A pela, a pala, a bola

Você sabe por que o jogo de futebol de domingo no campinho de terra se chama pelada? Nada a ver com pelado, estado de quem está nu, palavra esta derivada de pele (isto é, a quem se tirou a pele ou que está com toda a pele à mostra). A pelada tem esse nome porque tradicionalmente se jogava com uma bola de meia: os garotos pobres envolviam várias meias umas nas outras até constituírem uma bola de tamanho razoável. Só que essa bola era macia e elástica como a pela. Mas o que é pela? Do latim pila, era a bola feita de tripa e recheada de crina (portanto, uma bola bem elástica) usada no jogo da pela, um antigo esporte praticado com raquete, bem semelhante ao tênis.

De pela saiu o diminutivo pelota, “bolinha”, designativo da bola de futebol (e de outros jogos) em espanhol e também de caroços que nascem na pele (por extensão, qualquer formação que lembre um caroço).

Mas, se o latim tinha a pila, o italiano tem a palla, isto é, a bola, vocábulo originário do antigo frâncico *balla, que também deu o francês balle, o inglês ball, o alemão Ball e o sueco boll. Esse termo radica no indo-europeu *bhel‑, “soprar”, que também deu o latim flare, “soprar, inflar”, e o inglês blow.

Já a nossa bola vem do latim bulla, “bolha”, dada a semelhança entre a bola e a bolha (veja a esse respeito o meu artigo Um bolo de significados). Não é curioso como palavras de diferentes origens convergiram na forma e no significado?

A hipocrisia brasileira na COP-30

Nesta COP-30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, o Brasil pretende despontar como a grande liderança mundial na transição energética, na redução da emissão de gases de efeito-estufa e na defesa do meio ambiente. No entanto, uma série de fatos relativos ao nosso país indicam que talvez tudo não passe de hipocrisia. E não me refiro só à exploração de petróleo na Margem Equatorial, tão criticada por especialistas e por opositores ao governo Lula, embora essa seja uma contradição flagrante.

A questão, a meu ver mais profunda, é que diversas características peculiares do Brasil se colocam na contramão das propostas apresentadas na COP.

Em primeiro lugar, o Brasil sempre foi um país predominantemente agrícola. Até o final do século XIX, o único produto de exportação brasileiro foi o café, e 90% da população vivia no meio rural. Houve um primeiro surto de industrialização com a chegada dos imigrantes estrangeiros (o conde Francesco Matarazzo é um exemplo) e um segundo no governo Juscelino Kubitschek. Ainda assim, o carro-chefe da nossa economia ainda hoje é o agronegócio, que desmata florestas para criar gado — e os gases emitidos pelos rebanhos (acho que não preciso explicar por onde, né?) são uma das maiores causas da mudança climática —, além de despejar toneladas de agrotóxicos no solo, nos rios e nos lençóis freáticos. Em pleno século XXI, ainda somos um país eminentemente agrícola e, desta vez, donos de uma agricultura poluidora, que derruba e queima florestas, além de envenenar as águas. Enquanto isso, o governo (este e todos os anteriores) é refém da chamada bancada ruralista do Congresso, além de não fiscalizar devidamente o desmatamento ilegal, que até tem diminuído, mas continua existindo.

Por sinal, para atender ao escoamento de soja, o governo pretende construir a polêmica ferrovia Ferrogrão, interligando o Norte e o Centro-Oeste do país. Dizem as más línguas que esse empreendimento atravessará áreas de conservação, terras demarcadas e ainda atrairá mais garimpo ilegal às reservas indígenas.

Por outro lado, o Estado não constrói ferrovias onde elas são realmente necessárias. Contraditoriamente, nosso país, que tem uma matriz energética majoritariamente limpa, com sobra de energia hidrelétrica — e agora também solar, eólica e da biomassa — optou há décadas pelo transporte rodoviário de mercadorias e pessoas, desprezando os outros modais e, assim, queimando óleo Diesel e poluindo ainda mais o planeta, bem como encarecendo desnecessariamente os bens transportados. Isso sem falar de como ficamos reféns das greves de caminhoneiros.

Nossa ministra do meio ambiente, Marina Silva, fala muito em floresta de pé, como se meio ambiente se resumisse a florestas. Há muitas alternativas não poluentes à matéria plástica, algumas até mais baratas (até cerca de 50 anos atrás, quase nada era feito de plástico, e vivíamos muito bem, obrigado), mas nenhum governo e nenhum parlamentar são capazes de propor uma lei restringindo seu uso ao estritamente necessário e insubstituível.

Apesar de catador de resíduos ser uma das principais “profissões” no Brasil, haja vista o grande número de puxadores de carrinho em nossas ruas, apenas 2% de nosso lixo reciclável é efetivamente reciclado. E o que dizer dos lixões, que deveriam ter acabado 10 anos atrás, mas seguem firmes e fortes para alegria dos urubus?

Enfim, pode até haver no governo pessoas bem-intencionadas com relação à busca de soluções à emergência climática, mas, como se sabe, de boas intenções o Inferno está cheio.

A espera, a expectativa e a esperança

Já tratei deste tema em outra ocasião, mas de vez em quando gosto de repisar certos assuntos.

Os substantivos espera, expectativa e esperança estão obviamente todos ligados ao verbo esperar: a espera de um ônibus ou de uma encomenda, a expectativa de ser promovido no emprego ou de que faça sol amanhã, a esperança de que um dia a corrupção acabe. O que diferencia os três é o grau de probabilidade de que a coisa esperada chegue. A espera pressupõe a quase certeza de que o fato ocorrerá: o ônibus passa todos os dias à mesma hora, portanto não haveria por que hoje não passar. Comprei umas bugigangas na Shein ou Shopee, e eles sempre entregam. Eu tenho feito um bom trabalho e meu chefe reconhece meu esforço, logo há boas chances de eu ser promovido. Já o fim da corrupção no Brasil…

O interessante é que outras línguas têm verbos diferentes para indicar a espera, a expectativa e a esperança. O francês tem attendre, s’attendre à e espérer. O inglês tem wait for, expect e hope. Enquanto isso, nosso anódino esperar conduz a certa ambiguidade: “Quem espera sempre alcança”. Espera o que exatamente?

A pronúncia de “Titanic”

Em 1998, quando Titanic ganhou o Oscar de melhor filme, o mestre de cerimônias anunciou: and the Oscar goes to… Titanic. E pronunciou claramente [taiténik], no que foi seguido pelo comentarista brasileiro da Rede Globo, Rubens Ewald Filho, que a seguir emendou: “ou melhor, [titaníque]”. Mas por que chamamos o transatlântico inglês Titanic de Titanique?

É que, em 1912, quando o portentoso navio naufragou, não havia no Brasil a influência cultural anglo-americana que existe hoje. Na época, a língua de maior penetração era o francês; por isso, a tendência na época era que nomes estrangeiros fossem pronunciados à moda francesa, do mesmo modo como hoje qualquer nome estrangeiro, seja alemão, russo ou japonês, acaba sendo pronunciado à moda inglesa. Assim, os postos de gasolina Atlantic [atléntik] são chamados por nós até hoje de Atlantique. Pela mesma razão, um pó de arroz muito famoso 100 anos atrás de nome Lady [lêidi] era chamado aqui no Brasil de Ladí.