Todo meio é ambiente?

Prezado doutor Aldo Bizzocchi, bom dia!
Afinal, meio ambiente é um pleonasmo? A meu ver, as duas palavras são análogas, visto que um livro jamais poderia ser titulado Direito do meio. Os leitores se perguntariam meio do quê? Numa passagem do livro do eminente Evanildo Bechara diz que os pleonasmos (aceitáveis) são para fins de clareza, reforço ou ênfase. Seria este o caso supracitado? O meio ambiente em vez dum pleonasmo seria um sintagma ou locução substantiva?
Grande abraço,
Edilson Zafira de Sousa
São Paulo – SP

Caro Edilson, nestes tempos em que o meio ambiente tem sofrido como nunca por ação de fazendeiros e garimpeiros inescrupulosos e por inação de um governo conivente com os crimes ambientais, sua pergunta é muito oportuna.

Vamos à resposta: “meio ambiente” é de fato uma locução substantiva e, portanto, um sintagma nominal. Para quem não se lembra, sintagma é uma sequência de palavras das quais uma é a base ou núcleo e as demais são seus adjuntos. Sintagma nominal é aquele que tem um substantivo como base. No exemplo em questão, “meio” é o substantivo-núcleo e “ambiente”, o adjetivo adjunto (nominal, no caso, já que se liga a um substantivo, ou nome).

Mas será que “meio ambiente” é um pleonasmo, mesmo que enfático e, portanto, perdoável? Em primeiro lugar, você tem razão ao dizer que a palavra “meio”, sozinha, é muito vaga; afinal, além de ambiente, “meio” também significa “metade” e “recurso, instrumento” (por exemplo, “ele partiu o galho ao meio usando um machado como meio”).

Em segundo lugar, nem todo contexto em que se emprega “meio” admite “ambiente” como sinônimo (por exemplo, meio sólido, meio líquido, meio alcalino, etc.). Nesse sentido, “ambiente” é um adjetivo que especifica o tipo de meio a que nos referimos, assim como “sólido”, “líquido” e “alcalino”.

O que ocorre é que “ambiente”, outrora apenas adjetivo, oriundo do latim ambiens, particípio presente do verbo ambire, “andar em volta, rodear”, passou a ser usado como substantivo; daí falarmos no ambiente da festa, na decoração de ambientes, e assim por diante. Se pensarmos em ambiente como substantivo com esse significado, então “meio ambiente” seria efetivamente um pleonasmo. Mas a expressão “meio ambiente”, por sinal um termo técnico do jargão da biologia e da ecologia, tem um sentido específico, diferente de “meio” simplesmente, que também é termo técnico nessas áreas (e em outras, como em sociologia: “as más influências do meio”).

Quanto a ambiente, é até possível empregar essa palavra em seu sentido ecológico, como uma redução de “meio ambiente”, o que, de modo algum, invalida a forma extensa da locução.

Em resumo, trata-se de uma construção legítima, e a ideia de que seria redundante não procede.

O pronome inventado

É possível inventar um pronome? Certas categorias de palavras são inventários fechadíssimos, cujas unidades, herdadas de uma língua ancestral, estão lá desde sempre, e nos quais nenhuma nova unidade pode entrar. Dentre essas categorias estão os numerais (pelo menos os de um a três), os nomes das partes do corpo e os pronomes, principalmente os demonstrativos e os pessoais.

Por isso, pesquisas filogenéticas, que tentam reconstituir as árvores genealógicas das línguas, costumam usar essas palavras para determinar com segurança o parentesco entre dois idiomas. Sendo quase nula a possibilidade de esses termos passarem de uma língua a outra por empréstimo, se duas línguas apresentam formas aparentadas dessas palavras, provavelmente pertencem à mesma família.

Alguns pronomes até podem surgir ao longo da história da língua. Na verdade, eles evoluem a partir de outros pronomes. É o caso de “você”, que proveio do antigo pronome de tratamento “vossa mercê”. Mas não se trata de empréstimo, muito menos de invenção.

Apesar disso, o sueco ganhou na década de 1960 um novo pronome pessoal: trata-se do hen, proposto por linguistas com o objetivo de neutralizar a oposição masculino/feminino numa época dominada pelos movimentos feministas e de direitos civis, em que o uso do gênero masculino em expressões como “ser humano” era malvisto. (Reflexos disso se encontram até hoje em expressões como “brasileiras e brasileiros”.)

Em sueco, há quatro gêneros gramaticais – e consequentemente quatro pronomes pessoais: masculino (pronome reto han), feminino (hon), comum (den) e neutro (det). Praticamente todas as palavras dessa língua pertencem ao gênero comum (chamado de realgenus em sueco); o masculino e o feminino são reservados a seres animados, especialmente humanos, cujo sexo está determinado (portanto, “pessoa”, “animal”, “vítima”, etc., são do gênero comum). As palavras neutras formam uma pequena classe de substantivos abstratos ou inanimados que, por razões históricas, não foram incorporados ao realgenus.

Porém, em qualquer língua em que haja distinção de gênero, há casos em que é preciso falar de alguém cujo sexo não se sabe, mas que seria deselegante tratar por um pronome neutro. Em inglês, por exemplo, seria absurdo usar o pronome it para referir-se a uma pessoa que se desconhece se é homem ou mulher. Por isso, as línguas tentam contornar essa dificuldade inventando formas gráficas que camuflem a distinção.

Em português, inúmeras cartas se iniciam por um “Prezado(a) Senhor(a)”. (Um modismo idiota vem utilizando, sobretudo na internet, o sinal “@” para desfazer a oposição de gênero: “querid@s amig@s”.) Pior ainda é o uso de “x”, que torna as palavras impronunciáveis: “queridxs amigxs”.

No inglês, é comum empregar he or she (“ele ou ela”) para expressar o chamado gênero complexo (isto é, ao mesmo tempo masculino e feminino, abarcando homens e mulheres). Uma versão piorada desse estratagema é a grafia (s)he. Em textos informais, usa-se atualmente they (“eles” ou “elas”) para neutralizar a oposição de gênero, mesmo que o referente seja singular.

Outra estratégia do inglês foi adotar o termo chairperson para designar o cargo de presidente, já que o tradicional chairman contém o elemento man, “homem”, remontando aos tempos em que todos os dirigentes eram homens. (O nosso “Presidenta” vai na direção oposta.)

O próprio sueco já adotava grafias estranhas para neutralizar han e hon: h*n, h?n, h_n, haon, hoan, todas reprovadas pela gramática. E a maioria delas impossível de pronunciar. O fato é que não se faz uma mudança na língua “de cima para baixo”, a partir de uma criação de laboratório, sem provocar estranheza nos falantes – e, acima de tudo, muita polêmica. O resultado prático é que o hen acabou abandonado pouco após sua criação, até que, em 1994, o linguista Hans Karlgren o propôs novamente como um pronome neutralizador de gênero para determinadas situações de escrita. Em 2009, hen aparece na Enciclopédia Nacional Sueca descrito como pronome pessoal neutro a ser usado em lugar de han e hon. E em 2012 Jesper Lundqvist lançou o livro infantil Kivi och Monsterhund (“Kivi e o cachorro-monstro”, sem tradução para o português), em que utiliza hen para falar às crianças sem discriminá-las entre meninos e meninas.

Segundo Susanna Karlsson, chefe do Språkrådet (Conselho da Língua), o polêmico pronome serve para disseminar a ideia de igualdade. Não só a igualdade entre homens e mulheres, mas também a de pessoas transgênero. No que é contestada por seu colega Mikael Parkvall, para quem a ideia de que a língua determine o pensamento, embora popular, é bastante questionável em termos científicos. “O laço entre o idioma e o pensamento não é especialmente forte e não se torna mais paritário só porque se utiliza um pronome neutro”, diz.

Para Sven-Göran Malmgren, redator do dicionário da Academia Sueca, “não há um único exemplo no mundo em que um pronome tenha sido inventado e depois imposto”. A própria inclusão da palavra nas próximas edições do mais prestigioso dicionário do idioma depende da adesão popular ao termo. O que, até o momento, parece não estar acontecendo. Segundo pesquisa realizada pelo jornal Aftonbladet, 96% das pessoas entrevistadas não utilizam hen nem acreditam que se possa construir uma sociedade igualitária pela simples invenção de palavras.

Como se grafa “superbém”?

Olá, queria saber qual a forma correta: “superbém”, “super-bem” ou “super bem”? Um abraço e obrigada.
Sônia Regina Santiago

A palavra em questão é uma daquelas cuja grafia gera dúvidas porque fazem parte da oralidade informal e raramente aparecem escritas. Nem mesmo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra esse vocábulo, e os dicionários em geral hesitam em incluir em seu acervo palavras desse tipo, tidas como gírias efêmeras.

Mas, segundo as regras da nova ortografia, “super-” é um prefixo que se liga sem hífen ao radical, exceto se este começa por “h”, portanto teríamos “superbém”, com acento agudo no último “e”, já que o resultado é uma palavra oxítona terminada em “em”, como “também”, “porém”, etc. As grafias “super-bem” e “superbem” são incorretas, a primeira por usar hífen num caso não previsto na regra ortográfica, a segunda por soar paroxítona (com o acento tônico caindo na sílaba “per”).

No entanto, já vi em alguns lugares (em geral postagens em redes sociais e chats) a grafia “super bem”, o que indica que muitos não sentem “super” como prefixo, mas como palavra autônoma, no caso, um advérbio de intensidade equivalente a “muito”. Já ouvi mesmo usarem “super” como forma desacompanhada: “Fulano é um sujeito super!”. Se de fato “super” está ganhando vida própria, poderíamos pensar em “super bem” como duas palavras. A questão agora é a grafia correta de “super”: como paroxítona terminada em “r”, deveria ter acento agudo na primeira sílaba (“súper”); se, por outro lado, admitirmos que, sendo palavra latina, não deve levar acento, então deveríamos grafá-la em itálico, como se faz com toda palavra estrangeira. Conclusão: as grafias “súper bem” e “super bem” também poderiam ser admitidas.

Eu particularmente prefiro “superbém”, mas o fato é que, enquanto os dicionários não registrarem o termo, sua grafia ficará ao sabor das preferências individuais, transitando em textos que, por sua própria informalidade, abrem mão do rigor ortográfico.

MPB, MPP e pop

Outro dia, ouvi um cantor português relatar que os intérpretes da terrinha em geral não gostam de cantar MPB por causa do uso do pronome “você” nas letras. É que em Portugal “você” é tratamento formal, de modo que um verso como “eu amo você” significa para eles algo como “eu amo o senhor” ou “eu amo a senhora”, o que parece uma declaração de amor aos avós.

Por outro lado, se cantores brasileiros cantassem canções portuguesas (o que, por sinal, não fazem), letras dizendo “tu és”, “tu foste”, “dizes” ou “fizeste” soariam para nós como aquelas valsas antigas com letras parnasianas dos tempos de Vicente Celestino, Pixinguinha e Ernesto Nazareth.

Ou seja, diferenças linguísticas acabam por atrapalhar o intercâmbio cultural entre nações irmãs. O fato é que a música popular brasileira faz algum sucesso em Portugal porque, apesar das letras, nossa música é realmente muito boa. Já a MPP (música popular portuguesa, na sigla inventada por mim) não é sequer conhecida por aqui e, pelo que sei, não faz sucesso nem entre os demais europeus.

Enquanto isso, a música pop anglo-saxônica circula livremente entre todos os países anglófonos sem obstáculos linguísticos. É que, salvo uma ou outra palavra, uma ou outra gíria, a língua inglesa é exatamente a mesma em todos os lugares. Aliás, a própria difusão internacional de filmes, séries de TV e canções de língua inglesa se encarrega de espalhar as novas gírias.

É claro que o soft power exercido pelas nações anglófonas se deve a uma série de razões, históricas, políticas, econômicas, sociais e culturais. Mas que a homogeneidade da língua contribui para isso não há dúvida.

Brasil il il il il!!!

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DISCLAIMER:

Atenção, haters, este artigo contém altas doses de ironia. (Caso você não saiba o que é ironia, consulte um dicionário; caso você não saiba o que é um dicionário, nem se dê ao trabalho de ler o texto abaixo – se é que você consegue.
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Talvez por causa de nosso complexo de vira-latas, nós brasileiros temos a mania de querer ser os melhores do mundo em tudo. E assim vamos criando nossa mitologia: melhor futebol do mundo, maior carnaval do planeta, o povo mais simpático, acolhedor e cordial de todos, a melhor música popular, a modelo mais famosa, o maior campeão mundial de fórmula um…

Pois bem, em matéria de covid também estamos mostrando a que viemos. Começamos timidamente e, “comendo pelas beiradas”, chegamos ao segundo lugar no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos (mas aí também é covardia, afinal o país mais rico e poderoso tinha de ser o primeiro; os EUA são hors-concours, ainda mais com Trump à frente). Portanto, diante dessa superpotência, nosso segundo lugar tem gosto de primeiro, ou, como diria o técnico da seleção de 1978 Cláudio Coutinho, somos os “campeões morais” dessa competição.

E não é que, de repente, sem aviso, na semana passada a Índia nos ultrapassou em número de casos? Também, com uma população de mais de um bilhão de habitantes, fica difícil concorrer. Mesmo assim, o valente povo brasileiro não se dá por vencido. Tanto que ainda detemos o segundo lugar em número de mortes, e este os indianos não vão nos roubar, ah não vão mesmo!

Foi com toda essa determinação que, mesmo com regras rígidas de isolamento e até lockdown, nossos patrióticos cidadãos saíram às ruas, lotaram bares, restaurantes, shoppings e praias, sem máscara e sem distanciamento social, mostrando que, em matéria de disseminação de epidemias, não somos nem um pouco amadores.

Também contribuíram muito para nosso sucesso os diligentes prefeitos, que, atendendo ao clamor popular – especialmente em ano de eleição –, flexibilizaram o distanciamento de maneira precoce e descoordenada. Afinal, quem é que pode viver sem ir ao shopping? E assim, sensíveis a essa necessidade básica e premente da população, liberaram o comércio de rua, os barzinhos, os parques, as praias e relaxaram a fiscalização para que esta não importunasse os beberrões e os boêmios.

Por falar em descoordenação, não podemos deixar de louvar nosso valoroso Presidente da República, que, com seu exemplo de não usar máscara em público, provocar aglomerações, rodear-se de criancinhas, passar a mão no nariz e em seguida cumprimentar apoiadores, de demitir ministros técnicos e substituí-los por militares e ainda de recomendar o uso de um medicamento sem qualquer eficácia contra a doença, contribuiu muito para insuflar nos brasileiros esse sentimento de que, se depender de nós, ganhar a corrida da covid será uma barbada.

Mas que fique claro que não fazemos tudo isso apenas pelo espírito de competição com outras nações do mundo, especialmente a do Tio Sam, mas porque temos a plena consciência de que precisamos a todo custo salvar as empresas e os empregos mesmo que isso custe algumas centenas de milhares de vidas. Afinal, a maioria dos mortos não é mais produtiva mesmo, já que se trata de idosos aposentados. Aliás, isso até aliviará as contas da Previdência – ou seja, matamos (literalmente) dois coelhos com uma só cajadada.

É bem verdade que sempre haverá os derrotistas e estraga-prazeres a dizer que vidas são mais importantes do que a economia, que nosso brilhante primeiro-mandatário se eximiu de responsabilidade em coordenar esforços contra a pandemia, culpando o STF e os governadores e prefeitos pelo nosso quadro atual, mas não liguem: essas pessoas são antipatriotas e torcem pelo nosso fracasso. Mesmo assim, tenho certeza de que essa momentânea reação indiana não nos desanimará: continuaremos dando nosso melhor, frequentando lojas, templos e baladas, fazendo festas clandestinas, dando carteirada nos fiscais chatos que insistem em cercear nossa liberdade civil e nosso direito democrático de sair à ruas sem máscara e disseminar a doença porque, afinal, somos brasileiros, e brasileiro não desiste nunca.

Ei, americanos, aguardem-nos que estamos chegando, e a corrida ainda não terminou!

No dia da Independência, a origem da palavra

Acho nossa data nacional, o Sete de Setembro, uma expressão bastante sonora e, portanto, retumbante como devem ser as datas nacionais. E é retumbante talvez pela reiteração do número sete no nome do mês – em documentos medievais, setembro chegava a ser grafado como 7bro –, embora saibamos que setembro não é o sétimo e sim o nono mês do ano. A explicação para esse desencontro entre número e mês o leitor pode conferir no vídeo “Abril tem a ver com abrir?”, no meu canal do YouTube.

Mas hoje quero falar sobre a origem da palavra independência. Segundo a maioria dos dicionários, independência deriva por prefixação do substantivo dependência, que por sua vez provém do adjetivo dependente, por sua vez do verbo depender, sendo este empréstimo do latim dependere.

Na verdade, as palavras independência, dependência e dependente vieram todas do francês, cujos registros mais antigos são anteriores aos nossos. Mas, de fato, depender, assim como o francês dépendre, proveio do latim dependere, formado de de‑, “para baixo” e pendere, “pender, estar pendurado”. Portanto, “depender” é literalmente “pender para baixo, estar pendurado (em algo ou alguém)”.

É muito interessante essa visão da dependência como a situação de alguém que só se sustenta em pé ou no ar na medida em que pende (por uma corda, por exemplo) de alguém ou de algum lugar. Isso significa que o dependente pode cair a qualquer momento se a pessoa ou coisa que o sustenta retirar seu apoio, mais ou menos como cabides pendem de um varão, roupas pendem de um varal ou filhos menores dependem dos pais. Isso vale também para a dependência química, em que a abstinência provoca intenso mal-estar.

Como resultado, independência é a condição de quem não está amarrado a nada, de quem não precisa de nada ou ninguém em quem se pendurar. O que me faz questionar se somos de fato uma nação independente. Mas isso já é outra história.

Bom final de feriado a todos!

Os muitos significados de “dar”

A maioria das palavras de qualquer língua é polissêmica, isto é, tem  mais de um significado. Na verdade, muito poucas são as palavras monossêmicas, aquelas que significam uma só e única coisa, como hexaclorofeno ou tromboflebite. Entre as campeãs da polissemia em português está, sem dúvida, o verbo “dar”. Basta “dar” uma consultada no dicionário para constatar o sem-número de acepções desse vocábulo (o Michaelis, edição 2002, dedica uma página e meia, o equivalente a cinco colunas, a esse verbete).

É fácil perceber como tal verbo se presta às mais variadas necessidades expressivas. Numa simples frase como “Agora deu pra dar pernilongo nesta casa”, “dar” significa “começar” e a seguir “aparecer”. Para muito além do sentido original de ofertar algo a alguém (“João deu o livro à sua irmã”), esse verbo foi assumindo outras nuances, algumas inusitadas e imprevisíveis. Afinal, se é possível dar coisas concretas (um livro, maçãs, dinheiro), também se pode dar coisas menos palpáveis, como um beijo ou um tapa. Daí para “dar uma olhada”, “dar cabo”, “dar com a cara na porta” (ou “com a língua nos dentes”) foi um pulinho.

Vejamos apenas alguns dos inúmeros significados de “dar”.

  • Fazer, executar: dar uma limpada no quarto, dar um escândalo;
  • Importar-se: pouco se me dá que ele não tenha gostado;
  • Brotar: em se plantando, tudo dá;
  • Produzir: esta terra dá de tudo;
  • Ser possível: não deu para esperar por ele;
  • Fazer sexo: ela dá para qualquer um;
  • Ocorrer: faço o que me dá na telha;
  • Passar-se por: ele vive dando uma de rico;
  • Bater: vou dar na cara desse idiota;
  • Ser veiculado: essa notícia não deu nos jornais;
  • Chegar: andei tanto que fui dar em outra cidade;
  • Resultar: de um jeito ou de outro dá no mesmo;
  • Bastar: pra mim já deu!

O citado Michaelis “dá” 59 acepções da palavra, algumas delas com outro tanto de sub-acepções. E, com certeza, nem todos os sentidos correntes na fala diária estão contemplados. Afinal, novos empregos desse verbo surgem a todo momento, e a gente nem se “dá” conta.

“Dar” não é só um dos verbos mais polissêmicos do português, mas quem sabe de todas as línguas europeias (talvez apenas o inglês “get” supere o nosso “dar”). Dá para acreditar?

O óculos? A calça?

Os gramáticos reclamam quando o povo diz “vestir a calça” em vez de “vestir as calças”. O problema é que ninguém consegue vestir uma calça só! Ou seja, não faz sentido, segundo a lógica dos falantes, dar um nome plural a um objeto singular. Por isso, as pessoas dizem coisas do tipo “eu gozei duas férias, mas ele gozou só uma”. Só uma “férias”? Soa estranho, mas faz sentido: “férias” não é plural de “féria” (que é a renda que um prestador de serviço aufere por dia de trabalho), mas é uma outra coisa, e uma coisa só, indivisível (exceto quando alguém resolve gozar as férias em partes: uma quinzena no meio e outra no fim do ano, por exemplo).

Mais alarmante para os gramáticos do que “a calça” é “o óculos”. Dizem eles: óculos é substantivo plural (ou pluralício, isto é, que não admite singular), portanto o correto é “os óculos”. Mas, e se me perguntarem quantos óculos eu tenho, o que devo responder? Devo contar cada lente como um óculo separado? Ou devo computar os óculos aos pares? Se tenho dois pares de óculos, devo responder que tenho dois óculos ou quatro? (A expressão “usar um par de óculos” é tão pouco prática na comunicação cotidiana quanto “vestir um par de calças” e “pedir duas xícaras de café”: o comum é usar um óculos, vestir uma calça e pedir dois cafés.)

Esse rigor em relação à concordância de número é bem menor na língua inglesa, em que substantivos como means, news, politics e physics, por exemplo, têm forma plural mas concordam no singular (the news is not good), ao passo que people e police, dentre outros, têm forma singular e concordam no plural (two people, many people, the police were called). Os gramáticos de língua inglesa não veem muito problema nisso, tanto que até recomendam a concordância de um substantivo singular com um verbo no plural quando o sentido desse substantivo é coletivo, como no caso de police, que significa indiferentemente “a polícia” ou “os policiais”. Temos ainda casos como o de fish, que pode ser singular ou plural (one fish, two fish, etc.), sem que os gramáticos exijam a flexão fishes. Trata-se das idiossincrasias de cada idioma — e dos gramáticos de cada idioma.

Trem tem a ver com treino?

Olá. Percebi que em inglês a palavra para “treinar” (train) é a mesma do substantivo “trem”. Como o português importou essas palavras do inglês, gostaria de saber se elas tem alguma coisa em comum ou se é mera coincidência. Obrigado. Manuel Garcia Testa

Caro Manuel, você acertou: “trem” e “treinar” têm uma origem comum. Mas os caminhos pelos quais essas duas palavras se encontraram em português são tortuosos. Para entender como tudo começou, temos que retroceder ao antigo francês traisner (forma atual  traîner), “arrastar”, oriundo do latim vulgar *traxinare, forma frequentativa de trahere, que também deu o italiano trascinare, com o mesmo significado. Esse verbo produziu o derivado entraîner, “acarretar”, e o substantivo regressivo train, “comboio, arrasto, fila”.

Train passou para o inglês medieval como trayne (atualmente grafado train, como em francês), com os sentidos de “cauda de vestido”, “séquito”, “comboio militar”, “fila”, etc. E quando, no século XIX, graças ao trabalho conjunto de britânicos como Trevithick, Blenkinsop, Stephenson e Watt, foi inventada a máquina a vapor que arrastava consigo um grande número de vagões, a palavra train foi usada para designar esse novo meio de transporte.

Do inglês, a palavra passou a várias línguas, como o português brasileiro trem (em Portugal, o trem se chama comboio), o espanhol tren e o italiano treno, além de acrescentar à palavra já existente em francês o novo significado. Aliás, em francês, train desenvolveu o diminutivo traîneau, que deu o nosso “trenó”.

Foi também em inglês que o verbo to train, originalmente “arrastar”, passou, na linguagem esportiva, ao sentido de “adestrar”, que nos chegou com o empréstimo “treinar”. E deste saíram, por derivação, “treino” e “treinamento”, ambos decalques do inglês training. Em francês, treinar é entraîner, que resultou no espanhol entrenar.

Portanto, “trem” e “treino” têm de fato uma origem comum, embora étimos diferentes.

Vou encher tua boca de porrada

No último fim de semana, nosso desbocado presidente, perguntado por um repórter sobre os depósitos na conta da primeira-dama que totalizaram 89 mil reais, respondeu com um “minha vontade é encher tua boca de porrada”. Não vou entrar aqui na questão já muito debatida do total despreparo e destempero de Bolsonaro ao lidar com a imprensa livre e sua notória postura antirrepublicana e antidemocrática de não prestar contas de seus atos ou dos de seus familiares e amigos.

O que quero comentar é o termo usado por ele para ameaçar o jornalista: porrada. Essa palavra, assim como porrete e porretada, deriva de porra, termo de origem espanhola que primitivamente designa uma clava constituída de um pau curto com cabeça de metal e que hoje é mais conhecida por seu uso chulo com o significado de “esperma, sêmen”.

Em português, porra aparece pela primeira vez em 1136 significando exatamente “porrete”. Segundo o dicionário etimológico Corominas da língua castelhana, deve ter provindo do latim porrum ou porrus, literalmente “alho-porro” (no Brasil também chamado de alho-poró), por analogia entre o bastão de cabo grosso e a hortaliça de talo longo e bulbo largo em uma das extremidades. Tanto assim que, no próprio latim, porrum ou porrus, além do vegetal, também denominava uma espécie de palmatória usada para castigar crianças e escravos.

Portanto, porrada é originalmente o golpe dado com a porra, isto é, o porrete, e que hoje é mais comumente desferido com o punho cerrado (o golpe com o instrumento é normalmente referido como porretada).

Mas, e o sentido de “esperma”, de onde teria vindo? Minha tese é de que houve aí uma metonímia do tipo continente pelo conteúdo. O vocábulo porra teria sido empregado inicialmente para nomear metafórica e eufemisticamente o órgão sexual masculino, dada a semelhança física entre ambos. Daí surge por derivação parassintética o verbo esporrar, formado do prefixo es- (do latim ex-), que quer dizer “para fora” e do radical de porra. Significando, portanto, pôr para fora do pênis. E é aí que entra a metonímia: esporrar passa a ser entendido como “expelir porra”, ou seja, o termo deixa de denominar o órgão sexual e passa a nomear seu conteúdo, o sêmen.

De esporrar sai o derivado regressivo esporro, com o sentido primeiro de “barulho, escândalo, gritaria de quem está zangado” e, a seguir, o de “bronca que se dá a alguém de forma gritada”. Ou seja, ao dizer que ia encher a boca do repórter de porrada, o presidente acabou limitando-se a dar-lhe um esporro.