A hipocrisia brasileira na COP-30

Nesta COP-30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, o Brasil pretende despontar como a grande liderança mundial na transição energética, na redução da emissão de gases de efeito-estufa e na defesa do meio ambiente. No entanto, uma série de fatos relativos ao nosso país indicam que talvez tudo não passe de hipocrisia. E não me refiro só à exploração de petróleo na Margem Equatorial, tão criticada por especialistas e por opositores ao governo Lula, embora essa seja uma contradição flagrante.

A questão, a meu ver mais profunda, é que diversas características peculiares do Brasil se colocam na contramão das propostas apresentadas na COP.

Em primeiro lugar, o Brasil sempre foi um país predominantemente agrícola. Até o final do século XIX, o único produto de exportação brasileiro foi o café, e 90% da população vivia no meio rural. Houve um primeiro surto de industrialização com a chegada dos imigrantes estrangeiros (o conde Francesco Matarazzo é um exemplo) e um segundo no governo Juscelino Kubitschek. Ainda assim, o carro-chefe da nossa economia ainda hoje é o agronegócio, que desmata florestas para criar gado — e os gases emitidos pelos rebanhos (acho que não preciso explicar por onde, né?) são uma das maiores causas da mudança climática —, além de despejar toneladas de agrotóxicos no solo, nos rios e nos lençóis freáticos. Em pleno século XXI, ainda somos um país eminentemente agrícola e, desta vez, donos de uma agricultura poluidora, que derruba e queima florestas, além de envenenar as águas. Enquanto isso, o governo (este e todos os anteriores) é refém da chamada bancada ruralista do Congresso, além de não fiscalizar devidamente o desmatamento ilegal, que até tem diminuído, mas continua existindo.

Por sinal, para atender ao escoamento de soja, o governo pretende construir a polêmica ferrovia Ferrogrão, interligando o Norte e o Centro-Oeste do país. Dizem as más línguas que esse empreendimento atravessará áreas de conservação, terras demarcadas e ainda atrairá mais garimpo ilegal às reservas indígenas.

Por outro lado, o Estado não constrói ferrovias onde elas são realmente necessárias. Contraditoriamente, nosso país, que tem uma matriz energética majoritariamente limpa, com sobra de energia hidrelétrica — e agora também solar, eólica e da biomassa — optou há décadas pelo transporte rodoviário de mercadorias e pessoas, desprezando os outros modais e, assim, queimando óleo Diesel e poluindo ainda mais o planeta, bem como encarecendo desnecessariamente os bens transportados. Isso sem falar de como ficamos reféns das greves de caminhoneiros.

Nossa ministra do meio ambiente, Marina Silva, fala muito em floresta de pé, como se meio ambiente se resumisse a florestas. Há muitas alternativas não poluentes à matéria plástica, algumas até mais baratas (até cerca de 50 anos atrás, quase nada era feito de plástico, e vivíamos muito bem, obrigado), mas nenhum governo e nenhum parlamentar são capazes de propor uma lei restringindo seu uso ao estritamente necessário e insubstituível.

Apesar de catador de resíduos ser uma das principais “profissões” no Brasil, haja vista o grande número de puxadores de carrinho em nossas ruas, apenas 2% de nosso lixo reciclável é efetivamente reciclado. E o que dizer dos lixões, que deveriam ter acabado 10 anos atrás, mas seguem firmes e fortes para alegria dos urubus?

Enfim, pode até haver no governo pessoas bem-intencionadas com relação à busca de soluções à emergência climática, mas, como se sabe, de boas intenções o Inferno está cheio.

A pesquisa linguística no Brasil

Apesar de ainda sermos um país em vias de desenvolvimento (ou emergente, como se diz hoje em dia) e mesmo com os constantes ataques da nada saudosa gestão Bolsonaro à ciência e os sucessivos cortes de verbas e de investimento no setor, não só por aquele desastroso governo, mas também pelos anteriores, nossas pesquisas científicas e tecnológicas em várias áreas já se equiparam ao que de melhor se produz no mundo. Cirurgia cardíaca, neurociência, física, química, engenharia de materiais, aeronáutica, agricultura, dentre outros, são setores em que o Brasil vem continuamente se destacando no cenário mundial, com uma produção científica e intelectual relevante do ponto de vista tanto quantitativo como qualitativo. Infelizmente, nada semelhante pode ser dito a respeito das ciências da linguagem. Em nosso país, há poucas universidades (quase todas públicas) com departamentos de linguística. E, nestes, a pesquisa que se faz está quase sempre voltada ao ensino de português na escola básica. Ironicamente, nunca se ensinou tão mal a nossa língua nas escolas, haja vista os deploráveis resultados dos testes de avaliação aplicados aos nossos estudantes. Em plena sexta série, muitos são analfabetos funcionais — ou absolutos!

Enquanto no mundo desenvolvido as pesquisas em linguística versam sobre temas como a origem da linguagem e a primeira língua falada pelo homem, a reconstrução de línguas pré-históricas, as relações entre o cérebro humano e o processamento da linguagem, o uso do conhecimento linguístico no desenvolvimento de inteligência artificial e o tratamento de patologias da linguagem, dentre outros, aqui os departamentos de linguística mais parecem extensões das faculdades de educação. Não que a pesquisa aplicada ao ensino não seja relevante, mas os departamentos de linguística das universidades não deveriam ocupar-se somente disso. Além do mais, os linguistas que pesquisam sobre educação em geral propugnam não o ensino da norma-padrão da língua portuguesa, aquela que é correntemente utilizada pelas pessoas de alto letramento na imprensa, nos livros, na redação jurídica, técnica, acadêmica, etc., mas uma outra, em grande parte inventada por eles, que só gente que escreve mal emprega.

Todo o problema deriva do mau uso de uma disciplina linguística bastante importante, a sociolinguística, que estuda a relação entre o modo como as pessoas se expressam e o grupo social (classe, nível socioeconômico, profissão, idade, sexo, etc.) a que pertencem. Muitos linguistas brasileiros confundem a análise neutra, objetiva e imparcial do fenômeno com o suposto dever de militar em favor de algum grupo social e, por conseguinte, adequar o ensino de gramática às deficiências desse grupo, ministrando aos pobres — ou melhor, às pessoas em situação de vulnerabilidade econômica — uma educação igualmente pobre. Essas pesquisas não atacam a raiz do problema, isto é, a desigualdade social (o que, aliás, não é da competência dos linguistas fazer), nem propõem a solução óbvia, a melhoria da educação pública. Em vez disso, optam por sugerir o empobrecimento do vocabulário e da gramática para que, nivelando-os por baixo, sejam acessíveis a estudantes em situação de vulnerabilidade intelectual.

O problema é que esse tipo de pesquisa dá com os burros n’água na medida em que em nada contribuem para a melhoria do desempenho linguístico dos alunos, especialmente nas situações que realmente importam, ligadas à atividade profissional de alto nível. E pesquisas como essas ou como tantas outras, que enfocam questões meramente locais, têm pouca relevância no Brasil e nenhuma em nível global. De fato, pesquisas sobre questões pontuais e desimportantes — certa vez um professor meu da USP publicou um artigo sobre os parassinônimos do verbo andar; e um doutorando defendeu uma tese sobre o léxico dos travestis da Praça da Sé —, publicadas em língua portuguesa, acabam não tendo aplicação prática na elaboração de políticas públicas nem interessam à comunidade científica internacional, que, aliás, não lê português. Enquanto isso, outros países emergentes como China, Rússia, Índia e mesmo os vizinhos Chile e Argentina se destacam pela quantidade e pela qualidade de suas pesquisas, de interesse mundial e não apenas local.

Portanto, falta à linguística brasileira em particular e às ciências humanas em geral uma postura mais científica e menos ideológica. Falta que os linguistas encastelados nas universidades públicas brasileiras façam mais ciência e menos política. Ainda mais quando essa política já se provou na prática ineficaz, quando não nociva ao desenvolvimento do país.

Existem partidos políticos no Brasil?

Disse certa vez um analista político, não me lembro quem, que o Brasil não tem partidos, tem legendas. E legendas que são, na verdade, balcões de negócios onde se vendem votos e favores, desde que por um bom preço.

No Brasil temos um Partido Comunista que não é comunista (um de seus antigos caciques, por sinal, é latifundiário); temos um Partido Socialista que não é socialista; um Partido Social Democrata e um Partido da Social-Democracia Brasileira que não são social-democratas; um Partido Liberal que de liberal não tem nada; um Partido Progressista que é conservador; um partido chamado Republicanos que é complacente com ataques à república; um Partido Popular que tem desprezo pelo povo; um partido Avante que defende o retrocesso; e um partido Patriota que aplaude quem, dos Estados Unidos, conspira contra o Brasil. Também já tivemos um partido autointitulado Democratas, atual União Brasil, que também é complacente com ataques à democracia, bem como um Partido ao mesmo tempo Social e Liberal que não era nenhuma das duas coisas.

Como se pode constatar, essas legendas têm nomes pomposos, mas que nada significam e servem apenas para impressionar uma maioria de eleitores analfabetos políticos, que pensam, por exemplo, que Hitler era comunista. Legendas sem ideologia, meramente fisiológicas, que se aliam da extrema-esquerda à extrema-direita desde que estejam no poder e possam fartar-se com cargos e verbas. São os famosos “partidos-rolha”, que nunca afundam.

Seria ótimo que houvesse a tão prometida reforma política para acabar com essa pletora de legendas sem identidade, transformando-as em uns poucos partidos com ideologia e linha programática definidas. Isso contribuiria por sinal para o fim do chamado presidencialismo de coalizão, na verdade presidencialismo do toma lá dá cá. Mas desta, que é a pior legislatura da história do parlamento brasileiro, com suas blindagens, bandidagens e anistias a bandidos, nada de bom se pode esperar.

TV 3.0 pra quê?

Recentemente, o governo federal lançou a chamada TV 3.0, que promete revolucionar o modo como assistimos à televisão. Segundo o site governamental Agência Brasil, “a TV 3.0 vai integrar os serviços de internet (broadband) à habitual transmissão de sons e imagens (broadcast), possibilitando o uso de aplicativos que permitirão aos telespectadores interagir com parte da programação”.

Além da melhor qualidade de som e imagem, uma das principais inovações dessa nova televisão é a sua interface com aplicativos, por meio da qual as emissoras poderão oferecer conteúdos sob demanda: séries, jogos, programas especiais, etc. Graças à integração com a internet, o telespectador poderá votar num reality show em tempo real ou fazer compras, dentre outras coisas.

De fato, essa nova modalidade de TV aberta oferece um sem-número de possibilidades que colocam nossa experiência televisiva definitivamente no século XXI. No entanto, o que eu questiono é o descompasso entre o avanço tecnológico do veículo e a decadência da programação. Eu pergunto: para que melhor qualidade de som e imagem se a qualidade do conteúdo veiculado é cada vez pior? O noticiário da TV aberta consiste em sua maior parte no chamado “jornalismo justiceiro” — crônica policial que noticia crimes corriqueiros e de pouca relevância social em tom sensacionalista. O entretenimento é composto basicamente de programas de auditório popularescos, música brega (sertanejo, pagode, forró, funk), filmes blockbusters de super-heróis, humorísticos apelativos e sem criatividade (hoje em dia quase só baseados em stand up comedy), telenovelas água com açúcar com enredo clichê e muito merchandising, e assim por diante. Isso sem falar que a maior parte dos canais da TV aberta transmite programação religiosa (católica e sobretudo evangélica) grande parte do dia (algumas, pertencentes a igrejas, o dia inteiro).

Será que precisamos de tanta sofisticação e tecnologia para escutar música breganeja ou um pastor pregando a Bíblia com voz enfadonha? Precisamos de tantos recursos para votar em quem vai para o paredão do BBB, para ver receitas culinárias, futebol ou comprar o que está sendo anunciado, num incentivo frenético ao consumismo?

Em minha modesta opinião de quem quase não assiste TV, em vez de melhorar a forma, deveríamos melhorar o conteúdo. A televisão poderia ser um forte elemento de elevação do nível cultural e mesmo mental do cidadão, oferecendo-lhe novas possibilidades de conhecimento e conscientização ao invés de sempre lhe entregar mais do mesmo, mantendo-o preso em sua bolha. Afinal, ninguém pode gostar do que não conhece. E um dos princípios legais da concessão de canais de televisão à iniciativa privada é a pluralidade — que no caso brasileiro praticamente não existe.

O tipo de programação que povoa a televisão aberta só contribui para aprofundar o fosso de desigualdade social que separa ricos e pobres: enquanto quem tem possibilidade de acesso a uma TV por assinatura recebe conteúdo diversificado e de qualidade (mesmo assim, hoje em dia nem tanto), quem só pode assistir à TV aberta fica condenado à mesmice do entretenimento alienante e de mau gosto, à informação enviesada e pouco relevante e à lavagem cerebral da pregação religiosa. Mas é claro que não interessa aos capitalistas detentores das concessões de canais de mídia conscientizar, o importante é lucrar. E vejam que eles são concessionários e não proprietários desses canais porque, pela Constituição Federal, televisão é um serviço público.

De minha parte, vou continuar assistindo só aos programas que me acrescentam algo, tirando o som ou mudando de canal na hora do intervalo comercial, ouvindo música boa, assistindo a noticiosos com visão crítica e exposição de todos os lados da questão e ignorando todo o lixo que a TV, seja tradicional ou 3.0, tenta me impingir.

O silêncio dos universitários

Hoje republico um editorial do jornal O Estado de São Paulo, intitulado “O silêncio dos universitários”, que diz aquilo que muitos dentro do meio acadêmico sabem, mas têm medo de dizer. Vamos ao artigo.

O silêncio dos universitários

As universidades vieram à luz como templos da liberdade intelectual, carregando já no nome a promessa de brilhar como um “universo” de saberes, onde ideias rivais se enfrentam sem medo, dogmas são desafiados e consensos só existem enquanto resistem ao fogo do debate. Mas essa promessa foi traída. O câmpus, que deveria ser laboratório do pluralismo, tornou-se casamata da intolerância.

Professores e alunos admitem que se calam por medo das patrulhas ideológicas. Segundo uma pesquisa do Instituto Sivis, 47% dos estudantes brasileiros consultados relutam em discutir assuntos controversos. Os mais afetados são os estudantes que se consideram de centro: 57% deles se autocensuram, contra 43% dos alunos de esquerda e 39% dos de direita. Discussões políticas (39%) lideram o cardápio de temas que costumam ser evitados.

A mordaça não vem de decreto nem da polícia, mas do medo de ser linchado nas redes sociais, sabotado pelos pares, hostilizado em sala de aula. A autocensura se tornou forma mentis. O preço de pensar fora da cartilha é a difamação, o cancelamento e até o veto a pesquisas ou à docência.

Naturalmente, há fanatismos de direita rondando os portões da universidade, tentando minar a legitimidade da ciência e instrumentalizar a ignorância. Mas a verdade incômoda é que, dentro dos muros, os maiores carrascos da liberdade não são reacionários caricatos, e sim a esquerda iliberal hegemônica nas humanidades. Sob a máscara da “inclusão” e da “justiça social”, essa nova ortodoxia impôs um código de fé progressista, em que divergências são escorchadas como blasfêmia. A universidade, que deveria ser antídoto contra o pensamento único, abastardou-se em sua encarnação mais zelosa.

Uma academia sem dissenso não forma lideranças democráticas: fabrica inquisidores de toga acadêmica, adestrados para silenciar o adversário em vez de refutá-lo. A retórica do respeito a grupos marginalizados virou desculpa para marginalizar dissidentes. A depauperação do debate interno repercute na sociedade: onde a discordância vira ofensa, a política degenera em polarização tóxica. Ao abdicar da liberdade acadêmica, a universidade legitima o populismo que diz combater, abrindo espaço para que demagogos de direita se apresentem como paladinos da “verdade proibida”.

A degradação não foi imposta de fora para dentro. Foi construída por anos de covardia institucional e conformismo ideológico. Diretores coniventes com protestos truculentos; colegiados que chancelam cursos com uma versão única da História; professores que se calam para não perder prestígio ou verbas. A cultura do cancelamento floresce porque encontrou terreno fértil na militância disfarçada de docência e no silêncio cúmplice da administração.

Há antídotos. Universidades que adotam a neutralidade institucional — recusando-se a endossar causas políticas ou manifestos partidários — preservam maior diversidade intelectual. Experiências internacionais mostram que regras de convivência, centradas na defesa intransigente da liberdade de expressão, criam ambientes mais férteis para a ciência e mais resilientes a modismos ideológicos. No Brasil, manifestos de intelectuais que denunciam a asfixia do pluralismo são sinais tímidos, mas encorajadores, de resistência. Porém, só terão efeito se acompanhados de reformas institucionais: desde códigos de conduta que protejam vozes divergentes até currículos que ofereçam perspectivas contrastantes, em vez de catecismos disfarçados de disciplinas.

A liberdade de se expressar não é luxo nem bandeira partidária. É a quintessência da vida acadêmica. Sem ela, a universidade deixa de ser espaço de investigação crítica e se converte em megafone de dogmas; deixa de formar cidadãos esclarecidos e passa a moldar militantes biônicos – alienando todo o resto. Uma universidade que cancela palestras, silencia teses e criminaliza a divergência trai sua missão e se torna caricatura de si mesma. Ou as universidades resgatam sua vocação para o livre debate e experimentação de ideias, ou continuarão a se desmoralizar — e se desfigurar – como tribunais ideológicos. E quem perde não são só os acadêmicos — é a própria democracia brasileira.

O discurso jurídico deve ser modelo de exemplaridade idiomática?

Na última semana, causou certa celeuma o despacho do ministro do STF Alexandre de Moraes sobre medida cautelar imposta por ele mesmo ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e não só por seu conteúdo um tanto obscuro, o que enseja insegurança jurídica aos defensores do ex-mandatário, mas também por razões linguísticas. É que nele figurou a frase “a JUSTIÇA É CEGA MAIS NÃO É TOLA!!!!!” (sic), que chamou a atenção da imprensa e de professores de português pelo uso do advérbio mais no lugar da conjunção mas, além da ausência de vírgula antes dessa conjunção. O erro no uso do advérbio foi posteriormente corrigido, a falta de vírgula não.

Também chama a atenção em uma sentença judicial o excesso de pontos de exclamação, recurso mais aceitável numa comunicação informal. Mas, lendo com atenção o texto do ministro, é possível encontrar uma série de outras incorreções gramaticais, que passaram despercebidas aos olhos da imprensa. Pode-se argumentar que tais erros sejam fruto da pressa do magistrado em emitir sua decisão e da pressão que tem sofrido por parte dos bolsonaristas e até de Donald Trump, mas o fato é que certos erros, sendo recorrentes, demonstram estar arraigados na escrita do juiz, pois, como dizia meu saudoso pai, “ninguém escreve o número 5 de cabeça para baixo só porque está distraído”.

Na decisão do ministro, encontra-se à página 2 “À PARTIR DAS 19H00 ATÉ AS 6H00 DE SEGUNDA A SEXTA FEIRAS”. Como se sabe, na locução prepositiva a partir de não há crase, portanto a presença do acento grave na preposição a é injustificável. Também faltou o hífen em sexta feiras — aliás, o correto é o plural sextas-feiras. Na verdade, Moraes teria se saído melhor se tivesse redigido de segunda a sexta-feira ou das segundas às sextas-feiras. O mesmo erro de crase aparece na página 5: “as redes sociais do investigado EDUARDO NANTES BOLSONARO foram utilizadas à favor de JAIR MESSIAS BOLSONARO”.

Voltando à página 2, encontramos “foram divulgadas diversas postagens nas redes sociais, em que o réu JAIR MESSIAS BOLSONARO exibe…”. Aqui temos uma vírgula que transforma uma oração adjetiva que deveria ser restritiva em explicativa. Na página seguinte, encontra-se “Requereu o embargante, que a decisão de eDoc. 1.486 seja esclarecida”. Agora, além do objeto direto separado do verbo por vírgula indevida, teria sido melhor que Moraes fizesse a correlação temporal dos verbos: “requereu que a decisão fosse esclarecida”.

Ainda sobre vírgulas mal empregadas, há na mesma página a frase “ficou consignado que, as condutas praticadas por JAIR MESSIAS BOLSONARO…”; agora temos uma vírgula após a conjunção integrante que, outro emprego incorreto da pontuação. O mesmo acontece à p. 5, em que se lê “uma vez que, as redes sociais do investigado…”.

À p. 3, na mesma frase temos “material pré fabricado” (sem hífen em pré-fabricado) e “posterior postagens”, sem concordância entre adjetivo e substantivo (o correto é posteriores postagens). E ainda “condutas ilícitas que, eventualmente, poderiam ser praticadas por JAIR MESSIAS BOLSONARO, sejam em entrevistas, sejam em atos públicos…”. Pode ser que algum gramático abone o uso das conjunções sejaseja no plural, concordando com condutas ilícitas, mas a boa redação recomenda que seja permaneça invariável no singular, até porque se trata de conjunção e não de verbo, este sim que se flexiona em número. E, ainda na mesma página, aparece “tanto em entrevistas, quanto em discursos públicos ou privados”; ora, não se separam termos correlativos introduzidos por tantoquanto por vírgula.

Já na p. 4 encontramos “será considerado burla à proibição imposta pela PRIMEIRA TURMA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ao réu JAIR MESSIAS BOLSONARO, à replicação de conteúdo…”. Aqui há três erros: primeiro, a falta de concordância entre o sujeito replicação e o predicativo considerado, pois, na ordem direta, teríamos “a replicação de conteúdo será considerada burla”; segundo, a presença inadequada da vírgula após “BOLSONARO”, separando o sujeito replicação do complemento nominal ao réu JAIR MESSIAS BOLSONARO; terceiro, o acento grave em “à replicação” quando esse a é o artigo definido feminino referente a replicação e não a contração da preposição a com esse artigo, visto que não existe preposição, nem seria cabível que houvesse, nesse contexto. Além disso, no parágrafo seguinte ocorre “teve aplicada as medidas cautelares”, sem a devida concordância entre aplicadas e medidas.

Mais abaixo, no mesmo parágrafo, lê-se “A legislação permite impedir que quaisquer medidas cautelares sejam burladas, como por exemplo, o bloqueio de contas bancárias…”, em que, como se sabe, a locução por exemplo deveria vir isolada entre vírgulas (“como, por exemplo, o bloqueio”). E também “Permitir que o investigado possa abrir uma nova conta bancária ou se utilizar de contas de terceiros para continuar na lavagem de dinheiro, corresponderia a desrespeito flagrante a medida cautelar ensejando a prisão preventiva”, em que temos vírgula onde não deveria haver, isto é, separando o sujeito composto permitire se utilizar do verbo corresponderia, mas não a temos onde deveria estar, separando medida cautelar de ensejando, já que aí se introduz oração subordinada. Eu também faria a crase em “desrespeito flagrante à medida cautelar”, já que se trata da medida específica proferida dias antes e não qualquer medida em geral.

No parágrafo a seguir podemos ler “discurso proferido por JAIR MESSIAS BOLSONARO na Câmara do Deputado” (grifo meu). Quem dera este país tivesse só um deputado e não 513 (ou talvez 531 se o veto do presidente Lula for derrubado)! Quanta economia de dinheiro e de leis inúteis e nocivas ao Brasil! E quantas bobagens e absurdos a menos teríamos de ouvir! Mas a Câmara é dos Deputados e não do Deputado. Seria esse erro crasso devido ao próprio Moraes ou a algum de seus assessores, que ajudaram a redigir a decisão, mas não a revisaram?

Como se pode perceber nos exemplos acima, a adoção do discurso jurídico como padrão de exemplaridade idiomática para nele basear a norma-padrão da língua portuguesa e, consequentemente, as gramáticas normativas precisa ser feita com cuidado: é evidente que grandes juristas escrevem bem, sobretudo quando publicam livros de Direito que são revisados pelas editoras, mas petições, sentenças, acórdãos, despachos, intimações, mandados, etc., precisam ser tomadas cum grano salis, pois, se um ministro do Supremo, professor da mais prestigiosa universidade pública brasileira e jurista reconhecido comete erros gramaticais, o que dizer de advogados formados em faculdades de qualidade duvidosa? Fica aí uma questão para se pensar.

P.S. Meu propósito com este artigo não é desmoralizar o ministro Alexandre de Moraes (provavelmente nem foi ele quem redigiu o documento) e assim dar munição aos bolsonaristas, mas sim dar subsídios à discussão que hoje ocorre na academia sobre qual modelo de norma-padrão devemos adotar. Como se sabe, certos linguistas, que são maioria nas universidades, defendem a substituição do cânone literário por textos acadêmicos, técnicos, jurídicos e jornalísticos como novo padrão. É uma discussão que dá pano pra manga.

É possível fazer linguística sem ser militante?

Em um debate intitulado Novos estudos em historiografia linguística no Brasil, promovido pela Abralin — Associação Brasileira de Linguística — e disponível em https://www.youtube.com/live/VJNDzRRMVwc, a linguista Cristina Altmann, que foi minha professora na USP quando tanto eu quanto ela éramos bem jovens, faz (no vídeo, a partir de 1:42:43) uma série de afirmações sobre a neutralidade ou não do linguista em face de seu objeto de estudo, a língua. E ela defende que, do mesmo modo como os produtos tecnológicos das ciências naturais impactam a sociedade e, por isso, os cientistas dessas áreas devem assumir a responsabilidade social sobre esses impactos, o pesquisador de Humanas não pode ficar alheio às questões sociais que perpassam seu objeto. Até aí, concordo com ela: a ciência traz impactos à nossa vida, e o cientista deve estar consciente disso. No entanto — e aí está o primeiro equívoco dessa professora —, a ciência simplesmente estuda e descreve a natureza, produzindo conhecimentos que posteriormente vão se transformar em tecnologias nas indústrias, nas fazendas, nos hospitais, etc. Portanto, o uso ético de uma tecnologia cabe a quem a comercializa e a disponibiliza à humanidade. Seria cabível culpar a física pelo desenvolvimento da bomba atômica? A responsabilidade pela destruição de Hiroshima e Nagasaki é de Albert Einstein e sua equação E = mc² ou do governo dos Estados Unidos, que financiaram o Projeto Manhattan e decidiram usar a nova arma para pôr fim à guerra?

Mas Altmann vai além e afirma que, na medida em que as ciências da linguagem estão rompendo com o sistema saussuriano segundo o qual, dentre outras coisas, gênero gramatical não tem relação com sexo biológico e discutem dentro de seu objeto relações de poder, o linguista também é, sim, militante, pois estuda objetos científicos híbridos, isto é, que não são mais neutros. (Neste ponto eu confesso que nunca havia ouvido falar em objetos neutros; o que pode ser neutro ou não é o pesquisador, não o objeto.) E afirma também que o pesquisador da linguagem não é mais separado do objeto que procura analisar e descrever, pois há uma mistura entre sujeito pesquisador e objeto pesquisado. E, como historiógrafa da linguística, diz que, ao analisar o conhecimento produzido em determinado contexto social e cultural, é preciso levar em conta se quem produziu tal conhecimento era homem ou mulher, branco ou negro, rico ou pobre. Sua justificativa é que tais categorias influem no resultado produzido, isto é, no conhecimento elaborado. Ela chega a afirmar que uma vacina para um homem branco europeu é enviesada ao ser aplicada a uma mulher negra africana. Em sua visão, até a biologia do corpo humano é uma construção social, portanto os vírus também fazem discriminação de gênero, raça, etnia, orientação sexual, língua, cultura, religião, etc.

A ser verdade a afirmação da professora, então todo o conhecimento linguístico produzido no Brasil até agora é enviesado e, portanto, viciado, logo não teria validade científica. Trata-se de uma acusação muito grave. Mas ela endossa esse enviesamento ao defender a militância dentro do fazer linguístico.

Em primeiro lugar, o que caracteriza e define a ciência é o chamado método científico, um conjunto de procedimentos bastante rígidos que visa a garantir que os dados obtidos numa pesquisa sejam os mais próximos possíveis da realidade. Visa também a assegurar que a análise desses dados seja a mais objetiva, isenta e imparcial possível, sem a interferência de opiniões ou crenças pessoais, sem nenhum viés enfim que possa comprometer a validade e a credibilidade dos resultados. Para que o resultado de uma pesquisa seja confiável, é preciso justamente que haja um distanciamento epistemológico entre sujeito pesquisador e objeto pesquisado, mesmo que sujeito e objeto tenham a mesma natureza, no caso, a humana. Jamais podemos ter uma visão ampla e nítida de um objeto se nos colocamos dentro dele. Jamais podemos ser isentos se nos colocamos de um dos lados.

Portanto, não importa se o pesquisador é homem, mulher, branco, negro, azul, verde, rosa, europeu, chinês, africano, brasileiro ou marciano; desde que ele aplique com rigor os preceitos do método científico, seus resultados serão os mesmos de qualquer outro pesquisador. Tanto que um dos critérios de validação de um conhecimento científico é que o experimento que o ensejou seja replicável e produza sempre o mesmo resultado. Isso só não ocorrerá se o pesquisador introduzir em seu trabalho visões pessoais e ideológicas, o que não é lícito na atividade científica.

Entretanto, é usual em se tratando de ciências humanas basear o raciocínio em bibliografia constituída tanto de trabalhos científicos quanto de ensaios filosóficos, em que o autor veicula uma doutrina, logo um artigo de fé, e não uma teoria construída a partir de observação e experimentação sobre a realidade. E, como todos sabemos, a filosofia não é uma ciência, é um discurso que, embora racional, provém muito mais da visão particular que o filósofo tem do mundo, portanto de suas convicções pessoais, de suas idiossincrasias e de seu viés ideológico.

Sobretudo após o advento da chamada teoria crítica, do conceito de pós-modernidade, do desconstrucionismo e do relativismo, passou a ser muito viva nas ciências humanas a crença de que não há dados objetivos, fatos concretos observáveis e testáveis segundo o método científico, mas tudo é relativo, tudo é questão de ponto de vista. E esse ponto de vista será tanto mais forte quanto mais for a favor de alguma minoria oprimida. Nem a linguística, a mais exata das ciências humanas, consegue escapar desse dogma, jamais provado e muitas vezes desmentido. E é ele que dá ensejo a que dados objetivos se misturem a opiniões pessoais, juízos de verdade se confundam com juízos de valor, teorias científicas apoiadas em evidências concretas sejam rebatidas por pregações de índole ideológica e palavras de ordem, e assim por diante. Tudo isso contribui para reforçar o descrédito de que as ciências humanas já gozam perante a sociedade em geral, para quem ciências de verdade são as exatas e as biológicas, que geram tecnologias úteis que confirmam a veracidade de suas teorias. Já as ciências humanas seriam um amontoado de pontos de vista e reflexões filosóficas que em nada contribuem para o progresso social e onde o que vale é a dialética dos debatedores e não os fatos concretos.

Outro argumento usado no âmbito da ciência pós-moderna e relativista é que, tendo as ciências humanas por objeto o ser humano e sendo os pesquisadores igualmente humanos, têm estes o direito e, mais ainda, o dever de intervir no objeto estudado e não apenas descrevê-lo. No entanto, na visão desses linguistas, essa intervenção só é legítima se for baseada em sua própria ideologia, jamais em outra qualquer, especialmente numa que lhe seja contrária. De fato, todas as análises feitas por pesquisadores dessa linha ideológica — e que são a maioria nos departamentos de ciências humanas das grandes universidades — embutem juízos de valor onde só deveria haver juízos de verdade, e tais juízos sempre militam em favor de uma pauta demagogicamente rotulada de “progressista”, na verdade uma pauta identitarista e marxista que pouco ou nada tem a ver com progresso.

Já que esses linguistas, incluindo a professora Altmann, consideram legítimo interferir no objeto de estudo e projetar nele convicções pessoais e político-partidárias, eu pergunto se eles aceitariam pacificamente um trabalho de pesquisa que veiculasse valores conservadores, capitalistas, eurocêntricos e mesmo reacionários. Parece que, na visão deles, o linguista pode e deve perfeitamente ser militante em sua pesquisa desde que essa militância seja de esquerda, obviamente.

O fato é que qualquer militância, seja ela de esquerda, centro ou direita, por mais nobres que sejam seus motivos, é incompatível com o fazer científico e compromete a própria credibilidade da ciência, já que o “conhecimento” assim produzido não representa a realidade e sim um ponto de vista relativo, cujo valor de verdade não decorre de evidências concretas, inquestionáveis e muito bem estabelecidas e sim da condição social, de gênero e de raça de quem faz a pesquisa ou de quem é objeto dela.

O problema é que a ciência vem progressivamente perdendo a credibilidade que a tão duras penas (incluindo cientistas queimados na fogueira) conquistou ao longo dos últimos séculos por obra de forças obscurantistas e anticivilizatórias como certas religiões apoiadas no fanatismo, pensadores e pregadores negacionistas, governos autoritários, redes sociais emburrecedoras e outros. Não hesito em afirmar que a vertiginosa ascensão da extrema-direita no mundo democrático e civilizado é resultado do desencantamento das pessoas com um discurso acadêmico e midiático que, em vez de privilegiar a verdade dos fatos, doa a quem doer, defende bandeiras identitárias à luz de uma doutrina filosófica e política que já se provou na prática inexequível e fracassada e que só espalhou dor e infelicidade por onde passou.

Infelizmente, essa ideologia está profundamente impregnada em nosso meio acadêmico, especialmente nas humanidades e nas ciências humanas, tal o modo como nossas universidades vieram sendo aparelhadas por certos grupos políticos ao longo das últimas décadas. E essa ideologia se reproduz indefinidamente na medida em que os estudantes, muitos dos quais ainda desprovidos de senso crítico, são expostos a esse “pensamento único”, sem possibilidade de um contraditório, ao mesmo tempo que estudantes identitaristas, que já entram na universidade imbuídos dessa mentalidade, se regozijam ao ver que seus professores “jogam no mesmo time”.

Uma última observação: embora o relativismo, o marxismo e a cultura woke estejam disseminados por todo o meio acadêmico ocidental, linguistas de países desenvolvidos ainda desenvolvem pesquisas úteis e relevantes, em que impera o método científico, como a reconstrução de línguas pré-históricas, a decifração de inscrições antigas, o processamento da língua pelo cérebro, o tratamento de patologias da linguagem e mesmo o estudo de questões sociais envolvendo a língua, mas sem parti pris, sem visão preconcebida e sem defender ou atacar A, B ou C. Já no Brasil…

O que os empresários geram além de empregos?

Sempre que partidos ou governos de esquerda criticam o chamado “andar de cima”, isto é, os ricos, os capitalistas, estes se defendem argumentando que empresários geram empregos, portanto são essenciais ao desenvolvimento do país. De fato, não seria concebível o progresso econômico, social e tecnológico sem a atuação de pessoas que decidam empreender e, usando seu capital, criem negócios que empreguem outras pessoas, as quais, não sendo empreendedoras, vendem sua força de trabalho a quem empreende.

Mas, desde a Revolução Industrial e sobretudo hoje, em tempos de mecanização do trabalho e inteligência artificial, eu diria que empresários geram desemprego, na medida em que não hesitam em substituir mão de obra humana por robôs e algoritmos — afinal máquinas e softwares não fazem greve, não pedem aumento de salário, não faltam, não ficam doentes, não tiram férias, não se recusam a cumprir ordens, não demandam encargos trabalhistas, não processam seus patrões…

Como disse o economista escocês Adam Smith, “o padeiro põe o pão na minha mesa todas as manhãs porque faz pão no seu próprio interesse, não no meu”. E o interesse do empresário é um só: o lucro. A lógica do capitalismo é que, na medida em que aufira lucro, o empreendedor também presta um serviço à sociedade, provendo-a com produtos e serviços que de outra forma não existiriam — ou teriam de ser providos pelo Estado, como nos regimes comunistas, o que gera ineficiência e baixa qualidade, além de muitas vezes escassez.

Mas é justamente o fato de que o empresário só produz em razão do lucro o que leva à mentalidade da maximização do lucro a qualquer custo. Nesse sentido, empresários geram empregos, mas também fazem propaganda enganosa para vender mais, usam de seu braço armado, chamado marketing, para nos convencer a comprar o que não precisamos ou para enaltecer as qualidades miraculosas que seus produtos não têm. Pior, aliciam até as indefesas crianças com o chamado “marketing futuro”, visando a moldar desde cedo os futuros consumidores. Empresários anunciam mercadorias a preços que sempre terminam com o algarismo 9 para parecerem mais baratos do que realmente são. Em nome do lucro máximo, empresários nos fazem comer carne com hormônios e antibióticos e verduras com agrotóxicos, além de nos fazerem consumir alimentos ultraprocessados porque são mais lucrativos para eles, não importa quantas doenças eles produzam. Empresários impulsionam nas redes sociais publicações que tenham muito engajamento mesmo que sejam golpes, fake news, discursos de ódio, propagandas falsas ou incentivos à violência e ao terrorismo, afinal like is money. Empresários em geral têm desprezo pelo meio ambiente, visto como um empecilho aos seus empreendimentos, e pelos animais, vistos como mera mercadoria. Se certos pecuaristas dizem adotar tratamento “ético” ao gado, não é por amor aos bichinhos ou respeito à vida e sim por pressão de certos setores mais esclarecidos da sociedade; se dizem adotar medidas de compliance ambiental, é para não perder mercados e não porque se preocupem com o futuro do planeta ou com o mundo que vão legar a seus netos. Aliás, muitas das políticas de sustentabilidade econômica, social e ambiental que as empresas dizem adotar não passam de retórica, isto é, de mais uma estratégia de marketing para capturar os incautos.

Em nome da maximização do lucro, empresários não hesitam em vender produtos que sabidamente fazem mal à saúde sob a alegação do direito de escolha do consumidor. Em certos casos, não hesitam em adicionar componentes que viciam, criam dependência, visando a manter um público consumidor cativo, como é o caso da nicotina nos cigarros, das famigeradas bets para a classe baixa ou das redes sociais para as crianças e adolescentes. Empresários fazem lobbies nos parlamentos (isto é, corrompem parlamentares) para que estes defendam seus interesses, garantindo isenções fiscais ou vetando leis que prejudiquem ou inviabilizem seus negócios. Empresários usam de seu poder econômico para oprimir seus empregados (cinicamente chamados de “colaboradores”) e seus consumidores, obrigando estes a sujeitar-se ao que lhes é oferecido. Se o consumidor tenta reclamar, deve primeiro submeter-se à via crucis do menu eletrônico e suas infinitas opções, dos call centers e seus atendentes gerundistas, dos longos prazos (estipulados pelas próprias empresas) de espera por uma resposta para, ao final, receber uma nota redigida pela assessoria de imprensa dizendo sarcasticamente que ele (consumidor) é muito importante para a empresa, mas que infelizmente sua reclamação não pôde ser atendida ou porque não procede ou por razões técnicas ou porque a lei não o obriga, etc. etc.

Empresários geram empregos, mas também são aqueles que elevam imediatamente o preço do combustível na bomba quando ele sobe na refinaria, mas jamais reduzem o valor no posto quando ele cai na petrolífera. Empresários reduzem o volume da embalagem quando não podem aumentar o preço do produto e assim vendem um litro de 900 ml, um quilo de 950 gramas e um pó de café com mais serragem e menos café. Empresários correm com seus Porsches e outros carros de luxo em vias públicas onde a velocidade máxima é 50 km/h, matando trabalhadores inocentes e pais de família, pois, sendo ricos, estão acima da lei. E se a lei os atinge, sempre existe o famoso jeitinho, não é? Finalmente, empresários patrocinam e financiam um golpe de Estado para destruir a democracia a fim de que um governo de esquerda (mesmo que seja aquele que mais favoreceu o sistema financeiro) assuma o poder. Aliás, grandes corporações influenciam o resultado de eleições no mundo inteiro para que seus interesses econômicos não sejam contrariados.

Verdade seja dita e justiça seja feita, há muitos empresários honestos e éticos, sobretudo os pequenos, e empreender não é fácil, ainda mais no Brasil, com seu cipoal de tributos, normas legais, burocracias e fiscais corruptos. Mas o fato é que a atividade empresarial, cerne do capitalismo, está fundada num dos instintos mais primitivos do ser humano, a ganância, o desejo infinito de poder e de dinheiro, em nome do qual se mata e se morre, destrói-se a sociedade e o planeta, e pensa-se somente em si mesmo e em mais nada.

Impostura científica lá e aqui

A psicóloga social italiana Francesca Gino, professora da Harvard Business School, especialista em ética, criatividade e honestidade no ambiente corporativo, é (ou, pelo menos, era) uma autoridade em sua área, tendo artigos largamente citados e dando consultoria a grandes instituições, como o Banco Mundial, por exemplo. Acontece que desde 2021 vem sendo alvo de denúncias públicas de manipulação de dados em trabalhos assinados por ela em coautoria, sendo que um deles já havia sido retratado (retratação de um trabalho científico é a retirada desse trabalho do periódico em que havia sido publicado e a emissão de um alerta à comunidade científica de que ele não deve mais ser utilizado como fonte bibliográfica).

Em decorrência das denúncias, a Universidade de Harvard realizou uma investigação interna que concluiu que Gino havia adulterado dados em pelo menos quatro artigos. A partir daí, ela foi afastada, impedida de ter acesso ao campus, perdeu seu cargo de professora e ao final foi demitida. Ironicamente, uma especialista em honestidade foi punida por ser desonesta.

Esse caso revela que, em instituições sérias, mesmo um indivíduo de grande prestígio acadêmico pode ser punido se cometer fraude científica. Mas levanta também a questão sobre a eficácia da revisão por pares, que nem sempre é capaz de flagrar inconsistências, erros ou fraudes em artigos submetidos à publicação, e sobre a postura dúbia das universidades em relação a punir seus pesquisadores de maior prestígio mesmo quando suas pesquisas são postas em dúvida.

O caso em questão é emblemático porque mostra a diferença entre a conduta de uma instituição respeitável como Harvard, que não tem medo de cortar na própria carne, e as universidades brasileiras, que fazem vista grossa de fraudes metodológicas cometidas por seus docentes, especialmente na área de Humanas, ou até mesmo as endossam se tais fraudes servirem para confirmar certo viés ideológico com o qual essas universidades compactuam.

Digo isso porque na minha área, a linguística, há inúmeros casos de trabalhos, alguns que até já se tornaram referência entre alunos e pesquisadores, realizados por nomes celebrados no meio acadêmico nacional trazendo afirmações categóricas que são desmentidas pelos dados empíricos, o que revela, no mínimo, a desonestidade intelectual de seus autores.

Seus artigos e livros afirmam, por exemplo, que certas construções sintáticas ou recomendações gramaticais não se usam mais quando as estatísticas mostram que estão em pleno vigor, que no Brasil já se fala uma língua distinta do português quando não há nenhuma evidência material disso, além do que criticam gramáticos normativos com pouco ou nenhum fundamento. A falta de seriedade dessas obras e a tendenciosidade de seus autores é patente. Mesmo assim, eles continuam gozando de prestígio, posando de autoridades no assunto, dando consultorias e entrevistas na televisão e até exercendo cargos no governo. E quem os denuncia é tachado de fascista — aliás, dependendo de quem for o alvo da crítica ou denúncia, pode até mesmo ser acusado de racista ou misógino.

Mas talvez o problema não seja só brasileiro. Há bastante tempo, as ciências humanas perderam sua credibilidade tanto no Norte quanto no Sul Global. Em 1996, o físico Alan Sokal submeteu um artigo propositalmente falso e absurdo chamado “Transgredindo as fronteiras: rumo a uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica” a um prestigioso periódico de ciências sociais chamado Social Text. No artigo, Sokal defendia dentre outras coisas que a gravidade quântica é uma construção social e linguística. O artigo foi aprovado e publicado; três semanas depois, Sokal revelou que o artigo era uma farsa e que fazia parte de um experimento em que ele pretendia provar que “alguns periódicos de humanidades publicarão qualquer coisa, desde que tenha o pensamento esquerdista adequado e seja citado ou escrito por pensadores esquerdistas bem conhecidos” (Paul R. Gross e Norman Levitt, Higher Superstition). Sokal partiu do princípio de que “o que importa é a subserviência ideológica, as referências bajuladoras a escritores desconstrucionistas e a quantidade suficiente do jargão apropriado”. Ele diz:

Os resultados do meu pequeno experimento demonstram, no mínimo, que alguns setores da moda da esquerda acadêmica americana têm se tornado intelectualmente preguiçosos. Os editores da Social Text gostaram do meu artigo porque gostaram da sua conclusão: que “o conteúdo e a metodologia da ciência pós-moderna fornecem um poderoso suporte intelectual para o projeto político progressista”. Aparentemente, eles não sentiram necessidade de analisar a qualidade das evidências, a coerência dos argumentos ou mesmo a relevância dos argumentos para a conclusão pretendida. 

Segundo a Wikipédia:

Após se referir com ceticismo ao “chamado método científico”, o artigo declarou que “está se tornando cada vez mais evidente que a ‘realidade física’ é fundamentalmente uma construção social e linguística”. Prosseguiu afirmando que, como a pesquisa científica é “inerentemente carregada de teorias e autorreferencial”, ela “não pode afirmar um status epistemológico privilegiado em relação a narrativas contra-hegemônicas emanadas de comunidades dissidentes ou marginalizadas” e que, portanto, uma “ciência libertadora” e uma “matemática emancipatória”, desprezando “o cânone da casta de elite da ‘alta ciência’”, precisavam ser estabelecidas para uma “ciência pós-moderna [que] forneça um poderoso suporte intelectual para o projeto político progressista”.

Mais recentemente, os autores Peter Boghosian, James Lindsay e Helen Pluckrose fizeram um experimento semelhante, enviando artigos falsos a periódicos acadêmicos sobre tópicos da teoria social crítica, como estudos culturais, queer, raciais, de gênero, de gordofobia e de sexualidade para ver se eles passariam pela revisão por pares e seriam aceitos para publicação. Quatro desses artigos foram publicados. Segundo os autores, “desenvolveu-se uma cultura na qual apenas certas conclusões são permitidas e que coloca queixas sociais à frente da verdade objetiva”.

O fato é que a chamada filosofia pós-moderna tem feito um grande estrago nas ciências humanas, substituindo a cientificidade pela ideologia a partir do postulado (falso) de que tudo, absolutamente tudo, até as leis da física, é uma construção social — e mais, uma construção branca, judaico-cristã, ocidental, capitalista, colonialista, heteronormativa e cisgênero. Ideias como a de que a nossa gramática normativa é opressora por ser produto de uma elite burguesa e de que, portanto, ela deve ser substituída pelo uso supostamente culto das classes mais favorecidas, embora os dados (ver INAF 2024) desmintam seu “alto” grau de letramento e cultura, são o produto desse caldo de cultura que se baseia não em fatos, por mais desconfortáveis que eles pareçam, e sim em dogmas ideológicos sempre mais reconfortantes. Mas, como disse Bertrand Russell:

Ao estudar qualquer assunto ou considerar qualquer filosofia, pergunte-se apenas quais são os fatos e qual é a verdade que eles comprovam. Nunca se deixe desviar pelo que você gostaria de acreditar ou pelo que você acha que teria efeitos sociais benéficos se se acreditasse. Olhe apenas, e unicamente, para os fatos.

Um país às avessas

Às vezes penso que o Brasil é um país que nasceu do avesso. E digo isso comparando-o não só aos países desenvolvidos, mas até aos nossos vizinhos latino-americanos. Senão vejamos.

Graças à abundância de rios, o Brasil tem a maior produção de energia hidrelétrica do mundo, uma energia limpa, renovável e praticamente infinita. No entanto, todo o transporte e escoamento da nossa produção, bem como todo o deslocamento de nossa população de uma cidade para outra, se dá por meio rodoviário, queimando petróleo e produzindo os famigerados gases do efeito estufa, causadores do aquecimento global. O Brasil praticamente não tem ferrovias, um meio de transporte de cargas e de passageiros muito mais rápido e seguro que o rodoviário, e sobretudo um meio de transporte limpo, já que os trens são movidos a eletricidade. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, é possível ir de trem de qualquer lugar a qualquer outro de forma barata, veloz, confortável e sem riscos de assaltos no meio do caminho. Aqui, as mercadorias têm de ser transportadas por rodovias esburacadas e inseguras em caminhões conduzidos por motoristas insones, movidos a cocaína ou “rebite”, pondo em risco sua própria segurança e a dos outros motoristas. Caminhoneiros dopados, que viram a noite sem dormir para poder fazer mais viagens, cumprir prazos e compensar a pobreza do valor do frete que recebem. E todos nós ficamos nas mãos desses profissionais, que param o país quando fazem greve para reivindicar um aumento nesse valor ou para apoiar algum governo de extrema-direita.

Mas não é só isso. O Brasil também é o único país de que tenho notícia em que há duas polícias, uma civil e uma militar, e que não se conversam, não se entendem, não se entrosam, não compartilham informações — isso quando não entram em conflito entre elas. E o político que tentar unificá-las corre risco de vida. Enfim, temos duas polícias que não valem por uma, haja vista o assustador crescimento da violência e do crime organizado. Duas polícias desaparelhadas, sucateadas, com policiais despreparados, mal treinados, mal remunerados, estressados, assediados e hostilizados pela população e pela imprensa.

Além disso, devemos ser o único país cujo sistema prisional admite visita íntima (imagino até que haja um quarto dentro dos presídios com cama redonda, espelho no teto e banheira de hidro, não?), saidinha de Dia dos Pais (mesmo para quem cumpre pena por ter matado os pais), progressão de regime após cumprir-se um mísero sexto da pena, uma coisa inexplicável chamada “regime aberto”, em que o criminoso é condenado a cumprir pena em liberdade, outra coisa inexplicável que é o investimento de dinheiro público na ressocialização de quem tem uma ficha criminal quilométrica e está condenado a centenas de anos de prisão, inclusive por crimes hediondos e de alta crueldade, além do limite máximo de encarceramento de 40 anos (antes eram 30), não importa o tamanho da pena do meliante. Mas o mais legal de tudo é que os presos podem usar telefone celular dentro dos presídios para poder continuar cometendo crimes. A penitenciária permite aos criminosos acesso à internet (acho até que lhes fornece login e senha) e mais, as celas dispõem de tomadas para que os detentos possam recarregar seus aparelhos. Além disso, visitantes podem levar qualquer coisa para dentro dos presídios, até armas (revista vexatória é proibida), e membros de quadrilhas podem atirar celulares e drogas por cima dos muros da prisão, que por sinal são feitos de blocos ocos de cimento, fáceis de quebrar com uma marreta, explosivos ou até a colisão de um veículo.

Em países sérios, as prisões têm parlatório, de modo que os presos e suas visitas, inclusive advogados, só podem falar por meio de um interfone, sem nenhum contato físico e sempre sob a vigilância de um agente penitenciário. Em países como o Japão, o presidiário não pode sequer olhar nos olhos do agente, e todos se alimentam no refeitório em absoluto silêncio. Em muitos países, os condenados são obrigados a trabalhar, e na imensa maioria deles o prisioneiro cumpre a pena integralmente — se for condenado a mais de 50 anos, provavelmente morrerá na cadeia. Nesses países, há inclusive prisão perpétua e até pena de morte. Liberdade condicional somente após o cumprimento da maior parte da pena e, mesmo assim, apenas em condições especiais.

Mas o Brasil também é um país às avessas porque aqui políticos corruptos cometem seus crimes quando jovens e só começam a cumprir a pena — isto é, quando cumprem! — quando já estão velhos, cheios de supostas doenças, e assim têm direito a prisão em regime domiciliar em suas luxuosas mansões com piscina, compradas com o dinheiro que roubaram do povo. E aqui juízes corruptos ou que não cumpriram adequadamente com suas obrigações não são exonerados a bem do serviço público, são condenados à aposentadoria compulsória, isto é, a ficar em casa recebendo seu salário integral sem trabalhar.

Neste país de cabeça para baixo servidores públicos são admitidos por concurso que não passa de uma prova de múltipla escolha, sem análise de currículo, sem entrevista, sem avaliação psicológica, sem dinâmica de grupo… E, uma vez admitidos, têm estabilidade no emprego, portanto não podem ser demitidos, não importa o quão incompetentes e improdutivos sejam. E ainda podem fazer greve durante meses, inclusive por motivos políticos, e o cidadão que precise dos serviços públicos e paga por eles que se dane! Com isso, a máquina pública só incha. (Vocês sabiam que o governo federal ainda têm datilógrafos, embora não existam mais máquinas de escrever? O governo aguarda ansiosamente que eles se aposentem porque não pode mandá-los embora.) E aí o ministro da fazenda não sabe como cumprir a meta fiscal e corta verbas da educação e da saúde. Enquanto isso, a Constituição limita o teto salarial dos servidores públicos ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal, mas há juízes e desembargadores que ganham dez vezes mais do que isso, e ninguém pode cortar os seus vencimentos, pois eles fazem os próprios vencimentos. E o que dizer de senadores, deputados (federais e estaduais) e vereadores que aumentam seus próprios salários, em geral na calada da noite e bem acima da inflação? E que legislam em causa própria ou em beneficio de seus padrinhos o tempo todo? Até emendas à Constituição eles fazem por razões casuísticas, apenas para atender aos interesses dos lobbies que os elegeram ou para safar-se da cadeia.

No Brasil às avessas, pessoas largam o emprego para viver de benefícios pagos pelo Estado e completam a renda com “bicos”, trabalhos informais que não pagam impostos, não contribuem para a combalida Previdência Social, não requerem qualificação profissional nem contribuem para a produtividade do país e para o aumento do PIB. E o governo concede tanto mais benefícios quanto mais filhos as chamadas “mães solo” puserem no mundo.

No Brasil às avessas, músicas (músicas?!) que fazem apologia ao crime e aglomerações em que essas “músicas” tocam e há farto comércio e consumo de drogas são consideradas manifestações culturais. No país virado do avesso, um terço da população é analfabeta, adolescentes chegam ao ensino médio sem saber ler, e o sonho dos jovens e orgulho dos pais é serem influenciadores digitais, jogadores de futebol ou traficantes de drogas. No país da inversão de valores, as palavras “CLT” e “professor” são ofensas pessoais; já “MC” é elogio.

Falando em professor, o Peru tem universidades desde o século XVI e os EUA desde o século XVII. Em compensação, só tivemos nossa primeira universidade (mesmo assim, só no papel) em 1920; a primeira universidade “pra valer”, só em 1934.

Outra coisa: no século XIX, o Brasil era um país cem por cento agrícola, totalmente dependente da produção e exportação de café. Hoje, no século XXI, a principal atividade econômica brasileira é o agronegócio. Portanto, enquanto outros países emergentes (ou do Sul Global, como se diz hoje em dia), como China e Índia, fabricam e exportam produtos de alta tecnologia, com grande valor agregado, nós ainda produzimos commodities agrícolas, como no século XIX.

Por fim, em países sérios o presidente da república se pronuncia a partir de um púlpito atrás do qual há uma parede de cor sóbria em que estão fixados os símbolos da nação — o brasão de armas, o logotipo da presidência —, isso porque lá o presidente (ou primeiro-ministro) representa o Estado e não o governo de plantão. Aqui, ao falar publicamente, o presidente tem ao fundo um painel multicolorido com desenhos carnavalescos e o slogan de sua gestão: “Brasil, um país de todos”, “Pátria educadora”, “Pátria amada, Brasil”, “União e reconstrução”, etc. Aqui, o presidente não representa o Estado nem a nação, representa a si mesmo, ao seu governo e ao seu partido. Como em qualquer republiqueta bananeira. E, com tudo isso, ainda acreditamos que somos um país relevante no contexto mundial.