O desprestígio da área de Letras

Pode soar estranho para a maioria das pessoas, mas a língua é, das instituições sociais criadas pelo homem, a mais “exata”, no sentido matemático do termo. Isso porque, na verdade, a língua não foi propriamente “criada” pela espécie humana, mas é o desenvolvimento natural de uma aptidão que tem raízes biológicas. Como disse o linguista israelense Guy Deutscher, “a língua é a maior invenção da humanidade, exceto pelo fato de que nunca foi inventada”. Como quer que seja, as línguas humanas são estruturas formadas de elementos que se combinam segundo regras precisas para formar elementos de um nível superior, que por sua vez se combinam segundo as mesmas regras, e assim por diante, seguindo um princípio hierárquico que vai dos elementos mínimos (os fonemas) até os enunciados máximos (os textos e discursos).

Embora haja também fenômenos psicossociais envolvidos na comunicação humana verbal, o fato é que a ferramenta básica dessa comunicação é um sistema cujo funcionamento segue leis matemáticas e, por isso mesmo, permite coisas como tradução automática, inteligência artificial e muito mais.

Olhando desse ponto de vista, um profissional de Letras deveria ser muito respeitado em nossa sociedade, já que é detentor de um conhecimento técnico tão complexo quanto o dos engenheiros, médicos, advogados, economistas, analistas de sistemas, cientistas… Só que não, e é fácil entender por quê. Enquanto um médico estuda no mínimo seis anos e um engenheiro ou advogado no mínimo cinco para se formarem, além de outros profissionais universitários, que estudam pelo menos quatro anos, um professor de português ou inglês estuda, na maioria das faculdades de Letras do nosso país, apenas três anos. E boa parte desse tempo é dedicada a disciplinas pedagógicas (como dar uma aula, como elaborar um plano de ensino, etc.). E hoje, com o advento hegemônico da educação à distância, até a prática pedagógica é ensinada… teoricamente.

Não bastasse isso, no pouco tempo que sobra para estudar a língua propriamente dita, o que se estuda não é a gramática normativa, que é a que deverá ser ensinada pelos futuros professores. Enquanto médicos, engenheiros e advogados, dentre outros, são bem remunerados por serem profissionais “pensantes”, que têm de usar seu conhecimento técnico e seu raciocínio para resolver problemas complexos, o professor é visto como alguém que não pensa, apenas repete como papagaio as informações que memorizou em seus poucos anos de estudo superior. E, nesse entremeio, o professor de Letras é o mais desvalorizado, afinal um professor de matemática ou química, bem ou mal, lida com coisas “exatas”.

Infelizmente, o ensino de Letras em nosso país só faz justificar essa visão preconceituosa da profissão. Não é à toa que cursos de medicina ou engenharia existem principalmente em universidades de grande porte, muitas das quais famosas e conceituadas (bem, hoje em dia as faculdades de medicina de fundo de quintal já são quase tão onipresentes quanto as igrejas do Edir Macedo). Já cursos de Letras costumavam até pouco tempo atrás pulular em faculdadezinhas sem nenhuma qualidade. (É evidente que também há cursos ruins de medicina e engenharia em faculdades igualmente ruins, mas para cada curso ruim de medicina ou engenharia havia cinco ou seis de Letras ou Pedagogia. Esse cenário mudou nos últimos anos, quando o desinteresse geral dos estudantes em seguir a carreira do magistério levou ao fechamento da maioria dos cursos de Letras ou à sua transferência para a modalidade à distância, com redução ainda maior da carga horária e nenhuma prática pedagógica, ao mesmo tempo que cresceu a busca pelos cursos de Direito, Informática e Medicina.)

Outro ponto importante é que um estudante de Engenharia é alguém que supostamente estudou bastante matemática e física no colégio e, por isso, chega aos bancos universitários relativamente preparado para o que vem pela frente. (Bem, novamente aqui tenho que fazer essa afirmação com certa ressalva, pois posso estar redondamente enganado.) Ao contrário, o estudante de Letras é, via de regra, alguém cuja educação básica não estimulou seu raciocínio lógico. Em outras palavras, é alguém que não está acostumado a pensar, a fazer abstrações, a visualizar diagramas e esquemas em duas ou mais dimensões — em resumo, é alguém que está na área de Humanas para fugir do raciocínio, alguém que, vindo das classes mais baixas e de um ensino público falido, escolhe o curso “mais fácil”. Então, quando esse aluno depara com uma disciplina chamada Linguística e suas subdivisões (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, pragmática) e começa a ver esquemas, diagramas em árvore, oposições binárias, linguagem de conjuntos e outros que-tais, entra em desespero e desiste do curso. Ou conclui a faculdade odiando a linguística e, assim, vai ser mais um profissional não pensante, mal remunerado e desprezado socialmente. Infelizmente, na maioria dos casos, esse indivíduo fez por merecer — ainda que involuntariamente — o preconceito que se lhe abate.

O silêncio dos universitários

Hoje republico um editorial do jornal O Estado de São Paulo, intitulado “O silêncio dos universitários”, que diz aquilo que muitos dentro do meio acadêmico sabem, mas têm medo de dizer. Vamos ao artigo.

O silêncio dos universitários

As universidades vieram à luz como templos da liberdade intelectual, carregando já no nome a promessa de brilhar como um “universo” de saberes, onde ideias rivais se enfrentam sem medo, dogmas são desafiados e consensos só existem enquanto resistem ao fogo do debate. Mas essa promessa foi traída. O câmpus, que deveria ser laboratório do pluralismo, tornou-se casamata da intolerância.

Professores e alunos admitem que se calam por medo das patrulhas ideológicas. Segundo uma pesquisa do Instituto Sivis, 47% dos estudantes brasileiros consultados relutam em discutir assuntos controversos. Os mais afetados são os estudantes que se consideram de centro: 57% deles se autocensuram, contra 43% dos alunos de esquerda e 39% dos de direita. Discussões políticas (39%) lideram o cardápio de temas que costumam ser evitados.

A mordaça não vem de decreto nem da polícia, mas do medo de ser linchado nas redes sociais, sabotado pelos pares, hostilizado em sala de aula. A autocensura se tornou forma mentis. O preço de pensar fora da cartilha é a difamação, o cancelamento e até o veto a pesquisas ou à docência.

Naturalmente, há fanatismos de direita rondando os portões da universidade, tentando minar a legitimidade da ciência e instrumentalizar a ignorância. Mas a verdade incômoda é que, dentro dos muros, os maiores carrascos da liberdade não são reacionários caricatos, e sim a esquerda iliberal hegemônica nas humanidades. Sob a máscara da “inclusão” e da “justiça social”, essa nova ortodoxia impôs um código de fé progressista, em que divergências são escorchadas como blasfêmia. A universidade, que deveria ser antídoto contra o pensamento único, abastardou-se em sua encarnação mais zelosa.

Uma academia sem dissenso não forma lideranças democráticas: fabrica inquisidores de toga acadêmica, adestrados para silenciar o adversário em vez de refutá-lo. A retórica do respeito a grupos marginalizados virou desculpa para marginalizar dissidentes. A depauperação do debate interno repercute na sociedade: onde a discordância vira ofensa, a política degenera em polarização tóxica. Ao abdicar da liberdade acadêmica, a universidade legitima o populismo que diz combater, abrindo espaço para que demagogos de direita se apresentem como paladinos da “verdade proibida”.

A degradação não foi imposta de fora para dentro. Foi construída por anos de covardia institucional e conformismo ideológico. Diretores coniventes com protestos truculentos; colegiados que chancelam cursos com uma versão única da História; professores que se calam para não perder prestígio ou verbas. A cultura do cancelamento floresce porque encontrou terreno fértil na militância disfarçada de docência e no silêncio cúmplice da administração.

Há antídotos. Universidades que adotam a neutralidade institucional — recusando-se a endossar causas políticas ou manifestos partidários — preservam maior diversidade intelectual. Experiências internacionais mostram que regras de convivência, centradas na defesa intransigente da liberdade de expressão, criam ambientes mais férteis para a ciência e mais resilientes a modismos ideológicos. No Brasil, manifestos de intelectuais que denunciam a asfixia do pluralismo são sinais tímidos, mas encorajadores, de resistência. Porém, só terão efeito se acompanhados de reformas institucionais: desde códigos de conduta que protejam vozes divergentes até currículos que ofereçam perspectivas contrastantes, em vez de catecismos disfarçados de disciplinas.

A liberdade de se expressar não é luxo nem bandeira partidária. É a quintessência da vida acadêmica. Sem ela, a universidade deixa de ser espaço de investigação crítica e se converte em megafone de dogmas; deixa de formar cidadãos esclarecidos e passa a moldar militantes biônicos – alienando todo o resto. Uma universidade que cancela palestras, silencia teses e criminaliza a divergência trai sua missão e se torna caricatura de si mesma. Ou as universidades resgatam sua vocação para o livre debate e experimentação de ideias, ou continuarão a se desmoralizar — e se desfigurar – como tribunais ideológicos. E quem perde não são só os acadêmicos — é a própria democracia brasileira.

Cotas trans em universidades e a questão do mérito acadêmico

Algumas universidades brasileiras que já adotam o sistema de cotas para o ingresso de estudantes pretos, pardos, indígenas, quilombolas e de baixa renda também adotaram nos últimos tempos cotas para pessoas transexuais, travestis e não binárias, em mais um lance das chamadas ações afirmativas ou de diversidade e inclusão.

Cotas raciais e socioeconômicas podem até ser justificáveis tendo em vista que negros são em sua maioria pobres e, consequentemente, obrigados a cursar o ensino básico na escola pública, que não lhes dá base para ser aprovados nos disputadíssimos vestibulares das grandes universidades. Mas eu pergunto: o que identidade de gênero tem a ver com desempenho acadêmico? Pessoas transexuais precisam de cotas para ingressar em universidades? Aquelas que são pobres porque sua condição sexual as marginaliza economicamente já estão contempladas nas cotas para estudantes de baixa renda. No entanto, os gays e trans brasileiros não têm, em média, condição socioeconômica muito diferente da dos heterossexuais cisgênero. Há homossexuais, transexuais e não binários em todas as classes sociais e em igual proporção, afinal orientação sexual e identidade de gênero não escolhem classe social. É verdade que muitos travestis acabam na prostituição, mas estes em geral já provêm de um ambiente pobre, para não dizer miserável. E mulheres heterossexuais que se prostituem também costumam ser oriundas de famílias carentes, quando não desestruturadas. Portanto, estão todos no mesmo balaio da pobreza endêmica que assola nosso país há séculos e que nenhum governante ou legislador tem interesse em eliminar.

Marcos Lopes, professor de literatura geral e comparada da Unicamp, em seu artigo Consenso e liberdade acadêmica, publicado neste domingo, 20 de abril de 2025, no jornal O Estado de S. Paulo, alerta em primeiro lugar que essas ações afirmativas beneficiam um número mínimo de pessoas, isto é, a maioria dos negros, pobres, transexuais, etc., não tem acesso ao ensino superior nem mesmo por meio de cotas. Em segundo lugar, que esses benefícios, criados para ser temporários, acabam perpetuando-se, o que, a meu ver, se constitui num privilégio, num “direito adquirido” inamovível, como são hoje, por exemplo, os supersalários do Poder Judiciário. Em terceiro, ele aponta, citando Thomas Sowell no livro Ação afirmativa ao redor do mundo, que “o incentivo para grupos preferenciais raramente alcança os resultados prometidos, podendo produzir efeitos colaterais indesejáveis para o conjunto da sociedade”.

Mas o ponto mais nefasto que ele destaca é o problema da autocensura: “Há, sem dúvida, uma maioria silenciosa, na comunidade acadêmica, que discorda dos mecanismos de implementação de certas ações afirmativas. Contudo, ela teme o cancelamento e os rótulos de ‘direitista’, quando não de ‘fascista’ […]”. E a universidade deveria ser o espaço do debate de ideias, do confronto de visões diferentes e mesmo antagônicas para chegar a um consenso que nos aproxime da verdade. Mas transformou-se no lugar da unanimidade burra de que falou Nelson Rodrigues e do pensamento único e inquestionável. Em suma, a universidade é a nova Igreja.

A escolarização medíocre proporcionada pela rede pública de ensino afeta igualmente negros e brancos, homens e mulheres, héteros, homos e transexuais desde que sejam pobres e não tenham condições de frequentar uma boa escola privada — se bem que hoje em dia também há muitas escolas privadas que não passam de comércios disfarçados, que não educam, apenas adestram seus estudantes.

Nas entrelinhas, o que essa política de cotas trans, por mais bem intencionada que seja, insinua é que pessoas transgênero seriam intelectualmente inferiores às cisgênero, por isso precisariam de uma mãozinha das cotas para ser aprovadas em um vestibular. O pressuposto subjacente a essa medida deveria deixar indignada a comunidade LGBTQIAPNXYZ+. Mas quem vai se sentir ofendido em ganhar um privilégio, ainda mais um privilégio imerecido, não é?

O pior de tudo é que, com essas ações afirmativas, a universidade vai aos poucos deixando de ser um centro de excelência e produção de conhecimento de ponta para tornar-se cada vez mais um agente de assistencialismo barato e demagógico.

A posição do sujeito e sua concordância com o verbo — respondendo a uma leitora

Minha leitora Patricia B. Limongi me fez uma pergunta interessante sobre uma dúvida que também pode ser, creio, de muitos outros leitores. Ela pergunta:

Em seu artigo Ainda sobre o português e o “brasileiro”, de 24 de março, o senhor critica os linguistas que defendem a abonação de construções como “aconteceu dois acidentes”.

De acordo com a gramática tradicional, que delimita nitidamente o grupo restrito dos verbos impessoais e classifica como pessoais todos os outros, nesse exemplo faltou a concordância verbal com o sujeito posposto. Mas, de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal, o que leva à tentativa de compreender a causa do fenômeno sintático e propor novas descrições para ele.

No livro Não é errado falar assim!, capítulo “Concordância com sujeito posposto”, Marcos Bagno diz que a ordem SVO está “tão enraizada no nosso processamento mental da língua que nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”. Ele cita a hipótese de Mattoso, segundo a qual, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal. E conclui:

O mais democrático a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância. Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal.

Acho essa explicação muito lúcida e convincente. A minha dúvida é esta: existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?

Em resposta a ela, esclareço que, em primeiro lugar, existe uma diferença entre a linguística descritiva e a gramática normativa. A primeira descreve e explica como as pessoas falam e/ou escrevem nas mais diversas situações de comunicação. A segunda prescreve como as pessoas devem escrever textos formais (acadêmicos, técnicos, científicos, jurídicos, jornalísticos, literários, etc.) consoante o próprio modelo de referência já empregado nesses textos. A gramática estabelece uma norma, um modelo exemplar de uso da língua nas situações mais formais, como são os textos profissionais. E, para isso, ela toma como padrão o uso feito pelos melhores prosadores do idioma, pessoas de comprovada alta cultura linguística — e, evidentemente, cultura geral — e não apenas portadoras de diploma de nível superior (muitas das quais hoje em dia analfabetas funcionais). Se queremos estabelecer um padrão exemplar de bom uso da língua, devemos buscar os melhores exemplos (literários e não literários) de uso e não nos pautar pela mediocridade de textos jornalísticos de internet escritos por estagiários (isto é, estudantes ainda não formados de faculdades de jornalismo de qualidade duvidosa) ou de textos técnicos (relatórios, petições, contratos, trabalhos escolares — incluindo teses acadêmicas) redigidos por profissionais de letramento deficiente, que não são raros entre nossos advogados, engenheiros, médicos e pós-graduandos em geral.

Portanto, os exemplos supostamente encontrados pelos linguistas descritivistas de construções desviantes da norma-padrão, mesmo que produzidos por redatores de nível superior, não podem justificar a mudança dessa norma — ainda mais para acolher usos que são fruto de má escolarização.

Aliás, normatizar o padrão culto da língua é tarefa dos gramáticos e não de linguistas. Ao tentar legislar sobre a norma-padrão, certos linguistas invadem uma atribuição profissional que não é sua. E o fato é que, por mais que esbravejem contra a gramática normativa, os gramáticos vão continuar a exercer seu ofício sem lhes dar ouvidos, e as pessoas de bom senso vão continuar a seguir as recomendações da gramática ao redigir seus textos. O mal que esses linguistas causam é que eles doutrinam seus alunos, futuros professores de português, a não ensinar gramática, e assim a educação no Brasil, que já é péssima, fica ainda pior.

A questão é justamente a confusão que linguistas como Marcos Bagno fazem entre descrição e normatividade. Confundem registro coloquial com registro culto, modalidade falada com modalidade escrita, gêneros textuais menos formais com gêneros textuais mais formais e colocam tudo num mesmo balaio. Pior: usam critérios da linguística descritiva para orientar a elaboração da gramática normativa, duas atividades que têm lógicas e propósitos totalmente diferentes. O papel da gramática normativa é descrever e, em consequência disso, normatizar os usos linguísticos das pessoas verdadeiramente cultas da sociedade, a partir da modalidade escrita desses indivíduos em gêneros textuais de maior grau de cultivo, esmero, cuidado da língua, ou, se se desejar, de formalidade, visando a uma norma supradialetal — a norma-padrão. Isso não tem nada a ver com o modo como as pessoas de média ou baixa cultura linguística falam ou escrevem no seu dia a dia em situações de pouca ou nenhuma formalidade ou mesmo em situações em que deveriam ser formais, mas não têm plena proficiência para isso.

Outro ponto que preciso destacar é quando Patricia afirma que “de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”. A questão é que esses linguistas jamais provam o que afirmam. E ciência se faz com provas, fatos concretos, evidências que possam ser constatadas e não com opiniões, impressões pessoais ou achismos. Eu mesmo leio frequentemente textos formais dos mais diversos tipos (livros, artigos científicos, dissertações, teses, colunas em jornais e revistas, etc.) e, contrariamente ao que afirmam Bagno e seus colegas, nunca encontro construções como “aconteceu dois acidentes”. Mas, para não contrapor a minha visão pessoal à deles, cito o meu colega Prof. Fernando Pestana, que em sua dissertação de mestrado desmascarou as mentiras (sim, mentiras!) propaladas por Bagno, Faraco, Possenti, Perini, Ataliba e outros, fazendo um extenso, exaustivo e minucioso levantamento dos usos encontrados em textos cultos. Sobre a não concordância do verbo com sujeito posposto, ele apresenta os números que estão na seguinte tabela, na qual DNP significa “dentro da norma-padrão” e FNP, “fora da norma-padrão”:

Vejam os números e concluam por vocês mesmos. São números como esses que os linguistas citados por ela jamais apresentam, provavelmente porque contradizem suas teses.

O fato é que a definição de sujeito apresentada pelas gramáticas normativas dá conta perfeitamente da realidade dos usos que compõem a norma que elas delineiam.

Se, portanto, é um fato comprovado e comprovável que os usuários realmente cultos 99% das vezes pluralizam o verbo cujo sujeito simples plural venha posposto, o papel da gramática normativa é registrar essa regularidade, esse padrão, delimitando assim tal concordância verbal.

Quando Bagno afirma que “essa forma [Aconteceu dois acidentes] é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”, está apenas reiterando a arbitrariedade mentirosa registrada em sua própria gramática.

Quanto à definição de sujeito, é preciso esclarecer que o que define um elemento sintático como sujeito ou como objeto direto não é sua posição na oração (antes ou depois do verbo) e sim sua função sintáxico-semântica, também chamada de papel temático. Tanto que, em latim, a ordem das palavras na oração é totalmente livre, mas sujeito e objeto jamais se confundem, e o verbo sempre concorda com o sujeito.

Segundo Bernard Pottier, criador da sintaxe-semântica, o sujeito exerce funções, chamadas por ele de casos, que são o nominativo, o ergativo, etc., ao passo que o objeto exerce os casos acusativo, dativo, benefactivo, e assim por diante.

Na teoria dos papéis temáticos, as funções semânticas (ou “papéis”) são: agente, fonte, experienciador, locativo, alvo e tema. O sujeito é sempre agente, fonte ou experienciador; o objeto é sempre alvo ou tema. Portanto, em “aconteceu dois acidentes”, dois acidentes está no caso ergativo e não no acusativo, logo não pode ser objeto de um suposto verbo impessoal transitivo direto acontecer. Segundo a teoria dos papéis temáticos, dois acidentes é fonte e não alvo, portanto novamente só pode ser sujeito e não objeto direto.

Quando Bagno afirma “nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”, eu pergunto: nós quem, cara pálida? Uma coisa é a análise subjetiva e ingênua (no sentido de “não técnica, não especializada”) que um falante comum, de baixa ou média escolaridade, faz da língua; outra é a análise técnica e abalizada que um estudioso faz com base em modelos científicos testados e comprovados.

Quando Mattoso Câmara, um linguista mil vezes maior do que Bagno, afirma que, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal, ele está se referindo à análise subjetiva e ingênua do falante comum de baixa ou média escolaridade e não à estrutura sintática real da língua, só acessível mediante estudo por pessoas de alto letramento e pesquisadores qualificados, como o próprio Mattoso. Aliás, ele próprio contrapõe em sua obra a visão ingênua e subjetiva do falante comum à estrutura real da língua, objeto de estudo da linguística. E em nenhum momento ele afirma que esta deva ser substituída por aquela, especialmente na elaboração de gramáticas normativas. A linguística descritiva explica como o falante comum interpreta os fatos de língua, o que não significa que essa interpretação seja sempre correta.

Por fim, gostaria de chamar a atenção para as palavras de Bagno: “O mais democrático (grifo meu) a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância”. Agora temos Bagno fazendo o que ele sempre faz: introduzindo juízos de valor de natureza político-ideológica em um discurso científico, que, como tal, deveria primar pela impessoalidade, imparcialidade, objetividade e isenção, atendo-se estritamente aos fatos observáveis e eximindo-se de qualquer opinião. Ciência se faz com juízos de verdade e não com juízos de valor. Não existe ciência democrática, inclusiva, identitária, antirracista, liberal, conservadora, esquerdista, direitista…, existe apenas ciência. Seu papel é descrever e tentar explicar fatos concretos, objetivos e efetivamente observados à luz da razão, do raciocínio lógico e de modelos teóricos já testados e comprovados. O pesquisador pode ter suas convicções políticas e pode inclusive externá-las em artigos jornalísticos, em entrevistas à imprensa, em palestras, mas não em trabalhos científicos; aí, ele deve exclusivamente expor os fatos e apresentar conclusões que decorram estritamente desses fatos e não de seus desejos pessoais, por mais nobres que sejam. Defender uma posição política num trabalho científico é absolutamente inadmissível e depõe contra a própria credibilidade desse trabalho!

Quando um autor como Bagno publica um livro chamado Não é errado falar assim!, ele induz o leitor incauto a pensar que certas construções são aceitáveis em situações formais quando não o são e assim leva esse leitor a ter prejuízos pessoais, como ser reprovado em um processo seletivo. O que ele faz é um desserviço à sociedade!

Acrescento ainda que o que Bagno propõe é uma complicação ainda maior da norma-padrão. Hoje o verbo concorda com o sujeito em 100% dos casos; na proposta dele, passaríamos a ter casos em que há concordância e casos em que não. Por que criar exceções a uma regra e tornar ainda mais complexo o que já não é simples?

Bagno ainda afirma: “Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal”. Ora, como um mesmo elemento pode exercer duas funções sintáticas tão distintas quanto sujeito e objeto direto? Que tipo de análise sintática é essa? Bagno fala tanto em ciência e, no entanto, sua análise “científica” pode ser qualquer uma, ao gosto do freguês?

Em resumo, o papel da gramática normativa é registrar o que efetivamente se usa na norma culta do idioma e recomendar que se obedeça a esse padrão ao se escreverem textos formais. A gramática normativa não é nem pode ser democrática e muito menos demagógica, como propõe Bagno. Sua proposta é simplesmente populista e anticientífica. O fato de existir no sistema da língua e na norma coloquial/popular/vulgar uma estrutura A e uma estrutura B, facilmente comprovadas (seja na fala, seja na escrita de qualquer brasileiro), não implica a automática existência de ambas na norma culta, pois só uma delas efetivamente existe nessa norma, a saber: “aconteceram dois acidentes”. É isso que Bagno e todos os seus seguidores não entendem (ou fingem não entender), apesar de quererem muito acreditar que “aconteceu dois acidentes” já faz parte da norma culta escrita do português brasileiro, o que é nada menos do que uma insustentável mentira.

Assim, à pergunta de Patricia “existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?”, o que posso responder é que toda a tradição gramatical, com sua definição clássica de sujeito, e também toda a teoria sintática desenvolvida pela linguística estruturalista e pós-estruturalista (gerativista, cognitivista, etc.) invalidam essa análise, que, como disse, é descritiva e não normativa e parte da interpretação do falante ingênuo sobre um fato de língua e não sobre o fato de língua em si.

Espero que esta minha resposta tenha sido esclarecedora a Patricia e a todos os meus leitores.

Educar é humilhar?

Em seu artigo “O preconceito linguístico disfarçado de elegância nas redes sociais”, publicado no site Folha Vitória, a professora Larissa O’Hara critica uma certa postura arrogante e preconceituosa de quem, tendo domínio da norma-padrão do idioma, ou mesmo sendo professor dela, usa de seu conhecimento linguístico para humilhar quem não a domina. Ela diz: “A elegância, quando usada para desqualificar o outro, não é uma virtude; ao contrário, torna-se um instrumento de exclusão. Utilizar o domínio da norma-padrão para menosprezar dialetos marginalizados reforça uma postura segregacionista e violenta”.

E justifica:

[…] foi apenas no final do século XX, em 1996, com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que a escola se universalizou e o perfil da população estudantil se diversificou. […] Antes, a escola era espaço das elites; com a democratização, passou a acolher também alunos das classes trabalhadoras e de segmentos à margem do sistema de produção. Nesse processo, a escola passou a receber estudantes que falam, por exemplo, “nóis vai”, “abrido”, “cheguemu”, expressões típicas de suas comunidades e contextos sociais.

De fato, a universalização do ensino básico levou para dentro da escola pública a quase totalidade das crianças e adolescentes das classes mais baixas da população (e, diga-se de passagem, introduziu no ambiente escolar muitos pequenos marginais que ameaçam a integridade física e a vida de colegas e professores). Mas, antes de continuarmos, deixem-me explicar algo que já mencionei em outras oportunidades.

A língua tem três níveis de linguagem, ou registros (na verdade, o terceiro deles é muito mais um dialeto do que um registro), que são o formal (iremos), o informal-coloquial (nós vamos, a gente vai) e o vulgar, ou iletrado (nóis vai, a gente vamo). Este último é antes um dialeto do que um registro porque registros são modos de expressão que adotamos conforme a situação de comunicação. Assim, o mesmo falante que emprega iremos num texto profissional utiliza a gente vai num bate-papo entre amigos. Mas ele jamais diria nóis vai, a não ser de brincadeira. Já quem diz nóis vai é incapaz de usar nós vamos ou nós iremos. Há uma barreira social e educacional entre a pessoa que alterna os dois primeiros registros e a que só utiliza o terceiro. Vale lembrar que a função da escola é tornar o aluno proficiente no primeiro registro, que é o que lhe abrirá portas em seu futuro profissional e civil, pois nos outros dois registros ele já é proficiente.

Vamos imaginar que, se o Brasil tivesse um ensino público gratuito e universal de altíssima qualidade como têm países como Finlândia ou Dinamarca e, portanto, todas as crianças recebessem desde cedo esse nível de educação, ninguém no país falaria nóis vai. É o que se espera de um país desenvolvido — eu diria até, civilizado.

Obviamente, crianças oriundas de favelas ou zonas rurais, filhas de pais analfabetos, que não podem dar aos filhos o que não têm nem conhecem, chegam à escola dizendo nóis vai. E concordo com a articulista de que não é justo que sejam humilhadas por isso, afinal não têm culpa da condição socioeconômica em que nasceram.

Citando Stela Maris, Ph.D. em Linguística, na obra Nós cheguemu na escola, e agora?, Larissa recomenda “que a norma culta seja ensinada nas escolas, mas que, ao mesmo tempo, sejam preservados os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social”. 

E é aí que discordo da colunista e da doutora em linguística. Os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social devem, sim, ser respeitados, mas não preservados. A escola deve, sim, corrigir o aluno que diz nóis vai e ensiná-lo de que, daqui para frente, deve dizer nós vamos, nós iremos ou a gente vai, dependendo do contexto. Mas, e quando esse aluno for para casa e conversar com seus pais, ele deve usar a nova forma que aprendeu ou mudar a chave e dizer: “hoje nóis aprendeu uma coisa nova lá na escola”? Ninguém passa pela escolarização impunemente. Portanto, o que se espera de alguém que está sendo escolarizado é que aplique na sua vida o que aprende na escola. Logo, esse aluno deve aos poucos se acostumar a empregar um linguajar mais condizente com sua condição escolar. Se os pais acharem estranha a nova forma de expressão da criança, esta deve dizer: “pai, mãe, a professora ensinou que essa é a forma correta de falar”. Essa criança estará indiretamente educando também os seus pais, num efeito multiplicador. Antes de causar estranheza, esse novo modo de falar deveria causar orgulho em pais que não puderam estudar, mas cujos filhos estudam para um dia ter uma posição social melhor que a deles. A menos que esses pais sonhem em ter um filho traficante, funkeiro, jogador de futebol ou influenciador digital.

Larissa prossegue: “Aprender a norma culta deve significar uma ampliação da competência linguística e comunicativa do aluno, capacitando-o a usar uma variedade ou outra, conforme a situação discursiva”. Fico imaginando um eminente jurista como Joaquim Barbosa, que veio de um meio muito humilde, chegando à casa de seus pais depois de dar uma palestra em português castiço e dizer “hoje eu di uma palestra numa facurdade pra lá de boa e os pessoal me apraudiu tudo”. Seria concebível essa situação?

Respeitar o socioleto do aluno vindo da favela é uma coisa, ensiná-lo a usar variedades de maior prestígio para seu próprio bem é outra. À medida que o aluno aprende uma forma de expressão mais prestigiosa, que o afasta do ambiente tóxico em que estaria condenado a viver, por que ele continuaria a usar uma forma linguística que só o prende a essa realidade?

A colunista finaliza:

Os alunos devem se sentir à vontade para falar em sala de aula, independentemente da variedade linguística que utilizem. Quando seus antecedentes culturais e linguísticos não são respeitados, podem desenvolver um sentimento de insegurança e inadequação. […] Como poderíamos ensinar menosprezando, desautorizando e humilhando nossos próprios alunos? Não somos contrários às regras, nem defensores de um “vale-tudo” linguístico.
Na verdade, apreciamos ensinar as normas do português padrão e promover uma boa escrita. No entanto, isso é muito diferente de diminuir alguém por sua forma de se expressar. […] Humilhar outra pessoa por sua forma de falar, não apenas silencia uma voz, mas também perpetua um ciclo de opressão.

Obviamente, sou contra qualquer humilhação que um professor possa impor a um aluno, especialmente por seu modo de falar. Mas a sociolinguística, base teórica da noção de variação e variedade linguísticas, que prega a igualdade de valor entre todas as variedades, tem sido frequentemente usada por professores inexperientes, preguiçosos ou mal-intencionados para deixar de ensinar a norma-padrão (até linguistas de universidades brasileiras recomendam que não se ensine mais gramática) sob a alegação de que corrigir o aluno constitui preconceito linguístico que pode traumatizá-lo e de a gramática normativa é uma forma de opressão das elites contra a classe trabalhadora; por isso, é melhor deixá-lo continuar a dizer nóis vai — e a vandalizar a sala de aula e ameaçar colegas, professores e diretores. É por isso que o artigo da professora O’Hara, embora bem-intencionado, pode ser perigoso se mal interpretado.

Inteligência ou burrice artificial?

Meu leitor Maurício Terra Dias pediu ao ChatGPT que escrevesse uma matéria crítica sobre a minha obra. Alguns excertos da resposta são os seguintes:

Aldo Bizzocchi, embora não seja amplamente reconhecido no circuito artístico mainstream, representa uma figura de significativa importância dentro do contexto da arte contemporânea, principalmente no que diz respeito à arte brasileira. Sua obra, marcada por uma abordagem multifacetada, transita entre o abstrato e o figurativo, o pictórico e o tridimensional, explorando as potencialidades da forma, da cor e da textura. No entanto, sua produção não se limita apenas ao campo visual: Bizzocchi insere questões filosóficas e existenciais em seu trabalho, criando um diálogo constante entre o concreto e o metafísico. […] Uma das características mais marcantes da obra de Bizzocchi é a reflexão sobre a condição humana. Ele utiliza suas peças como uma espécie de laboratório visual para investigar a fragilidade da existência, as tensões entre o ser e o não ser, e a busca por sentido em um mundo muitas vezes marcado pela incerteza e pelo caos. […] A técnica adotada por Bizzocchi também é digna de destaque. O artista se utiliza de materiais inusitados, entre eles a escultura e o desenho, para construir peças que provocam tanto a percepção tátil quanto a visual. […] Ele não tem medo de mergulhar no experimental, desafiando o espectador a sair da zona de conforto e repensar sua percepção estética. […] Uma crítica que pode ser feita à obra de Aldo Bizzocchi é a sua complexidade. […] O trabalho do artista exige paciência, atenção e um certo grau de envolvimento do espectador, o que pode ser desafiador para quem está acostumado com a superficialidade da arte de consumo rápido. […] Ele não está preocupado em agradar ou em se encaixar em tendências; sua arte é antes um reflexo de sua própria visão de mundo. […] Aldo Bizzocchi, com sua arte imersiva e muitas vezes desconcertante, é uma figura essencial no panorama da arte contemporânea. Sua capacidade de transformar o abstrato em algo visceral e de forçar o espectador a uma experiência sensorial e filosófica ao mesmo tempo é o que faz sua obra relevante. […] Mais do que um artista que se insere em uma tradição ou tendência, Bizzocchi é um criador de universos, um reflexo da busca constante pela transcendência e pelo entendimento de um mundo em constante transformação.

Confesso que fiquei lisonjeado com resenha tão elogiosa — exceto pelo fato de que eu não sou nem nunca fui artista plástico e minha única incursão no mundo das artes foram alguns poemas que escrevi muito tempo atrás.

Segundo Maurício, a resposta da Meta AI à mesma pergunta foi ainda mais estranha. E, ao trocar o meu nome pelo dele, saiu uma lenga-lenga enorme sobre sua influência como artista revolucionário.

Mas ele também fez testes pedindo uma análise crítica sobre a obra do neto de um amigo que tem três anos de idade. E pediu ainda uma comparação entre as ideologias de Karl Marx, Groucho Marx, Roberto Burle Marx, Armando Marques e Gabriel García Marques. Resultado: mais um monte de blá-blá-blá sem nexo e, pior, sem relação com a realidade.

Evidentemente, como assinala Maurício, existe uma enorme quantidade de inteligência envolvida na produção de respostas por esses aplicativos. O problema é que eles deliram e inventam informações que absolutamente não correspondem à verdade. Seria cômico se não fosse trágico. Basta imaginar a quantidade de estudantes de todos os níveis utilizando esses aplicativos de IA para fazer trabalhos escolares.

Em tempos de pós-verdade, em que o que importa não são os fatos e sim as versões, tese defendida tanto por Trump e os bolsonaristas quanto pela esquerda identitária, programas como o ChatGPT e a Meta AI caem como uma luva. Diante de tão honrosa análise crítica de minha obra, agora só falta eu expor meus quadros em alguma galeria famosa — quando eu pintar algum, é claro.

Afinal, que gramática queremos?

Vem-se travando há algumas décadas uma guerra entre linguistas e gramáticos. Vejam, não estão em conflito a linguística e a gramática, duas disciplinas que, dadas suas atribuições específicas, podem e devem trabalhar em plena harmonia e cooperação. A “guerra” em questão se dá por parte de alguns linguistas, que não representam necessariamente a posição dessa ciência, mas são majoritários nas universidades públicas e entidades de classe, contra os gramáticos em geral, antigos e modernos.

O argumento desses linguistas é que a gramática normativa preconiza um padrão anacrônico, já que supostamente baseado em autores do passado, predominantemente lusitano e exclusivamente literário, além de privilegiar formas arbitrariamente escolhidas pelos gramáticos para confirmar suas lições, ao mesmo tempo omitindo casos que não corroborem tais lições.

Em contraposição, esses linguistas defendem que o padrão normativo deva basear o corpus que lhe servirá de modelo, predominante ou exclusivamente, em textos brasileiros contemporâneos de não ficção, especialmente jornalísticos e acadêmicos. Em alguns casos, sustentam que construções populares típicas da oralidade informal como “eu vi ele” ou “aconteceu dois acidentes” sejam abonadas na norma-padrão, bem como sugerem o banimento de mesóclises (por exemplo, dar-lhe-ei) e de termos como o pronome relativo cujo e o demonstrativo este, que alegam terem caído em desuso.

Em primeiro lugar, tais linguistas faltam com a verdade ao proclamarem a extinção de formas que qualquer levantamento nem muito rigoroso demonstra que continuam vivas na escrita formal — e mesmo na fala dos mais bem escolarizados.

Em segundo lugar, propõem que se tome como padrão de exemplaridade idiomática textos cuja qualidade é bastante irregular (não me canso de pescar “pérolas” de semianalfabetismo em textos jornalísticos e, para meu desespero, também em acadêmicos).

Em terceiro lugar, criticam gramáticas que foram produzidas décadas e décadas atrás, de autores já mortos e enterrados, mas as gramáticas que eles mesmos elaboram não têm nem de longe o rigor metodológico das gramáticas tradicionais, mesmo as que porventura já estejam um tanto desatualizadas.

Em sua defesa, os gramáticos que atualizam frequentemente suas obras argumentam que elegem o gênero literário como o mais recomendado para compor seu corpus por ser a literatura a seara em que a expressão linguística atinge seu mais alto nível de perfeição e elaboração, sendo, mais do que qualquer outro, o discurso exemplar do idioma. Além disso, a literatura possui um cânone, isto é, uma coleção de obras de qualidade indiscutível e consensual, o que não ocorre com textos jornalísticos ou acadêmicos. Mesmo assim, obras de não ficção de grande qualidade, redigidas por nomes de inquestionável domínio linguístico, também entram nesse corpus.

Ademais, e ao contrário do que acusam esses linguistas, os gramáticos não impõem um padrão arbitrário e idiossincrático; eles, antes, coletam desse corpus rigorosamente construído em termos metodológicos os usos que efetivamente ali ocorrem de modo majoritário ou pelo menos significativo (e há critérios para definir o que seja significativo).

Mas a questão que quero tratar aqui é: afinal, que gramática queremos e para quê. Para isso, a primeira pergunta a ser feita é: para que serve a gramática?

Embora as gramáticas normativas se baseiem preferencialmente nos usos literários da língua, gramáticas não são elaboradas para servir de guia a literatos, já que estes prescindem de tal guia e é justamente o uso que fazem do idioma que vai servir de molde aos demais usuários. Assim, poderíamos definir a gramática como uma obra pedagógica cuja função é ser uma espécie de manual de uso da língua em sua expressão escrita formal. Nesse sentido, a enorme maioria dos consulentes das gramáticas é de redatores de textos de não ficção com propósitos profissionais e acadêmicos, tais como relatórios, reportagens, laudos, documentos, trabalhos escolares (incluindo dissertações e teses), livros técnicos, artigos científicos, etc.

Um segundo ponto importante a ser considerado é que, ao definir o objeto da gramática normativa, costumeiramente se faz a oposição entre o registro formal, quase onipresente na modalidade escrita, e o informal, predominante na fala. Na verdade, não há dois e sim quatro níveis de linguagem ou registros em que podemos nos expressar:

1) o registro ultraformal, atualmente restrito quase que somente ao universo do Direito (mais especificamente às instâncias mais elevadas do Poder Judiciário, visto que, no exercício da advocacia, abundam bacharéis mal letrados);

2) o registro formal, aquele mais usual nos textos profissionais em geral, como os mencionados acima;

3) o registro informal ou coloquial, típico da fala de pessoas alta ou medianamente escolarizadas, especialmente em situações de pouca ou nenhuma formalidade, mas que ocorre por escrito apenas em comunicações informais, como um bilhete ou mensagem de Whatsapp;

4) o registro vulgar ou iletrado, o qual é, na verdade, muito mais um dialeto do que um registro, visto que as pessoas que o utilizam, de baixíssima ou nenhuma escolaridade, jamais se expressam nos demais registros, sendo a recíproca igualmente verdadeira. Há, pois, uma barreira a separar os três primeiros registros deste último.

Um exemplo simplório, mas, creio, ilustrativo desses registros seria o seguinte:

1) “Fá-lo-emos tão logo a situação assim o permita” (ultraformal);

2) “Nós o faremos assim que a situação permitir” (formal);

3) “Nós vamos” (ou “a gente vai”) “fazer isso quando a situação permitir” (informal);

4) “Nóis vai fazê quando dé” (vulgar).

A gramática normativa baseia suas prescrições e serve de guia em relação aos dois primeiros níveis. No ultraformal, por exemplo, a mesóclise permanece muito viva. No nível formal, é possível que já tenha um uso mais marginal (note que neste mesmo texto eu não a empreguei nenhuma vez). Nos dois últimos registros ela definitivamente não ocorre. Assim, quando um linguista afirma que tal ou qual forma linguística não se usa mais e por isso deve ser banida da gramática, em qual desses registros ele apoia sua tese?

Quando se discute, por exemplo, a simplificação da linguagem jurídica, muitos entendem erroneamente que o que se pretende é rebaixar o jargão do Direito ao falar dos botequins. Nada mais errado. Pode-se perfeitamente (e eu particularmente acho bastante desejável) trazer o discurso jurídico — com seu linguajar bacharelesco, empolado e rebarbativo, que, por seu excesso de erudição e preciosismo, soa pedante e mesmo ridículo — do nível ultraformal para o formal, o mesmo de outras profissões de nível superior, preservada, sem dúvida, a terminologia técnica do Direito.

Portanto, a gramática deve orientar a redação de textos formais e ultraformais, cabendo ao redator adequar o uso ao registro em que opera. Aqui mesmo, estou produzindo um texto formal, mas não ultraformal; por isso, estou tentando (e espero estar conseguindo) equilibrar elegância e clareza. Não vejo sentido em usar uma linguagem indigente com o pretexto de ser claro nem uma linguagem rebuscada a fim de soar elegante ou culto. Esse é o ponto de equilíbrio que o bom uso da gramática permite.

Por outro lado, como linguista que conhece várias línguas e estando no momento a conduzir uma análise comparativa do nível de complexidade gramatical das principais línguas europeias, posso adiantar a partir dos primeiros resultados que o português padrão apresenta, sim, uma gramática mais complexa do que idiomas próximos como espanhol, italiano, francês e inglês.

Por exemplo, nossa colocação pronominal padrão — mesóclises à parte — inclui um número de regras bem superior ao das demais línguas citadas. Nesse sentido, penso que, se fôssemos pensar em reformular a gramática normativa, deveríamos nos pautar não pela abonação de construções que só se encontram na fala informal ou vulgar, mas sim pela simplificação de regras tendo por baliza aquilo que as gramáticas de nossas línguas-irmãs já fizeram, às vezes séculos atrás. Sim, porque o estudo histórico das línguas nos mostra que o espanhol e o italiano, para citar os exemplos mais próximos, também já tiveram uma colocação pronominal complicada, mas a simplificaram e racionalizaram sem que isso significasse uma barbarização desses idiomas.

Assim, penso que, como em tudo na vida, o bom senso reside no caminho do meio: nem tanto ao mar nem tanto à terra. O discurso jurídico não precisaria ser tão prolixo e extravagante para ser preciso e inequívoco; sem dúvida, poderíamos prescindir das mesóclises tanto quanto as demais línguas do mundo, que desconhecem tal colocação. Por outro lado, poderíamos escrever com elegância e sem ambiguidade mesmo que adotássemos regras morfológicas e sintáticas mais simples e racionais, como as que encontramos ao lermos em espanhol, francês, italiano e sobretudo inglês. Por que não? Essa infrutífera guerra promovida por certos linguistas contra os gramáticos poderia terminar num consenso em que todos, sobretudo os falantes do português, sairiam ganhando.

O cancelamento nosso de cada dia

Dia 17 último, durante os Jogos Jurídicos tradicionalmente disputados entre alunos de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), torcedores desta última gritaram impropérios de cunho supostamente racista contra os estudantes da USP, chamando-os de “cotistas” e “pobres” (usei a expressão supostamente racista porque cotista e pobre não são, salvo melhor juízo, denominações de raça e sim de condição social).

Já no dia 27 deste mesmo mês, a desembargadora Rosita Falcão Maia, durante uma sessão do Tribunal de Justiça da Bahia, fez críticas ao sistema de cotas raciais adotado no Brasil ao dizer que elas “vieram mais para desunir do que unir a população”. A sessão deliberava sobre a admissão ou não de uma candidata aprovada como cotista num concurso do próprio Tribunal.

A desembargadora também afirmou que “a meritocracia é importantíssima no serviço público”. E ainda alegou que a Faculdade de Direito da Universidade da Bahia (UFBA) “era excelente, [mas] hoje já não é tanto, porque todos os professores comentam o desnível dos estudantes. O nível dos estudantes baixou”.

Por fim, a filha de um amigo meu saiu-se muito bem no vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mas foi barrada pela política de cotas. Obteve nota geral 7,65 enquanto os cotistas entraram com menos de 6,00.

Tanto a manifestação dos torcedores da PUC-SP quanto a da magistrada baiana foram intensamente repudiadas por seu caráter racista, preconceituoso e discriminatório.

Bem, criticar ou injuriar pretos e pardos pelo simples fato de serem pretos ou pardos é, sem dúvida alguma, um abominável ato de racismo, especialmente porque ninguém tem o poder de escolher a cor da própria pele (que eu saiba, Michael Jackson foi o único a fazer isso). Mas criticar uma política governamental de cotas ou enaltecer o critério do mérito não constituem crime. Principalmente quando a crítica tem algum embasamento. E parece que a da desembargadora tinha. Primeiro, ela apontou o próprio diagnóstico dos professores do curso de Direito da UFBA. Em segundo lugar, o episódio dos Jogos Jurídicos USP x PUC demonstra que, de fato, as cotas geram divisão em vez de promover união. Antes delas, a presença de um aluno negro nos bancos da universidade, ainda que minoritária, era digna de louvor, visto que o estudante em questão havia superado inúmeras barreiras — de pobreza, de educação precária, de desestímulo social, de dificuldade de transporte e alimentação — para chegar àquela posição. Era alguém que fez por merecer o lugar onde estava. Hoje, os cotistas são vistos por muitos colegas não cotistas como alguém que entrou na universidade pela porta dos fundos, alguém que, sem ter o devido mérito, usufruiu um privilégio. Não vou entrar aqui nas espinhosas questões de reparação histórica, promoção da diversidade, combate ao racismo, etc. etc. Estou apenas me referindo ao sentimento de injustiça que muitos alunos, como a filha de meu amigo, nutrem em relação a colegas que, em termos de bagagem cultural, estão em posição inferior. Sentimento esse que produz desunião e desconfiança num ambiente que deveria ser de fraternidade e coleguismo.

Mas, como se vê, a própria crítica à política de cotas, cujo objetivo seria o de combater o racismo, de que está na prática alimentando o racismo, ainda que escorada em fatos, é ela própria acusada de ser racista. Diante disso, só nos resta depositar flores sobre o túmulo da liberdade de consciência e de expressão do pensamento.

O que me choca é que, quando magistrados, professores, estudiosos e intelectuais criticam esta ou aquela política, não o fazem com propósito depreciativo e sim com espírito de crítica construtiva, de quem deseja aperfeiçoar o sistema e não destruí-lo. Mas mesmo a crítica construtiva é vista como um ataque aos direitos — e talvez até privilégios — conquistados por certas minorias, que por meio deles exercem seu poder de censurar e cancelar qualquer um que pense diferente.

Sobre descrever, prescrever — e mentir (ou “A falácia do espantalho”)

Recentemente, o linguista Marcos Bagno publicou no site da Editora Parábola um artigo intitulado O certo, o errado, a ciência e a má-fé, no qual apresenta diversas informações e argumentos a respeito da linguística enquanto ciência e de sua tarefa de descrição da língua que merecem alguma reflexão.

Bagno começa explicando que a gramática, também chamada de gramática normativa ou gramática tradicional, nascida na Grécia Antiga, tem por objetivo fixar uma norma, isto é, um padrão, para a língua. Em suas palavras,

[f]ixar uma norma significa, inescapavelmente, fazer escolhas, e fazer escolhas significa, inevitavelmente, descartar tudo o que sobra depois de feita a seleção. O que a norma seleciona então passa a ser o certo, o correto, o aceitável, enquanto o que não entra na norma é o anormal, o equívoco, o que deve ser evitado.

É evidente que toda norma, seja ela linguística, técnica, jurídica ou de qualquer outra espécie, opera escolhas — quase sempre segundo critérios razoáveis — cuja observância  passa a ser recomendável (em alguns casos obrigatória) pelos profissionais da respectiva área. Logo, toda norma diz o que deve ou não deve ser feito em tal ou qual situação. Por exemplo, os plugues e as tomadas atualmente em uso no Brasil (maldosamente chamadas de “tomadas do Lula”) seguem um modelo determinado pela ABNT — Associação Brasileira de Normas Técnicas. Isso significa que todos os fabricantes de plugues, tomadas, máquinas, eletrodomésticos e aparelhos elétricos em geral devem seguir esse modelo. É claro que um determinado fabricante pode produzir e colocar no mercado produtos fora desse padrão, só que, por razões óbvias, eles não terão aceitação, pois o plugue não encaixará na tomada. É claro também que o modelo escolhido como padrão poderia ser outro, mas a ABNT deve ter tido boas razões técnicas para eleger o que está atualmente em uso.

A norma gramatical funciona da mesma maneira que as normas da ABNT: é preciso que haja uma padronização da linguagem escrita formal para que as pessoas se entendam sem equívocos ou ambiguidades em atos de comunicação que impliquem grande responsabilidade. A gramática não obriga ninguém a escrever segundo suas normas, mas, em muitos casos, sobretudo profissionais, quem não o fizer estará sujeito a sanções, que podem ir desde a mera advertência até a perda do emprego.

A seguir, Bagno explica que a linguística nasceu como ciência descritivo-explicativa no século XIX e que, como toda ciência, não faz juízos de certo e errado, mas analisa os fenômenos linguísticos de forma objetiva. Nesse sentido, reconhece que muitos fatos apontados pela gramática como erros são, na verdade, formas desviantes que denunciam o fenômeno da mudança linguística, isto é, da evolução histórica da língua. E Bagno enumera uma série de exemplos de como palavras do latim se transformaram até chegar ao português, o que demonstra que ele não faltou às aulas de linguística histórica. E argumenta corretamente que nada na língua é por acaso (aliás, esse é o título de um de seus livros): as mutações seguem padrões fixos e previsíveis, o que contempla um dos princípios básicos de toda ciência, que é o chamado determinismo científico (as mesmas causas, nas mesmas condições, devem produzir sempre os mesmos efeitos).

Mas Bagno confunde alhos com bugalhos ao confrontar o trabalho do linguista com o do gramático. O primeiro analisa a língua como ela é, em todas as suas variedades, inclusive as variedades não padrão, isto é, aquelas que costumamos atribuir às pessoas menos letradas, pois “o erro de hoje pode vir a ser o acerto de amanhã”. Já o gramático tem a tarefa de normatizar uma variedade específica da língua, o padrão escrito formal, também chamado de norma-padrão.

Assim como os físicos estudam todos os materiais condutores de eletricidade sem fazer juízos de valor sobre eles, os linguistas estudam todas as formas de manifestação linguística sem julgá-las. Da mesma maneira, assim como os engenheiros da ABNT têm de escolher, dentre todas as possibilidades de conduzir eletricidade de uma tomada para um plugue e deste para um equipamento, um determinado modelo de plugue e de tomada, os gramáticos precisam escolher as estruturas linguísticas que farão parte da norma que orienta a redação de textos formais. E seu critério tem sido a média dos usos dos melhores prosadores contemporâneos da língua, tanto ficcionistas quanto não ficcionistas, sobre cuja alta qualidade haja consenso.

Portanto, de um ponto de vista linguístico e, por conseguinte, científico, não há certo e errado, há apenas fatos a serem descritos e explicados, o que o próprio Bagno reconhece em seu artigo. Já, de um ponto de vista normativo, que é o ponto de vista da gramática aplicada a textos formais, há o recomendável e o não recomendável — ou, se preferirem, o “certo” e o “errado”. Obviamente, a gramática não é nem nunca foi uma camisa de força, e os bons prosadores, sejam eles ficcionais, ensaísticos ou técnicos, sempre tiveram liberdade para transgredir aqui e ali as normas (assim como todos temos a liberdade de conectar um benjamim à tomada antiga para ligar um eletrodoméstico novo, que segue o atual padrão ABNT).

No entanto, Bagno afirma que “pelo fato de descrevermos e explicarmos esses fenômenos de mudança, muitas pessoas dão um salto ideológico adiante e acham que estamos ‘defendendo’ os erros e até incentivando as pessoas a ‘falar errado’”. De fato, muitos leigos em linguística nos fazem esse tipo de acusação, o que demonstra seu desconhecimento da diferença entre descrever e prescrever. O problema começa quando linguistas, que devem descrever a língua, se põem a prescrever usos distintos daqueles recomendados pelas gramáticas tradicionais, gerando desorientação na cabeça de quem apenas precisa redigir textos formais aceitáveis.

Bagno demonstra lucidez ao afirmar que “o que defendemos é que, sim, todas e todos devem ter garantido o acesso à escolarização de qualidade, a única que permite a ampliação do repertório linguístico das cidadãs e dos cidadãos, o contato com as normas de prestígio e sua inserção na cultura letrada”.

Entretanto, em sua Gramática pedagógica e em outros escritos seus, ele abona usos que de modo algum fazem parte da “cultura letrada”, como eu encontrei ele, ela está meia cansada, chegou os novos livros, e coisas do gênero.

Em primeiro lugar, não há conflito entre o fazer descritivo da linguística e o fazer prescritivo da gramática. São atividades diferentes com propósitos e objetivos diferentes. Em segundo lugar, pode-se sugerir que a gramática abone usos que já estão consagrados na escrita de pessoas cultas (e culto aqui significa “portador de alto letramento, vasto conhecimento e muitas horas de leitura” e não apenas “portador de diploma universitário e vivência urbana”), como assistir o filme paralelamente a assistir ao filme ou estou me lavando concomitantemente a estou-me lavando ou estou lavando-me. Aliás, nem é preciso sugerir: os gramáticos da atualidade já fazem isso por dever de ofício.

Mas Bagno ridiculariza a gramática e os gramáticos dizendo que “a gramática é uma ‘religião’ mais antiga que o cristianismo, o que faz as pessoas considerarem os compêndios gramaticais como livros quase sagrados, merecedores de toda reverência, e seus autores como uma casta de sacerdotes de uma seita esotérica”. E também, como é seu costume, lança insultos contra seus críticos, com termos como “má-fé encharcada de ideologia fascistoide”, “terraplanismo linguístico”, “má-fé, ignorância e alinhamento ideológico assumidamente reacionário — a santíssima trindade do fascismo clássico”, “bravatas hidrófobas”, “cão raivoso”, e várias outras ofensas. Tudo porque esses críticos, dentre os quais me incluo, apontam na obra de Bagno inúmeras inverdades, imprecisões, afirmações sem prova ou, o que é pior, alegações que vão de encontro às evidências empíricas. Não tendo como se defender, ele parte do princípio de que “a melhor defesa é o ataque”. E ainda lança mais uma inverdade: a de que a crítica recai indistintamente sobre todos os linguistas que descrevem a língua portuguesa em suas diversas variedades, como se todos eles estivessem sustentando as teses não comprovadas e não comprováveis de Bagno.

Quem me acompanha desde os tempos em que escrevia na saudosa revista Língua Portuguesa sabe que sempre advoguei uma simplificação da norma-padrão do português, a exemplo do que já aconteceu com as normas de nossas línguas-irmãs, o espanhol, o francês e o italiano. Mas “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, ou “devagar com o andor que o santo é de barro”: de um lado, pode-se perfeitamente flexibilizar a colocação pronominal (o que já acontece na prática em textos verdadeiramente cultos), até porque a regra atual é extremamente complexa; de outro lado, não se pode chancelar no âmbito da escrita culta formal usos que atualmente estão restritos à fala das pessoas de baixo letramento, como meia cansada ou chegou os livros. Talvez um dia, seguindo os metaplasmos naturais da língua que Bagno didaticamente ilustrou em seu artigo, a forma pobrema venha a ser incorporada à norma-padrão, assim como problema venha a ser apontado como arcaísmo. Mas, por enquanto, pobrema é inadmissível em textos formais, da mesma forma como fresta seria inadmissível no português do século XIII, em que o “certo” era feestra.

Em outra postagem, desta vez no Facebook, Bagno, em coautoria com Carlos Alberto Faraco, diz: “Não conheço um(a) linguista que tenha proposto que usos como ‘os menino chegou’ ou pronúncias como ‘praça’, ‘pranta’, ‘trabaio’ sejam considerados recomendáveis e dignas (sic) de figurar numa norma de referência para os usos formais da língua”. Só que em sua Gramática pedagógica, ele assevera que no português brasileiro culto, inclusive escrito, estão corretos tanto Aconteceram dois acidentes na estrada quanto Aconteceu dois acidentes na estrada.

E no próprio trecho citado acima, Bagno constrói uma oração cujo sujeito composto usos e pronúncias concorda (concorda?) simultaneamente com o adjetivo masculino considerados e o feminino dignas. Distração, falta de revisão ou mais uma inovação de sua proposta gramatical, que ele chama de “social-democrata”?! Ou seja, o esquerdista radical Marcos Bagno agora é social-democrata, ao passo que os verdadeiros social-democratas, que defendem educação de qualidade para todos em vez de um nivelamento por baixo da norma e de seu ensino, são os reacionários e fascistoides.

Uma última observação: numa terceira postagem, também no Facebook, Bagno afirma:

Não temos absolutamente nada contra quem quiser seguir à risca as prescrições tradicionais. Nosso projeto é democrático, não é autoritário: ninguém quer substituir uma norma por outra, apenas mostrar que, no século 21, é interessante que haja uma norma do século 21, em que as pessoas se reconheçam. Mas quem quiser continuar a escrever como Rui Barbosa, escreva e seja feliz, mas deixe a gente em paz.

Daí se depreendem duas conclusões.

Primeiro, que a norma proposta por Bagno e seus seguidores não quer substituir a norma-padrão vigente, mas sim conviver com ela. Então cabe a pergunta: qual das duas o cidadão comum, que precisa redigir textos profissionais, deve seguir? A coexistência de duas normas diferentes só servirá para confundir ainda mais a cabeça de estudantes e profissionais que precisam escrever.

Segundo, pessoas que seguem à risca a norma atual não estão escrevendo como Rui Barbosa — a não ser os chamados operadores do Direito, que adoram um linguajar preciosista e rebarbativo, só que estes são incorrigíveis —, mas redigem como o próprio Bagno redigiu suas três postagens aqui citadas, o que mostra que o tão propalado abismo existente entre a norma atual e o modo como as pessoas bem escolarizadas escrevem no século XXI não passa de ficção — ou de um espantalho. É bem verdade que em sua Gramática, Bagno comete vários desvios em relação à norma, mas percebe-se claramente que são desvios forçados e não espontâneos, isto é, que Bagno não escreve assim normalmente, mas “forçou a barra” na referida obra para marcar posição e com isso criar um inimigo imaginário contra o qual possa dirigir sua rebeldia sem causa.

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Em tempo: para mais informações sobre essa “falácia do espantalho”, visitem os seguintes links: https://www.facebook.com/share/p/YVDxgHB3jk7Dizdq, https://www.facebook.com/share/p/rxijwSajUgbqMj7a e https://www.facebook.com/share/p/Pa21U3sdtCtK2Ugo/?mibextid=oFDknk.

Revoluções científicas e revoluções políticas

Em sua obra Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira invocam às páginas 40-41 o livro de 1962 do epistemólogo americano Thomas Kuhn A estrutura das revoluções científicas para defender sua agenda “revolucionária” em relação à gramática normativa do português. Vieira diz o seguinte:

Kuhn (1962) afirma que as revoluções científicas assemelham-se às revoluções políticas, e eu alargo seu pensamento ao contexto das produções emergentes das gramáticas do PB. Seus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica […] Não à toa as características que Kuhn (1962: 126-128) afirma pertencerem às revoluções políticas e científicas podem ser apontadas como constitutivas da revolução do fazer gramatical brasileiro. […] Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário.

Na verdade, a aproximação que Kuhn faz entre revoluções científicas e revoluções políticas deve ser entendida cum grano salis: ambas suplantam um paradigma vigente para instituir um novo paradigma (no caso de revoluções políticas e também de golpes de Estado, o paradigma no caso é um regime político ou um governo específico). Mas há uma diferença crucial que o próprio Kuhn reconhece em suas obras: uma revolução política é um ato violento em que o grupo que toma o poder não é necessariamente melhor que o deposto — muitas vezes é ainda pior. O que motiva o grupo revolucionário a tomar o poder é, as mais das vezes, o próprio desejo pelo poder, disfarçado demagogicamente de “luta pela liberdade”, “em favor dos oprimidos”, “contra a corrupção e os desmandos do regime anterior”, etc. etc.

Já uma revolução científica ocorre não porque um grupo de cientistas defensores de uma tese heterodoxa resolve desbancar os defensores da teoria mainstream para assumir seus cargos nas universidades e institutos de pesquisa; uma revolução científica ocorre quando uma nova descoberta, muitas vezes feita por acaso, desnuda as limitações ou lacunas do modelo explicativo vigente, revelando sua incapacidade de dar conta do novo fenômeno, o que enseja a elaboração de uma nova teoria, assentada num novo ponto de vista, que Kuhn chamou justamente de paradigma.

Um exemplo clássico de revolução científica e consequente mudança de paradigma é a Teoria da Relatividade de Einstein. Até fins do século XIX, acreditava-se que todos os problemas básicos da física estavam resolvidos, da mecânica ao eletromagnetismo e à termodinâmica. Um dos pilares dessa física, hoje chamada de “clássica”, era o postulado de que o espaço e o tempo são absolutos, logo o valor da velocidade de um corpo em movimento depende do referencial adotado como origem do sistema. Por exemplo, uma mosca voando dentro de um ônibus em movimento terá um valor x de velocidade para um passageiro dentro do ônibus, mas outro valor y para um observador fora do ônibus, parado na calçada. Partindo desse princípio, imaginava-se que um facho de luz projetado a partir de uma lanterna dentro do ônibus teria velocidades diferentes para o observador dentro do veículo e para o observador fora dele.

No entanto, em 1887, os físicos Albert Michelson e Edward Morley realizaram um experimento para medir a variação da velocidade da luz a partir de referenciais distintos e, surpreendentemente, verificaram que essa velocidade é uma constante qualquer que seja o sistema de referência adotado. Dito em outras palavras, o valor da velocidade da luz é absoluto, logo o que é relativo é o espaço e o tempo. Foi essa conclusão pouco ortodoxa e bastante contraintuitiva que levou o então jovem físico Albert Einstein a formular sua famosa teoria. E esta foi comprovada experimentalmente inúmeras vezes, uma delas, por sinal, numa observação astronômica realizada no Brasil, mais precisamente em Sobral, no Ceará, em 1919.

A descoberta de Michelson e Morley acarretou a elaboração de uma teoria totalmente nova, que pôs por terra o que até então se acreditava sobre o espaço e o tempo. Mas, como sempre acontece na ciência, nenhuma revolução científica invalida totalmente o conhecimento anterior; na verdade, ela o amplia. Desse modo, a Teoria da Relatividade não invalidou a mecânica clássica de Newton, que, aliás, continua a ser utilizada correntemente ainda hoje em situações que não envolvam grandes massas (como a da Terra ou do Sol) nem grandes velocidades (como a dos elétrons ou da luz), como é o caso da construção civil ou da indústria automobilística. O que a Teoria da Relatividade fez foi englobar a mecânica de Newton: com pequenas massas e baixas velocidades, as equações da Relatividade se reduzem às equações de Newton.

Os casos históricos em que um determinado conhecimento foi inteiramente abandonado por estar errado — como a substituição da física de Aristóteles pela de Galileu e Newton, do geocentrismo de Ptolomeu pelo heliocentrismo de Copérnico, da geração espontânea pela microbiologia de Pasteur e do criacionismo bíblico pela teoria da evolução de Darwin — são, na verdade, exemplos da substituição de uma crença não científica, instituída em tempos em que a ciência como a entendemos hoje nem existia, por uma constatação científica baseada em dados empíricos.

Dito isto, o que os linguistas-gramáticos Faraco e Vieira propõem, supostamente respaldando-se numa ciência, a linguística, é uma revolução de cunho muito mais político do que científico. Com efeito, nenhuma descoberta revolucionária ocorreu no âmbito dessa ciência que tornasse a gramática normativa do português brasileiro contemporâneo escrito culto — numa palavra, a norma-padrão vigente — obsoleta ou incorreta, portanto inútil e desprezível, a ponto de que as pessoas que precisem redigir textos formais devam simplesmente desconsiderar suas lições e jogar seus compêndios no lixo. Parece-me, antes, que o objetivo de certos linguistas que se arvoram em gramáticos, como os citados Faraco e Vieira, bem como Marcos Bagno, é muito mais ocupar o espaço dos gramáticos tradicionais, destronando-os como os revolucionários políticos fazem com quem está no poder, para vender suas gramáticas “revolucionárias” ou, quem sabe, para iniciar, gramscianamente, por meio de uma revolução na gramática e no ensino de língua portuguesa, uma revolução de verdade, desta vez política. Isso se confirma em termos como “[s]eus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica” ou “a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional” (grifos meus). Nenhuma revolução científica jamais se pautou por critérios sociopolítico-ideológicos nem propôs a destruição em larga escala do que quer que fosse. Esses slogans panfletários caberiam melhor na boca de revolucionários bolcheviques do que na de cientistas que estudam e descrevem seu objeto com a máxima isenção, neutralidade e imparcialidade possíveis, portanto sem viés político, conforme recomenda o método científico.