Sobre livros acadêmicos

Quando fazia meu doutorado, nos anos 1990, precisei usar como corpus amostral da minha pesquisa textos acadêmicos de diversas áreas, tanto das ciências naturais quanto das humanas. E, para tornar a amostra mais abrangente e fidedigna, decidi utilizar tanto artigos quanto livros. Para minha surpresa, descobri que, nas ciências naturais, não se publicam mais livros científicos desde a Segunda Guerra Mundial. A tendência desde então é publicar papers em periódicos especializados, de preferência os chamados “top A”, isto é, os de maior prestígio e impacto no meio científico, como as revistas Science e Nature.

Enquanto isso, só nas humanas se manteve o hábito de publicar livros acadêmicos, em geral ensaios filosóficos em que um tema é esmiuçado em tal profundidade que ultrapassa os parcos limites de um artigo (de 15 a 20 páginas, no máximo). Ou então coletâneas de artigos, em que um organizador reúne as contribuições de vários colegas acerca de um tema.

O que se nota é que os atuais papers das ciências exatas e biológicas versam sobre descobertas pontuais, como a identificação de um novo vírus ou a apresentação de uma nova técnica, coisas que podem ser ditas em até 20 páginas. Já uma nova teoria sobre a vida ou o universo costuma resultar em livros de popularização, redigidos em estilo jornalístico e disponíveis ao público em geral em qualquer livraria. O mesmo vale para coletâneas de artigos de divulgação científica.

Em resumo, o livro propriamente acadêmico, dirigido à comunidade universitária, acabou restrito às ciências humanas e às humanidades (não confundir umas com as outras, pois humanidades não são ciências). Mas por que nessas áreas ainda se publicam livros em vez de seguir a tendência da comunicação direta, sucinta e objetiva dos papers? Em primeiro lugar, porque o discurso das humanidades, por sua própria natureza, não é direto, sucinto e objetivo. Discorrer profundamente sobre uma questão é algo que dificilmente se faz em poucas páginas. Além disso, em áreas como o Direito, por exemplo, a prolixidade e a eloquência fazem parte da própria lógica discursiva. Ou pelo menos do estilo do métier.

Outra razão para a existência de livros em humanas é que boa parte deles são coletâneas de comunicações apresentadas em congressos. Mas para isso já não existem os anais dos eventos? Por que então publicar novamente em livro? Em alguns casos, o livro acaba substituindo os anais. Ou melhor, os anais acabam publicados em forma de livro. Em outros casos, publicam-se os anais e o livro. E como a publicação de livro conta mais pontos nas avaliações institucionais das universidades do que a de artigo, essa estratégia acaba “engordando” os currículos dos autores.

Decerto há livros científicos em todas as áreas, e não só os lançados antes da Segunda Guerra, mas nas ciências naturais o mais comum são os tratados, que têm um caráter mais didático do que propriamente de pesquisa. Tanto que os tratados de anatomia são mais consumidos por estudantes de medicina do que por pesquisadores. A razão é simples: um tratado traz o que já se sabe sobre o assunto, aquilo que se ensina em sala de aula. Já uma obra de pesquisa apresenta o novo, o recém-descoberto. Como muitos trabalhos em ciências humanas ainda têm um forte viés filosófico, o esquema introdução-fundamentação-material-método-conclusões, típico das ciências experimentais, não cabe bem nessas ciências, frequentemente muito mais teóricas do que práticas (nesse ponto, a linguística, área em que atuo, é uma honrosa exceção).

Quanto à publicação de obras de difusão em ciências humanas, esbarra-se em dois empecilhos. Primeiro, o viés filosófico e o estilo retórico de que falei acima tornam esses livros pouco atraentes ao público leigo. Em segundo lugar, a curiosidade popular sempre recaiu sobre questões mais “existenciais”, como a origem da vida ou do universo do que sobre temas sociais, políticos ou econômicos, tidos como “chatos” pela maioria dos cidadãos comuns.

Entretanto, o livro de divulgação da linguística que acabei de lançar, chamado O Universo da Linguagem, disponível em https://www.editoracontexto.com.br/produto/o-universo-da-linguagem-sobre-a-lingua-e-as-linguas/4890530, está tendo ótima aceitação, o que significa, modéstia à parte, que nem todo livro de popularização das ciências humanas precisa ser chato.

A morte da cultura

Certa vez, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente emitiu um comunicado dizendo que o desaparecimento de uma língua e de sua respectiva cultura equivale a queimar um livro único sobre a natureza. Umberto Eco acrescenta: “toda língua é um tesouro social: não só o conjunto de suas regras gramaticais, mas todo o acervo produzido por seus desempenhos”.

Uma língua desaparece quando morre seu último falante. Mas, em seus derradeiros tempos de vida, quando não tem mais com quem conversar em sua língua nativa, essa pessoa deve sentir uma profunda melancolia, uma sensação de estar vivendo em outro planeta: suas experiências e lembranças, as coisas que faziam sentido em seu mundo, nada disso os outros podem compreender porque essas vivências só podem ser expressas numa língua que ninguém mais entende. Condenado ao monólogo, ou a falar de realidades que não são as suas, esse indivíduo deve sentir alívio ao cerrar os olhos pela última vez.

Mas não são só as culturas ditas primitivas que estão desaparecendo, deixando seus últimos guardiães desarvorados. A cultura letrada, de um modo geral, está morrendo, e este não é um problema exclusivamente brasileiro, embora aqui esse fato seja mais gritante por conta do descaso criminoso de nossos governantes, presentes e passados.

Há poucas décadas, fazer contas de cabeça ou conjugar os verbos corretamente (isto é, segundo a norma gramatical) eram atos banais para qualquer cidadão escolarizado. Hoje, nem mesmo caixas de banco ou de supermercado conseguem fazer uma simples soma sem recorrer à calculadora eletrônica. E ficam surpresos quando eu, mentalmente e mais rápido que eles, chego ao resultado correto enquanto ainda estão abrindo a gaveta, retirando a maquininha, ligando-a, digitando os números para ao final obter a mesma resposta que eu já havia obtido. Vezes sem conta recebi elogios por fazer algo que muitas pessoas da minha geração sabe fazer tão bem quanto eu.

Em outras ocasiões, sou olhado como se fosse um E.T. só porque digo que eu e minha esposa somos casados há 15 anos, já que o esperado é que eu diga que eu e a minha esposa, a gente é casado há 15 anos.

Expressões idiomáticas, anedotas, provérbios, alusões históricas, nada disso faz sentido hoje em dia. As pessoas simplesmente perderam a referência cultural que embasava esses enunciados. Num tempo em que quase ninguém mais lê, a não ser revistas de celebridades e postagens em redes sociais, dizer que a luta contra a corrupção no Brasil é como combater moinhos de vento causa perplexidade, quando não riso. Quem hoje em dia conhece Dom Quixote de la Mancha? Quem já ouviu falar (ler é pedir um pouco demais) em Miguel de Cervantes ou no Cavaleiro da Triste Figura?

Quando um famoso (e já idoso) narrador esportivo grita diante de um perigoso chute a gol “Pelas barbas de Netuno!”, será que alguém sabe do que se trata? Talvez alguns, pensando no planeta Netuno, que afinal frequenta os horóscopos, se perguntem: “ué, e planeta tem barba?”.

Pessoas escolarizadas da minha geração (e olha que ainda não cheguei à terceira idade) devem se sentir como o velho índio que pensa em seu idioma, mas não tem como traduzir seus valores culturais para o homem branco, talvez não porque faltem palavras (alguma tradução sempre é possível), mas porque falta o sentido.

Os mais “velhos” – e embora se viva cada vez mais, fica-se obsoleto cada vez mais cedo – são estrangeiros ou alienígenas em meio a uma juventude cujo acesso a um legado cultural milenar e aos valores de civilização foram substituídos por videogames, facebooks, twitters, reality shows, por uma escola imbecilizante (apesar, ou talvez por causa, da tecnologia), mais preocupada em doutrinar do que em educar, e por uma família ausente e consumista, para quem o ter é mais importante do que o ser.

Ironicamente, a cultura branca ocidental, que tantas línguas e culturas matou, está provando uma dose cavalar de seu próprio remédio.

Cotas raciais/sociais e educação de qualidade no Brasil

Uma questão que sempre provoca polêmica em nosso país é a política de cotas para negros, indígenas e estudantes pobres provenientes do ensino público em nossas universidades. De um lado, os que são contra essa política afirmam que ela fere o princípio da meritocracia, fazendo com que estudantes mais qualificados sejam preteridos em favor de outros menos preparados; de outro, os defensores da medida sustentam que ela é um importante instrumento de justiça social e que, não fosse ela, estudantes de baixa renda ou de determinadas etnias não teriam acesso à universidade.

Minha posição oscila entre ambas. Por um lado, acredito que o ingresso na universidade deveria pautar-se pelo mérito do candidato. As grandes universidades do mundo são grandes, não em tamanho, mas em importância, exatamente porque não só têm em seu corpo docente as mentes mais brilhantes, incluindo alguns ganhadores do prêmio Nobel, mas também porque selecionam os melhores candidatos para o seu corpo discente. Ou seja, produto bom é resultado de boa matéria-prima e bom processo de fabricação. Nesse sentido, uma universidade que faz assistencialismo social na seleção de seus alunos teria pouca relevância acadêmica.

Por outro lado, reconheço que, no momento, a política de cotas tem sido o mecanismo mais eficiente de inclusão social de que dispomos em termos da educação superior. Talvez isso rebaixe um pouco o nível da produção científica e mesmo o da qualidade dos profissionais que forma, mas sem dúvida eleva o nível social de seus egressos mais pobres.

No entanto, para mim o melhor dos mundos é aquele em que ricos e pobres, brancos e negros tenham igual acesso a um ensino básico de qualidade, o que significa melhorar substancialmente – radicalmente seria o termo ideal – a qualidade do ensino público, que atende à maioria da população de baixa renda no Brasil, aí incluída a maioria dos negros. Num cenário como esse, políticas de cotas seriam desnecessárias, e o mérito poderia ser o critério único de seleção.

Mas por que a educação pública brasileira não tem qualidade? Muitos dizem que falta investimento na área, portanto o problema seria financeiro. Todos sabemos que para a classe política brasileira em geral educação não é prioridade porque não dá voto. Mesmo assim, a verba constitucionalmente destinada à educação básica não é pequena – talvez ela seja, isso sim, mal gerida.

Fala-se muito dos baixos salários de professores. Não conheço a realidade em cada município brasileiro, mas tenho notícia de muitos professores do ensino público que se aposentam com proventos de 12, 13 mil reais. Ao mesmo tempo, se é verdade que há alguns colégios particulares que pagam muito bem aos docentes, os salários dos professores da maioria dos estabelecimentos privados chegam a ficar abaixo da média do que percebe um professor de escola pública de mesmo nível.

A meu ver, o grande problema do ensino público é justamente ser público. Não, não estou defendendo a privatização da educação básica, nada disso! O que quero dizer é que o modelo de gestão da esfera estatal é pouco eficiente. E explico por quê.

Em primeiro lugar, os gestores máximos da educação pública, isto é, ministros e secretários de educação, são, as mais das vezes, políticos, em geral cabos eleitorais dos governantes municipais, estaduais e federal, e não técnicos especialistas em educação. Assim, sua gestão está voltada à próxima eleição e não a um projeto educacional de longo prazo, uma política de estado que transcenda governos. Isso sem falar na corrupção, chaga que assola o estado brasileiro há séculos.

Em segundo lugar, considero que o próprio corpo docente das escolas públicas deixa muito a desejar. Embora haja professores muito bons tanto em formação acadêmica quanto em esforço e abnegação, a maior parte dos docentes tem formação ruim e pouca motivação. De fato, a admissão de professores por concurso público nos moldes em que ele é hoje realizado não permite aferir a real competência desses profissionais. O concurso público consiste em um teste de múltipla escolha, em grande parte voltado a questões de legislação, e uma redação. Não há análise de curriculum, prova didática, entrevista com recrutadores, nada! Não à toa, muitos dos aprovados nesses concursos provêm de péssimas faculdades, onde cursaram uma licenciatura de apenas três anos cheia de deficiências.

Sendo esse o contingente de profissionais à disposição do coordenador pedagógico, este fica impossibilitado de montar sua própria equipe, pois deve trabalhar com os professores que foram lotados em sua escola, sejam eles bons ou ruins. Esses professores, por sua vez, têm pouco estímulo ao crescimento profissional – em alguns casos, é preciso cursar um mestrado para subir apenas um ponto na carreira! Na verdade, a progressão se dá muito mais por antiguidade do que por mérito. Por outro lado, não há uma avaliação contínua de seu desempenho, o que significa que, qualquer que seja o grau de aproveitamento de seus alunos, os educadores não são nem premiados nem punidos. Sobretudo a estabilidade no emprego, a que todo servidor público concursado tem direito, leva à acomodação e à mediocridade.

Acredito num modelo em que coordenadores pedagógicos pudessem fazer eles próprios a seleção dos docentes que vão compor a sua equipe, tal como ocorre nas escolas privadas, e que esses coordenadores fossem cobrados pelos resultados que suas equipes apresentam – por exemplo, um sistema de pontos que resultasse na destinação de mais verba às escolas com melhores resultados, o que, por sinal, favoreceria uma salutar competição entre elas. E que essa cobrança não viesse apenas da Secretaria ou do Ministério da Educação, mas da própria comunidade usuária desse serviço público, isto é, pais e alunos. E esses coordenadores também seriam demissíveis, como, de resto, deveriam sê-lo todos os servidores públicos, com umas poucas exceções. Essa é, aliás, a proposta de reforma administrativa que está no Congresso Nacional à espera de votação.

Acredito também que é preciso restaurar a autoridade do professor, especialmente porque, na escola estatal, ele não está sujeito às pressões do mercado como ocorre no ensino privado, onde prevalece a lógica capitalista. Que as escolas tenham obrigatoriamente biblioteca, laboratórios, quadra poliesportiva, refeitório, psicólogo, médico e dentista. E que, de preferência, estejam situadas em local seguro, afastado de comunidades dominadas pelo crime. As crianças e jovens moradores desses locais disporiam de transporte escolar gratuito para chegar até a escola.

Enfim, sonho com uma educação pública de Primeiro Mundo, nos moldes do que ocorre hoje nos países desenvolvidos. Infelizmente, nossa realidade atual parece me mostrar que sou mesmo só um sonhador…

Deve-se ensinar alta literatura a adolescentes?

A polêmica da semana é a postagem do digital influencer Felipe Neto, segundo a qual “forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”. E acrescentou: “o fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”.

Sem dúvida, em um país que pouco lê e cuja cultura letrada, mesmo entre as classes mais abastadas, é bem baixa, questionar o ensino de literatura é algo bastante temerário e até mesmo iconoclasta. (Bem, talvez tenha sido realmente essa a intenção do famoso e controverso youtuber.)

Mas a questão é bem complexa e delicada, já que envolve vários aspectos, e o próprio ponto de vista dos estudantes não pode deixar de ser levado em conta. O filósofo e historiador Leandro Karnal afirma em seu Instagram que

Machado é um gênio, talvez o maior na prosa. É bom forçar um adolescente a ler Dom Casmurro para fazer uma prova? Acredito que isto precisa ser muito debatido. A diferença entre remédio e veneno é a dose. Como professor e amante da obra de Machado, eu diria: a) primeiro textos curtos e sedutores; b) avaliar idade e maturidade de cada turma; c) preparar o ambiente e trabalhar, talvez, O Alienista ou um conto curto; d) valorizar mais a ideia e as ironias, um pouco menos as personagens em uma avaliação. A questão está na gradação, no método, no prazer e na capacidade crítica. Eu começaria mostrando uma imagem tradicional de Machado “embranquecido” e o Machado real e perguntaria: “por que o gênio foi mudado na aparência?” Talvez, preparando O Alienista, lançaria o debate: “quem é louco para vocês?”. Dar uma obra densa, explicar que é realista e marcar uma prova é o caminho para despertar a raiva ou o tédio… De novo: ensinar alunos jovens é um desafio gigantesco.

O saudoso Rubem Alves diz em seu artigo O prazer da leitura:

Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. (…) [A criança] Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. (…) Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão.

Devo confessar que eu próprio sou uma das vítimas desse ensino equivocado de literatura. Sempre gostei de escrever, amo as línguas desde que me entendo por gente – ou, pelo menos, desde descobri que há muitas línguas no mundo. Abandonei o curso de física no quinto semestre para me dedicar à linguística por amor à palavra. No entanto, ter sido obrigado a ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, ou, pior ainda, A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, e O Cabeleira, de Franklin Távora, provocaram em mim um trauma que carrego até hoje: sou totalmente avesso à prosa de ficção. Na verdade, leio muito, desde filosofia, passando por divulgação científica, história, biografias, atualidades, política, crônica, música, até humor e poesia, mas há anos não pego nas mãos um romance ou livro de contos. Não que eu desmereça a literatura ou não tenha consciência de sua importância artística e cultural. Pelo contrário, admiro muito as pessoas que têm a paciência de ler a descrição de um ambiente ou do vestido da heroína feita em três longas páginas, cheias de figuras de linguagem e torneios sintáticos inusitados! Assim como admiro as pessoas que, lendo uma narrativa ficcional, conseguem transportar-se mentalmente aos ambientes que ela visita e conseguem visualizar as feições dos personagens sem associá-las a atores de televisão. Mas admito que, em matéria de ficção, sou de uma geração mais imediatista, que de fato achava um saco passar dias e dias lendo uma estória quando o cinema nos conta essa mesma estória em pouco menos de duas horas, com trilha sonora, recursos audiovisuais, maravilhosos cenários, belos atores e atrizes e, em alguns casos, até narrador (aquela voz em off que fala com o espectador como o narrador onisciente ou como um dos personagens contando sua própria história).

Lembro-me que no ano de 2000 publiquei um artigo na Folha de S. Paulo com o título Repensando o ensino de literatura. Nele, eu dizia:

[o] ensino de literatura portuguesa e brasileira faz parte do currículo escolar de primeiro e segundo graus, e o conhecimento dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares. A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão. Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação geral e humanística que se espera de qualquer cidadão escolarizado.
No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem-se restringido, as mais das vezes, à história da literatura brasileira e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de que o início do Romantismo no Brasil se deu com a publicação, em 1836, de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns livros enfadonhos (…).
Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música, a pintura, a escultura, o teatro… Entretanto, o ensino de educação artística nas escolas não se restringe à história da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos por meio da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente, o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é claro, para as carreiras de música e de artes plásticas).

Minha tese, que ainda sustento, é que o contato com a leitura deve ser prazeroso e que o aluno deveria ter a liberdade de escolher o que ler, seja ficção ou não ficção, seja nacional ou estrangeiro. Pois a cultura geral do cidadão não se faz apenas com narrativas de ficção, mas também e principalmente com a leitura de grandes intelectuais e pensadores, e o conhecimento que forma a cultura não está restrito a autores de língua portuguesa. Aliás, venhamos e convenhamos que a literatura de língua portuguesa goza de bem pouco prestígio em termos mundiais, o que parece indicar que há muito mais coisas boas a serem lidas lá fora do que aqui dentro.

Por isso, naquele artigo eu também defendia que,

[s]e o objetivo do ensino de literatura na escola média é estimular no aluno o hábito da leitura, então por que, em vez de obrigá-lo a ler obras de ficção de séculos passados, não se propõe a ele a leitura de obras importantes de não ficção da atualidade, como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos, por sinal muito bem escritos, ou os de Carl Sagan, que possuem, aliás, excelentes traduções em português? Será que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões reais do mundo contemporâneo, como a globalização e a poluição, por exemplo, não é mais relevante que o estudo de obras ficcionais?

Ou seja, eu considerava que a literatura de ficção, como arte, deve ser, sim, conhecida e apreciada, e que, para isso, é preciso educar a mente assim como se educam os ouvidos para apreciar boa música ou o paladar para degustar um bom vinho. E que o modo como essa literatura vinha – e pelo jeito ainda vem – sendo ensinada simplesmente desestimula o estudante a ler, mata-lhe a capacidade da fruição estética e o enche de enfado e tédio. Finalmente, a cobrança dessas leituras em concursos vestibulares favorece o surgimento de cursinhos e sites que fornecem resumos, de modo que o candidato possa responder às questões da prova sem ter passado pelo suplício de ler as obras.

À época, recebi muitas cartas de apoio (os e-mails ainda estavam engatinhando; comentários e likes nem sonhavam em existir). Mas também fui detonado por dois ou três professores de literatura de universidades renomadas, que, defendendo seu feudo, chamaram meu arrazoado de “barbárie”.

Portanto, não espero que você, leitor, concorde comigo, mas que reflita sobre a problematização que fiz. E que não pegue o atalho fácil de sair malhando essa ou aquela celebridade que posta alguma opinião polêmica nas redes sociais sem ter analisado a fundo a questão. Às vezes, até um Felipe Neto da vida pode dizer algo que faça sentido. Ou propor um debate que valha a pena.

Dos quatro tipos de professores pesquisadores

Em outro artigo, falei sobre a diferença que a língua inglesa faz entre as palavras teacher e professor. Apenas relembrando, teachers são professores de ensino básico, técnico e cursos livres, ao passo que professors são docentes de universidades, que, além de ensinar, fazem pesquisa, portanto são também e principalmente cientistas. É justamente devido a essa diferença que nem todo professor é pesquisador (na verdade, a maioria não é), mas quase todo pesquisador é também professor. Claro, pesquisadores que trabalham em institutos como o Butantan ou a Fiocruz não necessariamente dão aulas, mas, como a maioria dos cientistas está nas universidades e não em institutos de pesquisa (até porque estes são em bem menor número), é natural que eles dividam sua jornada de trabalho entre produzir e transmitir conhecimentos. Por isso mesmo, eles têm de desenvolver duas diferentes competências profissionais.

Mas, sendo essas competências bem diferentes entre si, é natural que nem todas as pessoas sejam aquinhoadas pela natureza com ambos os talentos. Daí decorre que há quatro tipos básicos de docentes universitários.

Em primeiro lugar, há aqueles que são grandes professores, donos de uma didática e de um cabedal de conhecimento incríveis, mas cuja produção científica é pífia ou, pelo menos, pouco relevante. Estes costumam ser a maior parte dos professores, ao menos nas grandes universidades.

Em segundo lugar, há aqueles (bem poucos) que são cientistas geniais, grandes produtores de saber e pensadores da realidade, mas que, na sala de aula, não se saem assim tão bem. Alguns desses gênios até têm certa preguiça de lecionar, já que sua verdadeira vocação é a ciência e não o magistério. Por isso, suas aulas são muitas vezes propositalmente displicentes.

O terceiro grupo (raríssimo) é o dos indivíduos que são ao mesmo tempo cientistas e intelectuais brilhantes e exímios educadores. Estes, aliás, costumam ser também grandes popularizadores do conhecimento científico, inspirando no público em geral a mesma paixão pela descoberta que eles próprios sentem.

Finalmente, há o grupo, infelizmente muito comum no Brasil, daqueles que não são bons nem na docência nem na pesquisa e estão em grandes universidades porque foram aprovados em concurso muito mais por razões políticas do que por mérito.

Vivi a experiência de ter na universidade professores de todos os tipos, exceto o terceiro. Já fui aluno de alguns luminares, mas também de vários medíocres. Alguns me fascinaram; de outros, nem me lembro direito. Alguns deles ficaram famosos, outros viveram na mais profunda obscuridade embora fossem bons professores e razoáveis pesquisadores. Muitos dedicaram sua vida predominantemente ao magistério e deixaram ternas lembranças em seus alunos, mas não ganharam projeção social. Outros fizeram fama e fortuna apesar de detestarmos suas aulas – ou pior, dormirmos nelas.

De todo modo, sou grato a todos eles, afinal me fizeram ser quem sou e chegar aonde cheguei. Alguns me mostraram com seu exemplo que tipo de profissional eu devia ser. Outros, também com seu exemplo, me mostraram o que eu jamais quero ser ou fazer.

O preconceito linguístico é um problema dos linguistas?

Um dos temas mais frequentes nos círculos linguísticos atualmente é a questão do chamado preconceito linguístico. O conceito, instituído por Marcos Bagno no livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, é definido como qualquer forma de discriminação a uma pessoa ou grupo pelo modo como fala. No entanto, o próprio Bagno reconhece que o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social, pois o que se discrimina não é propriamente o linguajar de certas pessoas e sim as próprias pessoas. Quando, por exemplo, censuramos os erros gramaticais (do ponto de vista normativo, bem entendido) de um falante de pouco estudo, o problema não é a fala desse indivíduo em si, mas o fato de que essa fala “rústica” é indício de uma origem pobre. Portanto, o problema não é a fala, mas a posição social do sujeito falante.

Não à toa, o preconceito linguístico se dirige as mais das vezes aos membros das classes mais baixas e aos cidadãos procedentes das regiões mais atrasadas economicamente. No caso brasileiro, seu alvo preferencial são os pobres em geral e os moradores da periferia em particular, os “caipiras” (isto é, habitantes do meio rural) e os nordestinos, em especial os migrantes para os grandes centros urbanos.

Nota-se isso mesmo em situações inocentes como um programa humorístico em que o caipira e o nordestino são sempre figuras cômicas, cuja fala é caricatural. De modo mais geral, todos temos a tendência a rechaçar aquilo que de nós é muito diferente, o que significa que os próprios interioranos e nordestinos podem ter preconceito contra os falantes urbanos do Centro-Sul do país.

Além disso, tendemos a estranhar e, no limite, rejeitar falas que se afastem muito do padrão gramatical, vocabular ou fonético da língua. (Sobre este último padrão já falei no artigo Qual o sotaque mais bonito? E o mais feio?.)

Mas, se o preconceito linguístico é, na verdade, preconceito social, quem deve se ocupar dele: os linguistas ou os sociólogos?

Existem muitos tipos de preconceito: o preconceito racial, ou racismo, o preconceito étnico ou de origem geográfica, que também é uma forma de racismo, o preconceito religioso, o preconceito sexual/de gênero, ou sexismo, e muitos outros.

Bem, o racismo como fenômeno social é objeto das chamadas ciências sociais (história, sociologia e antropologia, principalmente) e não da biologia, a quem o conceito de raça está mais intimamente ligado. Igualmente, o preconceito de origem geográfica não é objeto de estudo dos geógrafos, nem o sexismo é estudado pelos sexólogos, e menos ainda o preconceito religioso faz parte da teologia ou da ciência da religião. Essa constatação suscita a pergunta: por que os linguistas deveriam estudar o preconceito linguístico? A meu ver (e esta é uma posição estritamente particular minha), todo preconceito social, seja ele de raça, origem, sexo, religião, origem ou posição política, é um fenômeno a ser estudado pela sociologia, e o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social do qual a língua é só um índice.

Na verdade, há muito pouco de linguístico a ser estudado no preconceito linguístico: quando estudamos a fala dos menos favorecidos e dos grupos discriminados, nosso foco é a sintaxe, a morfologia, o léxico, a semântica e a fonética desses falantes – ou seja, a questão social propriamente dita não entra em linha de conta. Ao mesmo tempo, vemos que a maioria, se não a totalidade, dos trabalhos acadêmicos sobre preconceito linguístico pouco fala da língua em si e muito da condição social dos falantes e de seu sofrimento diante da discriminação.

O fato é que muitos linguistas não analisam simplesmente o fenômeno sob o ponto de vista científico (isto é, utilizando o chamado método científico), mas fazem militância político-ideológica, o que não tem nada a ver com o fazer científico. De fato, a ciência faz juízos de verdade, não juízos de valor. É claro que todo cientista é, antes de mais nada, um cidadão e, como tal, tem todo o direito de manifestar suas posições político-ideológicas e até partidárias, mas um trabalho acadêmico não é o melhor lugar para fazer isso.

Todos sabemos que há muito preconceito e mesmo violência fatal contra os integrantes do grupo LGBT, mas, se estes são reconhecidos por seus perseguidores pelo modo como se vestem ou gesticulam, seguramente não compete aos estudiosos da moda ou da gestualidade (no caso, os semioticistas) analisar esse triste fenômeno.

Evidentemente, o preconceito é fruto da ignorância. Mas, como também mostrei no artigo anterior, o preconceito, no sentido de prejulgamento, é um mecanismo de origem biológica que em muitos casos pode salvar nossas vidas. O exercício do preconceito no meio social é um resquício de nossa ancestralidade animal, que só a educação e a cultura podem ajudar a domesticar.

Por isso mesmo, todo ser humano tem o direito a ter seus preconceitos e a ser ignorante. O preconceito só se transforma em crime quando passa do simples sentimento de repulsa a alguém à violência física, psicológica, moral ou verbal, ou quando se traduz em cerceamento do direito alheio. É digno de nota que o preconceito linguístico nunca se traduz em crime. Pelo menos, eu nunca tive notícia de que alguém tenha sido espancado ou morto por falar português “errado”.

Mesmo em casos famosos, como o do linchamento moral do polêmico ex-ministro da educação Abraham Weintraub após este ter grafado “imprecionante” e “paralizar”, é preciso levar em conta que a crítica da mídia e de parte da população não se dirigiu ao nível cultural do ministro em si, mas sim à inadequação desse nível ao cargo que ele ocupava.

O preconceito linguístico pode ser de três tipos: gramatical, lexical e fonético. O preconceito gramatical é voltado contra os que falam “errado”, ou seja, aos que não se expressam segundo a norma culta. Só que, se quem fala errado não teve a chance de estudar, esse preconceito é injusto. Mas, mais uma vez, identifica-se a falta de estudo com a pobreza. Logo, o verdadeiro alvo do preconceito é a classe social e não a gramática do indivíduo.

Já o preconceito fonético e o vocabular se direcionam preferencialmente contra os que são de outra região ou estrato social e, por isso, têm vocabulário e pronúncia peculiares. Nesse caso, como afirmei no início, o preconceito não é contra a fala e sim contra a origem do falante.

A melhor forma de acabar com todos esses preconceitos ligados à linguagem é disseminar entre todos educação de qualidade: quando todos forem bem educados, o “erro gramatical”, especialmente o erro crasso, praticamente desaparecerá. Quando todas as regiões do país forem igualmente desenvolvidas, o preconceito contra o modo de falar desta ou daquela região também será bastante mitigado – a não ser, é claro, naquelas brincadeiras saudáveis e desprovidas de maldade em que paulistas gozam a cara de cariocas e vice-versa.

“Teachers” e “professors” – ou: como tratamos os professores no Brasil

A língua portuguesa, assim como as demais neolatinas, utiliza a palavra “professor” para designar qualquer pessoa que ensina algo; temos, assim, não só os professores propriamente ditos, do ensino formal, mas professores de piano, de dança, de artes marciais, de musculação, de direção (o atual Código de Trânsito Brasileiro substituiu “professor” por “instrutor de direção”), e assim por diante.

Na via oposta, alguns cursos de línguas têm instrutores de inglês ou de espanhol, ou mesmo facilitadores, palavra que acho de uma tremenda hipocrisia, como se o professor apenas auxiliasse, mas o mérito do aprendizado fosse exclusivamente do aluno, ou melhor, do “facilitando”. Talvez essa mudança de nomenclatura seja para justificar salários mais baixos, já que um instrutor ou facilitador não precisa ter a bagagem cultural de um professor.

O ensino a distância criou também a figura do tutor, um tirador de dúvidas sobre aulas pré-gravadas ministradas por outro professor. Aliás, muitos desses tutores sequer têm formação na área em que “lecionam”, se é que tirar dúvidas é lecionar.

Há ainda o tratamento por “mestre”, à primeira vista respeitoso, mas que, na boca de certos estudantes, soa a escárnio. Além disso, existe na pós-graduação a titulação de mestre, uma abaixo da de doutor, o que só aumenta a confusão, já que licenciados, bacharéis, mestres e doutores são todos chamados indistintamente de mestres.

Mas é curioso que as línguas germânicas fazem distinção entre o professor de ensino básico, e mesmo o instrutor, e o professor universitário. Em inglês, temos teacher (professor em geral) e professor (professor universitário, que também é pesquisador).

O professor teacher é aquele que ensina ano após ano as mesmas coisas – oração subordinada, equação de segundo grau, tabela periódica, divisão celular, clima semiárido, Império Romano, descobrimento do Brasil… Ou seja, basicamente o programa estabelecido pelo governo. Já o professor muitas vezes cria suas próprias disciplinas, especialmente na pós-graduação, e estas não raro têm a ver com a própria pesquisa acadêmica desse docente.

Fazendo uma analogia com a música popular, o teacher é o intérprete, que canta composições alheias, e cujo repertório é sempre o mesmo, o que muda de um ano para outro é a interpretação, ao passo que o professor é o “cantautor”, isto é, o compositor que interpreta suas próprias composições, além das de outros compositores, e cujas canções são interpretadas por muitos outros cantores.

No Brasil, como não há essa distinção linguística, professors são tratados e vistos socialmente como se fossem teachers. Há até mesmo estudantes universitários que tratam jocosamente seus mestres por teacher, acostumados que estão a tratar dessa maneira os professores de inglês do ensino básico. Trata-se de um fato linguístico que, involuntariamente, reflete a situação do ensino superior no Brasil, sobretudo o privado, que, além de profundamente vulgarizado pela oferta comercial, também é tratado, tanto pelos estudantes quanto pelos mantenedores, como um “grande ensino médio”.

É claro que muitos ainda percebem a diferença entre o docente de uma grande universidade que dá entrevistas no rádio e na televisão e publica livros que se tornam best-sellers e o professor que leciona em escolas públicas da periferia, humilhado pelo salário aviltante e diariamente ameaçado pela violência da comunidade, inclusive dentro da sala de aula. Enquanto o professor tem Currículo Lattes, pós-doutorado em Harvard e é forte candidato a ministro, o teacher é espezinhado pelos alunos e, absurdo dos absurdos, pelos pais dos alunos. Por isso, quando alguém no Brasil diz que é professor, provoca um misto de emoções, que vão da admiração pela coragem em ter tal profissão no Brasil atual até a pena, a comiseração, quando não o desprezo mesmo (se é professor, é porque não teve competência para ser médico, engenheiro… Ou seja, quem sabe faz, quem não sabe ensina, não é mesmo?).

De tanto ser confundido com teachers e receber condolências pelo meu ofício, passei a me identificar como linguista e professor universitário – já que não temos a palavra inglesa professor. Aí a conversa muda de figura, e a fisionomia de meu interlocutor se transmuda de pesar em admiração e respeito: “Puxa, o senhor deve ter estudado bastante, né?”. Aliás, ele deixa imediatamente de me tratar por você e passa a me chamar de senhor.

Ou seja, no Brasil não temos uma distinção linguística entre teacher e professor, mas temos uma tremenda distinção social entre ambos. Enquanto isso, nos países anglo-saxônicos há a distinção linguística, mas o nível de respeito é o mesmo. Aliás, nos Estados Unidos, por exemplo, um professor de ensino básico quase nunca é chamado de teacher pelos alunos; o que prevalece é o respeitoso tratamento “Mr.” ou “Mrs.” seguido do sobrenome. (Sim, fora do Brasil, não se diz “Seu Zé” ou “Dona Maria” e sim “Sr. ou Sr.ª Pereira”) Ou seja, chamar professor de inglês de teacher é coisa de brasileiro – e o pior é que o professor de inglês as mais das vezes não corrige esse hábito nos alunos. Talvez justamente para não ser chamado de “Mr. Pereira”.

Os excluídos da ciência

Minha especialidade, como todos sabem, é a linguística. E, como nem todos sabem, a linguística é uma ciência (a classificação “humanidades” que às vezes lhe é aposta não lhe faz justiça). Mais ainda, eu diria que é uma hard science, do mesmo nível de complexidade e de precisão na descrição de seu objeto que a física ou a biologia.

Mas o fato é que, como a pandemia de covid-19 colocou sob os holofotes mas também na berlinda a ciência em geral e a medicina em particular, como cientista que sou (e como professor de metodologia científica e orientador de pesquisas que fui durante vários anos), sinto-me autorizado e até mesmo instigado a falar sobre a ciência em geral e não só sobre linguística.

No meu artigo retrasado, falei sobre o renascimento da ciência, ou melhor, da credibilidade na ciência, em face do momento crítico que estamos atravessando. Mas é preciso reconhecer que, apesar de todos os sucessos que o trabalho abnegado de cientistas obteve nos últimos quatro séculos e, consequentemente, da substancial melhoria das condições de vida e da constante demolição de mitos que a ciência nos tem proporcionado, ela está longe de ser unanimidade, sobretudo entre as pessoas comuns, aquelas que têm da ciência apenas uma ideia vaga e, não raro, distorcida.

A religião, que os cientistas nunca consideraram sua inimiga (há até cientistas religiosos), mas que sempre teve a ciência e o pensamento lógico-racional como inimigos, ainda é muito forte e muito presente, principalmente nas sociedades menos desenvolvidas, com altos índices de pobreza e baixos níveis de escolaridade. Além dela, as bolhas produtoras de fake news das redes sociais também se comprazem em alardear informações anticientíficas, por vezes em tom catastrofista, por vezes em tom de escárnio.

É claro que a ciência jamais será unanimidade (diz o ditado popular que nem Jesus Cristo conseguiu atingi-la), mas o alto índice de desconfiança nas teorias científicas e nos alertas dos cientistas é, em grande parte, resultado da incompreensão da ciência pelo cidadão médio, muitas vezes até detentor de formação superior, mas ignorante do modo como a ciência funciona e de como as verdades científicas são construídas. E nesse ponto vale fazer um mea culpa: os próprios cientistas e professores são responsáveis em grande parte pela existência daquilo que Gabriela Prioli chamou de “os excluídos da ciência”.

De fato, a ciência não é fácil de entender porque a realidade que ela se propõe explicar não é simples. A teoria que descreve um fenômeno complexo, tentando ser fidedigna a esse fenômeno, também precisa ser complexa. Nesse sentido, aliás, as “explicações” religiosas são muito mais atraentes ao indivíduo leigo porque são fáceis de entender: tudo acontece por um passe de mágica ou um milagre divino (como Deus ou os deuses fazem para realizar esses prodígios a religião não explica nem os devotos perguntam). Mas a péssima educação científica de nossas escolas, que enfatiza mais o lado burocrático do que o criativo da pesquisa e se ocupa mais de fórmulas do que de ideias, além da complexidade do próprio discurso científico, contribuem para afastar os cidadãos comuns da ciência, embotando-lhes o interesse pelo assunto, o que é terrível se pensarmos que nossa vida é impactada todos os dias pela ciência e seu principal corolário, a tecnologia.

E, para completar, temos a indiferença dos próprios cientistas, mais preocupados em ter seu trabalho legitimado por seus pares do que em falar sobre suas descobertas ao público leigo, à grande massa. A meu ver, faltam em nossos cursos de formação de pesquisadores disciplinas voltadas à preparação de divulgadores científicos, de comunicadores sociais que, cientes do impacto de seu trabalho sobre a sociedade e também de que é essa sociedade que financia tal trabalho, sejam capazes de explicar o complexo em linguagem simples. Apesar das tecnologias digitais, às quais praticamente qualquer um pode ter acesso, ainda são muito poucos os cientistas que são também blogueiros, youtubers, colunistas de jornais e revistas, apresentadores de programas de TV ou conferencistas para o grande público. O prejuízo da sociedade com isso é enorme, pois, sem a informação correta, não podemos tomar decisões corretas sobre nossa própria vida. E aí damos mais ouvidos a quem não sabe mas acha que sabe (políticos, artistas, esportistas, participantes do BBB, sacerdotes, astrólogos, publicitários, o dono do bar da esquina) do que a quem de fato sabe.

A desconfiança dos leigos perpassa toda a história da ciência. Claro, as pessoas suspeitam e até têm medo daquilo que não entendem. Daí por que é tão importante fazer o maior número de pessoas, sobretudo as tomadoras de decisões, entender a ciência. Como ela, diferentemente das crenças e das opiniões – da doxa, diriam os gregos – é um conhecimento que se acumula e se aperfeiçoa com o tempo, fica ao leigo a impressão de que a ciência não sabe nada e de que os cientistas estão perdidos. O caso típico é a história do ovo, que no passado era tachado pelos médicos como um veneno para o nosso sistema circulatório e que hoje é considerado o alimento mais completo que existe.

Ocorre que as pessoas comuns querem respostas prontas e definitivas às suas dúvidas (e principalmente aos seus medos), e a ciência não tem tais respostas. É que a verdade científica, contrariamente à religiosa ou à política, é sempre provisória porque estamos sempre aprendendo mais e melhor sobre o mundo que nos cerca. A descrição do mundo natural feita por Einstein é melhor que a de Newton, que é melhor que a de Galileu, que é melhor que a de Aristóteles. E logo o mundo tal como desenhado por Einstein também será redesenhado por novas descobertas e novas teorias, que explicarão aquilo que as atuais não explicam. Portanto, o conhecimento científico é um conhecimento em permanente (re)construção. O máximo que a ciência pode dizer é que, neste momento, tudo o que sabemos aponta nessa direção. Dito de outro modo, a ciência aprende com seus próprios erros. Logo, ela não é infalível, mas não há nada que substitua a pesquisa sistemática e bem feita, o estudo do cientista submetido aos seus pares em revistas de grande peso e debatido em público. Em O mundo assombrado pelos demônios, o astrônomo americano Carl Sagan diz que ainda não inventaram nenhum método para chegar ao conhecimento melhor do que a ciência. O que equivale a dizer que a ciência é, das ferramentas de que dispomos atualmente, a que mais nos aproxima da verdade.

Mas o que é a verdade? Cada um tem a sua própria definição de verdade, e para a maioria das pessoas a verdade é aquilo em que elas acreditam. Ou seja, para o crente, sua crença não é crença, é “A Verdade”.

Na Idade Média, por exemplo, verdade era o que constava nas Sagradas Escrituras ou o que diziam o padre, o bispo ou o Papa. O argumento de autoridade era suficiente para legitimar uma afirmação como verdadeira.

Já a verdade científica é aquilo que pode ser provado – e já foi provado muitas vezes – e é assim independentemente de crermos nela ou não. A verdade objetiva é diferente da verdade pessoal (ou convicção) e da verdade dogmática (ou crença na autoridade), pois ela é verdade independentemente de qualquer outra coisa, inclusive do que pensemos a respeito dela. Eu posso não acreditar que a água ferva a 100 graus Celsius ao nível do mar, mas isso continuará a acontecer a despeito da minha descrença.

A ciência apresenta hipóteses verificáveis e as testa de maneira metódica. Se em muitos e muitos testes a hipótese se verifica e em nenhum ela falha, passa a ser uma teoria, isto é, uma verdade científica. A ciência, portanto, recusa o argumento de autoridade (isso é assim porque foi dito pelo profeta X ou porque está escrito no livro sagrado Y).

Ciência não é crença, é a percepção dos fatos concretos a partir da nossa observação e experimentação sistemática e controlada (isto é, em que fatores externos ao objeto investigado não interfiram em seu comportamento, conduzindo a conclusões erradas). E, como nossa capacidade de observação e experimentação são sempre limitadas, fica a impressão de que a ciência mais erra do que acerta. De fato, o que sabemos hoje pode estar baseado em dados incorretos ou, mais provavelmente, incompletos. Mas a ciência tem seu mecanismo de autocorreção, o que a religião, por exemplo, não tem. Por isso, ela insiste em seus dogmas mesmo quando há provas concretas contra eles.

Cientistas do passado erraram bastante (o heliocentrismo é um exemplo clássico), mas nem por isso seu trabalho deve ser jogado no lixo ou apontado como um fracasso da ciência. Eles construíram os degraus que permitiram que outros cientistas avançassem na escalada do conhecimento. O mundo como o conhecemos hoje é bem diferente da descrição que dele faziam no século XVI. Mas foi graças ao conhecimento do século XVI que chegamos ao conhecimento do século XXI. Caso contrário, ainda estaríamos na Idade da Pedra.

A cada dia, a ciência explica novas coisas, que até então só tinham uma explicação místico-religiosa ou achística. Opiniões, intuições ou supostas revelações divinas não podem contrapor o conhecimento científico. Nada é verdade porque eu acho que é, ou porque alguém que eu respeito muito disse que é, ou porque consta neste ou naquele site. Só um novo estudo científico, mais perfeito, com mais dados, mais variáveis e realizado com maior rigor pode contestar outro estudo. Portanto, não é um site, não é um estudo isolado, mas o consenso da comunidade científica que dita o que provavelmente é verdade. Por isso, um estudo só não basta. Uma pequena amostra não prova. A opinião de uma grande autoridade menos ainda.

O astrofísico americano Neil deGrasse Tyson disse: “Um dos grandes desafios deste mundo é saber o suficiente sobre um objeto para pensar que você está certo, mas não o suficiente para saber que você está errado”.

A ciência acima de tudo ensina a pensar (aquilo que o cidadão médio tem preguiça de fazer) e a questionar o que os outros dizem. A falta do hábito de questionar leva a indivíduos crédulos e facilmente ludibriáveis, seja por publicitários, vendedores ou líderes políticos e religiosos.

Sendo uma forma de pensar (a melhor delas, em minha opinião), a ciência também é uma forma de cultura, tanto quanto a arte, a filosofia, as humanidades e os esportes. Assim, a popularização científica tem o duplo papel de esclarecer as massas, ajudando-as a tomar melhores decisões e tirando-as da condição de excluídas do conhecimento – e do poder –, e de revelar ao homem uma visão de mundo e uma compreensão da realidade tanto quanto a literatura, o teatro, o cinema, a música, a filosofia, a psicologia e a religião. Pena que tão poucos cientistas se deem conta disso!

A observação, a experiência e o raciocínio lógico, partilhados com a sociedade, levam ao conhecimento, que leva à sabedoria.

Desigualdades sociais, desigualdades linguísticas

Toda sociedade complexa é bastante heterogênea, porque formada de indivíduos muito diferentes entre si. E essa diferença, que em princípio seria apenas de natureza, logo tende a tornar-se de valor. O Brasil, que, segundo dados recentemente divulgados, é a quarta nação mais desigual da América Latina, vive uma verdadeira luta de classes, permeada por todo tipo de preconceito e intolerância. E o que vale para a desigualdade social vale para a diversidade linguística, vista entre nós também como desigualdade: assim como há classes sociais dominantes e dominadas, certas variedades linguísticas são tidas como superiores, outras como inferiores.

Diante da desigualdade social, há três atitudes políticas possíveis: uma atitude conservadora, que procura manter tudo como está e estimula o preconceito contra os menos favorecidos; uma atitude pseudoprogressista,que valoriza a carência e trata a pobreza como virtude, como se ignorância,subnutrição, falta de recursos, fome e desestruturação familiar fossem um patrimônio cultural a ser preservado; e, finalmente, uma atitude verdadeiramente progressista que, reconhecendo o problema, procura saná-lo,atuando para que os pobres possam pouco a pouco sair da pobreza e usufruir os mesmos bens da civilização que as elites.

Em termos de língua, a atitude conservadora consiste em tachar aqueles que não dominam a norma culta como ignorantes e analfabetos,exercendo sobre eles o famoso preconceito linguístico (cerceamento do acesso a direitos, exclusão social, chacota, etc.), mas nada fazendo para mudar a situação. Já pseudoprogressista é afirmar que todas as variedades linguísticas,inclusive as de menor prestígio, devem ser respeitadas e estimuladas, que não se deve corrigir o aluno que diz “menas” ou “pobrema”, e que é legítimo que cada um fale como queira ou possa em qualquer situação. Esse tipo de atitude se assemelha muito a certas políticas demagógicas que, a pretexto de tirar crianças carentes de situações de risco, as ensinam a tocar tambor ou a cantar funk proibidão sob a alegação de que se trata de uma forma de inserção social e de incentivo à cultura. Resta saber em qual sociedade essas crianças serão inseridas e que tipo de cultura é essa que se está incentivando?

Realmente progressista num caso como esse não seria dar às crianças a possibilidade de aprender música de qualidade (um instrumento melódico, partitura, solfejo)? Não seria dar-lhes a chance de ter acesso a outras realidades (musicais, culturais e sociais) que abram sua cabeça e as portas de uma vida mais feliz e mais plena, inclusive de oportunidades?

Infelizmente, para certos setores que se dizem de esquerda (mas cuja ideologia de endeusamento da miséria – principalmente da espiritual – é de fato reacionária, já que só faz preservar a penúria), a pobreza é uma virtude (talvez porque renda votos) e o importante é elevar a autoestima do cidadão carente e não libertá-lo da carência.

Não há dúvida de que os pobres merecem respeito como cidadãos e seres humanos, mas respeitá-los em sua pobreza é uma coisa, tentar resgatá-los dessa condição é algo bem diferente.

Que a língua varia todos sabemos e a linguística já o provou há muito tempo: é uma verdade científica. Que a variação linguística é coextensiva da heterogeneidade social também já está provado. E, assim sendo, a variedade é natural (porque pessoas diferentes não podem se expressar de modo igual), irreprimível (pois não há como obrigar todos os cidadãos a ter um mesmo comportamento) e benéfica para a comunicação, já que só se pode dar conta de determinadas experiências em certas variedades. Também é fato que a diversidade linguística é um prato cheio para os cientistas da linguagem. Mas isso não quer dizer que os linguistas sejam contra a escolarização e o ensino da norma culta nas escolas – ainda que com todas as críticas que nossa gramática normativa merece e tem recebido. Dizer que “nós foi” e “teje” é algo que deva ser preservado e que reprimir tais usos com intuito educativo é intolerância linguística constitui uma postura obscurantista. Assim como o desejável não é respeitar, mas sim erradicar a pobreza, dando aos excluídos a possibilidade de ascender socialmente por meio da educação, o verdadeiro progressismo está em levar a todos o conhecimento das formas mais prestigiosas da língua, até para que se possa decidir com bom senso em que momento usá-las ou não. Do contrário,estaremos ensinando crianças carentes a bater tambor e a gostar de funk sob a alegação de que piano e violão são instrumentos pequeno-burgueses e de que Beethoven e Tom Jobim representam a música das elites dominantes e opressoras.Ou seja, em nome de um esquerdismo de salão, estaremos é sendo fascistas.

Para que serve o Enem afinal?

Este mês, tivemos mais uma edição do Enem, ou Exame Nacional do Ensino Médio. Esse exame cresce a cada ano em número de participantes e já é a principal porta de entrada para as universidades brasileiras. Porém, quando foi criado, em 1998, o Enem tinha por objetivo avaliar a qualidade do ensino médio, tanto público quanto privado, em nosso país. Assim como o Enade, a Prova Brasil e outros mecanismos de mensuração qualitativa, o Enem visava permitir o planejamento a médio e longo prazos de políticas para a educação, apontando deficiências e permitindo a comparação do desempenho dos estudantes (e, por tabela, da qualidade das escolas) entre estados, municípios e até entre o Brasil e outros países, que também fazem suas medições periódicas.

No entanto, desde 2009, quando a nota do aluno no Enem passou a ser aceita como parte do processo seletivo para ingresso em universidades públicas e privadas, esse exame se tornou um megavestibular, em que o candidato concorre a vagas em várias instituições ao mesmo tempo.

Se, por um lado, isso foi benéfico aos estudantes que concluem o ensino médio e pretendem seguir seus estudos na universidade, já que podem prestar um único exame em vez de ter de se submeter a inúmeros concursos, por outro lado, essa nova função do Enem o descaracterizou como um instrumento de medida da qualidade do ensino secundário, pois, assim como já acontecia com os vestibulares tradicionais, hoje o aluno faz cursinho para se preparar para o Enem (e isso alimenta a milionária indústria dos cursinhos). Portanto, o que se mede atualmente através do Enem não é a qualidade do ensino médio, mas a capacidade dos cursinhos de ensinar macetes que permitam ao candidato um bom desempenho na prova – mesmo que a sua trajetória acadêmica até então tenha sido medíocre. Qualquer conclusão que se tire do resultado desse exame não retratará com exatidão a realidade da educação básica brasileira, mas talvez a dos cursinhos pré-vestibulares, instituições de ensino paralelas, não oficiais e não reconhecidas pela legislação educacional.

Ao mesmo tempo, o Enem não deixa de ser um exame vestibular, que, como todos os outros, faz com que o estudante tenha de decidir em poucas horas todo o seu futuro: se será um profissional de nível superior ou se ficará no nível médio; se fará uma carreira em ciências ou em humanidades, se atuará no mercado ou no magistério, e assim por diante. A grande crítica que sempre se fez a esse tipo de processo é que não se pode avaliar por uma única prova toda a trajetória escolar de uma pessoa; afinal, o insucesso num exame pode ser fruto de nervosismo ou indisposição física e não necessariamente de falta de preparo. Consequentemente, o aluno pode perder um ano de vida por causa de uma simples dor de cabeça ou do atraso causado por um pneu furado.

É por essa razão que muitos países do Primeiro Mundo substituem o vestibular ou qualquer outra prova eliminatória por uma análise do histórico escolar do estudante: as notas que recebeu ao longo de toda a sua passagem pela educação básica é que dirão quão apto ele está para prosseguir seus estudos em nível superior. É claro que esse sistema também acarreta problemas. No Japão, não são raros os casos de suicídio de estudantes após uma nota baixa, que com certeza pesará negativamente em seu histórico escolar, fechando para sempre as portas das grandes universidades para esses alunos.

Além disso, no caso específico do Brasil, em que sobretudo o ensino básico público é muito fraco, até que ponto as notas que o estudante obteve em determinada disciplina refletem realmente o quanto ele absorveu de seu conteúdo?

Enfim, ainda não foi inventado o sistema ideal de avaliação de cursos nem o de admissão às universidades. Só temo que, com o dinheiro envolvido na indústria da preparação para o Enem, as distorções na nossa política educacional sejam cada vez maiores.