Gatuno tem a ver com gato?

Um dos nomes que se dão ao ladrão e que hoje em dia está meio fora de moda é gatuno. Mas de onde veio esse termo? Teria ele algo a ver com gatos?

De fato, a palavra gatuno vem de gato e nos chegou no século XVIII através do espanhol, sendo uma das muitas em que o sufixo -uno se juntou a um nome de animal. Também temos em espanhol cabruno, vacuno e outros, que correspondem aos adjetivos portugueses cabrum (ou caprum), vacum, carneirum, ovelhum, bodum (que, como substantivo, significa “mau cheiro”), zebrum, galinhum, gatum (equivalente ao espanhol gatuno, que significa “felino”).

A origem dessas palavras está no latim, em que o sufixo -unus se unia a substantivos para formar adjetivos indicadores de relação. Assim, temos lacus, “lago” > lacunus (donde as palavras portuguesas lacuna e laguna, esta vinda pelo espanhol), portus, “porto” > Portunus, “Portuno, deus dos portos” tribus, “tribo” > tribunus, “tribuno, magistrado da tribo”, e também vacca, “vaca” > vaccunus, “bovino, vacum”. Algumas palavras admitiam adjetivos terminados tanto em -inus quanto em -unus. Por exemplo, de vacca derivou vaccinus (e daí o português científico vacina, pois as vacinas eram testadas em vacas antes de ser aplicadas em humanos) e vaccunus (em espanhol, “vacina” se diz vacuna). Igualmente temos caprinus e caprunus a partir de cabra, sendo que o primeiro deu em português caprino.

Portanto, a palavra espanhola gatuno referia-se originalmente a gato, sendo sinônima de felino. Como os gatos são animais muito espertos e rápidos (experimente deixar um pedaço de carne sobre a pia na presença de um bichano e distraia-se apenas um minuto para ver o que acontece), passou-se a atribuir propriedades felinas ao ladrão sorrateiro, e assim, com o tempo, gatuno tornou-se sinônimo de ladrão, malfeitor, fora da lei.

Corrigir o aluno é preconceito?

“O que o senhor pensa sobre a posição de muitos linguistas que criticam o ensino de gramática normativa nas escolas? Segundo essa visão, corrigir o aluno é considerado preconceito linguístico. Tenho consciência da variação linguística, mas isso vale para tudo? Por exemplo, se alguém não pronuncia uma palavra da forma como ela é, isso é variação? Qual o limite entre o preconceito linguístico e o ensino da gramática normativa (GN)? Como podemos diferenciar variação de uso incorreto? Que obras/materiais/vídeos o senhor indica que tratam dessas questões? Creio que essas são dúvidas de muitos professores de Língua Portuguesa pelo Brasil.”

A pergunta do leitor, que infelizmente não se identificou, é muito oportuna, e espero que a reflexão que faço a seguir seja proveitosa aos professores de português em geral.

A finalidade de ensinar língua portuguesa na escola é, num primeiro momento, ensinar a ler e escrever, isto é, alfabetizar o aluno. Num segundo momento, ensiná-lo a interpretar textos, ou seja, ler e compreender o que está lendo, bem como ensiná-lo a redigir com coesão, coerência, riqueza vocabular e de acordo com as regras da norma-padrão, que estão codificadas nas gramáticas normativas. Todas essas habilidades lhe serão cobradas em sua vida como cidadão e como profissional.

Uma decorrência desse aprendizado é que ele também saberá falar segundo a norma-padrão quando isso for necessário e tenderá a falar de modo mais próximo desse padrão mesmo em situações informais. Ou seja, a função do ensino de LP é preparar o aluno para ser um cidadão pleno e um profissional qualificado, não um mero trabalhador braçal ou um excluído social.

De fato, a variação linguística existe e deve ser respeitada, mas ensinar o padrão não é exercer preconceito linguístico. Se um professor de educação física corrige a postura de um aluno durante um exercício, ele está cumprindo seu papel de educador e não sendo preconceituoso. Portanto, a função da escola é corrigir o uso inadequado da língua. E inadequado é usar a norma que se trouxe de casa em situações que exigem linguagem formal, como uma reunião de trabalho, a redação de um documento, etc.

Se o papel do professor de LP fosse deixar o aluno se expressar em todas as situações como ele já o faz, essa disciplina não seria de modo algum necessária, pois todos já chegam à escola sabendo falar.

O que ocorre é que hoje a escola pública recebe um grande contingente de alunos provindos das classes mais baixas da sociedade, nascidos em famílias cujos pais são ignorantes e nas quais não há incentivo ao estudo, à leitura, e, sobretudo nas chamadas “comunidades” (leia-se “favelas”), há um preconceito em sentido contrário, isto é, quem tem mais estudo e se expressa melhor é que é discriminado.

A postura de certos linguistas de querer abolir o ensino da gramática normativa e de não corrigir a fala e a escrita do aluno atende a uma finalidade ideológica e a uma finalidade prática. A ideológica é a implementação de uma agenda “de esquerda” — na verdade, esquerda burra, pois esquerdistas inteligentes dão valor ao conhecimento e têm, eles próprios, grande proficiência na norma-padrão — que considera que inclusão social é normalizar o anormal e não transformar para melhor a realidade social dos menos favorecidos. A finalidade prática dessa postura é não criar conflitos com alunos que, por sua origem familiar e social, são potencialmente violentos. Ou seja, “deixe os alunos falarem como quiserem e fazerem o que bem entenderem; meu salário de professor está garantido do mesmo jeito”.

Observe que a questão do ensino ou não da gramática normativa afeta basicamente a escola pública, pois nas escolas particulares, em que a maioria dos alunos provém da classe média ou alta, esse debate praticamente não se coloca. A menos, é claro, que algum professor militante de esquerda lecione nessas escolas. E quando digo “militante”, não me refiro à escolha ideológica que o docente, como qualquer cidadão, tem o direito de fazer em sua vida privada; refiro-me ao extremismo ideológico que invade o fazer pedagógico e o deturpa, sobrepondo convicções pessoais aos fatos científicos.

O cumprimento de uma agenda político-partidária por boa parte dos professores dos cursos de Letras traz um viés nocivo ao fazer científico. Imagine um biólogo adepto do criacionismo bíblico confrontado com evidências da evolução das espécies em suas pesquisas. Ele tem dois caminhos a seguir: ou aceita as evidências concretas da evolução e renega sua crença no criacionismo ou nega as evidências em favor de seu dogma religioso. Em nome do cumprimento de sua agenda ideológica, o docente universitário dessa que chamo de “esquerda burra” — e há muitíssimos deles nas áreas de Humanas, especialmente das universidades públicas — recusa os fatos que, como cientista, deveria prezar e sobre os quais deveria apoiar suas pesquisas e reflexões.

O uso incorreto (segundo a gramática normativa, bem entendido) da língua é, sim, uma forma de variação, que em certos casos chega a se constituir como um dialeto (“nós fumo”, “nós vai”, “a gente cheguemo”, “pobrema” podem ser perfeitamente considerados como um dialeto do português — veja a esse respeito a obra de Amadeu Amaral).

Velhas palavras de roupa nova

Como se sabe, o português descende do latim. Isso explica por que a maior parte do nosso léxico é formada de palavras de origem latina. Mas nem todas essas palavras foram herdadas diretamente, muitas delas nos chegaram por meio de empréstimos. Para tornar mais clara essa noção, vamos explicar primeiramente a diferença entre herança e empréstimo.

Palavras herdadas, também chamadas de vernáculas ou hereditárias, são aquelas que já existiam no chamado latim vulgar, isto é, o latim coloquial das classes populares de Roma, e permaneceram na fala das pessoas, geração após geração, à medida que a língua lentamente evoluía, até o ponto em que já não podia mais ser chamada de latim, tão diferente que estava do idioma latino original, passando em determinado momento histórico a ser denominada português. O conjunto desses vocábulos herdados é o que se chama léxico patrimonial.

Mas esse léxico patrimonial contava com relativamente poucas palavras, principalmente aquelas mais usadas pelo povo simples e pouco ou nada letrado: termos referentes ao cotidiano, ao trabalho braçal, às partes do corpo, a animais e plantas, e assim por diante.

Por outro lado, a partir do século XII, quando o português se tornou um idioma de cultura, no qual passaram a ser redigidos documentos oficiais, textos religiosos, tratados filosóficos e científicos, bem como obras literárias, a língua precisou incorporar termos que até então não possuía, palavras das esferas política, jurídica, filosófica, científica, religiosa, além de termos abstratos em geral. O lugar onde nossa língua, assim como a maioria das línguas da Europa, foi buscar esses novos vocábulos foram as línguas clássicas, isto é, o latim literário (distinto do latim vulgar do mesmo modo como a norma-padrão do português difere do linguajar coloquial e regional) e o grego clássico, este principalmente através do latim, já que a própria língua latina havia se enriquecido com empréstimos do grego.

Por essa razão, muitas palavras portuguesas de origem latina nos chegaram por via erudita, tomadas de empréstimo ao latim, colhidas nos dicionários latinos por pessoas cultas, em geral escritores, pensadores, teólogos, filósofos e poetas. Só para se ter uma ideia, a quantidade de latinismos (palavras importadas do latim literário) introduzidos por Camões em Os Lusíadas é imensa.

Mas, à época de Camões, o Renascimento, também algumas palavras herdadas foram “repaginadas”, ganharam nova roupagem. É que, paralelamente a palavras hereditárias já existentes e, por sua origem popular, consideradas vulgares, os escritores da época introduziam na língua as formas latinas originais dessas palavras. Assim, ao lado da vernácula fugidio passávamos a ter a erudita fugitivo, junto a ancho ganhamos também amplo, e assim por diante.

A partir daí, ambas as formas conviviam por certo tempo, após o qual podiam seguir dois caminhos: ou continuavam a coexistir, mas com nuances de significado ligeiramente diferentes (por exemplo, dizemos que uma coisa fugaz, efêmera, é fugidia, mas um criminoso que se evadiu da prisão é fugitivo) ou a inovação erudita suplantava o termo antigo vulgar, que deixava pouco a pouco de ser usado. É o caso de seenço, do latim silentium, que deu lugar a silêncio. Ou de ẽemigo, do latim inimicum, depois substituído por inimigo.

Não só palavras herdadas estavam sujeitas a esse “banho de loja”, tecnicamente chamado de refecção ou restauração: também palavras de origem culta que haviam sofrido evolução fonética mais profunda, distanciando-se da matriz latina, podiam ser relatinizadas. Um caso curioso é o do latim florem, “flor”, que deu chor, pronunciado /tchor/, em português antigo por herança direta. Tempos depois, foi refeito para flor, mas, com o uso contínuo e a ação de um fenômeno fonético muito frequente em português, o chamado rotacismo (troca de l por r), mudou para fror e, por dissimilação, isto é, pela transformação do segundo r em l para diferenciar-se do primeiro, facilitando a pronúncia, deu frol (o sobrenome Fróis nada mais é do que o plural de frol). Na Renascença, houve nova refecção, e frol passou novamente a flor, que resiste bravamente até hoje — mas na fala inculta, especialmente no Nordeste, é pronunciada como fulô.

Outro caso semelhante é o do latim simplex, que sofreu rotacismo e se tornou simpres, ainda vivo à época de Camões, para mais tarde restituir o l, dando o nosso atual simples.

Muitas vezes, uma palavra latina que já existia na língua como vernácula ressurge em sua forma culta com significado bem diferente. Casos assim são orelha x aurícula, desenho x desígnio, feltro x filtro, espicho x espículo, e muitos outros.

Um caso recente de restauração de palavra herdada, que ainda está em processo, é o de mosteiro, do latim monasterium, que vem ultimamente cedendo cada vez mais lugar ao culto monastério. Só que desta vez a fonte de inspiração não é o latim clássico e sim o inglês moderno. E quem está impulsionando essa mudança não são os literatos ou eruditos e sim alguns maus tradutores de livros e dubladores de filmes, que, por falta de informação ou de tempo (especialmente a dublagem ou legendagem de filmes tem de ser feita a toque de caixa), fazem traduções literais e, a partir do inglês monastery, inventam monastério em português. Mas, enquanto o uso de monastério é cada vez mais frequente em filmes e documentários, os frades católicos ainda se referem ao seu claustro como mosteiro.

Um último caso interessante é o da palavra latina defensa, que entrou três vezes em nosso idioma. A descendente mais antiga desse termo em português é devesa, vocábulo vernáculo que quer dizer “cerca de árvores”. No século XII surge defesa, empréstimo do latim com queda do n. Já no século XVI nossa língua incorpora defensa, “alambrado”, esta última igual à forma latina.

O que significa, afinal, a palavra “humanidade”?

Etimologicamente, humanidade é em primeiro lugar a qualidade de humano, aquilo que nos torna humanos, seja para o bem ou para o mal. É bem verdade que esse termo costuma ser mais frequentemente usado em sentido positivo, como se nossa condição de humanidade fosse a bondade, a generosidade e o altruísmo, quando, na realidade, somos a única espécie animal dotada de maldade, os únicos a praticar a crueldade por prazer.

Mas humanidade passou também, sobretudo a partir do século XVIII, a designar a coletividade dos seres humanos ou, em termos mais cientificamente rigorosos, o conjunto dos espécimes da espécie Homo sapiens (antes dessa data, era mais comum aqui no Ocidente nos referirmos à totalidade dos seres humanos como cristandade, o que implicava, obviamente, que os não cristãos não eram gente).

E é esse exatamente o ponto que quero debater aqui: a humanidade é uma mera abstração, um conceito elaborado e utilizado por religiosos, filósofos, cientistas sociais e filantropos que veem a espécie humana como uma grande família, na qual todos são irmãos. Nada mais equivocado: sinto informá-los de que a humanidade não existe, o que existe para cada espécime de Homo sapiens é o seu bando, isto é, sua tribo, seu bairro, sua cidade, seu estado ou província e no máximo sua nação. Alguns, como os muçulmanos, chegam a considerar a humanidade algo mais amplo, isto é, a soma de todos os indivíduos que professam a mesma fé que eles — aquilo que nós mesmos fazíamos no passado, quando só a cristandade importava.

Na prática, jamais abandonamos nosso instinto tribal, apenas as tribos foram ficando maiores à medida que o progresso aumentava. Nossos antepassados caçadores-coletores já viviam em pequenos grupos, e estes eram para eles a sua “humanidade”. Tanto que esses bandos de não mais que 10 ou 20 pessoas guerreavam entre si na disputa por alimento. Antes da chegada do homem branco, os indígenas da América também guerreavam entre si, tanto que a função social de guerreiro era a condição mais honrosa que um indígena podia ter.

Em sociedades complexas como as ditas “civilizadas”, em que grupos sociais os mais diversos (classes socioeconômicas, etnias, regiões geográficas, gerações, torcidas organizadas de futebol, confissões religiosas, etc.) estão o tempo todo em conflito, a própria noção de nacionalidade se perde, que dirá a de humanidade! Afinal, somos todos brasileiros, mas o criminoso não deixa de assaltar e/ou matar o cidadão de bem, o corintiano não deixa de jogar paus, pedras e coquetéis Molotov em flamenguistas e vice-versa, o branco não deixa de ter preconceito contra o negro, o sulista contra o nordestino, o pastor contra o pai de santo, o baby boomer contra a geração Z e vice-versa, assim como o bolsonarista não deixa de odiar o petista — e mais uma vez vice-versa.

Quando vemos pela TV a fome na África, parece que estão falando de outra espécie animal ou de ETs vindos de outro planeta — aquilo não nos comove, afinal são indivíduos muito diferentes de nós. Mesmo quando a tragédia ocorre perto de nós, como nas recentes enchentes no Rio Grande do Sul, há quem pense: o que me importam os gaúchos, no fundo são alemães falando mal o português!

Os constantes conflitos entre povos, acentuados pelas disputas entre governos e ideologias, a ganância por poder e dinheiro, só mostram que apelar pelo fim das guerras e da miséria, pelo controle das mudanças climáticas e pela salvação do planeta (em última análise, pela salvação da humanidade) não tem tido nenhum efeito, afinal cada um de nós só quer salvar a própria pele ou, no máximo, a pele de seus iguais. A humanidade, essa abstração de filósofos românticos, vive numa competição de soma zero, em que todos, querendo ganhar, saem perdendo.