Cotas raciais/sociais e educação de qualidade no Brasil

Uma questão que sempre provoca polêmica em nosso país é a política de cotas para negros, indígenas e estudantes pobres provenientes do ensino público em nossas universidades. De um lado, os que são contra essa política afirmam que ela fere o princípio da meritocracia, fazendo com que estudantes mais qualificados sejam preteridos em favor de outros menos preparados; de outro, os defensores da medida sustentam que ela é um importante instrumento de justiça social e que, não fosse ela, estudantes de baixa renda ou de determinadas etnias não teriam acesso à universidade.

Minha posição oscila entre ambas. Por um lado, acredito que o ingresso na universidade deveria pautar-se pelo mérito do candidato. As grandes universidades do mundo são grandes, não em tamanho, mas em importância, exatamente porque não só têm em seu corpo docente as mentes mais brilhantes, incluindo alguns ganhadores do prêmio Nobel, mas também porque selecionam os melhores candidatos para o seu corpo discente. Ou seja, produto bom é resultado de boa matéria-prima e bom processo de fabricação. Nesse sentido, uma universidade que faz assistencialismo social na seleção de seus alunos teria pouca relevância acadêmica.

Por outro lado, reconheço que, no momento, a política de cotas tem sido o mecanismo mais eficiente de inclusão social de que dispomos em termos da educação superior. Talvez isso rebaixe um pouco o nível da produção científica e mesmo o da qualidade dos profissionais que forma, mas sem dúvida eleva o nível social de seus egressos mais pobres.

No entanto, para mim o melhor dos mundos é aquele em que ricos e pobres, brancos e negros tenham igual acesso a um ensino básico de qualidade, o que significa melhorar substancialmente – radicalmente seria o termo ideal – a qualidade do ensino público, que atende à maioria da população de baixa renda no Brasil, aí incluída a maioria dos negros. Num cenário como esse, políticas de cotas seriam desnecessárias, e o mérito poderia ser o critério único de seleção.

Mas por que a educação pública brasileira não tem qualidade? Muitos dizem que falta investimento na área, portanto o problema seria financeiro. Todos sabemos que para a classe política brasileira em geral educação não é prioridade porque não dá voto. Mesmo assim, a verba constitucionalmente destinada à educação básica não é pequena – talvez ela seja, isso sim, mal gerida.

Fala-se muito dos baixos salários de professores. Não conheço a realidade em cada município brasileiro, mas tenho notícia de muitos professores do ensino público que se aposentam com proventos de 12, 13 mil reais. Ao mesmo tempo, se é verdade que há alguns colégios particulares que pagam muito bem aos docentes, os salários dos professores da maioria dos estabelecimentos privados chegam a ficar abaixo da média do que percebe um professor de escola pública de mesmo nível.

A meu ver, o grande problema do ensino público é justamente ser público. Não, não estou defendendo a privatização da educação básica, nada disso! O que quero dizer é que o modelo de gestão da esfera estatal é pouco eficiente. E explico por quê.

Em primeiro lugar, os gestores máximos da educação pública, isto é, ministros e secretários de educação, são, as mais das vezes, políticos, em geral cabos eleitorais dos governantes municipais, estaduais e federal, e não técnicos especialistas em educação. Assim, sua gestão está voltada à próxima eleição e não a um projeto educacional de longo prazo, uma política de estado que transcenda governos. Isso sem falar na corrupção, chaga que assola o estado brasileiro há séculos.

Em segundo lugar, considero que o próprio corpo docente das escolas públicas deixa muito a desejar. Embora haja professores muito bons tanto em formação acadêmica quanto em esforço e abnegação, a maior parte dos docentes tem formação ruim e pouca motivação. De fato, a admissão de professores por concurso público nos moldes em que ele é hoje realizado não permite aferir a real competência desses profissionais. O concurso público consiste em um teste de múltipla escolha, em grande parte voltado a questões de legislação, e uma redação. Não há análise de curriculum, prova didática, entrevista com recrutadores, nada! Não à toa, muitos dos aprovados nesses concursos provêm de péssimas faculdades, onde cursaram uma licenciatura de apenas três anos cheia de deficiências.

Sendo esse o contingente de profissionais à disposição do coordenador pedagógico, este fica impossibilitado de montar sua própria equipe, pois deve trabalhar com os professores que foram lotados em sua escola, sejam eles bons ou ruins. Esses professores, por sua vez, têm pouco estímulo ao crescimento profissional – em alguns casos, é preciso cursar um mestrado para subir apenas um ponto na carreira! Na verdade, a progressão se dá muito mais por antiguidade do que por mérito. Por outro lado, não há uma avaliação contínua de seu desempenho, o que significa que, qualquer que seja o grau de aproveitamento de seus alunos, os educadores não são nem premiados nem punidos. Sobretudo a estabilidade no emprego, a que todo servidor público concursado tem direito, leva à acomodação e à mediocridade.

Acredito num modelo em que coordenadores pedagógicos pudessem fazer eles próprios a seleção dos docentes que vão compor a sua equipe, tal como ocorre nas escolas privadas, e que esses coordenadores fossem cobrados pelos resultados que suas equipes apresentam – por exemplo, um sistema de pontos que resultasse na destinação de mais verba às escolas com melhores resultados, o que, por sinal, favoreceria uma salutar competição entre elas. E que essa cobrança não viesse apenas da Secretaria ou do Ministério da Educação, mas da própria comunidade usuária desse serviço público, isto é, pais e alunos. E esses coordenadores também seriam demissíveis, como, de resto, deveriam sê-lo todos os servidores públicos, com umas poucas exceções. Essa é, aliás, a proposta de reforma administrativa que está no Congresso Nacional à espera de votação.

Acredito também que é preciso restaurar a autoridade do professor, especialmente porque, na escola estatal, ele não está sujeito às pressões do mercado como ocorre no ensino privado, onde prevalece a lógica capitalista. Que as escolas tenham obrigatoriamente biblioteca, laboratórios, quadra poliesportiva, refeitório, psicólogo, médico e dentista. E que, de preferência, estejam situadas em local seguro, afastado de comunidades dominadas pelo crime. As crianças e jovens moradores desses locais disporiam de transporte escolar gratuito para chegar até a escola.

Enfim, sonho com uma educação pública de Primeiro Mundo, nos moldes do que ocorre hoje nos países desenvolvidos. Infelizmente, nossa realidade atual parece me mostrar que sou mesmo só um sonhador…

“Impeachment” é o mesmo que impedimento?

Nestes dias em que, diante de todas as ações e omissões de Bolsonaro que representam o contrário de como um governante deveria agir, já há mais de 60 pedidos de impeachment do Presidente da República sobre a mesa de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, alguns jornalistas têm empregado o termo vernáculo “impedimento” em substituição ao anglicismo impeachment, o que faz ressurgir a dúvida: impeachment e impedimento são a mesma coisa? Em outras palavras, é lícito traduzir o termo inglês pelo português? Mais ainda, é aconselhável fazer isso?

O impeachment é a figura jurídica surgida no mundo anglo-saxônico que permite ao parlamento cassar o mandato do chefe do Executivo diante de acusações comprovadas de improbidade no exercício do cargo. O substantivo inglês impeachment, assim como o verbo impeach, provêm do antigo francês empêcher, “impedir”, e empêchement, “impedimento”, por sua vez originários do baixo latim impedicare, derivado de pedica, “ferros que se prendem aos pés do prisioneiro para impedir seu movimento”. Daí talvez a tendência de traduzir impeachment como “impedimento”. No entanto, o próprio inglês distingue impeach, “fazer acusações contra, acusar de improbidade no exercício de mandato”, de impede, “impedir, obstruir, impossibilitar”. E a Constituição brasileira prevê o impedimento, temporário ou permanente, de um mandatário como justificativa para que seu suplente ocupe o cargo. Ou seja, uma doença ou viagem ao Exterior são motivos de impedimento do presidente, quando então o vice assume o posto. Esses impedimentos por razões corriqueiras nada têm a ver com o impeachment, que só se aplica em caso de acusação grave, que desautorize moralmente o presidente de permanecer no cargo. Nesse sentido, seria melhor traduzir impeachment por “cassação” do que por “impedimento”.

Logo, a tradução de impeachment por “impedimento” é inadequada, embora favorecida por uma certa semelhança sonora e parentesco etimológico. Evidentemente, o presidente cassado por impeachment fica definitivamente impedido de exercer seu mandato, mas, se o impeachment é um caso particular de impedimento, a recíproca não é verdadeira: nem todo impedimento se dá por impeachment.

A Butanvac, as telenovelas e os casais-valise

Foi anunciada na semana passada uma vacina contra a covid-19 cem por cento nacional – embora a tecnologia inicial seja americana – a ser fabricada pelo Instituto Butantan e batizada de Butanvac. A escolha do nome é uma clara junção de “Butan” (de Butantan) e “vac” (de vacina). Esse processo de formação de nomes de produtos e mesmo de palavras comuns da língua juntando pedaços de outras palavras é bastante frequente, especialmente na indústria farmacêutica. Aliás, várias das vacinas anticovid têm nomes formados assim: Coronavac = coronavirus + vaccine, Novavax = nova + vaccine, e assim por diante.

Esse processo de formação de palavras é chamado tecnicamente de fractocomposição, e seu resultado é o fractocomposto ou palavra-valise. Há muitos exemplos em português:

  • ataca|do| + |va|rejo = atacarejo;
  • auto|móvel| + peça = autopeça;
  • brasi|leiro| + |para|guaio = brasiguaio;
  • cant|ora| + atriz = cantatriz;
  • mini|atura| + saia = minissaia;
  • portu|guês| + |espa|nhol = portunhol;
  • repro|dução| + |foto|grafia = reprografia;
  • show + |co|mício = showmício.

A fractocomposição é um processo relativamente moderno de formação de palavras, já que a maioria delas tem menos de 100 anos. Um dos primeiros campos a adotar esse processo foi a química, cujos compostos são formados a partir de fractomorfemas como met- (do grego méthy, “vinho”), et- (de “éter”), prop- (de “propiônico”, nome de um ácido), but- (do latim butyrum, “manteiga”), etc. Depois veio a informática (de “informação” + “automática”) com blog (de web + log), flog (de “foto” + blog), Instagram (de instant, “instantâneo” + photogram, “fotograma”), e muitos mais.

Os fãs de telenovelas também costumam usar esse processo, que eles chamam de “shippar”. Trata-se de juntar por meio de truncamento seguido de aglutinação os nomes de dois personagens que eles desejam que terminem juntos, ou seja, que formem par romântico. Assim, já tivemos laurique (Laura e Caíque), perina (Pedro e Karina), peju (Pedro e Júlia), shirlipe (Shirlei e Filipe), e muitos outros. Às vezes, também os nomes de celebridades são “shippados”, como aconteceu com o casal Dillzé (e também Guizill) no tempo em que os atores Nathalia Dill e Sérgio Guizé namoravam.

Ou seja, assim como ocorre com medicamentos, é muito comum que nomes de personagens de telenovela se transformem em palavras-valise. O que às vezes vem a calhar, já que certos personagens são realmente muito “malas”.

A norma culta do futuro

Que a língua ela evolui todo mundo sabe. E que a gramática normativa, mais cedo ou mais tarde, ela acaba mudando também pra acompanhá a evolução da língua todo mundo também já sabe. Então por que que a gente não começa desde já a escrevê na norma culta do futuro, aquela que vai sê usada daqui uns cem, duzentos ano?

Cê pode achá esse meu exercício de futurologia meio esquisito, mas eu aposto de que é assim que as gerações futura vão redigi textos culto. Não vai mais tê tempo futuro sintético, só o analítico, não vai mais tê o verbo “haver” e talvez nem tenha mais concordância verbal e nominal, ou seja, as palavra não vai mais precisá sê flexionada no singular e no plural, a não sê a primeira palavra da oração.

Em compensação, vai tê concordância de numeral (duas milhões de vacina), e os infinitivos pessoal vão concordarem sempre com os sujeito. Os verbo vão sê facílimo de conjugá: eu sô, cê é, ele é, a gente é, cês são (ou é), eles são (ou é). Cês viram que moleza vai sê?

Os sujeito eles vão sê sempre duplo, que nem nessa mesma frase. Aliás, os demonstrativo “este”, “esta”, “estes”, “estas” eles vão sê puro arcaísmo. Ninguém mais vai escrevê como o Machado de Assis, o José de Alencar, ou mesmo o Jorge Amado e a Raquel de Queiroz. Escrevê que nem o Rui Barbosa, nem pensá!

Cê deve tá achando esse meu artigo bem provocativo, e é essa mesmo a intenção dele. Afinal, a língua da gente, isto é, a língua portuguesa do Brasil, que até lá ela já vai sê língua brasileira, divorciada do idioma de Portugal, já tá hoje mesmo dando sinais de como ela vai sê no futuro, e não só na fala, mas também na escrita. Afinal, o Brasil ele é e sempre vai sê o país do futuro, como disse certa vez o Stefan Zweig, e por isso a língua dele também tem que caminhá sempre pro futuro e não se apegá no passado. Pra onde a língua tá indo, e em que lugar a gente vai chegá eu não sei, mas eu preciso falá pra vocês de que não adianta nada nadá contra a corrente, porque o trem da história e da evolução passa e atropela quem se pôr na frente dele.

A minha hipótese é de que um dia todes vão falá e escrevê assim. Pelo menos tem vários linguista atualmente que eles pensam que nem eu. Pra gente escrevê bem e com correção textos culto e formal, a gente vai tê que aprendê a dominá a norma-padrão e, consequentemente, a gramática normativa. Que eu acho que vai sê mais ou menos assim como eu tô escrevendo nesse momento.

Eu e você a gente pode até não concordá com isso hoje em dia, mas o que que se pode fazê? A língua ela muda inexoravelmente (será que essa palavra ela ainda vai existi?). E quem que vai sabê dizê se daqui um ou dois século não vai sê essa a forma mais correta e elegante de se expressá? Até porque, se a norma culta for assim, é porque a norma coloquial vai sê ainda mais futurista. Cês não acha?

A origem da palavra “feriado”

Na tentativa desesperada de frear a disseminação da covid-19, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, antecipou para o período de 26 de março a 4 de abril diversos feriados deste e do próximo ano. Alguns outros prefeitos estão fazendo ou pretendem fazer o mesmo. Ou seja, teremos um feriadão prolongado – e bem prolongado –, mas nada de viajar à praia ou ao campo nem muito menos fazer festas, hein!

Por falar em feriado e festa, republico aqui uma postagem de tempos atrás em que eu explicava a origem dessas palavras.

Primeiramente, por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, e, no caso presente, baixar os índices de contágio, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. “Feriado” deriva de “féria”, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações “segunda-feira”, “terça-feira”, etc., em que “feira”, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra “férias” seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de “féria”, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra “féria”, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra “feira” vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, “feira” passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras “teologia” e “ateu”, dentre outras.

Portanto, “feira”, “féria”, “férias”, “feriado”, festa”, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, fiquem em casa no feriadão e não façam festa para que a sua vida e a dos que vocês amam não tenham um final nefasto.

A intérprete da pronúncia

Esta semana Elis Regina teria completado 76 anos de vida. A Pimentinha, como era chamada, foi indubitavelmente uma das maiores intérpretes de nossa música popular, não só por seu grande talento e estilo inconfundível, mas também por ter lançado ao estrelado alguns dos maiores compositores da MPB dos anos 1960 e ’70, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, João Bosco e tantos outros.

Elis dava às músicas interpretações definitivas, tanto que alguns autores admitiam compor para ela, mesmo que a canção acabasse gravada por outro intérprete.

Elis brincava com a voz, cantava rindo, chorando, resmungando, imitando vozes e sotaques, da impostação à la Ângela Maria ao caipirês de Renato Teixeira e ao bexiguês de Adoniran Barbosa. Da dicção afetada das socialites ao timbre rouco de Louis Armstrong, tudo era pretexto para um malabarismo melódico-rítmico-fonético. Elis explorou como poucos as potencialidades da voz e fala humanas ao cantar. Mas, além das vozes e sotaques que simulava, tinha sua própria pronúncia, que evoluiu ao longo da carreira, confirmando o traço camaleônico de sua personalidade.

É difícil, se não impossível, saber o quanto de intencionalidade havia nas pronúncias que Elis adotou, o quanto esse processo era consciente e deliberado.

Sabe-se que há pessoas mais propensas do que outras a incorporar hábitos linguísticos do lugar em que passam a viver. Embora a idade seja um fator importante na sedimentação desses hábitos (quanto mais jovem alguém muda de cidade ou país, maior sua facilidade em incorporar o novo padrão sem deixar vestígios do antigo), algumas pessoas imitam com perfeição a fala alheia, enquanto outras são capazes de viver décadas numa nova terra sem jamais perder as características de sua fala original.

O fato é que, se num primeiro momento, Elis simplesmente adotou a pronúncia carioca, talvez para se inserir melhor num mercado profissional em que o sotaque sulista não seria bem aceito, após algum tempo desenvolveu uma pronúncia própria e única, um sotaque “elisiano”, se é que se pode assim chamá-lo.

Nossa querida Pimentinha constitui um riquíssimo caso de estudo, não só para musicólogos e críticos, mas também para linguistas.

Luso e nordestino numa só voz
As gravações de Elis entre 1975 e 1979 revelam características fonéticas um pouco diferentes do período anterior: um “r” cada vez mais gutural, incomum até no Rio de Janeiro; um “l” mais velarizado (como na pronúncia lusitana) e, vez por outra, a abertura das vogais pré-tônicas à maneira nordestina; momentos em que a voz soa mais anasalada, em outros menos; e assim por diante.
O sotaque carioca da gaúcha
Elis Regina Carvalho Costa era natural de Porto Alegre, portanto imagina-se que, até o momento de abraçar a carreira musical, falasse como uma típica cidadã gaúcha. No entanto, ao lançar seu primeiro disco, no Rio de Janeiro, em 1961, ela já esboça uma pronúncia carioca que, por conta da bossa-nova, começava a se tornar hegemônica na MPB, substituindo a articulação (e a impostação vocal) operística que predominara nas décadas de 1930 e ’40.
O falar paulista de Elis
Elis fixou residência em São Paulo a partir de 1964, e nessa cidade permaneceu até sua morte, em 1982. Seu “s” carioca (isto é, chiado em fim de sílaba) permaneceu inalterado até meados dos anos 70, quando, aos poucos, foi substituído pelo impropriamente denominado “s” paulista (não chiado). Pessoas não versadas em fonética ou dialetologia costumam referir-se a certos sons da fala brasileira por seus modelos prototípicos. Assim, o chamado “r” carioca (velar ou uvular, tecnicamente falando) não é próprio só do Rio, é padrão na maior parte do país. Da mesma forma, o “r” caipira deixou há muito de ser só interiorano, já que é usado por nativos de cidades como São Paulo e Curitiba.
As três fases do s “elisiano”
Especificamente em relação ao “s” final de sílaba, pode-se reconhecer em Elis três fases: 1) a primeira, em que o fonema soa tal como pronunciado no Rio (por exemplo, “casas” pronunciado como “cásach” ou “cásaich”). 2) A seguir, uma pronúncia mais próxima do brasileiro padrão (“cásaç”). 3) Finalmente, um misto dos dois: “cásaiç”. Esta pronúncia a levou a articular “céus” como “céuis” em determinada canção.

Esfia de muçarela?

Muitas palavras estrangeiras acabam cedo ou tarde sendo aportuguesadas. Num primeiro momento, mantém-se a grafia importada e tenta-se tanto quanto possível preservar também a pronúncia original. O que, por sinal, é bem difícil. Pronunciar, ainda que com alguma adaptação, sons estranhos aos nossos hábitos articulatórios gera dois tipos de embaraço: em primeiro lugar, é preciso parar no meio da frase para mudar de “registro” fonético (isto é, a programação motora dos músculos fonadores, há muitos anos consolidada) no momento de articular a palavra alienígena; em segundo lugar, tal pronúncia frequentemente soa afetada e causa estranheza.

Depois que a pronúncia da palavra já se aclimatou em nosso sistema fonológico, chega a hora de adaptar a grafia a essa pronúncia. Foi assim que football (pronunciado “fútbol”) passou, primeiro foneticamente, depois graficamente, a futebol.

Mas há palavras cuja versão nacionalizada simplesmente não pega, ou porque a forma estrangeira está demasiado consagrada, ou talvez porque o aportuguesamento lhe dê um aspecto “vulgar”. É o caso de garçom e acordeom, que, malgrado o m final em lugar do n original, mantêm incólume a terminação francesa. As versões portuguesas garção e acordeão, embora registradas nos dicionários e propugnadas por gramáticos, quase não se ouvem nas ruas.

Às vezes, a grafia incorreta de uma palavra se torna tão disseminada que a certa é que parece errada. Quem sabe por isso a maioria dos restaurantes self-service venda comida a kilo e não a quilo. Por essa mesma razão, poucos sabem que a grafia correta de mussarela é muçarela – assim mesmo, com cê-cedilha e tudo! Há também mozarela, mais aderente ao étimo italiano mozzarella, mas quem grafa ou pronuncia assim?

Temos ainda a esfia, forma preferida pelos gramáticos a esfirra e sobretudo a esfiha, que nem é compatível com a nossa ortografia. Não obstante, é esta última forma a única que se lê nos anúncios das pastelarias e restaurantes de comida árabe. Esfia tem, aliás, o inconveniente de omitir um fonema (rr ou h aspirado) que todos pronunciam. Portanto, soa profundamente artificial.

Como o uso é o senhor absoluto da língua, é de se questionar se a grafia não deveria pautar-se justamente por ele, especialmente em casos consagrados como esses, em que o certo parece errado. É o que fazem outros idiomas, cujas regras ortográficas são bem menos rígidas que as nossas. Afinal, que comerciante teria coragem de anunciar esfias de muçarela? Grafado assim, esse prato fica até sem gosto!

A graça da palavra “graça”

O que há de comum entre as palavras graça, grato, gratidão, agradecer, agradar, desgraça, desgraçado, engraçado, grátis, gratificar, congratular, e destas com favor, mercê e obrigado? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical graç‑, grat‑ ou grad‑, que remete à raiz latina grat‑, de gratus (grato, agradecido). Portanto, o latim gratia, qualidade de gratus, e que deu o nosso graça, era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra favor, da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário. (Será que hoje essa reciprocidade ainda existe?) E assim temos a explicação de por que dizemos “obrigado” ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, “de graça” ou “grátis”. Por isso, em espanhol se diz gracias, em italiano grazie e em francês merci (que quer dizer “mercê”, ou seja, “favor”) em lugar do nosso obrigado. Por isso também, a Virgem Maria é “cheia de graça”, de generosidade. E a exclamação “Graças a Deus!” é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, agradar significa “tornar grato, receptivo, simpático”. E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, “engraçado”. Daí que graça também passou a significar “alegria, jovialidade” (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, “hilaridade, comédia”. Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o – financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça. Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um desgraçado. Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas “infeliz”, assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Finalmente, favor, que não tem relação etimológica com graça, mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, favorito, que quer dizer “favorecido”. Assim, quando dizemos que num concurso público houve favorecimento a um dos candidatos, o que estamos dizendo é que o vencedor era favorito desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país.

As muitas faces (linguísticas) da mulher

No Dia Internacional da Mulher, vale a pena mergulharmos nos significados primitivos – isto é, na etimologia – da palavra “mulher” em várias línguas.

O português mulher, assim como o espanhol mujer, provém do latim mulier, “mulher em geral”, mas, sobretudo “mulher casada, esposa” (como no italiano moglie, “esposa”), o que significa que mulher de verdade é a casada, o que faz sentido numa sociedade como a romana (e por séculos também a nossa) em que o destino da mulher jovem e virgem (virgo em latim) era casar-se; a mulher adulta que não fosse casada era alvo de desprezo, pois ou era prostituta ou solteirona (e, neste último caso, nas sociedades católicas ia para o convento).

O francês femme remonta ao latim fēmina, “fêmea”, que se opunha a mās, “macho”. Portanto, a mulher era vista como a fêmea do homem (e não o homem como o macho da mulher), revelando uma visão androcêntrica – ou falocêntrica, como querem as feministas – do mundo; numa palavra, uma visão machista.

Como curiosidade, fēmina remete à raiz latina fē-, que também aparece em fecundar e significa “parir”. Ou seja, a qualidade distintiva da fêmea em geral e da mulher em particular é o dom de dar à luz, de procriar.

Em inglês, woman também remete à ideia de fêmea, já que provém de wīfman, que no inglês antigo era a composição de wīf, “fêmea” (que deu o inglês moderno wife, “esposa”), e man, “homem”. Portanto, wīfman era a fêmea do homem.

O italiano donna provém do latim domina, “senhora, mulher casada, dona da casa” (e, posteriormente, “dona de casa”), e tem, portanto, a mesma etimologia que o português dona. Logo, a mulher confunde-se com a esposa do dominus (“dono da casa, chefe da família”).

A mesma visão de mundo reflete-se no alemão Frau, igualmente “mulher” e “senhora”. A palavra original para “mulher”, Weib (cognata do inglês wife), vem caindo em desuso (cerca de 8.250.000 ocorrências no Google contra cerca de 251.000.000 de Frau).

Uma observação curiosa: em alemão, Frau é palavra feminina, enquanto Weib é neutra. É errado associar gênero gramatical com sexo biológico, mas esse dado não deixa de chamar a atenção.

Nas línguas escandinavas, temos kvinna (sueco), kvinne (norueguês) e kvinde (dinamarquês), todas cognatas do inglês queen, “rainha”. Não é que os escandinavos considerem toda mulher como uma rainha (o que até seria justo): na verdade, o étimo de todos esses termos queria dizer apenas “mulher”; o inglês é que especializou o termo como “a esposa do rei”.

Por sinal, a raiz indo-europeia de queen, kvinna, etc., é a mesma do grego gyné, “mulher”, que aparece em ginecologia, por exemplo.

Qualquer que seja a etimologia do vocábulo, seja “mulher”, “fêmea”, “senhora”, “rainha”, meus parabéns a todas vocês.

O que significa “déficit” e “superávit”?

Volta e meia nos deparamos nos noticiários com expressões como “déficit fiscal” ou “superávit primário”, dentre outros termos do economês. Mas o que significam essas expressões?

“Déficit” vem do latim deficit, terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo deficere, resultante de de- + facere, que significa “faltar”. Portanto, deficit quer dizer “falta, está faltando”.

Já “superávit” veio do latim superavit, terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo superare, que deu em português “superar” por via culta e “sobrar” por herança direta do latim. Portanto, superavit significa “sobrou”.

Esses termos nasceram com os antigos comerciantes, que, ao fechar o balanço diário de seus negócios, anotavam superavit no livro contábil quando sobrava dinheiro; quando terminavam o dia no prejuízo, escreviam deficit.

Essas palavras passaram ao uso dos contabilistas e, em seguida, dos economistas como termos técnicos, por isso foram mantidos em latim até hoje. O português apenas acrescentou o acento agudo para aportuguesar a grafia.

Uma curiosidade: em Portugal, “déficit” se diz “défice”, o que é um aportuguesamento um pouco mais avançado.