhecida pelo lema em língua inglesa publish or perish, “publique ou pereça”. De fato, pesquisadores com baixos índices de aceitação de artigos para publicação, especialmente nos grandes periódicos, correm até o risco de perder seus empregos. Na corrida pelo conhecimento de ponta, as universidades acabam privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade; ainda que os índices cientométricos, que avaliam estatisticamente o impacto das publicações, de seus autores e das universidades que os financiam, procurem destacar as pesquisas de maior relevância, o fato é que o volume de publicações de uma determinada instituição ou pesquisador também pesa, e muito. A ânsia de publicar sempre e mais leva a que muitos autores recorram ao autoplágio, isto é, publiquem vários artigos sobre o mesmo tema, dizendo basicamente as mesmas coisas, apenas com outras palavras e outro título — às vezes, até parágrafos inteiros de um artigo são reproduzidos em outro, num verdadeiro mecanismo de “copia e cola”.

Mais grave ainda, alguns investigadores menos éticos manipulam dados para chegar à conclusão desejada, aquela que vai causar mais impacto na comunidade acadêmica — veja a esse respeito meu artigo Impostura científica lá e aqui —, ou chegam a fraudar pesquisas e falsificar descobertas, como fez um determinado paleontólogo, que uniu a cabeça de um fóssil à cauda de outro e alegou ter descoberto uma nova espécie de réptil pré-histórico. Mas a cereja do bolo é a atual invasão da inteligência artificial na atividade científica. Se de um lado ela trouxe grandes avanços e melhorias à prática da pesquisa, como decifrar em minutos um texto antigo escrito numa língua desconhecida que havia permanecido por séculos indecifrável ou resolver em segundos equações complexíssimas, que levariam décadas para ser resolvidas à mão, por outro lado ela também trouxe malefícios, afinal a função da IA deveria ser a de auxiliar o pesquisador e não substituí-lo. Por exemplo, triar e organizar em minutos milhares de dados, o que exigiria um trabalho hercúleo do investigador humano, poupa tempo, esforço e recursos. No entanto, há gente hoje dentro da academia que usa IA não apenas para organizar dados, mas também para extrair deles conclusões e, o que é pior, para redigir o artigo que apresentará esses dados e essas conclusões. Portanto, esses profissionais estão sendo remunerados, as mais das vezes com dinheiro público, para não fazer nada. E o mais grave é que, como sabemos, a inteligência artificial por vezes alucina, produzindo informações falsas. Como confiar num conhecimento produzido por uma máquina que não tem ética nem mecanismos de autocorreção?

O fato é que, além do tradicional vínculo entre a ciência e o poder, que há séculos já vem desvirtuando boa parte da atividade científica, levando-a a criar tecnologias que servem mais para o mal do que para o bem, agora a própria credibilidade da ciência vem sendo posta em xeque. De um lado, as universidades foram sendo ao longo das últimas décadas aparelhadas por docentes adeptos da chamada teoria crítica, da filosofia pós-moderna, do desconstrucionismo, do anti-intelectualismo, do materialismo dialético, do marxismo, do decolonialismo, do identitarismo — em suma, professores e pesquisadores de esquerda (em alguns casos, de extrema-esquerda), mais afeitos à militância ideológica do que à metodologia científica. De outro, a ascensão da extrema-direita nos últimos anos como reação a essa contaminação ideológica da academia, da mídia e até da Justiça fez emergirem discursos negacionistas dos mais diversos matizes: antivacinismo, terraplanismo, criacionismo bíblico… Se, desde o triunfo do Iluminismo no século XVIII, a ciência passou a ser a régua a medir o que é verdade e o que não é, relegando crenças a redutos mais refratários ao pensamento racional e influenciando até mesmo a atividade legislativa, hoje em dia afirmar que algo está cientificamente provado não quer dizer muita coisa; em tempos de relativismo cultural, em que a opinião vale mais do que o fato — especialmente se essa opinião parte de alguém socialmente oprimido ou minorizado —, ou de pós-verdade e fake news, em que a veracidade de uma alegação depende de seu propósito político, a ciência ficou relegada a ser apenas mais um discurso na avalanche de narrativas que permeiam as redes sociais. E, diga-se de passagem, em um mundo em que o estatuto de verdade é estabelecido pelo número de likes e pelo engajamento, a ciência é um discurso bem pouco viral.

O que os empresários geram além de empregos?

Sempre que partidos ou governos de esquerda criticam o chamado “andar de cima”, isto é, os ricos, os capitalistas, estes se defendem argumentando que empresários geram empregos, portanto são essenciais ao desenvolvimento do país. De fato, não seria concebível o progresso econômico, social e tecnológico sem a atuação de pessoas que decidam empreender e, usando seu capital, criem negócios que empreguem outras pessoas, as quais, não sendo empreendedoras, vendem sua força de trabalho a quem empreende.

Mas, desde a Revolução Industrial e sobretudo hoje, em tempos de mecanização do trabalho e inteligência artificial, eu diria que empresários geram desemprego, na medida em que não hesitam em substituir mão de obra humana por robôs e algoritmos — afinal máquinas e softwares não fazem greve, não pedem aumento de salário, não faltam, não ficam doentes, não tiram férias, não se recusam a cumprir ordens, não demandam encargos trabalhistas, não processam seus patrões…

Como disse o economista escocês Adam Smith, “o padeiro põe o pão na minha mesa todas as manhãs porque faz pão no seu próprio interesse, não no meu”. E o interesse do empresário é um só: o lucro. A lógica do capitalismo é que, na medida em que aufira lucro, o empreendedor também presta um serviço à sociedade, provendo-a com produtos e serviços que de outra forma não existiriam — ou teriam de ser providos pelo Estado, como nos regimes comunistas, o que gera ineficiência e baixa qualidade, além de muitas vezes escassez.

Mas é justamente o fato de que o empresário só produz em razão do lucro o que leva à mentalidade da maximização do lucro a qualquer custo. Nesse sentido, empresários geram empregos, mas também fazem propaganda enganosa para vender mais, usam de seu braço armado, chamado marketing, para nos convencer a comprar o que não precisamos ou para enaltecer as qualidades miraculosas que seus produtos não têm. Pior, aliciam até as indefesas crianças com o chamado “marketing futuro”, visando a moldar desde cedo os futuros consumidores. Empresários anunciam mercadorias a preços que sempre terminam com o algarismo 9 para parecerem mais baratos do que realmente são. Em nome do lucro máximo, empresários nos fazem comer carne com hormônios e antibióticos e verduras com agrotóxicos, além de nos fazerem consumir alimentos ultraprocessados porque são mais lucrativos para eles, não importa quantas doenças eles produzam. Empresários impulsionam nas redes sociais publicações que tenham muito engajamento mesmo que sejam golpes, fake news, discursos de ódio, propagandas falsas ou incentivos à violência e ao terrorismo, afinal like is money. Empresários em geral têm desprezo pelo meio ambiente, visto como um empecilho aos seus empreendimentos, e pelos animais, vistos como mera mercadoria. Se certos pecuaristas dizem adotar tratamento “ético” ao gado, não é por amor aos bichinhos ou respeito à vida e sim por pressão de certos setores mais esclarecidos da sociedade; se dizem adotar medidas de compliance ambiental, é para não perder mercados e não porque se preocupem com o futuro do planeta ou com o mundo que vão legar a seus netos. Aliás, muitas das políticas de sustentabilidade econômica, social e ambiental que as empresas dizem adotar não passam de retórica, isto é, de mais uma estratégia de marketing para capturar os incautos.

Em nome da maximização do lucro, empresários não hesitam em vender produtos que sabidamente fazem mal à saúde sob a alegação do direito de escolha do consumidor. Em certos casos, não hesitam em adicionar componentes que viciam, criam dependência, visando a manter um público consumidor cativo, como é o caso da nicotina nos cigarros, das famigeradas bets para a classe baixa ou das redes sociais para as crianças e adolescentes. Empresários fazem lobbies nos parlamentos (isto é, corrompem parlamentares) para que estes defendam seus interesses, garantindo isenções fiscais ou vetando leis que prejudiquem ou inviabilizem seus negócios. Empresários usam de seu poder econômico para oprimir seus empregados (cinicamente chamados de “colaboradores”) e seus consumidores, obrigando estes a sujeitar-se ao que lhes é oferecido. Se o consumidor tenta reclamar, deve primeiro submeter-se à via crucis do menu eletrônico e suas infinitas opções, dos call centers e seus atendentes gerundistas, dos longos prazos (estipulados pelas próprias empresas) de espera por uma resposta para, ao final, receber uma nota redigida pela assessoria de imprensa dizendo sarcasticamente que ele (consumidor) é muito importante para a empresa, mas que infelizmente sua reclamação não pôde ser atendida ou porque não procede ou por razões técnicas ou porque a lei não o obriga, etc. etc.

Empresários geram empregos, mas também são aqueles que elevam imediatamente o preço do combustível na bomba quando ele sobe na refinaria, mas jamais reduzem o valor no posto quando ele cai na petrolífera. Empresários reduzem o volume da embalagem quando não podem aumentar o preço do produto e assim vendem um litro de 900 ml, um quilo de 950 gramas e um pó de café com mais serragem e menos café. Empresários correm com seus Porsches e outros carros de luxo em vias públicas onde a velocidade máxima é 50 km/h, matando trabalhadores inocentes e pais de família, pois, sendo ricos, estão acima da lei. E se a lei os atinge, sempre existe o famoso jeitinho, não é? Finalmente, empresários patrocinam e financiam um golpe de Estado para destruir a democracia a fim de que um governo de esquerda (mesmo que seja aquele que mais favoreceu o sistema financeiro) assuma o poder. Aliás, grandes corporações influenciam o resultado de eleições no mundo inteiro para que seus interesses econômicos não sejam contrariados.

Verdade seja dita e justiça seja feita, há muitos empresários honestos e éticos, sobretudo os pequenos, e empreender não é fácil, ainda mais no Brasil, com seu cipoal de tributos, normas legais, burocracias e fiscais corruptos. Mas o fato é que a atividade empresarial, cerne do capitalismo, está fundada num dos instintos mais primitivos do ser humano, a ganância, o desejo infinito de poder e de dinheiro, em nome do qual se mata e se morre, destrói-se a sociedade e o planeta, e pensa-se somente em si mesmo e em mais nada.

Um país às avessas

Às vezes penso que o Brasil é um país que nasceu do avesso. E digo isso comparando-o não só aos países desenvolvidos, mas até aos nossos vizinhos latino-americanos. Senão vejamos.

Graças à abundância de rios, o Brasil tem a maior produção de energia hidrelétrica do mundo, uma energia limpa, renovável e praticamente infinita. No entanto, todo o transporte e escoamento da nossa produção, bem como todo o deslocamento de nossa população de uma cidade para outra, se dá por meio rodoviário, queimando petróleo e produzindo os famigerados gases do efeito estufa, causadores do aquecimento global. O Brasil praticamente não tem ferrovias, um meio de transporte de cargas e de passageiros muito mais rápido e seguro que o rodoviário, e sobretudo um meio de transporte limpo, já que os trens são movidos a eletricidade. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, é possível ir de trem de qualquer lugar a qualquer outro de forma barata, veloz, confortável e sem riscos de assaltos no meio do caminho. Aqui, as mercadorias têm de ser transportadas por rodovias esburacadas e inseguras em caminhões conduzidos por motoristas insones, movidos a cocaína ou “rebite”, pondo em risco sua própria segurança e a dos outros motoristas. Caminhoneiros dopados, que viram a noite sem dormir para poder fazer mais viagens, cumprir prazos e compensar a pobreza do valor do frete que recebem. E todos nós ficamos nas mãos desses profissionais, que param o país quando fazem greve para reivindicar um aumento nesse valor ou para apoiar algum governo de extrema-direita.

Mas não é só isso. O Brasil também é o único país de que tenho notícia em que há duas polícias, uma civil e uma militar, e que não se conversam, não se entendem, não se entrosam, não compartilham informações — isso quando não entram em conflito entre elas. E o político que tentar unificá-las corre risco de vida. Enfim, temos duas polícias que não valem por uma, haja vista o assustador crescimento da violência e do crime organizado. Duas polícias desaparelhadas, sucateadas, com policiais despreparados, mal treinados, mal remunerados, estressados, assediados e hostilizados pela população e pela imprensa.

Além disso, devemos ser o único país cujo sistema prisional admite visita íntima (imagino até que haja um quarto dentro dos presídios com cama redonda, espelho no teto e banheira de hidro, não?), saidinha de Dia dos Pais (mesmo para quem cumpre pena por ter matado os pais), progressão de regime após cumprir-se um mísero sexto da pena, uma coisa inexplicável chamada “regime aberto”, em que o criminoso é condenado a cumprir pena em liberdade, outra coisa inexplicável que é o investimento de dinheiro público na ressocialização de quem tem uma ficha criminal quilométrica e está condenado a centenas de anos de prisão, inclusive por crimes hediondos e de alta crueldade, além do limite máximo de encarceramento de 40 anos (antes eram 30), não importa o tamanho da pena do meliante. Mas o mais legal de tudo é que os presos podem usar telefone celular dentro dos presídios para poder continuar cometendo crimes. A penitenciária permite aos criminosos acesso à internet (acho até que lhes fornece login e senha) e mais, as celas dispõem de tomadas para que os detentos possam recarregar seus aparelhos. Além disso, visitantes podem levar qualquer coisa para dentro dos presídios, até armas (revista vexatória é proibida), e membros de quadrilhas podem atirar celulares e drogas por cima dos muros da prisão, que por sinal são feitos de blocos ocos de cimento, fáceis de quebrar com uma marreta, explosivos ou até a colisão de um veículo.

Em países sérios, as prisões têm parlatório, de modo que os presos e suas visitas, inclusive advogados, só podem falar por meio de um interfone, sem nenhum contato físico e sempre sob a vigilância de um agente penitenciário. Em países como o Japão, o presidiário não pode sequer olhar nos olhos do agente, e todos se alimentam no refeitório em absoluto silêncio. Em muitos países, os condenados são obrigados a trabalhar, e na imensa maioria deles o prisioneiro cumpre a pena integralmente — se for condenado a mais de 50 anos, provavelmente morrerá na cadeia. Nesses países, há inclusive prisão perpétua e até pena de morte. Liberdade condicional somente após o cumprimento da maior parte da pena e, mesmo assim, apenas em condições especiais.

Mas o Brasil também é um país às avessas porque aqui políticos corruptos cometem seus crimes quando jovens e só começam a cumprir a pena — isto é, quando cumprem! — quando já estão velhos, cheios de supostas doenças, e assim têm direito a prisão em regime domiciliar em suas luxuosas mansões com piscina, compradas com o dinheiro que roubaram do povo. E aqui juízes corruptos ou que não cumpriram adequadamente com suas obrigações não são exonerados a bem do serviço público, são condenados à aposentadoria compulsória, isto é, a ficar em casa recebendo seu salário integral sem trabalhar.

Neste país de cabeça para baixo servidores públicos são admitidos por concurso que não passa de uma prova de múltipla escolha, sem análise de currículo, sem entrevista, sem avaliação psicológica, sem dinâmica de grupo… E, uma vez admitidos, têm estabilidade no emprego, portanto não podem ser demitidos, não importa o quão incompetentes e improdutivos sejam. E ainda podem fazer greve durante meses, inclusive por motivos políticos, e o cidadão que precise dos serviços públicos e paga por eles que se dane! Com isso, a máquina pública só incha. (Vocês sabiam que o governo federal ainda têm datilógrafos, embora não existam mais máquinas de escrever? O governo aguarda ansiosamente que eles se aposentem porque não pode mandá-los embora.) E aí o ministro da fazenda não sabe como cumprir a meta fiscal e corta verbas da educação e da saúde. Enquanto isso, a Constituição limita o teto salarial dos servidores públicos ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal, mas há juízes e desembargadores que ganham dez vezes mais do que isso, e ninguém pode cortar os seus vencimentos, pois eles fazem os próprios vencimentos. E o que dizer de senadores, deputados (federais e estaduais) e vereadores que aumentam seus próprios salários, em geral na calada da noite e bem acima da inflação? E que legislam em causa própria ou em beneficio de seus padrinhos o tempo todo? Até emendas à Constituição eles fazem por razões casuísticas, apenas para atender aos interesses dos lobbies que os elegeram ou para safar-se da cadeia.

No Brasil às avessas, pessoas largam o emprego para viver de benefícios pagos pelo Estado e completam a renda com “bicos”, trabalhos informais que não pagam impostos, não contribuem para a combalida Previdência Social, não requerem qualificação profissional nem contribuem para a produtividade do país e para o aumento do PIB. E o governo concede tanto mais benefícios quanto mais filhos as chamadas “mães solo” puserem no mundo.

No Brasil às avessas, músicas (músicas?!) que fazem apologia ao crime e aglomerações em que essas “músicas” tocam e há farto comércio e consumo de drogas são consideradas manifestações culturais. No país virado do avesso, um terço da população é analfabeta, adolescentes chegam ao ensino médio sem saber ler, e o sonho dos jovens e orgulho dos pais é serem influenciadores digitais, jogadores de futebol ou traficantes de drogas. No país da inversão de valores, as palavras “CLT” e “professor” são ofensas pessoais; já “MC” é elogio.

Falando em professor, o Peru tem universidades desde o século XVI e os EUA desde o século XVII. Em compensação, só tivemos nossa primeira universidade (mesmo assim, só no papel) em 1920; a primeira universidade “pra valer”, só em 1934.

Outra coisa: no século XIX, o Brasil era um país cem por cento agrícola, totalmente dependente da produção e exportação de café. Hoje, no século XXI, a principal atividade econômica brasileira é o agronegócio. Portanto, enquanto outros países emergentes (ou do Sul Global, como se diz hoje em dia), como China e Índia, fabricam e exportam produtos de alta tecnologia, com grande valor agregado, nós ainda produzimos commodities agrícolas, como no século XIX.

Por fim, em países sérios o presidente da república se pronuncia a partir de um púlpito atrás do qual há uma parede de cor sóbria em que estão fixados os símbolos da nação — o brasão de armas, o logotipo da presidência —, isso porque lá o presidente (ou primeiro-ministro) representa o Estado e não o governo de plantão. Aqui, ao falar publicamente, o presidente tem ao fundo um painel multicolorido com desenhos carnavalescos e o slogan de sua gestão: “Brasil, um país de todos”, “Pátria educadora”, “Pátria amada, Brasil”, “União e reconstrução”, etc. Aqui, o presidente não representa o Estado nem a nação, representa a si mesmo, ao seu governo e ao seu partido. Como em qualquer republiqueta bananeira. E, com tudo isso, ainda acreditamos que somos um país relevante no contexto mundial.

Verdades inconvenientes

Existem certas verdades que todos — ou quase todos — conhecemos e sabemos que são de fato verdades, mas que, no entanto, não podemos afirmar publicamente sob pena de censura, cancelamento ou mesmo punição legal. Comentamos essas verdades entre amigos, familiares, colegas de trabalho (dependendo de onde trabalhamos, é claro!), mas jamais podemos expô-las num veículo ou evento públicos, como um blog, site, entrevista, palestra ou reunião. Sobretudo de algumas décadas para cá, criou-se no mundo ocidental uma espécie de verdades oficiais incontestáveis que todos os órgãos de imprensa reproduzem e os políticos das mais diversas colorações ideológicas defendem — uns por acreditar (ou fingir acreditar) realmente nessas “verdades”, outros por medo de contrariá-las e assim perder votos ou prestígio. Há verdades que não podem ser ditas — a menos que se aceite pagar o alto preço da desonra e do linchamento moral.

Muitas vezes, especialmente na esfera das políticas públicas, insiste-se num falso diagnóstico de certos problemas, que leva inevitavelmente à proposição de falsas soluções, porque a verdadeira causa do problema não pode ser apontada abertamente já que ela pode não ser politicamente correta. Como resultado, as soluções apresentadas jamais resolvem o problema, e aí culpa-se aquilo ou aqueles que não são os verdadeiros responsáveis, ou o são apenas em parte. Mexe-se no que pode ser mexido, mas há sempre algo “imexível”, algo que, por ser uma verdade sagrada, um dogma inquestionável, não pode ser tocado, pois, por definição, não é ali que está o problema — embora esteja.

Circulam entre nós certas verdades inconvenientes, que todos nós sabemos que são verdades, alguns de nós fingem que são mentiras, mas ninguém ousa sustentar publicamente. A situação assemelha-se muito ao clima daquelas ditaduras em que todos os cidadãos sabem que vivem sob o jugo de um tirano cruel e sanguinário, mas, temendo pela própria vida, o saúdam como o mais justo e generoso dos líderes. Há uma anedota dos tempos da China comunista de Mao Tsé-Tung (mas parece que a situação lá não é muito diferente hoje em dia) em que um cidadão ocidental pergunta a um chinês: “Como vai a situação política aí na China?” Ao que o chinês responde: “Não posso me queixar.”