Qual o certo: castanha-do-pará ou castanha-do-brasil?

Nestas festas de fim de ano, estarão mais uma vez presentes nas mesas dos brasileiros as frutas secas, dentre as quais a brasileiríssima castanha-do-pará. Nesse período, diversos chefs têm veiculado na TV e internet receitas com essa semente. Só que, em grande parte delas, designada como castanha-do-brasil.

É um fato ainda a ser investigado com rigor científico, mas desde já fico com a impressão de que esta segunda denominação vem aumentando de frequência nos últimos anos. Alguns indícios desse fato:

  • a edição de 1998 do dicionário Michaelis traz o verbete “castanha-do-pará”, mas não “castanha-do-brasil”; já a edição de 2010 do Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa traz ambos os verbetes, embora “castanha-do-brasil” seja uma remissão a “castanha-do-pará”;
  • o corretor ortográfico do Microsoft Word®, versão 2003, reconhece “castanha-do-pará”, mas não “castanha-do-brasil”;
  • uma busca no Google por esses dois vocábulos retorna mais de 468 mil ocorrências para “castanha-do-brasil” contra cerca de 446 mil para “castanha-do-pará”.

A questão é que, embora dicionarizada, a forma “castanha-do-brasil” não é a mais corrente entre os brasileiros, como se pode comprovar por meio dos anúncios publicitários dos supermercados ou mesmo da fala das ruas. De onde vem então essa onda que tende a substituir “Pará” por “Brasil”?

Uma hipótese plausível é a influência inglesa. Afinal, em inglês nossa castanha é chamada de Brazil nut — o que faz certo sentido: falantes do inglês mal sabem onde fica o Brasil, que dirá o Pará?

Mas seria essa nossa tendência à troca de denominação resultado apenas da força do colonialismo linguístico anglofalante? Como se chama essa castanha em Portugal? (Minhas pesquisas a respeito resultaram inconclusivas.)

Na Região Norte do país, onde é produzida, a castanha também é chamada de tocari e tururi, nomes indígenas nativos. A denominação que faz referência ao Brasil, ao lado da forma equivalente a “noz amazônica”, prevalece em outros idiomas, como o francês e o italiano; o espanhol e o alemão admitem as três referências (Brasil, Pará e Amazônia).

O mais curioso de tudo é que o maior exportador dessa semente não é o Brasil e sim a Bolívia, onde é chamada de almendra, “amêndoa”.

Boas Festas a todos!

A plaga e a praia

Nesse verão dos infernos, que ainda nem começou, todo mundo sonha em estar numa praia, afinal o calor excessivo provocado pelas mudanças climáticas é uma praga, né? Mas o que praga tem a ver com praia, além da semelhança fonética? Na verdade, nada, a não ser uma proximidade etimológica fortuita. É que praga, assim como chaga, veio do latim plāga (com a longo), que quer dizer “golpe, pancada” e, por metonímia, “ferida causada por um golpe”. Já praia, bem como plaga, vem de plaga (com a breve), que significava originalmente uma extensão de terra ou mesmo qualquer superfície estendida, como uma rede de pesca (aliás, esta era uma das acepções de plaga em latim).

Uma plaga é um lugar, que pode ser desde um terreno até um país (quem já não ouviu a expressão “estas plagas” para referir-se ao nosso Brasil?). Mas a linguagem poética destinou esse termo sobretudo aos lugares aprazíveis, tanto que, na língua occitana ou provençal, falada no sul da França, o cognato plaia passou a designar especificamente a extensão de areia junto ao mar, isto é, a praia. Nossa palavra, por sinal, veio diretamente do provençal, assim como o francês plage e o espanhol playa.

Enquanto a praga destrói as plantações e a chaga é uma ferida aberta e dolorosa, a praia é uma plaga deveras agradável, especialmente em dias de calor. E tanto a palavra praga quanto chaga podem ser usadas em linguagem figurada, para denotar um infortúnio, como fiz com a primeira na frase inicial deste artigo. Por sinal, eu poderia ter dito que esse calor anormal é uma chaga, infelizmente produzida por nós mesmos, seres humanos.

Então, já que o estrago está feito e parece não haver vontade política de consertá-lo, o jeito é fazer o que diz o refrão daquela velha canção: “Vamos a la playa, oh oh oh oh oh”.