Muitos cientistas são ou foram declaradamente ateus. Sobretudo os grandes. Mas também há cientistas confessamente religiosos. Não vou citar os antigos, como Newton ou Galileu, por exemplo, pois naquela época a ciência apenas engatinhava, a religião ainda era a principal forma de explicação da realidade e a Igreja era implacável com quem não seguisse seus preceitos. Mas ainda hoje há cientistas cristãos, judeus, muçulmanos, embora a maioria deles tenha o bom senso de não misturar suas convicções religiosas com sua pesquisa.
Mas o ponto que quero considerar — e que talvez explique essa divergência de atitudes — é que há dois tipos de cientistas: os técnicos e os pensadores. Cientistas que chamo aqui de técnicos são geralmente os experimentalistas e aplicativos, que realizam experiências em seus laboratórios, fazem descobertas notáveis, as mais das vezes buscando soluções para grandes problemas, mas em geral não se indagam sobre o porquê de os fenômenos ocorrerem como ocorrem. Pesquisadores em áreas como química, medicina, computação e economia costumam ser assim. Já os cientistas pensadores costumam ser os teóricos, aqueles que se debruçam sobre os resultados das pesquisas experimentais para buscar justamente a explicação sobre como e por que as coisas são como são e que desejam achar respostas às grandes perguntas existenciais. Certa vez escrevi que os primeiros fazem ciência (com “c” minúsculo) e os segundos fazem Ciência (com “C” maiúsculo).
Essa postura de busca de uma explicação lógica, racional e naturalista para a realidade é o que os faz questionar os dogmas e as ideologias. Esses pesquisadores são verdadeiros filósofos, que escrevem livros para o grande público explicando a ciência e, no passado, foram os que mais sofreram a perseguição da Santa Inquisição (que de santa não tinha nada).
No primeiro grupo eu colocaria nomes como Albert Sabin, inventor da vacina contra a poliomielite, Alexander Fleming, criador da penicilina, Christian Barnard, cirurgião que realizou o primeiro transplante de coração, Michael Faraday, descobridor das leis do eletromagnetismo, dentre outros. Este último, por sinal, era um fervoroso protestante anglicano. Muitos desses cientistas atribuíam a causa de suas descobertas e mesmo seus próprios dons de investigadores a Deus. Para eles, a ciência era um instrumento de descrição da criação divina.
Já no segundo grupo eu coloco Charles Darwin, Albert Einstein, Sigmund Freud, Carl Jung, Max Planck, Carl Sagan, Richard Dawkins, Stephen Hawking, Steven Pinker, Daniel Dennett, Jared Diamond, Noam Chomsky, Marcelo Gleiser (para citar um brasileiro)… A obra desses cientistas não apenas descreve o funcionamento do Universo, da vida, da mente humana, mas busca a explicação última das questões fundamentais da humanidade: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, por que existe a realidade ao invés do nada, e assim por diante. E fazem isso sem jamais recorrer à “explicação” fácil mas errada (e ingênua) das doutrinas religiosas.
Há, no entanto, um tipo de cientista técnico que às vezes se aventura a ser um pensador sem ter o estofo suficiente para tanto. Cito particularmente o caso de Francis Collins, o famoso geneticista americano que sequenciou o genoma humano. Como excelente técnico que é, ele empregou os métodos mais modernos para realizar seu feito. E foi tecnicamente irrepreensível. No entanto, crente devoto que também é, interpretou o código genético como a assinatura do deus judaico-cristão em que acredita. E escreveu um livro chamado A linguagem de Deus, em que faz contorcionismos lógicos para adequar a molécula de DNA às Sagradas Escrituras, tal como Tomás de Aquino conformou (e sobretudo deformou) a lógica de Aristóteles à doutrina cristã.
Assim, os grandes pensadores da ciência são levados ao ateísmo ou, pelo menos, ao agnosticismo na medida em que conciliam os dados empíricos obtidos pelos cientistas técnicos ao raciocínio lógico, ao pensamento racional, ao mergulho filosófico que seu conhecimento lhes proporciona. Eles se dobram às evidências e se convencem de que as narrativas religiosas são simplesmente falsas. Portanto, vão ao mais profundo que a mente humana consegue ir em busca de respostas. Já os técnicos nadam mais perto da superfície. Nada contra pesquisadores que têm fé, desde que, ao fazer ciência, não embutam nela o viés metafísico, mas tenho para mim que esses serão sempre técnicos, nunca pensadores de fato.