Cotas trans em universidades e a questão do mérito acadêmico

Algumas universidades brasileiras que já adotam o sistema de cotas para o ingresso de estudantes pretos, pardos, indígenas, quilombolas e de baixa renda também adotaram nos últimos tempos cotas para pessoas transexuais, travestis e não binárias, em mais um lance das chamadas ações afirmativas ou de diversidade e inclusão.

Cotas raciais e socioeconômicas podem até ser justificáveis tendo em vista que negros são em sua maioria pobres e, consequentemente, obrigados a cursar o ensino básico na escola pública, que não lhes dá base para ser aprovados nos disputadíssimos vestibulares das grandes universidades. Mas eu pergunto: o que identidade de gênero tem a ver com desempenho acadêmico? Pessoas transexuais precisam de cotas para ingressar em universidades? Aquelas que são pobres porque sua condição sexual as marginaliza economicamente já estão contempladas nas cotas para estudantes de baixa renda. No entanto, os gays e trans brasileiros não têm, em média, condição socioeconômica muito diferente da dos heterossexuais cisgênero. Há homossexuais, transexuais e não binários em todas as classes sociais e em igual proporção, afinal orientação sexual e identidade de gênero não escolhem classe social. É verdade que muitos travestis acabam na prostituição, mas estes em geral já provêm de um ambiente pobre, para não dizer miserável. E mulheres heterossexuais que se prostituem também costumam ser oriundas de famílias carentes, quando não desestruturadas. Portanto, estão todos no mesmo balaio da pobreza endêmica que assola nosso país há séculos e que nenhum governante ou legislador tem interesse em eliminar.

Marcos Lopes, professor de literatura geral e comparada da Unicamp, em seu artigo Consenso e liberdade acadêmica, publicado neste domingo, 20 de abril de 2025, no jornal O Estado de S. Paulo, alerta em primeiro lugar que essas ações afirmativas beneficiam um número mínimo de pessoas, isto é, a maioria dos negros, pobres, transexuais, etc., não tem acesso ao ensino superior nem mesmo por meio de cotas. Em segundo lugar, que esses benefícios, criados para ser temporários, acabam perpetuando-se, o que, a meu ver, se constitui num privilégio, num “direito adquirido” inamovível, como são hoje, por exemplo, os supersalários do Poder Judiciário. Em terceiro, ele aponta, citando Thomas Sowell no livro Ação afirmativa ao redor do mundo, que “o incentivo para grupos preferenciais raramente alcança os resultados prometidos, podendo produzir efeitos colaterais indesejáveis para o conjunto da sociedade”.

Mas o ponto mais nefasto que ele destaca é o problema da autocensura: “Há, sem dúvida, uma maioria silenciosa, na comunidade acadêmica, que discorda dos mecanismos de implementação de certas ações afirmativas. Contudo, ela teme o cancelamento e os rótulos de ‘direitista’, quando não de ‘fascista’ […]”. E a universidade deveria ser o espaço do debate de ideias, do confronto de visões diferentes e mesmo antagônicas para chegar a um consenso que nos aproxime da verdade. Mas transformou-se no lugar da unanimidade burra de que falou Nelson Rodrigues e do pensamento único e inquestionável. Em suma, a universidade é a nova Igreja.

A escolarização medíocre proporcionada pela rede pública de ensino afeta igualmente negros e brancos, homens e mulheres, héteros, homos e transexuais desde que sejam pobres e não tenham condições de frequentar uma boa escola privada — se bem que hoje em dia também há muitas escolas privadas que não passam de comércios disfarçados, que não educam, apenas adestram seus estudantes.

Nas entrelinhas, o que essa política de cotas trans, por mais bem intencionada que seja, insinua é que pessoas transgênero seriam intelectualmente inferiores às cisgênero, por isso precisariam de uma mãozinha das cotas para ser aprovadas em um vestibular. O pressuposto subjacente a essa medida deveria deixar indignada a comunidade LGBTQIAPNXYZ+. Mas quem vai se sentir ofendido em ganhar um privilégio, ainda mais um privilégio imerecido, não é?

O pior de tudo é que, com essas ações afirmativas, a universidade vai aos poucos deixando de ser um centro de excelência e produção de conhecimento de ponta para tornar-se cada vez mais um agente de assistencialismo barato e demagógico.

Quando alguns são mais iguais do que os outros

Há um dito jocoso, atribuído a George Orwell em seu romance A revolução dos bichos, que diz: “todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Pois nos últimos tempos instalou-se nas sociedades ocidentais uma mentalidade segundo a qual pessoas pertencentes a minorias, especialmente os pobres e os negros (que no nosso país estão longe de ser minoria), podem descumprir as leis sem que nada lhes aconteça.

Por exemplo, um grupo de moradores da periferia pode, nos fins de semana, especialmente à noite, fechar uma rua, impedindo o livre trânsito dos cidadãos e cerceando seu direito de ir e vir, para promover um baile funk ou pancadão e pode perturbar o sossego dos moradores da vizinhança e impedi-los de dormir — sem falar no tráfico e consumo de drogas, aliciamento de menores, estímulo à prostituição, presença de veículos roubados, etc. —, tudo isso com o apoio e o aplauso de certos políticos e sem que o poder público possa reprimi-los. Afinal, funk é cultura, certo? Afinal, os jovens da periferia não têm outra forma de lazer, certo? Afinal, a polícia, se tenta fazer cumprir a lei, é truculenta, certo?

Se um branco ofende um negro com base na cor de sua pele, pode ser preso sem direito a fiança ou prescrição de sua pena, mas se um negro ofende um branco com base na cor de sua pele, nada acontece, afinal não existe racismo reverso, certo? Pelo menos, esse é o entendimento do nosso Poder Judiciário.

Vivemos numa sociedade em que algumas pessoas podem aceder a vagas na universidade ou no serviço público sem ter mérito suficiente, passando assim à frente de outras pessoas mais qualificadas, apenas pela cor da pele ou pela situação socioeconômica. Vivemos numa sociedade em que alguns grupos têm certos privilégios, como se outros grupos lhes devessem algo, e esses privilégios, mesmo quando injustos ou ainda que um dia não sejam mais necessários, jamais serão revogados, pois “conquistas sociais” não podem retroceder, certo?

Quando certa mentalidade vigente, ainda mais tornada lei, divide os cidadãos entre “nós” e “eles” e estabelece que alguns são mais iguais do que os outros, é o início do esgarçamento do tecido social, com toda sorte de ressentimentos, que é a raiz dos discursos de ódio, da polarização política e do rompimento das relações entre amigos, entre familiares, entre colegas de trabalho, e ao resultado de tudo isso estamos assistindo hoje no país e no mundo.

Textos jornalísticos deveriam servir de modelo à norma-padrão?

Alguns linguistas têm criticado a gramática normativa por eleger prioritariamente textos literários como modelo a nortear o que deve ou não ser abonado em termos de norma. Em contraposição, sugerem que se adotem como parâmetro os discursos jornalístico e acadêmico, mais próximos, segundo eles, do que a maioria dos usuários cultos do idioma demanda como exemplo de redação a ser seguido, o chamado “grau zero da escrita” de Roland Barthes.

Esse argumento parece até razoável se considerarmos, como disse no artigo do mês passado, que os grandes literatos não consultam gramáticas para elaborar suas obras e que os cidadãos comuns, especialmente os estudantes e os profissionais de nível superior, buscam produzir textos profissionais com feição mais próxima ao jornalístico ou ao acadêmico do que à alta literatura.

O problema é que os escritores de ficção de hoje em dia escrevem muito mais como jornalistas do que como artífices da palavra, ao contrário do que faziam os escritores do passado. E os jornalistas e acadêmicos de hoje em dia escrevem muitas vezes como estudantes de ensino básico.

Como pesquisador na área da linguística, sou constantemente requisitado a dar pareceres em artigos científicos submetidos para publicação em periódicos especializados, assim como, na qualidade de docente, sou frequentemente convidado a integrar bancas de mestrado e doutorado e, portanto, obrigado a ler dissertações e teses. Em ambos os casos, constato horrorizado as barbaridades gramaticais e lexicais que nossos acadêmicos e/ou candidatos a acadêmicos perpetram.

Quanto ao jornalismo, fica a impressão de que quem redige as matérias atualmente, em especial na mídia eletrônica (a impressa já deixou de existir há muito tempo), não são jornalistas formados e sim estagiários, provavelmente cursando as inúmeras faculdades xiriricas que existem por aí. Seguem algumas “pérolas” que pesquei em sites jornalísticos (grifos meus):

1) “Tom Jobim promoveu a ‘fundição’ do samba com o jazz”;

2) “Os alimentos estocados estavam em ‘inconformismo’ com as normas sanitárias”;

3) “É preciso haver um ‘equilibramento’ entre oferta e demanda”;

4) “Com o ‘restauramento’ da monarquia na França…”.

Fico imaginando Tom Jobim fundindo o samba ao jazz numa serralheria ou num forno siderúrgico, assim como visualizo mentalmente alimentos inconformados e indignados por terem sido estocados em desacordo com a lei.

E temos ainda as traduções malfeitas do inglês, como realizar no sentido de perceber e inauguração em lugar de posse.

Pois é, amigos, fundição por fusão, incorformismo por desconformidade, equilibramento por equilíbrio, restauramento por restauração… É esse o padrão de exemplaridade idiomática que meus colegas linguistas propugnam? Ou eles também  pretendem estabelecer um “cânone” jornalístico assim como existe o cânone literário? E o cânone acadêmico, seria integrado por quem? Por eles mesmos? Os textos de Marcos Bagno, eivados de erros de português (propositais) fariam parte desse cânone?

O fato é que temos hoje no Brasil uma grande quantidade de textos acadêmicos com erros decorrentes da má escolarização dos atuais mestres, doutores, mestrandos e doutorandos. Quanto aos textos jornalísticos (especialmente os de internet), são escritos às pressas, por estagiários analfabetos funcionais, com erros de digitação, ortografia, pontuação, palavras invertidas, frases truncadas, fruto de uma edição apressada e não revisada feita em editores de texto como o Word®. É isso que devemos tomar como guia para escrever bem?

Diante de todos esses descalabros que dublês de jornalistas e de docentes universitários cometem, só me resta dizer duas palavras: para bens!

Quando ninguém é inocente

Na última terça-feira, dia 03/01/2025, foi divulgado que o jogador de futebol amador Kauan Galdino Florêncio Pereira, de 18 anos, baleado na cabeça após pisar no pé de um traficante de drogas num baile funk em Queimados, na Baixada Fluminense, teve morte cerebral.

Que lições tiramos desse fato? Primeiro, que para os criminosos a vida humana não vale nada. Mas disso já sabíamos. Assim como sabemos que pancadões, batidões e bailes funk são frequentados pela nata da marginalidade, logo não são locais recomendáveis a pessoas de bem, mesmo que pobres e periféricas.

Segundo, que boa educação e gentileza não ocupam espaço. Se eu pisar no pé de alguém — ou mesmo se não pisar, mas a pessoa achar que eu pisei —, minha reação natural é pedir desculpas. Mas o jovem Kauan não fez isso. Ao contrário, desentendeu-se com um desconhecido que, pelo simples fato de estar naquele local, coisa boa não deveria ser. Terminou baleado e morto. Ao que consta, o próprio assassino do jovem também foi morto dias depois por ordem do Comando Vermelho, que não quer uma investigação policial em seus domínios.

Parece uma história de final trágico em que ninguém tinha razão. Bailes funk são locais de intensa aglomeração de jovens pobres, que se misturam a marginais (ladrões, assassinos, traficantes), prostitutas, menores aliciados, onde há farta distribuição e consumo de drogas, circulação de carros e motos roubadas, corrupção policial e até disseminação de doenças. Pancadões bloqueiam vias públicas, cerceiam o direito de ir e vir de motoristas e transeuntes, cerceiam com o barulho o direito de dormir de trabalhadores que moram nas proximidades, atraem furtos, assaltos e outros crimes para suas redondezas, além de uma série de outras mazelas. Não são, definitivamente, lugar de gente de bem.

Por outro lado, um pisão é um acidente que pode ocorrer em qualquer aglomeração. Relevar o fato por parte da pessoa pisada e desculpar-se por parte da pessoa pisadora fazem parte dos princípios de civilidade e urbanidade que qualquer cidadão deveria ter — mas os frequentadores desses eventos geralmente não têm.

Por fim, atirar na cabeça de um jovem cheio de planos (ser futebolista profissional e paraquedista das Forças Armadas) por um motivo tão fútil e banal nos mostra que nessa história trágica todos perderam (inclusive a vida) e ninguém era inocente.

O cancelamento nosso de cada dia

Dia 17 último, durante os Jogos Jurídicos tradicionalmente disputados entre alunos de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), torcedores desta última gritaram impropérios de cunho supostamente racista contra os estudantes da USP, chamando-os de “cotistas” e “pobres” (usei a expressão supostamente racista porque cotista e pobre não são, salvo melhor juízo, denominações de raça e sim de condição social).

Já no dia 27 deste mesmo mês, a desembargadora Rosita Falcão Maia, durante uma sessão do Tribunal de Justiça da Bahia, fez críticas ao sistema de cotas raciais adotado no Brasil ao dizer que elas “vieram mais para desunir do que unir a população”. A sessão deliberava sobre a admissão ou não de uma candidata aprovada como cotista num concurso do próprio Tribunal.

A desembargadora também afirmou que “a meritocracia é importantíssima no serviço público”. E ainda alegou que a Faculdade de Direito da Universidade da Bahia (UFBA) “era excelente, [mas] hoje já não é tanto, porque todos os professores comentam o desnível dos estudantes. O nível dos estudantes baixou”.

Por fim, a filha de um amigo meu saiu-se muito bem no vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mas foi barrada pela política de cotas. Obteve nota geral 7,65 enquanto os cotistas entraram com menos de 6,00.

Tanto a manifestação dos torcedores da PUC-SP quanto a da magistrada baiana foram intensamente repudiadas por seu caráter racista, preconceituoso e discriminatório.

Bem, criticar ou injuriar pretos e pardos pelo simples fato de serem pretos ou pardos é, sem dúvida alguma, um abominável ato de racismo, especialmente porque ninguém tem o poder de escolher a cor da própria pele (que eu saiba, Michael Jackson foi o único a fazer isso). Mas criticar uma política governamental de cotas ou enaltecer o critério do mérito não constituem crime. Principalmente quando a crítica tem algum embasamento. E parece que a da desembargadora tinha. Primeiro, ela apontou o próprio diagnóstico dos professores do curso de Direito da UFBA. Em segundo lugar, o episódio dos Jogos Jurídicos USP x PUC demonstra que, de fato, as cotas geram divisão em vez de promover união. Antes delas, a presença de um aluno negro nos bancos da universidade, ainda que minoritária, era digna de louvor, visto que o estudante em questão havia superado inúmeras barreiras — de pobreza, de educação precária, de desestímulo social, de dificuldade de transporte e alimentação — para chegar àquela posição. Era alguém que fez por merecer o lugar onde estava. Hoje, os cotistas são vistos por muitos colegas não cotistas como alguém que entrou na universidade pela porta dos fundos, alguém que, sem ter o devido mérito, usufruiu um privilégio. Não vou entrar aqui nas espinhosas questões de reparação histórica, promoção da diversidade, combate ao racismo, etc. etc. Estou apenas me referindo ao sentimento de injustiça que muitos alunos, como a filha de meu amigo, nutrem em relação a colegas que, em termos de bagagem cultural, estão em posição inferior. Sentimento esse que produz desunião e desconfiança num ambiente que deveria ser de fraternidade e coleguismo.

Mas, como se vê, a própria crítica à política de cotas, cujo objetivo seria o de combater o racismo, de que está na prática alimentando o racismo, ainda que escorada em fatos, é ela própria acusada de ser racista. Diante disso, só nos resta depositar flores sobre o túmulo da liberdade de consciência e de expressão do pensamento.

O que me choca é que, quando magistrados, professores, estudiosos e intelectuais criticam esta ou aquela política, não o fazem com propósito depreciativo e sim com espírito de crítica construtiva, de quem deseja aperfeiçoar o sistema e não destruí-lo. Mas mesmo a crítica construtiva é vista como um ataque aos direitos — e talvez até privilégios — conquistados por certas minorias, que por meio deles exercem seu poder de censurar e cancelar qualquer um que pense diferente.

Time ou equipe?

Já faz um bom tempo que o futebol brasileiro deixou de ser o melhor do mundo. Em primeiro lugar, a maior parte dos atuais craques desse esporte é estrangeira. Em segundo, os jogos da atual seleção brasileira são um verdadeiro sonífero: eu deveria gravá-los para assistir nas noites de insônia. Vão longe os tempos em que qualquer criança sabia de cor a escalação do escrete canarinho.

Mas, como eu não entendo lá muito de futebol, minha observação sobre o tema é, como sempre, de ordem linguística.

Tenho ouvido muitas pessoas, incluindo comentaristas de futebol, se referirem às seleções como times. Em inglês, team (que é a origem do nosso time) quer dizer simplesmente “equipe” (não só esportiva, mas qualquer grupo de pessoas que atuem juntas, cooperativamente), portanto não há nada de errado em chamar uma seleção de time. Acontece, porém, que o uso transformou essa palavra em sinônimo de agremiação esportiva — e, mais especificamente ainda, clube de futebol, que chamamos simplificadamente de clube.

Assim, a seleção tem esse nome porque seleciona os melhores jogadores de cada clube de um país (ou, no caso brasileiro atual, de clubes estrangeiros) para formar uma equipe temporária.

O português não é a única língua a fazer distinção entre o time (com sentido esportivo) e a equipe (com sentido neutro e geral). Em primeiro lugar, o anglicismo team está em quase todas as línguas, resultado da influência do inglês como idioma dos inventores do futebol e também como língua hegemônica da atualidade. Curiosamente, o português é das poucas que adaptaram a grafia do termo ao seu sistema ortográfico (em espanhol, francês, italiano, alemão, continua-se a grafar team).

Paralelamente, são também empregadas palavras genéricas como o português equipe (ou equipa, na variedade lusitana), o espanhol equipo, o francês équipe, o italiano squadra, o alemão Mannschaft

De todo modo, a palavra time (ou team) tem sempre uma conotação esportiva. Por isso, aplicada ao mundo corporativo (por exemplo, quando um novo executivo vem integrar o “time” da companhia), fica a impressão subliminar de que o mundo dos negócios é um jogo, no qual as empresas competem pela vitória e pretendem derrotar seus adversários (isto é, as empresas concorrentes).

Enquanto isso, o inglês, criador da palavra, usa apenas team em todos os casos. É, pois — e ironicamente —, a única língua em que o vocábulo não tem uma aura marcadamente desportiva.

Enquanto falantes do português, espanhol, francês e inglês se referem à equipe de futebol que representa seus países em campeonatos internacionais como “seleção” (esp. Selección, fr. Sélection, ingl. Selection), o italiano e o alemão usam a perífrase “Equipe Nacional”, ou mais simplesmente “Nacional”: it. (Squadra) Nazionale, al. National(mannschaft).

De todo modo, seja o time, a equipe ou a Seleção, o que importa é a conquista da taça.

A produtividade do prefixo “pro‑”

Passado o primeiro turno das eleições, temos agora que aguentar a volta da insuportável propaganda eleitoral, desta vez com vistas ao segundo turno e novamente repleta de ataques mútuos (muitos abaixo da linha da cintura) e promessas tão mirabolantes quanto inexequíveis. As famosas “promessas de políticos”, jamais cumpridas, nas quais, por sinal, ninguém mais acredita — embora a maioria continue votando neles —, e que, na propaganda, são enganosamente chamadas de “propostas”.

E como tanto promessa quanto proposta são palavras que contém o prefixo pro‑, resolvi fazer uma brincadeira etimológica com ele. É que a promessa do político, feita em comício ou debate televisivo, torna-se proposta programática, impressa num documento chamado programa de governo (aliás, a propaganda política também se chama “programa eleitoral gratuito”).

Uma vez eleito, o agora gestor ou legislador vai formular e apresentar um projeto (de lei, de obra) que, para tornar-se realidade, vai demandar um programa de implantação (muitos depois viram programas com P maiúsculo: Programa Minha Casa Minha Vida, Programa Bolsa-Família, ProUni, e assim por diante).

Assim como na indústria, o programa gera um processo — de produção, no caso da indústria; de execução, no caso da gestão pública — que resulta num produto, seja um bem de consumo ou um serviço ou obra públicos. Que vão ensejar opiniões pró e contra.

Lançado o produto, sancionada a lei ou entregue a obra, é hora agora de alardear esse feito, pois a indústria precisa vender, e o político precisa “vender-se” (em sentido próprio e figurado: acho que deu pra entender, né?). Portanto, é hora de promover o produto, serviço ou realização. E quem faz isso? A propaganda. E assim o círculo se fecha: a promessa tornou-se proposta, que ensejou um projeto, que desencadeou um programa de produção, que, como processo, resulta em um produto, cuja promoção é feita pela propaganda. Viram como o prefixo pro‑ é produtivo?

Qual é a diferença entre implantar e implementar uma lei?

Na atual campanha eleitoral, tenho observado a ocorrência de duas palavras na fala dos candidatos a prefeito e também a vereador que estão sendo usadas como sinônimas, mas penso que não sejam: implantar e implementar (uma lei, uma política, etc.).

Segundo o dicionário Michaelis, implantar significa, dentre outras coisas, plantar uma coisa em outra (por exemplo, o implante de cabelo), arraigar, estabelecer, introduzir. E implementar é executar (um plano, um programa, uma política), levar à prática por meio de providências concretas. Portanto, no caso de uma lei, como as que estão sendo propostas pelos candidatos, implantação é o processo que se inicia com a idealização da lei, passa por sua redação, apresentação ao Poder Legislativo, discussão, votação, aprovação, promulgação e publicação em Diário Oficial. Já a implementação da lei só começa depois que esta estiver implantada. Como? Por meio de divulgação, campanhas educativas e sobretudo medidas punitivas ao seu descumprimento.

Assim, a lei precisa primeiro ser implantada para depois ser implementada. Para que se discutam os efeitos (positivos, negativos ou inócuos) da implantação de uma lei, é preciso que antes se discuta a viabilidade ou não da implementação dessa lei, já que os efeitos só poderão ser sentidos depois que a causa (a implantação) tenha ocorrido.

A partir daí teríamos dois caminhos: discutir a implementação efetiva da lei (isto é, o que está realmente sendo proposto) e os efeitos desejáveis de sua implantação, que poderão não vir a ser plenamente atingidos justamente por falhas na implementação (eventuais brechas jurídicas decorrentes de uma redação ambígua, fiscalização deficiente, leniência ou corrupção das autoridades, e assim por diante).

Reconheço que a diferença de significado entre ambas as palavras, especialmente no que tange a nuances sutis, é muito pequena, o que justifica o emprego de uma e outra como sinônimas. Entretanto, dado o baixo nível do debate político atual, que visa muito mais a “lacrar” nas redes do que a resolver os problemas da população, chega a ser utopia esperar que os candidatos se atenham a essas filigranas semânticas.

A incoerência do discurso identitário

Quando eu era criança, lembro bem que a boa educação recomendava que não nos referíssemos a pessoas negras — ou melhor, afrodescendentes — com os termos negro ou preto. Em vez disso, devíamos usar eufemismos como moreno ou de cor. Por sinal, a expressão pessoa de cor foi importada dos Estados Unidos, onde black person era substituído por colored person.

Na onda da linguagem politicamente correta, outra invenção americana — ou melhor, estadunidense —, passamos a chamar favela de comunidade, gordo de pessoa com obesidade, cego de deficiente visual e depois de não vidente, surdo de deficiente auditivo e agora não ouvinte, paralítico de paraplégico e depois de cadeirante, aleijado de deficiente físico, posteriormente portador de deficiência e agora pessoa com deficiência, abreviado para PCD (parece que até os defensores do politicamente correto ficam cansados ao pronunciar as expressões que eles mesmos criam) e homossexuais de gays e lésbicas, então de GLS, depois LGBT, depois LGBT+, e então LGBTQIA+, LGBTQIAP+ e atualmente LGBTQIAPN+. (Eu me pergunto: se a cada hora acrescentam mais uma letra a essa sigla, para que serve o sinal de mais? E se siglas são feitas para simplificar, por que complicar essa sigla?)

No entanto, na contramão de todos esses eufemismos, supostamente criados para não ofender as minorias que eles representam, os afrodescendentes passaram a rejeitar os termos moreno e de cor por achá-los discriminatórios e, sobretudo, porque alegam sentir orgulho de sua raça — ou melhor, etnia, já que não existem raças — e, assim, querem agora ser chamados de negros ou mesmo de pretos.

No tempo em que, por empatia e não por desprezo, chamávamos os pretos e os pardos escuros de morenos, escurinhos ou pessoas de cor, os termos preto e negro referindo-se à cor da pele eram altamente ofensivos, um tabu semelhante às palavras câncer e morrer, trocadas respectivamente por aquela doença ruim e fazer a passagem. Agora, ser chamado de preto ou negro é motivo de orgulho e revela o empoderamento das pessoas dessa raça — ou melhor, desse genótipo —; agora, moreno, escurinho e de cor é que são ofensivos! Aliás, o paroxismo do politicamente correto é as pessoas “de cor” terem lutado para ser chamadas de negras e, de repente, a própria palavra negro se tornar politicamente incorreta, sendo preferido em seu lugar o vocábulo preto. (Veja a esse respeito o comentário nada a ver do ator Babu Santana constante no meu vídeo O que é ser preto, negro, pardo ou afrodescendente no Brasil?.)

Outro exemplo de incoerência dos ideólogos dessas pautas identitárias é a denominação presidenta aplicada a Dilma Rousseff com o objetivo de demonstrar o empoderamento feminino ao termos pela primeira vez uma mulher no cargo de primeiro mandatário da nação ao mesmo tempo em que se rejeita a designação poetisa para a mulher que faz poesia, que já há algum tempo é chamada também de poeta. Aliás, nos Estados Unidos (sempre lá), há um movimento crescente de substituição da palavra actress, “atriz”, por actor, “ator”, que agora passou a ser substantivo comum de dois gêneros. O mesmo politicamente correto que exige ressaltar a condição feminina em certos casos tenta neutralizá-la em outros? Será que existe algum critério lógico por trás dessas escolhas? Ou será apenas burrice? Parece que, no afã de criar novas denominações para fatos sociais que já têm denominações próprias (e que, diga-se de passagem, raramente são usadas de maneira pejorativa), bem como de eleger inimigos contra os quais dirigir sua revolta, os militantes do identitarismo metem os pés pelas mãos, instituem regras contraditórias e ilógicas, lançam fake news etimológicas para embasar seus ataques e criticam a onda de desinformação semeada pela extrema-direita como se eles próprios não fizessem o mesmo. É a chamada guerra de narrativas. E o pior é que quem está alheio a essa guerra — no caso, a maioria dos falantes — acaba sem saber que palavra ou expressão é melhor usar. Do jeito que a coisa vai, sorte tem quem é mudo.

O país que não deu certo — e, pelo jeito, nunca dará

Há muito tempo escutamos que o Brasil é o país do futuro. Esse epíteto, cunhado pelo escritor austríaco Stefan Zweig à época da Segunda Guerra Mundial, parece uma profecia: sendo o país do futuro, o Brasil só dará certo… no futuro. E a questão é que o futuro nunca chega, pois, se chegar, deixa de ser futuro e vira presente. Em suma, o brasileiro vive eternamente esperando por um futuro de prosperidade e progresso que está sempre além; ou melhor, vive uma alternância histórica interminável entre momentos de crise e momentos de esperança, em que parece que o tal futuro vai finalmente chegar, mas em que, na realidade, o país apenas retorna a seu estado anterior — ou a um estado ainda pior que o anterior. Parece que nosso país foi concebido para não dar certo. Nunca.

Nosso primeiro fio de esperança — e nossa primeira decepção — foi a frustrada revolução, posteriormente conhecida como Inconfidência Mineira, que pretendia fazer a independência da capitania de Minas Gerais como primeiro passo para a libertação de todo o Brasil. Os inconfidentes tinham um plano ambicioso: instalar um regime republicano e federalista como o dos recém-independentes Estados Unidos da América, libertar todos os escravos, fundar universidades, promover o desenvolvimento econômico, enfim, criar uma nação segundo os princípios iluministas de então. Entretanto, o Brasil só se tornaria independente três décadas depois, e por obra de um golpe de Estado dado pelo próprio filho, o príncipe regente e herdeiro do trono Dom Pedro, em seu pai, o rei de Portugal Dom João VI. Em decorrência disso, nos tornamos uma anacrônica monarquia oligárquica governada pela mesma dinastia de nossos colonizadores e rodeada de repúblicas liberais e progressistas. Nosso primeiro imperador tinha arroubos autoritários e cercou-se dos velhos senhores feudais que dominavam o Brasil desde os primeiros tempos de colônia. Seu filho, Pedro II, tinha uma mente mais aberta ao progresso, mas, mesmo assim, o país permaneceu agrícola durante todo o Império; praticamente, o único industrial do período foi o Barão e Visconde de Mauá, por sinal, um empresário com título de nobreza.

Então vieram, tardiamente, a abolição da escravatura e a proclamação da república. Quem sabe agora o Brasil entraria na modernidade? Só que não: em vez de povo nas ruas, comandando os destinos da nação, o que tivemos foi um golpe dado pelos militares contra a monarquia e a instalação de um regime que nada tinha de democrático, em que somente homens alfabetizados podiam votar (numa época em que grande parte da população era de analfabetos e mulheres), mas em que “os mortos votavam” e o poder dos latifundiários impunha o chamado voto de cabresto. Um regime em que quem governava o Brasil eram os grandes fazendeiros do café de São Paulo e os produtores de leite de Minas Gerais, na famosa política do café com leite.

Essa República Velha teve fim com mais um golpe, desta vez de Getulio Vargas, que implantou uma ditadura explícita, frustrando mais uma vez qualquer expectativa de mudança. A Revolução Constitucionalista de 1932, derrotada pelas tropas federais, tentou em vão opor-se ao regime, que recrudesceu ainda mais a partir de 1937, ano da instituição do Estado Novo.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a queda de Vargas, o Brasil teve pela primeira vez uma experiência democrática, que infelizmente durou pouco. Nesse período, vivenciamos o boom da industrialização, a campanha do petróleo nacional, a construção em larga escala de rodovias e usinas hidrelétricas, a fundação de Brasília e o prestígio de nossa arquitetura em âmbito mundial, a (quase) Miss Universo brasileira e o sucesso internacional da Bossa Nova, até que o golpe militar de 1964 trouxe um novo período de trevas, encoberto por um falso progressismo chamado de Milagre Econômico, rapidamente arrefecido pela crise internacional do petróleo de 1973. Enquanto isso, a nação que só teve sua primeira universidade em 1920 emburrecia cada vez mais; como disse o professor Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”.

Em 1984, o povo saiu às ruas num belo movimento cívico em prol das eleições diretas para presidente da república, mais uma vez frustrado por uma classe política que pouco ou nada mudara desde o Primeiro Império. O fim do regime militar se deu por uma eleição indireta que o candidato da oposição, Tancredo Neves, só venceu com o apoio da parte dissidente e oportunista do próprio partido que sustentava o regime. E que morreu sem tomar posse, tendo assumido seu vice, José Sarney, um político que fez carreira justamente junto aos governos militares. A nova constituição, ironicamente apelidada de “cidadã”, foi elaborada não por uma Assembleia Nacional Constituinte soberana e independente, mas por um Congresso Nacional dominado por um grupo de políticos e partidos fisiológicos chamado Centrão, que, por sinal, é quem dá as cartas até hoje. E, mais uma vez, nossa esperança de nos tornarmos uma nação desenvolvida e próspera foi por água abaixo. Depois de a década de 1980 ter sido chamada de “década perdida”, perdemos também a de 1990 e continuamos a perder. Tivemos hiperinflação, planos econômicos tão mirabolantes quanto ineficazes, confisco do dinheiro dos trabalhadores, dois impeachments de presidentes, a maior crise econômica de nossa história e até uma tentativa de golpe de Estado. Quando Lula e o PT chegaram ao poder pela primeira vez, novamente se acendeu a chama da esperança, afinal parecia que a velha oligarquia estaria fora do poder. Mas o que se viu foi a aliança de um partido que tem “Trabalhadores” no nome àquela mesma oligarquia, ao alto empresariado e ao famigerado Centrão. E viu-se mais, um mar de corrupção “como nunca antes na história deste país”. Após a vergonha do Mensalão, parecia que algo enfim mudaria: o Supremo Tribunal Federal estava mandando para a cadeia corruptores e corruptos. Mas só até eles serem indultados pela primeira mulher presidente, ou melhor, presidenta, a que ficou famosa por ter inventado um novo idioma, o dilmês.

Novo escândalo, desta vez o Petrolão, e novo sopro de esperança: a Operação Lava-Jato finalmente condenava à prisão figuras até então insuspeitas e sempre impunes, como grandes empreiteiros e políticos ilustres. E mais uma vez, o povo pensou “Agora vai!”. Mas não foi. A Lava-Jato foi sendo pouco a pouco desmantelada, seu comandante, um ilibado magistrado de Curitiba, celebrado mundo afora como o artífice da nova Operação Mãos Limpas, passou de herói a vilão, de juiz parcial e tendencioso a ministro de um governo com inspiração fascista e aspirações totalitárias, de traidor desse mesmo governo a apoiador da reeleição do presidente golpista e senador aspirante a governador do Paraná. Assim como Lula um dia fora o sindicalista que ajudou a derrubar o regime militar e o presidente mais popular do Brasil, “o cara” no dizer de Barack Obama, para depois tornar-se o presidiário condenado por corrupção que foi solto não por ser inocente, mas por uma manobra jurídica de seus aliados, agora o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, que também tinham tido seus 15 minutos de heroísmo, seguiam o mesmo caminho da desonra. E de entrar para a velha política para conseguir alguma sobrevida.

Enfim, somos um país sem heróis, ou cujos únicos heróis são alguns esportistas, em que nenhum movimento político bem-sucedido foi feito pelo povo e sim por militares, em que as elites governantes têm sido sempre as mesmas há séculos e cujos donos vitalícios do poder são os tradicionais coronéis nordestinos, os barões do agronegócio e dos agrotóxicos e as grandes corporações internacionais. Enquanto ficamos aqui sonhando com um futuro que nunca chega, implantando cotas raciais e linguagem neutra de gênero nos cursos superiores e progressão automática no ensino básico, enquanto ficamos nas últimas posições no exame do PISA e rumamos rapidamente para o obscurantismo da ignorância generalizada e do fundamentalismo religioso, com o assustador crescimento das igrejas neopentecostais, países como a Rússia, a Índia e a China abrigam algumas das melhores universidades do mundo e vários ganhadores do prêmio Nobel.

Enquanto nos vangloriamos de ser, em pleno século XXI, um país eminentemente agrícola tal como éramos no século XIX, um país que exporta soja e carne bovina, nossos colegas dos BRICS exportam tecnologia, produtos com valor agregado e não meras commodities.

Enquanto eles têm suas próprias fábricas de automóveis, nós temos montadoras estrangeiras que apenas montam no Brasil automóveis americanos, alemães, italianos, franceses, japoneses e coreanos.

Enquanto eles já mandaram ao espaço foguetes, sondas e até estações espaciais, nosso programa espacial praticamente parou em 2003, quando um acidente de grandes proporções matou técnicos e destruiu o foguete e a base de lançamento. Enquanto eles têm armas nucleares, nós temos o Comando Vermelho e o PCC.

Enquanto ainda estamos tentando promover retrocessos na lei do aborto, países desenvolvidos (ou do Norte Global, como se diz hoje em dia) já superaram essa discussão há décadas. E, ironia das ironias, temos a maior produção de energia hidrelétrica do mundo, mas praticamente todo o nosso transporte de cargas e de pessoas se dá por rodovias, queimando petróleo, e não por ferrovias movidas a eletricidade — e o país literalmente para quando há greve de caminhoneiros.

Revisando nossa história e, assim, compreendendo como chegamos até aqui, tira-se a triste conclusão de que o Brasil é um país que teria tudo para ser uma potência, mas que foi pensado desde o início para não dar certo, um país em que o progresso e a justiça social sempre foram vistos como uma ameaça à elite dirigente — uma elite tosca, de mente tacanha e caráter duvidoso. Nelson Rodrigues costumava dizer que padecemos do “complexo de vira-latas”. Eu acredito que não é só complexo: somos vira-latas mesmo!