Deformação ou deformidade?

Carmen Lúcia Gradelli pergunta: “Outro dia, li num anúncio que determinado produto era garantido contra deformidades. O correto não seria ‘deformações’? Obrigado.”

A pergunta da leitora procede. Vários radicais permitem tanto derivações nominais quanto verbais. Por exemplo, observação (ato de observar) e observância (qualidade de quem é observante, isto é, obediente). Como, além de olhar, espreitar, etc., observar também significa “obedecer”, em certo momento observação e observância se confundiram.

É esse o mesmo caso de deformação e deformidade. Rigorosamente, deformação é o ato de deformar e deformidade é o estado ou qualidade daquilo que é ou está deformado. Portanto, deformação é o processo e deformidade, o produto ou resultado. Não obstante, é comum ouvir dizer que fulano tem uma séria deformação de caráter quando, na verdade, o seu caráter não está sofrendo um processo de deformação, ele já é deformado (talvez desde o berço), logo seria mais adequado dizer que ele tem uma deformidade de caráter.

No caso do anúncio, a opção por uma forma ou outra não é tão indiferente assim, pois, se o produto é garantido contra deformações, o que se deduz é que, se ele se deformar com o uso, o consumidor terá seu dinheiro de volta (ou talvez o produto seja tão bom que jamais se deforme). Já, se for garantido contra deformidades, fica subentendido que, ao abrirmos a embalagem, se o produto estiver deformado, portanto com defeito de fabricação, o fabricante assume a responsabilidade pela troca ou reembolso.

Na primeira hipótese, o produto estava bom e se deformou com o tempo, portanto ocorreu deformação; na segunda, já veio de fábrica deformado, logo há deformidade. No caso em questão, só é possível saber exatamente contra qual das duas situações o anunciante oferece garantia se soubermos de que tipo de produto se trata, o que nossa amiga Carmen não nos informou.

Sobre livros acadêmicos

Quando fazia meu doutorado, nos anos 1990, precisei usar como corpus amostral da minha pesquisa textos acadêmicos de diversas áreas, tanto das ciências naturais quanto das humanas. E, para tornar a amostra mais abrangente e fidedigna, decidi utilizar tanto artigos quanto livros. Para minha surpresa, descobri que, nas ciências naturais, não se publicam mais livros científicos desde a Segunda Guerra Mundial. A tendência desde então é publicar papers em periódicos especializados, de preferência os chamados “top A”, isto é, os de maior prestígio e impacto no meio científico, como as revistas Science e Nature.

Enquanto isso, só nas humanas se manteve o hábito de publicar livros acadêmicos, em geral ensaios filosóficos em que um tema é esmiuçado em tal profundidade que ultrapassa os parcos limites de um artigo (de 15 a 20 páginas, no máximo). Ou então coletâneas de artigos, em que um organizador reúne as contribuições de vários colegas acerca de um tema.

O que se nota é que os atuais papers das ciências exatas e biológicas versam sobre descobertas pontuais, como a identificação de um novo vírus ou a apresentação de uma nova técnica, coisas que podem ser ditas em até 20 páginas. Já uma nova teoria sobre a vida ou o universo costuma resultar em livros de popularização, redigidos em estilo jornalístico e disponíveis ao público em geral em qualquer livraria. O mesmo vale para coletâneas de artigos de divulgação científica.

Em resumo, o livro propriamente acadêmico, dirigido à comunidade universitária, acabou restrito às ciências humanas e às humanidades (não confundir umas com as outras, pois humanidades não são ciências). Mas por que nessas áreas ainda se publicam livros em vez de seguir a tendência da comunicação direta, sucinta e objetiva dos papers? Em primeiro lugar, porque o discurso das humanidades, por sua própria natureza, não é direto, sucinto e objetivo. Discorrer profundamente sobre uma questão é algo que dificilmente se faz em poucas páginas. Além disso, em áreas como o Direito, por exemplo, a prolixidade e a eloquência fazem parte da própria lógica discursiva. Ou pelo menos do estilo do métier.

Outra razão para a existência de livros em humanas é que boa parte deles são coletâneas de comunicações apresentadas em congressos. Mas para isso já não existem os anais dos eventos? Por que então publicar novamente em livro? Em alguns casos, o livro acaba substituindo os anais. Ou melhor, os anais acabam publicados em forma de livro. Em outros casos, publicam-se os anais e o livro. E como a publicação de livro conta mais pontos nas avaliações institucionais das universidades do que a de artigo, essa estratégia acaba “engordando” os currículos dos autores.

Decerto há livros científicos em todas as áreas, e não só os lançados antes da Segunda Guerra, mas nas ciências naturais o mais comum são os tratados, que têm um caráter mais didático do que propriamente de pesquisa. Tanto que os tratados de anatomia são mais consumidos por estudantes de medicina do que por pesquisadores. A razão é simples: um tratado traz o que já se sabe sobre o assunto, aquilo que se ensina em sala de aula. Já uma obra de pesquisa apresenta o novo, o recém-descoberto. Como muitos trabalhos em ciências humanas ainda têm um forte viés filosófico, o esquema introdução-fundamentação-material-método-conclusões, típico das ciências experimentais, não cabe bem nessas ciências, frequentemente muito mais teóricas do que práticas (nesse ponto, a linguística, área em que atuo, é uma honrosa exceção).

Quanto à publicação de obras de difusão em ciências humanas, esbarra-se em dois empecilhos. Primeiro, o viés filosófico e o estilo retórico de que falei acima tornam esses livros pouco atraentes ao público leigo. Em segundo lugar, a curiosidade popular sempre recaiu sobre questões mais “existenciais”, como a origem da vida ou do universo do que sobre temas sociais, políticos ou econômicos, tidos como “chatos” pela maioria dos cidadãos comuns.

Entretanto, o livro de divulgação da linguística que acabei de lançar, chamado O Universo da Linguagem, disponível em https://www.editoracontexto.com.br/produto/o-universo-da-linguagem-sobre-a-lingua-e-as-linguas/4890530, está tendo ótima aceitação, o que significa, modéstia à parte, que nem todo livro de popularização das ciências humanas precisa ser chato.

Favelário nacional

Hoje, Dia Nacional da Favela, vou falar um pouco sobre essa palavra tão desprestigiada hoje em dia.

As nações tendem a exportar palavras correspondentes àquilo que seu povo faz de melhor. Não é á toa que grande parte do vocabulário referente à moda, à culinária e às artes em geral venha do francês, assim como os termos ligados à música se originem do italiano. Pela mesma razão, a maioria dos termos técnicos e científicos são ingleses. Há muitas línguas (a maioria, na verdade) que não exportam palavra alguma, demonstrando talvez a pouca criatividade de seus falantes, pelo menos em termos de ciência ou cultura, isto é, daquilo que mais influencia os outros povos.

O brasileiro, por exemplo, é um povo muito criativo, tanto nas artes – música popular, telenovela, Carnaval – quanto na malandragem (parece que a inventividade dos nossos patrícios em bolar golpes para subtrair o dinheiro alheio ou lesar os cofres públicos não tem limites), mas essa criatividade não resulta em vocábulos que interessem aos falantes de outros idiomas. Acaba que as palavras brasileiras com penetração no exterior se referem quase sempre à originalidade da nossa natureza, como nomes de frutas e animais (caju e piranha, dentre outros, conquistaram o mundo).

Também a nossa (triste) realidade social desperta a curiosidade dos estrangeiros, tanto que há concorridas excursões turísticas às favelas cariocas. Por falar em favela, eis aí uma palavra genuinamente brasileira que chegou aos quatro cantos do planeta. Outras línguas – especialmente as de países com distribuição de renda tão vergonhosa quanto a nossa – têm termos equivalentes para favela. O maravilhoso poema Favelário Nacional, de Carlos Drummond de Andrade, enumera alguns: bidonville, taudis, slum, witch-town, sanky-town, callampas, cogumelos, corraldas, hongos, barrio paracaidista, bairro de lata, gourbville, champa, court, villa miseria… Mas como o Brasil tem as favelas mais famosas do mundo, protótipo da pobreza, cenário de filmes desde a década de 1950 e de videoclipes desde Michael Jackson, berço do samba (e dos bailes funk), sede do tráfico e de facções criminosas, point de visitação de autoridades como o ex-presidente americano Barack Obama e o papa, é natural que os idiomas que não têm termo próprio – e mesmo muitos dos que têm – adotem favela para referir-se a esse aglomerado humano pouco ou nada urbanizado, embora urbano, que não chega a ser bairro embora seja maior do que muitas cidades (muitas são cidades dentro da cidade, com leis e administração próprias), tampouco é aldeia ou tribo, embora haja mais selvageria dentro delas do que na selva. Embora, mesmo derivada de fava, seja lugar de fome. Embora, mesmo assemelhada a favo, seja bem menos organizada que uma colmeia e bem mais caótica que um formigueiro.

É uma pena que a onda do politicamente correto esteja matando essa palavra tão inerente à nossa cultura. Afinal, hoje em dia ficou feio chamar as coisas pelo próprio nome – como se mudar a denominação mudasse a realidade –, e assim a favela virou comunidade, termo anódino que passa a impressão de mero estilo de vida, como se quem lá mora o fizesse por opção. Vale lembrar que um condomínio de alto luxo também é uma comunidade, embora seus moradores jamais empreguem tal termo para falar de si próprios, tal a carga pejorativa que essa palavra assumiu nos últimos anos, prova cabal de que não adianta maquiar o léxico. Enquanto isso, favela, palavra que, se não surgiu no Brasil, aqui ganhou seu pleno e doloroso sentido, segue viva em outras línguas ao mesmo tempo que vai morrendo entre nós. Vitória da hipocrisia sobre a criatividade.

O dia dos que se finaram

Amanhã é Dia de Finados, e, ao que parece, o nome dessa data em que celebramos a memória de nossos entes queridos que já se foram é um dos poucos exemplos de uso em português atual do substantivo finado, que, como todos sabem, quer dizer “falecido”. Pesquisas por essa palavra no Google demonstram que a ocorrência de finado em contextos outros que não a expressão Dia de Finados (ou simplesmente Finados) é pouco frequente. Antigamente era comum dizer-se “meu finado marido”, “minha finada avó”, mas parece que esse uso está em franca decadência: hoje é muito mais comum dizer “meu falecido marido”, “minha falecida avó”.

Finado é o particípio do igualmente raro verbo finar, derivado de fim. Mais comuns são os verbos acabar, terminar, concluir e mesmo findar, este derivado do adjetivo findo, herdado do latim finitus.

Mas a palavra latina finis, que quer dizer “fim”, produziu derivados na própria língua de Cícero e César. Por exemplo, o verbo finire, “acabar”, que existe até hoje em italiano, bem como seu cognato francês finir e o português de origem espanhola fenecer, “morrer”.

Em francês, tínhamos na Idade Média o verbo finer com o significado de “pagar, quitar uma dívida” (literalmente, “pôr fim a uma dívida”), cujo derivado finances, “pagamentos”, originou o nosso finanças. Desse verbo francês também proveio o inglês to fine, “multar” (o sentido original era “pagar uma multa”).

Ou seja, finados são aqueles que se finaram, isto é, morreram, chegaram ao fim da vida. Trata-se de uma maneira sutil de referir-se à morte. Em algumas regiões do Brasil, esse feriado de 2 de novembro também é chamado de Dia dos Mortos, denominação mais direta e menos cerimoniosa. Tenho a impressão – mas não dados empíricos sobre isso – de que os termos falecido e falecer são em geral usados como eufemismos para abrandar a carga semântica negativa das palavras morto e morrer.

Melhor ainda faz o inglês, que chama à data All Souls’ Day, “Dia de Todas as Almas”, certamente por influência da efeméride celebrada exatamente hoje, 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, ou All Saints’ Day.

Bom feriado!

Imortal, imatável, imorrível

O grego tem dois adjetivos, ambrósios e athanásios, para designar o que chamamos em português de “imortal”. Mas há uma diferença entre eles que nós não fazemos. Ambrósios significa literalmente algo como “imorrível” (ou “imorredouro”, como manda o bom português); já athanásios quer dizer “imatável”. Estranho? Pois, se para nós tanto faz, os gregos distinguiam duas situações que não são, a rigor, idênticas. Nós, seres humanos, somos, digamos assim, morríveis e matáveis, pois podemos morrer tanto de “morte morrida” quanto de “morte matada”. Mas há seres – pelo menos em tese – que podem morrer espontaneamente mas não ser mortos, enquanto outros só morrem quando assassinados, nunca de morte natural. Exemplos? Um vampiro é uma criatura condenada à vida eterna, exceto se alguém lhe cravar uma estaca ao coração ou fuzilá-lo com balas de prata. Ou seja, o vampiro é matável, mas não morrível. Já o vírus da gripe morre espontaneamente após concluir o ciclo de infecção do organismo, mas até agora a medicina não desenvolveu nenhum medicamento capaz de fulminá-lo. Por isso, quando se está gripado, é usual tratar os sintomas e esperar pacientemente o ciclo infeccioso chegar ao fim por si próprio. Dito de outro modo, esse vírus é morrível mas não matável – pelo menos por enquanto.

A origem da palavra “feriado”

Eis que chegou mais um feriado. Mas por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. Feriado deriva de féria, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações segunda-feira, terça-feira, etc., em que feira, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra férias seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de féria, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra féria, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra feira vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, feira passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras teologia e ateu, dentre outras.

Portanto, feira, féria, férias, feriado, festa, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, como o dia de Nossa Senhora Aparecida, comemorado hoje, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, partiu comemorar o feriado, mas com moderação na comida e bebida, para que a festa não se transforme num dia nefasto.

Lançamento do meu novo livro

Pessoal,

Acaba de ser lançado o meu novo livro “O UNIVERSO DA LINGUAGEM – Sobre a Língua e as Línguas”. A sinopse é a seguinte:

“A linguagem tem uma importância crucial em nossas vidas e há uma imensa curiosidade sobre muitas questões ligadas à língua. Por que falamos? Como e quando a linguagem surgiu? Por que as línguas evoluem? Como nascem as palavras? Como a mente processa a linguagem? Como as línguas funcionam? Qual a relação entre a língua que falamos e o modo como vemos o mundo? A língua está mesmo se degenerando? Os outros idiomas são uma ameaça ao nosso? Este livro reúne diversos ensaios que tratam do português e das línguas em geral, bem como de questões, como essas, ligadas à linguagem humana e suas relações com a mente, a sociedade, a cultura e a civilização.”

E o anúncio de divulgação é este:

“Sem a linguagem não seríamos os humanos que somos. Assim, entrar nesse complexo universo é fascinante. Este livro trata tanto de questões mais gerais, como “Por que falamos?”, “Como nascem as palavras?”, até das mais específicas, como “Nossa língua é machista porque usamos o masculino quando nos referimos a um conjunto de pessoas de ambos os sexos?”, “Só existe a palavra ‘saudade’ em português mesmo? E isso quer dizer que os falantes de outras línguas não lidam com esse sentimento?”. Obra fascinante para percorrer a beleza e a poesia contidas na linguagem.

Olivro O universo da linguagem parte dos conhecimentos construídos pela linguística para apresentar, de modo acessível, diversas questões sobre o português, as línguas em geral e a linguagem. Escrita por Aldo Bizzocchi, a obra nos guia por esses questionamentos tão distintos e, uma vez mais, nos maravilha com as possibilidades e surpresas dessa faculdade tão essencial ao ser humano: a linguagem! Garanta o seu!!”

O livro já está à venda nas principais livrarias e também no site da Editora Contexto: https://www.editoracontexto.com.br/produto/o-universo-da-linguagem-sobre-a-lingua-e-as-linguas/4890530.

Se puderem, divulguem aos amigos. Obrigado!

Homossexualismo ou homossexualidade?

O caso da piada homofóbica feita pelo disseminador de fake news bolsonarista Otávio Fakhoury contra o senador Fabiano Contarato e a elegantíssima resposta dada por este ao negacionista Fakhoury na sessão da CPI da pandemia repercutiu durante toda a semana. Emocionado, indignado, mas altivo, o senador falou em nome de todos aqueles que são diariamente desrespeitados neste país por sua orientação sexual, cor da pele, gênero, idade, condição física, origem étnica ou geográfica, e assim por diante.

É claro que eu jamais faria uma brincadeira tão sem graça e tão desrespeitosa, mas se a tivesse feito, naquele momento na CPI, diante das câmeras e de milhões de telespectadores brasileiros, teria cavado um buraco no chão e me enterrado nele. Para resumir numa palavra a atitude do militante bolsonarista, eu diria que, além de insultuosa, foi uma tremenda babaquice, coisa de moleque e não de homem feito. Ainda mais vindo de alguém que detém certa cultura, muitos recursos materiais e que exalta a família o tempo todo, mas só um tipo de família – a dele.

Mas o caso suscitou novamente uma controvérsia linguística. Qual a forma politicamente mais correta: homossexualismo ou homossexualidade? Esse debate não é novo, e muitos dizem que cabe aos membros da própria comunidade LGBTQIA+ decidir como devemos nos referir a eles. Não vou entrar nessa polêmica, que envolve lugar de fala e outras questões atinentes à linguagem inclusiva. Vou apenas expressar minha opinião com base no meu conhecimento de língua.

Critica-se a forma homossexualismo alegando que o sufixo ‑ismo remete à ideia de doença ou patologia. Teríamos então nanismo, autismo, sedentarismo, etc., ao passo que o sufixo ‑dade de homossexualidade seria mais neutro, denotando condição – uns chamam até de opção (o que não é o caso, já que ninguém escolhe ser homossexual) ou orientação.

Entretanto, há inúmeras contraprovas desse argumento. Em primeiro lugar, o sufixo -ismo aparece em capitalismo, marxismo, classicismo, romantismo, automobilismo, alpinismo, cristianismo, budismo, e muitos outros.

Em segundo lugar, o sufixo ‑dade ocorre no nome de várias patologias: ansiedade, obesidade, hiperatividade.

Portanto, penso que não há nada de negativo em homossexualismo e nada de neutro ou positivo em homossexualidade. Ainda que os portadores dessa condição tenham sua preferência vocabular – e eles estão no seu direito –, não vejo sentido em repreender alguém por usar outro termo que tem exatamente o mesmo significado. Ou seja, sufixos não são bandeiras ideológicas, são meras ferramentas da língua para expressar conceitos. Há muitos indivíduos homofóbicos usando a palavra homossexualidade, assim como há muitos simpatizantes da causa LGBTQIA+ empregando homossexualismo, tudo por uma questão de hábito, sem qualquer outra conotação.

E em tempo: parabéns ao senador Contarato por sua coragem e postura cívica e a todos aqueles que, como ele, se sentiram ofendidos por um babaca.

A morte das palavras

Palavras são como as pessoas: nascem, vivem e morrem. Umas de morte morrida, tão velhas ficaram como as coisas que designavam. Quem hoje penteia suas madeixas ou anda de tílburi? Quem hoje compra rapé ou usa pince-nez?

Outras morrem de morte matada: são substituídas por palavras mais modernas, mais “antenadas” com nosso tempo. Quem hoje chamaria o goleiro de quíper ou o médio-volante de centeralfo? Quem chamaria “locutor” de speaker? Quem ainda datilografa o próprio nome ou disca um número no telefone? Evidentemente, as palavras são o espelho da realidade e mudam com o mesmo dinamismo com que muda a realidade. Logo, não é de causar pesar a morte de certas palavras, embora outras, de tão belo uso em tempos passados na boca ou na pena de nossos grandes escritores, tenham sido sentenciadas de morte em tribunal de legitimidade duvidosa, como favela, aleijão, prenhez

Mas o espantoso é que até palavras gramaticais, aquelas que não espelham a realidade, apenas fazem a língua funcionar, também morram – por vezes, assassinadas pelos próprios falantes. É o caso de cujo, pronome relativo possessivo, muito útil no passado, mas que, talvez por obrigar a uma inversão sintática da oração, começou a causar embaraço aos usuários menos destros do vernáculo. Especialmente quando está em jogo outra pedra no sapato dos falantes egressos de nosso ensino público: a concordância. E assim até falantes supostamente cultos (pelo menos, portadores de diploma universitário) fazem certos malabarismos verbais para evitar o emprego de um cujo que, mal colocado, é uma verdadeira casca de banana à espera do transeunte incauto. E dá-lhe “a pessoa que o nome dela eu não lembro agora” ou “o sujeito que o filho é médico”. Às vezes, ocorre o oposto: querendo parecer letrado, o gaiato sapeca um cujo o qual: “troquei a lâmpada cuja a qual estava queimada”.

Por razões que desconheço, onde, antigo advérbio de lugar, assumiu o posto do falecido cujo em frases como “o candidato onde as propostas são melhores” e coisas do tipo. Talvez a origem desse uso tenha um dia sido de fato locativa: “a cidade cujos habitantes têm a maior renda” passou a alternar com “a cidade onde os habitantes têm a maior renda”. Só que daí a onde virar palavra passe-par-tout foi um pulo.

E tampouco, quem ainda usa? Algum trocadilhista poderia objetar que essa palavra hoje se usa tão pouco… Mas o fato é que renunciamos a um vocábulo legitimamente pertencente a nosso sistema gramatical, já que é antônimo de também, para em seu lugar empregarmos o insípido e menos econômico também não: “Eu não fui à festa, e João também não”. Claro que construções mais literárias como “Mas não estou triste, tampouco alegre, não estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, não vou gritar, não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo” (Martha Medeiros) ficariam empobrecidas se tascássemos um também não no lugar de tampouco: “Mas não estou triste, também não alegre…”.

Vejam que não estou falando de palavras rebuscadas, índice de erudição pedante, como obséquio ou contradança; estou falando de palavras que têm equivalentes em outras línguas perfeitamente vivos e vigorosos: qualquer um que aprenda inglês ou espanhol terá de saber usar whose, either, neither, cuyo, asimismo, tampoco.

A realidade é que certas palavras e expressões como outrossim, sobremaneira, deveras, com efeito, debalde, dar azo se perderam nas brumas do passado, e outras não nasceram para substituí-las. Ou seja, o idioma apenas se empobreceu de recursos expressivos, na mesma medida talvez em que se encheu de termos técnicos. Para um amante das palavras, para um cultor do estilo, para um admirador da língua, esse passamento dos vocábulos pode ser melancólico e suscitar nostalgia de um tempo quiçá mais poético. Mas, como disse Drummond na crônica Antigamente, “tudo isso era antigamente, isto é, outrora”.

Por que flexionamos em gênero os numerais um e dois?

Boa noite, me chamo Rodrigo.

Acompanho seu blog (Diário de um Linguista), já há certo tempo.

Tenho uma dúvida que sempre quis saber a resposta, já perguntei a outro professor e ele não soube responder. Dado o seu óbvio conhecimento, acredito que o senhor poderia me ajudar.

Eu sempre quis saber a razão de alguns números variarem de acordo com o gênero e outros não. Entendo que o “um” varie pois além de número é artigo, mas por que há “dois” e “duas” mas não há “três” e “tresa”? Por que é correto falar que tenho duzentAs laranjas, mas não que tenho duzentas e quatrA laranjas?

Caro Rodrigo, a explicação de por que o português flexiona em gênero os numerais um, dois, duzentos, trezentos e demais centenas está no latim. Como você sabe, o português descende do latim, e nessa língua havia três gêneros: masculino, feminino e neutro. Consequentemente, o latim flexionava nesses três gêneros os numerais de um a três e mais as centenas a partir de duzentos. Tínhamos então: unus, una, unum; duo, duae, duo; tres, tres, tria; ducenti, ducentae, ducenta; trecenti, trecentae, trecenta, e assim por diante. Observe que em espanhol, francês e italiano, línguas-irmãs do português, somente o um admite flexão no feminino, os demais numerais são invariáveis. Lembro também que o numeral um não é flexionável porque também é artigo indefinido; na verdade, ocorreu o oposto: o artigo indefinido derivou do numeral, até porque em latim não havia artigos.

Mas por que os numerais acima de três não se flexionavam em latim? Para responder a essa pergunta, temos de retroceder ainda mais no tempo, até cerca de 4 mil anos a.C., quando se falava a língua-mãe do latim, o indo-europeu. Nessa língua, somente os numerais de um a três eram flexionáveis. Isso leva os linguistas históricos, como eu, a pensar que o indo-europeu descendia de uma outra língua, nomeada pelos especialistas de nostrático, que só tinha numerais de um a três, o que, aliás, é a situação verificada na maioria das línguas do mundo.

De fato, línguas ágrafas, como são os idiomas de tribos primitivas, só contam até dois ou no máximo três porque culturas simples como as tribais não têm muito o que contar. Essas línguas são chamadas de one-two-many, ou “um-dois-muitos” porque quantidades acima de dois são genericamente tratadas como “muito”.

Em resumo, o nostrático, que teria dado origem ao indo-europeu, deve ter sido falado por volta de 8 mil anos a.C. por uma população de caçadores-coletores nômades, portanto uma sociedade tribal extremamente simples.

A título de curiosidade, a origem remota do numeral latino tres é a mesma da preposição trans, que quer dizem “além” (como em transnacional, por exemplo). Ou seja, tres designava originalmente tudo o que está além de dois, algo como um, dois e o resto.