Galícia ou Galiza?

A maioria das pessoas que conheço, inclusive as altamente escolarizadas, pronuncia o nome de certos topônimos do modo tradicional e não na forma como publicações mais recentes costumam trazê-los. E vejam que não estou falando necessariamente de gente velha, de hábitos linguísticos mais arraigados. Muitos jovens também agem assim. Para essas pessoas, não existe Mumbay, o que há é a boa e velha Bombaim, cidade de tantos contos fabulosos que remetem à nossa infância. Igualmente, não sabem o que é Beijing (podem achar que se trata de um beijinho), ou sabem, mas, ao falar, dizem invariavelmente Pequim. Alguns ainda chamam Taiwan de Formosa, mas estes, sem dúvida, denunciam uma idade mais avançada.

Algumas inovações nesse campo definitivamente não “pegaram”, isto é, não conquistaram a adesão da maioria. Quantas pessoas chamam a Malásia de Maláisia, como consta em vários atlas? Quantos chamam a Moldávia de Moldova, ou a Bielorrússia de Belarus? Ou ainda Camarões de Camerum?

Vale a pena lembrar que boa parte desses topônimos é criação portuguesa, dos tempos em que nossos irmãos lusos navegavam e comerciavam pelas costas da África e Ásia. “Formosa” e “Camarões” são designações legitimamente portuguesas, enquanto “Taiwan” é chinês e “Camerum” vem do holandês.

Mudar hábitos linguísticos não é fácil, ainda mais que falar é algo que fazemos por inércia: uma vez que aprendemos, resistimos a ter de reaprender. Exemplo disso é o costume de chamar nosso dinheiro (que já foi mil-réis, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro real, URV e real) de conto. É difícil e incômodo ter de se adaptar a cada nova unidade monetária que surge quando a inflação corrói a anterior. Por isso, a lembrança do saudoso conto de réis ainda sobrevive entre nós.

É por essa razão que a região autônoma espanhola da Galiza se chama correntemente Galícia entre nós. Na verdade, há um certo movimento no meio acadêmico (e também no político) para adotarmos a forma “Galiza”. O argumento é o de que “Galícia” é forma espanhola e de que os próprios galegos denominam “Galiza” ao seu país. Além disso, deveríamos preferir tal grafia para evitar confusão com uma região da Europa central, ao norte dos Cárpatos, também chamada Galícia.

Esses argumentos apresentam algumas fragilidades. Em primeiro lugar, o nome latino da província que hoje constitui a região em questão era Gallaecia ou Gallicia, e o mais correto gramaticalmente é denominar países europeus pela forma aportuguesada de sua denominação latina e não pela forma corrente na língua nativa desses países. Se não, chamaríamos a França de France e a Áustria de Österreich. Portanto, a denominação “Galícia” é legítima e constitui importação do próprio topônimo latino.

No entanto, no galaico-português o nome latino Gallicia resultou em “Galiça”, seguindo as leis normais da evolução fonética. Por muito tempo, os próprios galegos assim escreveram – e alguns ainda escrevem – o nome de sua região. Em época mais recente, o idioma galego, cujo uso era proibido pelo regime franquista (1936-1975), foi reconhecido como uma das línguas oficiais da Espanha e, desde que recuperou o direito a ser veiculado publicamente, adota dois sistemas ortográficos: um, de inspiração lusitana, e outro, de influência castelhana. Nesse segundo sistema, todo ç é grafado como z, tal como ocorre em espanhol (por exemplo, danzar, alianza, cazador, etc.). Isso se deve ao fato de, em espanhol, c e z terem a mesma pronúncia. Por isso, alguns galegos se chamam Lourenço e outros, Lourenzo. O fato é que “Galiza” é a forma galega do nome da Galícia, e sua pronúncia em galego é “Galiça”. Portanto, as melhores denominações dessa região em português seriam o latinizado “Galícia” (que erroneamente tem sido apontado como espanholismo) e o desusado “Galiça”.

Quanto à confusão com a região da Europa central de mesmo nome, o que se há de fazer se há duas Galícias? O mesmo ocorre em relação à província grega da Macedônia e à república eslava da Macedônia, outrora integrante da ex-Iugoslávia, assim como em italiano o nome Monaco designa tanto o principado de Mônaco quanto a cidade de Munique. (Para fazer a distinção, os italianos se referem a Monaco di Francia e Monaco di Germania.) Em inglês, Romania significa tanto “România” quanto “Romênia”. Se quisermos evitar mais essa coincidência, então seria melhor adotarmos “Galiça” em lugar de “Galícia”, mas nunca “Galiza”.

Qual é o correto: “pra” ou “prá”?

Caro Aldo, boa tarde.
Vejo em muitos lugares a preposição “pra” escrita como “prá”. Afinal qual é o correto, “pra” ou “prá”? Obrigado.
Kléber Araújo dos Santos

Caro Kléber, a rigor, nenhuma das duas grafias está correta, pelo menos em termos do português padrão. Acontece que “pra” é forma coloquial da preposição “para”, logo só deveria ser usada em textos escritos que procurem reproduzir a fala informal, como é o caso da transcrição de diálogos em obras de ficção.

No entanto, muitas propagandas (talvez a maioria delas) utilizam correntemente “pra” em lugar de “para” com o objetivo de assumir um tom mais intimista, menos sisudo, e assim criar um vínculo maior com o público-alvo. Coisas do marketing.

Mas a questão é: já que essa forma popular da preposição aparece cada vez mais em textos escritos, seja via literatura ou via publicidade, deve haver uma grafia recomendada para ela, certo? Nesse ponto, a maioria dos dicionários se cala, já que formas populares como “tó”, “ói”, “tô”, “tá”, “peraí”, etc., não costumam ser dicionarizadas. Em contrapartida, o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) elenca “pra” (sem acento). Só que temos um complicador: a preposição “para” é frequentemente seguida de artigos (“para o”, “para a”, “para os”, “para as”), no que é seguida por sua forma alternativa “pra” (“pra o”, “pra a”, “pra os”, “pra as”). Essa pronúncia, comum no Nordeste, evoluiu no Centro-Sul do país para as formas contraídas “pro”, “pros”, etc. Se “pra” + “o” = “pro”, então “pra” + “a” deveria ser algo diferente do próprio “pra”, ou seja, deveria valer nesse caso a mesma regra da crase (“a” + “o” = “ao”, “a” + “a” = “à”).

Segundo esse raciocínio, a contração de “pra” com “a” ou “as” deveria ser grafada “prà”, “pràs”. Como essa grafia não existe, é possível que alguém (provavelmente em Portugal, onde a distinção de timbre entre “a” e “à” é bastante forte) tenha adotado a grafia “prá” a fim de indicar a contração de “pra” com “a”.

Só que, como estamos no âmbito da informalidade, a ausência de uma norma ortográfica que reja expressões coloquiais faz com que as pessoas grafem essas palavras a seu bel-prazer, sem nenhum critério morfológico ou etimológico. Conclusão: “pra” e “prá” andam juntos e misturados. Pelo sim e pelo não, prefira a grafia “pra”, que ao menos está registrada no VOLP. Além disso, se você não é escritor nem publicitário, certamente ninguém o censurará por escrever errado, num bilhete ou e-mail informal, uma palavra que não está nos dicionários.

A etimologia da vela

Vela em latim é candela. Que deu em português “candeia”, “candelabro”, “candelária”, e é da mesma raiz de “cândido”, “incandescente”, “candidato” e “incêndio”. Então porque chamamos vela de vela? Na verdade, esse vocábulo é um derivado regressivo do verbo “velar”, que por sua vez veio do latim vigilare, “vigiar”, isto é, ficar acordado (a vigília é o oposto do sono).

A razão do nome “vela” é que esse objeto de cera ou parafina que serve para iluminar era usado nos velórios (“velório” é justamente um coletivo de velas), nos quais se velava — isto é, se vigiava — o morto. É que o verbo “vigiar” significa não apenas estar desperto, mas também montar guarda, já que quem está encarregado de vigiar alguma coisa não pode dormir.

Mas por que vigiar um defunto? A explicação é que algumas pessoas sofrem de catalepsia, distúrbio que leva a um estado de morte aparente, da qual o indivíduo “ressuscita” após algumas horas. Assim, os antigos criaram o hábito de vigiar o corpo durante 24 horas. Findo esse prazo, o finado não voltando à vida, podia o cadáver ser enterrado sem susto. (Na prática, sabe-se que muitos já foram enterrados vivos pois só acordaram depois de vencidas as 24 horas.)

Mas o fato é que as pessoas varavam a noite em claro segurando velas, já que não havia luz elétrica, vigiando o falecido. Daí que o objeto usado para velar ganhou o nome de “vela”, isto é, “vigia”. E a reunião de pessoas vigilantes em torno do caixão passou a se chamar velório.

Uma curiosidade: no interior de Minas Gerais, velório se chama “sentinela”, termo de origem militar que traduz a mesma ideia de vigilância.

O que é melhor: “codinome” ou “nome-código”?

Prezado prof. Aldo, meus parabéns por seus artigos primorosos e esclarecedores! Sempre aprendo coisas novas com você, continue assim! Mas a razão do meu contato é uma dúvida: de uns tempos para cá vem se tornando cada vez mais frequente o emprego da palavra “codinome”. O próprio presidente Bolsonaro usou codinomes para fazer os primeiros exames de covid-19. Não sou tão velho assim, mas lembro que mais antigamente se dizia “nome-código”. Gostaria de saber de onde veio essa palavra. É correto usá-la? Ou é mais um desses americanismos idiotas? Desde já obrigado e mais uma vez parabéns. Marcelo Henrique Avelino

Caro Marcelo, a palavra “codinome” é de introdução relativamente recente e é um decalque do inglês code name, literalmente “nome em código”, ou “nome-código”, como você mencionou. A rigor, esta última forma é a mais condizente com a morfologia do português, mas, como acontece o tempo todo, as formas mais aderentes ao vernáculo não são necessariamente as que ganham a preferência popular. Talvez por ser mais sintético (ou por ser mais próximo da matriz inglesa), “codinome” acabou, de fato, suplantando “nome-código”.

O que os falantes do português fizeram foi converter name em “nome” e, em lugar de substituir pura e simplesmente code por “código”, adotaram a forma truncada (“codi-”) dessa palavra – aquilo que chamamos tecnicamente de fractomorfema. Com isso, o que era uma locução nominal em inglês tornou-se um substantivo composto em português.

Assim como você, muitas pessoas podem não gostar dessa palavra, resultado de uma composição truncada, e considerá-la realmente um barbarismo. No entanto, é preciso lembrar que composições mediante truncação de um dos elementos não são incomuns em nosso idioma. Basta ver a palavra “fidalgo” que já foi “filho de algo”. Quanto à inegável influência da língua inglesa sobre a nossa, podemos gostar ou não, mas não há como negá-la. Se “codinome” é um anglicismo disfarçado, o fato é que o português – e a maioria das línguas hoje em dia – está repleto desses anglicismos, para muitos dos quais não temos equivalente vernáculo.

Em resumo, você pode empregar indiferentemente “codinome” ou “nome-código”, pois ambos estão de acordo com o padrão linguístico – tudo é uma questão de estilo. Essa é uma das dádivas da língua: podermos escolher nossa forma de expressão e com isso firmar nossas posições e afirmar nossa identidade.

Você sabe com quem está falando?

O patético episódio da “carteirada” que o desembargador Eduardo Almeida Rocha Prado de Siqueira deu no guarda municipal santista Cícero Hilário Roza Neto, que, no último fim de semana, o multou por estar em público sem máscara, é mais um exemplo de que, em nosso país, todos os cidadãos são iguais perante a lei, mas alguns se acham mais iguais do que os outros. Aliás, se neste país engenheiro civil é mais do que cidadão, o que dizer de desembargador?

O fato é que, muito mais do que um país racista, somos um país classista, isto é, uma nação dividida em classes sociais que não se misturam, tais como as castas da Índia. Nesse sentido, mais do que um racismo estrutural, temos um classismo estrutural. Os negros pobres são apenas a casta mais baixa, os párias dessa sociedade.

Mas o que me chama a atenção é que, não raro, a carteirada parte daqueles que por oficio deveriam ser os primeiros a respeitar e fazer cumprir as leis, ou seja, detentores de altos cargos de Estado, especialmente magistrados.

De fato, membros do Poder Judiciário, do Ministério Público, policiais e advogados costumam estar entre os que mais estufam o peito ao retirar do bolso a carteira e mais empinam o próprio nariz ao esfregá-la no nariz do outro, em geral um também servidor público, mas de mais baixo escalão.

A pergunta que me faço é: como é que pessoas tão egocêntricas e tão mentalmente infantis, tão desprovidas de educação e de empatia, são admitidas no serviço público, ainda mais na função de juiz, que deve promover a justiça?

Parece que os concursos públicos para magistrado cobram muito saber jurídico e nenhuma postura moral. O referido desembargador Eduardo de Siqueira, em uma de suas carteiradas, desandou a falar francês com o fiscal que o multava, dizendo que é professor de Direito em universidade francesa, como se o convite para lecionar fora do país o isentasse de ter de cumprir a lei. Aliás, que direito esse senhor leciona na França? O direito dos mais bem galardoados de humilhar os de menor quinhão? Com que critérios esse douto senhor julga e sentencia os processos que lhe são submetidos? Pode promover a justiça um Estado que admite esse tipo de pessoa como guardião da lei?

No país do “você sabe com quem está falando?”, ou se é desembargador, engenheiro civil, empresário, rico e poderoso ou não se é nada, nem cidadão.

Detalhe: tanto o guarda Cícero quanto o fiscal ultrajado pelo engenheiro civil e sua esposa no Rio de Janeiro são pós-graduados. No caso do Rio, a formação acadêmica do fiscal é, por sinal, muito superior à do engenheiro. Só que as pessoas que têm realmente a carteira mais pesada não precisam dar carteirada em ninguém.

Uma “pouca” de água?

Uma leitora que não se identifica – por razões que vocês logo compreenderão – me consulta sobre uma dúvida que lhe surgiu no trabalho. É que seu chefe “corrigiu” um texto em que ela havia empregado “um pouco de”, alegando que o correto é “uma pouca de”. Assim, ela me pergunta qual é a forma correta: “Eu bebo um pouco de água” ou “Eu bebo uma pouca de água”? Aqui vai a minha resposta.

Como você deve saber, sou linguista, não gramático. E para a linguística, não existe certo ou errado, existem fatos observáveis e analisáveis cientificamente. A linguística estuda as línguas como a biologia estuda animais e plantas. Um biólogo não legisla sobre a natureza, portanto nunca diz que uma bactéria está certa ou errada. Legislar sobre a língua é tarefa dos gramáticos.

Mas, já que você perguntou, vou dizer o que penso a respeito, com base no bom senso que deve ter um estudioso da linguagem: a única forma corrente em português brasileiro do século XXI é “um pouco de”. “Uma pouca de” é um arcaísmo que foi corrente nos meios eruditos até meados do século XIX, sobretudo em Portugal, tendo caído em desuso tanto lá quanto aqui após esse período. Usado atualmente, soaria pedante e mesmo sem sentido (quem é que entende essa expressão hoje em dia?). Portanto, se você ouvir alguém dizer “uma pouca”, pode ter certeza de que se trata de uma fala dialetal fossilizada pela falta de contato com a língua padrão. (Talvez nos recônditos mais distantes do Brasil ou de Portugal algum velhinho iletrado ainda use essa expressão.) Empregar “uma pouca de” num texto profissional, como um ofício ou relatório, produziria “ruído” na comunicação, isto é, ou não seria compreendido ou – pior ainda – causaria tal estranheza que desviaria a atenção do leitor do conteúdo da mensagem para a própria expressão. Se isso é bom na literatura, na comunicação corporativa é péssimo. Usar uma expressão como essa, por mais elegante que possa parecer ao seu chefe, pode colocá-lo em situação de ridículo e depor contra a sua imagem profissional. Em todo caso, por mais amiga que você seja da verdade e do bom senso, às vezes é melhor ser amiga do seu chefe, não é?

“Teachers” e “professors” – ou: como tratamos os professores no Brasil

A língua portuguesa, assim como as demais neolatinas, utiliza a palavra “professor” para designar qualquer pessoa que ensina algo; temos, assim, não só os professores propriamente ditos, do ensino formal, mas professores de piano, de dança, de artes marciais, de musculação, de direção (o atual Código de Trânsito Brasileiro substituiu “professor” por “instrutor de direção”), e assim por diante.

Na via oposta, alguns cursos de línguas têm instrutores de inglês ou de espanhol, ou mesmo facilitadores, palavra que acho de uma tremenda hipocrisia, como se o professor apenas auxiliasse, mas o mérito do aprendizado fosse exclusivamente do aluno, ou melhor, do “facilitando”. Talvez essa mudança de nomenclatura seja para justificar salários mais baixos, já que um instrutor ou facilitador não precisa ter a bagagem cultural de um professor.

O ensino a distância criou também a figura do tutor, um tirador de dúvidas sobre aulas pré-gravadas ministradas por outro professor. Aliás, muitos desses tutores sequer têm formação na área em que “lecionam”, se é que tirar dúvidas é lecionar.

Há ainda o tratamento por “mestre”, à primeira vista respeitoso, mas que, na boca de certos estudantes, soa a escárnio. Além disso, existe na pós-graduação a titulação de mestre, uma abaixo da de doutor, o que só aumenta a confusão, já que licenciados, bacharéis, mestres e doutores são todos chamados indistintamente de mestres.

Mas é curioso que as línguas germânicas fazem distinção entre o professor de ensino básico, e mesmo o instrutor, e o professor universitário. Em inglês, temos teacher (professor em geral) e professor (professor universitário, que também é pesquisador).

O professor teacher é aquele que ensina ano após ano as mesmas coisas – oração subordinada, equação de segundo grau, tabela periódica, divisão celular, clima semiárido, Império Romano, descobrimento do Brasil… Ou seja, basicamente o programa estabelecido pelo governo. Já o professor muitas vezes cria suas próprias disciplinas, especialmente na pós-graduação, e estas não raro têm a ver com a própria pesquisa acadêmica desse docente.

Fazendo uma analogia com a música popular, o teacher é o intérprete, que canta composições alheias, e cujo repertório é sempre o mesmo, o que muda de um ano para outro é a interpretação, ao passo que o professor é o “cantautor”, isto é, o compositor que interpreta suas próprias composições, além das de outros compositores, e cujas canções são interpretadas por muitos outros cantores.

No Brasil, como não há essa distinção linguística, professors são tratados e vistos socialmente como se fossem teachers. Há até mesmo estudantes universitários que tratam jocosamente seus mestres por teacher, acostumados que estão a tratar dessa maneira os professores de inglês do ensino básico. Trata-se de um fato linguístico que, involuntariamente, reflete a situação do ensino superior no Brasil, sobretudo o privado, que, além de profundamente vulgarizado pela oferta comercial, também é tratado, tanto pelos estudantes quanto pelos mantenedores, como um “grande ensino médio”.

É claro que muitos ainda percebem a diferença entre o docente de uma grande universidade que dá entrevistas no rádio e na televisão e publica livros que se tornam best-sellers e o professor que leciona em escolas públicas da periferia, humilhado pelo salário aviltante e diariamente ameaçado pela violência da comunidade, inclusive dentro da sala de aula. Enquanto o professor tem Currículo Lattes, pós-doutorado em Harvard e é forte candidato a ministro, o teacher é espezinhado pelos alunos e, absurdo dos absurdos, pelos pais dos alunos. Por isso, quando alguém no Brasil diz que é professor, provoca um misto de emoções, que vão da admiração pela coragem em ter tal profissão no Brasil atual até a pena, a comiseração, quando não o desprezo mesmo (se é professor, é porque não teve competência para ser médico, engenheiro… Ou seja, quem sabe faz, quem não sabe ensina, não é mesmo?).

De tanto ser confundido com teachers e receber condolências pelo meu ofício, passei a me identificar como linguista e professor universitário – já que não temos a palavra inglesa professor. Aí a conversa muda de figura, e a fisionomia de meu interlocutor se transmuda de pesar em admiração e respeito: “Puxa, o senhor deve ter estudado bastante, né?”. Aliás, ele deixa imediatamente de me tratar por você e passa a me chamar de senhor.

Ou seja, no Brasil não temos uma distinção linguística entre teacher e professor, mas temos uma tremenda distinção social entre ambos. Enquanto isso, nos países anglo-saxônicos há a distinção linguística, mas o nível de respeito é o mesmo. Aliás, nos Estados Unidos, por exemplo, um professor de ensino básico quase nunca é chamado de teacher pelos alunos; o que prevalece é o respeitoso tratamento “Mr.” ou “Mrs.” seguido do sobrenome. (Sim, fora do Brasil, não se diz “Seu Zé” ou “Dona Maria” e sim “Sr. ou Sr.ª Pereira”) Ou seja, chamar professor de inglês de teacher é coisa de brasileiro – e o pior é que o professor de inglês as mais das vezes não corrige esse hábito nos alunos. Talvez justamente para não ser chamado de “Mr. Pereira”.

O plural de “caráter”

Prof. Aldo, tenho uma dúvida que me acompanha há anos: a palavra “caráter” admite plural? Se sim, qual seria? Obrigado.
Ivan A. Castro

Essa pergunta me faz lembrar de uma ocasião em que, em seu programa de TV, Faustão se referiu a um certo artista como “um dos melhores caráteres do meio artístico”. Após dizer isso, o próprio apresentador olhou para a câmera com expressão de perplexidade, como se dissesse: “será que essa palavra existe?”.

Pois é, respondendo à pergunta do nosso leitor Ivan, se tomarmos por base a gramática normativa, o plural de caráter é caracteres. E o adjetivo bom-caráter (por exemplo, “ele é um sujeito muito bom-caráter”) não admitiria um superlativo melhor-caráter (“ele é o sujeito melhor-caráter que eu conheço”). Então quer dizer que Faustão errou duas vezes? Do ponto de vista normativo, sim. Mas como deveria ele dizer então? “Fulano é um dos profissionais mais bom-caráter do meio artístico”? Não me parece uma solução muito melhor.

O primeiro problema é a palavra caráter ter como plural caracteres. Além da óbvia irregularidade na flexão, caracteres já é plural de caractere, que significa “letra, sinal tipográfico”. Portanto, como saber se estamos falando sobre personalidade ou tipografia quando temos de usar o plural? O segundo problema é que bom-caráter é adjetivo composto. Então como passá-lo para o grau comparativo ou superlativo: mais bom-caráter? Será que mais bom não soa pior, pelo menos para os padrões brasileiros, do que melhor-caráter? (Em Portugal, mais bom é de uso corrente até na linguagem culta.)

O fato é que Faustão, na sua simplicidade, e até simploriedade, usou a língua com o bom-senso dos falantes ingênuos (isto é, não especialistas). O xis da questão é que, embora não seja sua intenção, a gramática normativa é cheia de “pegadinhas”. E essa é uma delas.

Os cães e a comunicação

O que cachorros passeando têm a ver com a comunicação humana? Pois estava eu, certo dia, bem antes da pandemia, passeando na rua com os meus dois “filhos” de quatro patas quando me dei conta de que, guardadas as devidas proporções, cães e homens têm muito em comum, inclusive em seus interesses sociais. Durante um passeio, os cães basicamente farejam tudo à sua volta em busca de indícios da passagem de outros cães pelo mesmo local. Aliás, cachorros deixam seu rastro de xixi nos postes e troncos das árvores para marcar território, ou seja, para que outros animais saibam que eles passaram por ali. Quando um cão encontra outro na rua (e eles não se estranham logo de cara), é normal que um cheire a glândula anal e os órgãos sexuais do outro. Esse comportamento permite saber algo da vida do novo conhecido: se é macho ou fêmea, se é castrado, que tipo de alimento come, se é amistoso…

Ora, nós humanos nos comunicamos fundamentalmente pelo mesmo motivo – para saber da vida alheia. Algumas teorias sobre a origem da linguagem especulam, por sinal, que a aptidão linguística do homem teria se desenvolvido graças a uma prática cada vez mais comum no tempo das cavernas: a fofoca. Isso mesmo, a fofoca! Falar do outro – bem ou, principalmente, mal – sempre foi o nosso esporte preferido.

Pois a comunicação, especialmente a de massas, existe para nos informar da vida alheia – e não estou falando só das revistas e programas de mexericos sobre celebridades. Se pensarmos bem, tudo o que lemos, ouvimos ou vemos nos meios de comunicação nos conta o que os outros estão fazendo. Seja as notícias dos jornais, as entrevistas da TV e até mesmo as obras de ficção (porque nossa curiosidade sobre a vida alheia é tanta que mesmo a vida de personagens inventados nos interessa e prende nossa atenção), tudo nos mostra, voyeuristicamente, o que se passa com o outro. Parece que temos a crença de que a vida alheia é sempre mais excitante do que a nossa. Até quando descobrimos que a vida privada dos artistas também tem momentos de tédio, isso nos conforta e alivia o nosso próprio tédio.

Além disso, assim como os cães deixam suas marcas urinárias para que os demais saibam de sua existência, nós humanos temos uma necessidade muito grande de ser conhecidos. Aquela artista famosa que se queixa de não poder ir à praia em paz, tão assediada que é pelos paparazzi, está simplesmente blefando: ela fica realmente preocupada quando, por mais de duas semanas, não sai nenhuma nota sobre a sua pessoa na imprensa. Algumas celebridades até convocam os indiscretos fotógrafos para flagrá-las em situações íntimas – mesmo que depois ameacem processá-los por invasão de privacidade, ameaça aliás nunca levada adiante.

O fato é que precisamos desesperadamente saber da vida alheia, assim como precisamos que os outros saibam da nossa. Talvez até esta crônica seja, no fundo, uma forma de eu me mostrar. É, nós e os cachorros temos mesmo muito em comum…