Mitos e verdades sobre a linguística – e os linguistas

A linguística já tem 200 anos de existência, mas ainda é uma ciência pouco conhecida da maioria das pessoas. De fato, muitas delas acreditam que a única disciplina que se ocupa da língua é a gramática, já que é a única que se estuda no ensino básico.

Consequentemente, nós linguistas somos muitas vezes confundidos com gramáticos ou professores de português. Não raro, quando digo que sou linguista, a pessoa fica imediatamente constrangida e diz: “Puxa, então a partir de agora eu preciso me policiar para não falar errado na sua frente”. Na coluna Pergunte ao Linguista deste blog, a maioria das perguntas que recebo diz respeito à famosa dicotomia certo x errado ou traz dúvidas de gramática normativa. Até aí, tudo bem: se sei a resposta, respondo; se não sei, pesquiso; se está totalmente fora da minha área de atuação profissional, me desculpo, e pronto.

Mas, mesmo aqueles que têm alguma noção do que venha a ser a linguística revelam por vezes certas crenças equivocadas que lhes foram inculcadas ou por professores de português mal (in)formados ou por divulgadores da linguística pouco preparados (e, sim, há muitos divulgadores científicos na área da linguística, mas a maioria são estudantes de graduação ou pós-graduação, portanto profissionais ainda não totalmente formados, com pouca experiência profissional e sobretudo com pouca maturidade).

Decorrência disso é que há muitos mitos cercando a nossa profissão. Por isso, resolvi aqui discutir alguns deles e tentar esclarecer o que há de verdade e o que há de fantasia em cada um.

Primeiro mito: a linguística só estuda a língua falada, especialmente no registro coloquial; a língua escrita formal é território exclusivo da gramática normativa. Na verdade, durante todo o século XIX, em que a pesquisa linguística foi basicamente histórica, os linguistas se debruçaram sobre os únicos registros existentes de estados passados das línguas, e estes eram todos documentos escritos. Foi só no início do século XX, a partir da obra de Ferdinand de Saussure, que a linguística se voltou mais à língua falada, até porque 96% das línguas do mundo não têm expressão escrita (são as chamadas línguas ágrafas). Em outros dois artigos (A importância da escrita na pesquisa linguística e Língua oral ou língua escrita: qual é melhor?), no entanto, já expliquei que a modalidade escrita da língua é objeto legítimo da linguística tanto quanto a língua oral. Isso continua valendo para os estudos históricos, mas também para a análise do modo como as pessoas escrevem hoje em dia. E isso tem implicações no ensino da língua. Aliás, a linguística pode contribuir muito com os gramáticos normativos, ortógrafos e educadores, fornecendo-lhes subsídios científicos para guiar suas tarefas técnicas.

Segundo mito: a linguística é contra a gramática normativa e defende que cada um deve se expressar como quiser, qualquer que seja a situação de discurso. Nada mais falso! É bem verdade que há alguns colegas falsamente progressistas, inclusive professores de prestigiosas universidades públicas, que, influenciados por uma leitura enviesada da sociolinguística, defendem que a inclusão social passa pela legitimação em todas as esferas da sociedade do modo de falar dos menos escolarizados. Mas o que a própria sociolinguística ajudou a demonstrar é que a língua varia não só de uma classe social a outra como também de uma situação de comunicação a outra. Isso significa que há situações, principalmente profissionais, em que é legítimo exigir o uso da norma-padrão, aquela regulamentada pela gramática normativa. O que linguistas verdadeiramente progressistas entendem como inclusão social é o ensino dessa norma-padrão a todos os cidadãos, para que todos tenham acesso a melhores posições sociais e profissionais e, por conseguinte, acedam a uma vida melhor. Tanto não é verdade que a linguística defenda o vale-tudo na língua ou que deseje demolir a norma-padrão que os próprios linguistas pseudoprogressistas se expressam nessa norma nos artigos em que advogam a abolição da dita-cuja. Ou seja, esse combate à norma é posição absolutamente minoritária entre os linguistas e não passa de hipocrisia com viés ideológico e político-partidário.

Terceiro mito: todo linguista é poliglota. Não, não necessariamente. Aliás, a maioria dos linguistas que conheço fala no máximo duas línguas: português e inglês. No entanto, é natural que as pessoas vocacionadas a trabalhar com o objeto língua amem as línguas e se interessem por várias delas. Ou seja, muitos linguistas (inclusive este cronista) são, de fato, poliglotas. Eu particularmente acredito que um linguista poliglota seja melhor profissional do que um monoglota. E explico: quando só falamos a nossa própria língua, ou no máximo mais uma muito próxima da nossa, como é o caso do inglês ou do espanhol, tendemos a não perceber certos fenômenos e certas relações que transcendem o nosso idioma; corremos, além disso, o risco de tomar por gerais fatos que são particulares da língua que falamos/estudamos ou, ao contrário, de considerar como particularidades da nossa língua fatos que são gerais ou, pelo menos, comuns a muitos idiomas.

O que ocorre é que grande parte dos nossos linguistas se formou em Letras com especialização em um único idioma, geralmente o próprio português, e só foi trabalhar efetivamente com a ciência da linguagem na pós-graduação, acabando por dedicar-se ao estudo da língua em que se especializou. Contudo, enquanto no Brasil a maior parte dos linguistas se dedica ao estudo da língua portuguesa, e mais especificamente ao português brasileiro, em países do Primeiro Mundo estuda-se de tudo, desde a própria língua pátria até idiomas muito exóticos e mesmo línguas mortas. O que sabemos sobre a antiga língua egípcia, por exemplo, se deve muito mais a linguistas franceses, britânicos e norte-americanos do que aos próprios egípcios.

Daqui decorre o quarto mito, o de que o linguista deve necessariamente estudar sua própria língua e, mais, o ensino dessa língua. Como disse, se esta é a tendência no Brasil, não é uma regra geral. Aliás, as grandes teorias linguísticas nasceram de pesquisadores que não só estudaram muitas línguas diferentes como também analisaram a linguagem humana de maneira abstrata, como sistema universal ligado aos processos cognitivos da mente. Nesse sentido, fazemos aqui no Brasil, com raras e louváveis exceções, o que chamo de a pequena ciência, enquanto nos países mais desenvolvidos se faz a grande ciência.

Quanto a dedicar-se a pesquisas sobre o ensino de língua, trata-se de tarefa da chamada linguística aplicada. É evidentemente uma tarefa muito digna e muito importante, sobremaneira num país com um déficit educacional tão grande como o nosso. Mas trata-se apenas de uma dentre dezenas, talvez centenas, de aplicações possíveis dessa ciência. Logo, nem todo linguista entende de ensino de línguas; tudo depende da área em que ele é especialista.

Bem, acho que por ora é suficiente. Meu conselho aos leitores é que não acreditem em tudo o que se diz sobre a linguística: há muita fake news e muita manipulação ideológica a respeito.

O preconceito linguístico é um problema dos linguistas?

Um dos temas mais frequentes nos círculos linguísticos atualmente é a questão do chamado preconceito linguístico. O conceito, instituído por Marcos Bagno no livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, é definido como qualquer forma de discriminação a uma pessoa ou grupo pelo modo como fala. No entanto, o próprio Bagno reconhece que o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social, pois o que se discrimina não é propriamente o linguajar de certas pessoas e sim as próprias pessoas. Quando, por exemplo, censuramos os erros gramaticais (do ponto de vista normativo, bem entendido) de um falante de pouco estudo, o problema não é a fala desse indivíduo em si, mas o fato de que essa fala “rústica” é indício de uma origem pobre. Portanto, o problema não é a fala, mas a posição social do sujeito falante.

Não à toa, o preconceito linguístico se dirige as mais das vezes aos membros das classes mais baixas e aos cidadãos procedentes das regiões mais atrasadas economicamente. No caso brasileiro, seu alvo preferencial são os pobres em geral e os moradores da periferia em particular, os “caipiras” (isto é, habitantes do meio rural) e os nordestinos, em especial os migrantes para os grandes centros urbanos.

Nota-se isso mesmo em situações inocentes como um programa humorístico em que o caipira e o nordestino são sempre figuras cômicas, cuja fala é caricatural. De modo mais geral, todos temos a tendência a rechaçar aquilo que de nós é muito diferente, o que significa que os próprios interioranos e nordestinos podem ter preconceito contra os falantes urbanos do Centro-Sul do país.

Além disso, tendemos a estranhar e, no limite, rejeitar falas que se afastem muito do padrão gramatical, vocabular ou fonético da língua. (Sobre este último padrão já falei no artigo Qual o sotaque mais bonito? E o mais feio?.)

Mas, se o preconceito linguístico é, na verdade, preconceito social, quem deve se ocupar dele: os linguistas ou os sociólogos?

Existem muitos tipos de preconceito: o preconceito racial, ou racismo, o preconceito étnico ou de origem geográfica, que também é uma forma de racismo, o preconceito religioso, o preconceito sexual/de gênero, ou sexismo, e muitos outros.

Bem, o racismo como fenômeno social é objeto das chamadas ciências sociais (história, sociologia e antropologia, principalmente) e não da biologia, a quem o conceito de raça está mais intimamente ligado. Igualmente, o preconceito de origem geográfica não é objeto de estudo dos geógrafos, nem o sexismo é estudado pelos sexólogos, e menos ainda o preconceito religioso faz parte da teologia ou da ciência da religião. Essa constatação suscita a pergunta: por que os linguistas deveriam estudar o preconceito linguístico? A meu ver (e esta é uma posição estritamente particular minha), todo preconceito social, seja ele de raça, origem, sexo, religião, origem ou posição política, é um fenômeno a ser estudado pela sociologia, e o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social do qual a língua é só um índice.

Na verdade, há muito pouco de linguístico a ser estudado no preconceito linguístico: quando estudamos a fala dos menos favorecidos e dos grupos discriminados, nosso foco é a sintaxe, a morfologia, o léxico, a semântica e a fonética desses falantes – ou seja, a questão social propriamente dita não entra em linha de conta. Ao mesmo tempo, vemos que a maioria, se não a totalidade, dos trabalhos acadêmicos sobre preconceito linguístico pouco fala da língua em si e muito da condição social dos falantes e de seu sofrimento diante da discriminação.

O fato é que muitos linguistas não analisam simplesmente o fenômeno sob o ponto de vista científico (isto é, utilizando o chamado método científico), mas fazem militância político-ideológica, o que não tem nada a ver com o fazer científico. De fato, a ciência faz juízos de verdade, não juízos de valor. É claro que todo cientista é, antes de mais nada, um cidadão e, como tal, tem todo o direito de manifestar suas posições político-ideológicas e até partidárias, mas um trabalho acadêmico não é o melhor lugar para fazer isso.

Todos sabemos que há muito preconceito e mesmo violência fatal contra os integrantes do grupo LGBT, mas, se estes são reconhecidos por seus perseguidores pelo modo como se vestem ou gesticulam, seguramente não compete aos estudiosos da moda ou da gestualidade (no caso, os semioticistas) analisar esse triste fenômeno.

Evidentemente, o preconceito é fruto da ignorância. Mas, como também mostrei no artigo anterior, o preconceito, no sentido de prejulgamento, é um mecanismo de origem biológica que em muitos casos pode salvar nossas vidas. O exercício do preconceito no meio social é um resquício de nossa ancestralidade animal, que só a educação e a cultura podem ajudar a domesticar.

Por isso mesmo, todo ser humano tem o direito a ter seus preconceitos e a ser ignorante. O preconceito só se transforma em crime quando passa do simples sentimento de repulsa a alguém à violência física, psicológica, moral ou verbal, ou quando se traduz em cerceamento do direito alheio. É digno de nota que o preconceito linguístico nunca se traduz em crime. Pelo menos, eu nunca tive notícia de que alguém tenha sido espancado ou morto por falar português “errado”.

Mesmo em casos famosos, como o do linchamento moral do polêmico ex-ministro da educação Abraham Weintraub após este ter grafado “imprecionante” e “paralizar”, é preciso levar em conta que a crítica da mídia e de parte da população não se dirigiu ao nível cultural do ministro em si, mas sim à inadequação desse nível ao cargo que ele ocupava.

O preconceito linguístico pode ser de três tipos: gramatical, lexical e fonético. O preconceito gramatical é voltado contra os que falam “errado”, ou seja, aos que não se expressam segundo a norma culta. Só que, se quem fala errado não teve a chance de estudar, esse preconceito é injusto. Mas, mais uma vez, identifica-se a falta de estudo com a pobreza. Logo, o verdadeiro alvo do preconceito é a classe social e não a gramática do indivíduo.

Já o preconceito fonético e o vocabular se direcionam preferencialmente contra os que são de outra região ou estrato social e, por isso, têm vocabulário e pronúncia peculiares. Nesse caso, como afirmei no início, o preconceito não é contra a fala e sim contra a origem do falante.

A melhor forma de acabar com todos esses preconceitos ligados à linguagem é disseminar entre todos educação de qualidade: quando todos forem bem educados, o “erro gramatical”, especialmente o erro crasso, praticamente desaparecerá. Quando todas as regiões do país forem igualmente desenvolvidas, o preconceito contra o modo de falar desta ou daquela região também será bastante mitigado – a não ser, é claro, naquelas brincadeiras saudáveis e desprovidas de maldade em que paulistas gozam a cara de cariocas e vice-versa.

As raízes biológicas do preconceito

Vê-se, nos dias atuais, um grande esforço em prol da inclusão social, por meio de campanhas educativas, ações afirmativas, valorização da diversidade, repressão à intolerância, adoção de cotas para minorias, e outras. No entanto, por mais que se tente combatê-lo, o preconceito segue firme e forte em todas as sociedades, das mais primitivas às mais desenvolvidas.

Discriminação por motivos étnicos, raciais, religiosos, sociais e até linguísticos parece uma chaga longe de ser superada.

A explicação para esse comportamento pode estar em nossa biologia. Estudos conduzidos de maneira independente em diversas universidades, uns com viés biológico, outros com foco psicológico ou social, apontam que a rejeição que sentimos pelo diferente pode ter sido moldada por milênios de evolução da espécie humana.

Para a bióloga Marta Fischer, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o preconceito é algo natural. “É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies”, afirma a especialista.

Como o homem é um ser gregário, o sentimento de pertencer a um grupo e, consequentemente, o impulso a rechaçar os elementos estranhos foi uma estratégia inteligente de sobrevivência numa época em que estávamos longe de dominar o planeta. Criar vínculos sociais com base em características semelhantes parece natural e é algo que transcende a espécie humana.

Segundo Marta, ao formarmos grupos, atentamos ao que nos aproxima de determinados indivíduos e que nos diferencia dos demais. “Assim, a discriminação ajuda a manter a identidade e união do nosso grupo. Isso nada mais é do que o preconceito. Um animal com cheiro ou aparência distinta dos demais de sua espécie pode chamar a atenção de predadores. Isso faz com que seja discriminado, abandonado ou até mesmo morto por alguém do grupo.”

Em Prejudice, its social psychology (Preconceito, sua psicologia social), Rupert Brown, professor de psicologia da Universidade de Sussex, descreve várias experiências sugerindo que superestimamos características que fogem da normalidade, especialmente em relação a minorias. “Coisas menos comuns que a média, ou que acontecem raramente, parecem atrair uma parcela desproporcional da nossa atenção e são lembradas mais facilmente. Esse fenômeno pode dar origem a estereótipos.”

Segundo uma pesquisa americana, bebês de menos de dois anos usando a mesma roupa tendem a não brincar com uma criança vestida com roupas de cores diferentes das suas.

O papel da evolução biológica na formação do preconceito é claro: toda vez que nossos ancestrais pré-históricos ouviam um barulho estranho, imaginavam algum perigo iminente, como um predador, por exemplo, e tratavam de se proteger. Poderia não ser nada, apenas o vento entre as folhagens, mas, como diz o biólogo britânico Richard Dawkins, um falso positivo pode ser apenas perda de tempo; já um falso negativo pode significar a morte. Ou seja, a seleção natural favoreceu aqueles que tinham um olhar mais desconfiado sobre os outros à sua volta, isto é, os mais preconceituosos.

O mesmo raciocínio se aplica ainda hoje: se estou caminhando por uma rua escura e avisto um sujeito mal-encarado caminhando em minha direção, minha tendência natural – se eu for esperto, claro – é fugir dali. É bem possível que o tal sujeito não seja de fato um criminoso, mas vinha visão preconcebida sobre o seu caráter baseada em sua aparência pode, eventualmente, salvar a minha vida.

Dentre as várias formas de discriminação, está o preconceito linguístico. Esse termo, difundido por Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, denomina a aversão por aqueles que falam de modo diferente, especialmente as pessoas menos escolarizadas, por isso mesmo mais distantes do padrão linguístico, e as provenientes de rincões afastados dos grandes centros, cuja fala é mais regional. Em suma, pessoas que utilizam variedades linguísticas de menor prestígio.

Segundo Bagno, o preconceito linguístico encobre, na verdade, formas mais profundas de discriminação. O indivíduo cuja fala revela origem rural é identificado com traços como pobreza, ignorância, alienação, falta de polidez, de bom gosto, bom senso, cidadania… Ou seja, sua pronúncia e sua gramática nos levam a traçar um raio X — verdadeiro ou equivocado, mas de todo modo preconcebido — dessa pessoa. E aí o preconceito linguístico se torna preconceito social, étnico, religioso ou racial.

Mas, se o preconceito, seja linguístico ou de qualquer outra natureza, existe e é um instinto biológico instalado em nossos genes, então a educação pode — como em relação aos nossos demais instintos —, no máximo, atenuar essa pulsão, jamais eliminá-la: até as pessoas mais cultas e conscientes do problema deixam extravasar, em momentos de descontrole emocional (quando aflora o “instinto animal”), sua ira contra o diferente, em especial se este é visto como inferior.

No caso específico da língua, o preconceito tem duas vertentes: uma de índole grupal e chauvinista, resquício de nossa herança tribal, e outra social, ligada à dinâmica da vida numa sociedade estratificada.

De um lado, o falante reage positivamente a quem se expressa como ele (há imediata identidade: se ele fala como eu, é porque é igual a mim) e negativamente a quem fala de modo diferente. A lógica subjacente, ainda que inconsciente, é: pessoas de outras regiões, classes sociais, credos religiosos, modos de vida não podem me compreender, nem eu as compreendo, então eu as vejo com desconfiança.

De outro lado, há uma tendência a valorizar o que pertence às classes sociais mais elevadas. Assim, tudo o que foge ao padrão, à norma, ao bom uso da língua deve ser rechaçado.

Embora essa postura seja de fato um preconceito e, como tal, seja injusta na maioria das vezes, é um dado real com o qual se tem de lidar. É preciso ter claro que ações educativas ou coercitivas podem reduzir o problema, mas dificilmente erradicá-lo, já que suas causas são biológicas.

Nesse sentido, muitos trabalhos teóricos têm equivocadamente enfatizado os aspectos sociais da questão — alguns linguistas, como Marta Scherre, da Universidade Federal do Espírito Santo, chegam a defender a criminalização do preconceito linguístico — quando seria mais proveitoso unir as teorias da linguagem aos conhecimentos da biologia, psicologia e neurociência para compreender melhor o fenômeno e saber até que ponto somos ou não capazes de combatê-lo. A ciência deve primeiro conhecer os fatos para depois julgar os valores.

Como é mesmo que se usa “mesmo”?

Olá, meu caro Aldo, tudo bem?
É que eu estou em dúvida na concordância destas duas frases:
a) Será que foi ela mesma/mesmo que praticou esse crime?
b) Foi ela mesma/mesmo que violentou aquela criança.
Agradeço muito o seu retorno; se puder, por gentileza, mande exemplos destas duas frases pra gente compreender melhor, ok?
Um abs!!!
Humberto Santos

A dúvida de Humberto é também a de muitos falantes. Acontece que “mesmo” é um pronome adjetivo que também pode funcionar como advérbio. E, como se sabe, adjetivos concordam em gênero e número com o substantivo ao qual estão ligados; já os advérbios são invariáveis. Portanto, determinar se “mesmo” deve ir para o feminino e concordar com o sujeito “ela” ou se deve permanecer no masculino nos exemplos apresentados acima depende de sabermos se essa palavra está funcionando como adjetivo ou como advérbio.

Como adjetivo, “mesmo” significa “próprio, igual, idêntico”: “esse serviço eu mesmo (isto é, eu próprio) posso fazer”; “fizeram-me duas vezes a mesma pergunta (ou seja, idêntica pergunta)”.

Como advérbio, “mesmo” significa “realmente, de fato”: “você precisa mesmo (isto é, de fato) sair agora?”; “ele está mesmo (realmente) falando a verdade?”.

Portanto, nos exemplos trazidos pelo leitor, é igualmente possível empregar “mesmo” ou “mesma” – o que vai mudar é o sentido da frase. Em “Será que foi ela mesma que praticou esse crime?” o sentido é de “Será que foi ela própria (e não outra pessoa) que praticou esse crime?”. Já em “Será que foi ela mesmo que praticou esse crime?”, o sentido é de “Será que foi realmente ela que praticou esse crime?” (Afinal, ela realmente praticou o crime?). É bem verdade que neste caso a diferença de sentidos é sutil.

No segundo exemplo, “Foi ela mesma que violentou aquela criança” significa que “foi ela própria (e mais ninguém) que violentou aquela criança”; em “Foi ela mesmo que violentou aquela criança”, o que se entende é que ela de fato fez isso, logo o crime é uma realidade.

Uma pequena reformulação da frase torna mais clara a diferença entre o adjetivo “mesmo/a/os/as” e o advérbio “mesmo”. Compare:

(1) Ela mesma violentou a criança. x (2) Ela violentou mesmo a criança.

Na frase (1), em que “mesma”, no feminino, concorda com “ela” e, portanto, é adjetivo, a pergunta que fazemos é “quem violentou a criança?”. Já na frase (2), em que “mesmo” não está ligado a “ela” e sim ao verbo “violentou”, agindo, pois, como advérbio, a pergunta que fazemos é “isso realmente aconteceu?”.

Ainda sobre a linguagem neutra de gênero

A mais recente polêmica a agitar a língua portuguesa é, sem dúvida, a questão da chamada linguagem neutra de gênero. Por isso, achei oportuno republicar aqui um artigo meu lançado pela primeira vez alguns anos atrás na extinta revista Língua e que trata da distinção entre o gênero gramatical e o sexo biológico. Hoje incluiríamos também o gênero biopsicossocial. Vamos ao artigo.

O GÊNERO DA NATUREZA

A confusão entre gênero gramatical e sexo influencia nosso imaginário e as representações culturais que fazemos no dia a dia

O gênero é, ao lado do número, uma das categorias gramaticais mais próximas da universalidade. Tanto que a maioria das línguas a tem. Mas se o número pode, de algum modo, expressar propriedade física objetiva (a quantidade), o gênero só faria sentido se estivesse relacionado apenas a seres sexuados. Daí a associação, muitas vezes errônea, que se faz entre gênero gramatical e sexo.

Afinal, seres animados do sexo masculino, em especial humanos, costumam ser designados por substantivos masculinos, e seres animados do sexo feminino, por substantivos femininos. Há contra-exemplos que conturbam essa aparente lógica: em alemão, por exemplo, a palavra Mädchen, “moça, menina”, é do gênero neutro.

Então, por que a maior parte das línguas tem gêneros? É verdade que há línguas, como o húngaro, o finlandês, o japonês e o malgaxe, que não têm, e isso aparentemente não lhes faz falta. Diante disso, qual a utilidade prática da classificação dos seres em categorias como masculino, feminino e neutro?

A origem dos gêneros gramaticais remonta a tempos imemoriais e a línguas pré-históricas das quais não temos registro. Talvez as primeiras línguas, logo que o Homo sapiens começou a falar de modo articulado, já apresentassem tal categorização. Só o que sabemos é que as línguas atuais com gêneros os herdaram de suas ancestrais. Não dá para saber se línguas modernas sem gêneros derivam de outras que também não os tinham ou se essa distinção se perdeu em algum momento de sua evolução.

Estamos tão acostumados a associar gênero e sexo que até mesmo os termos gramaticais “masculino” e “feminino” remetem aos conceitos de macho e fêmea (respectivamente, mas e femina em latim). Mas há uma diferença crucial entre o gênero gramatical e o natural ou semântico, este ligado à sexualidade do objeto. Pode-se comprovar o fato observando que diferentes línguas comportam diferentes sistemas de gêneros, das que não têm, passando pelas que têm dois (português) ou três (inglês), até quatro gêneros, como o sueco.

Cinco gêneros

Em português, temos os gêneros masculino e feminino. Portanto, os substantivos de nossa língua pertencem a um ou outro desses gêneros e são substituídos pelos pronomes pessoais “ele” ou “ela” (o uso do pronome “isso” em alguns casos revela reminiscências de um antigo gênero neutro, mas “isso” não é pronome pessoal) e, principalmente, precedidos dos artigos definidos “o” ou “a”. Como resultado, seres inanimados como “lápis” e “caneta” são tratados lingüisticamente como se tivessem sexo, e seres animados como “águia” e “testemunha”, como se não tivessem. O gênero natural está ligado a dicotomias semânticas como animado/inanimado, sexuado/assexuado, macho/fêmea e espécime/espécie. Trata-se de classificação fundada nos aspectos físicos e biológicos dos seres. Desse ponto de vista, os gêneros naturais são cinco:

Masculino (seres animados do sexo masculino) – Pai, menino, Joãozinho (O meu cachorro se chama Toby);

Feminino (seres animados do sexo feminino) – Mãe, menina, Mariazinha (A minha cadela se chama Viki);

Neutro (nem masculino nem feminino, para seres inanimados e abstratos) – Caderno, felicidade (A ração dos cachorros acabou);

Sobrecomum (masculino ou feminino, para seres animados cujo sexo não está determinado) – Criança, testemunha, vítima (O animal que vi estava ferido);

Complexo (masculino e feminino, para coletivo de seres animados de ambos os sexos): Ser humano, humanidade (O cão é um animal mamífero).

Algumas línguas adotam um sistema de gêneros dito “natural”, fazendo corresponder ao masculino e feminino semânticos o masculino e feminino gramaticais, e atribuindo aos demais gêneros semânticos o neutro gramatical. Todavia, mesmo essas línguas têm exceções. Em inglês são neutros todos os substantivos relativos a seres inanimados, com exceção dos navios, automóveis, aviões e máquinas em geral, que são femininos. Essas exceções têm a ver, em muitos casos, com uma visão de mundo particular da sociedade.

Visão de mundo

Se, em princípio, seres sexuados conduzem a uma coincidência entre o gênero gramatical e o natural, a coisa se complica em línguas de povos que classificam as coisas do mundo segundo uma visão mítico-religiosa ou metafísica.

Em latim, as árvores tinham nomes femininos por serem associadas à figura materna que gera a vida (isto é, dá frutos). Em muitas línguas, predomina uma visão animista do Universo, segundo a qual todas as coisas têm vida e alma, daí terem um gênero animado e por vezes sexuado. Entre certos povos, a palavra para “moça” é neutra, tornando-se feminina no momento em que a jovem concebe. Nessa visão de mundo, a mulher só é vista como tal quando cumpre seu papel procriador.

A atribuição do gênero gramatical às palavras é arbitrária porque não parte, em geral, da análise semântica (gênero natural), mas de uma herança histórica, por vezes transtornada por mutações aleatórias ao longo da evolução. Assim, o latim calor era masculino; em português, seu descendente “calor” manteve o gênero, mas em francês chaleur é feminino. Há exemplos semelhantes: português “costume” (masc.) x espanhol costumbre (fem.); português “flor” (fem.) x italiano fiore (masc.). “Vinho” é masculino em português, francês (vin), alemão (Wein) e grego (oînos), e é neutro em latim (vinum), inglês (wine), sueco (vin) e russo (vino).

Em alemão, as palavras diminutivas com sufixos ‑chen e ‑lein são neutras, não importando o gênero da palavra primitiva. Em inglês, quando se sabe o sexo do animal, é normal referir-se a ele por he ou she; quando não, usa-se o neutro it ou o plural they. A arbitrariedade do gênero gramatical já suscitou até críticas como a de Protágoras, para quem o grego era uma língua enganosa, em que palavras “viris” como capacete, coroa e cólera eram femininas.

O fato é que o gênero gramatical das palavras influencia o imaginário de tal forma que as representações culturais que fazemos refletem a confusão entre gênero e sexo. Nas histórias infantis, o Sol é homem e a Lua é mulher em línguas como o português e o espanhol, em que as palavras para Sol e Lua pertencem a esses gêneros. No imaginário alemão, o Sol é mulher e a Lua, homem, porque a palavra para Sol, Sonne, é feminina, enquanto a para Lua, Mond, é masculina. Em inglês, a figura da Morte é homem; já em português é mulher. O inglês usa expressões como mother nature (mãe natureza) e mother language (língua-mãe) por pura imitação das línguas românicas, notadamente o francês, pois em inglês nature e language são palavras neutras.

Arbitrário

Há outros aspectos sobre gênero. Em primeiro lugar, há uma relação entre animado e agente, bem como entre agente e sujeito. Por isso, nas línguas indo-europeias, substantivos animados, que podem exercer a função de sujeito da oração, costumam ter formas distintas no caso reto e no oblíquo, enquanto os inanimados têm uma só forma em ambos os casos.

Em latim, dominus (senhor), é sujeito e dominum, objeto direto; já templum pode ser sujeito e objeto. No inglês, os pronomes pessoais masculinos e femininos têm formas para sujeito e objeto (he/him, she/her), mas o neutro tem uma só, it.

Em segundo lugar, muitas línguas associam o feminino ao coletivo. Em árabe, o plural de “juiz” significa igualmente “magistratura”. Em grego, o neutro plural faz concordância no singular, como se fosse coletivo: to grámma estìn, “a letra é”; ta grámmata estìn, “as letras são” (literalmente, “as letras é”). Parece que em grego ta grámmata é entendido tanto como “as letras” quanto “o alfabeto”. Não por acaso, muitos coletivos em português são femininos (mulherada, bicharada). Em italiano, algumas palavras masculinas fazem um plural feminino: ginocchio/ginocchia, “joelho(s)”, uovo/uova, “ovo(s)”, e assim por diante.

Ao menos no indo-europeu, a distinção de gênero mais importante era entre “animado” e “não-animado”; a oposição masculino/feminino seria detalhamento da classe “animado”. Daí surgirem os três gêneros da maioria das línguas indo-europeias: masculino, feminino e neutro. Este, por sinal, tem seu nome derivado do latim ne uter, “nem um nem outro”.

Militantes contra o preconceito de sexo – erroneamente chamado de “preconceito de gênero” – acusam as línguas de ter pronomes “sexistas” e exigem mudança até no texto da Bíblia (frases como “nem só de pão vive o homem” seriam machistas). Tudo porque a evolução fonética fortuita tornou masculinas palavras neutras. E porque a confusão entre gênero gramatical, natural e sexo biológico, estimulada pela adoção de termos gramaticais inadequados, está enraizada em nossas crenças sobre a natureza da linguagem.

Controle e controlar: qual é o primitivo?

Olá, Prof. Aldo! Outro dia, estava discutindo com um colega se ‘controlar’ é derivado de ‘controle’ ou se é o contrário. Você poderia nos esclarecer? Obrigado.
Waltencyr Araújo

Na verdade, Waltencyr, nenhuma das alternativas é verdadeira. Afinal, tanto “controle” quanto “controlar” são empréstimos do francês e, embora apresentem datas diferentes de atestação em português, é de se supor que ambas as palavras tenham entrado em nossa língua quase simultaneamente.

Em latim medieval existia o termo contrarotulus, formado de contra e rotulus, este um diminutivo de rota, “roda”. Tratava-se de uma técnica contábil para verificar contas. O francês do século XVII traduziu esse termo para contrerôle, que logo passaria a contrôle. A seguir, este substantivo produziria o verbo derivado contrôler. Os dois termos chegaram por empréstimo ao português do século XVIII. Logo, o que de fato aconteceu foi que o francês contrôler derivou de contrôle, isto é, a derivação se deu em francês; o português já recebeu os vocábulos prontos.

Duas curiosidades: em Portugal, usa-se preferentemente “controlo” em lugar de “controle”. E essa palavra admite tanto a pronúncia “contrôle” (com “o” fechado) quanto “contróle” (com “o” aberto). Mas a primeira pronúncia, além de ser a predominante, é também a mais recomendada pelas gramáticas.

A globalização da linguagem neutra de gênero

A onda da linguagem neutra de gênero não atinge só a língua portuguesa. O inglês, que, por sinal, é o idioma pátrio do politicamente correto, tem nos dado diversos exemplos disso, facilitados pelo fato de que a própria gramática da língua não distingue gêneros a não ser em situações muito específicas. Assim, teacher pode referir-se tanto a um professor quanto a uma professora; doctor, a um médico ou médica; e assim por diante.

No entanto, há algumas profissões que admitem masculino e feminino. Aquelas terminadas por man, por exemplo, como postman (carteiro), milkman (leiteiro) e chairman (presidente) permitem a substituição de man por ‑woman – embora isso não fosse muito comum até as mulheres passarem a exercer as funções de carteira (não confundir com o objeto em que se guarda dinheiro), leiteira e presidenta (esta última principalmente depois do mandato da inesquecível Dilma Rousseff).

Além dessas profissões, temos waiter (garçom) x waitress (garçonete) e actor (ator) x actress (atriz). Não obstante, já há algum tempo a imprensa e a Wikipédia vêm empregando o termo actor indistintamente para nomear homens e mulheres (algo parecido aconteceu na língua portuguesa, que decidiu aposentar poetisa e chamar a mulher que verseja de poeta).

Pois Cate Blanchett, que foi a presidente/presidenta do júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza deste ano, afirmou que sempre foi “ator”. Durante a coletiva de imprensa de abertura do evento, quando perguntada sobre o que achou da decisão do Festival de Berlim de dar “prêmios neutros” em gênero em vez das tradicionais categorias de “melhor ator” e “melhor atriz”, respondeu:

— Não é um posicionamento político, mas eu sempre me referi a mim mesma como ator. Eu acho que não temos uma linguagem de gênero específica e sou de uma geração em que a palavra “atriz” era sempre usada de modo pejorativo.

Sua colega, a atriz Tilda Swinton, acrescentou:

— Eu fiquei realmente muito feliz em saber dessa decisão de Berlim e acho inevitável que todos venham a fazer o mesmo. É algo tão óbvio para mim.

Faz algum tempo que a língua inglesa também neutralizou a palavra dog para designar tanto cães quanto cadelas. É que a palavra específica para “cadela” em inglês, bitch, assumiu a conotação depreciativa de “prostituta” – quem já foi xingado de son of a bitch sabe bem disso.

O inglês também modificou sua gramática em função da neutralização de gênero. Com isso, uma frase como “Todo mundo sabe o que quer”, que antes se dizia Everybody knows what he wants, hoje é formulada como Everybody knows what they want, ou seja “Todo mundo sabe o que querem”, pois they é pronome pessoal único de plural e corresponde tanto ao plural de he quanto ao de she.

Enquanto isso, no Brasil, alguns malucos propõem substituir ele e ela por ile, aquele e aquela por aquile, este e esta por iste, e assim por diante. Vocês se imaginam falando desse jeito? Eu não.

É errado chamar um CD de música de álbum?

Caro Aldo Bizzocchi, outro dia um famoso cantor da MPB estava dando uma entrevista no rádio, quando falou no seu “novo álbum” corrigindo-se logo em seguida para “novo CD”. E completou: “ainda estou com a cabeça nos tempos do vinil”. É errado chamar CD de álbum? Só um LP pode ser um álbum? Obrigado.
Clayton Santa Rosa

Caro Clayton, não há erro algum em chamar um CD que contenha músicas de “álbum”. Afinal, segundo o Houaiss, álbum é “1)  livro próprio para a colagem de fotografias, postais, selos, etc. […] 3) volume composto por um ou mais discos, CDs, CD-ROMs etc., geralmente acompanhado de folheto explicativo”. Ou seja, álbum é uma coleção de objetos reunidos num volume passível de ser arquivado numa estante (de biblioteca, de discoteca, etc.). É nesse sentido que falamos de um álbum de fotografias ou de figurinhas, uma espécie de caderno em cujas páginas são fixadas as fotos ou figuras. É nesse sentido também que um álbum de pinturas é um livro cujas páginas trazem reproduções de quadros de determinado artista plástico (ou museu, ou período histórico…).

Em seu sentido mais geral, “álbum” denota uma coletânea de objetos de valor artístico dispostos numa certa ordem (que se supõe ser pertinente à compreensão da obra) e embalados num volume arquivável. Portanto, essa designação diz respeito à natureza da obra e não ao seu suporte material. Um álbum de fotos pode ser de papel ou estar em formato digital, como os álbuns de fotos presentes nas redes sociais ou arquivados em laptops, celulares e tablets. Aplicado à música, um álbum pode estar em qualquer formato – vinil, CD, pendrive, site, streaming: o que o caracteriza é o fato de que as músicas estão ali dispostas segundo alguma ordenação significativa (o autor em geral tem razões específicas para ordenar as faixas de uma e não de outra maneira). Logo, o artista a que você se referiu corrigiu-se sem necessidade: um CD é diferente de um LP, mas ambos podem ser chamados de álbuns. Aliás, hoje que o CD também está ficando obsoleto, os álbuns de música estão migrando para os serviços de streaming; no entanto, os artistas continuam concebendo suas obras como álbuns e não como canções isoladas.

Pessoas transgêneras?!

Volta e meia a novilíngua politicamente correta resolve mudar o significante de certas palavras sem alterar o significado e, o que é pior, sem modificar a realidade que ela representa. A mais nova vítima dessa camuflagem do sentido pela manipulação da forma parece ter sido a palavra “transexual”, que agora atende pelo nome de “transgênero”. Já falei em outra postagem sobre a (não) diferença entre sexo e gênero. Seguindo a mesma linha de raciocínio, houve-se por bem substituir o termo “transexual” por “transgênero” quando adjetivo (não faz sentido dizer que na minha sala de aula há três transgêneros e sim que há três alunos/alunas/alunes/alunxs transgênero).

Ocorre que “transexual” admite flexão de número (plural “transexuais”), ao passo que “transgênero” é palavra invariável em gênero e número. Ou era até certos estagiários de jornalismo, que hoje fazem as vezes de redatores, decidirem flexioná-la. E eis que lemos coisas como “mulher transgênera”, “pessoas transgêneras”, etc. Transgêneras?! Será possível isso? Bem, a linguagem politicamente correta e os estagiários de jornalismo podem tudo, certo?

Mas o fato é que, sendo resultante da mera aposição de um prefixo trans- ao substantivo gênero, “transgênero” é impossível de flexionar. Assim como temos “aulas-piloto” e não “aulas-pilotas”, bem como “casamentos intra-raça” e não “intra-raços” (intrarraciais ainda é a melhor solução), não faz nenhum sentido do ponto de vista gramatical flexionar “transgênero/transgênera/transgêneros/transgêneras”.

Uma solução bem menos traumática para a língua seria a adoção dos adjetivos “transgenérico” ou “transgênere”. Observem que o uso de “genérico” como adjetivo referente a gênero é corrente em zoologia e botânica, assim como se usa “específico” em relação a espécie biológica. Ou seja, genérico não é só aquilo que é geral, que não tem especificidade, mas também um termo técnico usado na biologia. E o gênero masculino, feminino ou outro não deixa de ser um traço biológico, embora muitos sustentem que também tem muito de psicológico (de toda maneira, continuamos no campo das ciências naturais).

Mas a minha preferência é mesmo por “transgênere”, cuja terminação em “e”, tomada do latim e ocorrente em palavras como “congênere” (que é do mesmo gênero), “imberbe” (que não tem barba), “insone” (que não tem sono) e muitas outras, também tem o charme politicamente correto de ser comum de dois gêneros (gramaticais), portanto um prato cheio para quem adora linguagem neutra de gênero (sexual).

Nestes nossos tempos de menines, amigues, namorades e outres, “transgênere” já vem terminada em “e” sem ferir a morfologia de herança latina da língua portuguesa. Gostaram da sugestão?

Todo meio é ambiente?

Prezado doutor Aldo Bizzocchi, bom dia!
Afinal, meio ambiente é um pleonasmo? A meu ver, as duas palavras são análogas, visto que um livro jamais poderia ser titulado Direito do meio. Os leitores se perguntariam meio do quê? Numa passagem do livro do eminente Evanildo Bechara diz que os pleonasmos (aceitáveis) são para fins de clareza, reforço ou ênfase. Seria este o caso supracitado? O meio ambiente em vez dum pleonasmo seria um sintagma ou locução substantiva?
Grande abraço,
Edilson Zafira de Sousa
São Paulo – SP

Caro Edilson, nestes tempos em que o meio ambiente tem sofrido como nunca por ação de fazendeiros e garimpeiros inescrupulosos e por inação de um governo conivente com os crimes ambientais, sua pergunta é muito oportuna.

Vamos à resposta: “meio ambiente” é de fato uma locução substantiva e, portanto, um sintagma nominal. Para quem não se lembra, sintagma é uma sequência de palavras das quais uma é a base ou núcleo e as demais são seus adjuntos. Sintagma nominal é aquele que tem um substantivo como base. No exemplo em questão, “meio” é o substantivo-núcleo e “ambiente”, o adjetivo adjunto (nominal, no caso, já que se liga a um substantivo, ou nome).

Mas será que “meio ambiente” é um pleonasmo, mesmo que enfático e, portanto, perdoável? Em primeiro lugar, você tem razão ao dizer que a palavra “meio”, sozinha, é muito vaga; afinal, além de ambiente, “meio” também significa “metade” e “recurso, instrumento” (por exemplo, “ele partiu o galho ao meio usando um machado como meio”).

Em segundo lugar, nem todo contexto em que se emprega “meio” admite “ambiente” como sinônimo (por exemplo, meio sólido, meio líquido, meio alcalino, etc.). Nesse sentido, “ambiente” é um adjetivo que especifica o tipo de meio a que nos referimos, assim como “sólido”, “líquido” e “alcalino”.

O que ocorre é que “ambiente”, outrora apenas adjetivo, oriundo do latim ambiens, particípio presente do verbo ambire, “andar em volta, rodear”, passou a ser usado como substantivo; daí falarmos no ambiente da festa, na decoração de ambientes, e assim por diante. Se pensarmos em ambiente como substantivo com esse significado, então “meio ambiente” seria efetivamente um pleonasmo. Mas a expressão “meio ambiente”, por sinal um termo técnico do jargão da biologia e da ecologia, tem um sentido específico, diferente de “meio” simplesmente, que também é termo técnico nessas áreas (e em outras, como em sociologia: “as más influências do meio”).

Quanto a ambiente, é até possível empregar essa palavra em seu sentido ecológico, como uma redução de “meio ambiente”, o que, de modo algum, invalida a forma extensa da locução.

Em resumo, trata-se de uma construção legítima, e a ideia de que seria redundante não procede.