A supersimetria que governa o Ocidente

Hoje quero compartilhar com vocês, leitores queridos, duas novidades: a primeira é a nova versão do meu site pessoal, www.aldobizzocchi.com.br, muito mais bonita e interativa, onde vocês encontram a minha biografia, meus livros, minhas palestras, meus cursos, minhas entrevistas à imprensa e muito mais.

A segunda — e a mais importante — é que acabei de lançar o portal Supersincronicidade – O Espelho Invisível, cujo endereço é www.supersynchron.com, onde apresento uma descoberta extraordinária que fiz ainda na adolescência, sobre a qual passei anos pesquisando e agora trago a lume. Trata-se do seguinte: há mais de mil anos se verifica uma misteriosa conexão em fatos da geografia, história, línguas, cultura e outros fatos sociais dos países do Ocidente, isto é, do norte e do sul da Europa, e das Américas do Norte e do Sul, tendo, portanto, implicações importantíssimas no próprio destino dessas nações, cuja relevância nem é preciso mencionar, já que formam o cerne da Civilização Ocidental, a mais importante, influente e abrangente civilização de todos os tempos.

Ao longo de anos, coletei centenas de evidências de que existe um paralelismo invisível entre as nações latinas e as germânicas, uma simetria em muitos casos tão perfeita que não pode ser obra do acaso, mas tampouco pode ser explicada pelo conhecimento científico de que dispomos atualmente. Essa descoberta, por sinal, deu origem a uma teoria que chamei de Supersincronicidade, a qual estou expondo, juntamente com abundantes exemplos, no portal de mesmo nome, que convido vocês a visitar — e ficar tão perplexos quanto maravilhados! E — por que não? — a divulgar aos seus amigos e contatos.

É preciso dizer que até hoje não há uma explicação científica para esse intrigante e desconcertante fenômeno, que conecta e entrelaça a história, a geografia, a cultura e diversos outros fatos sociais da França e da Inglaterra, da Itália e da Alemanha, dos países ibéricos e escandinavos, do Brasil e dos Estados Unidos, dentre outros, bem como estabelece incríveis simetrias e analogias na fonética, ortografia, morfologia, sintaxe e léxico das línguas românicas e germânicas par a par, isto é, entre francês e inglês, italiano e alemão, espanhol e sueco, português e norueguês, e assim por diante.

O subtítulo do portal — O Espelho Invisível — se deve ao fato de ambas as famílias de povos formarem uma espécie de imagem especular uma da outra, como se cada país ou povo de uma família, com sua língua, sua história e sua cultura, fosse o reflexo no espelho do país ou povo da outra família que é seu “gêmeo”.

Já o título Supersincronicidade remete ao conceito de sincronicidade, proposto pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung. Para ele, sincronicidades são coincidências significativas sem causa aparente, isto é, fatos paralelos demais para serem considerados mera coincidência, mas que não têm uma causa óbvia ou lógica que os explique. Jung chamou tais fatos de conexões acausais, isto é, que se estabelecem sem causa detectável no mundo físico, mas cuja causa estaria num nível hiperprofundo da realidade que ele chamou de inconsciente coletivo. A sincronicidade seria então um tipo de coincidência que envolve duas pessoas sem que haja uma relação aparente de causa e efeito e sem que elas tenham consciência disso (por exemplo, quando uma pessoa se lembra de alguém que não vê há muito tempo e, minutos depois, exatamente essa pessoa telefona).

Vários estudos sugerem que essas coincidências podem ser explicadas pela física quântica — alguns físicos falam em entrelaçamento ou ação não local. Um desses físicos, por sinal, foi Wolfgang Pauli, prêmio Nobel e um dos fundadores da mecânica quântica, que colaborou nas pesquisas de Jung. Haveria, portanto, uma convergência entre a teoria junguiana e os fenômenos quânticos.

O problema é que, como essas coincidências, por mais significativas que sejam, ocorrem raramente e envolvem apenas duas pessoas — ou apenas uma —, é difícil saber se existe uma lei física ou psíquica até agora desconhecida por trás do fenômeno ou se tudo não passa de acaso. Mas, quando certas coincidências se repetem muitas e muitas vezes, envolvem nações inteiras, de ambos os lados do Atlântico, e ocorrem há mais de um milênio, deve haver algo aí que não resulta de mera casualidade. Nesse caso, não teríamos apenas sincronicidade, mas o que chamei de supersincronicidade.

Bem, não vou falar mais para não dar spoiler. Acessem o portal e tirem suas próprias conclusões. Além disso, também lancei um vídeo sobre o assunto no meu canal do YouTube, o Planeta Língua. O link é https://youtu.be/OgM7mE2d65w. Ah, e não deixem de visitar também o meu novo site pessoal! Ambos os sites estão muito bonitos, funcionais e interativos (modéstia à parte).

Aguardo vocês lá, ok?

O senhor, a senhora

Não gosto de ser tratado por senhor. Nunca gostei. Mas, depois de uma certa idade, tenho gostado menos ainda. Quando criança, aprendi que deveríamos tratar os mais velhos por senhor ou senhora em sinal de respeito. Quando se é criança, mais velhos são todos os adultos, inclusive os de 18, 19 anos. E o respeito aos mais velhos é um princípio basilar da civilização. Afinal, o primeiro fundamento de uma sociedade organizada é o respeito à autoridade, começando pelos próprios pais. Portanto, não respeitamos nossos pais por serem mais velhos que nós, mas por serem hierarquicamente superiores. Embora a palavra senhor provenha do latim senior, que significa “mais velho”, a ideia é que senhor é aquele que tem poder: senhor de si mesmo, senhor de escravos, senhor feudal, assenhorear-se… No entanto, sempre tratei meus pais por você e nunca faltei ao respeito com eles. Em contrapartida, parlamentares se tratam por Vossa Excelência mesmo quando se xingam e se acusam de corruptos.

É por essa razão que tratamos por senhor aqueles que têm autoridade política, administrativa ou intelectual: delegados de polícia, médicos, advogados, professores, nosso chefe, o diretor da empresa, e assim por diante. Também tratamos por senhor ou senhora pessoas desconhecidas, com quem não temos proximidade, desde que não sejam mais jovens que nós.

Assim, depois que passei dos 40 anos comecei a ser tratado por senhor por balconistas, manobristas, atendentes e todo tipo de prestadores de serviço, o que significa que esse tratamento tem a ver com idade, mas também com posição social. Aliás, hoje em dia, a etiqueta empresarial recomenda que todo cliente seja tratado por senhor mesmo que seja jovem. Também sou tratado por senhor por muitos de meus alunos, embora eu nunca tenha feito questão disso e, desde o primeiro dia de aula, os deixe à vontade para dirigir-se a mim como quiserem, desde que com respeito.

Mas a questão é que o uso dos pronomes de tratamento o senhor e a senhora encobre um certo etarismo. Afinal, somos quem somos desde que nascemos e até quando morrermos. Por que deveríamos ser tratados pelas pessoas de modo diferente só porque envelhecemos? Chamar alguém de senhor sem que haja um desnível hierárquico é uma maneira sutil de dizer “você é velho”. E por que deveríamos tratar os velhos de maneira diferenciada? Nas sociedades tribais e ágrafas, os velhos são os detentores do conhecimento ancestral, que passa de geração a geração; portanto, merecem respeito porque são a própria salvaguarda da continuidade da tribo e de sua cultura. Além disso, são os detentores do poder na tribo. Mas, na nossa sociedade “civilizada”, o velho é geralmente visto como alguém não produtivo, desatualizado, frágil, dependente, sem autonomia, “bananeira que já deu cacho” — enfim, numa palavra, alguém inútil, quando não um fardo que a sociedade tem de carregar. E numa sociedade que exalta a juventude, a vitalidade e a produtividade, o velho é a antítese de tudo isso.

É por essa razão que não gosto de ser chamado de senhor. Porque, mesmo já não tão jovem, sou ativo, produtivo, antenado com as novas tendências, e porque, como disse, o tratamento mais formal não necessariamente indica respeito e sim um preconceito disfarçado. É por isso também que não pretendo ser velho: quero ser vintage.

A nação que roda sem sair do lugar

Caro Aldo, recentemente, o jornalista David Ribeiro disse em seu blog que “o Brasil não consegue sair de seu estado de colônia nem mesmo etimologicamente, pois, ao longo da história, tem sempre rodado sem sair do lugar”. O que ele quis dizer com isso? Por que o Brasil não sai do estado de colônia nem mesmo etimologicamente? Enfim, o que a etimologia tem a ver com isso?
Obrigado.
Emerson Felipe Lascuola

O colunista citado por Emerson utilizou uma fina imagem para representar a estagnação histórica do nosso país que, no entanto, exige para ser plenamente compreendida um conhecimento mais aprofundado de etimologia. É que a palavra colônia, assim como “colono” e “cultura”, provém do verbo latino colere, “cultivar, cuidar, tratar, preparar, habitar (especialmente a terra)”. Ou seja, colônia é a terra entregue ao colono para ser cultivada. E o colono é aquele que cultiva, isto é, o lavrador. Nos tempos coloniais, as terras brasileiras eram entregues pela coroa portuguesa a nobres que nela vinham morar e instalar plantações. O sentido básico de “cultivar” do verbo colere se estendeu a toda uma família de palavras designativas de cultivo, inclusive em sentido metafórico: agricultura (cultivo do campo — em latim, ager), piscicultura (criação de peixes), cultura (de soja, de bactérias, do intelecto), etc.

Mas qual a relação etimológica, levantada pelo blogueiro, entre a palavra colônia e nosso eterno rodar sem sair do lugar, que nos impede de ser uma grande nação, embora tenhamos tudo para isso? É que colere, descendente da raiz indo-europeia *kwel, significava originalmente “rodar, revolver”. Portanto, ao rodar sem sair do lugar, o Brasil está fazendo o mesmo movimento que o colono faz ao revolver a terra para cultivá-la.

Essa raiz indo-europeia também deu o grego kyklos, “roda, círculo”, que passou via latim ao português ciclo; boukolos, “criador de bois”, que nos deu bucólico; e polos (do indo-europeu *kwolos), “eixo” (em torno do qual a roda gira, donde, por metáfora, temos os polos da Terra). De *kwel também vieram o sânscrito chacra (cada um dos círculos energéticos do nosso corpo), o inglês wheel, “roda”, e o latim collum, “pescoço”, do qual derivaram colo, colete, colar e colarinho.

E por falar em coluna, esta palavra, embora pareça também pertencer à família de colere, tem outra origem: o verbo latino *cellere, “elevar-se”, de que também procedem excelso, excelência e colina.

O estilo “Carluxo” de Bolsonaro

Leio num site de notícias que no debate de hoje à noite na Rede Globo Bolsonaro deverá adotar o “estilo Carluxo”, isto é, aquela atitude mais radical, raivosa e aguerrida que, por sinal, notabilizou o presidente desde sempre e que contrasta com a imagem “Bolsonarinho paz e amor” que às vezes seus marqueteiros tentam vender ao eleitorado.

Esse tipo de postura política ganhou o nome de Carluxo por referência ao filho do presidente, Carlos Bolsonaro, principal idealizador e incentivador dessa postura, e cujo apelido – não sei se usado por ele próprio ou se a ele impingido pela imprensa – é um diminutivo carinhoso de Carlos. O que chama aqui minha atenção é a grafia com x desse apelido, a meu ver inadequada. Se a alcunha é utilizada pelo próprio Carlos e por seus íntimos, resta saber se o próprio filho do presidente a grafa com x. Se o faz, é um direito seu. Mas, se não, ou seja, se o apelido lhe foi dado pela mídia, então temos aí um deslize ortográfico. É que ‑ucho é um sufixo diminutivo, por vezes afetuoso, que ocorre em palavras como gorducho, pequerrucho, capucho, fofucho e outras e cuja grafia correta é com ch e não com x (falei semana passada sobre a questão da grafia com x ou ch de imbroxável; este é mais um caso em que a língua portuguesa nos coloca em situação de insegurança).

Mas por que o sufixo ‑ucho é com ch e não com x? Mais uma vez, temos de recorrer à etimologia para explicar. Acontece que esse sufixo é um empréstimo do sufixo diminutivo italiano ‑uccio, por sinal muito frequente em nomes de pizzarias como Micheluccio, Freduccio, etc. (Atenção: isto não é merchandising de pizzarias, ok?) Em italiano, o cc seguido de i soa como /tch/, portanto a pronúncia desse sufixo é /utcho/. Quando aportou em terras portuguesas, lá pelo século XVI, formando os primeiros derivados, o ch português também tinha som de /tch/, logo a transcrição de ‑uccio por ‑ucho foi natural. Somente tempos depois foi que o ch português perdeu o som /tch/ e assumiu a pronúncia atual, que se confunde com a do x. Mas a ortografia manteve o ch mesmo assim, pois nosso sistema é parcialmente fonético (melhor seria dizer fonológico) e parcialmente etimológico. É por isso, por exemplo, que eliminamos o h dos dígrafos th, rh, ph, mas mantivemos o h de hora, hoje, etc.

Conclusão: o colérico filho de Bolsonaro deveria ser Carlucho e não Carluxo. A menos que o próprio, como disse acima, prefira a grafia com x. Aí é uma escolha dele, e ninguém tem nada com isso.

Bom debate hoje à noite!

Rei Charles ou rei Carlos?

A recente ascensão do príncipe Charles, filho primogênito da falecida rainha Elizabeth II do Reino Unido, ao trono britânico, fez com que toda a imprensa brasileira passasse a chamá-lo de rei Charles III (houve dois outros monarcas ingleses com esse nome antes dele).

Em Portugal, o príncipe foi chamado de Carlos desde sempre, assim como a rainha era Isabel II, e os filhos de Charles, a saber, William e Harry, são Guilherme e Henrique. O mesmo princípio de tradução de nomes de soberanos vale para os países de língua espanhola, francesa, italiana e alemã.

Mesmo no Brasil é costume referir-se aos monarcas  e papas pelas traduções portuguesas de seus nomes originais. Assim, falamos do rei Luís XIV de França, de Henrique VIII de Inglaterra, do imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, do papa João Paulo II, e assim por diante. Inclusive os dois supracitados reis ingleses homônimos de Charles são conhecidos no Brasil como Carlos I e Carlos II. Portanto, o mais lógico seria que desde já passássemos a nos referir ao novo rei da Grã-Bretanha como Carlos III e não como Charles III. Aliás, a expressão “rei Charles”, que tem sido veiculada na mídia falada (rádio, TV e podcasts), gera certa confusão com Ray Charles, o famoso cantor americano de rhythm’n’blues e soul.

Quanto a Elizabeth, poderia ter sido aportuguesado para Elisabete, uma vez que o nome em inglês da rainha Isabel de Castela é Isabella e não Elizabeth, o que indica que se trata de dois nomes distintos, ainda que tenham a mesma origem hebraica. O mesmo ocorre com Diogo, Diego, Tiago, Iago, Jaime e Jacó, que são nomes diferentes (por exemplo, ninguém se refere a Santiago como São Jaime ou São Jacó), embora se originem todos do hebraico Ya’akov.

O palíndromo dos números

Ontem, dia 22 de fevereiro de 2022, ocorreu um fenômeno numérico e uma efeméride chamada capicua. Trata-se de uma data que, lida de trás para frente ou de frente para trás, dá no mesmo. Confiram: 22/02/2022. A capicua é o equivalente numérico do palíndromo. Para quem não sabe, palíndromo é uma palavra ou frase que pode ser lida igualmente em ambas as direções. Por exemplo, as palavras ovo e reviver são palíndromos em português. Igualmente, a frase “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos” é um palíndromo.

O termo palíndromo vem do grego pálin, “para trás, de volta, inversamente”, mais drómos, “corrida, percurso”. Já capicua vem do catalão e significa “cabeça e cauda”.

Pelos meus cálculos, a próxima capicua será no dia 32 de fevereiro de 2023 – só que essa data não existe! Mas nunca se sabe, né? Eu, por exemplo, jamais imaginei que um dia o Carnaval fosse cair em abril.

Lançamento do meu novo livro

Pessoal,

Acaba de ser lançado o meu novo livro “O UNIVERSO DA LINGUAGEM – Sobre a Língua e as Línguas”. A sinopse é a seguinte:

“A linguagem tem uma importância crucial em nossas vidas e há uma imensa curiosidade sobre muitas questões ligadas à língua. Por que falamos? Como e quando a linguagem surgiu? Por que as línguas evoluem? Como nascem as palavras? Como a mente processa a linguagem? Como as línguas funcionam? Qual a relação entre a língua que falamos e o modo como vemos o mundo? A língua está mesmo se degenerando? Os outros idiomas são uma ameaça ao nosso? Este livro reúne diversos ensaios que tratam do português e das línguas em geral, bem como de questões, como essas, ligadas à linguagem humana e suas relações com a mente, a sociedade, a cultura e a civilização.”

E o anúncio de divulgação é este:

“Sem a linguagem não seríamos os humanos que somos. Assim, entrar nesse complexo universo é fascinante. Este livro trata tanto de questões mais gerais, como “Por que falamos?”, “Como nascem as palavras?”, até das mais específicas, como “Nossa língua é machista porque usamos o masculino quando nos referimos a um conjunto de pessoas de ambos os sexos?”, “Só existe a palavra ‘saudade’ em português mesmo? E isso quer dizer que os falantes de outras línguas não lidam com esse sentimento?”. Obra fascinante para percorrer a beleza e a poesia contidas na linguagem.

Olivro O universo da linguagem parte dos conhecimentos construídos pela linguística para apresentar, de modo acessível, diversas questões sobre o português, as línguas em geral e a linguagem. Escrita por Aldo Bizzocchi, a obra nos guia por esses questionamentos tão distintos e, uma vez mais, nos maravilha com as possibilidades e surpresas dessa faculdade tão essencial ao ser humano: a linguagem! Garanta o seu!!”

O livro já está à venda nas principais livrarias e também no site da Editora Contexto: https://www.editoracontexto.com.br/produto/o-universo-da-linguagem-sobre-a-lingua-e-as-linguas/4890530.

Se puderem, divulguem aos amigos. Obrigado!

Desvendando a caixa-preta – 1ª parte

Na pesquisa linguística, não é raro encontrar línguas sobre as quais nada se sabe, como ocorre com expedições que fazem contato com tribos indígenas pela primeira vez. Diante de uma língua que é uma verdadeira “caixa-preta”, sobre a qual não temos informação prévia (não sabemos nada de sua gramática ou vocabulário nem a que família pertence), por onde começar a estudá-la?

Para solucionar o problema, desenvolveram-se técnicas de análise, como a tagmêmica, proposta pelo americano Kenneth Pike na década de 1940 para estudar as línguas ameríndias. A tagmêmica e outras tecnologias similares partem do princípio de que todas as línguas, mesmo aquelas que ainda não conhecemos, têm características universais, como a presença de estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas que obedecem a certas leis gerais.

O primeiro passo nesse tipo de pesquisa consiste em gravar a maior quantidade possível de amostras de fala (línguas de comunidades tribais nunca têm expressão escrita) e analisar o material coletado, muitas vezes com o auxílio de softwares especiais.

Em primeiro lugar, procura-se reconhecer os sons da língua, isto é, as realizações articulatórias que se repetem sistematicamente nas amostras. A partir da comparação entre as falas de vários informantes, é possível determinar quais os sons distintivos de significado (ou seja, os fonemas) e suas variantes (chamadas de alofones). É possível até descobrir quais são variantes pessoais (ligadas aos hábitos articulatórios de um dado falante) e quais são contextuais (determinadas pelo contexto em que ocorre o fonema, isto é, os fonemas que o precedem ou sucedem). Num momento seguinte, pode-se deduzir a estrutura silábica da língua a partir das combinações recorrentes de fonemas.

Na medida em que certas sequências de fonemas se repetem na fala, deduzem-se as palavras. Há dois tipos de palavras que tendem a se repetir num ato de fala: as gramaticais, como artigos, pronomes, preposições, etc., e as palavras-tema, aquelas diretamente ligadas ao assunto da fala. É possível ainda depreender de certas sequências que diferem por um único elemento afixos, desinências e demais marcadores de flexão das palavras.

Reconhecidas as estruturas fonológica e morfológica do idioma em questão, passa-se ao reconhecimento das estruturas sintáticas: determina-se o limite das frases e, sabendo-se previamente quais são as palavras lexicais e gramaticais, procura-se descobrir como elas se combinam, num processo semelhante à análise sintática que se faz nas aulas de português.

Por fim, resta a semântica do texto. Quando pesquisadores interagem com os informantes a fim de obter o registro de sua fala, geralmente apontam objetos ou deixam que os falantes apontem. Com isso, começa-se a relacionar palavras com coisas: o processo evidentemente parte de conceitos mais concretos e corriqueiros até chegar a abstrações complexas.

Uma situação semelhante a esse tipo de investigação são os métodos de decifração de códigos secretos. A lógica deles é a mesma das tecnologias de descrição de línguas desconhecidas, com a diferença de que os códigos secretos se apresentam em mensagens escritas (geralmente numa simbologia também secreta).

Exemplo disso é o código Voynich, um misterioso manuscrito, datado pela técnica do carbono 14 como sendo do século 15 ou 16, escrito num alfabeto desconhecido e ilustrado com imagens de plantas, mapas astronômicos e mulheres nuas imersas em vasos de líquido escuro. O manuscrito leva o nome do livreiro americano de origem polonesa Wilfrid Michael Voynich, que o adquiriu em 1912 na Itália.

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O caso Voynich

O documento está redigido da esquerda para a direita (é possível deduzir isso a partir do alinhamento da última linha de cada parágrafo) num alfabeto de cerca de 40 caracteres, alguns dos quais aparecem uma única vez em todo o texto (mais ou menos como k, w e y aparecem raramente nos textos em português). Todas as tentativas de decifrá-lo fracassaram, até as dos maiores especialistas em criptografia que atuaram na Segunda Guerra Mundial.

Chegou-se a cogitar que o manuscrito não passasse de um embuste, um texto sem nexo escrito no século 16 num alfabeto fictício para ser oferecido às cortes europeias, que então pagavam fortunas por obras esotéricas. Uma carta de 1666 adquirida junto com o documento afirmava ter ele pertencido ao imperador germânico Rodolfo II e sido escrito pelo filósofo medieval inglês Roger Bacon. A novidade é que cientistas têm utilizado técnicas de estatística linguística para verificar se a distribuição dos caracteres e palavras no texto é compatível com o padrão das línguas naturais.

Um artigo publicado há alguns anos por físicos brasileiros na revista PLoS One (mais informações em revistapesquisa.fapesp.br/2013/08/13/o-codigo-voynich) explica como eles utilizaram algoritmos que permitem detectar palavras-chave no texto (mais ou menos como faz o Google em suas buscas), bem como elaboraram redes de dispersão que medem o grau de proximidade ou distância entre palavras.

Até agora, os resultados apontam para padrões compatíveis com os de textos dotados de significado. O problema, neste caso, é que o manuscrito Voynich não está relacionado a nenhum referencial externo – exceto as próprias figuras do texto –, o que dificulta o reconhecimento de uma semântica subjacente.

Muitas hipóteses já foram aventadas sobre sua origem, desde a transcrição fonética por um europeu, num alfabeto inventado, de um texto ditado por um nativo do Leste asiático, até a atribuição da autoria do manuscrito a sábios medievais e charlatães renascentistas. Recentemente, um historiador britânico afirmou ter descoberto a chave para decifrar o enigmático documento. Mas isso é assunto para a próxima semana.

O que importa é que a busca pelo significado do código Voynich tem representado um belo exercício de aplicação das teorias linguísticas a um fim particular – no caso, a decifração de um texto engenhosamente criptografado.

Qualquer que seja a língua na qual o código foi redigido, se é uma língua natural, então deve obedecer aos princípios fonológicos e morfossintáticos que regem todos os idiomas, e, portanto, a utilização de tecnologias de análise como a tagmêmica deve produzir resultados satisfatórios também nesse caso.

” No meio de uma crise política sem precedentes no Brasil contemporâneo, a nova novela das 23h da Rede Globo, ‘Liberdade, Liberdade’, de Mario Teixeira, faz um oportuno resgate histórico do nosso período colonial, propiciando ao público um maior entendimento acerca dos muitos vícios que se perpetuaram na nação. “

Foto: Pedro Carrilho/Gshow A frase célebre do poeta romano Virgílio “Liberdade ainda que tardia”, mostrada na primeira imagem da nova novela das 23h da Rede Globo “Liberdade, Libe…

Fonte: ” No meio de uma crise política sem precedentes no Brasil contemporâneo, a nova novela das 23h da Rede Globo, ‘Liberdade, Liberdade’, de Mario Teixeira, faz um oportuno resgate histórico do nosso período colonial, propiciando ao público um maior entendimento acerca dos muitos vícios que se perpetuaram na nação. “