O óculos? A calça?

Os gramáticos reclamam quando o povo diz “vestir a calça” em vez de “vestir as calças”. O problema é que ninguém consegue vestir uma calça só! Ou seja, não faz sentido, segundo a lógica dos falantes, dar um nome plural a um objeto singular. Por isso, as pessoas dizem coisas do tipo “eu gozei duas férias, mas ele gozou só uma”. Só uma “férias”? Soa estranho, mas faz sentido: “férias” não é plural de “féria” (que é a renda que um prestador de serviço aufere por dia de trabalho), mas é uma outra coisa, e uma coisa só, indivisível (exceto quando alguém resolve gozar as férias em partes: uma quinzena no meio e outra no fim do ano, por exemplo).

Mais alarmante para os gramáticos do que “a calça” é “o óculos”. Dizem eles: óculos é substantivo plural (ou pluralício, isto é, que não admite singular), portanto o correto é “os óculos”. Mas, e se me perguntarem quantos óculos eu tenho, o que devo responder? Devo contar cada lente como um óculo separado? Ou devo computar os óculos aos pares? Se tenho dois pares de óculos, devo responder que tenho dois óculos ou quatro? (A expressão “usar um par de óculos” é tão pouco prática na comunicação cotidiana quanto “vestir um par de calças” e “pedir duas xícaras de café”: o comum é usar um óculos, vestir uma calça e pedir dois cafés.)

Esse rigor em relação à concordância de número é bem menor na língua inglesa, em que substantivos como means, news, politics e physics, por exemplo, têm forma plural mas concordam no singular (the news is not good), ao passo que people e police, dentre outros, têm forma singular e concordam no plural (two people, many people, the police were called). Os gramáticos de língua inglesa não veem muito problema nisso, tanto que até recomendam a concordância de um substantivo singular com um verbo no plural quando o sentido desse substantivo é coletivo, como no caso de police, que significa indiferentemente “a polícia” ou “os policiais”. Temos ainda casos como o de fish, que pode ser singular ou plural (one fish, two fish, etc.), sem que os gramáticos exijam a flexão fishes. Trata-se das idiossincrasias de cada idioma — e dos gramáticos de cada idioma.

Trem tem a ver com treino?

Olá. Percebi que em inglês a palavra para “treinar” (train) é a mesma do substantivo “trem”. Como o português importou essas palavras do inglês, gostaria de saber se elas tem alguma coisa em comum ou se é mera coincidência. Obrigado. Manuel Garcia Testa

Caro Manuel, você acertou: “trem” e “treinar” têm uma origem comum. Mas os caminhos pelos quais essas duas palavras se encontraram em português são tortuosos. Para entender como tudo começou, temos que retroceder ao antigo francês traisner (forma atual  traîner), “arrastar”, oriundo do latim vulgar *traxinare, forma frequentativa de trahere, que também deu o italiano trascinare, com o mesmo significado. Esse verbo produziu o derivado entraîner, “acarretar”, e o substantivo regressivo train, “comboio, arrasto, fila”.

Train passou para o inglês medieval como trayne (atualmente grafado train, como em francês), com os sentidos de “cauda de vestido”, “séquito”, “comboio militar”, “fila”, etc. E quando, no século XIX, graças ao trabalho conjunto de britânicos como Trevithick, Blenkinsop, Stephenson e Watt, foi inventada a máquina a vapor que arrastava consigo um grande número de vagões, a palavra train foi usada para designar esse novo meio de transporte.

Do inglês, a palavra passou a várias línguas, como o português brasileiro trem (em Portugal, o trem se chama comboio), o espanhol tren e o italiano treno, além de acrescentar à palavra já existente em francês o novo significado. Aliás, em francês, train desenvolveu o diminutivo traîneau, que deu o nosso “trenó”.

Foi também em inglês que o verbo to train, originalmente “arrastar”, passou, na linguagem esportiva, ao sentido de “adestrar”, que nos chegou com o empréstimo “treinar”. E deste saíram, por derivação, “treino” e “treinamento”, ambos decalques do inglês training. Em francês, treinar é entraîner, que resultou no espanhol entrenar.

Portanto, “trem” e “treino” têm de fato uma origem comum, embora étimos diferentes.

Vou encher tua boca de porrada

No último fim de semana, nosso desbocado presidente, perguntado por um repórter sobre os depósitos na conta da primeira-dama que totalizaram 89 mil reais, respondeu com um “minha vontade é encher tua boca de porrada”. Não vou entrar aqui na questão já muito debatida do total despreparo e destempero de Bolsonaro ao lidar com a imprensa livre e sua notória postura antirrepublicana e antidemocrática de não prestar contas de seus atos ou dos de seus familiares e amigos.

O que quero comentar é o termo usado por ele para ameaçar o jornalista: porrada. Essa palavra, assim como porrete e porretada, deriva de porra, termo de origem espanhola que primitivamente designa uma clava constituída de um pau curto com cabeça de metal e que hoje é mais conhecida por seu uso chulo com o significado de “esperma, sêmen”.

Em português, porra aparece pela primeira vez em 1136 significando exatamente “porrete”. Segundo o dicionário etimológico Corominas da língua castelhana, deve ter provindo do latim porrum ou porrus, literalmente “alho-porro” (no Brasil também chamado de alho-poró), por analogia entre o bastão de cabo grosso e a hortaliça de talo longo e bulbo largo em uma das extremidades. Tanto assim que, no próprio latim, porrum ou porrus, além do vegetal, também denominava uma espécie de palmatória usada para castigar crianças e escravos.

Portanto, porrada é originalmente o golpe dado com a porra, isto é, o porrete, e que hoje é mais comumente desferido com o punho cerrado (o golpe com o instrumento é normalmente referido como porretada).

Mas, e o sentido de “esperma”, de onde teria vindo? Minha tese é de que houve aí uma metonímia do tipo continente pelo conteúdo. O vocábulo porra teria sido empregado inicialmente para nomear metafórica e eufemisticamente o órgão sexual masculino, dada a semelhança física entre ambos. Daí surge por derivação parassintética o verbo esporrar, formado do prefixo es- (do latim ex-), que quer dizer “para fora” e do radical de porra. Significando, portanto, pôr para fora do pênis. E é aí que entra a metonímia: esporrar passa a ser entendido como “expelir porra”, ou seja, o termo deixa de denominar o órgão sexual e passa a nomear seu conteúdo, o sêmen.

De esporrar sai o derivado regressivo esporro, com o sentido primeiro de “barulho, escândalo, gritaria de quem está zangado” e, a seguir, o de “bronca que se dá a alguém de forma gritada”. Ou seja, ao dizer que ia encher a boca do repórter de porrada, o presidente acabou limitando-se a dar-lhe um esporro.

O revisionismo dos nomes chineses

Outro dia, falei sobre a dificuldade de mudar hábitos linguísticos e, por conta disso, sobre a pouca adesão popular às novas denominações impostas a cidades e países, como Galiza em vez de Galícia ou Beijing em lugar de Pequim. Este último caso é bastante ilustrativo, pois têm sido os nomes chineses os maiores alvos desse revisionismo onomástico.

De uns tempos pra cá, percebe-se que a imprensa vem capitaneando uma política de reformulação da grafia e da pronúncia de nomes chineses aos quais já estávamos acostumados. Tudo parece ter começado quando os americanos mudaram o nome da capital chinesa de Peking para Beijing. Como tudo o que o Primeiro Mundo faz – de bom ou de mau – é imediatamente copiado por aqui (lembram-se do caso dos jogos paraolímpicos, que viraram “paralímpicos”), de repente os jornais brasileiros passaram a trazer “Beijing” e mesmo “Beijim” no lugar de “Pequim”.

A partir daí, tai-chi-chuan virou tai-jiquan, Mao Tse-Tung agora é Mao Zedong, e assim por diante. Evidentemente, nenhuma língua pronuncia nomes estrangeiros exatamente como se faz no idioma original. Assim, diante de um nome vindo de fora, costumamos nos pautar pela grafia (e hoje há uma tendência a atribuir pronúncia inglesa a palavras de qualquer idioma estrangeiro; por isso, o “Bank” do nome do banco alemão Deutsche Bank costuma soar “bénk” por aqui).

Um complicador a mais surge quando a palavra vem de língua que adota um alfabeto diferente do nosso. Nesses casos, é preciso transliterar o nome para o nosso sistema ortográfico (ou, o que mais frequentemente acontece, para o sistema da língua dominante, o inglês).

Anos atrás, quando à caça ao ex-ditador Muamar Kadafi corria solta, discutiu-se muito qual deveria ser a grafia de seu nome: Kadafi, Gaddafi, Khadaffy…? Vejam que só não estava em discussão uma grafia aportuguesada “Cadáfi”. O caso dos nomes chineses é ainda mais complexo: palavras de uma língua cuja escrita sequer é alfabética (a escrita chinesa é chamada de ideográfica).

Mas, se, com certeza, não pronunciamos tais nomes como os chineses o fazem, e se sua transliteração é totalmente arbitrária, já que não pode haver correspondência letra a letra entre alfabetos, por que, de uma hora para outra, mudar sua grafia? E com base em que critérios?

Certa vez, li numa crônica de cujo autor não me lembro o seguinte comentário maldoso a respeito da nova grafia “Beijing”: “beijim é aquilo que o minerim dá no rosto da minerinha, uai! E também aquele docim pra lá de bão que tem em festa junina, sô!”

“Graal”: um verdadeiro fóssil linguístico

Algumas palavras podem se conservar na língua como fósseis vivos, tendo a sua evolução “congelada”. Por exemplo, a palavra “graal” (do latim gradalis) era de uso corrente na Idade Média e designava um tipo de cálice. Ficou particularmente conhecida por causa do Santo Graal, taça em que Jesus supostamente bebeu na última ceia e que também teria sido usada para recolher o seu sangue na cruz. Essa narrativa deu origem até a uma epopeia medieval francesa, depois traduzida para outras línguas, dentre as quais o português, em que ganhou o título de A demanda do Santo Graal (literalmente, “A busca do Cálice Sagrado”).

Essa palavra caiu em desuso logo após o fim da Idade Média e, por isso, parou de evoluir. No século XIX, com o avanço dos estudos literários e a volta do interesse por tudo que fosse medieval, a Demanda voltou à ordem do dia e a palavra “graal” do título voltou a ser usada, sempre em referência ao Cálice Sagrado. Hoje já existe um grande número de publicações, até mesmo na linha da autoajuda e do esoterismo, falando do graal. Esse termo também passou a ser usado em sentido figurado, como algo que se busca incessantemente para chegar à felicidade.

Se “graal” tivesse seguido a evolução natural da língua, hoje provavelmente seria “gral”. Como teve sua evolução congelada, permanecendo por séculos registrada apenas na epopeia medieval, manteve a forma fonética e gráfica que tinha na Idade Média, com os dois aa que normalmente teriam se fundido pelo processo da crase. É interessante que, hoje, “graal” soa como um estrangeirismo, muito embora seja um vocábulo legitimamente português. De fato, palavras vernáculas que permanecem fossilizadas em algum códice medieval e só vêm a ser “desenterradas” após vários séculos, tendem a ter o mesmo status de termos tomados de empréstimo a outras línguas.

Qual é o certo: biópsia ou biopsia?

Bom dia, Aldo. Sou jornalista, e no órgão em que trabalho a norma é empregar “autopsia”, “biopsia”, “necropsia” e não “autópsia”, “biópsia”, “necrópsia”, só que eu acho isso meio forçado. Afinal, quais são as formas corretas? E quais as mais adequadas? Obrigado.
Ana Flávia Borges – Belo Horizonte

Cara Ana Flávia, ambas as prosódias – em ópsia e em -opsia – estão dicionarizadas e, portanto, são corretas. E existem ainda as formas “autopse”, “biopse” e “necropse”. O que acontece é que determinados gramáticos têm suas preferências e idiossincrasias, o que é agravado no caso de elaboradores de manuais de estilo de jornais pela premência de adotar uma forma única, padronizada, que todos os redatores utilizem de modo uniforme.

Em todo caso, vale a pena explicar por que existem ambas as formas. A maioria das palavras portuguesas terminadas em -ia (com i tônico), como “teoria”, “democracia”, e mesmo outras mais vulgares como “padaria” e “ventania”, contêm um sufixo que se origina no grego ía. Em alguns casos, esse sufixo nos chegou por via culta junto com a própria palavra (como em “democracia”); em outros, veio através do latim vulgar, que havia adotado o sufixo (caso de “padaria”).

Só que muitas palavras gregas de origem culta nos chegaram pelo latim literário, em que esse sufixo era átono. Por exemplo, as palavras gregas historía e theoría passaram ao latim como historia e theoria (pronunciadas história e teória), pois em latim era norma que, se a penúltima sílaba fosse breve, o acento tônico recuasse para a antepenúltima. Com isso, historía e theoría, palavras paroxítonas em grego, tornaram-se proparoxítonas em latim (já que o encontro vocálico i-a era hiato nessa língua).

Então por que pronunciamos “história” (como ditongo) e “teoria” (como hiato)? Tudo depende do percurso pelo qual a palavra chegou até nós. “História” é um termo culto muito antigo, já presente em textos medievais (cuja grafia “estória”, ao contrário do que muitos pensam, é mais antiga do que “história”) e trazido do próprio latim, ao passo que “teoria”, e também “autopsia”, “biopsia” e “necropsia” vieram diretamente do grego literário para os manuais de medicina. Daí a opção pela prosódia grega e não a latina.

No entanto, dada sua dupla origem (grega e/ou latina), algumas dessas palavras sofrem flutuação de uma língua para outra (enquanto dizemos “polícia”, “democracía” e “estratégia”, o espanhol diz “policía” e “democrácia”, e o italiano diz “strategía”) ou mesmo dentro da própria língua, caso de “autópsia/autopsia”, etc.

Outro fator que pode ter influenciado certas pronúncias é a origem francesa do vocábulo: se a palavra veio do grego ou latim por via francesa (isto é, se emprestamos o termo do francês e não diretamente das línguas clássicas), então é natural que a terminação seja com i tônico, pois essa é a única pronúncia possível em francês.

Enfim, só uma pesquisa etimológica rigorosa pode elucidar o porquê dessas formas. O fato concreto é que o uso de “autópsia”, “biópsia” e “necrópsia” é preferido não só por você como pela imensa maioria dos brasileiros. Talvez só não seja pelo editor do seu jornal.

Objetos e pontos de vista

Em seu Curso de Linguística Geral, Ferdinand de Saussure ensinou que é o ponto de vista que cria o objeto. Dentre os muitos pontos de vista possíveis sobre o fenômeno língua, a ciência da linguagem sempre oscilou entre dois principais: o diacrônico, isto é, que analisa a língua em seu desenrolar no tempo, tendo, pois, um enfoque eminentemente narrativo; e o sincrônico, que faz um corte na história das línguas como quem bate um instantâneo, ignorando o antes e o depois e fazendo uma abordagem descritiva.

Ambas as perspectivas são úteis, já que não é possível ter uma compreensão plena de um objeto multidimensional olhando-o de um único ângulo. No entanto, dependendo do fim a que se presta, cada abordagem tem suas vantagens e desvantagens. Como analisar, por exemplo, a morfologia da palavra “comer”? De um ponto de vista histórico, “comer” vem do latim comedere, “comer juntos”, formado do prefixo com-, “juntos”, do radical ed-, “comer”, da vogal temática -e- da segunda conjugação e da desinência de infinitivo -re. Portanto, comedere se analisa como com-ed-e-re.

Na evolução fonética, o e final caiu (diz-se que sofreu apócope), e posteriormente o d intervocálico teve o mesmo destino (que nesse caso se chama síncope). Como resultado, comedere passou a comeer em português medieval. Depois, os dois ee se fundiram num processo chamado crase, dando o atual “comer”. Consequentemente, o processo evolutivo pode ser representado assim:

com-ed-e-re > com-ed-e-r > com-e-e-r > com-Ø-e-r
(Ø representa o morfema zero)

Ou seja, por um capricho da evolução cega, o radical ed-, a alma da própria palavra, desapareceu, só tendo restado os morfemas periféricos. Porém, numa visão puramente sincrônica, diremos que o radical de “comer” é com-, logo analisamos “comer” como com-e-r.

Qual das duas interpretações está correta? Ambas. Um falante ingênuo (isto é, aquele que não tem conhecimento técnico da história da língua) faz a segunda análise e isso é quanto lhe basta para operar com proficiência o código língua portuguesa. Ao ensinar português a estrangeiros, o ponto de vista sincrônico é muito mais útil (contar ao falante estrangeiro toda a história da língua portuguesa será de bem pouca valia se o que queremos é que ele simplesmente se comunique com falantes do português sem mal-entendidos).

Já a compreensão de certas irregularidades do idioma que tanto embaraçam nossos estudantes (e não apenas eles) fica facilitada se lançamos uma luz sobre a história das mudanças linguísticas que ensejaram essas irregularidades. Até mesmo o estudo do latim, infelizmente abolido de nossas escolas há muitos anos, seria um grande trunfo para compreender o porquê dessas formas irregulares e assim driblar esses percalços.

Como Saussure também ensinou, a língua é forma e substância, entendendo-se forma como função e substância como elemento material que desempenha uma função. Toda mudança começa pela substância, isto é, pela casca mais externa da língua. Só que, à medida que a substância muda, elementos distintos podem confundir-se, elementos semelhantes podem diferenciar-se, um elemento crucial ao desempenho de uma função pode simplesmente desaparecer.

Como numa empresa, a mudança de membros de uma equipe pode forçar uma reestruturação dos cargos. Se os elementos que exercem funções mudam, as funções também podem se ver obrigadas a mudar. O que aconteceu com o verbo “comer” foi exatamente isso: o desaparecimento do radical ed- fez o prefixo com- ser promovido a essa função. Uma mutação fonética repercutiu primeiro no sistema fonológico, a seguir no morfológico para chegar ao semântico.

Já que ambas as perspectivas são necessárias à compreensão da língua, é uma pena que alguns teóricos, ao adotar uma delas por razões metodológicas, recusem a validade da outra, criando um clima propício ao conflito ideológico dentro de uma área que, por ser científica, deveria primar pela objetividade e neutralidade.

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Em tempo: pensei em escrever uma crônica sobre as 100 mil mortes pela covid-19 no Brasil, mas desisti, pois iria chover no molhado: tudo o que podia ser dito a respeito já o foi, e tudo o que foi ou for dito não mudará a realidade. Temos governantes que governam a favor da doença e contra a população, e temos uma população embotada pela tragédia. Uns simplesmente se acostumaram ao obituário cotidiano e naturalizaram o que não deveria ser natural; outros decidiram viver como se não houvesse covid amanhã: o mais importante para estes é correr para os shoppings, para as  festas clandestinas, para as grandes aglomerações do comércio de rua…

Há um velho dito popular de que cada povo tem o governo que merece. Uma grande parte de nosso povo merece o governo que tem.

Kit-net: um kit para a internet?

Bom dia, Aldo. Queria saber qual a origem da sigla “kit-net” que aparece nos anúncios imobiliários. Que eu saiba, é um apartamento minúsculo que nada tem a ver com internet, não é? Obrigado.
Jailson G. dos Santos

Caro Jailson, você tem toda a razão: “kit-net” não tem nada a ver com “kit” nem com “net”, portanto está longe de ser alguma espécie de kit para ser usado na internet. Então por que esse minúsculo aposento, também conhecido por “apartamento conjugado” ou simplesmente “conjugado”, formado por um quarto (que faz as vezes de sala), uma cozinha onde mal cabe um fogão e um banheiro que também é área de serviço tem esse nome enigmático?

A origem está no inglês kitchenette, cruzamento de kitchen, “cozinha”, com dinette, “pequena sala de jantar”. A esse tipo de amálgama de palavras se dá o nome de fractocomposto ou palavra-valise, pois juntam-se fragmentos de duas ou mais palavras para formar uma nova (como em “atacarejo” e “showmício”, por exemplo).

A kitchenette da língua inglesa é, na verdade, uma copa-cozinha, isto é, um local onde tanto se preparam quando se consomem as refeições. Por extensão, o nome desse cômodo se tornou a designação do apartamento como um todo.

Essa palavra logo foi aportuguesada para “quitinete”, e hoje ambas as grafias estão dicionarizadas. A questão é que, especialmente nas mãos de corretores imobiliários pouco afeitos ao vernáculo, “quitinete” virou um rébus: assim como “cassete” e “cheeseburger” se tornaram “K-7” e “X-búrguer”, “quitinete” deu “kit-net”. Trata-se de um fenômeno chamado etimologia popular: como as pessoas não sabem a verdadeira origem da palavra, tentam associá-la a algo mais familiar. Por fim, o uso disseminado acaba por consagrar essa forma.

A etimologia popular costuma criar associações bizarras entre coisas que não têm nada a ver, como “cheese” e “X”, por exemplo.

Galícia ou Galiza?

A maioria das pessoas que conheço, inclusive as altamente escolarizadas, pronuncia o nome de certos topônimos do modo tradicional e não na forma como publicações mais recentes costumam trazê-los. E vejam que não estou falando necessariamente de gente velha, de hábitos linguísticos mais arraigados. Muitos jovens também agem assim. Para essas pessoas, não existe Mumbay, o que há é a boa e velha Bombaim, cidade de tantos contos fabulosos que remetem à nossa infância. Igualmente, não sabem o que é Beijing (podem achar que se trata de um beijinho), ou sabem, mas, ao falar, dizem invariavelmente Pequim. Alguns ainda chamam Taiwan de Formosa, mas estes, sem dúvida, denunciam uma idade mais avançada.

Algumas inovações nesse campo definitivamente não “pegaram”, isto é, não conquistaram a adesão da maioria. Quantas pessoas chamam a Malásia de Maláisia, como consta em vários atlas? Quantos chamam a Moldávia de Moldova, ou a Bielorrússia de Belarus? Ou ainda Camarões de Camerum?

Vale a pena lembrar que boa parte desses topônimos é criação portuguesa, dos tempos em que nossos irmãos lusos navegavam e comerciavam pelas costas da África e Ásia. “Formosa” e “Camarões” são designações legitimamente portuguesas, enquanto “Taiwan” é chinês e “Camerum” vem do holandês.

Mudar hábitos linguísticos não é fácil, ainda mais que falar é algo que fazemos por inércia: uma vez que aprendemos, resistimos a ter de reaprender. Exemplo disso é o costume de chamar nosso dinheiro (que já foi mil-réis, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro real, URV e real) de conto. É difícil e incômodo ter de se adaptar a cada nova unidade monetária que surge quando a inflação corrói a anterior. Por isso, a lembrança do saudoso conto de réis ainda sobrevive entre nós.

É por essa razão que a região autônoma espanhola da Galiza se chama correntemente Galícia entre nós. Na verdade, há um certo movimento no meio acadêmico (e também no político) para adotarmos a forma “Galiza”. O argumento é o de que “Galícia” é forma espanhola e de que os próprios galegos denominam “Galiza” ao seu país. Além disso, deveríamos preferir tal grafia para evitar confusão com uma região da Europa central, ao norte dos Cárpatos, também chamada Galícia.

Esses argumentos apresentam algumas fragilidades. Em primeiro lugar, o nome latino da província que hoje constitui a região em questão era Gallaecia ou Gallicia, e o mais correto gramaticalmente é denominar países europeus pela forma aportuguesada de sua denominação latina e não pela forma corrente na língua nativa desses países. Se não, chamaríamos a França de France e a Áustria de Österreich. Portanto, a denominação “Galícia” é legítima e constitui importação do próprio topônimo latino.

No entanto, no galaico-português o nome latino Gallicia resultou em “Galiça”, seguindo as leis normais da evolução fonética. Por muito tempo, os próprios galegos assim escreveram – e alguns ainda escrevem – o nome de sua região. Em época mais recente, o idioma galego, cujo uso era proibido pelo regime franquista (1936-1975), foi reconhecido como uma das línguas oficiais da Espanha e, desde que recuperou o direito a ser veiculado publicamente, adota dois sistemas ortográficos: um, de inspiração lusitana, e outro, de influência castelhana. Nesse segundo sistema, todo ç é grafado como z, tal como ocorre em espanhol (por exemplo, danzar, alianza, cazador, etc.). Isso se deve ao fato de, em espanhol, c e z terem a mesma pronúncia. Por isso, alguns galegos se chamam Lourenço e outros, Lourenzo. O fato é que “Galiza” é a forma galega do nome da Galícia, e sua pronúncia em galego é “Galiça”. Portanto, as melhores denominações dessa região em português seriam o latinizado “Galícia” (que erroneamente tem sido apontado como espanholismo) e o desusado “Galiça”.

Quanto à confusão com a região da Europa central de mesmo nome, o que se há de fazer se há duas Galícias? O mesmo ocorre em relação à província grega da Macedônia e à república eslava da Macedônia, outrora integrante da ex-Iugoslávia, assim como em italiano o nome Monaco designa tanto o principado de Mônaco quanto a cidade de Munique. (Para fazer a distinção, os italianos se referem a Monaco di Francia e Monaco di Germania.) Em inglês, Romania significa tanto “România” quanto “Romênia”. Se quisermos evitar mais essa coincidência, então seria melhor adotarmos “Galiça” em lugar de “Galícia”, mas nunca “Galiza”.