Um esclarecimento sobre o “imbrochável”

Há alguns dias, publiquei um artigo sobre a correta grafia do neologismo bolsonarista imbroxável. Desde então, tenho recebido vários comentários, alguns dos quais mal-educados e agressivos, que nem me dou ao trabalho de responder, argumentando que certos dicionários abonam a grafia brocha (com ch) com significado de “pincel”. Nesse caso, segundo esses dicionários, broxa (com x) é somente “pincel”, mas brocha (com ch) pode ser “prego” ou “pincel”.

É preciso fazer algumas considerações sobre isso. Em primeiro lugar, até a reforma ortográfica de 2009, os dicionários registravam exclusivamente broxa, “pincel”, e brocha, “prego”. Num primeiro momento, imaginei que talvez essa tendência de considerar que brocha também pode ser “pincel” fosse uma inovação introduzida pelo Acordo Ortográfico de 1990, implantado no Brasil em 2009. Por isso, fui consultar o VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, no site https://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario. Pesquisando por brocha, encontro: brocha s.f. “prego”, etc.; cf. broxa “pincel”. Já ao pesquisar por broxa, encontro: broxa adj. 2g. s.f. “pincel” s.m.; cf. brocha “prego”, etc.

Como podemos ver, o VOLP distingue claramente os significados de brocha, “prego” e de broxa, “pincel”. Mais ainda, indica que broxa é substantivo feminino (referente a “pincel”), bem como adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino (referente ao indivíduo sexualmente impotente). No verbete brocha, temos cf. (isto é, “confira”) broxa “pincel”. E no verbete broxa, temos cf. brocha “prego”. Fica claro que as duas grafias correspondem a dois significados distintos. E que em cada verbete o VOLP remete ao outro verbete, de grafia e significado diferentes.

Portanto, quando edições pós-reforma ortográfica de dicionários estabelecem que brocha (com ch) significa tanto “prego” quanto “pincel” e põem ambas as acepções no mesmo verbete, ao mesmo tempo em que desaconselham a grafia broxa (com x), temos aí vários problemas.

O primeiro é que não cabe ao dicionário proscrever uma grafia: ou ela é válida porque reconhecida pelo VOLP ou é inexistente. Ora, a grafia broxa consta no Vocabulário Ortográfico, logo é válida e sua interdição pelos dicionários é indevida.

Em segundo lugar, temos o problema etimológico. Broxa vem do francês brosse, que quer dizer “pincel”. Já brocha vem do francês broche, que significa “broca, tacha, prego, fuso de tear” e também “broche” (tendo dado, por sinal, a palavra broche em português). Logo, a diferença de grafia se justifica, afinal o ch francês passa ao português também com ch (veja, por exemplo, chauffeur > chofer), ao passo que ss corresponde em português ora a ss mesmo ora a x (francês passer x português passar, francês caisse, coussin x português caixa, coxim).

Mesmo que a reforma ortográfica tivesse instituído a substituição da grafia broxa por brocha – o que, a meu juízo, não fez –, os vocábulos brocha, “pincel”, e brocha, “prego”, teriam de constituir dois verbetes separados. Dito de outro modo, não seriam duas acepções da mesma palavra e sim duas palavras homônimas. Portanto, os dicionários “moderninhos” erram também aí.

Por fim, se, por absurdo, admitíssemos que os dois significados do termo pertencem à mesma palavra, teríamos o único caso na língua portuguesa de palavra única com duas grafias possíveis e autorizadas. O que temos em nosso idioma e também em muitos outros são palavras homógrafas (mesma grafia e pronúncias diferentes), como leste (do verbo ler) e leste (ponto cardeal), palavras homófonas (mesma pronúncia e grafias diferentes), como concerto e conserto, palavras homônimas (mesma grafia e pronúncia, mas significados e etimologias distintas) como manga (fruta, do malaio) e manga (de camisa, do latim). Temos ainda os chamados alomorfes, palavras de grafia e pronúncia parcialmente diferente, mas com significado idêntico. É o caso de loiro e louro, catorze e quatorze. Aproveito aqui para alertar que alguns dicionários chamam a esses alomorfes de formas divergentes, o que é errado: formas divergentes, alótropos ou dobretes são palavras totalmente distintas, com mesma origem mas étimos (isto é, trajetórias de chegada à língua) diferentes. São formas divergentes aurícula e orelha; desígnio e desenho; prumo e chumbo; defensa, defesa e devesa; plano, porão, piano e chão, dentre outros.

Em resumo e como resposta aos leitores que me advertiram de que eu estaria errado – alguns, como disse, de modo rude e contrário aos princípios da civilidade –, reafirmo que broxa é pincel, brocha é prego e que imbroxável no sentido dado por nosso histriônico presidente é com x e apenas com x. E tenho dito!

18 comentários sobre “Um esclarecimento sobre o “imbrochável”

  1. Excelente, professor Aldo. O VOLP é soberano nesses casos, caso contrário vira bagunça como tantas outras coisas. E é por isso que sempre grafo “berinjela” com “j”, em vez de “g”, como entende o Houaiss.

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  2. Bom dia, senhor,      Gosto bastante das suas observações sobre as particularidades do nosso idioma, conquanto discorde — respeitando — da “mistura” que faz com política partidária.     Em relação à “imbroxabilidade”, permitindo-me considerar que o pênis guarda mais semelhança com um PREGO que com um PINCEL, julgo que cabe a grafia com “CH”.      Concluo informando que os meus comentários estão acompanhados não apenas do bom nível de civilidade requerido, mas, também, de muitas sonoras gargalhadas.     Fraternal abraço.   Paulo Gilberto Morais dos Santos (83)9.9990-0022 (WhatsApp) pegemorais@yahoo.com.br Patos (PB).

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    1. Caro Pegemorais, em primeiro lugar, obrigado pela civilidade do seu comentário, tão rara hoje em dia. Gostaria de esclarecer que não faço política partidária até porque não sou simpatizante de nenhum partido e de nenhum político em particular. Simplesmente aplaudo os bons políticos e critico os maus. E faço isso porque meu blog não é exclusivamente sobre línguas (embora esse seja o assunto dominante), mas também me permito expressar opiniões pessoais.
      Sobre a sua sugestão de que o pênis se parece mais com um prego do que com um pincel, é preciso esclarecer que o verbo “broxar” se refere à perda de ereção, e um pênis flácido se parece mais com uma broxa encharcada de tinta do que com um prego retilíneo. O prego é mais semelhante ao pênis ereto.
      Um abraço!

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  3. ” teríamos o único caso na língua portuguesa de palavra única com duas grafias possíveis e autorizadas”. Por acaso, berinjela e beringela não se enquadra neste caso?

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    1. Berinjela tem uma grafia portuguesa e outra brasileira, assim como fato e facto, contato e contacto, recepção e receção. No artigo, estou me referindo especificamente aos dicionários brasileiros, que não trazem as grafias alternativas portuguesas. Aliás, como se vê, a reforma ortográfica que pretendia unificar a grafia não unificou nada.

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  4. Professor, fiquei em dúvida sobre sua análise da formação de “imbroxável”. A parassíntese não me parece adequada nesse caso, porque penso que o prefixo de negação aconteça após o acréscimo do sufixo (e não simultaneamente). Creio que seja um caso de derivação sufixal, seguida de prefixal, como em “inominável”, “indizível”, “infalível”, etc.

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      1. Boa tarde. Consideração do ponto de vista potencial. É de notar que, se não existe a palavra “broxável” – tampouco “imbroxável” efetivamente, conquanto em ato, perfeitamente conforme com a produtividade do idioma –, pode-se considerar a explicação inicial do prof. Aldo, isto é, formação por derivação parassintética. O Volp, por exemplo, registra “imexível” (by Rogerio Magri, saudosa memória…), mas não traz “mexível”. Portanto, é legítimo, em ambos os casos, levar em conta a parassíntese.

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    1. Eu pensei exatamente dessa forma: se não existe “broxável”, mas apenas “broxar”, então “imbroxável” é parassíntese. No entanto, alguns linguistas raciocinam que, pela teoria dos Constituintes Imediatos (CIs), o prefixo “in-” e o sufixo “-vel” não poderiam acoplar-se ao radical ao mesmo tempo, mas haveria uma sucessão lógica do tipo “broxar” -> *”broxável” -> “imbroxável”, em que *”broxável”, embora não exista efetivamente na língua, existe em potencial (é o que os adeptos da morfologia distribuída chamam de “fase oculta”, que estaria pressuposta na formação de “imbroxável”). Algumas gramáticas, no capítulo sobre a parassíntese, também afirmam que não é possível fazer parassíntese com “in-” + “-vel”. Enfim, são duas posturas distintas que, talvez, estejam ambas corretas – ou, pelo menos, sejam ambas defensáveis. Depois que meu colega professor me alertou para a questão dos CIs, passei a considerar essa abordagem mais sustentável. Em todo caso, não alterei o texto do artigo, pois, se assim o fizesse, estes nossos comentários perderiam o sentido.

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      1. Com o devido respeito ao prof. Aldo e aos especialistas, é preciso ressaltar dois pontos: 1) A teoria dos constituintes imediatos é, salvo engano, de matriz estruturalista, e havemos de convir que o estruturalismo e o gerativismo, por exemplo, são escolas cujas valiosas contribuições devem ser sopesadas quando delas se vale num compêndio de gramática normativa, porque são muito mais afins da gramática descritiva. 2) A teoria dos CIs costuma aplicar-se à análise sintagmática/sintática, e só por extensão à morfologia. O leitor mediano busca o pão, pão, queijo, queijo. Em outras palavras, ele quer saber o que é certo e o que é errado.

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