Brasil il il il il!!!

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DISCLAIMER:

Atenção, haters, este artigo contém altas doses de ironia. (Caso você não saiba o que é ironia, consulte um dicionário; caso você não saiba o que é um dicionário, nem se dê ao trabalho de ler o texto abaixo – se é que você consegue.
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Talvez por causa de nosso complexo de vira-latas, nós brasileiros temos a mania de querer ser os melhores do mundo em tudo. E assim vamos criando nossa mitologia: melhor futebol do mundo, maior carnaval do planeta, o povo mais simpático, acolhedor e cordial de todos, a melhor música popular, a modelo mais famosa, o maior campeão mundial de fórmula um…

Pois bem, em matéria de covid também estamos mostrando a que viemos. Começamos timidamente e, “comendo pelas beiradas”, chegamos ao segundo lugar no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos (mas aí também é covardia, afinal o país mais rico e poderoso tinha de ser o primeiro; os EUA são hors-concours, ainda mais com Trump à frente). Portanto, diante dessa superpotência, nosso segundo lugar tem gosto de primeiro, ou, como diria o técnico da seleção de 1978 Cláudio Coutinho, somos os “campeões morais” dessa competição.

E não é que, de repente, sem aviso, na semana passada a Índia nos ultrapassou em número de casos? Também, com uma população de mais de um bilhão de habitantes, fica difícil concorrer. Mesmo assim, o valente povo brasileiro não se dá por vencido. Tanto que ainda detemos o segundo lugar em número de mortes, e este os indianos não vão nos roubar, ah não vão mesmo!

Foi com toda essa determinação que, mesmo com regras rígidas de isolamento e até lockdown, nossos patrióticos cidadãos saíram às ruas, lotaram bares, restaurantes, shoppings e praias, sem máscara e sem distanciamento social, mostrando que, em matéria de disseminação de epidemias, não somos nem um pouco amadores.

Também contribuíram muito para nosso sucesso os diligentes prefeitos, que, atendendo ao clamor popular – especialmente em ano de eleição –, flexibilizaram o distanciamento de maneira precoce e descoordenada. Afinal, quem é que pode viver sem ir ao shopping? E assim, sensíveis a essa necessidade básica e premente da população, liberaram o comércio de rua, os barzinhos, os parques, as praias e relaxaram a fiscalização para que esta não importunasse os beberrões e os boêmios.

Por falar em descoordenação, não podemos deixar de louvar nosso valoroso Presidente da República, que, com seu exemplo de não usar máscara em público, provocar aglomerações, rodear-se de criancinhas, passar a mão no nariz e em seguida cumprimentar apoiadores, de demitir ministros técnicos e substituí-los por militares e ainda de recomendar o uso de um medicamento sem qualquer eficácia contra a doença, contribuiu muito para insuflar nos brasileiros esse sentimento de que, se depender de nós, ganhar a corrida da covid será uma barbada.

Mas que fique claro que não fazemos tudo isso apenas pelo espírito de competição com outras nações do mundo, especialmente a do Tio Sam, mas porque temos a plena consciência de que precisamos a todo custo salvar as empresas e os empregos mesmo que isso custe algumas centenas de milhares de vidas. Afinal, a maioria dos mortos não é mais produtiva mesmo, já que se trata de idosos aposentados. Aliás, isso até aliviará as contas da Previdência – ou seja, matamos (literalmente) dois coelhos com uma só cajadada.

É bem verdade que sempre haverá os derrotistas e estraga-prazeres a dizer que vidas são mais importantes do que a economia, que nosso brilhante primeiro-mandatário se eximiu de responsabilidade em coordenar esforços contra a pandemia, culpando o STF e os governadores e prefeitos pelo nosso quadro atual, mas não liguem: essas pessoas são antipatriotas e torcem pelo nosso fracasso. Mesmo assim, tenho certeza de que essa momentânea reação indiana não nos desanimará: continuaremos dando nosso melhor, frequentando lojas, templos e baladas, fazendo festas clandestinas, dando carteirada nos fiscais chatos que insistem em cercear nossa liberdade civil e nosso direito democrático de sair à ruas sem máscara e disseminar a doença porque, afinal, somos brasileiros, e brasileiro não desiste nunca.

Ei, americanos, aguardem-nos que estamos chegando, e a corrida ainda não terminou!

No dia da Independência, a origem da palavra

Acho nossa data nacional, o Sete de Setembro, uma expressão bastante sonora e, portanto, retumbante como devem ser as datas nacionais. E é retumbante talvez pela reiteração do número sete no nome do mês – em documentos medievais, setembro chegava a ser grafado como 7bro –, embora saibamos que setembro não é o sétimo e sim o nono mês do ano. A explicação para esse desencontro entre número e mês o leitor pode conferir no vídeo “Abril tem a ver com abrir?”, no meu canal do YouTube.

Mas hoje quero falar sobre a origem da palavra independência. Segundo a maioria dos dicionários, independência deriva por prefixação do substantivo dependência, que por sua vez provém do adjetivo dependente, por sua vez do verbo depender, sendo este empréstimo do latim dependere.

Na verdade, as palavras independência, dependência e dependente vieram todas do francês, cujos registros mais antigos são anteriores aos nossos. Mas, de fato, depender, assim como o francês dépendre, proveio do latim dependere, formado de de‑, “para baixo” e pendere, “pender, estar pendurado”. Portanto, “depender” é literalmente “pender para baixo, estar pendurado (em algo ou alguém)”.

É muito interessante essa visão da dependência como a situação de alguém que só se sustenta em pé ou no ar na medida em que pende (por uma corda, por exemplo) de alguém ou de algum lugar. Isso significa que o dependente pode cair a qualquer momento se a pessoa ou coisa que o sustenta retirar seu apoio, mais ou menos como cabides pendem de um varão, roupas pendem de um varal ou filhos menores dependem dos pais. Isso vale também para a dependência química, em que a abstinência provoca intenso mal-estar.

Como resultado, independência é a condição de quem não está amarrado a nada, de quem não precisa de nada ou ninguém em quem se pendurar. O que me faz questionar se somos de fato uma nação independente. Mas isso já é outra história.

Bom final de feriado a todos!

Vou encher tua boca de porrada

No último fim de semana, nosso desbocado presidente, perguntado por um repórter sobre os depósitos na conta da primeira-dama que totalizaram 89 mil reais, respondeu com um “minha vontade é encher tua boca de porrada”. Não vou entrar aqui na questão já muito debatida do total despreparo e destempero de Bolsonaro ao lidar com a imprensa livre e sua notória postura antirrepublicana e antidemocrática de não prestar contas de seus atos ou dos de seus familiares e amigos.

O que quero comentar é o termo usado por ele para ameaçar o jornalista: porrada. Essa palavra, assim como porrete e porretada, deriva de porra, termo de origem espanhola que primitivamente designa uma clava constituída de um pau curto com cabeça de metal e que hoje é mais conhecida por seu uso chulo com o significado de “esperma, sêmen”.

Em português, porra aparece pela primeira vez em 1136 significando exatamente “porrete”. Segundo o dicionário etimológico Corominas da língua castelhana, deve ter provindo do latim porrum ou porrus, literalmente “alho-porro” (no Brasil também chamado de alho-poró), por analogia entre o bastão de cabo grosso e a hortaliça de talo longo e bulbo largo em uma das extremidades. Tanto assim que, no próprio latim, porrum ou porrus, além do vegetal, também denominava uma espécie de palmatória usada para castigar crianças e escravos.

Portanto, porrada é originalmente o golpe dado com a porra, isto é, o porrete, e que hoje é mais comumente desferido com o punho cerrado (o golpe com o instrumento é normalmente referido como porretada).

Mas, e o sentido de “esperma”, de onde teria vindo? Minha tese é de que houve aí uma metonímia do tipo continente pelo conteúdo. O vocábulo porra teria sido empregado inicialmente para nomear metafórica e eufemisticamente o órgão sexual masculino, dada a semelhança física entre ambos. Daí surge por derivação parassintética o verbo esporrar, formado do prefixo es- (do latim ex-), que quer dizer “para fora” e do radical de porra. Significando, portanto, pôr para fora do pênis. E é aí que entra a metonímia: esporrar passa a ser entendido como “expelir porra”, ou seja, o termo deixa de denominar o órgão sexual e passa a nomear seu conteúdo, o sêmen.

De esporrar sai o derivado regressivo esporro, com o sentido primeiro de “barulho, escândalo, gritaria de quem está zangado” e, a seguir, o de “bronca que se dá a alguém de forma gritada”. Ou seja, ao dizer que ia encher a boca do repórter de porrada, o presidente acabou limitando-se a dar-lhe um esporro.

Você sabe com quem está falando?

O patético episódio da “carteirada” que o desembargador Eduardo Almeida Rocha Prado de Siqueira deu no guarda municipal santista Cícero Hilário Roza Neto, que, no último fim de semana, o multou por estar em público sem máscara, é mais um exemplo de que, em nosso país, todos os cidadãos são iguais perante a lei, mas alguns se acham mais iguais do que os outros. Aliás, se neste país engenheiro civil é mais do que cidadão, o que dizer de desembargador?

O fato é que, muito mais do que um país racista, somos um país classista, isto é, uma nação dividida em classes sociais que não se misturam, tais como as castas da Índia. Nesse sentido, mais do que um racismo estrutural, temos um classismo estrutural. Os negros pobres são apenas a casta mais baixa, os párias dessa sociedade.

Mas o que me chama a atenção é que, não raro, a carteirada parte daqueles que por oficio deveriam ser os primeiros a respeitar e fazer cumprir as leis, ou seja, detentores de altos cargos de Estado, especialmente magistrados.

De fato, membros do Poder Judiciário, do Ministério Público, policiais e advogados costumam estar entre os que mais estufam o peito ao retirar do bolso a carteira e mais empinam o próprio nariz ao esfregá-la no nariz do outro, em geral um também servidor público, mas de mais baixo escalão.

A pergunta que me faço é: como é que pessoas tão egocêntricas e tão mentalmente infantis, tão desprovidas de educação e de empatia, são admitidas no serviço público, ainda mais na função de juiz, que deve promover a justiça?

Parece que os concursos públicos para magistrado cobram muito saber jurídico e nenhuma postura moral. O referido desembargador Eduardo de Siqueira, em uma de suas carteiradas, desandou a falar francês com o fiscal que o multava, dizendo que é professor de Direito em universidade francesa, como se o convite para lecionar fora do país o isentasse de ter de cumprir a lei. Aliás, que direito esse senhor leciona na França? O direito dos mais bem galardoados de humilhar os de menor quinhão? Com que critérios esse douto senhor julga e sentencia os processos que lhe são submetidos? Pode promover a justiça um Estado que admite esse tipo de pessoa como guardião da lei?

No país do “você sabe com quem está falando?”, ou se é desembargador, engenheiro civil, empresário, rico e poderoso ou não se é nada, nem cidadão.

Detalhe: tanto o guarda Cícero quanto o fiscal ultrajado pelo engenheiro civil e sua esposa no Rio de Janeiro são pós-graduados. No caso do Rio, a formação acadêmica do fiscal é, por sinal, muito superior à do engenheiro. Só que as pessoas que têm realmente a carteira mais pesada não precisam dar carteirada em ninguém.

Abaixo o Congresso ou os congressistas?

A polêmica suscitada na última semana pelo presidente Jair Bolsonaro ao repassar um vídeo que supostamente conclama seus seguidores a marchar, no dia 15 de março próximo, em apoio a ele e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal gira em torno de duas questões: 1) pode (ou deve) um Presidente convocar passeata a favor de si mesmo e contra os outros dois poderes da República? 2) a manifestação agendada para 15 de março é realmente contra os Poderes Legislativo e Judiciário?

A resposta à primeira questão eu deixo aos especialistas em Direito constitucional; já a segunda me parece que leva a uma falsa controvérsia e contém uma sutileza linguística que vale a pena comentar.

De fato, os vídeos, cartazes e posts convocando para a passeata usam os termos “contra o Congresso e o STF”. Mas será que os organizadores do evento querem realmente fazer um movimento golpista de fechamento do Congresso e da Suprema Corte? Parece-me que não. O que ocorre é que, muitas vezes, usamos a metonímia continente pelo conteúdo sem nos darmos conta e, assim, nos referimos ao Congresso e ao Supremo quando, na verdade, queremos nos referir aos congressistas e aos ministros do STF.

Afinal, o que deixa a nós brasileiros p… da vida são políticos corruptos e fisiológicos e juízes tendenciosos e venais. Acredito que a maioria dos apoiadores da manifestação não quer realmente o fechamento do Congresso e do Supremo e sua substituição por um ditador travestido de salvador da pátria. Em outras palavras, a maioria do povo brasileiro não quer a volta do regime militar (uma pequena minoria até quer) e sim um parlamento que realmente o represente, que vote a favor daquilo que é para o bem do Brasil sem cobrar nada em troca, sejam cargos, sejam emendas parlamentares. E também quer uma corte suprema que julgue com imparcialidade e bom-senso, que não livre da cadeia dezenas de criminosos do colarinho branco, que não use de filigranas ou casuísmos jurídicos para beneficiar corruptos. Em suma, que não faça interpretações malabarísticas da Constituição Federal para manter o status quo.

Portanto, o que está sendo questionado não são as instituições republicanas, sem as quais não há estado de direito, mas certas pessoas que momentaneamente ocupam cargos nessas instituições e não têm honrado tais cargos.

Creio que daqui a dois domingos teremos nas ruas dois tipos de manifestantes: alguns radicais, que sonham com a reedição do AI-5; e uma maioria de moderados (eu diria racionais), que desejam que as instituições da República continuem funcionando – e harmonicamente, de preferência – em beneficio de nossa democracia a tão duras penas conquistada, mas sem toma-lá-dá-cá, sem chantagens e sem legislação em causa própria. Se conseguirmos isso, já será um grande passo. Só esperemos que o Presidente não estrague tudo.

Feliz Ano Novo! Feliz?!

“Eu voltei, agora pra ficar…”. Pois é, amigos, brincadeiras à parte, andei sumido nos últimos meses. Na verdade, tirei um semestre sabático, seguido de férias e Carnaval, para resolver problemas particulares inadiáveis e também para preparar um superprojeto que vem por aí. (Aguardem, vocês vão se surpreender!)

E como no Brasil o ano só começa após o Carnaval (e o ano legislativo acaba mais cedo quando há eleições, isto é, ano sim, ano não), desejo a todos um feliz Ano Novo, embora eu tenha cá minhas dúvidas se este ano será realmente feliz. Desculpem-me o pessimismo, mas nestes meses em que andei ausente das mídias sociais observei e ponderei muita coisa que me deixou cético a respeito do futuro do Brasil e da humanidade.

Estamos vivendo uma era de extremos: no clima, na política, na economia, nas relações sociais, em tudo impera o extremismo. E tudo isso reforça minha convicção de que a virtude, mais do que nunca, está no centro. Ou, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Virtus in medio, como diriam os romanos.

Se os eventos climáticos deste século estão se mostrando cada vez mais extremos (chuvas torrenciais, calor e frio fora de hora, derretimento das calotas polares, morte de rios e oceanos, espécies sendo extintas, ar irrespirável em certas cidades), também são extremas as posições políticas em relação ao meio ambiente: de um lado, os ecoterroristas, que exigem a suspensão imediata de todas as emissões de carbono na atmosfera como se isso fosse possível a curtíssimo prazo sem causar uma catástrofe econômica e social no planeta de proporções jamais vistas; de outro, os negacionistas, para quem o aquecimento global é uma ficção criada pelos chineses ou pela esquerda anticapitalista.

Na política, tem-se o tempo todo que escolher entre uma extrema esquerda simpática às ditaduras socialistas e uma extrema direita reacionária e com pendores fascistas, saudosa dos Anos de Chumbo. Fomos jogados na pior crise econômica de nossa história por governos de esquerda corruptos, irresponsáveis e incompetentes. Mas o pior legado desses governos foi pavimentar o caminho para a eleição de um presidente da república ultraconservador, voluntarioso, inexperiente e de tendência autoritária.

Nesse cenário, quem pensa com ponderação, defende a liberdade com responsabilidade e acha que o equilíbrio está sempre no meio-termo é tachado por um e outro lado de “isentão”, alguém que não toma posição, que está sempre em cima do muro. Nesses meses todos, cheguei à conclusão de que em cima do muro é o melhor lugar para estar, pois de lá se veem os dois lados, ao passo que quem está de um dos lados do muro só vê seu próprio lado. Hoje, amigos de anos rompem a amizade e famílias se dividem por questões ideológicas. As redes sociais se tornaram antissociais, um mar de impropérios e insultos pessoais acobertados por um suposto anonimato. Hoje, mais do que nunca, os jovens são rebeldes sem causa, culpando a tudo e a todos por seu vazio existencial. Para a geração do mimimi, que meu amigo Eduardo Affonso lucidamente chamou de geração raudério, todos são vítimas, todos querem muitos direitos e nenhum dever, e tudo, absolutamente tudo, é ofensivo ou opressor.

Hoje, as pessoas ditas “normais” – isto é, as que representam a maioria esmagadora da sociedade – têm seu sexo biológico questionado, seus padrões morais e de comportamento estigmatizados e suas escolhas estéticas e de vida repreendidas. Em resumo, hoje ser normal é que é aberrante.

Também vi a pátria língua portuguesa, esse território que me é tão caro e em que há tantos anos milito, sofrer as mais absurdas intervenções, ser acusada de machista e opressora, como se mudar a língua mudasse a realidade.

Nesses tempos de petralhas, feminazis e bolsominions, vi a ascensão do terraplanismo, o triunfo da superstição sobre a ciência, o Carnaval politicamente correto, a China e seu principal produto de exportação, as epidemias. Mas, verdade seja dita, também vi o crescimento de causas que nos dão alguma esperança, como a da defesa dos animais e a do veganismo.

O fato é que, com tantos conflitos sem sentido e ódios exalando por todos os poros, o mundo simplesmente ficou chato. Como dizia meu pai, em mesa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Bom Ano Novo e até a próxima semana.

Os coletes amarelos, o Museu Nacional e os milionários

Neste último fim de semana, os chamados “coletes amarelos”, manifestantes contra o governo francês conhecidos pelos coletes usados em suas manifestações, voltaram às ruas de Paris, desta vez não para protestar contra o preço dos combustíveis e sim contra o fato de inúmeros magnatas – inclusive a filantropa e socialite brasileira Lily Safra – estarem doando vultosas quantias ao fundo de reconstrução da catedral de Notre-Dame em vez de usarem seu dinheiro para combater a fome no mundo, especialmente na África.

Esse protesto segue, à primeira vista, uma lógica bem-intencionada e humanitária, portanto digna de louvor, ao mesmo tempo em que exporia o egoísmo e a indiferença dos milionários, mais preocupados com edifícios históricos do que com pessoas. No entanto, um exame mais profundo da questão revela que, por trás desses protestos, há um misto de idealismo romântico e falta de uma melhor compreensão da nossa realidade mundial.

Imagine que você disponha de 88 milhões de reais, quantia doada a Notre-Dame pela Senhora Lily, e deseje acabar com a fome na África. O que você faria? Procuraria o presidente de algum país africano para oferecer-lhe a generosa doação? E quem você encontraria? Provavelmente, um ditador com uniforme militar e o peito cheio de medalhas, que está há décadas no poder vivendo uma vida de luxo enquanto seu povo passa fome. Você entregaria seu dinheiro a esse indivíduo?

Mas, vamos supor que, em vez disso, você crie uma organização encarregada de distribuir os recursos diretamente à população. Você poderia fazer duas coisas: entregar às pessoas carentes sua ajuda em forma de alimentos ou entregá-la em dinheiro para que as próprias pessoas comprassem seus alimentos. Isso acabaria com a fome e a miséria na África? A meu ver, certamente não. O que mais provavelmente aconteceria é que, uma vez gastos todos os recursos, o povo voltaria a passar fome. Na verdade, é isso que vem acontecendo há décadas com as doações feitas por países ricos aos países pobres, notadamente da África e da América Latina: ou caem nas mãos de tiranos corruptos, que gastam o dinheiro com luxo e ostentação pessoal, jamais em benefício de seu povo, ou são gastos em ações assistencialistas que dão o peixe, mas não ensinam a pescar.

O fato é que a África, especialmente a subsaariana, é pobre há milênios, jamais tendo assistido ao surgimento de alguma civilização. A maior parte da população africana não tem uma ideia clara do que seja o Estado, mais acostumados que estão com a noção de tribo. Por isso mesmo, os Estados africanos, em grande parte desenhados pelos colonizadores europeus, têm servido apenas para legitimar governos ditatoriais e corruptos. Com um quadro desses, a doação de dinheiro não é um investimento no futuro dessas populações, é simplesmente um gasto a fundo perdido. E os magnatas, assim como os líderes dos países ricos, sabem disso.

Outro argumento ingênuo é o daqueles que reclamam que os milionários, dentre os quais uma brasileira, estão colaborando com a restauração da catedral parisiense mas não com a do nosso Museu Nacional, consumido pelas chamas em setembro passado.

Mais uma vez, eu lhe pergunto: você teria confiança em entregar 88 milhões de reais nas mãos dos burocratas do Ministério da Educação? Nas mãos do reitor da UFRJ? Nas mãos do diretor do Museu Nacional? Nas mãos do governo brasileiro?

Que garantia você teria de que o seu dinheiro, uma vez entregue ao governo ou à Universidade curadora do Museu, seria realmente aplicado na reconstrução desse patrimônio? E como você, milionário capitalista, espera ser recebido e tratado por burocratas de esquerda, como o são os dirigentes da Universidade e do Museu, que declaradamente têm ódio e desprezo por capitalistas?

É por essas e por outras, que nosso Museu, assim como o povo da África, vai continuar por um bom tempo passando o chapéu – inutilmente.

A tragédia de Suzano e os eufemismos da crônica policial

Eu havia programado outro assunto para tratar aqui no blog no dia de hoje, mas o massacre ocorrido em Suzano, SP, esta manhã me fez refletir sobre várias coisas: sobre os limites da maldade humana (ou a inexistência deles); sobre psicopatas que circulam discretamente entre as pessoas de bem e o risco que oferecem de, a qualquer momento, cometer as piores atrocidades; sobre o pânico dos jovens que presenciaram a chacina; sobre a dor dos familiares; sobre a facilidade de acesso às armas de fogo e a flexibilização da legislação a esse respeito… Mas, linguista que sou, chamou-me a atenção em especial o modo como a lei brasileira – e por tabela a imprensa – trata os crimes cometidos por menores. Os dois autores da matança de hoje de manhã, um de 17 e o outro de 25 anos, estão sendo chamados pelos telejornais de assassinos, e seu ato de crime hediondo, horrível massacre, chacina sanguinária, e por aí vai. No entanto, tivesse o menor de 17 anos, de nome Guilherme Taucci Monteiro, sido capturado vivo e não se suicidado, sua identidade não teria sido relevada, seu rosto apareceria na TV coberto por uma tarja preta ou então desfocado, estaria ele sendo chamado de “menor infrator”, e a barbárie que cometeu seria classificada como “ato infracional”. Mas como ele está morto, sabemos seu nome e sua face e podemos chamá-lo pelo que ele realmente é: um assassino. Ou seja, uma vez morto o criminoso, cessa a hipocrisia, e o nefasto linguajar politicamente correto não mais se aplica.

Com a violência crescente que assola o país, é cada vez mais comum ler ou ouvir notícias como “o menor foi apreendido pela polícia” ou “os suspeitos fugiram num carro roubado e trocaram tiros com os policiais”. A adoção pelos meios de comunicação do jargão jurídico costuma ser uma imposição dos “manuais de redação e estilo”, cartilhas elaboradas por cada veículo de imprensa para balizar a linguagem utilizada por seus redatores. Esses manuais foram instituídos para padronizar os textos de uma determinada publicação, conferindo-lhe uma marca própria, e também para limitar a liberdade criativa dos jornalistas, evitando que algum deles empregue termos cuja interpretação possa trazer problemas ao jornal, como um processo judicial, por exemplo.

A questão é que, ao fazer uma opção equivocada, o criador do manual propaga seu equívoco a todos os integrantes da redação. A meu ver, é bem esse o caso do emprego do juridiquês na pauta jornalística. Afinal, o repórter não escreve para juristas, mas para leitores leigos. E em tempos em que a impunidade institucionalizada bate em nossa cara todos os dias, palavras que amenizam a culpabilidade dos criminosos soam como um acinte à sociedade.

Suspeito

Segundo o Michaelis – Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, suspeito é o indivíduo “1) De quem há suspeitas ou desconfianças; 2) De fé ou integridade moral duvidosa. 3) Que dá causa ou origem a dúvidas, que não merece confiança. […] 8) Que parece ou se supõe ter algum defeito ou vício […]”. Ora, a suspeita é da esfera da dúvida, da possibilidade, não da certeza. Qual é a probabilidade de que indivíduos que fogem em alta velocidade num carro roubado e trocam tiros com a polícia sejam cidadãos de bem e não bandidos? Não se trata aí de possibilidade, mas de certeza.

O que acontece é que, no jargão jurídico, um indivíduo é suspeito até ser formalmente indiciado; a partir desse momento, passa a acusado e, só após a condenação em última instância, é que pode ser oficialmente chamado de criminoso. Trata-se de um cuidado que respeita o princípio da presunção de inocência. No entanto, a imprensa é a voz da sociedade, ela fala pela e para a sociedade. Logo, se por um lado os jornais não podem julgar e condenar, pois isso é prerrogativa do Poder Judiciário, por outro, soa hipócrita apresentar como mera hipótese a culpa de alguém preso em flagrante delito ou foragido em carro roubado após troca de tiros.

Apreendido

A mesma crítica pode ser feita a termos como “apreender um menor”, “ato infracional”, “medida socioeducativa”, etc. Se, para os operadores do direito, menores não cometem crimes, não podem ser presos nem cumprir pena (e por isso se instituíram eufemismos para falar sobre a criminalidade dos que têm menos de 18 anos), para a sociedade, um assassinato bárbaro praticado por um elemento de 17 anos e 362 dias não é um mero ato infracional, como o prova o atual clamor pela redução da maioridade penal. A questão é: de que lado estão os elaboradores de manuais de redação e estilo: do lado da sociedade, que clama por justiça, ou do lado dos juristas e legisladores, cuja concepção de justiça só é justa na opinião dos próprios?

Isso explica o sucesso dos programas de TV do chamado “jornalismo justiceiro”. Embora tenham um indisfarçável viés mercadológico, tais programas dizem o que o público quer ouvir e, por isso mesmo, têm tanta audiência. Nem é preciso ir tão longe: muitos comentaristas sérios, que diante das câmeras têm linguagem mais comedida, aproveitam os jornais e o rádio para, sem caluniar, injuriar ou difamar ninguém, “dar nomes aos bois”, tratando por bandido quem é bandido e por corrupto quem é corrupto. Afinal, a mesma justiça que presume a inocência do réu garante a chamada exceção da verdade: não é crime acusar alguém de um ato que ele efetivamente praticou.

De resto, meus sinceros sentimentos aos familiares das vítimas. E minha torcida para que essa prática da chacina em escolas, tão comum nos Estados Unidos, não vire moda no Brasil.

O Brasil que tem sotaque

O título deste artigo é propositalmente provocativo. Afinal, sotaque, todo mundo sabe, é aquela pronúncia que nós não temos, pois só os outros é que têm, certo? Ou seja, falando sério agora, todo indivíduo tem uma pronúncia da língua que é característica da sua região, da sua geração e da sua classe social. No entanto, há uma tendência chauvinista de achar que a nossa pronúncia, seja ela qual for, é que é a correta e aquelas que diferem muito da nossa são feias e erradas.

Obviamente, não há pronúncias certas ou erradas (desde que respeitem a grafia das palavras, é claro) nem muito menos feias ou bonitas, já que beleza ou feiura é questão de gosto. O que há em todas as línguas de cultura é a chamada pronúncia padrão, geralmente um misto das pronúncias mais prestigiadas, que, por sinal, costumam ser as dos maiores e mais influentes centros urbanos. A pronúncia padrão é aquela que mais costumeiramente se ensina aos estrangeiros e também a mais utilizada na mídia, por atores, locutores, jornalistas, apresentadores de televisão, etc. É, enfim, aquela que mais comumente se atribui aos cidadãos de um determinado país.

Portanto, o Brasil também tem uma pronúncia padrão da língua portuguesa aqui falada. Consequentemente, embora todos tenhamos nossa própria maneira de pronunciar, costuma-se dizer que têm sotaque aqueles cidadãos cuja pronúncia mais se distancia do padrão.

Nesse sentido, os “sotaques” brasileiros mais conhecidos são o caipira, o nordestino e o sulista, todos os três bastante estigmatizados pelas classes urbanas cultas do Centro-Sul. Exemplo disso é o uso desses sotaques para caracterizar personagens humorísticos. Enquanto isso, a pronúncia padrão, que seria um misto das pronúncias urbanas do Sudeste, corresponde mais ou menos ao que se ouve entre os falantes cultos nativos de Brasília, Vitória ou Belo Horizonte, mas que inclui também a fala culta das capitais do Sul e Centro-Oeste. Quanto ao sotaque carioca, apesar de seu prosaico chiado, também é tido como padrão por ser o Rio de Janeiro o segundo maior centro urbano do país e por dois séculos sua capital. Além disso, a maior parte da produção audiovisual brasileira sai de terras fluminenses.

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Dos três sotaques estigmatizados que citei acima, o sulista, com seu erre trinado e com seu e e o finais átonos destacados (imagine um paranaense pronunciando “docê dê leitê”), e o caipira, com seu erre retroflexo, são pronúncias predominantemente rurais e mais frequentes entre os menos escolarizados. Ou seja, a população culta das grandes cidades do Sul e de São Paulo, sul de Minas e do Centro-Oeste tende a falar mais ou menos de acordo com a pronúncia padrão do português brasileiro.

É claro que em todas as regiões, sobretudo nas grandes metrópoles, há “guetos linguísticos”, isto é, áreas urbanas que conservam um sotaque característico, como o das periferias de São Paulo, que virou padrão dos rappers, cujo erre “caipira” é cem por cento urbano, ou o da Mooca, também em São Paulo, com sua entonação tipicamente italiana.

Mas é o sotaque nordestino o que mais chama a atenção porque é a única pronúncia não padrão usada por todos, dos analfabetos aos doutores, na cidade e no campo. Mas, antes de falar do sotaque nordestino, é preciso explicar exatamente do que isso se trata. Acontece que o Brasil está dividido em quatro regiões dialetológicas (essa divisão leva em conta principalmente os aspectos fonético e lexical). A primeira região, chamada meridional, se estende a partir do Estado de São Paulo e sul de Minas Gerais (incluindo o Triângulo Mineiro) para todo o Sul e Centro-Oeste do Brasil, com exceção do Distrito Federal; por sinal, foi de São Paulo que saíram os bandeirantes que colonizaram toda essa região, o que explica a similaridade de pronúncias. A segunda região, chamada de central, inclui Rio de Janeiro, Espírito Santo, centro e norte de Minas Gerais e o Distrito Federal. Este último constitui um enclave da pronúncia central dentro do Centro-Oeste, explicado pela recente construção de Brasília, com a migração para lá de muitos brasileiros do Sudeste e do Nordeste. A terceira região, setentrional, divide-se em duas sub-regiões: a primeira, que inclui todo o Norte, com exceção talvez de Rondônia e parte de Tocantins, engloba também em parte a Bahia e os Estados do Ceará, Piauí e Maranhão. Já a região que vai de Sergipe ao Rio Grande do Norte e, portanto, abrange Alagoas, Pernambuco e Paraíba, é a segunda subdivisão da região setentrional e constitui o núcleo do falar nordestino, onde o sotaque é mais puro e mais “carregado”, já que a outra sub-região é uma zona de transição entre os sotaques do Sudeste e os desse núcleo (perceba, por exemplo, as semelhanças entre o sotaque de Belém do Pará e o do Rio, ou entre o da Bahia e o do norte de Minas).

Embora todos os falares nordestinos tenham muito mais semelhanças entre si do que diferenças (por exemplo, o e e o abertos de émoção e córação), é nesse núcleo onde estão os nordestinos “da gema”, terra do cangaço, do forró, do jabá, da peixeira, dos cabras machos, da literatura de cordel e dos repentistas. É onde se pronuncia “tia” e “dia” sem nenhuma palatalização de t e d, traço característico da fala brasileira. É também onde mais frequentemente se ouvem coisas como nuvidade, tumate, pumada, Ricife, cunhicê, aparicê, biolugia, meteorulugia, inucente, corrúpito, corrupição, oitcho (isto é, “oito”), muitcho (“muito”), gochtcho (“gosto”), kæro (“quero”), contnua, vitma, ultmo, a rente tarra (“a gente tava”), aquela cidad’ali, cidad’do Rio, ũa, algũa, ninhũa, ãmar, agôra, ele não dir nada (“ele não diz nada”), dotôo, pudêe, cunzinha (“cozinha”), cãmíum (“caminho”)… É ainda o lugar onde muitas vezes “lá” e “na” soam como lhá e nha, onde o l entre vogais é mais velarizado, onde a voz é mais anasalada, e assim por diante.

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Fatores históricos e geográficos explicam as peculiaridades não só do sotaque nordestino mas da própria região Nordeste. Foi a primeira região a ser colonizada pelos portugueses, o que significa que a fala nordestina retém muitas características do português lusitano dos séculos XVI e XVII, ao passo que o português brasileiro do Centro-Sul espelha melhor a língua da corte portuguesa do início do século XIX, época da transmigração da família real para o Rio de Janeiro, somada à contribuição dos imigrantes europeus que aqui chegaram nos séculos XIX e XX.

Por essas e outras razões, o Nordeste se tornou uma região sui generis dentro do Brasil; há quem diga até que o Nordeste é outro país – o que o resultado destas últimas eleições não deixa de, até certo ponto, reforçar. De fato, a própria designação “nordestino” individualiza esse povo dentre os brasileiros. Afinal, embora também haja nortistas e sulistas, nunca se ouviu falar de sudestinos ou de centro-oestinos. Paulistas, cariocas e mineiros não têm entre si o espírito de fraternidade que têm os nordestinos de todos os Estados. Existe até o Dia do Nordestino, comemorado exatamente hoje, 8 de outubro, mas não um Dia do Sulista e menos ainda o Dia do Sudestino. Embora os sulistas também sejam muito ciosos de suas tradições, e por isso a região Sul do Brasil também tenda a diferenciar-se, a fala sulista, embora típica, está foneticamente menos distante do padrão geral brasileiro do que a nordestina, principalmente a da segunda sub-região setentrional (a “da gema”). Eu chegaria a dizer – mas é apenas a minha opinião pessoal – que essa pronúncia chega a constituir uma terceira variedade de português, distinta tanto da brasileira quanto da europeia. Tanto que os repórteres do Nordeste são praticamente os únicos a disfarçar o sotaque quando falam no rádio ou na TV (acho gritante, por exemplo, a diferença entre a pronúncia da repórter pernambucana da Globo e a das pessoas que ela entrevista).

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Resumo da ópera: todo falante tem sotaque, só que aqueles mais distanciados do que foi eleito como padrão são os mais estigmatizados e os que mais chamam a atenção de quem não é nativo das regiões onde eles são usados. Este é um fato do qual devemos ter consciência, mas contra o qual é inútil lutar, pois a variação regional (pomposamente chamada de diatópica pelos sociolinguistas) é um dado universal em termos linguísticos, isto é, existe, sempre existiu e sempre existirá em todas as línguas, em todas as nações.

A metáfora do museu

O incêndio que destruiu o Museu Nacional no último domingo, 2 de setembro, foi, para repetir o já tão desgastado clichê, uma tragédia anunciada. E que teve dois infelizes precedentes: o incêndio no Museu da Língua Portuguesa em 2015 e o no Instituto Butantan em 2010. Nos três casos, perdas, a maior parte delas irreparáveis, para a história, a ciência e a cultura do nosso país.

Há muito tempo, a pesquisa científica, a preservação do patrimônio histórico e artístico e a de nossas riquezas biológicas vem sendo relegada a segundo, terceiro plano. Nos últimos anos, o orçamento destinado ao Museu Nacional decresceu, resultado de uma crise econômica provocada por incompetência dos governos e de uma corrupção desenfreada, aliada ainda a uma escolha política que prioriza privilégios em detrimento do essencial – saúde, educação, segurança, ciência, cultura.

Conforme explica a renomada neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel em vídeo disponível no YouTube, não existe no Brasil a profissão de cientista. Os cargos de direção dos setores responsáveis pela pesquisa, educação, cultura e patrimônio histórico do governo brasileiro – como, de resto, todos os cargos governamentais – são preenchidos por indicação política e não por critérios de mérito e competência técnica.

Sobre a inversão de valores na eleição das prioridades e a cultura do privilégio, leia-se matéria no site InfoMoney mostrando que a remuneração anual de um juiz ou o custo da troca dos carpetes do Senado poderiam suprir o orçamento do Museu Nacional.

Esse museu era um dos (poucos) motivos de orgulho do país. Com exatos 200 anos de história, o museu detinha 50 milhões de itens históricos, artísticos, arqueológicos, paleontológicos, mineralógicos e outros, incluindo a maior e melhor coleção de egiptologia da América Latina e o fóssil mais antigo de um ser humano habitante das Américas. Isso tudo, além do próprio valor histórico do prédio que o abrigava, lar de um rei e dois imperadores e local da assinatura da declaração de independência do Brasil, ironicamente num mesmo 2 de setembro.

Grande parte desse acervo foi amealhada por Dom Pedro II, homem progressista e entusiasta da ciência. Ao contrário da imagem retrógrada que a República procurou disseminar a respeito da Monarquia, nosso imperador era apaixonado por novidades tecnológicas e tratava de trazê-las ao Brasil tão logo surgiam. Basta dizer que o Brasil foi o segundo país do mundo a adotar o selo postal, três anos após sua invenção na Inglaterra. Ferrovias, cabo telefônico submarino, as primeiras instituições de ensino superior, ideias liberais e abolicionistas, defesa das liberdades e combate ao preconceito foram algumas das contribuições de seu reinado. Muito respeitado no Exterior, Pedro II era um estadista do tipo que nunca mais tivemos no Brasil. Que andava nas ruas travestido de cidadão comum para ouvir as queixas do povo. Que jamais roubou um centavo do erário. Naquela época, nosso país era proporcionalmente mais desenvolvido do que é hoje, não ficando muito atrás das grandes potências da época, como França, Grã-Bretanha e os emergentes Estados Unidos.

O Brasil é uma grande nação, com inúmeras riquezas naturais, um imenso território e um povo trabalhador e criativo, mas que não tem um Estado à sua altura. A nação brasileira é muito maior e melhor do que o Estado brasileiro; na verdade, é o Estado, tal qual está desenhado pela atual Constituição, o grande empecilho a que o Brasil se torne um país desenvolvido e uma potência mundial.

O incêndio no Museu Nacional não deixa de ser uma metáfora do que acontece atualmente no Rio de Janeiro e no Brasil. O descaso dos últimos governos com a coisa pública, com seu ápice no desgoverno Dilma-Temer, fez do Brasil uma nação em chamas, das quais só restará um rescaldo de cinzas. Em que nosso passado, nosso patrimônio, nossa identidade, carbonizados pelo fogo da incompetência e da corrupção, serão da mesma cor que nosso futuro.