O país do golpe

De vez em quando, eu e minha esposa gostamos de visitar uma loja de produtos japoneses chamada Daiso (atenção: isto não é um merchandising da loja, ok?). Para quem não conhece, trata-se de um comércio de utilidades fabricadas no Japão que vão desde artigos de escritório até brinquedos para pets, passando por utensílios de cozinha, organizadores para roupas, louças e até salgadinhos e sorvetes. Eu e ela costumamos ficar maravilhados com a criatividade infinita dos japoneses, que apresentam soluções para problemas que nem sabíamos que tínhamos. São produtos comuns, nada tecnológicos, mas que fazem toda a diferença no dia a dia das famílias, tornando nossa vida mais prática.

A criatividade japonesa é tanta que, não à toa, até algumas décadas atrás o Japão tinha a segunda economia do mundo, sobretudo graças aos seus insuperáveis produtos eletrônicos. Hoje esse posto é ocupado pela China, imbatível em matéria de tecnologia de ponta a preço módico. Mas também outros países desenvolvidos, como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Itália se destacam por uma indústria pujante e criativa, com ênfase em eletroeletrônicos, automóveis e aviões.

Enquanto isso, corre uma lenda de que o brasileiro é um povo muito criativo. É bem verdade que, durante muito tempo, nossa criatividade se restringiu às fantasias do Carnaval e a gambiarras (o “jeitinho” brasileiro) como empregar um cabo de vassoura para substituir um pé de mesa quebrado. Mas sobretudo a partir do advento da era digital, a criatividade brasileira foi canalizada para outra “tecnologia”: os golpes, cujo nome técnico é estelionato.

Todo dia, abundam novos golpes aplicados com mensagens de e-mail e Whatsapp, sites falsos, maquininhas de cartão, falsas entregas, falsos encontros amorosos, e assim por diante. Não que essa onda tenha surgido com a internet: nas décadas de 1930 e ’40, o malandro carioca já vendia o Cristo Redentor ao caipira recém-chegado ao Rio, que também comprava o bilhete de loteria premiado.

Além disso, nossa tecnologia aplicada à elaboração de esquemas de desvio de dinheiro público, agora turbinadas pelas emendas parlamentares, sempre foi insuperável. Nossas mutretas e maracutaias no setor financeiro, lesando correntistas, investidores, aposentados e pensionistas não ficam nada atrás — Daniel Vorcaro que o diga! E ainda temos a propaganda enganosa, os produtos milagrosos que curam desde impotência sexual até câncer, anunciados na TV nos famosos comerciais do tipo “ligue já”, e os inumeráveis ardis que comerciantes inventam para lucrar mais vendendo menos, como bombas de combustível adulteradas ou o “litro” de azeite de 900 ml.

De fato, o brasileiro é muito criativo… para o que não presta. Usássemos nossa frutífera imaginação para coisas úteis, como fazem os japoneses e os chineses, e não para lesar nossos próprios compatriotas, seríamos sem dúvida uma potência mundial. Mas, como gritaram os atletas brasileiros na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão, “aqui é Brasil!”.

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