Galícia ou Galiza?

A maioria das pessoas que conheço, inclusive as altamente escolarizadas, pronuncia o nome de certos topônimos do modo tradicional e não na forma como publicações mais recentes costumam trazê-los. E vejam que não estou falando necessariamente de gente velha, de hábitos linguísticos mais arraigados. Muitos jovens também agem assim. Para essas pessoas, não existe Mumbay, o que há é a boa e velha Bombaim, cidade de tantos contos fabulosos que remetem à nossa infância. Igualmente, não sabem o que é Beijing (podem achar que se trata de um beijinho), ou sabem, mas, ao falar, dizem invariavelmente Pequim. Alguns ainda chamam Taiwan de Formosa, mas estes, sem dúvida, denunciam uma idade mais avançada.

Algumas inovações nesse campo definitivamente não “pegaram”, isto é, não conquistaram a adesão da maioria. Quantas pessoas chamam a Malásia de Maláisia, como consta em vários atlas? Quantos chamam a Moldávia de Moldova, ou a Bielorrússia de Belarus? Ou ainda Camarões de Camerum?

Vale a pena lembrar que boa parte desses topônimos é criação portuguesa, dos tempos em que nossos irmãos lusos navegavam e comerciavam pelas costas da África e Ásia. “Formosa” e “Camarões” são designações legitimamente portuguesas, enquanto “Taiwan” é chinês e “Camerum” vem do holandês.

Mudar hábitos linguísticos não é fácil, ainda mais que falar é algo que fazemos por inércia: uma vez que aprendemos, resistimos a ter de reaprender. Exemplo disso é o costume de chamar nosso dinheiro (que já foi mil-réis, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro real, URV e real) de conto. É difícil e incômodo ter de se adaptar a cada nova unidade monetária que surge quando a inflação corrói a anterior. Por isso, a lembrança do saudoso conto de réis ainda sobrevive entre nós.

É por essa razão que a região autônoma espanhola da Galiza se chama correntemente Galícia entre nós. Na verdade, há um certo movimento no meio acadêmico (e também no político) para adotarmos a forma “Galiza”. O argumento é o de que “Galícia” é forma espanhola e de que os próprios galegos denominam “Galiza” ao seu país. Além disso, deveríamos preferir tal grafia para evitar confusão com uma região da Europa central, ao norte dos Cárpatos, também chamada Galícia.

Esses argumentos apresentam algumas fragilidades. Em primeiro lugar, o nome latino da província que hoje constitui a região em questão era Gallaecia ou Gallicia, e o mais correto gramaticalmente é denominar países europeus pela forma aportuguesada de sua denominação latina e não pela forma corrente na língua nativa desses países. Se não, chamaríamos a França de France e a Áustria de Österreich. Portanto, a denominação “Galícia” é legítima e constitui importação do próprio topônimo latino.

No entanto, no galaico-português o nome latino Gallicia resultou em “Galiça”, seguindo as leis normais da evolução fonética. Por muito tempo, os próprios galegos assim escreveram – e alguns ainda escrevem – o nome de sua região. Em época mais recente, o idioma galego, cujo uso era proibido pelo regime franquista (1936-1975), foi reconhecido como uma das línguas oficiais da Espanha e, desde que recuperou o direito a ser veiculado publicamente, adota dois sistemas ortográficos: um, de inspiração lusitana, e outro, de influência castelhana. Nesse segundo sistema, todo ç é grafado como z, tal como ocorre em espanhol (por exemplo, danzar, alianza, cazador, etc.). Isso se deve ao fato de, em espanhol, c e z terem a mesma pronúncia. Por isso, alguns galegos se chamam Lourenço e outros, Lourenzo. O fato é que “Galiza” é a forma galega do nome da Galícia, e sua pronúncia em galego é “Galiça”. Portanto, as melhores denominações dessa região em português seriam o latinizado “Galícia” (que erroneamente tem sido apontado como espanholismo) e o desusado “Galiça”.

Quanto à confusão com a região da Europa central de mesmo nome, o que se há de fazer se há duas Galícias? O mesmo ocorre em relação à província grega da Macedônia e à república eslava da Macedônia, outrora integrante da ex-Iugoslávia, assim como em italiano o nome Monaco designa tanto o principado de Mônaco quanto a cidade de Munique. (Para fazer a distinção, os italianos se referem a Monaco di Francia e Monaco di Germania.) Em inglês, Romania significa tanto “România” quanto “Romênia”. Se quisermos evitar mais essa coincidência, então seria melhor adotarmos “Galiça” em lugar de “Galícia”, mas nunca “Galiza”.

7 comentários sobre “Galícia ou Galiza?

  1. Eu aprendi no blogue do Marco Neves (Certas Palavras), que assina o comentário acima, e lendo comentários em páginas galegas, que seria preferível Galiza a Galícia, mas a sua explicação me convenceu, porque, como não tenho cavalo em que aposte na questão galega (ao contrário talvez dos portugueses), dou preferência à palavra formada conforme os processos de aportuguesamento tradicionais, desde que o aportuguesamento seja antigo e de uso corrente, como é o caso de Galícia. Não vou ao extremo de propor aportuguesamentos de topônimos que só muito recentemente vieram às bocas ou às mãos dos falantes de português.

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    1. De fato, Rodrigo, Marco Neves argumenta sobre a forma que se usa em Portugal e na Galícia. Ora, a forma como os galegos designam seu país (ou região, se preferirmos) não tem nada a ver com a forma como nós falantes do português deveríamos designá-lo, já que se trata de outro idioma, ainda que irmão gêmeo (mas não univitelino) do nosso.
      Na verdade, não discuto o modo como os portugueses dizem o nome em apreço, mas levanto a questão de como deveriam dizer. E, sem querer ser bairrista ou patrioteiro, penso que a forma preferencialmente usada no Brasil, “Galícia”, é a mais adequada.
      Sobre o aportuguesamento de topônimos estrangeiros, ontem mesmo li na Wikipédia o nome da capital da Ucrânia grafado “Quieve”. Se essa regra for levada a ferro e fogo, deveremos ter também “Taiuã” e “Hongue-Congue”.
      Um abraço!

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  2. Caro Aldo,

    Li um artigo do José-Martinho Montero Santalha, “O nome da Galiza”, em que, resumidamente, ele argumenta que de Callaecia veio Gall(a)ecia, que daria Gallicia, no latim tardio, de onde procederia Galiza, no galego medieval (ou galego-português), mas admite que a forma corrente no século XIX na própria Galícia era Galicia, que ele atribui a influxo do castelhano.

    Ele não explica se, em Portugal, Galiza se manteve sempre assim grafada, por toda a história da língua portuguesa, e propõe que os galegos escrevam Galiza para que retomem a forma que seria enxebre, como dizem eles por lá, ou seja, a que remontaria ao galego medieval.

    Admitindo por hipótese que nunca se tivesse escrito doutra forma a palavra em Portugal, seria provável que essa forma tivesse chegado também a nós, pelo que suponho que Galiza não deva ter, mesmo no português europeu, uma história assim tão retilínea da poesia trovadoresca até hoje.

    Abraço.

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  3. Se o Corpus do Português, do Mark Davies, reunir uma amostra representativa dos textos do período de 1200 em diante, pode-se dizer que Galiza é realmente a forma tradicional, preferida à forma Galícia em todos os séculos. Mas pode haver viés de amostragem se a amostra for pequena.

    Enfim, cumpre pesquisar, como você disse.

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