O silêncio dos universitários

Hoje republico um editorial do jornal O Estado de São Paulo, intitulado “O silêncio dos universitários”, que diz aquilo que muitos dentro do meio acadêmico sabem, mas têm medo de dizer. Vamos ao artigo.

O silêncio dos universitários

As universidades vieram à luz como templos da liberdade intelectual, carregando já no nome a promessa de brilhar como um “universo” de saberes, onde ideias rivais se enfrentam sem medo, dogmas são desafiados e consensos só existem enquanto resistem ao fogo do debate. Mas essa promessa foi traída. O câmpus, que deveria ser laboratório do pluralismo, tornou-se casamata da intolerância.

Professores e alunos admitem que se calam por medo das patrulhas ideológicas. Segundo uma pesquisa do Instituto Sivis, 47% dos estudantes brasileiros consultados relutam em discutir assuntos controversos. Os mais afetados são os estudantes que se consideram de centro: 57% deles se autocensuram, contra 43% dos alunos de esquerda e 39% dos de direita. Discussões políticas (39%) lideram o cardápio de temas que costumam ser evitados.

A mordaça não vem de decreto nem da polícia, mas do medo de ser linchado nas redes sociais, sabotado pelos pares, hostilizado em sala de aula. A autocensura se tornou forma mentis. O preço de pensar fora da cartilha é a difamação, o cancelamento e até o veto a pesquisas ou à docência.

Naturalmente, há fanatismos de direita rondando os portões da universidade, tentando minar a legitimidade da ciência e instrumentalizar a ignorância. Mas a verdade incômoda é que, dentro dos muros, os maiores carrascos da liberdade não são reacionários caricatos, e sim a esquerda iliberal hegemônica nas humanidades. Sob a máscara da “inclusão” e da “justiça social”, essa nova ortodoxia impôs um código de fé progressista, em que divergências são escorchadas como blasfêmia. A universidade, que deveria ser antídoto contra o pensamento único, abastardou-se em sua encarnação mais zelosa.

Uma academia sem dissenso não forma lideranças democráticas: fabrica inquisidores de toga acadêmica, adestrados para silenciar o adversário em vez de refutá-lo. A retórica do respeito a grupos marginalizados virou desculpa para marginalizar dissidentes. A depauperação do debate interno repercute na sociedade: onde a discordância vira ofensa, a política degenera em polarização tóxica. Ao abdicar da liberdade acadêmica, a universidade legitima o populismo que diz combater, abrindo espaço para que demagogos de direita se apresentem como paladinos da “verdade proibida”.

A degradação não foi imposta de fora para dentro. Foi construída por anos de covardia institucional e conformismo ideológico. Diretores coniventes com protestos truculentos; colegiados que chancelam cursos com uma versão única da História; professores que se calam para não perder prestígio ou verbas. A cultura do cancelamento floresce porque encontrou terreno fértil na militância disfarçada de docência e no silêncio cúmplice da administração.

Há antídotos. Universidades que adotam a neutralidade institucional — recusando-se a endossar causas políticas ou manifestos partidários — preservam maior diversidade intelectual. Experiências internacionais mostram que regras de convivência, centradas na defesa intransigente da liberdade de expressão, criam ambientes mais férteis para a ciência e mais resilientes a modismos ideológicos. No Brasil, manifestos de intelectuais que denunciam a asfixia do pluralismo são sinais tímidos, mas encorajadores, de resistência. Porém, só terão efeito se acompanhados de reformas institucionais: desde códigos de conduta que protejam vozes divergentes até currículos que ofereçam perspectivas contrastantes, em vez de catecismos disfarçados de disciplinas.

A liberdade de se expressar não é luxo nem bandeira partidária. É a quintessência da vida acadêmica. Sem ela, a universidade deixa de ser espaço de investigação crítica e se converte em megafone de dogmas; deixa de formar cidadãos esclarecidos e passa a moldar militantes biônicos – alienando todo o resto. Uma universidade que cancela palestras, silencia teses e criminaliza a divergência trai sua missão e se torna caricatura de si mesma. Ou as universidades resgatam sua vocação para o livre debate e experimentação de ideias, ou continuarão a se desmoralizar — e se desfigurar – como tribunais ideológicos. E quem perde não são só os acadêmicos — é a própria democracia brasileira.

Uma etimologia alternativa para “coração”

Dizem alguns etimólogos que a palavra coração vem de um suposto latim vulgar *coratione, formado de cor, “coração”, e do sufixo ‑tionem, que aparece em nationem, operationem etc. (em português, nação, operação). Meu colega Mário Eduardo Viaro, etimólogo e professor da USP, em artigo na revista Língua Portuguesa, faz até uma analogia com coragem, que vem do francês antigo corage e é formado de cor + sufixo ‑age. Só que essa explicação não me parece totalmente satisfatória. Primeiro, ‑age é sufixo que indica qualidade (por exemplo, bobagem = qualidade de bobo, vassalagem = condição de vassalo). Portanto coragem é a qualidade de quem tem coração (visto como a sede das virtudes humanas). Além disso, ‑age é sufixo masculino em francês, e corage (que atualmente tem a forma courage) é de fato palavra masculina em francês. Essa palavra nasceu no francês e passou às outras línguas, inclusive à nossa, por empréstimo.

coração seria, segundo a hipótese acima, formado de cor + sufixo ‑ção. Só que esse sufixo é feminino, mas coração é palavra masculina tanto em português quanto em espanhol (corazón). Além disso, ‑ção é sufixo que designa ação e não qualidade (por exemplo, organizarorganização, embromarembromação). Seria estranho que se ligasse ao substantivo cor e não a um verbo de ação. Afinal, que ação o coração desempenha além de bater?

O mais provável é que o sufixo ‑ção de coração não venha do latim ‑tionem, mas seja na verdade um aumentativo, pois é sabido que muitas palavras que herdamos do latim vulgar eram aumentativos ou diminutivos de palavras latinas. Por exemplo, orelha vem de auricula, diminutivo de auris; agulha vem de acucula, diminutivo de acus; o francês soleil, “sol”, vem de soliculus, diminutivo de sol, e assim por diante. O latim vulgar também tinha os sufixos aumentativos ‑acium e ‑aciam (que deram os nossos sufixos ‑aço de golaço e mulheraço e ‑aça de barcaça, bem como o espanhol ‑azo/‑aza e o italiano ‑accio/‑accia) e o sufixo aumentativo ‑onem, que deu ‑ão em português, ‑ón em espanhol e ‑one em italiano.

Pois bem, é provável que coração seja um aumentativo de cor, aliás um superaumentativo, já que tem dois sufixos de aumento. A palavra no latim vulgar devia ser *coracionem, isto é, cor + ‑acium + ‑onem. Evidentemente, não há como provar essa tese, já que não existe registro histórico dessa forma, mas tampouco existe da forma *corationem. Portanto, aqui o julgamento deve se dar muito mais em bases probabilísticas do que empíricas. De todo modo, creio que a hipótese aqui apresentada tenha mais probabilidade de ser verdadeira — ao menos parece mais plausível — do que a outra.

Aliás, o Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana, de Joan Corominas, também aventa essa hipótese para o espanhol corazón. E uma forma primitiva de coração era corção, que ainda sobrevive como sobrenome.

Como a origem dessa palavra é controversa, o que deve ser levado em conta é a probabilidade de cada uma das hipóteses etimológicas. E creio que a hipótese de um aumentativo de cor é mais provável que a de um substantivo indicativo de ação.

A língua e a vocação dos povos

Sempre achei — mas é apenas uma hipótese pessoal, sem nenhuma comprovação científica — que a língua falada por um povo influencia de alguma forma sua história e sua vocação cultural. Como estudioso das línguas românicas e germânicas, é sobre elas que faço algum juízo, mesmo que neste caso seja algo impressionista. E sempre achei que os povos latinos, falantes dos idiomas românicos, têm mais vocação para as artes, a literatura, a poesia, a culinária, a moda do que os saxônicos, mais afeitos à ciência, à engenharia, à tecnologia, à economia, à guerra. E que isso teria a ver com as características das línguas que falam.

De fato, as línguas românicas ou neolatinas têm uma gramática mais complexa, com maior abundância de flexões, mais irregularidades, maior variedade de construções sintáticas e, ao mesmo tempo, uma fonética mais simples, com poucos fonemas, poucos encontros consonantais, predominância de sons vocálicos, muitos ditongos, o que tornaria essas línguas a um só tempo muito plásticas gramaticalmente e muito musicais, favorecendo a poesia, a palavra cantada e o romance (nos dois sentidos: da literatura de ficção e do amor).

Já as línguas germânicas ou teutônicas têm gramática bastante simples e rígida (até monótona, eu diria), pouco afeita a grandes torneios, a hipérbatos e outras figuras de linguagem, um vocabulário com poucas palavras gregas ou latinas e uma fonética bem complicada, com muitos fonemas, vogais longas e breves, tônicas, subtônicas e átonas, consoantes simples e duplas, aspiradas e não aspiradas, tons ascendentes, descendentes e planos, støds, oclusões glotais e outras peculiaridades, com predomínio de consoantes e encontros consonantais às vezes assustadores (nunca me esqueço da palavra sueca hjälmskt, com suas impressionantes cinco consoantes em sequência). Em suma, idiomas definitivamente pouco recomendáveis a um poema ou declaração de amor.

Não por acaso, fala-se no romantismo da língua francesa ou da espanhola, na doçura do português, na musicalidade do italiano. E, por consequência, na figura do amante latino, do casanova, do Don Juan. Ao contrário, pensa-se sempre na língua alemã como imperativa, impositiva e símbolo de autoridade. Ou na língua inglesa como fria e imparcial.

A plasticidade e sonoridade das línguas latinas, contraposta à rigidez mecânica das anglo-saxônicas, me faz pensar que estas são essencialmente línguas do logos, do discurso lógico e racional, ao passo que aquelas são línguas do mythos, do conto, da fábula, da anedota, da fantasia e da imaginação. Talvez por isso só seja possível filosofar em alemão, como se diz. Lendas à parte, o idioma germânico permite uma exatidão de conceitos e definições que favorece muito o raciocínio lógico e matemático. Em contrapartida, a poesia inglesa, mesmo a de Shakespeare, é dura, estéril, não tem a eloquência de um Camões ou a leveza de um Vinicius de Moraes. Não consigo imaginar Saramago escrevendo em inglês, embora Joyce tenha feito grandes experimentos linguísticos e assim tirado leite de pedra. Também talvez por isso as letras das canções anglo-americanas sejam tão pobres estilisticamente, comparáveis no máximo ao nosso breganejo, muito distantes da genialidade de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo César Pinheiro, Fernando Brant, Arnaldo Antunes.

Penso mesmo que uma revolução cultural como o Renascimento só poderia ter nascido na Itália, assim como a Revolução Industrial só poderia ter surgido na Inglaterra. Não à toa a Itália é o país das artes plásticas e da música, a França a nação da literatura, da moda e da culinária, o Brasil o país do Carnaval e da alegria, e assim por diante. Da mesma maneira, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos são os países das ciências naturais, dos grandes institutos de pesquisa, da indústria, do comércio exterior, das inovações tecnológicas. São também os países da guerra (pense-se, por exemplo, no belicismo prussiano, no colonialismo britânico, no envolvimento norte-americano em quase todos os conflitos armados do século XIX ao XXI). O fascismo, mesmo nascido na Itália, só encontrou sua forma perfeita no nazismo alemão. Inversamente, o romantismo, embora gestado na Alemanha, extrapolou os limites de estilo literário e se tornou estilo de vida quando encontrou o calor humano dos povos latinos. É claro que o clima mediterrâneo do sul da Europa e o tropical da América do Sul devem ter ajudado; é claro que as baixas temperaturas e a paisagem gelada do norte da Europa e da América devem ter favorecido o trabalho, a engenhosidade, o sentido do dever acima do prazer, mas as línguas, sem dúvida, refletiram esse espírito. Aliás, há uma teoria linguística que afirma ter sido o contrário: o clima frio motivaria a que as línguas se tornassem mais consonantais, mais “fechadas”, mais guturais. Hipótese que tem muitos contraexemplos.

Mesmo assim, é curioso que o protestantismo, que prega a salvação pelas obras e promete a prosperidade nesta vida pelo trabalho e não no além-túmulo, tenha surgido na Alemanha e se propagado fundamentalmente pelos países germânicos. Em seu livro A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber demonstra como a ideologia protestante ensejou a Revolução Científica do século XVII e a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. E está impulsionando a revolução tecnológica dos séculos XX e XXI.

Bem, mas tudo isso são confabulações minhas num domingo de frio para ser publicadas na segunda-feira.

Revoluções científicas e a “revolução” na gramática

Nos últimos tempos, tenho me dedicado bastante a criticar a postura militante de certos colegas que, em vez de fazer ciência, fazem política identitária travestida de ciência. E defendem que o pesquisador de humanas deve ter uma atitude engajada — desde que esse engajamento seja na direção de uma certa ideologia política e não de outra qualquer.

Pois bem, no livro Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, organizado por Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira, este último afirma às páginas 40 e 41:

Kuhn afirma que as revoluções científicas assemelham-se às revoluções políticas, e eu alargo seu pensamento ao contexto das produções emergentes das gramáticas do português brasileiro. Seus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica. Não à toa as características que Kuhn afirma pertencerem às revoluções políticas e científicas podem ser apontadas como constitutivas da revolução do fazer gramatical brasileiro. Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário. (grifos meus)

Como se pode depreender das palavras de ordem inflamadas do autor, o que se pretende é uma revolução do fazer gramatical análoga provavelmente à Revolução Bolchevique ou à Revolução Cultural chinesa. Isso porque, segundo os autores do livro e os demais linguistas que militam nessa causa, a gramática normativa atual do português é elitista, excludente, opressora, conservadora/reacionária, elaborada por homens brancos, burgueses, heterossexuais, homofóbicos, racistas e misóginos. Talvez Vieira defenda que se faça com os gramáticos o que Mao Tsé-Tung fez com os intelectuais e os opositores de seu regime.

Mas vamos analisar o grande erro conceitual cometido por esse linguista e escorado numa leitura equivocada do filósofo da ciência americano Thomas Kuhn. Em seu livro A estrutura das revoluções científicas, Kuhn explica que o progresso científico passa pelas seguintes fases:

1) estabelecimento de um paradigma, isto é, de um metamodelo teórico que serve de base e guia para o desenvolvimento das teorias científicas numa determinada época histórica. Por exemplo, o geocentrismo de Cláudio Ptolomeu, o mecanicismo do século XVII, o positivismo do século XIX, o estruturalismo e o funcionalismo do século XX, e assim por diante. São as chamadas escolas ou correntes de pensamento cujas diretrizes norteiam as hipóteses que, se comprovadas, darão origem às teorias.

2) ciência normal, período durante o qual o paradigma vigente funciona bem e permite explicar satisfatoriamente os dados empíricos colhidos nos experimentos científicos.

3) crise do paradigma, quando novos dados experimentais já não podem ser explicados satisfatoriamente pelas teorias em vigor, e o paradigma começa a ser posto em xeque.

4) ciência extraordinária, quando novos paradigmas são propostos e competem entre si até que um deles se prove o mais adequado a explicar os novos dados e, ao mesmo tempo, a explicar igualmente bem os dados antigos, dos quais as teorias anteriores davam conta perfeitamente.

5) revolução científica, em que esse novo paradigma vitorioso suplanta definitivamente o anterior, ponto a partir do qual o ciclo recomeça.

Portanto, diferentemente das revoluções políticas, em que um determinado grupo, não necessariamente melhor que o então dominante, o depõe e toma o poder em seu lugar num ato de violência, uma revolução científica se inicia com uma descoberta que desafia o poder de explicação do conhecimento de que se dispunha até aquele momento e mostra que algo no paradigma vigente está errado ou incompleto.

A primeira grande revolução científica dos tempos modernos ocorreu com a publicação em 1543 do livro De revolutionibus orbium coelestium (Da revolução das esferas celestes), de Nicolau Copérnico, no qual ele mostrava que o modelo astronômico geocêntrico de Ptolomeu, do século I d.C., além de ser extremamente complexo, não dava conta do movimento de certos corpos celestes observados pelos astrônomos. Copérnico propõe que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. A seguir, o alemão Johannes Kepler demonstra que não só o Sol está de fato no centro do sistema, mas que as órbitas dos planetas são elípticas com o astro-rei ocupando um dos polos.

Então Galileu Galilei, fazendo experimentos com planos inclinados nos quais deslizam pequenos objetos e com pêndulos que oscilam suspensos por cordas fixas a grande altura (um desses pêndulos foi fixado no topo da torre de Pisa), enuncia as primeiras leis matemáticas do movimento. É o surgimento da física moderna.

Simultaneamente, dois filósofos, o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes, dão estrutura teórica a esse novo paradigma, em que o conhecimento deve ser construído a partir da lógica, da matemática e da observação dos fenômenos naturais e não a partir do argumento de autoridade de antigos pensadores ou de teólogos. Nasce assim o chamado método científico, em que a teoria deve conformar-se à realidade e não o inverso.

Ainda dentro desse período histórico (séculos XVI a XVIII) conhecido como Revolução Científica, Isaac Newton enuncia as três leis do movimento, conhecidas como Leis de Newton, e a Lei da Gravitação Universal, um corpo teórico chamado de física clássica, que explica tanto os fenômenos físicos aqui na Terra quanto os movimentos planetários. A mecânica newtoniana vigorou sem abalos até o fim do século XIX, quando estudos sobre o eletromagnetismo e a luz mostraram que esta é uma onda eletromagnética que se propaga a uma velocidade constante, representada pela letra c, independentemente do movimento da fonte luminosa ou do ponto de referência adotado, o que contradiz as Leis de Newton, segundo as quais a velocidade, inclusive a da luz, é sempre relativa e dependente do referencial escolhido.

Para explicar essa inconformidade, Albert Einstein propõe em 1905 uma mudança radical de paradigma, a Teoria da Relatividade, em que agora a velocidade da luz é uma grandeza absoluta e, contrariamente à nossa intuição, o espaço e o tempo é que são relativos.

Ao mesmo tempo, outra revolução se desenhava com a descoberta de que, no mundo microscópico das partículas subatômicas, não é possível determinar com precisão ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula, de que os valores das grandezas não são contínuos e sim discretos, chamados quanta, e de que uma partícula pode estar e não estar num determinado lugar ao mesmo tempo, dentre outras revelações assombrosas. Esse conjunto de fatos, que deixaram perplexos os físicos, deu origem a uma nova teoria, a mecânica quântica.

Ainda no século XIX, Charles Darwin propôs a sua Teoria da Evolução das Espécies pela Seleção Natural, que revolucionaria a biologia, e Louis Pasteur sepultava definitivamente a crença na geração espontânea de seres vivos, além de provar que certas doenças antes atribuídas a causas sobrenaturais são provocadas por micro-organismos.

A mais recente revolução científica foi a descoberta de que o Universo está se expandindo, o que ensejou a teoria do Big Bang, em que o Cosmos teve início há cerca de 13,7 bilhões de anos a partir de uma singularidade na qual toda a matéria e energia estavam extremamente concentradas.

Nos estudos da linguagem, a primeira revolução foi a descoberta, por William Jones, de que a maioria das línguas da Europa, do Irã e do subcontinente indiano descenderiam de uma língua ancestral batizada de indo-europeu. Isso fundou o método histórico-comparativo e inaugurou uma nova ciência, a linguística, separando definitivamente o estudo científico da linguagem da tradição gramatical que remontava à Grécia antiga.

A segunda revolução foi causada em 1916 pela publicação póstuma do Curso de linguística geral, de Ferdinand de Saussure, que lançou as bases da linguística moderna e do paradigma científico chamado Estruturalismo.

Em 1957, uma terceira revolução ocorre com a publicação de Estruturas sintáticas, de Noam Chomsky, revelando que a aptidão para a linguagem é inata, portanto de natureza biológica, e que as estruturas linguísticas seguem padrões matemáticos, tornando a linguística uma ciência ao mesmo tempo humana, exata e biológica.

Mais recentemente, a cooperação entre a linguística, a neurociência e as ciências cognitivas deu origem a pesquisas sobre como o cérebro humano processa a linguagem e a novas disciplinas, como a neurolinguística (não confundir com a Programação Neurolinguística, ou PNL, que é uma técnica de autoajuda), a semântica cognitiva e a semiótica cognitiva, áreas em que também atuo.

Finalmente, a Inteligência Artificial vem possibilitando a solução de uma série de problemas em todas as áreas do conhecimento que permaneciam insolúveis até agora.

Isso são revoluções científicas. A normatização da escrita formal é uma atividade técnica e não científica, que se pauta por critérios objetivos plenamente defensáveis e razoáveis, mas não necessariamente científicos. Mais ainda, o estabelecimento de uma nova norma-padrão, baseada na fala informal ou em textos formais escritos por pessoas de escolaridade deficiente, não é uma conduta científica nem técnica, é simplesmente um ato iconoclasta que privilegia a mediocridade num terreno em que deve imperar a excelência, e tudo por razões puramente ideológicas e político-partidárias. A “revolução” que Vieira, Faraco e outros querem fazer se assemelha mais à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 ou ao nosso 8 de Janeiro do que a uma revolução científica propriamente. Até porque elaborar gramáticas não é tarefa de cientistas, assim como elaborar leis de trânsito não é competência dos físicos.