Semântica é o ramo da linguística que estuda o significado dos signos. Uma palavra é um signo verbal, já que tem um significante (sua forma fônica ou gráfica) e um — ou, em geral, vários — significado(s). Toda palavra é formada de um ou mais signos menores, não autônomos (isto é, que não podem, sozinhos, funcionar como palavras), chamados morfemas. Por exemplo, a palavra menininhas tem os seguintes morfemas:
menin-: radical, que contém o significado lexical, isto é, representa o conceito de “criança” e remete a um referente (as crianças existentes no mundo);
–inh-: sufixo indicativo da função gramatical “grau diminutivo”;
-a-: vogal temática nominal, neste caso específico indicativa do gênero feminino do substantivo e, no plano referencial, do sexo feminino do referente;
-s: desinência, neste caso, indicativa do número plural.
O radical menin-, por sua vez, comporta uma série de acepções, ou significados específicos dos contextos em que a palavra é empregada: criança, adolescente, jovem adulto, pessoa de aparência jovem (mesmo que não o seja), serviçal, etc.
Mas a semântica não se ocupa apenas do significado superficial de uma palavra ou enunciado, pois, se assim o fosse, toda frase ou texto seria meramente a soma dos significados de suas palavras constituintes, o que não é verdade. O sentido de um enunciado ou discurso depende de uma série de fatores como o local e o momento da enunciação, os sujeitos enunciadores (emissor e receptor), o contexto (situação, ambiente, referenciais, grau de formalidade, objetivo da comunicação), o conhecimento que os sujeitos enunciadores têm do mundo, e assim por diante. Pode-se dizer que há camadas de significado, desde o sentido literal até o que aquele enunciado quer efetivamente dizer naquele discurso específico, naquele local, naquele momento, entre aqueles interlocutores. Vai-se assim desde o nível mais superficial, a estrutura de superfície do enunciado, até sua estrutura hiperprofunda.
Tomemos como exemplo a seguinte situação: um homem, tendo nas mãos um boleto a pagar (neste exemplo, uma conta de água) e sabendo não ter dinheiro para pagá-lo, que diz à sua esposa: É, a coisa tá preta!
Se esse enunciado — que muitos julgam erroneamente ter conotação racista, pois refere-se apenas ao céu negro prenunciando uma tempestade — for interpretado literalmente, representará em nossa mente apenas algo (uma coisa, um objeto, que não sabemos qual seja) que no momento apresenta a cor preta. Assim descontextualizada, essa declaração pode significar qualquer coisa, mas ao mesmo tempo não se reporta a nada.
Numa camada semântica mais abaixo, mas ainda literal, já se interpreta que a frase em questão se refere a um céu coberto de nuvens escuras e daí se infere a iminência de um temporal.
Numa terceira camada de profundidade, já se pressupõe que uma tempestade iminente representa perigo: de alagamentos, quedas de árvores, desabamentos de casas, deslizamento de encostas, e por consequência caos urbano, mortes, tragédia. Já sabemos que a coisa tá preta aponta para algo negativo, mas o quê?
Na próxima camada ou nível semântico, agora já em sentido conotativo, compreende-se que a frase não se refere a um fenômeno meteorológico e sim a uma situação de vida que se apresenta como difícil, problemática. Portanto, a coisa tá preta pode ser reformulada como “a minha (ou nossa) situação atual apresenta um ou mais problemas de difícil ou impossível solução”. Mas que situação é essa?
O contexto do homem olhando preocupado para a conta d’água e para sua esposa, que tem ciência da escassez atual de recursos financeiros do casal, permite decifrar a charada: temos de pagar a conta, mas não temos dinheiro para isso; portanto, se não pagarmos, o fornecimento de água será cortado e não teremos mais como cozinhar, tomar banho, lavar o quintal, matar a sede, etc. Toda essa situação espinhosa pode ser inferida do contexto, mas nenhuma dessas informações está explícita na frase enunciada pelo homem. Por conseguinte, a frase quer dizer muito mais do que ela efetivamente diz. E, ao mesmo tempo, ela diz algo muito mais específico do que a interpretação literal que se faz no primeiro nível semântico, o de superfície.
Já estamos na estrutura profunda do enunciado, mas ainda não chegamos à hiperprofunda, à camada conceptual, em que o sentido se reduz a uma mera expressão algébrica. Nesta última e mais profunda camada, temos a seguinte situação:
- para sobreviver, o homem e sua esposa precisam de água;
- para ter água, o homem precisa pagar um valor à empresa concessionária do serviço de água e esgoto;
- em troca, a companhia de água e esgoto deve fornecer o produto água ao homem;
- o homem não tem dinheiro;
- logo, o homem não pode pagar a conta;
- em consequência, a companhia deve sustar o fornecimento de água ao homem;
- como resultado, o homem e sua esposa vão sofrer.
Convertendo isso na metalinguagem da semântica hiperprofunda, também chamada de semântica conceptual, temos (os símbolos Ç e È representam respectivamente conjunção e disjunção, e a flecha indica processo de passagem de um estado 1 a um estado 2):
- O ente HOMEM (H) deve pagar à COMPANHIA (C), o que significa que ele deve dar DINHEIRO (D) à COMPANHIA e esta deve dar ÁGUA (A) ao HOMEM; em termos conceptuais, o HOMEM deve passar do estado de conjunção com o ente DINHEIRO e disjunção com o ente ÁGUA para o estado de disjunção com DINHEIRO e conjunção com ÁGUA: Estado 1: H Ç D È C, H È A Ç C → Estado 2: H È D Ç C, H Ç A È C.
- O HOMEM não tem como pagar, portanto está em disjunção com o ente DINHEIRO: H È D. Isso implica que ele não pode pagar à COMPANHIA: H È D Þ H não poder fazer D È C → D Ç C.
- Isso implica que, se não pode pagar, não pagará: H não poder fazer D È C → D Ç C Þ H não fazer D È C → D Ç C.
- Consequentemente, a COMPANHIA deixará de fornecer ÁGUA ao HOMEM: H não fazer D È C → D Ç C Þ C fazer H Ç A → H È A.
- Sem ÁGUA, o HOMEM (e sua esposa, claro) vai sofrer, portanto vai passar de um estado de não dor (–dor) para um estado de dor (+dor): C fazer H Ç A → H È A Þ H(–dor) → H(+dor). (Observação: “–dor” e “+dor” são atributos do ente HOMEM.)
Em resumo, é tudo isso que a simples frase a coisa tá preta quer dizer. Evidentemente, todo esse cálculo lógico-conceptual deve ser muito maçante ao leitor leigo, e um computador processaria toda essa informação de modo muito mais rápido e menos cansativo do que um ser humano (mesmo para os lógicos e os matemáticos todo esse percurso mental é bem penoso). Mas é exatamente isso que a Inteligência Artificial faz — e em frações de segundos — para compreender nossos enunciados e responder a eles, como a Alexa® que muitos de nós temos em casa.