A (suposta) conspiração chinesa

Muitos anos atrás, meu pai me contava uma história que hoje parece fazer todo o sentido. Ele dizia que, no século XIX, a China era dominada pelo imperialismo europeu, especialmente britânico, e que os ingleses obrigavam o império chinês a comprar suas mercadorias, especialmente o ópio produzido na Índia, então colônia britânica. Mais do que isso, os ingleses forçavam o povo chinês a viciar-se em ópio, o que garantia o consumo e, consequentemente, a demanda pelo produto. Houve até duas Guerras do Ópio naquele século. Além de render lucro à Inglaterra, o ópio mantinha o povo chinês entorpecido e, por conseguinte, incapacitado de revoltar-se contra o domínio britânico.

Até que, no princípio do século passado, a China finalmente se libertou do jugo econômico europeu, e um de seus líderes, Sun Yatsen (ou Chiang Kaishek, ou Mao Tsetung, ou Xu Enlai, não me lembro) teria dito: “Um dia, nos vingaremos do Ocidente”.

O fato é que hoje correm paralelamente duas teorias sobre a pandemia de Covid-19 que assola o mundo. Uma, a de que o vírus surgiu espontaneamente de uma mutação ocorrida graças aos péssimos hábitos alimentares dos chineses (diz uma piada que a única coisa de quatro pés que chinês não come é mesa). De fato, o epicentro da contaminação parece ter sido um mercado de Wuhan onde se comercia todo tipo de animais silvestres, tanto vivos quanto mortos.

A outra teoria é a de que o vírus teria escapado – por acidente ou intencionalmente – de um laboratório de bioengenharia da mesma cidade, por sinal, próximo ao mercado.

Como sempre, logo surgiu uma “teoria da conspiração”, cujo enredo é o de que o governo chinês teria desenvolvido o vírus (e obviamente a sua cura) e o espalhado entre seu próprio povo a fim de que ele se disseminasse rapidamente pelo mundo e forçasse a paralisação da economia mundial, gerando uma crise econômica sem precedentes. Em tempos de fake news, este sim o vírus mais danoso da atualidade, passou a circular na internet um texto falsamente atribuído ao jornalista Alexandre Garcia, que transcrevo a seguir:

“1. Crie um vírus e o antídoto.

2. Dissemine o vírus.

3. Dê uma demonstração de eficiência, construindo hospitais em poucos dias. Afinal
você já estava preparado, com os projetos, a encomenda dos equipamentos, a
contratação da mão-de-obra, a rede de água e esgoto, os materiais de construção pré-
fabricados e estocados em um volume impressionante.

4. Provoque o caos no mundo, começando pela Europa.

5. Engesse rapidamente a economia de dezenas de países.

6. Interrompa as linhas de produção das fábricas de outros países.

7. Provoque a queda das bolsas e compre empresas a preço de banana.

8. Controle rapidamente a epidemia no seu país. Afinal você já estava preparado.

9. Abaixe o preço das commodities, inclusive o preço do petróleo que você compra em
larga escala.

10. Volte a produzir rapidamente, enquanto o mundo está parado. Compre o que você
negociou barato na crise e venda mais caro o que está em falta nos países que
paralisaram as suas indústrias.

Afinal, você leu mais Confúcio do que Karl Marx.

PS: Antes de rir, leia o livro dos coronéis chineses Qiao Liang e Wang Xiangsui, de
1999, “Unrestricted Warfare: China’s master plan to destroy America”, na Amazon,
depois a gente conversa. Está tudo lá.”

Essa teoria da conspiração ganhou ainda alguns outros condimentos, como a fala do líder chinês Xi Jinping de que “chegou a hora de a China liderar o mundo” (só que essa frase é de 2017) e blogs e vídeos falando sobre uma suposta Nova Ordem Mundial, em que a economia do planeta será capitalista mas monopolista, e os donos do monopólio serão os estados socialistas. Portanto, preparem-se porque em breve Cuba e a Venezuela dominarão o mundo!

Brincadeiras à parte, antevejo um futuro sombrio se o mundo for liderado por uma ditadura comunista como a China, mas não acredito que seja tão fácil assim derrubar os Estados Unidos e a Europa, mesmo com suas contradições internas. Também acho pouco provável que a maioria dos países do mundo, mesmo os periféricos, adote o socialismo como modelo político e econômico.

Não há dúvida de que o coronavírus pode representar uma oportunidade para a China ao mesmo tempo em que é uma ameaça às economias ocidentais, especialmente às mais frágeis, como a nossa. E, a meu ver, a China deve mais do que desculpas ao mundo, deve uma indenização pelos prejuízos causados; afinal, intencionalmente ou não, a pandemia é duplamente produto chinês, seja porque o vírus surgiu na China, seja porque o governo chinês, com sua habitual falta de transparência, tentou num primeiro momento ocultar a crise, chegando a perseguir – e, segundo a teoria conspiratória corrente, a matar – o médico que dera o alarme em primeiro lugar. A pergunta é: quem vai cobrar a China? Quem vai pendurar o guiso no pescoço do gato?

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Em tempo: o que foi aquele pronunciamento de Sua Excelência o Presidente da República na noite de ontem?!!

A palavra do ano em 2020

O ano mal começou, mas já podemos eleger a palavra do ano, aquela que terá sido a mais falada e escrita em 2020: coronavírus. Em segundo lugar, e perdendo por uma cabeça de distância, vem a sua sinônima Covid-19. Nas posições seguintes, teremos pandemia, quarentena, isolamento e contágio. Pelo menos, esse é o meu prognóstico.

Outra palavra que aposto será muito usada em 2020 é recessão, pois, passada a crise sanitária, certamente perdurará – e talvez se intensifique – a crise econômica global.

E já que estamos todos em quarentena e distanciamento social, um pouco de cultura inútil não faz mal a ninguém. Que o coronavírus tem esse nome pela sua semelhança física a uma coroa acho que todo mundo já sabe. Da mesma forma, os rotavírus assim se chamam porque se assemelham a uma roda. Mas de onde vem a palavra vírus? Assim como corona e rota, vem do latim, mais precisamente de vīrus, ī, substantivo neutro que, segundo o dicionário latino-português de Francisco Torrinha, significa “1. Suco das plantas. 2. Humor, esperma, veneno, peçonha (dos animais). 3. Veneno, peçonha (em geral). 4. Amargor; mau cheiro, fedor.”. Em fins do século XIX, o microbiologista holandês Martinus Beijerinck escolheu justamente esse nome para designar um agente infeccioso recém-descoberto distinto das já conhecidas bactérias.

E por que Covid-19? Trata-se de um acrônimo do termo inglês Coronavirus Disease acrescido da referência a 2019, ano em que foram registrados na China os primeiros casos da doença. Epidemias anteriores como a Sars e a Mers também têm seus nomes formados a partir de siglas do inglês: Sars é Serious Acute Respiratory Syndrome (síndrome respiratória aguda grave), e Mers é Middle East Respiratory Syndrome (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Já a palavra quarentena vem da língua veneziana dos séculos XIV e XV e significa “quarenta dias”, período em que todos os navios deveriam ser isolados antes que passageiros e tripulantes pudessem desembarcar durante a epidemia da Peste Negra. Quarentena seguiu o trentino, período de isolamento de trinta dias, imposto pela primeira vez em 1377 em Ragusa, cidade dominada por Veneza.

Epidemia, do grego ἐπί (epí), “sobre” e δῆμος (dêmos), “povo”, refere-se à rápida disseminação de uma doença sobre uma população. Quando essa doença atinge um grande número de populações ou mesmo a humanidade inteira, temos a pandemia, do grego παν (pan), “todo(s)”.

Finalmente, isolamento deriva de isolar, do italiano isolare, “ilhar”, derivado de isola, “ilha”. Ou seja, isolar é manter sem contato do mesmo modo como uma ilha está isolada do continente pelas águas do mar. Mas, nestes tempos de isolamento social a que somos forçados a nos submeter, convém lembrar a máxima do poeta renascentista inglês John Donne de que “nenhum homem é uma ilha”. Ou seja, mesmo distantes fisicamente, precisamos estar juntos nessa batalha, cultivar a empatia e a solidariedade, pois ninguém é capaz de sobreviver sem a ajuda dos demais.

Boa quarentena a todos!

A língua portuguesa ela está mudando

The times they are a-changing
Bob Dylan

Você já deve ter notado – se é que você próprio não faz isso – que hoje em dia está cada vez mais comum as pessoas dobrarem o sujeito da oração. Se antigamente se dizia (e os muito cultos ainda dizem) “Pedro foi à farmácia”, hoje o normal é “O Pedro ele foi na farmácia”. Pois é, “o Pedro ele”. Essa construção está generalizada nas conversas do dia a dia e nas comunicações de massa (rádio, TV, internet). Se você duvida, assista a um pouco de televisão e procure observar como as pessoas falam – inclusive repórteres e apresentadores.

Muitos linguistas tratam esse cacoete verbal como um caso de topicalização do sujeito, tese da qual eu discordo, conforme vou expor adiante. Mas antes vamos explicar que diabos é essa tal de topicalização.

Há duas maneiras de construir uma oração. A primeira é usando a estrutura sujeito-predicado, que todos conhecem (espero). A outra é com a estrutura tópico-comentário. O tópico é um substantivo sem função sintática, colocado de forma isolada no início da frase, ao qual se segue uma frase completa (o comentário) falando sobre ele. Algo do tipo “O Pedro, a irmã dele vai casar”. Há até mesmo frases com tópico e subtópico, como “A Maria, o carro dela, o pneu furou”.

Nas construções do tipo tópico-comentário, o tópico, por ser elemento isolado e sem função sintática, vem separado por vírgula (ou por pausa, no discurso oral). Mas o que está acontecendo atualmente em português brasileiro é outra coisa, diferente da topicalização. Tanto que o sujeito não vem separado por vírgula ou pausa, mas ligado diretamente ao pronome pessoal que lhe serve de eco. Percebe-se isso claramente na fala rápida. No exemplo que dei, “O Pedro ele foi na farmácia”, não há nada separando “Pedro” de “ele”.

O que está ocorrendo, na verdade, é um outro fenômeno, chamado tecnicamente de deslocamento à esquerda. O que vem a ser isso? É a tendência que nós brasileiros temos de explicitar os elementos gramaticais que ficam no início da frase (portanto, à esquerda de quem lê) e ocultar os que estão mais ao fim, isto é, à direita.

Na frase “Os menino foi tudo na roça”, note que a única marca de plural está no primeiro elemento da esquerda, o artigo “os”. As demais marcas de plural foram simplesmente apagadas. Essa é a tendência oposta à dos nossos irmãos portugueses, que omitem à esquerda e explicitam à direita. A uma pergunta como “Você viu o João”, um português responderia “Não o vi”, ao passo que um brasileiro responde “Eu não vi”. Ou seja, os lusitanos apagam o pronome reto “eu” enquanto nós apagamos o pronome oblíquo “o”.

Nesse sentido, o reforço do sujeito com o pronome pessoal seria um desdobramento dessa tendência de explicitar o sujeito sempre. Tanto que isso ocorre também em orações subordinadas adjetivas, em que o sujeito é o pronome relativo “que”. Temos então casos como “O João é um cara que ele não leva desaforo pra casa”, “Eu sou uma pessoa que eu ponho a amizade acima de tudo”, e assim por diante. Perceba que, neste último caso, o sujeito não precisa estar na terceira pessoa, pois o sujeito “eu” da oração principal é reforçado pela própria repetição do “eu” na oração subordinada mesmo embora esta já tenha um sujeito, no caso o pronome relativo “que”.

Casos como esse não podem ser considerados de topicalização porque simplesmente não há tópico e comentário, há apenas duplicidade do sujeito. A linguista Charlotte Galves chama a isso de “pronome lembrete”. E cita outros exemplos:

  • Os linguistas, eles estão sempre mudando de teoria.
  • Tenho um amigo que ele vai todos os dias ao cinema.
  • A moça que eu vim com ela já foi embora.
  • O rapaz que o irmão dele dançava no circo acabou mal.

Ao que parece, o português brasileiro vai pouco a pouco adquirindo a mesma estrutura sintática do veneziano, língua minoritária falada na região do Vêneto, Itália, e que já foi um idioma muito importante na Idade Média. Em veneziano, ou vêneto, como também é chamado, a repetição do sujeito por meio da colocação de nome e pronome lado a lado é perfeitamente gramatical e obrigatória no padrão culto da língua. Mas não deixa de ser algo linguisticamente pouco econômico.

Cultura afra?

Durante o tempo em que estive ausente se acumularam consultas à seção “Pergunte ao Linguista”. Uma delas é do leitor Jorge Rubens Abdalla, de São Paulo, que pergunta:

Prezado Aldo, tenho ouvido e lido em muitos lugares as expressões “cultura afro”, “línguas afro”, etc. Se afro é um adjetivo terminado em “o” (como negro, africano, etc.), por que não faz concordância de gênero e número com o substantivo que vem junto dele? Obrigado e parabéns pela coluna, sempre muito elucidativa.

Caro Jorge, o elemento “afro”, que encontramos em muitas expressões hoje em dia (cabelo afro, música afro, cultura afro, danças afro, etc.) é na verdade uma redução por economia linguística de palavras compostas como “afro-brasileiro”, “afro-americano”, etc. (portanto, cabelo afro-brasileiro, música afro-brasileira, danças afro-brasileiras, população afro-americana, e assim por diante). Nesse caso, “afro” não era em princípio uma palavra, mas um elemento de composição, ou prefixoide (como bio-, geo-, foto-, fono-, anglo-, franco-, etc.), que, com o tempo, se tornou um adjetivo autônomo. Mesmo assim, por estar subentendido que se trata da redução de um adjetivo mais longo, permanece invariável (o mesmo raciocínio se aplica ao substantivo “foto” por “fotografia”, por exemplo).

Mas você tocou num ponto interessante: “afro” provém do adjetivo latino “afer” (masc.)/“afra” (fem.)/“afrum” (neutro), que quer dizer “africano”, referindo-se especialmente aos povos nômades do norte da África, os chamados “cafres” (os romanos quase não tinham contato com os povos da África subsaariana). Aliás, tudo leva a crer que “afer” tenha relação etimológica com o patronímico “kaffir (cafre). Em resumo, no latim essa palavra tinha flexão de gênero, número e caso. Por sinal, “África” era o território habitado pelos “afri” (plural de “afer”).

O mais curioso é que existe em português o adjetivo “afro”, cujo feminino é “afra” e o plural é “afros/afras”, com o significado de “africano”. Esse adjetivo, há muito registrado nos dicionários, já estava presente em nosso idioma bem antes de o prefixoide destacado de “afro-brasileiro” ganhar autonomia lexical.

O que isso significa? Que expressões como “cultura afra”, “danças afras”, etc., embora soem estranhas e sejam desusadas na atualidade, estão tecnicamente corretas. A diferença é que “cultura afro” pressupõe “cultura afro-brasileira”, isto é, aquela de origem africana mas aclimatada no Brasil, ao passo que “cultura afra” seria a cultura africana pura, tal como se encontra na África. Só que nesses casos, para evitar mal-entendidos, é preferível dizer “cultura africana” mesmo.

Abaixo o Congresso ou os congressistas?

A polêmica suscitada na última semana pelo presidente Jair Bolsonaro ao repassar um vídeo que supostamente conclama seus seguidores a marchar, no dia 15 de março próximo, em apoio a ele e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal gira em torno de duas questões: 1) pode (ou deve) um Presidente convocar passeata a favor de si mesmo e contra os outros dois poderes da República? 2) a manifestação agendada para 15 de março é realmente contra os Poderes Legislativo e Judiciário?

A resposta à primeira questão eu deixo aos especialistas em Direito constitucional; já a segunda me parece que leva a uma falsa controvérsia e contém uma sutileza linguística que vale a pena comentar.

De fato, os vídeos, cartazes e posts convocando para a passeata usam os termos “contra o Congresso e o STF”. Mas será que os organizadores do evento querem realmente fazer um movimento golpista de fechamento do Congresso e da Suprema Corte? Parece-me que não. O que ocorre é que, muitas vezes, usamos a metonímia continente pelo conteúdo sem nos darmos conta e, assim, nos referimos ao Congresso e ao Supremo quando, na verdade, queremos nos referir aos congressistas e aos ministros do STF.

Afinal, o que deixa a nós brasileiros p… da vida são políticos corruptos e fisiológicos e juízes tendenciosos e venais. Acredito que a maioria dos apoiadores da manifestação não quer realmente o fechamento do Congresso e do Supremo e sua substituição por um ditador travestido de salvador da pátria. Em outras palavras, a maioria do povo brasileiro não quer a volta do regime militar (uma pequena minoria até quer) e sim um parlamento que realmente o represente, que vote a favor daquilo que é para o bem do Brasil sem cobrar nada em troca, sejam cargos, sejam emendas parlamentares. E também quer uma corte suprema que julgue com imparcialidade e bom-senso, que não livre da cadeia dezenas de criminosos do colarinho branco, que não use de filigranas ou casuísmos jurídicos para beneficiar corruptos. Em suma, que não faça interpretações malabarísticas da Constituição Federal para manter o status quo.

Portanto, o que está sendo questionado não são as instituições republicanas, sem as quais não há estado de direito, mas certas pessoas que momentaneamente ocupam cargos nessas instituições e não têm honrado tais cargos.

Creio que daqui a dois domingos teremos nas ruas dois tipos de manifestantes: alguns radicais, que sonham com a reedição do AI-5; e uma maioria de moderados (eu diria racionais), que desejam que as instituições da República continuem funcionando – e harmonicamente, de preferência – em beneficio de nossa democracia a tão duras penas conquistada, mas sem toma-lá-dá-cá, sem chantagens e sem legislação em causa própria. Se conseguirmos isso, já será um grande passo. Só esperemos que o Presidente não estrague tudo.

Feliz Ano Novo! Feliz?!

“Eu voltei, agora pra ficar…”. Pois é, amigos, brincadeiras à parte, andei sumido nos últimos meses. Na verdade, tirei um semestre sabático, seguido de férias e Carnaval, para resolver problemas particulares inadiáveis e também para preparar um superprojeto que vem por aí. (Aguardem, vocês vão se surpreender!)

E como no Brasil o ano só começa após o Carnaval (e o ano legislativo acaba mais cedo quando há eleições, isto é, ano sim, ano não), desejo a todos um feliz Ano Novo, embora eu tenha cá minhas dúvidas se este ano será realmente feliz. Desculpem-me o pessimismo, mas nestes meses em que andei ausente das mídias sociais observei e ponderei muita coisa que me deixou cético a respeito do futuro do Brasil e da humanidade.

Estamos vivendo uma era de extremos: no clima, na política, na economia, nas relações sociais, em tudo impera o extremismo. E tudo isso reforça minha convicção de que a virtude, mais do que nunca, está no centro. Ou, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Virtus in medio, como diriam os romanos.

Se os eventos climáticos deste século estão se mostrando cada vez mais extremos (chuvas torrenciais, calor e frio fora de hora, derretimento das calotas polares, morte de rios e oceanos, espécies sendo extintas, ar irrespirável em certas cidades), também são extremas as posições políticas em relação ao meio ambiente: de um lado, os ecoterroristas, que exigem a suspensão imediata de todas as emissões de carbono na atmosfera como se isso fosse possível a curtíssimo prazo sem causar uma catástrofe econômica e social no planeta de proporções jamais vistas; de outro, os negacionistas, para quem o aquecimento global é uma ficção criada pelos chineses ou pela esquerda anticapitalista.

Na política, tem-se o tempo todo que escolher entre uma extrema esquerda simpática às ditaduras socialistas e uma extrema direita reacionária e com pendores fascistas, saudosa dos Anos de Chumbo. Fomos jogados na pior crise econômica de nossa história por governos de esquerda corruptos, irresponsáveis e incompetentes. Mas o pior legado desses governos foi pavimentar o caminho para a eleição de um presidente da república ultraconservador, voluntarioso, inexperiente e de tendência autoritária.

Nesse cenário, quem pensa com ponderação, defende a liberdade com responsabilidade e acha que o equilíbrio está sempre no meio-termo é tachado por um e outro lado de “isentão”, alguém que não toma posição, que está sempre em cima do muro. Nesses meses todos, cheguei à conclusão de que em cima do muro é o melhor lugar para estar, pois de lá se veem os dois lados, ao passo que quem está de um dos lados do muro só vê seu próprio lado. Hoje, amigos de anos rompem a amizade e famílias se dividem por questões ideológicas. As redes sociais se tornaram antissociais, um mar de impropérios e insultos pessoais acobertados por um suposto anonimato. Hoje, mais do que nunca, os jovens são rebeldes sem causa, culpando a tudo e a todos por seu vazio existencial. Para a geração do mimimi, que meu amigo Eduardo Affonso lucidamente chamou de geração raudério, todos são vítimas, todos querem muitos direitos e nenhum dever, e tudo, absolutamente tudo, é ofensivo ou opressor.

Hoje, as pessoas ditas “normais” – isto é, as que representam a maioria esmagadora da sociedade – têm seu sexo biológico questionado, seus padrões morais e de comportamento estigmatizados e suas escolhas estéticas e de vida repreendidas. Em resumo, hoje ser normal é que é aberrante.

Também vi a pátria língua portuguesa, esse território que me é tão caro e em que há tantos anos milito, sofrer as mais absurdas intervenções, ser acusada de machista e opressora, como se mudar a língua mudasse a realidade.

Nesses tempos de petralhas, feminazis e bolsominions, vi a ascensão do terraplanismo, o triunfo da superstição sobre a ciência, o Carnaval politicamente correto, a China e seu principal produto de exportação, as epidemias. Mas, verdade seja dita, também vi o crescimento de causas que nos dão alguma esperança, como a da defesa dos animais e a do veganismo.

O fato é que, com tantos conflitos sem sentido e ódios exalando por todos os poros, o mundo simplesmente ficou chato. Como dizia meu pai, em mesa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Bom Ano Novo e até a próxima semana.

De Roma ao romance

E hoje vamos responder à dúvida da leitora Maria Helena Morgado Fontes, que pergunta:

 Bom Dia. Gostaria de saber se existe alguma relação entre a palavra “romance” e o nome “Roma”. Obrigado.

Cara Maria Helena, existe sim. Como se sabe, Roma constituiu um grande império da Antiguidade, que dominou a maior parte da Europa e vastas regiões do Oriente Próximo e norte da África. Nem todos esses territórios tinham o latim como língua materna, nem os romanos impuseram pela força o seu idioma. Mas a tendência era que os súditos do Império Romano falassem a língua latina, pelo menos em locais públicos ou como segunda língua.

Dada a extensão territorial do Império e a consequente dificuldade de comunicação entre as províncias, somada aos substratos linguísticos de cada região (isto é, as línguas nativas faladas concomitantemente ao latim), era natural que houvesse alguma dialetação. Por isso, passou-se a chamar de România o conjunto dos povos e territórios que falavam alguma forma de latim.

Depois que as invasões germânicas ocasionaram a queda do Império Romano, em 476 d.C., a diversidade linguística aumentou de tal modo que dialetos se transformaram progressivamente em línguas, às vezes não intercompreensíveis. Por essa época, já se fazia clara distinção entre o latim e os dialetos populares, chamados de românicos. Falava-se latim (latine loqui)  em situações formais e românico (romanice loqui) no dia a dia. É de romanice que provém a palavra romance. Portanto, romance era qualquer dialeto proveniente do latim.

Na Idade Média, vários desses romances tornaram-se o que hoje conhecemos por línguas românicas ou neolatinas, dentre as quais o português. Nessa mesma época, narrativas literárias escritas nessas línguas também eram chamadas de romances. Está aí a origem do romance como gênero literário. É claro que o formato atual do romance é uma criação do século XIX que tem pouco a ver com os romances medievais. Por sinal, a escola literária que o criou foi também a que mais se inspirou na atmosfera medieval: o Romantismo, cujo nome deriva igualmente da palavra romance (romant em francês antigo).

Como os romances daquele século transbordavam de situações amorosas (assim como também os romances medievais, com temas de cavalaria e amor galante), romance passou por metonímia a designar o caso amoroso, o relacionamento afetivo entre um homem e uma mulher. E romantismo deixou de ser apenas um movimento literário para denominar todo um conjunto de atitudes próprias de quem ama.

As enganosas palavras do grego moderno

O grego moderno é bem diferente do antigo, mas muitas palavras continuam as mesmas. Por isso, é comum reconhecermos em manchetes de jornais gregos (isto é, supondo que saibamos transliterar do alfabeto helênico para o nosso, latino) palavras que já conhecemos. O problema é que essas palavras em geral têm significado diferente daquele a que estamos habituados. Por exemplo, Demokratía Hellás, que é o nome oficial do Estado grego, não significa “Democracia Grega”, mas “República Grega”. Em frente ao Parlamento, em Atenas, há uma praça que ficou famosa pelas manifestações contra o pacote de ajuste fiscal imposto pela União Europeia para salvar a Grécia da falência em 2015. É a Praça Sýntagma, ou Praça da Constituição. Só que para nós sintagma é uma figura de gramática. Aliás, a metáfora, outra figura presente em nossas gramáticas, aparece com frequência em caminhões-baú na Grécia. É que metaphorá quer dizer mudança.

Voltando a falar naquela crise financeira grega, quando o FMI e a União Europeia aprovaram o empréstimo bilionário ao governo grego, os partidos políticos tiveram de selar um acordo para a aprovação de duras medidas de austeridade. No dia seguinte, os jornais gregos estamparam a manchete “Acordo!”, que em grego é Symphonía!.

Pausa, pouso e repouso

Hoje vou responder a um e-mail do leitor Jackson Bezerra de Albuquerque, que diz:

Prezado Aldo, admiro muito o seu trabalho e grande conhecimento sobre línguas, mas a razão da minha consulta é uma curiosidade etimológica que você, como especialista no assunto, certamente poderá me esclarecer. É verdade que “pouso” tem a ver com “pausa”? E se tem, qual é a relação? Muito obrigado.

Prezado Jackson, você tem toda a razão: pausa e pouso têm tudo a ver. Em latim, a palavra pausa queria dizer o mesmo que em português: parada, cessação, interrupção de uma atividade. No entanto, se pausa e pausar nos chegaram por via culta, temos o verbo pousar e seu derivado regressivo pouso, da mesma origem, só que desta vez recebidos por herança.

Mas o que há de comum entre pausar e pousar? Se a pausa é a interrupção de uma atividade, então, dizer que uma ave pousou equivale a dizer que ela fez uma pausa, interrompeu o voo. E como as aves precisam pousar para descansar, o pouso é também o momento de descanso, ou de repouso. Nem é preciso dizer que esta última palavra também se originou de pausa, porém trata-se agora de uma pausa mais longa, para repor as energias. Daí o prefixo reforçativo re‑.

Ou seja, a pausa em qualquer atividade pode ser associada a um “repouso”, mesmo que em sentido metafórico. Por isso, dizemos que um equipamento que não está sendo usado está em repouso (ou em stand by, isto é, de prontidão). Ora, o pouso, seja de um pássaro, avião, astronave, etc., é a entrada em estado de repouso, de inatividade, a cessação do voo.

De modo mais geral, toda interrupção é uma pausa. Assim, apertamos a tecla pause dos aparelhos de CD ou DVD para suspender a execução de uma música ou filme, e também fazemos pausas no nosso trabalho, seja a pausa para o almoço, o cafezinho, o descanso semanal ou as férias.

Uma última curiosidade: em francês, o verbo poser, proveniente da mesma fonte latina, significa “pôr, colocar”, isto é, “pousar” (sobre uma mesa, por exemplo). E pose, a atitude de quem fica imóvel durante uma foto ou retrato, não deixa de ser um estado de pausa, de inatividade.

 

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Pessoas que corrigem os erros gramaticais dos outros são chatas. Será?

Uma pesquisa recentemente publicada na revista científica PLOS One revela que pessoas que se sentem incomodadas com os erros gramaticais alheios e, mais ainda, tendem a corrigi-los, têm personalidade menos agradável e mais julgadora – ou seja, são chatas!

O estudo mostrou também que a personalidade pode determinar como ela reage aos erros de gramática dos outros, inclusive àqueles que pululam nas redes sociais.

Julie Boland e Robin Queen, ambas da Universidade de Michigan, fizeram experimentos com 83 participantes para saber como se comportavam diante de e-mails escritos. Algumas dessas mensagens propositalmente continham erros de digitação ou de gramática.

Os participantes deveriam julgar os autores dos e-mails do ponto de vista de sua suposta inteligência – ou falta dela. Além disso, tinham de comentar os erros das mensagens e dizer se causaram incômodo durante a leitura.

Por fim, foram submetidos a um teste de personalidade que mede traços como simpatia, grau de extroversão e até mesmo neuroticidade.

A maioria dos participantes classificou de modo mais negativo os autores de e-mails com erros. E os mais introvertidos foram mais severos em relação a tais erros do que as pessoas mais abertas e extrovertidas.

Em linhas gerais, a pesquisa conclui que as pessoas mais “fechadas” são mais sensíveis a erros, sejam de digitação ou gramaticais, e que as mais rigorosas em relação à gramática são também as mais desagradáveis no trato social.

Bem, se esse estudo estiver correto, eu devo ser um chato de galochas, afinal sou muito rigoroso com erros de escrita em geral, ou porque revelam falta de cuidado e esmero (no caso dos erros de digitação) ou falta de cultura (no caso dos erros gramaticais). Não que eu saia por aí corrigindo meus interlocutores, pois isso seria falta de educação: quem fala ou escreve errado (isto é, fora do padrão culto) o faz certamente porque não teve oportunidade de estudar. Mas o fato é que fui por um bom tempo professor de português, e, como vocês sabem, o hábito do cachimbo deixa a boca torta. Mais do que isso, como amante das letras e das línguas, fico incomodado não tanto pelos erros em si quanto pela quantidade deles. Se o modo como as pessoas escrevem a própria língua é um termômetro da saúde cultural de um povo, posso afirmar sem erro que o Brasil está na UTI.