As diversas camadas da semântica — ou “a coisa tá preta!”

Semântica é o ramo da linguística que estuda o significado dos signos. Uma palavra é um signo verbal, já que tem um significante (sua forma fônica ou gráfica) e um — ou, em geral, vários — significado(s). Toda palavra é formada de um ou mais signos menores, não autônomos (isto é, que não podem, sozinhos, funcionar como palavras), chamados morfemas. Por exemplo, a palavra menininhas tem os seguintes morfemas:

menin-: radical, que contém o significado lexical, isto é, representa o conceito de “criança” e remete a um referente (as crianças existentes no mundo);

inh-: sufixo indicativo da função gramatical “grau diminutivo”;

-a-: vogal temática nominal, neste caso específico indicativa do gênero feminino do substantivo e, no plano referencial, do sexo feminino do referente;

-s: desinência, neste caso, indicativa do número plural.

O radical menin-, por sua vez, comporta uma série de acepções, ou significados específicos dos contextos em que a palavra é empregada: criança, adolescente, jovem adulto, pessoa de aparência jovem (mesmo que não o seja), serviçal, etc.

Mas a semântica não se ocupa apenas do significado superficial de uma palavra ou enunciado, pois, se assim o fosse, toda frase ou texto seria meramente a soma dos significados de suas palavras constituintes, o que não é verdade. O sentido de um enunciado ou discurso depende de uma série de fatores como o local e o momento da enunciação, os sujeitos enunciadores (emissor e receptor), o contexto (situação, ambiente, referenciais, grau de formalidade, objetivo da comunicação), o conhecimento que os sujeitos enunciadores têm do mundo, e assim por diante. Pode-se dizer que há camadas de significado, desde o sentido literal até o que aquele enunciado quer efetivamente dizer naquele discurso específico, naquele local, naquele momento, entre aqueles interlocutores. Vai-se assim desde o nível mais superficial, a estrutura de superfície do enunciado, até sua estrutura hiperprofunda.

Tomemos como exemplo a seguinte situação: um homem, tendo nas mãos um boleto a pagar (neste exemplo, uma conta de água) e sabendo não ter dinheiro para pagá-lo, que diz à sua esposa: É, a coisa tá preta!

Se esse enunciado — que muitos julgam erroneamente ter conotação racista, pois refere-se apenas ao céu negro prenunciando uma tempestade — for interpretado literalmente, representará em nossa mente apenas algo (uma coisa, um objeto, que não sabemos qual seja) que no momento apresenta a cor preta. Assim descontextualizada, essa declaração pode significar qualquer coisa, mas ao mesmo tempo não se reporta a nada.

Numa camada semântica mais abaixo, mas ainda literal, já se interpreta que a frase em questão se refere a um céu coberto de nuvens escuras e daí se infere a iminência de um temporal.

Numa terceira camada de profundidade, já se pressupõe que uma tempestade iminente representa perigo: de alagamentos, quedas de árvores, desabamentos de casas, deslizamento de encostas, e por consequência caos urbano, mortes, tragédia. Já sabemos que a coisa tá preta aponta para algo negativo, mas o quê?

Na próxima camada ou nível semântico, agora já em sentido conotativo, compreende-se que a frase não se refere a um fenômeno meteorológico e sim a uma situação de vida que se apresenta como difícil, problemática. Portanto, a coisa tá preta pode ser reformulada como “a minha (ou nossa) situação atual apresenta um ou mais problemas de difícil ou impossível solução”. Mas que situação é essa?

O contexto do homem olhando preocupado para a conta d’água e para sua esposa, que tem ciência da escassez atual de recursos financeiros do casal, permite decifrar a charada: temos de pagar a conta, mas não temos dinheiro para isso; portanto, se não pagarmos, o fornecimento de água será cortado e não teremos mais como cozinhar, tomar banho, lavar o quintal, matar a sede, etc. Toda essa situação espinhosa pode ser inferida do contexto, mas nenhuma dessas informações está explícita na frase enunciada pelo homem. Por conseguinte, a frase quer dizer muito mais do que ela efetivamente diz. E, ao mesmo tempo, ela diz algo muito mais específico do que a interpretação literal que se faz no primeiro nível semântico, o de superfície.

Já estamos na estrutura profunda do enunciado, mas ainda não chegamos à hiperprofunda, à camada conceptual, em que o sentido se reduz a uma mera expressão algébrica. Nesta última e mais profunda camada, temos a seguinte situação:

  1. para sobreviver, o homem e sua esposa precisam de água;
  2. para ter água, o homem precisa pagar um valor à empresa concessionária do serviço de água e esgoto;
  3. em troca, a companhia de água e esgoto deve fornecer o produto água ao homem;
  4. o homem não tem dinheiro;
  5. logo, o homem não pode pagar a conta;
  6. em consequência, a companhia deve sustar o fornecimento de água ao homem;
  7. como resultado, o homem e sua esposa vão sofrer.

Convertendo isso na metalinguagem da semântica hiperprofunda, também chamada de semântica conceptual, temos (os símbolos Ç e È representam respectivamente conjunção e disjunção, e a flecha indica processo de passagem de um estado 1 a um estado 2):

  1. O ente HOMEM (H) deve pagar à COMPANHIA (C), o que significa que ele deve dar DINHEIRO (D) à COMPANHIA e esta deve dar ÁGUA (A) ao HOMEM; em termos conceptuais, o HOMEM deve passar do estado de conjunção com o ente DINHEIRO e disjunção com o ente ÁGUA para o estado de disjunção com DINHEIRO e conjunção com ÁGUA: Estado 1: H Ç D È C, H È A Ç C → Estado 2: H È D Ç C, H Ç A È C.
  2. O HOMEM não tem como pagar, portanto está em disjunção com o ente DINHEIRO: H È D. Isso implica que ele não pode pagar à COMPANHIA: H È D Þ H não poder fazer D È C → D Ç C.
  3. Isso implica que, se não pode pagar, não pagará: H não poder fazer D È C → D Ç C Þ H não fazer D È C → D Ç C.
  4. Consequentemente, a COMPANHIA deixará de fornecer ÁGUA ao HOMEM: H não fazer D È C → D Ç C Þ C fazer H Ç A → H È A.
  5. Sem ÁGUA, o HOMEM (e sua esposa, claro) vai sofrer, portanto vai passar de um estado de não dor (–dor) para um estado de dor (+dor): C fazer H Ç A → H È A Þ H(–dor) → H(+dor). (Observação: “–dor” e “+dor” são atributos do ente HOMEM.)

Em resumo, é tudo isso que a simples frase a coisa tá preta quer dizer. Evidentemente, todo esse cálculo lógico-conceptual deve ser muito maçante ao leitor leigo, e um computador processaria toda essa informação de modo muito mais rápido e menos cansativo do que um ser humano (mesmo para os lógicos e os matemáticos todo esse percurso mental é bem penoso). Mas é exatamente isso que a Inteligência Artificial faz — e em frações de segundos — para compreender nossos enunciados e responder a eles, como a Alexa® que muitos de nós temos em casa.

Um lugar na janelinha

A semana que passou foi marcada por uma polêmica inusitada: num voo do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, uma criança chora pedindo para viajar na janelinha do avião, a moça sentada à janela — que pagou por esse assento — permanece indiferente, a mãe da criança nada fala, mas uma terceira mulher resolve tomar as dores do menino e começa a filmar a jovem sentada à janela dizendo que, em pleno século XXI, ela não tem coração, não tem nenhuma empatia pela criança, e por aí vai. Depois, a filha dessa mulher espalha o vídeo em suas redes sociais e o assunto viraliza, polarizando mais uma vez a nação. De um lado, os defensores da jovem Jennifer, a moça da janela, argumentando que ela exerceu seu direito ao assento com vista para as nuvens e reprovando a mãe da criança mimada, que não saberia impor limites ao filho. De outro, os defensores de Aline, a mãe, acusando Jennifer de insensibilidade e egoísmo. E nenhum dos lados sabendo que quem provocou a controvérsia foi a nutricionista Eluciana, que filmou a cena e fez os comentários desairosos contra Jennifer. Mas esta, até então uma pacata bancária anônima, de repente ganhou dois milhões de seguidores em suas redes sociais sem ter feito absolutamente nada — literalmente nada! Agora já vem sendo assediada por marcas que a querem como sua garota-propaganda.

Esse episódio nos ensina várias lições. Primeiro, que hoje, na era dos smartphones, qualquer um que se sinta de alguma forma injustiçado ou ultrajado se acha no direito de sair filmando os outros, em flagrante desrespeito ao direito de imagem, ao direito à privacidade e até ao direito à ampla defesa.

Segundo, que hoje qualquer um se sente no direito (eu diria até no dever) de passar adiante em suas redes sociais qualquer tipo de notícia capaz de causar controvérsia — e com isso obter engajamento — sem checar a fonte ou a veracidade da informação. Se a notícia em questão for uma fake news ou um fato descontextualizado, o estrago já estará feito. E a monetização garantida.

Em terceiro lugar, a internet se transformou no grande tribunal de justiçamento público, no qual as pessoas julgam, sentenciam e executam o linchamento moral dos outros sem possibilidade de apelação e, o que é pior, sem se aterem à realidade dos fatos. Como disse certa vez um famoso editor de jornais, se a versão é mais interessante que o fato, publique-se a versão.

Em quarto, hoje em dia as pessoas são muito ciosas de seus direitos, mas não tanto de seus deveres, logo todos dão carteiradas em todos. Quer dizer, todos não: ainda há pessoas de bom senso e dotadas de civilidade e gentileza, que dialogam em vez de agredir, mas são cada vez em menor número.

Por último, qualquer pessoa absolutamente medíocre pode tornar-se uma (sub)celebridade e gozar de seus quinze segundos de fama (quinze minutos é uma eternidade hoje em dia) sem ter mérito algum; a opinião do grande pensador e a do tiozinho do zap têm o mesmo peso nas redes. Isso quando a deste não dá mais ibope que a daquele!

Agora que as grandes emissoras de televisão restabeleceram a verdade dos fatos, esclarecendo quem é quem nessa história, pouco importa: o partido já está tomado, o linchamento tanto de uma quanto da outra já foi feito, o vídeo já foi monetizado, o senhor Mark Zuckerberg já ficou (ainda) mais rico, e vida que segue, com uns metendo o bedelho em escala global na vida dos outros.

O cancelamento nosso de cada dia

Dia 17 último, durante os Jogos Jurídicos tradicionalmente disputados entre alunos de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), torcedores desta última gritaram impropérios de cunho supostamente racista contra os estudantes da USP, chamando-os de “cotistas” e “pobres” (usei a expressão supostamente racista porque cotista e pobre não são, salvo melhor juízo, denominações de raça e sim de condição social).

Já no dia 27 deste mesmo mês, a desembargadora Rosita Falcão Maia, durante uma sessão do Tribunal de Justiça da Bahia, fez críticas ao sistema de cotas raciais adotado no Brasil ao dizer que elas “vieram mais para desunir do que unir a população”. A sessão deliberava sobre a admissão ou não de uma candidata aprovada como cotista num concurso do próprio Tribunal.

A desembargadora também afirmou que “a meritocracia é importantíssima no serviço público”. E ainda alegou que a Faculdade de Direito da Universidade da Bahia (UFBA) “era excelente, [mas] hoje já não é tanto, porque todos os professores comentam o desnível dos estudantes. O nível dos estudantes baixou”.

Por fim, a filha de um amigo meu saiu-se muito bem no vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mas foi barrada pela política de cotas. Obteve nota geral 7,65 enquanto os cotistas entraram com menos de 6,00.

Tanto a manifestação dos torcedores da PUC-SP quanto a da magistrada baiana foram intensamente repudiadas por seu caráter racista, preconceituoso e discriminatório.

Bem, criticar ou injuriar pretos e pardos pelo simples fato de serem pretos ou pardos é, sem dúvida alguma, um abominável ato de racismo, especialmente porque ninguém tem o poder de escolher a cor da própria pele (que eu saiba, Michael Jackson foi o único a fazer isso). Mas criticar uma política governamental de cotas ou enaltecer o critério do mérito não constituem crime. Principalmente quando a crítica tem algum embasamento. E parece que a da desembargadora tinha. Primeiro, ela apontou o próprio diagnóstico dos professores do curso de Direito da UFBA. Em segundo lugar, o episódio dos Jogos Jurídicos USP x PUC demonstra que, de fato, as cotas geram divisão em vez de promover união. Antes delas, a presença de um aluno negro nos bancos da universidade, ainda que minoritária, era digna de louvor, visto que o estudante em questão havia superado inúmeras barreiras — de pobreza, de educação precária, de desestímulo social, de dificuldade de transporte e alimentação — para chegar àquela posição. Era alguém que fez por merecer o lugar onde estava. Hoje, os cotistas são vistos por muitos colegas não cotistas como alguém que entrou na universidade pela porta dos fundos, alguém que, sem ter o devido mérito, usufruiu um privilégio. Não vou entrar aqui nas espinhosas questões de reparação histórica, promoção da diversidade, combate ao racismo, etc. etc. Estou apenas me referindo ao sentimento de injustiça que muitos alunos, como a filha de meu amigo, nutrem em relação a colegas que, em termos de bagagem cultural, estão em posição inferior. Sentimento esse que produz desunião e desconfiança num ambiente que deveria ser de fraternidade e coleguismo.

Mas, como se vê, a própria crítica à política de cotas, cujo objetivo seria o de combater o racismo, de que está na prática alimentando o racismo, ainda que escorada em fatos, é ela própria acusada de ser racista. Diante disso, só nos resta depositar flores sobre o túmulo da liberdade de consciência e de expressão do pensamento.

O que me choca é que, quando magistrados, professores, estudiosos e intelectuais criticam esta ou aquela política, não o fazem com propósito depreciativo e sim com espírito de crítica construtiva, de quem deseja aperfeiçoar o sistema e não destruí-lo. Mas mesmo a crítica construtiva é vista como um ataque aos direitos — e talvez até privilégios — conquistados por certas minorias, que por meio deles exercem seu poder de censurar e cancelar qualquer um que pense diferente.