A língua e a vocação dos povos

Sempre achei — mas é apenas uma hipótese pessoal, sem nenhuma comprovação científica — que a língua falada por um povo influencia de alguma forma sua história e sua vocação cultural. Como estudioso das línguas românicas e germânicas, é sobre elas que faço algum juízo, mesmo que neste caso seja algo impressionista. E sempre achei que os povos latinos, falantes dos idiomas românicos, têm mais vocação para as artes, a literatura, a poesia, a culinária, a moda do que os saxônicos, mais afeitos à ciência, à engenharia, à tecnologia, à economia, à guerra. E que isso teria a ver com as características das línguas que falam.

De fato, as línguas românicas ou neolatinas têm uma gramática mais complexa, com maior abundância de flexões, mais irregularidades, maior variedade de construções sintáticas e, ao mesmo tempo, uma fonética mais simples, com poucos fonemas, poucos encontros consonantais, predominância de sons vocálicos, muitos ditongos, o que tornaria essas línguas a um só tempo muito plásticas gramaticalmente e muito musicais, favorecendo a poesia, a palavra cantada e o romance (nos dois sentidos: da literatura de ficção e do amor).

Já as línguas germânicas ou teutônicas têm gramática bastante simples e rígida (até monótona, eu diria), pouco afeita a grandes torneios, a hipérbatos e outras figuras de linguagem, um vocabulário com poucas palavras gregas ou latinas e uma fonética bem complicada, com muitos fonemas, vogais longas e breves, tônicas, subtônicas e átonas, consoantes simples e duplas, aspiradas e não aspiradas, tons ascendentes, descendentes e planos, støds, oclusões glotais e outras peculiaridades, com predomínio de consoantes e encontros consonantais às vezes assustadores (nunca me esqueço da palavra sueca hjälmskt, com suas impressionantes cinco consoantes em sequência). Em suma, idiomas definitivamente pouco recomendáveis a um poema ou declaração de amor.

Não por acaso, fala-se no romantismo da língua francesa ou da espanhola, na doçura do português, na musicalidade do italiano. E, por consequência, na figura do amante latino, do casanova, do Don Juan. Ao contrário, pensa-se sempre na língua alemã como imperativa, impositiva e símbolo de autoridade. Ou na língua inglesa como fria e imparcial.

A plasticidade e sonoridade das línguas latinas, contraposta à rigidez mecânica das anglo-saxônicas, me faz pensar que estas são essencialmente línguas do logos, do discurso lógico e racional, ao passo que aquelas são línguas do mythos, do conto, da fábula, da anedota, da fantasia e da imaginação. Talvez por isso só seja possível filosofar em alemão, como se diz. Lendas à parte, o idioma germânico permite uma exatidão de conceitos e definições que favorece muito o raciocínio lógico e matemático. Em contrapartida, a poesia inglesa, mesmo a de Shakespeare, é dura, estéril, não tem a eloquência de um Camões ou a leveza de um Vinicius de Moraes. Não consigo imaginar Saramago escrevendo em inglês, embora Joyce tenha feito grandes experimentos linguísticos e assim tirado leite de pedra. Também talvez por isso as letras das canções anglo-americanas sejam tão pobres estilisticamente, comparáveis no máximo ao nosso breganejo, muito distantes da genialidade de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo César Pinheiro, Fernando Brant, Arnaldo Antunes.

Penso mesmo que uma revolução cultural como o Renascimento só poderia ter nascido na Itália, assim como a Revolução Industrial só poderia ter surgido na Inglaterra. Não à toa a Itália é o país das artes plásticas e da música, a França a nação da literatura, da moda e da culinária, o Brasil o país do Carnaval e da alegria, e assim por diante. Da mesma maneira, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos são os países das ciências naturais, dos grandes institutos de pesquisa, da indústria, do comércio exterior, das inovações tecnológicas. São também os países da guerra (pense-se, por exemplo, no belicismo prussiano, no colonialismo britânico, no envolvimento norte-americano em quase todos os conflitos armados do século XIX ao XXI). O fascismo, mesmo nascido na Itália, só encontrou sua forma perfeita no nazismo alemão. Inversamente, o romantismo, embora gestado na Alemanha, extrapolou os limites de estilo literário e se tornou estilo de vida quando encontrou o calor humano dos povos latinos. É claro que o clima mediterrâneo do sul da Europa e o tropical da América do Sul devem ter ajudado; é claro que as baixas temperaturas e a paisagem gelada do norte da Europa e da América devem ter favorecido o trabalho, a engenhosidade, o sentido do dever acima do prazer, mas as línguas, sem dúvida, refletiram esse espírito. Aliás, há uma teoria linguística que afirma ter sido o contrário: o clima frio motivaria a que as línguas se tornassem mais consonantais, mais “fechadas”, mais guturais. Hipótese que tem muitos contraexemplos.

Mesmo assim, é curioso que o protestantismo, que prega a salvação pelas obras e promete a prosperidade nesta vida pelo trabalho e não no além-túmulo, tenha surgido na Alemanha e se propagado fundamentalmente pelos países germânicos. Em seu livro A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber demonstra como a ideologia protestante ensejou a Revolução Científica do século XVII e a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. E está impulsionando a revolução tecnológica dos séculos XX e XXI.

Bem, mas tudo isso são confabulações minhas num domingo de frio para ser publicadas na segunda-feira.

Um comentário sobre “A língua e a vocação dos povos

  1. Já li uma hipótese parecida, em que as línguas cemíticas seriam mais voltadas à religião devido a serem mais sintéticas, com estruturas mais simples, próprias para afirmações mais retóricas, para serem absorvidas e aceitas. Já as línguas indo-européias seriam mais voltadas à filosofia por serem mais analíticas, com mais possibilidades de especialização no vocabulário, nos casos gramaticais etc.

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