A raiz do feminicídio

A matança de mulheres pelo simples fato de serem mulheres é uma das grandes chagas do nosso tempo e, no Brasil, uma verdadeira e vergonhosa epidemia. Mas, mais do que um fenômeno policial, trata-se de um problema social. As estatísticas mostram que cerca de 60% das vítimas brasileiras de feminicídio são mulheres negras pobres de periferia. E que seus executores são igualmente homens negros pobres de periferia. Portanto, embora esse crime ocorra em todas as classes sociais, ele é mais frequente nas classes mais baixas, onde estão presentes diversas características que, aliadas ao mau caráter dos criminosos, acabam turbinando a incidência desses assassinatos, como a baixa escolaridade, famílias desestruturadas, amiúde formadas por uma mãe solteira e muitos filhos, às vezes de pais diferentes, com um pai ausente ou então alcoólatra, drogado e/ou marginal e, em todos os casos, violento, além de o próprio entorno favorecer a violência, já que na periferia mesmo as pessoas de bem são obrigadas a conviver muito de perto com a criminalidade (toda favela tem sua boca de fumo, e muitas favelas são totalmente dominadas pelo tráfico ou pelas milícias).

Assim, o feminicídio é apenas mais uma das mazelas produzidas por nossa brutal desigualdade social. Mas não é só isso: nossa cultura machista, herdada dos colonizadores ibéricos, que resultou no típico machão latino-americano, também é um ingrediente importante do problema. E o pior é que mudanças culturais levam décadas e gerações para ocorrer, além de dependerem da educação que se dá às crianças em casa (e que o ambiente periférico tem falhado em prover) e da que se dá na escola, onde a péssima qualidade do serviço oferecido pelo Estado igualmente falha.

Por isso sou pessimista em relação a uma solução de curto ou médio prazo para essa epidemia de crimes contra as mulheres. O poder público ataca o sintoma e não a causa da doença na medida em que endurece punições para esse crime, mas não resolve a questão estrutural básica da desigualdade social crônica. E aumentar penas não adianta: os criminosos não temem a cadeia, ainda mais com todas as regalias que a legislação oferece aos criminosos. Sem falar que esses crimes são cometidos por impulso, movidos a emoção e não a razão; logo, nenhum feminicida pondera antes de praticar o crime se vale a pena ou não executá-lo, qual o custo-benefício de seu ato em face de uma possível punição. Aliás, muitos assassinos se suicidam logo após o crime. Trata-se de selvageria pura, combinada à visão de que a mulher é propriedade do homem, à vergonha da “dor de corno” e à sensação de impunidade que nossa legislação e nosso Judiciário contribuem para reafirmar.

O maior país do mundo, parte 2: o retorno

Algumas semanas atrás, em outra postagem, comentei o chauvinismo brasileiro de achar que o nosso país é o maior do mundo em tudo e que por isso merecemos particular deferência por parte das outras nações. O fiasco do filme O agente secreto na cerimônia do Oscar deste ano e as subsequentes reações furiosas dos brasileiros comprovaram minha tese. Não que o filme e os atores não tenham lá os seus méritos: o simples fato de terem recebido várias indicações ao prêmio já é louvável por si só. Mas a realidade é que o clima de já ganhou, que também antecede as participações brasileiras em copas do mundo de futebol, mais uma vez impediu que a competição fosse encarada com serenidade e, sobretudo, humildade. O Brasil entrou na disputa de salto alto, como se o troféu já fosse seu por direito e, tal qual na Copa do Mundo, caiu antes do término. Sim, o filme, pelo que dizem (eu não o assisti), é muito bom, e a atuação de Wagner Moura estava impecável, mas havia outros tantos bons concorrentes, e o Brasil já havia ganhado o prêmio no ano passado, o que tornaria uma dobradinha pouco provável.

Mas o mais revelador de nosso bairrismo inveterado foram os comentários indignados na internet após a perda do Oscar. Comentários que foram desde a descredibilização do júri (a velha insinuação de que houve roubo) até o menosprezo pelos vencedores, como se eles não tivessem merecimento. Sobre o ganhador do Oscar de melhor ator, Michael B. Jordan, houve até comentários desprovidos de senso de ridículo como um que dizia: “Michael B. Jordan não é bem-vindo aqui em Xique-Xique, Bahia” (como se esse ator tivesse alguma intenção de um dia visitar Xique-Xique, coisa que nem os brasileiros têm). Outros tantos comentários enalteciam o “molho” do nosso povo como se isso fosse justificativa suficiente e indiscutível para fazer jus o prêmio.

Enfim, há muitos países no mundo que jamais ganharam um Oscar ou um campeonato mundial de futebol e têm, no entanto, muito mais razões para se orgulhar do que nós: educação de altíssima qualidade, baixíssima corrupção, alto desenvolvimento científico e tecnológico, grande importância geopolítica, e assim por diante. Enquanto isso, tal como Donald Trump, nos comportamos igual criança de quinta série despeitada quando contrariada: “Não ganhamos o Oscar? Bela porcaria, nós nem queríamos mesmo!”.

A nova ditadura

Nos anos 1960 e ’70, vivíamos sob a ditadura militar, com seu autoritarismo arbitrário e sua censura, que decidiam o que podíamos ou não podíamos dizer, que palavras podíamos ou não podíamos empregar, de que assuntos podíamos ou não podíamos tratar. O regime militar acabou, mas hoje vivemos uma nova ditadura, em que não são os militares e sim as mídias sociais e seus algoritmos que decidem o que podemos ou não dizer. Assim como nos tempos dos milicos tínhamos de exercer a autocensura para não ter problemas com a polícia e usar de metáforas para falar de temas proibidos, hoje precisamos mascarar palavras como M0RT3 ou 35TUPR0, ou então chamar manifestações contra o governo Trump de “festival de música”, como fizeram muitos manifestantes em Los Angeles em meados do ano passado. Criticar governos, apoiar palestinos, postar conteúdo pró-LGBT (e também anti-LGBT) é certeza de perder monetização ou mesmo ter seu conteúdo tirado do ar. E, bem nos moldes d’O processo de Kafka, não adianta recorrer: as redes nunca revelam a razão de sua censura, limitando-se a um lacônico comunicado “você infringiu as normas de conduta da plataforma”, normas estas que nunca estão suficientemente claras ao usuário.

O absurdo é que, por exemplo, vídeos de denúncia que expõem maus-tratos a animais são derrubados sob a alegação de que as plataformas não permitem a exibição de tortura. Ora, o algoritmo, burro que é como toda máquina, não sabe distinguir entre a apologia e a denúncia aos maus-tratos. E situações semelhantes se repetem em relação a outros temas sensíveis.

A diferença entre a ditadura tradicional e a algorítmica é que os inquisidores humanos podem ser sensibilizados por seus interrogados se perceberem que estes não são terroristas ou subversivos e que agiram de boa-fé — ou mesmo nem agiram, foram presos por engano —, ao passo que as plataformas digitais não permitem questionamento (como questionar um robô?), e os funcionários humanos das redes focam exclusivamente no lucro, não na justiça.

Mas há também outro tipo de censura: a ideológica. Hoje, sob o pretexto de serem preconceituosas ou contrárias à democracia, muitas postagens são retiradas do ar por ordem judicial, mesmo que as falas, ainda que moralmente indefensáveis, não configurem nenhum crime. Não só as big techs e seus algoritmos como também a própria opinião pública dominante nas redes lincha moralmente quem pensa diferente, transformando o que deveria ser debate em pensamento único, característica típica das autocracias. Viva o admirável mundo novo!

Ainda sobre a ortoépia — ou ortoepia

Semana passada publiquei aqui um texto cômico para explicar o que é ortoépia, ramo da gramática que indica a pronúncia correta das palavras — e cujo nome tem, ele próprio, duas pronúncias corretas, já que também pode ser grafado e pronunciado ortoepia.

Pode parecer bobagem, mas há muitos casos em nossa língua de palavras com duas grafias e pronúncias igualmente corretas, como autópsia e autopsia, necrópsia e necropsia, biópsia e biopsia, catorze e quatorze, e assim por diante. Esse assunto se tornou relevante depois que um certo membro do Ministério Público resolveu processar a Rede Globo porque seus repórteres pronunciam récorde em vez de recorde. Ora, acho que a maioria do povo brasileiro, incluindo pessoas cultas, pronuncia récorde. E também transístor e bêisebol em lugar de transistor e beisebol. Portanto, já é hora de os dicionários e o próprio VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) abonarem essas formas, afinal língua é uso, e o uso é soberano.

Mas aqui quero tratar de um fenômeno curioso que vem acontecendo após a reforma ortográfica de 2009. Embora na maioria das línguas a grafia não represente fielmente a pronúncia, parece que os falantes do português são tão apegados ao modo de escrever das palavras que, quando ele muda, a pronúncia muda junto.

Na América do Sul há dois países chamados Guiana, a República da Guiana e a Guiana Francesa (antigamente, o Suriname também se chamava Guiana Holandesa). Pois até 2009 a grafia do nome desses países era Güiana, seguindo a forma como são chamados em outros idiomas. Aliás, até 1943 essa grafia era Guyana, que se mantém nas demais línguas. Pois foi só a reforma ortográfica abolir o trema que as pessoas, inclusive jornalistas, passaram a pronunciar esse nome como se o u fosse mudo.

Outro fato curioso é que até a oficialização da reforma, grafávamos protéico, nucléico, estóico, paranóico, e assim por diante. Já faz algum tempo que ouço pessoas dizerem protêico, com e fechado, mas minha maior surpresa foi ouvir na televisão Luiz Felipe Pondé pronunciar estôico. Justo ele, que é filósofo e grande estudioso do estoicismo desde quando estóico tinha acento. Duvido que naquela época ele ou qualquer outra pessoa pronunciasse estôico. No entanto, é assim que ele se refere atualmente aos seguidores dessa escola de pensamento. Resta saber se Pondé está fazendo isso por ignorância de que mudanças na grafia não implicam mudanças na língua (duvido muito dessa hipótese) ou se por pura gozação ou protesto contra a nova ortografia da língua portuguesa. Em todo caso, a ortoépia (ou ortoepia) ensina que todas as palavras terminadas em ‑eico, ‑oico ou ‑oide se pronunciam com a vogal aberta e não fechada.

O fato é que o português já passou por muitas reformas ortográficas (quatro só no último século), sendo que, na minha opinião, nenhuma foi satisfatória, e essas mudanças constantes só atrapalham quem procura escrever corretamente. E agora estão atrapalhando também a fala. Enquanto isso, outras línguas europeias não sofrem reformas ortográficas há séculos, e ninguém tem problema para pronunciar as palavras.

O ortoepista

Germano estava em uma loja informando seus dados pessoais ao atendente do setor de crediário. Nome: Germano Fontes. Data de nascimento: tanto de tanto de mil novecentos e tanto. Profissão: ortoepista. Ao dizer isso, o rapaz do cadastro lançou-lhe um olhar de perplexidade: orto o quê?! “Ortoepista”, respondeu Germano.

— O senhor é médico? Trata de fraturas, né?

— Não, não, eu sou gramático, especialista em ortoépia — ou ortoepia.

— E, desculpa perguntar, o que faz um orto, orto…?

— Ortoepista. É o profissional que estuda e ensina a correta pronúncia das palavras.

— Ah, que interessante! O senhor podia dar um exemplo?

— Claro, o próprio nome da minha profissão é um exemplo. Você pode pronunciar ortoépia ou ortoepia, ambas as formas estão corretas.

— Puxa, mas essa profissão existe mesmo? Eu nunca tinha ouvido falar.

— Claro que existe, tanto que eu sou filiado ao Sindicado Nacional dos Ortoepistas e das Ortoepistas, membro da Sociedade Brasileira de Ortoépia — ou Ortoepia — e credenciado junto ao Conselho Federal de Ortoépia — ou Ortoepia.

— Nossa, agora eu fiquei pasmo! Pra ser sincero com o senhor, eu num intindi nada. Pra mim isso é uma compreta novidade.

— Então, só para lhe mostrar como um profissional como eu é útil, a pronúncia correta é “não entendi” e não “num intindi”. E o certo é “completa” e não “compreta”.

— Ah, doutor, mas o senhor tem estudo, né, eu não. Quer dizer então que o orto, orto… enfim, isso aí que o senhor falou, é a pessoa que correge os ignorantes?

— Olha, não é bem isso, meu trabalho não é humilhar ninguém, mas, já que você tocou no assunto, o certo é “corrige” e não “correge”.

— Legal, aprendi um monte de coisa com o senhor agora, vou voltar mais inteligente pra casa. O senhor pode assinar aqui embaixo? Pode ser só uma rúbrica.

— Rubrica, meu amigo, rubrica.