A graça do indulto

Desde que o presidente Jair Bolsonaro concedeu ao seu aliado político, o deputado Daniel Silveira, o indulto individual à pena a que fora condenado pelo Supremo Tribunal Federal, indulto esse chamado tecnicamente de graça, essa palavra veio à baila e ao noticiário nesse sentido em que quase ninguém, a não ser os juristas, a conhecia. Vamos então falar sobre esse vocábulo, um dos mais polissêmicos (isto é, que têm mais significados) da língua portuguesa.

Em primeiro lugar, graça quer dizer favor, mercê. Mas também pode ser benevolência, estima, amizade. Pode ainda, segundo a teologia, ser a participação do homem na vida divina, antes do pecado, assim como um socorro espiritual concedido por Deus. E também perdão, indulgência, indulto (aqui temos o sentido do ato de Bolsonaro). Pode ser algum atrativo pessoal, físico ou moral, um certo charme ou elegância. Pode ser um chiste, uma pilhéria. E ainda o nome de uma pessoa (Qual é a sua graça?). Isso sem falar que há mulheres cujo nome é Graça. Como nome próprio, é também o designativo de três deusas gregas, as três Graças. E de graça quer dizer “grátis”. Pode-se ainda cair nas graças de alguém ou estar em estado de graça. E, até que, no século XVI, o rei de França Francisco I instituísse o tratamento de “majestade” para reis, os súditos se dirigiam ao soberano pelo pronome de tratamento Vossa Graça. Finalmente, é graças à graça presidencial (desculpem o trocadilho) que trato hoje deste assunto aqui no blog.

O que há de comum entre as palavras graça, grato, gratidão, agradecer, agradar, desgraça, desgraçado, engraçado, grátis, gratificar, congratular, agraciar, congraçar, e destas com favor, mercê e obrigado? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical graç‑, graci‑, grat‑ ou grad‑, que remete à raiz latina grat‑, de gratus, “grato, agradecido”. Portanto, o latim gratia, qualidade de gratus, e que deu o nosso graça, era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra favor, da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário (será que hoje essa reciprocidade ainda existe?). E assim temos a explicação de por que dizemos obrigado ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, “de graça” ou “grátis”. Por isso, em espanhol se diz gracias, em italiano grazie e em francês merci (que quer dizer “mercê”, ou seja, “favor”) em lugar do nosso obrigado. Por isso também, a Virgem Maria é “cheia de graça”, de generosidade. E a exclamação “Graças a Deus!” é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, agradar significa “tornar grato, receptivo, simpático”. E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, “engraçado”. Daí que graça também passou a significar “alegria, jovialidade” (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, “hilaridade, comédia”. Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o – financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas, se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça. Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um desgraçado. Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas “infeliz”, assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Voltando ao caso Silveira, é possível dizer que ele foi “agraciado” com o perdão presidencial.

Finalmente, favor, que não tem relação etimológica com graça, mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, favorito, que quer dizer “favorecido”. Assim, quando dizemos que numa licitação pública houve favorecimento a um dos concorrentes, o que estamos dizendo é que a empresa vencedora era favorita desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país. Da mesma forma que anistiar por razões políticas ou pessoais quem é condenado pela justiça não tem a menor graça.

O dengo e a dengue

Ainda nem terminou a pandemia de covid-19, e o Brasil já vê explodirem os casos de dengue, mal que nos assola quase todos os anos dada a dificuldade no combate ao seu transmissor, o mosquito Aedes aegyptii, em parte por descaso de parcela da população, que deixa água acumulada em vasos, latas, pneus, piscinas não tratadas e outros repositórios de água parada que servem de criadouro ao inseto.

Mas de onde veio a palavra que nomeia essa doença? Há uma controvérsia sobre isso. Alguns dicionários trazem dois verbetes distintos com a denominação dengue, o que configuraria um caso de homonímia. Temos então dengue1, proveniente do quimbundo ndenge, cuja forma paralela é dengo, que significa “birra, melindre, faceirice, requebro”. É aquele charminho que as crianças – e também certos adultos, especialmente mulheres – fazem, donde chamá-los de dengosos. E temos também dengue2, de origem castelhana, referente à doença contagiosa propriamente dita.

Só que o dicionário etimológico Corominas da língua espanhola só registra uma entrada para dengue e a ela atribui tanto o significado de “melindre” quanto o de “doença epidêmica”. Segundo essa obra, por sinal um dos melhores dicionários etimológicos que existem, tal palavra seria de origem expressiva na primeira acepção e relacionada a outras, como dingolondango, “mimo”, tenguedengue, “melindre, afetação”, e tenguerengue, “a ponto de cair”. Portanto, justamente aquela acepção que em português se atribui ao quimbundo, língua africana falada em Angola, parece ser tão castelhana quanto a segunda, a de doença.

No entanto, como a palavra data em espanhol de 1732, época em que os colonizadores ibéricos já traficavam escravos da África, não é impossível que a língua espanhola tenha tomado o vocábulo do quimbundo. Quanto aos supostos cognatos dingolondango, tenguedengue e tenguerengue, tudo pode não passar de mera coincidência. Esses impasses deixam louco qualquer etimólogo.

Pelo menos, no Brasil fazemos a distinção entre o dengo, isto é, a qualidade de quem é dengoso, e a dengue, enfermidade que mata pessoas todo ano, de modo que, qualquer que seja a origem da palavra – ou das palavras, caso sejam de fato homônimas –, jamais associamos os sintomas da infecção com uma possível frescura do doente.

De onde vem o nome da Páscoa?

Novamente estamos na Semana Santa e desta vez podemos comemorá-la com um pouco mais de esperança, já que a pandemia de covid-19 parece estar chegando ao fim. Em compensação, passaremos mais uma Páscoa sem que a humanidade esteja totalmente em paz, haja vista a insana guerra agora travada entre Rússia e Ucrânia.

Em todo caso, já que é Páscoa, vamos explorar um pouco a origem do nome dessa festa. O termo Páscoa nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Mas, se o termo latino é Pascha, por que em português temos Páscoa e não Pasca, como seria de se esperar? É que o vocábulo se alterou por influência do latim pascua, feminino do adjetivo pascuus, “próprio para pastagem”, derivado do verbo pascere, “apascentar o gado”. Pascua (subentendido terra) era a terra própria para pastagem, ou seja, o pasto. A causa dessa confusão entre Pascha, “Páscoa”, e pascua, “pastagem” seria o término do período de jejum, que se dava na Páscoa, quando as pessoas podiam enfim voltar a se alimentar, visto que, além de “pasto”, pascua tinha o sentido mais geral de “alimento dos animais” – e, por extensão semântica, dos homens.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou *h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a estrela d’alva ou estrela da manhã).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha ou Pascua, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Então só me resta agora desejar feliz Páscoa a todos!

A pobreza do debate na internet

Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Ao que alguns arrematam com o argumento teológico: “Nem Jesus Cristo atingiu a unanimidade”. Qualquer que seja a posição defendida, sempre haverá apoiadores e detratores. Alguns economistas e analistas políticos são declaradamente de esquerda; outros são assumidamente neoliberais. Certos gramáticos são tradicionalistas, outros mais reformistas. O problema é que, tanto quanto a unanimidade, toda rotulação é burra: ninguém é só uma coisa ou só outra. E os rótulos resultam em geral de uma avaliação apressada, quando não preconceituosa. A discordância e o debate de ideias são absolutamente saudáveis numa sociedade democrática. Mais do que isso: são imprescindíveis. Entretanto, esse debate se vê empobrecido por certas posturas, que a internet ajuda a revelar.

Lendo notícias na web ou os blogs de meus colunistas preferidos, sempre dou uma olhada nos comentários que os leitores postam. Por sinal, antigamente o jornalismo era um monólogo: o articulista escrevia, o leitor lia, e pronto. Hoje, graças à tecnologia, a relação ficou mais interativa, de modo que é possível fazer o contraponto entre a ação e a reação. Para estudiosos do discurso como eu, é fascinante comparar o que o autor disse e o que os leitores entenderam. Mas, em muitos casos, é também decepcionante.

Se é verdade que alguns comentários são brilhantes, complementando e enriquecendo os argumentos do autor da matéria, bem como lançando perguntas que ensejariam um novo artigo, há outros para os quais vale a máxima chinesa “a palavra é prata, o silêncio é ouro”.

Em primeiro lugar, boa parte dos comentários postados em blogs e sites de notícias é bem mal redigida. E não me refiro apenas a erros de grafia ou gramática, mas à falta de concatenação das ideias, um vácuo mental de quem quer se expressar, mas não sabe fazê-lo. E como quem não se expressa com clareza em geral não pensa com clareza, é de se deduzir que tais pessoas dificilmente entendem o que leem – portanto atiram no que não veem. (Fico ainda mais estarrecido ao ler comentários desse tipo em blogs que tratam da língua portuguesa.)

Em segundo lugar, muitos leitores questionam as afirmações do texto de maneira superficial, apoiados apenas no senso comum, sem meditar mais profundamente sobre o tema, sem se informar a respeito para saber o quanto daquilo realmente procede. Em certos casos, leitores acusam de achismo ou viés pessoal informações objetivas, de cunho científico, fundamentadas por farta documentação (evidentemente, não é usual incluir bibliografia em matérias jornalísticas, o que não significa que ela não exista). A situação é ainda pior quando o artigo contrapõe a racionalidade ao senso comum, mostrando o quanto a intuição do leigo sobre a realidade é equivocada, quão estreita é sua visão, como frequentemente acontece em matérias sobre biologia evolucionária, cosmologia, política, economia e mesmo sobre a língua. Nesses casos, uma crítica vazia, sem embasamento, acaba produzindo exatamente o efeito inverso do que pretende, isto é, provando a estupidez do senso comum.

Mas há também o dogmatismo. Política, futebol e língua são assuntos-tabu tanto quanto a religião. Nesses casos, se o dogma está em desacordo com a realidade, errada está a realidade, não o dogma. Se o autor do texto é identificado, ainda que erroneamente (por leitura superficial ou rotulação burra), como adepto de uma linha de pensamento diferente da do leitor, este por vezes nem se dá ao trabalho de ler e já discorda a priori de tudo o que não leu.

Temos ainda a leviandade, irmã siamesa da arrogância, facilitada pelo suposto anonimato que a rede proporciona. Aí entra a acusação de se ter dito o que não se disse, a crítica pela crítica (mais raramente o elogio pelo elogio), e para tal vale de tudo, até desconsiderar todas as qualidades da matéria para se apegar a algum deslize perdoável do autor – ou do revisor.

Por último, há a pura e simples falta de polidez. Que o leitor discorde do conteúdo ou das posições do texto, não importa se com razão ou não, é um direito seu. Mas muitos abusam dessa fantástica possibilidade tecnológica de exercer online e em tempo real o direito à liberdade de expressão para insultar as pessoas citadas na matéria, quando não o próprio redator. Aristóteles, em suas Refutações Sofísticas, já alertava para a falácia do argumentum ad hominem: a grosseria é o argumento de quem não tem argumentos.

Em resumo, nunca tivemos tanta facilidade de debater ideias e opiniões na mídia como nos dias de hoje; nunca o receber e o transmitir informação foram tão fáceis e acessíveis como agora; e, no entanto, muitas pessoas desperdiçam essa oportunidade falando sem ter o que dizer.

Nossa formação baseada em educação ruim e cultura alienante deve ter-nos deixado assim. Pelos artigos que tenho lido e pelos comentários que lhes são apostos, chego à conclusão de que no Brasil não faltam cabeças pensantes: falta quem as compreenda.

A doença de Bruce Willis

Esta semana foi revelado que o ator americano Bruce Willis teve de se aposentar das telas por causa de uma doença que afeta sua capacidade de falar chamada afasia. Trata-se de uma condição neurológica causada por lesão no cérebro que pode ser devida a acidente, derrame, tumor ou processo degenerativo. Parece que o caso do ator é este último. Outra celebridade que também sofre dessa patologia é o ex-locutor esportivo Osmar Santos, que perdeu a faculdade da fala após um acidente automobilístico que lesou a região de seu cérebro responsável pela linguagem, a chamada área de Broca.

A afasia é uma velha conhecida dos linguistas. É graças ao estudo de pacientes com essa doença que uma área da linguística chamada psicolinguística conseguiu, juntamente com a neurociência, descobrir como o cérebro humano processa a linguagem. Hoje já se sabe que a aptidão linguística está ligada à atividade do hemisfério esquerdo do cérebro, onde se localiza a supracitada área de Broca, que tem esse nome por ter sido descoberta no século XIX pelo médico francês Paul Broca.

A área de Broca localiza-se no giro frontal inferior e, juntamente com a área de Wernicke, descoberta pelo neurologista alemão Carl Wernicke, é responsável pela decodificação das mensagens faladas ou escritas em termos fonológicos, léxicos e sintáticos e pela codificação das respostas motoras (isto é, da fala) a essas mensagens.

Os afásicos geralmente compreendem perfeitamente o que lhes é dito, mas têm dificuldade ou mesmo impossibilidade de formular enunciados. Certos tipos de afasia afetam apenas algumas faculdades linguísticas, como o vocabulário ou então a sintaxe. Por exemplo, certos pacientes, quando lhes é mostrada a figura de um rato, dizem: “Eu sei que animal é, é um bicho extremamente nojento, mas não consigo dizer o nome dele”. Outros dominam as palavras, mas não conseguem formar frases; suas emissões limitam-se a duas ou três palavras encadeadas, como “eu quero” ou “muito obrigado”. Há ainda aqueles que só emitem sílabas. O doutor Broca descobriu a função linguística da área cerebral que leva seu nome justamente ao autopsiar um paciente que só conseguia pronunciar tan.

Os avanços da neurociência têm demonstrado que os vários níveis da estruturação linguística – fonético-fonologica, morfológica, sintática, semântica – são comandados por diferentes módulos cerebrais. Isso explica por que, dependendo do tipo e da localização da lesão, o resultado em termos de déficit linguístico é diferente. Por conseguinte, há inúmeros tipos de afasia reconhecidos pela medicina. Dependendo do tipo, pode haver (ou não) uma estratégia específica de tratamento para minorar os prejuízos causados por essa deficiência. Em certos casos, estimula-se o córtex cerebral direito a fim de que desenvolva supletivamente e de forma compensatória as habilidades linguísticas perdidas pelo esquerdo.

A psicolinguística é um campo fértil de investigações científicas, e suas constantes interações com a neurociência a tornam uma área de fronteira onde se desenvolvem pesquisas de ponta sobre a linguagem e sobre o cérebro humano.

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Em tempo: quero aqui prestar minha homenagem à imortal Lygia Fagundes Teles, que faleceu ontem aos 98 anos. Viveu muito e viveu bem; escreveu muito e escreveu maravilhosamente bem!

Envolver a língua portuguesa

Na semana que passou, a cantora Anitta, que completa 29 anos hoje, realizou um feito inédito e memorável: tornou-se a primeira artista brasileira a chegar ao top one da plataforma de streaming Spotify com o sucesso Envolver. Claro que devemos estar contentes e orgulhosos com essa conquista, pela qual Anitta merece nossos parabéns, afinal trata-se de uma vitória no universo extremamente competitivo da música pop mundial. Mas acho que aqui também cabem algumas considerações sobre esse fato.

Em primeiro lugar, a música popular brasileira não vive hoje seu melhor momento. Pelo contrário, nosso país, que já produziu gênios como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Elis Regina, hoje tem como mainstream musical gêneros popularescos como o sertanejo e o funk. Mesmo a MPB de hoje em dia não tem produzido nomes com perspectivas de passar à posteridade. Que me perdoem os fãs de Anitta e da música atual se meu comentário parece ter um ranço saudosista, mas qualquer crítico musical sério pode confirmar o que estou dizendo. Aliás, esse cenário é um reflexo do próprio momento que o Brasil e o mundo estão vivendo.

Nesse contexto, Anitta se torna a número um do ranking musical mundial com uma canção “descartável”, num ritmo caribenho que visa a atingir sobretudo o público da América Latina e o grande mercado dos hispânicos que vivem nos Estados Unidos, tudo produzido segundo uma estética estritamente norte-americana e cantada em… espanhol. Quanta brasilidade!

É neste último ponto que, como linguista, gostaria de centrar a minha análise. Embora o Brasil seja o mais importante país da América Latina tanto em termos políticos e econômicos quanto culturais, é a única nação do continente a falar português. E nosso idioma, assim como toda a cultura que produz, é bastante periférico em termos mundiais. Não só não tem a importância histórica de línguas europeias mais “centrais”, como o francês, o inglês, o italiano e o alemão, como ainda sofre a concorrência de uma língua muito próxima à nossa e que, no último meio século, ganhou importância internacional: o espanhol. Sim, a língua de Cervantes já é a terceira mais importante língua europeia (em alguns casos até mesmo a segunda), atrás apenas do inglês e do francês. Justifica essa posição a enorme presença dos países hispanofalantes no hemisfério ocidental e o gigantesco mercado que representam. A própria comunidade hispânica dos Estados Unidos, por seu tamanho e peso político, fez com que o espanhol se tornasse a segunda língua daquele país, o que, convenhamos, não é pouca coisa. Some-se a isso o aumento da relevância da Espanha no âmbito da União Europeia, no que não é acompanhada por Portugal.

Por outro lado, a semelhança entre o espanhol e o português leva muitos estrangeiros que já sabem falar castelhano a não se interessar em aprender nosso idioma, uma vez que conseguem se comunicar conosco sem maiores embaraços.

Não faz muito tempo, costumava-se dizer que a ignorância dos países desenvolvidos em relação a nós era tanta que os americanos acreditavam que a capital do Brasil fosse Buenos Aires. (Hoje eles já sabem que é o Rio de Janeiro rs rs.) Infelizmente, ainda hoje, as notícias que chegam a eles sobre nós continuam a ter grande dose de folclore, já que nada de importante acontece ao sul do Equador. Sem dúvida, temos grandes artistas que fazem sucesso lá fora, mas, na maioria dos casos, ainda se trata de um sucesso localizado (por exemplo, apenas no Japão ou em certos países europeus) e que atinge um público mais elitizado, de cabeça mais aberta, que conhece e aprecia música além do que é oferecido pelas plataformas de streaming e pela indústria do marketing cultural.

É certo que nem Carmen Miranda, nem Tom Jobim, nem Milton Nascimento chegaram ao top one do Spotify (na época em que brilharam, por sinal, nem havia essa tecnologia), mas fizeram – e ainda fazem – sucesso levando ao mundo uma música verdadeiramente brasileira, única e original mesmo quando incorpora aqui e ali, de maneira discreta, elementos do jazz ou do rock anglo-saxônicos. Não vejo essa mesma qualidade em Anitta: parece que ela se rendeu totalmente ao sistema do show business americano, pondo a meta do sucesso planetário e do dinheiro que o acompanha acima do primor estético, da riqueza de conteúdo e da exaltação da nossa cultura.

Ironicamente, o filme brasileiro que concorreu este ano ao Oscar é um documentário rodado nos Estados Unidos e falado em inglês abordando a questão dos sem-teto norte-americanos. Parece que é só assim, na terra e na língua deles, que nós brasileiros temos condições de competir hoje em dia.

Qual é o plural de “Oscar”?

Ontem, com a cerimônia de entrega do Oscar 2022, ressurgiu a dúvida: qual é o plural de Oscar? Essa palavra é um daqueles nomes próprios que tendem a se tornar comuns, como gilete e band-aid (ou bandeide). No entanto, enquanto gilete pode ser qualquer lâmina de barbear, seja ou não da marca Gillette, o Oscar continua sendo por enquanto um prêmio único, conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e não qualquer prêmio cinematográfico; por isso, muitos dicionários não o registram como substantivo comum (embora a Wikipédia em português traga a grafia Óscar e seu plural Óscares). O mesmo vale para o prêmio Nobel, cuja grafia nobel e plural nobéis não são reconhecidos pela maioria das gramáticas.

Como se pluraliza então um nome próprio estrangeiro? Nesse ponto, os gramáticos também divergem, mas, de modo geral, vale a regra do emprego da forma plural da língua de origem. Assim, o plural de blitz em português é blitze (como em alemão). Só que essa regra exige que o redator seja poliglota (será que todos sabem o plural dos substantivos em alemão?), razão pela qual se permite a formação de um plural à moda portuguesa (isto é, acrescentando-se s), como em pizza x pizzas (e não pizze, como em italiano), o que soa mais familiar para nós.

Por tudo isso, entendo que o plural óscares (como dólares) só é possível se tivermos um substantivo comum singular óscar. De fato, o VOLP – Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa – registra essa forma, indicando que já se trata de um substantivo comum. Mas penso que ganhar um Oscar é como comprar um Ford: ninguém compra um forde, pois esse carro não existe. Logo, ou o sujeito ganhou “dois Oscar” (pois antropônimos em geral não admitem plural) ou ganhou “dois Oscars”, com plural à moda inglesa. Tenho notado que, na dúvida, os jornalistas costumam, nesse caso, dizer que o ator Fulano de Tal voltou para casa com duas estatuetas.

PC strikes again!

Tenho um conhecido que costumava praticar o famoso esporte do levantamento de copos. E nessa modalidade ele era tão imbatível que acabou ganhando como “prêmio” uma estadia forçada numa clínica de recuperação de dependentes químicos (para quem não sabe, o álcool também é droga, e seu tratamento não é diferente do da dependência de maconha, cocaína, crack, etc.). Pois não é que certo dia, tendo ido visitá-lo na clínica, acabei participando de um bate-papo com os coordenadores em que eles insistentemente se referiam aos dependentes do álcool como “alcoolistas”. Estranhei o neologismo, já que o termo que sempre me vem à cabeça no caso é “alcoólatra”.

Lembrei dos Alcoólicos Anônimos e, embora nunca tenha ouvido ninguém dizer que Fulano é alcoólico, mas sim alcoólatra, imaginei que o uso dessa palavra seja um eufemismo, já que o elemento de composição ‑latra assumiu uma carga pejorativa, ou então uma tradução direta do inglês alcoholic, visto que essa associação nasceu nos Estados Unidos.

Mas “alcoolista” já é um pouco demais para o meu gosto. Pode ser que derive do substantivo “alcoolismo” assim como “tabagista” (isto é, “fumante”) deriva de “tabagismo”, “automobilista” tem a ver com “automobilismo”, “comunista” com “comunismo”, e assim por diante. Mas o fato é que criaram o eufemismo do eufemismo! Agora já temos até o bebum politicamente correto!

Russofobia e outras fobias

Uma das ironias dessa guerra na Ucrânia é que o governo Putin resolveu se queixar de que a Rússia está sofrendo uma onda de “russofobia”, uma ojeriza e rejeição a tudo que é russo ou tem a ver com os russos. Por que será, né?

Bem, mas deixando de lado os aspectos políticos e até folclóricos da campanha anti-Rússia, como o boicote ao estrogonofe por certo bar de São Paulo, o fato é que esse neologismo, russofobia, vem somar-se a uma série de outras fobias instituídas de tempos para cá pelo politicamente correto: xenofobia, homofobia, transfobia, gordofobia… Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco até a claustrofobia e a agorafobia serão consideradas politicamente incorretas!

Brincadeiras à parte, o elemento de composição ‑fobia, que em grego quer dizer “aversão, repulsa”, tem sido bastante usado para identificar discursos de ódio contra certas minorias, o que indica que a tal russofobia segue essa onda. Com a única ressalva de que, no caso do governo russo, os discursos de ódio são plenamente justificáveis. Afinal, por mais amor e perdão que se tenha no coração, como não odiar um indivíduo e seus asseclas que massacram sobretudo mulheres e crianças do modo mais desleal e desumano por mera ambição de poder e vaidade pessoal?

Ah, e quanto ao estrogonofe, há controvérsia se sua origem é realmente russa. Parece que a ideia original veio de lá, mas foi tremendamente aperfeiçoada pelos franceses. Ou seja, o prato que conhecemos hoje como estrogonofe é muito mais uma iguaria francesa do que russa.

Pior ainda, certo vereador paulistano sugeriu a alteração do nome da Rua Rússia para Rua Ucrânia, bem como a da Avenida Lineu de Paula Machado, onde fica o consulado russo em São Paulo, para Avenida dos Heróis Ucranianos.

Só que, além do transtorno que a mudança do nome de um logradouro causa aos seus moradores e comerciantes, eu pergunto: e quando acabar a guerra, o governo Putin cair e as relações diplomáticas e comerciais com a Rússia voltarem ao normal, os nomes dos logradouros serão alterados de novo? Convém não confundir as justas e necessárias sanções econômicas, esportivas e culturais que os governos e empresas do Ocidente vêm impondo a Putin com essa atitude infantil que ganhou o nome de russofobia.

O peso das palavras

A linguagem é a mais maravilhosa invenção humana, aquilo que de fato nos tornou humanos e nos distinguiu para sempre dos outros animais, para o bem e para o mal – embora o linguista israelense Guy Deutscher faça a ressalva de que a linguagem nunca foi realmente inventada, já que é, ao que tudo indica, um instinto natural. De todo modo, poder fazer os outros compreenderem o que estamos pensando, transplantar para eles o nosso pensamento e os nossos sentimentos por meio da fala ou da escrita é verdadeiramente sensacional.

Mas a linguagem também tem sido ao longo dos tempos a principal fonte de discórdias e mesmo de conflitos sangrentos. Por isso, é preciso sempre dosar as palavras que empregamos, pois elas têm um peso que às vezes não somos capazes de avaliar. E palavra dita não volta atrás. Além disso, o que importa na comunicação não é o que dizemos, mas o que o outro entende daquilo que dizemos.

Nessa guerra da Ucrânia, estamos tendo vários exemplos de como as palavras são manipuladas para produzir certos efeitos de sentido. Em primeiro lugar, a própria guerra está sendo chamada pelo governo Putin de “operação militar especial” e a invasão de um país soberano, de “libertação”. E quem na Rússia utilizar os termos “guerra” ou “invasão” pode pegar até 15 anos de cadeia. Aliás, a própria censura imposta por Putin à imprensa e à internet mostra como os poderosos, especialmente os autocratas, têm medo das palavras e da informação que elas portam.

A resolução votada e aprovada pela ONU semana passada substituiu o termo “condena” por “lamenta” em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia por receio de irritar ainda mais um indivíduo que já provou não estar na plenitude de sua sanidade mental e tem o dedo no botão vermelho das armas nucleares.

Enquanto isso, o chanceler brasileiro Carlos França substitui a palavra “neutralidade”, usada por Bolsonaro, por “equilíbrio”, tentando dar um ar positivo à indiferença pelos mortos, feridos, desabrigados e exilados, pois o que importa são nossos interesses comerciais – leia-se fertilizantes –, mesmo sabendo que nossa neutralidade, ou melhor, equilíbrio, não vai permitir a importação desses insumos de que éramos autossuficientes décadas atrás, já que o comércio com a Rússia está internacionalmente bloqueado.

Por outro lado, é também com palavras que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, insufla em seu povo a coragem e o patriotismo para lutar contra os invasores. Zelensky, inicialmente desacreditado por ser um comediante que chegou ao poder na onda da antipolítica, revela-se com sua retórica poderosa um grande estadista, um verdadeiro líder, cuja maior arma, na falta de material bélico efetivo, são suas palavras. E que, com elas, conseguiu a proeza de unir o Ocidente e fazê-lo tomar medidas corajosas que, de outro modo, jamais seriam tomadas contra uma potência como a Rússia.

Neste grave momento da História, é preciso mais do que nunca saber usar bem as palavras, seja para aplacar ditadores, seja para enfrentá-los. Só o que não se pode é ficar calado.