O que significa “déficit” e “superávit”?

Volta e meia nos deparamos nos noticiários com expressões como “déficit fiscal” ou “superávit primário”, dentre outros termos do economês. Mas o que significam essas expressões?

“Déficit” vem do latim deficit, terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo deficere, resultante de de- + facere, que significa “faltar”. Portanto, deficit quer dizer “falta, está faltando”.

Já “superávit” veio do latim superavit, terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo superare, que deu em português “superar” por via culta e “sobrar” por herança direta do latim. Portanto, superavit significa “sobrou”.

Esses termos nasceram com os antigos comerciantes, que, ao fechar o balanço diário de seus negócios, anotavam superavit no livro contábil quando sobrava dinheiro; quando terminavam o dia no prejuízo, escreviam deficit.

Essas palavras passaram ao uso dos contabilistas e, em seguida, dos economistas como termos técnicos, por isso foram mantidos em latim até hoje. O português apenas acrescentou o acento agudo para aportuguesar a grafia.

Uma curiosidade: em Portugal, “déficit” se diz “défice”, o que é um aportuguesamento um pouco mais avançado.

Os impasses da etimologia: o caso de “fidalgo”

Um dos grandes entraves à pesquisa etimológica de cunho científico é a larga tradição que temos no exercício de uma etimologia “achista”, feita por gramáticos e dicionaristas que pouco ou nada sabem da verdadeira ciência etimológica. Esses autores costumam dar explicações simplistas, remontando todas as palavras ao latim, não importa se foram herdadas ou nos chegaram por via culta, não importa se vieram diretamente do latim ou por intermédio de outra língua. Além disso, substituem frequentemente a etimologia propriamente dita pela decomposição morfológica da palavra, como se todos os vocábulos portugueses tivessem nascido aqui mesmo, no português, por composição ou derivação de outras palavras igualmente portuguesas ou, no máximo, a partir de radicais greco-latinos.

Um exemplo desse desatino etimológico é a palavra “fidalgo”. Basta consultar qualquer dicionário de português que traga informações etimológicas e lá está: “fidalgo”, contração de “filho de algo”. Essa explicação aparece, por exemplo, em Antenor Nascentes (p. 255). Isso nos faz crer que em algum momento da história do português, a expressão “filho de algo” sofreu sucessivas síncopes, nessa sequência: filho de algo > filho d’algo > filh’ d’algo > fi’ d’algo > fidalgo. Tudo parece muito lógico à luz da própria história fonética do português, cheia de síncopes de vogais e consoantes. (Síncope é o desaparecimento de um fonema em meio de palavra.) Além disso, “algo” significava “riqueza” no português medieval, o que parece fazer de “filho d’algo” uma expressão tipicamente portuguesa.

Só que há um complicador nessa história: o espanhol registra hijo dalgo no poema épico El Cid, do século XI, anterior portanto aos primeiros registros em português. E o dicionário etimológico espanhol Corominas, um dos mais completos do mundo, registra fidalgus num documento de cerca de 1197, o Fuero de Castroverde (p. 178).

Será então que o português e o espanhol cunharam ambos a mesma expressão “filho de algo” (isto é, filho de família rica e nobre) independentemente um do outro? E, mais surpreendente ainda, ambos sincoparam e aglutinaram suas respectivas expressões, chegando aos resultados idênticos fidalgo e hidalgo? Qualquer pessoa medianamente inteligente veria que tal explicação é inverossímil demais para se sustentar.

Na verdade, fidalgo não vem de filho d’algo, mas sim do espanhol hidalgo. Ou seja, foi em espanhol que a locução hijo de algo surgiu (o próprio significado de algo como “riqueza, nobreza” nasceu no espanhol e foi importado pelo português, o que pode ser provado pela datação das ocorrências dessas acepções em cada uma das línguas).

Pois bem, algo (no sentido de “riqueza”), hijo de algo, hijo dalgo e hidalgo são todas palavras espanholas emprestadas ao português com a respectiva tradução de hijo por “filho”. O próprio Corominas, muito mais detalhado e embasado que os dicionários etimológicos do português, menciona esse fato.

Esse é apenas um exemplo de por que é tão importante e urgente elaborarmos um dicionário etimológico da língua portuguesa calcado em premissas e métodos científicos, que busque o étimo e a origem das palavras de nossa língua por meio de investigação empírica e não através da mera consulta a outras obras, igualmente equivocadas, ou do achismo de seus autores. É isso que dá a nós, pesquisadores do NEHiLP-USP – Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (https://nehilp.prp.usp.br) –, a convicção de que estávamos no caminho certo e realizando um trabalho importantíssimo, que é a elaboração do DELPo – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Infelizmente, como mencionei em meu post anterior, semana retrasada, esse projeto está parado, sem data para voltar. Pior ainda, sua página no site do NEHiLP, na qual já era possível fazer algumas consultas, está fora do ar. Assim caminha a pesquisa científica no Brasil.

Como os dicionários etimológicos falham

Dicionários etimológicos do português explicam o substantivo concreto mancebo, “rapaz, moço” e também “amásio”, como procedente do latim vulgar mancipiu (latim clássico mancipium), bem como afirmam que o verbo amancebar-se é derivado de mancebo. Mas essa explicação é pouco convincente por duas razões. Em primeiro lugar, mancipium é substantivo abstrato, derivado de manceps, mancipis, “comprador, fiador” (literalmente, aquele que toma em suas mãos: lat. manus, “mão” e capere, “tomar”). Mancipium significa, portanto, “qualidade de quem é comprador ou fiador”, isto é, “compra, arremate, fiança”. Em segundo lugar, não há nenhuma ocorrência, mesmo em latim vulgar, da palavra mancipiu como substantivo concreto, designando pessoa.

O que ocorreu de fato é que mancebo derivou de amancebar, e não o contrário. Esse verbo amancebar, que os mesmos dicionários etimológicos dão como proveniente de mancebo por formação parassintética (isto é, acréscimo do prefixo a‑ e do sufixo de infinitivo ‑ar), na verdade, provém por evolução fonética regular do latim emancipare, “emancipar, libertar, deixar de tutelar”, que significava, dentre outras coisas, “conceder a um filho poderes civis quando este completasse a maioridade”. Portanto, manceps e emancipatus queriam dizer “maior de idade”. (No direito civil brasileiro temos o mesmo termo emancipado para designar o indivíduo que atingiu a maioridade ou a quem, sendo menor, a justiça concedeu as prerrogativas de cidadão adulto.)

Em resumo, manceps deu emancipare, que passou por herança ao português amancebar (emancipar é latinismo importado bem mais tarde), o qual, por sua vez, originou mancebo por derivação regressiva. Este, sim, produziu o derivado mancebia, “estado ou condição de mancebo”, isto é, “concubinato”. Ou seja, o que mais provavelmente se deu foi o contrário do que alguns etimólogos afirmam.

Esse exemplo mostra que os (poucos) dicionários etimológicos do português nem sempre são muito confiáveis, principalmente em se tratando das datações de primeira ocorrência do vocábulo, que, em alguns casos, pecam por coisa de vários séculos. Mas também por étimos “chutados”, como o do exemplo citado aqui.

É por isso que o NEHiLP (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa), ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo, no qual atuo como pesquisador, decidiu anos atrás criar o Projeto DELPo – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Um dicionário totalmente on line, atualizável a todo momento, elaborado com o máximo rigor científico e as ferramentas tecnológicas mais modernas, algumas das quais desenvolvidas por nós mesmos, e de acesso totalmente livre, sem custo algum. Um dicionário que pretende sanar todas as falhas dos atuais dicionários etimológicos e dar ao nosso idioma uma obra de qualidade comparável aos melhores dicionários etimológicos do mundo: os de língua inglesa, francesa, espanhola, italiana e alemã.

Infelizmente, esse projeto está há meses parado por falta de verba, situação agravada ainda pela pandemia de covid-19. E assim caminha a pesquisa científica no Brasil. Se falta dinheiro até para pesquisas sobre vacinas que podem salvar milhares de vidas, que dizer de pesquisas sobre a origem das palavras?

Pequeno Dicionário Tabi-Português Português-Tabi

Quinta-feira passada, publiquei no meu canal do YouTube uma entrevista que fiz com um jovem paquistanês, agora naturalizado brasileiro, que aqui chegou em 2015 sem saber falar uma palavra de português e que, tendo morado na minha casa de 2016 até 2019, me permitiu acompanhar o seu processo de aprendizagem do nosso idioma, ocorrido basicamente no âmbito da minha família, já que os contatos externos que ele tinha, pelo menos nos primeiros meses, eram com conterrâneos seus radicados no Brasil.

Aftab, cujo apelido é Tabi, e que hoje goza o status extraoficial de meu afilhado, veio ao Brasil a trabalho, trazido por uma indústria farmacêutica indiana exatamente no ano em que eclodiu nossa pior crise econômica de todos os tempos – a famosa crise financeira da Dilma e do Mantega. Como resultado, Tabi se viu desempregado seis meses depois, quando a farmacêutica indiana resolveu encerrar suas atividades no Brasil. Ele, que até então morava num hotel pago pela empresa, viu-se obrigado a ir viver numa república de imigrantes do Oriente Médio, onde só se falava árabe, hindi, urdu e punjabi.

Mas qual a relação desse rapaz comigo? É que ele é irmão de uma ex-colega de colégio da minha esposa, uma paquistanesa que hoje vive na Alemanha, mas cuja família inteira morava no Brasil vinte e tantos anos atrás. Aliás, o próprio Tabi é nascido em São Paulo, embora tenha sido registrado como paquistanês, de modo que sua recente naturalização não deixou de ser a correção de um equívoco do destino.

O fato é que essa ex-colega pediu à minha esposa que recebesse Tabi no Brasil, já que ele não conhecia ninguém aqui. Mais do que recepcioná-lo, ela acabou tornando-se uma assessora desse meu agora afilhado, acompanhando-o a cartórios, consulado, polícia federal e demais instâncias burocráticas que um imigrante precisa visitar.

Quando o dinheiro acabou e ele não pôde mais pagar pela república, nos vimos na obrigação moral e já também afetiva de acolhê-lo em nossa casa. E foi nessa imersão num lar onde só se fala português que ele foi pouco a pouco adquirindo a nova língua.

Não sou psicolinguista nem especialista em aquisição de segunda  língua, portanto o processo que testemunhei foi muito mais uma vivência empírica do que a testagem e confirmação de conhecimentos teóricos que não tenho.

Mas pude perceber alguns fatos interessantes. Primeiro, que ele sofria uma certa influência da língua inglesa, um dos idiomas oficiais de seu país. Por isso, às vezes algum termo inglês pipocava em meio à sua fala. Depois vim a saber que o uso de palavras inglesas é prática comum no urdu, língua pátria do Paquistão. Outro fato curioso é que ele associava palavras novas a outras já conhecidas e por vezes confundia termos parecidos, trocando um pelo outro.

Mas o aspecto mais hilário e peculiar de seu esforço para falar português era a invenção de termos, o que me fez começar a anotá-los e elaborar um pequeno dicionário Tabi-português português-Tabi. Uma breve amostra desse “dicionário” (na verdade, um glossário) é o que eu lhes dou a seguir. Divirtam-se! Ah, e não deixem de assistir ao vídeo, hein!

  • acender → acesar;
  • açúcar mascavo → açúcar mascado (que nojo!);
  • água sanitária → água cemitéria;
  • alcachofra → cachorra;
  • alface → alfaço;
  • alumínio → alimúnio;
  • antidepressivo → depreciativo;
  • anti-impacto → antipático;
  • antirraiva → antirruiva;
  • Aracaju → Acaraju;
  • Armarinhos Fernando (uma rede de lojas em São Paulo) → Armênios Fernânios;
  • arroz com passas → arroz com Páscoa;
  • arroz parboilizado → arroz parabolizado;
  • até → atita;
  • babão → babaqueiro;
  • barulho → balu, barulu;
  • batata palha → batata palhada;
  • Bauducco (marca de panetone) → bugudutucu;
  • bisteca → biscuíta;
  • bolacha → borracha;
  • brócolis → Brooklins;
  • camada → camisinha;
  • cara de pau → cara de pão;
  • carambola → caramba rola;
  • chorão → chorento;
  • churrascaria → churrasqueira;
  • cilindrada → celindário;
  • coco → cocô;
  • colorau → coral;
  • configurar → confurigar;
  • costurar → escuturar;
  • criativo → crioso;
  • dívida → dúvida;
  • dúvida → dívida;
  • engenheiro → engenérico;
  • entupir → entupidar;
  • esmola → mola;
  • esteira → estrela;
  • estuprar → estupidar;
  • esvaziar → desvazar;
  • fazendeiro → fazendador;
  • feirante → barraqueiro;
  • f*dido → fudado;
  • folheto → foelho;
  • freguesia → fressiguesa;
  • fumaça → fumasca;
  • funerária, funilaria → funelária;
  • golpista → golpeiro;
  • grana → grama;
  • inventivo → inventoso;
  • Itubaína (marca de refrigerante) → Tabuína;
  • jabuticaba → jabaticuíba;
  • Jardim Cambará (bairro de São Paulo) → Jardim Caramba;
  • Jardim João XIII (outro bairro de São Paulo) → Jardim João Xixi;
  • leilão → lilá;
  • leite fermentado → leite Fernando;
  • leite Ninho → leite Nino;
  • lixa → lixeira;
  • lua → luva;
  • madrasta → madastrada;
  • máquina → maquina (provável influência do inglês machine);
  • maracujá → macurujá;
  • margarina → margarita;
  • massa → maçã;
  • mijão → xixeiro;
  • noz sem casca → noz sem casaca;
  • oftalmo → ofotônomo;
  • Otacílio Tomanik (avenida de São Paulo) → Tomacilo;
  • pão de forma → pão de forno;
  • papel higiênico → papel ingenético;
  • paralelepípedo → parelepíparo;
  • patinador → patineiro;
  • pepino → pepinho;
  • pesquisa → pesquisita;
  • pizza margherita → pizza de margarina;
  • polipropileno → popireoplano;
  • por exemplo → for exemplo (influência do inglês);
  • preguiça → pirissiguese;
  • presunto Seara → presunto Ceará;
  • psicopata → pescopata;
  • quiabo → tiabo;
  • quilômetro → quilomitro (influência do inglês);
  • recusar → cruzar, recruzar;
  • Rivotril (calmante) → Rotivil;
  • salada de frutas → fruta de salada;
  • sambódromo → sabadôrnomo;
  • serralheiro → ferralheiro;
  • sobremesa → sobresma;
  • sortudo → sorteado;
  • Sukita (refrigerante) → sicuta;
  • tampa → tâmpada (provável influência de lâmpada);
  • tapete → capete (influência do inglês carpet);
  • taxista → taxeza;
  • temperatura → tempura;
  • terno → térmica;
  • tigela → tijolo;
  • tuberculose → tuberculatose;
  • uva passa → uva páscoa, uva pasta;
  • vácuo → vacume (influência do inglês vacuum);
  • varal → verão, varão.

Entre o Céu e o Inferno

Praticamente todas as religiões e tradições míticas consideram a existência de um plano superior à vida terrena, habitado pelos deuses e eventualmente pelas almas bondosas, e um plano inferior, dominado por divindades maléficas, para onde vão as almas dos impuros, dos iníquos e também as dos adeptos de outras religiões.

Essa visão de que há três níveis de existência, da qual os vivos ocupam o intermediário, é uma constante nas mitologias e demais narrativas fundadoras da cultura. Em termos da nossa tradição judaico-cristã, há uma Terra, um Céu e um Inferno (o Cristianismo considera uma quarta instância, o Purgatório).

A palavra “céu” proveio do latim caelum ou coelum, por sua vez descentente de um hipotético indo-europeu *kailom, gênero neutro do adjetivo *kailos, “íntegro, intacto, puro” e, por extensão, “sagrado”. Essa mesma raiz indo-europeia deu o germânico *hailaz, e daí o inglês whole (inteiro) e o alemão heil (são, sadio). Um derivado germânico *hailigaz gerou dentre outras línguas o inglês holy e o alemão heilig, ambos significando “santo, sagrado”. E o verbo germânico *hailjan, “tornar íntegro, tornar inteiro” produziu o inglês heal e o alemão heilen, ambos com o sentido de “curar”. Ou seja, curar uma pessoa é torná-la íntegra novamente (pois a doença é uma forma de desintegração do organismo). E sagrado é aquilo que está intacto, afinal muitas culturas associam o tocar ao conspurcar, à profanação. Essa é, por sinal, a raiz da metáfora em que a virgindade feminina é um estado de pureza que o contato sexual macula (e daí a visão do sexo como impureza). Aliás, as palavras latinas intactus e integer, que deram respectivamente “intacto”, “inteiro” e “íntegro” em português provêm da união do prefixo negativo in- com radicais do verbo tangere, “tocar”. Logo, intacto, íntegro ou inteiro é aquilo que não foi tocado. E, por conseguinte, “céu” é, literalmente, o lugar do sagrado, bem como o espaço intocável, o que mostra seu caráter místico já na Pré-História.

As palavras germânicas para “céu” (dentre as quais heaven em inglês e Himmel em alemão) remetem à raiz indo-europeia *kemen (abóbada), mostrando uma visão mais física e menos espiritual do firmamento.

Já “inferno”, do latim infernum, “lugar baixo”, provém de infer (de “inferior”, “ínfimo”, etc.), do indo-europeu *ndher, que também resultou no inglês under e no alemão unter (embaixo, sob). O inglês hell e o alemão Hölle remontam ao indo-europeu *k’el, “encobrir”, donde o latim celare “esconder” e seu derivado occultus, “oculto”.

Quanto a “terra”, nome do nosso planeta e da matéria de que ele é feito, a origem está na raiz indo-europeia *ters, “seco”, de que também provém o latim torrere (torrar, isto é, secar pelo fogo), torridus (tórrido) e tostus (tostado). Da mesma raiz vieram o inglês thirst e o alemão Durst, “sede, secura na boca”. Portanto, a terra era originalmente a parte seca da superfície do planeta, por oposição aos oceanos. Por uma extensão de significado, passa a designar todo o planeta e, na visão geocêntrica dos antigos, o centro do Universo, único lugar com vida e, portanto, com seres dotados de alma, a qual, sendo boa, subiria para a abóbada celeste, morada dos deuses, e, sendo má, desceria às profundezas do inferno, no interior da própria Terra – um lugar muito quente, como o provam as lavas vulcânicas que, de quando em vez, emergem à superfície.

Finalmente, o Purgatório cristão é o lugar onde se purgam as almas. E o que é purgar? É tornar puro (o latim purgare provém de *purigare, formado de purus + agere, isto é, “fazer puro, conduzir à pureza”). Não por outra razão, os laxantes também são chamados de purgantes, já que fazem o corpo expelir as impurezas que causam mal-estar.

Um bolo de significados

Muitos já devem ter notado a semelhança entre as palavras “bolo”, “bola”, “bula”, “bolha”, e talvez até tenham intuído alguma relação com “bulir” e “ebulição”. Pois é, todas essas palavras são aparentadas, embora nos tenham chegado pelos mais diversos caminhos.

A mais antiga delas é “bola”, herdada diretamente do latim bulla, “bolha”, assim como o francês boule, o italiano bolla e o espanhol bolla. Aliás, foi esta última forma o étimo do português “bolha”. Em compensação, o espanhol bola veio do português, num empréstimo recíproco.

Já “bula”, tanto a papal quanto a de remédio, é empréstimo do latim bulla por via culta (por isso, o u se manteve, enquanto em “bola” transformou-se em o). É que bulla também era o selo em forma de bola com que o papa selava seus decretos. Por metonímia, passou a designar o próprio decreto papal (e depois, por extensão de significado, o impresso que acompanha os medicamentos).

De “bola” saiu, por mudança de gênero, “bolo”, no sentido culinário da palavra (bolo de aniversário, etc.). Curiosamente, o bolo alimentar, fecal, assim como o bolo de dinheiro (e, por consequência, a “bolada”, no sentido monetário), provém do grego bôlos, da mesma raiz que deu “êmbolo”, “símbolo”, “emblema”, “problema”, “bólido”, “parábola” “diabo” (diábolos), etc. Portanto, nada a ver com o latim bulla.

Essa palavra, aliás, produziu os derivados bullire e ebullire (de ex-, “para fora” + bullire), “ferver, borbulhar, fazer bolhas”. Deste último saiu ebullitio, que nos deu, por via culta, “ebulição”. Já “bulir”, de bullire, nos chegou por via popular: algo que bole (isto é, ferve) é algo em constante movimento. Daí que “bulir” passou a significar “mexer”. No Nordeste brasileiro, por sinal, “bulir” tanto se refere ao movimento de misturar a comida que ferve na panela quanto ao mexer em algo (“Posso bulir no seu livro?”) ou em/com alguém (“Pare de bulir comigo, seu menino!”).

Quanto a bol, palavra com que cada vez mais se designa um certo tipo de tigela nos meios chiques, vem do francês bol, que por sua vez provém do inglês bowl, “tigela, bacia, cuia”, palavra de origem germânica. Já o bule não tem nada a ver com bulla (embora o café ferva dentro dele) nem com bowl (não, o bule não é um parente distante da tigela!), mas sua origem é o malaio buli, palavra que os portugueses incorporaram em seus contatos com o Oriente no tempo das navegações.

Finalmente, o “bullying” tampouco faz parte dessa família de palavras (já tratei deste assunto anteriormente), embora alguns desavisados se queixem de estar sofrendo “bule” dos colegas.

Deve-se ensinar alta literatura a adolescentes?

A polêmica da semana é a postagem do digital influencer Felipe Neto, segundo a qual “forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”. E acrescentou: “o fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”.

Sem dúvida, em um país que pouco lê e cuja cultura letrada, mesmo entre as classes mais abastadas, é bem baixa, questionar o ensino de literatura é algo bastante temerário e até mesmo iconoclasta. (Bem, talvez tenha sido realmente essa a intenção do famoso e controverso youtuber.)

Mas a questão é bem complexa e delicada, já que envolve vários aspectos, e o próprio ponto de vista dos estudantes não pode deixar de ser levado em conta. O filósofo e historiador Leandro Karnal afirma em seu Instagram que

Machado é um gênio, talvez o maior na prosa. É bom forçar um adolescente a ler Dom Casmurro para fazer uma prova? Acredito que isto precisa ser muito debatido. A diferença entre remédio e veneno é a dose. Como professor e amante da obra de Machado, eu diria: a) primeiro textos curtos e sedutores; b) avaliar idade e maturidade de cada turma; c) preparar o ambiente e trabalhar, talvez, O Alienista ou um conto curto; d) valorizar mais a ideia e as ironias, um pouco menos as personagens em uma avaliação. A questão está na gradação, no método, no prazer e na capacidade crítica. Eu começaria mostrando uma imagem tradicional de Machado “embranquecido” e o Machado real e perguntaria: “por que o gênio foi mudado na aparência?” Talvez, preparando O Alienista, lançaria o debate: “quem é louco para vocês?”. Dar uma obra densa, explicar que é realista e marcar uma prova é o caminho para despertar a raiva ou o tédio… De novo: ensinar alunos jovens é um desafio gigantesco.

O saudoso Rubem Alves diz em seu artigo O prazer da leitura:

Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. (…) [A criança] Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. (…) Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão.

Devo confessar que eu próprio sou uma das vítimas desse ensino equivocado de literatura. Sempre gostei de escrever, amo as línguas desde que me entendo por gente – ou, pelo menos, desde descobri que há muitas línguas no mundo. Abandonei o curso de física no quinto semestre para me dedicar à linguística por amor à palavra. No entanto, ter sido obrigado a ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, ou, pior ainda, A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, e O Cabeleira, de Franklin Távora, provocaram em mim um trauma que carrego até hoje: sou totalmente avesso à prosa de ficção. Na verdade, leio muito, desde filosofia, passando por divulgação científica, história, biografias, atualidades, política, crônica, música, até humor e poesia, mas há anos não pego nas mãos um romance ou livro de contos. Não que eu desmereça a literatura ou não tenha consciência de sua importância artística e cultural. Pelo contrário, admiro muito as pessoas que têm a paciência de ler a descrição de um ambiente ou do vestido da heroína feita em três longas páginas, cheias de figuras de linguagem e torneios sintáticos inusitados! Assim como admiro as pessoas que, lendo uma narrativa ficcional, conseguem transportar-se mentalmente aos ambientes que ela visita e conseguem visualizar as feições dos personagens sem associá-las a atores de televisão. Mas admito que, em matéria de ficção, sou de uma geração mais imediatista, que de fato achava um saco passar dias e dias lendo uma estória quando o cinema nos conta essa mesma estória em pouco menos de duas horas, com trilha sonora, recursos audiovisuais, maravilhosos cenários, belos atores e atrizes e, em alguns casos, até narrador (aquela voz em off que fala com o espectador como o narrador onisciente ou como um dos personagens contando sua própria história).

Lembro-me que no ano de 2000 publiquei um artigo na Folha de S. Paulo com o título Repensando o ensino de literatura. Nele, eu dizia:

[o] ensino de literatura portuguesa e brasileira faz parte do currículo escolar de primeiro e segundo graus, e o conhecimento dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares. A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão. Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação geral e humanística que se espera de qualquer cidadão escolarizado.
No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem-se restringido, as mais das vezes, à história da literatura brasileira e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de que o início do Romantismo no Brasil se deu com a publicação, em 1836, de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns livros enfadonhos (…).
Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música, a pintura, a escultura, o teatro… Entretanto, o ensino de educação artística nas escolas não se restringe à história da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos por meio da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente, o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é claro, para as carreiras de música e de artes plásticas).

Minha tese, que ainda sustento, é que o contato com a leitura deve ser prazeroso e que o aluno deveria ter a liberdade de escolher o que ler, seja ficção ou não ficção, seja nacional ou estrangeiro. Pois a cultura geral do cidadão não se faz apenas com narrativas de ficção, mas também e principalmente com a leitura de grandes intelectuais e pensadores, e o conhecimento que forma a cultura não está restrito a autores de língua portuguesa. Aliás, venhamos e convenhamos que a literatura de língua portuguesa goza de bem pouco prestígio em termos mundiais, o que parece indicar que há muito mais coisas boas a serem lidas lá fora do que aqui dentro.

Por isso, naquele artigo eu também defendia que,

[s]e o objetivo do ensino de literatura na escola média é estimular no aluno o hábito da leitura, então por que, em vez de obrigá-lo a ler obras de ficção de séculos passados, não se propõe a ele a leitura de obras importantes de não ficção da atualidade, como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos, por sinal muito bem escritos, ou os de Carl Sagan, que possuem, aliás, excelentes traduções em português? Será que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões reais do mundo contemporâneo, como a globalização e a poluição, por exemplo, não é mais relevante que o estudo de obras ficcionais?

Ou seja, eu considerava que a literatura de ficção, como arte, deve ser, sim, conhecida e apreciada, e que, para isso, é preciso educar a mente assim como se educam os ouvidos para apreciar boa música ou o paladar para degustar um bom vinho. E que o modo como essa literatura vinha – e pelo jeito ainda vem – sendo ensinada simplesmente desestimula o estudante a ler, mata-lhe a capacidade da fruição estética e o enche de enfado e tédio. Finalmente, a cobrança dessas leituras em concursos vestibulares favorece o surgimento de cursinhos e sites que fornecem resumos, de modo que o candidato possa responder às questões da prova sem ter passado pelo suplício de ler as obras.

À época, recebi muitas cartas de apoio (os e-mails ainda estavam engatinhando; comentários e likes nem sonhavam em existir). Mas também fui detonado por dois ou três professores de literatura de universidades renomadas, que, defendendo seu feudo, chamaram meu arrazoado de “barbárie”.

Portanto, não espero que você, leitor, concorde comigo, mas que reflita sobre a problematização que fiz. E que não pegue o atalho fácil de sair malhando essa ou aquela celebridade que posta alguma opinião polêmica nas redes sociais sem ter analisado a fundo a questão. Às vezes, até um Felipe Neto da vida pode dizer algo que faça sentido. Ou propor um debate que valha a pena.

Todos os indígenas são índios?

A campanha de vacinação contra a covid-19, iniciada tardiamente e ameaçada de não ter continuidade por causa do isolacionismo diplomático em que nosso presidente coloca o Brasil, prioriza, neste primeiro momento, os profissionais de saúde que lutam na linha de frente, os idosos e os indígenas – estes últimos, também popularmente conhecidos como índios. A semelhança fonética entre “índio” e “indígena”, somada à semelhança de significados, nos induz logo a pensar que se trate de palavras aparentadas, o que não é verdade: trata-se, antes, de uma dessas coincidências capciosas, uma peça que a língua nos prega.

É que “indígena” provém do latim indigena, formado de indu, “dentro”, e geno, “gerar, dar à luz”, significando “natural do próprio país, nativo”. Ou seja, na Roma antiga, indígenas eram os próprios romanos (no Império Romano obviamente não havia índios). Por outro lado, na Renascença a palavra “índio” designava (e em espanhol ainda designa) os indianos; a confusão entre “índio” e “indiano” se deu justamente porque, segundo reza a lenda, os primeiros europeus a chegar à América, com a expedição de Cristóvão Colombo, acreditavam ter chegado às Índias. (Por causa disso, até hoje, a palavra inglesa Indian denomina tanto os indianos quanto os índios.)

Por outro lado, os índios não deixam de ser os nativos do continente americano, portanto legítimos indígenas. E aí está feita a confusão! Embora não seja usual, a palavra “indígena” seria perfeitamente aplicável a qualquer população nativa em relação aos exploradores europeus: nativos africanos, aborígines australianos, esquimós, habitantes das estepes siberianas, etc. Só que o uso reiterado de “indígena” em relação ao ameríndio e somente a este acaba reforçando a ilusão de parentesco entre palavras cuja similitude é puramente fortuita.

Quanto aos termos “índio” e “indiano”, suas origens remontam à Índia, terra assim chamada por causa do rio Indo, cujo nome no antigo persa era Hinduš. Essa denominação veio, por sua vez, do sânscrito Sindhu. É do persa, por meio do grego, que se origina o nome “hindu”, designativo de uma das religiões da Índia, e que muitos confundem com a própria etnia indiana. Como, na Antiguidade, muitas civilizações cresceram em torno de religiões, não é absurdo falar-se de uma civilização hindu, já que, naquela época, etnia e religião andavam juntas; entretanto, nos dias de hoje, é mais adequado nos referirmos à Índia como estado ou governo indiano do que estado ou governo hindu – até porque a nação indiana é composta de um sem-número de comunidades religiosas, das quais a hindu é a maior, mas não a única.

O atual uso dos pronomes pessoais oblíquos “o/a” e “lhe”

O emprego dos pronomes pessoais oblíquos em português brasileiro contemporâneo falado (e às vezes também escrito) tem sido um daqueles complexos problemas da nossa língua. É que, em primeiro lugar, temos a tendência a substituir os pronomes átonos o/a/os/as/lhe/lhes pelos tônicos ele/ela/eles/elas: “Eu não vi ele hoje”; “Eu dei o livro pra ele”. Em segundo lugar, muitas vezes omitimos o objeto direto quando este é um pronome: “Você viu o Zé? Não vi, não”. Em terceiro lugar, o uso do pronome pessoal reto você, que exige os oblíquos o/a/os/as/lhe/lhes, em lugar de tu, acaba criando ambiguidades: “Eu não o conheço!” (não conheço você ou ele?). Por isso, costumamos desfazer a ambiguidade por meio das formas “Não te conheço” (informal) ou “Não lhe conheço” (formal) em oposição a “Não conheço ele”.

No exemplo acima, é possível perceber que, ao nos dirigirmos a uma pessoa com quem não temos intimidade, ao mesmo tempo evitamos o uso de te e do pronome objeto direto o/a, utilizando em seu lugar o pronome objeto indireto lhe: “Não lhe conheço!”.

Só que agora está surgindo o uso exatamente inverso a esse, isto é, a substituição do pronome objeto indireto lhe pelo direto o/a. Tenho visto cada vez com mais frequência construções do tipo “Eu quero proporcioná-lo a melhor qualidade de vida possível” ou “Recebeu o amigo e o ofereceu um drinque”.

Por que isso acontece? Evolução linguística, dirão vocês. Eu, como linguista, não posso negar que isso seja uma inovação que poderá vir a tornar-se uso corrente e predominante. Ou seja, como cientista da língua, não posso deixar de observar o fenômeno como algo natural a que todas as línguas estão sujeitas.

Porém, como falante do português e amante da cultura letrada, tampouco posso deixar de apontar um fato desolador que, em meu diagnóstico, é a causa dessa mutação: nossa péssima educação escolar. Ou seja, o emprego padrão (isto é, normativo) dos pronomes pessoais em português é um tanto complexo, e, particularmente na variedade brasileira, o uso de pronomes de terceira pessoa com função de segunda traz certa ambiguidade que os falantes procuram contornar como podem. Mas, na hora de redigir é que o bicho pega, pois a maioria das pessoas não sabe usar tais pronomes no registro culto e acaba metendo os pés pelas mãos – ou melhor, acaba metendo o/a no lugar de lhe e vice-versa. Fatos como esses certamente não aconteceriam se as pessoas fossem mais bem escolarizadas e se o hábito da leitura fosse mais difundido. Aliás, desconfio que a própria preguiça que o brasileiro em geral tem de ler se deve à má escolarização, pois os livros, jornais e revistas costumam ser redigidos num linguajar bastante distante do usado no dia a dia, o que requer da parte de quem tem pouca afinidade com o léxico e a gramática um grande esforço intelectual. Ou seja, para essas pessoas, ler cansa.

Adestrar é o mesmo que amestrar?

Olá, mestre Aldo! Tenho uma dúvida sobre o uso das palavras ‘adestrar’ e ‘amestrar’. Elas são sinônimas? Tenho a ligeira impressão que não, mas gostaria de ouvir a sua opinião. Obrigado.
Iran Pereira Leme

A impressão de Iran está correta: embora muitos dicionários relacionem ambas as palavras como sinônimos, adestrar e amestrar são coisas diferentes. Adestrar é tornar destro (do latim dexter, “referente ao lado direito ou à mão direita” e, por extensão de significado, “hábil, habilidoso”), ao passo que amestrar é tornar mestre (do latim magister, “aquele que guia ou ensina, portanto alguém dotado de grande conhecimento e experiência”.

Assim, amestrar é mais do que adestrar, pois um operário pode ser treinado (isto é, adestrado) para executar uma certa tarefa; já para chefiar os demais operários, ele precisa ser um mestre de obras, alguém que conhece e sabe executar as tarefas de todos os seus subordinados e é capaz de reger a atuação destes como um maestro (do italiano maestro, “mestre”) rege uma orquestra.

É possível perceber a sutil diferença entre os dois termos no que se refere à educação de animais: um adestrador de cães ensina a sentar, deitar, ficar parado no lugar, fazer suas necessidades no lugar certo, não latir sem motivo, etc. Já um cão amestrado, desses que se exibem em circos, sabe dançar, dar piruetas e fazer slalom entre as pernas do domador, dentre muitos outros truques. Ou seja, um animal adestrado realiza tarefas básicas, enquanto um animal amestrado executa operações complexas e pouco naturais, dignas de um espetáculo.