Favelário nacional

Hoje, Dia Nacional da Favela, vou falar um pouco sobre essa palavra tão desprestigiada hoje em dia.

As nações tendem a exportar palavras correspondentes àquilo que seu povo faz de melhor. Não é á toa que grande parte do vocabulário referente à moda, à culinária e às artes em geral venha do francês, assim como os termos ligados à música se originem do italiano. Pela mesma razão, a maioria dos termos técnicos e científicos são ingleses. Há muitas línguas (a maioria, na verdade) que não exportam palavra alguma, demonstrando talvez a pouca criatividade de seus falantes, pelo menos em termos de ciência ou cultura, isto é, daquilo que mais influencia os outros povos.

O brasileiro, por exemplo, é um povo muito criativo, tanto nas artes – música popular, telenovela, Carnaval – quanto na malandragem (parece que a inventividade dos nossos patrícios em bolar golpes para subtrair o dinheiro alheio ou lesar os cofres públicos não tem limites), mas essa criatividade não resulta em vocábulos que interessem aos falantes de outros idiomas. Acaba que as palavras brasileiras com penetração no exterior se referem quase sempre à originalidade da nossa natureza, como nomes de frutas e animais (caju e piranha, dentre outros, conquistaram o mundo).

Também a nossa (triste) realidade social desperta a curiosidade dos estrangeiros, tanto que há concorridas excursões turísticas às favelas cariocas. Por falar em favela, eis aí uma palavra genuinamente brasileira que chegou aos quatro cantos do planeta. Outras línguas – especialmente as de países com distribuição de renda tão vergonhosa quanto a nossa – têm termos equivalentes para favela. O maravilhoso poema Favelário Nacional, de Carlos Drummond de Andrade, enumera alguns: bidonville, taudis, slum, witch-town, sanky-town, callampas, cogumelos, corraldas, hongos, barrio paracaidista, bairro de lata, gourbville, champa, court, villa miseria… Mas como o Brasil tem as favelas mais famosas do mundo, protótipo da pobreza, cenário de filmes desde a década de 1950 e de videoclipes desde Michael Jackson, berço do samba (e dos bailes funk), sede do tráfico e de facções criminosas, point de visitação de autoridades como o ex-presidente americano Barack Obama e o papa, é natural que os idiomas que não têm termo próprio – e mesmo muitos dos que têm – adotem favela para referir-se a esse aglomerado humano pouco ou nada urbanizado, embora urbano, que não chega a ser bairro embora seja maior do que muitas cidades (muitas são cidades dentro da cidade, com leis e administração próprias), tampouco é aldeia ou tribo, embora haja mais selvageria dentro delas do que na selva. Embora, mesmo derivada de fava, seja lugar de fome. Embora, mesmo assemelhada a favo, seja bem menos organizada que uma colmeia e bem mais caótica que um formigueiro.

É uma pena que a onda do politicamente correto esteja matando essa palavra tão inerente à nossa cultura. Afinal, hoje em dia ficou feio chamar as coisas pelo próprio nome – como se mudar a denominação mudasse a realidade –, e assim a favela virou comunidade, termo anódino que passa a impressão de mero estilo de vida, como se quem lá mora o fizesse por opção. Vale lembrar que um condomínio de alto luxo também é uma comunidade, embora seus moradores jamais empreguem tal termo para falar de si próprios, tal a carga pejorativa que essa palavra assumiu nos últimos anos, prova cabal de que não adianta maquiar o léxico. Enquanto isso, favela, palavra que, se não surgiu no Brasil, aqui ganhou seu pleno e doloroso sentido, segue viva em outras línguas ao mesmo tempo que vai morrendo entre nós. Vitória da hipocrisia sobre a criatividade.

Homossexualismo ou homossexualidade?

O caso da piada homofóbica feita pelo disseminador de fake news bolsonarista Otávio Fakhoury contra o senador Fabiano Contarato e a elegantíssima resposta dada por este ao negacionista Fakhoury na sessão da CPI da pandemia repercutiu durante toda a semana. Emocionado, indignado, mas altivo, o senador falou em nome de todos aqueles que são diariamente desrespeitados neste país por sua orientação sexual, cor da pele, gênero, idade, condição física, origem étnica ou geográfica, e assim por diante.

É claro que eu jamais faria uma brincadeira tão sem graça e tão desrespeitosa, mas se a tivesse feito, naquele momento na CPI, diante das câmeras e de milhões de telespectadores brasileiros, teria cavado um buraco no chão e me enterrado nele. Para resumir numa palavra a atitude do militante bolsonarista, eu diria que, além de insultuosa, foi uma tremenda babaquice, coisa de moleque e não de homem feito. Ainda mais vindo de alguém que detém certa cultura, muitos recursos materiais e que exalta a família o tempo todo, mas só um tipo de família – a dele.

Mas o caso suscitou novamente uma controvérsia linguística. Qual a forma politicamente mais correta: homossexualismo ou homossexualidade? Esse debate não é novo, e muitos dizem que cabe aos membros da própria comunidade LGBTQIA+ decidir como devemos nos referir a eles. Não vou entrar nessa polêmica, que envolve lugar de fala e outras questões atinentes à linguagem inclusiva. Vou apenas expressar minha opinião com base no meu conhecimento de língua.

Critica-se a forma homossexualismo alegando que o sufixo ‑ismo remete à ideia de doença ou patologia. Teríamos então nanismo, autismo, sedentarismo, etc., ao passo que o sufixo ‑dade de homossexualidade seria mais neutro, denotando condição – uns chamam até de opção (o que não é o caso, já que ninguém escolhe ser homossexual) ou orientação.

Entretanto, há inúmeras contraprovas desse argumento. Em primeiro lugar, o sufixo -ismo aparece em capitalismo, marxismo, classicismo, romantismo, automobilismo, alpinismo, cristianismo, budismo, e muitos outros.

Em segundo lugar, o sufixo ‑dade ocorre no nome de várias patologias: ansiedade, obesidade, hiperatividade.

Portanto, penso que não há nada de negativo em homossexualismo e nada de neutro ou positivo em homossexualidade. Ainda que os portadores dessa condição tenham sua preferência vocabular – e eles estão no seu direito –, não vejo sentido em repreender alguém por usar outro termo que tem exatamente o mesmo significado. Ou seja, sufixos não são bandeiras ideológicas, são meras ferramentas da língua para expressar conceitos. Há muitos indivíduos homofóbicos usando a palavra homossexualidade, assim como há muitos simpatizantes da causa LGBTQIA+ empregando homossexualismo, tudo por uma questão de hábito, sem qualquer outra conotação.

E em tempo: parabéns ao senador Contarato por sua coragem e postura cívica e a todos aqueles que, como ele, se sentiram ofendidos por um babaca.

Bolsonaro foi a Canossa

Um dos fatos históricos mais marcantes da Idade Média foi a chamada Questão das Investiduras, ou Querela das Investiduras. Trata-se de um conflito ocorrido de 1075 a 1122 entre o papa e o imperador germânico no qual se disputava a primazia na nomeação de bispos. Ocorria que o imperador Henrique IV desejava escolher ele mesmo os bispos a serem investidos dentro dos territórios do Império. Por outro lado, o papa não abria mão de seu poder sobre cardeais, bispos, abades e párocos. Assim, Henrique declarou guerra ao papado e, por causa disso, acabou excomungado pelo papa Gregório VII. Isso fez com que os barões alemães esboçassem a intenção de emancipar-se do jugo do imperador. Temendo a fragmentação de seu império, Henrique pediu ao papa que revogasse sua excomunhão.

Gregório VII exigiu então que o imperador viajasse de Speyer, na Alemanha, a Canossa, na Itália, e que permanecesse três dias e três noites ajoelhado às portas do castelo, sob frio e neve, descalço e trajando apenas uma túnica de lã. Cumprida essa penitência, o papa o recebeu e revogou sua excomunhão sob certas condições, que Henrique viria a violar pouco tempo depois.

Desse episódio histórico surgiram as expressões “penitência de Canossa” e “ir a Canossa” para designar um ato humilhante que alguém tem de praticar para conseguir o perdão por um malfeito.

Foi exatamente o que Bolsonaro foi obrigado a fazer ontem ao publicar uma carta à nação assinada por ele, mas redigida pelo ex-presidente Michel Temer, em que afirma não ter querido dizer aquilo que dissera em 7 de setembro sobre o STF e o ministro Alexandre de Moraes.

O fato de o presidente não ter redigido a carta com suas próprias palavras já põe em dúvida a sinceridade de seu conteúdo. Mas, como o que vale é a assinatura, para todos os efeitos – e para decepção de seus militantes – Bolsonaro fez um vexatório recuo estratégico. Ou seja, foi a Canossa.

Melhor para o Brasil, que já não tem poucos problemas a resolver. No entanto, o ceticismo é geral, não só dos ministros do Supremo, mas até mesmo dos próprios aliados políticos do presidente. Conhecendo o temperamento do capitão, estamos todos aguardando que ele, como Henrique IV, logo viole as promessas de bom comportamento que acabou de fazer. Como não é a primeira vez que ele morde e depois assopra, fica difícil acreditar nessa nova versão “Bolsonarinho paz e amor”.

As metáforas da crise política

Desde que a crise política entre os Poderes do Estado se instalou, ou melhor, foi artificialmente criada em nosso país, tem pululado na imprensa e entre os agentes políticos uma série de metáforas para descrever a situação. Desde que Bolsonaro começou a ensaiar o golpe que nunca dará, passamos a ouvir expressões como “jogar fora das quatro linhas da Constituição”, “esticar a corda”, “avançar o sinal”, “cruzar o Rubicão”, “enquadrar o STF”, “panela de pressão prestes a explodir”, “queimar as pontes entre o Executivo e o Judiciário”, “jogar para a plateia”, “fazer cortina de fumaça” e algumas outras.

“Jogar fora das quatro linhas da Constituição” faz referência a uma partida de futebol, em que só são válidas as jogadas que ocorrem dentro de campo; portanto, fora das quatro linhas, temos o desrespeito à Constituição e, consequentemente, o arbítrio.

Também do futebol vem a expressão “jogar para a plateia”, em que o jogador está mais preocupado em fazer jogadas bonitas do que eficientes, logo em encantar o público e não em ganhar o jogo. Nesse sentido, ao fazer suas bravatas, o Presidente insufla sua torcida, isto é, seus apoiadores, mas não rompe de fato com o estado de direito.

Já “esticar a corda” remete ao cabo de guerra, esporte em que cada grupo de competidores puxa uma das extremidades de uma corda, vencendo aquele que conseguir derrubar o grupo adversário. Muito praticado pelos militares, e por isso mesmo relacionado ao universo de Bolsonaro, é um exercício de medição de forças. Ou seja, ele e o Supremo Tribunal Federal estariam disputando para ver que é o mais forte. Depois de suas declarações de ontem em Brasília e em São Paulo por ocasião do Sete de Setembro, o capitão Bolsonaro teria, segundo analistas, não apenas esticado, mas rompido a corda, num processo sem volta.

Também do vocabulário militar vêm as expressões “fazer cortina de fumaça” e “queimar as pontes”. A cortina de fumaça é uma fogueira que as tropas fazem para que, encobertas pela fumaça, o inimigo não possa vê-las. Assim, a própria crise entre os Poderes seria uma tática diversionista para desviar a atenção da opinião pública dos reais problemas do país: má gestão da pandemia, com quase 600 mil mortes; má gestão da crise hídrica, em grande parte causada pelo próprio descaso do governo com a destruição da Amazônia (sim, amigos, o desmatamento é o principal responsável pela falta de chuvas no Sudeste e Centro-Oeste); alta do dólar; alta dos combustíveis; alta da inflação; desemprego em massa; fome; corrupção no governo; reformas ruins e que, mesmo assim, não andam no Congresso (agora devem andar menos ainda), y otras cositas más.

Por outro lado, quando uma tropa atravessa um rio, ela queima a ponte por onde passou para que o inimigo não possa alcançá-la. Por isso, “queimar as pontes” é ao mesmo tempo romper a comunicação e destruir qualquer possibilidade de retorno. É exatamente o que faz o Presidente.

“Avançar o sinal” é evidente metáfora do trânsito, em que ultrapassar o sinal vermelho é infração gravíssima, assim como desrespeitar ou tentar destruir a ordem democrática.

“Cruzar o Rubicão” alude ao episódio da história de Roma em que, tendo conquistado a Gália, Júlio César atravessou um rio chamado Rubicão, que separava a Gália Cisalpina da Itália, marchou com seu exército sobre Roma, o que era proibido pela lei romana, e declarou guerra ao Senado. Nessa ocasião, proclamou: alea jacta est, “a sorte está lançada”. A partir de então, “cruzar o Rubicão” passou a significar “tomar uma decisão arriscada e irreversível”.

A “panela de pressão prestes a explodir” é uma óbvia analogia a situações de grande tensão emocional das quais qualquer ato explosivo pode repentinamente surgir, como a ruptura institucional, por exemplo.

Por fim, “enquadrar o STF” ou “enquadrar o ministro Alexandre de Moraes” remete a colocar a pessoa ou instituição dentro de uma moldura, como um quadro, de modo que ela não possa sair e fique confinada a esse espaço. No caso em questão, trata-se de limitar o poder de ação do(s) ministro(s) do Supremo, especialmente em ações que possam atingir Bolsonaro ou seus apoiadores.

O recurso à metáfora é uma das estratégias comunicativas mais antigas que existem. Eu arriscaria dizer que ela surgiu praticamente junto com a própria aptidão linguística do ser humano. Prova disso é que grande parte das palavras que usamos são metáforas desgastadas das quais já não nos damos mais conta. Tanto que acabei de empregar uma: desgastar uma metáfora é empregá-la com tal frequência que ela deixa de ser sentida como figura de linguagem, do mesmo modo como se desgasta uma ferramenta de tanto usá-la até que ela perca sua funcionalidade. Infelizmente, o cenário atual nos tem brindado com mais metáforas do que com saídas para a crise.

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Agora uma consideração política: apoiar Bolsonaro neste momento é, a meu ver, trabalhar para eleger Lula no próximo ano. Se o capitão sofrer impeachment, o segundo turno da eleição de 2022 será disputado entre Lula e o candidato da terceira via, seja ele quem for. E esse candidato, seja ele quem for, terá grandes chances de derrotar Lula, dada a grande rejeição que o petista e seu partido têm no eleitorado brasileiro. Já uma disputa de segundo turno entre Lula e Bolsonaro evidentemente favorece o primeiro. Portanto, os bolsonaristas podem estar involuntariamente fazendo campanha para seu arqui-inimigo. Ou, para usar mais uma metáfora, dando um tiro no próprio pé.

A morte da cultura

Certa vez, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente emitiu um comunicado dizendo que o desaparecimento de uma língua e de sua respectiva cultura equivale a queimar um livro único sobre a natureza. Umberto Eco acrescenta: “toda língua é um tesouro social: não só o conjunto de suas regras gramaticais, mas todo o acervo produzido por seus desempenhos”.

Uma língua desaparece quando morre seu último falante. Mas, em seus derradeiros tempos de vida, quando não tem mais com quem conversar em sua língua nativa, essa pessoa deve sentir uma profunda melancolia, uma sensação de estar vivendo em outro planeta: suas experiências e lembranças, as coisas que faziam sentido em seu mundo, nada disso os outros podem compreender porque essas vivências só podem ser expressas numa língua que ninguém mais entende. Condenado ao monólogo, ou a falar de realidades que não são as suas, esse indivíduo deve sentir alívio ao cerrar os olhos pela última vez.

Mas não são só as culturas ditas primitivas que estão desaparecendo, deixando seus últimos guardiães desarvorados. A cultura letrada, de um modo geral, está morrendo, e este não é um problema exclusivamente brasileiro, embora aqui esse fato seja mais gritante por conta do descaso criminoso de nossos governantes, presentes e passados.

Há poucas décadas, fazer contas de cabeça ou conjugar os verbos corretamente (isto é, segundo a norma gramatical) eram atos banais para qualquer cidadão escolarizado. Hoje, nem mesmo caixas de banco ou de supermercado conseguem fazer uma simples soma sem recorrer à calculadora eletrônica. E ficam surpresos quando eu, mentalmente e mais rápido que eles, chego ao resultado correto enquanto ainda estão abrindo a gaveta, retirando a maquininha, ligando-a, digitando os números para ao final obter a mesma resposta que eu já havia obtido. Vezes sem conta recebi elogios por fazer algo que muitas pessoas da minha geração sabe fazer tão bem quanto eu.

Em outras ocasiões, sou olhado como se fosse um E.T. só porque digo que eu e minha esposa somos casados há 15 anos, já que o esperado é que eu diga que eu e a minha esposa, a gente é casado há 15 anos.

Expressões idiomáticas, anedotas, provérbios, alusões históricas, nada disso faz sentido hoje em dia. As pessoas simplesmente perderam a referência cultural que embasava esses enunciados. Num tempo em que quase ninguém mais lê, a não ser revistas de celebridades e postagens em redes sociais, dizer que a luta contra a corrupção no Brasil é como combater moinhos de vento causa perplexidade, quando não riso. Quem hoje em dia conhece Dom Quixote de la Mancha? Quem já ouviu falar (ler é pedir um pouco demais) em Miguel de Cervantes ou no Cavaleiro da Triste Figura?

Quando um famoso (e já idoso) narrador esportivo grita diante de um perigoso chute a gol “Pelas barbas de Netuno!”, será que alguém sabe do que se trata? Talvez alguns, pensando no planeta Netuno, que afinal frequenta os horóscopos, se perguntem: “ué, e planeta tem barba?”.

Pessoas escolarizadas da minha geração (e olha que ainda não cheguei à terceira idade) devem se sentir como o velho índio que pensa em seu idioma, mas não tem como traduzir seus valores culturais para o homem branco, talvez não porque faltem palavras (alguma tradução sempre é possível), mas porque falta o sentido.

Os mais “velhos” – e embora se viva cada vez mais, fica-se obsoleto cada vez mais cedo – são estrangeiros ou alienígenas em meio a uma juventude cujo acesso a um legado cultural milenar e aos valores de civilização foram substituídos por videogames, facebooks, twitters, reality shows, por uma escola imbecilizante (apesar, ou talvez por causa, da tecnologia), mais preocupada em doutrinar do que em educar, e por uma família ausente e consumista, para quem o ter é mais importante do que o ser.

Ironicamente, a cultura branca ocidental, que tantas línguas e culturas matou, está provando uma dose cavalar de seu próprio remédio.

A palavra é… narrativa!

Desde o início do governo Bolsonaro, vem-se tornando cada vez mais frequente no discurso político e também no jornalismo o uso da palavra narrativa com um novo significado: o de versão falsa de um fato político com o objetivo de encobrir a responsabilidade de seus protagonistas. Ou seja, diante de eventos de impacto, como a interferência do Presidente na Polícia Federal, a não resposta do Ministério da Saúde aos e-mails da Pfizer ou a possível intenção de compra superfaturada da Covaxin, governo e oposição apresentam diferentes narrativas, isto é, uma distinta cronologia dos fatos, bem como uma diversa justificativa para eles.

A prática da camuflagem do incômodo político por meio de versões fantasiosas não é nova; na verdade, é velha como o mundo: os gregos desenvolveram uma técnica chamada retórica justamente para fazer prevalecerem os interesses e pontos de vista do orador sobre os do oponente por meio do discurso. Mais do que a arte do convencimento, a retórica tem sempre sido usada como a arte da ocultação da verdade.

E, diante da guerra de narrativas, turbinada nos dias atuais pela manipulação de dados estatísticos, documentos e declarações de autoridades, inclusive com o uso da alta tecnologia, a opinião pública fica confusa, sem saber em quem acreditar, afinal, como demonstra Akira Kurosawa em seu famoso filme de 1950 Rashomon, a verdade não existe, o que existe são versões. Ou, se preferirem, narrativas.

País cristão ou país laico?

A recente polêmica sobre os decretos de fechamento temporário de templos religiosos, em que felizmente prevaleceu o bom senso, dá a dimensão do quão realmente laico é o estado brasileiro.

Como se sabe, a Proclamação da República, em 1889, marcou não só o fim da monarquia como também a separação entre Igreja Católica e estado brasileiro – até então, o catolicismo era a religião oficial do Brasil, com sérias implicações políticas em cujo mérito não vou entrar aqui. Só quero lembrar que o estado laico, isto é, que não privilegia nenhuma religião e dá ao cidadão a liberdade de consciência, credo e expressão, é uma conquista da modernidade que devemos aos filósofos iluministas do século XVIII.

Embora a ideia de que todos têm direito a escolher a crença religiosa (que implica o direito de não escolher nenhuma), como, de resto, o direito de escolher a tendência política, os governantes e parlamentares, o time de futebol preferido, etc., nos pareça óbvia hoje em dia, ela tem pouco mais de duzentos anos e só foi posta em prática efetivamente há pouco mais de cem anos. Por isso, a maioria dos países ocidentais, que vivem o chamado estado de direito, ainda não assimilaram totalmente esse princípio. O Brasil, que em matéria de estado de direito ainda está engatinhando, revela isso quando a legislação oficial prevê uma série de feriados religiosos católicos, mas não contempla as datas sagradas de outras religiões. Certa vez tive, por conta própria, de dispensar da aula uma aluna judia numa data comemorativa da sua religião que, obviamente, não estava prevista no calendário escolar da universidade.

Como, evidentemente, o calendário oficial não pode contemplar todas as datas sagradas de todas as religiões, até porque existem centenas de religiões no mundo e pelos menos várias dezenas delas no Brasil, o mais lógico numa república que se diz laica seria que apenas as datas cívicas fossem feriados. Muitos alegam que o Brasil é um país católico, daí comemorarmos até o dia da Padroeira do Brasil. Isso não é verdade: o Brasil é um país cujo povo é predominantemente, mas não totalmente católico. Portanto, católica é uma parcela da população, não o povo como um todo, menos ainda o estado.

Mas o que quero ressaltar aqui é o chauvinismo católico enrustido na nossa própria língua. Os defensores do politicamente correto, que vivem caçando as bruxas da intolerância racial, sexual, social, etc., ainda não atentaram para o fato de que expressões como “Nosso Senhor” ou “Nossa Senhora” embutem uma reverência a Jesus e a Maria que só cabe aos cristãos fervorosos. Num estado laico, o dia de Nossa Senhora Aparecida não deveria ser feriado pela razão acima exposta, bem como órgãos oficiais e meios de comunicação não vinculados à Igreja deveriam substituir “Nosso Senhor” e “Nossa Senhora” pelas denominações mais neutras “Jesus Cristo” e “Maria”, da mesma forma como deveriam evitar chamar o papa de Sua Santidade, a menos que dispensassem o mesmo tratamento (o que não costuma ocorrer) ao patriarca de Constantinopla, ao dalai-lama, e assim por diante. Aliás, tampouco tenho ouvido a mídia se referir à rainha da Inglaterra como “Sua Majestade” ou ao recém-falecido duque de Edimburgo como “Sua Alteza Real”.

Cotas raciais/sociais e educação de qualidade no Brasil

Uma questão que sempre provoca polêmica em nosso país é a política de cotas para negros, indígenas e estudantes pobres provenientes do ensino público em nossas universidades. De um lado, os que são contra essa política afirmam que ela fere o princípio da meritocracia, fazendo com que estudantes mais qualificados sejam preteridos em favor de outros menos preparados; de outro, os defensores da medida sustentam que ela é um importante instrumento de justiça social e que, não fosse ela, estudantes de baixa renda ou de determinadas etnias não teriam acesso à universidade.

Minha posição oscila entre ambas. Por um lado, acredito que o ingresso na universidade deveria pautar-se pelo mérito do candidato. As grandes universidades do mundo são grandes, não em tamanho, mas em importância, exatamente porque não só têm em seu corpo docente as mentes mais brilhantes, incluindo alguns ganhadores do prêmio Nobel, mas também porque selecionam os melhores candidatos para o seu corpo discente. Ou seja, produto bom é resultado de boa matéria-prima e bom processo de fabricação. Nesse sentido, uma universidade que faz assistencialismo social na seleção de seus alunos teria pouca relevância acadêmica.

Por outro lado, reconheço que, no momento, a política de cotas tem sido o mecanismo mais eficiente de inclusão social de que dispomos em termos da educação superior. Talvez isso rebaixe um pouco o nível da produção científica e mesmo o da qualidade dos profissionais que forma, mas sem dúvida eleva o nível social de seus egressos mais pobres.

No entanto, para mim o melhor dos mundos é aquele em que ricos e pobres, brancos e negros tenham igual acesso a um ensino básico de qualidade, o que significa melhorar substancialmente – radicalmente seria o termo ideal – a qualidade do ensino público, que atende à maioria da população de baixa renda no Brasil, aí incluída a maioria dos negros. Num cenário como esse, políticas de cotas seriam desnecessárias, e o mérito poderia ser o critério único de seleção.

Mas por que a educação pública brasileira não tem qualidade? Muitos dizem que falta investimento na área, portanto o problema seria financeiro. Todos sabemos que para a classe política brasileira em geral educação não é prioridade porque não dá voto. Mesmo assim, a verba constitucionalmente destinada à educação básica não é pequena – talvez ela seja, isso sim, mal gerida.

Fala-se muito dos baixos salários de professores. Não conheço a realidade em cada município brasileiro, mas tenho notícia de muitos professores do ensino público que se aposentam com proventos de 12, 13 mil reais. Ao mesmo tempo, se é verdade que há alguns colégios particulares que pagam muito bem aos docentes, os salários dos professores da maioria dos estabelecimentos privados chegam a ficar abaixo da média do que percebe um professor de escola pública de mesmo nível.

A meu ver, o grande problema do ensino público é justamente ser público. Não, não estou defendendo a privatização da educação básica, nada disso! O que quero dizer é que o modelo de gestão da esfera estatal é pouco eficiente. E explico por quê.

Em primeiro lugar, os gestores máximos da educação pública, isto é, ministros e secretários de educação, são, as mais das vezes, políticos, em geral cabos eleitorais dos governantes municipais, estaduais e federal, e não técnicos especialistas em educação. Assim, sua gestão está voltada à próxima eleição e não a um projeto educacional de longo prazo, uma política de estado que transcenda governos. Isso sem falar na corrupção, chaga que assola o estado brasileiro há séculos.

Em segundo lugar, considero que o próprio corpo docente das escolas públicas deixa muito a desejar. Embora haja professores muito bons tanto em formação acadêmica quanto em esforço e abnegação, a maior parte dos docentes tem formação ruim e pouca motivação. De fato, a admissão de professores por concurso público nos moldes em que ele é hoje realizado não permite aferir a real competência desses profissionais. O concurso público consiste em um teste de múltipla escolha, em grande parte voltado a questões de legislação, e uma redação. Não há análise de curriculum, prova didática, entrevista com recrutadores, nada! Não à toa, muitos dos aprovados nesses concursos provêm de péssimas faculdades, onde cursaram uma licenciatura de apenas três anos cheia de deficiências.

Sendo esse o contingente de profissionais à disposição do coordenador pedagógico, este fica impossibilitado de montar sua própria equipe, pois deve trabalhar com os professores que foram lotados em sua escola, sejam eles bons ou ruins. Esses professores, por sua vez, têm pouco estímulo ao crescimento profissional – em alguns casos, é preciso cursar um mestrado para subir apenas um ponto na carreira! Na verdade, a progressão se dá muito mais por antiguidade do que por mérito. Por outro lado, não há uma avaliação contínua de seu desempenho, o que significa que, qualquer que seja o grau de aproveitamento de seus alunos, os educadores não são nem premiados nem punidos. Sobretudo a estabilidade no emprego, a que todo servidor público concursado tem direito, leva à acomodação e à mediocridade.

Acredito num modelo em que coordenadores pedagógicos pudessem fazer eles próprios a seleção dos docentes que vão compor a sua equipe, tal como ocorre nas escolas privadas, e que esses coordenadores fossem cobrados pelos resultados que suas equipes apresentam – por exemplo, um sistema de pontos que resultasse na destinação de mais verba às escolas com melhores resultados, o que, por sinal, favoreceria uma salutar competição entre elas. E que essa cobrança não viesse apenas da Secretaria ou do Ministério da Educação, mas da própria comunidade usuária desse serviço público, isto é, pais e alunos. E esses coordenadores também seriam demissíveis, como, de resto, deveriam sê-lo todos os servidores públicos, com umas poucas exceções. Essa é, aliás, a proposta de reforma administrativa que está no Congresso Nacional à espera de votação.

Acredito também que é preciso restaurar a autoridade do professor, especialmente porque, na escola estatal, ele não está sujeito às pressões do mercado como ocorre no ensino privado, onde prevalece a lógica capitalista. Que as escolas tenham obrigatoriamente biblioteca, laboratórios, quadra poliesportiva, refeitório, psicólogo, médico e dentista. E que, de preferência, estejam situadas em local seguro, afastado de comunidades dominadas pelo crime. As crianças e jovens moradores desses locais disporiam de transporte escolar gratuito para chegar até a escola.

Enfim, sonho com uma educação pública de Primeiro Mundo, nos moldes do que ocorre hoje nos países desenvolvidos. Infelizmente, nossa realidade atual parece me mostrar que sou mesmo só um sonhador…

“Impeachment” é o mesmo que impedimento?

Nestes dias em que, diante de todas as ações e omissões de Bolsonaro que representam o contrário de como um governante deveria agir, já há mais de 60 pedidos de impeachment do Presidente da República sobre a mesa de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, alguns jornalistas têm empregado o termo vernáculo “impedimento” em substituição ao anglicismo impeachment, o que faz ressurgir a dúvida: impeachment e impedimento são a mesma coisa? Em outras palavras, é lícito traduzir o termo inglês pelo português? Mais ainda, é aconselhável fazer isso?

O impeachment é a figura jurídica surgida no mundo anglo-saxônico que permite ao parlamento cassar o mandato do chefe do Executivo diante de acusações comprovadas de improbidade no exercício do cargo. O substantivo inglês impeachment, assim como o verbo impeach, provêm do antigo francês empêcher, “impedir”, e empêchement, “impedimento”, por sua vez originários do baixo latim impedicare, derivado de pedica, “ferros que se prendem aos pés do prisioneiro para impedir seu movimento”. Daí talvez a tendência de traduzir impeachment como “impedimento”. No entanto, o próprio inglês distingue impeach, “fazer acusações contra, acusar de improbidade no exercício de mandato”, de impede, “impedir, obstruir, impossibilitar”. E a Constituição brasileira prevê o impedimento, temporário ou permanente, de um mandatário como justificativa para que seu suplente ocupe o cargo. Ou seja, uma doença ou viagem ao Exterior são motivos de impedimento do presidente, quando então o vice assume o posto. Esses impedimentos por razões corriqueiras nada têm a ver com o impeachment, que só se aplica em caso de acusação grave, que desautorize moralmente o presidente de permanecer no cargo. Nesse sentido, seria melhor traduzir impeachment por “cassação” do que por “impedimento”.

Logo, a tradução de impeachment por “impedimento” é inadequada, embora favorecida por uma certa semelhança sonora e parentesco etimológico. Evidentemente, o presidente cassado por impeachment fica definitivamente impedido de exercer seu mandato, mas, se o impeachment é um caso particular de impedimento, a recíproca não é verdadeira: nem todo impedimento se dá por impeachment.

A origem da palavra “feriado”

Na tentativa desesperada de frear a disseminação da covid-19, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, antecipou para o período de 26 de março a 4 de abril diversos feriados deste e do próximo ano. Alguns outros prefeitos estão fazendo ou pretendem fazer o mesmo. Ou seja, teremos um feriadão prolongado – e bem prolongado –, mas nada de viajar à praia ou ao campo nem muito menos fazer festas, hein!

Por falar em feriado e festa, republico aqui uma postagem de tempos atrás em que eu explicava a origem dessas palavras.

Primeiramente, por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, e, no caso presente, baixar os índices de contágio, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. “Feriado” deriva de “féria”, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações “segunda-feira”, “terça-feira”, etc., em que “feira”, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra “férias” seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de “féria”, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra “féria”, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra “feira” vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, “feira” passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras “teologia” e “ateu”, dentre outras.

Portanto, “feira”, “féria”, “férias”, “feriado”, festa”, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, fiquem em casa no feriadão e não façam festa para que a sua vida e a dos que vocês amam não tenham um final nefasto.