Como se sabe, o português descende do latim. Isso explica por que a maior parte do nosso léxico é formada de palavras de origem latina. Mas nem todas essas palavras foram herdadas diretamente, muitas delas nos chegaram por meio de empréstimos. Para tornar mais clara essa noção, vamos explicar primeiramente a diferença entre herança e empréstimo.
Palavras herdadas, também chamadas de vernáculas ou hereditárias, são aquelas que já existiam no chamado latim vulgar, isto é, o latim coloquial das classes populares de Roma, e permaneceram na fala das pessoas, geração após geração, à medida que a língua lentamente evoluía, até o ponto em que já não podia mais ser chamada de latim, tão diferente que estava do idioma latino original, passando em determinado momento histórico a ser denominada português. O conjunto desses vocábulos herdados é o que se chama léxico patrimonial.
Mas esse léxico patrimonial contava com relativamente poucas palavras, principalmente aquelas mais usadas pelo povo simples e pouco ou nada letrado: termos referentes ao cotidiano, ao trabalho braçal, às partes do corpo, a animais e plantas, e assim por diante.
Por outro lado, a partir do século XII, quando o português se tornou um idioma de cultura, no qual passaram a ser redigidos documentos oficiais, textos religiosos, tratados filosóficos e científicos, bem como obras literárias, a língua precisou incorporar termos que até então não possuía, palavras das esferas política, jurídica, filosófica, científica, religiosa, além de termos abstratos em geral. O lugar onde nossa língua, assim como a maioria das línguas da Europa, foi buscar esses novos vocábulos foram as línguas clássicas, isto é, o latim literário (distinto do latim vulgar do mesmo modo como a norma-padrão do português difere do linguajar coloquial e regional) e o grego clássico, este principalmente através do latim, já que a própria língua latina havia se enriquecido com empréstimos do grego.
Por essa razão, muitas palavras portuguesas de origem latina nos chegaram por via erudita, tomadas de empréstimo ao latim, colhidas nos dicionários latinos por pessoas cultas, em geral escritores, pensadores, teólogos, filósofos e poetas. Só para se ter uma ideia, a quantidade de latinismos (palavras importadas do latim literário) introduzidos por Camões em Os Lusíadas é imensa.
Mas, à época de Camões, o Renascimento, também algumas palavras herdadas foram “repaginadas”, ganharam nova roupagem. É que, paralelamente a palavras hereditárias já existentes e, por sua origem popular, consideradas vulgares, os escritores da época introduziam na língua as formas latinas originais dessas palavras. Assim, ao lado da vernácula fugidio passávamos a ter a erudita fugitivo, junto a ancho ganhamos também amplo, e assim por diante.
A partir daí, ambas as formas conviviam por certo tempo, após o qual podiam seguir dois caminhos: ou continuavam a coexistir, mas com nuances de significado ligeiramente diferentes (por exemplo, dizemos que uma coisa fugaz, efêmera, é fugidia, mas um criminoso que se evadiu da prisão é fugitivo) ou a inovação erudita suplantava o termo antigo vulgar, que deixava pouco a pouco de ser usado. É o caso de seenço, do latim silentium, que deu lugar a silêncio. Ou de ẽemigo, do latim inimicum, depois substituído por inimigo.
Não só palavras herdadas estavam sujeitas a esse “banho de loja”, tecnicamente chamado de refecção ou restauração: também palavras de origem culta que haviam sofrido evolução fonética mais profunda, distanciando-se da matriz latina, podiam ser relatinizadas. Um caso curioso é o do latim florem, “flor”, que deu chor, pronunciado /tchor/, em português antigo por herança direta. Tempos depois, foi refeito para flor, mas, com o uso contínuo e a ação de um fenômeno fonético muito frequente em português, o chamado rotacismo (troca de l por r), mudou para fror e, por dissimilação, isto é, pela transformação do segundo r em l para diferenciar-se do primeiro, facilitando a pronúncia, deu frol (o sobrenome Fróis nada mais é do que o plural de frol). Na Renascença, houve nova refecção, e frol passou novamente a flor, que resiste bravamente até hoje — mas na fala inculta, especialmente no Nordeste, é pronunciada como fulô.
Outro caso semelhante é o do latim simplex, que sofreu rotacismo e se tornou simpres, ainda vivo à época de Camões, para mais tarde restituir o l, dando o nosso atual simples.
Muitas vezes, uma palavra latina que já existia na língua como vernácula ressurge em sua forma culta com significado bem diferente. Casos assim são orelha x aurícula, desenho x desígnio, feltro x filtro, espicho x espículo, e muitos outros.
Um caso recente de restauração de palavra herdada, que ainda está em processo, é o de mosteiro, do latim monasterium, que vem ultimamente cedendo cada vez mais lugar ao culto monastério. Só que desta vez a fonte de inspiração não é o latim clássico e sim o inglês moderno. E quem está impulsionando essa mudança não são os literatos ou eruditos e sim alguns maus tradutores de livros e dubladores de filmes, que, por falta de informação ou de tempo (especialmente a dublagem ou legendagem de filmes tem de ser feita a toque de caixa), fazem traduções literais e, a partir do inglês monastery, inventam monastério em português. Mas, enquanto o uso de monastério é cada vez mais frequente em filmes e documentários, os frades católicos ainda se referem ao seu claustro como mosteiro.
Um último caso interessante é o da palavra latina defensa, que entrou três vezes em nosso idioma. A descendente mais antiga desse termo em português é devesa, vocábulo vernáculo que quer dizer “cerca de árvores”. No século XII surge defesa, empréstimo do latim com queda do n. Já no século XVI nossa língua incorpora defensa, “alambrado”, esta última igual à forma latina.