O cancelamento de pessoas que prestaram grandes serviços à humanidade

Desde 2013, a síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo, foi renomeada para suprimir o sobrenome de seu descobridor, o médico austríaco Hans Asperger. Os motivos seriam dois: primeiro, a incorporação da síndrome ao espectro autista; segundo, a atuação do médico no regime nazista. De fato, Asperger colaborou com os nazistas, e muitas das crianças autistas que ele estudou foram depois mandadas para a câmara de gás. Mas alguns historiadores e biógrafos têm revisto sua atuação na medida em que, nas palavras do médico e historiador norueguês Ketil Slagstrad, “é muito fácil julgar um homem quando não é sua cabeça que está sob a mira de uma arma”.

O ponto em questão é que a vida e as convicções políticas de Asperger não invalidam sua inestimável contribuição à medicina. Mas a cultura do cancelamento, essa patrulha ideológica que muito se assemelha à antiga Inquisição, não perdoa. Tempos atrás, questionou-se o batismo do novo telescópio espacial com o nome do americano James Webb, diretor da NASA durante o icônico projeto Apollo, porque, segundo consta, ele era machista e racista.

Essa caça às bruxas promovida pela intolerância também vitimou o físico alemão Werner Heisenberg, fundador da mecânica quântica, que, apesar de opor-se ao nazismo, decidiu permanecer na Alemanha durante o governo de Hitler como forma de resistência, atitude que nunca lhe foi perdoada. Assim eu pergunto: deveríamos jogar fora toda a física quântica e os avanços tecnológicos que ela tem proporcionado porque seu fundador trabalhou para o governo nazista? Seguindo essa lógica, deveríamos lançar ao lixo a obra e a memória de Jorge Amado, Oscar Niemeyer ou Vladimir Herzog porque pertenceram ao Partido Comunista? Ou a de Nelson Rodrigues porque simpatizava com a ditadura militar? Será que devemos cancelar Chico Buarque, sua música e sua poesia porque ele apoia o regime cubano (embora goste de passar as férias em Paris e não em Havana)? Ou quem sabe Gilberto Gil por ter sido deputado pelo fisiológico MDB e ministro do “comunista” Lula? Deveríamos cancelar Aristóteles, base de todo o pensamento ocidental, porque ele tinha escravos — ou melhor, escravizados — e lecionou para o sanguinário Alexandre o Grande? Devemos ignorar o grande ator Tarcísio Meira porque ele criava gado de corte em sua fazenda?

Como disse Jesus, quem for livre de pecado que atire a primeira pedra. (Aliás, só estou citando Jesus aqui enquanto ele ainda não é cancelado.)

A nova ditadura

Nos anos 1960 e ’70, vivíamos sob a ditadura militar, com seu autoritarismo arbitrário e sua censura, que decidiam o que podíamos ou não podíamos dizer, que palavras podíamos ou não podíamos empregar, de que assuntos podíamos ou não podíamos tratar. O regime militar acabou, mas hoje vivemos uma nova ditadura, em que não são os militares e sim as mídias sociais e seus algoritmos que decidem o que podemos ou não dizer. Assim como nos tempos dos milicos tínhamos de exercer a autocensura para não ter problemas com a polícia e usar de metáforas para falar de temas proibidos, hoje precisamos mascarar palavras como M0RT3 ou 35TUPR0, ou então chamar manifestações contra o governo Trump de “festival de música”, como fizeram muitos manifestantes em Los Angeles em meados do ano passado. Criticar governos, apoiar palestinos, postar conteúdo pró-LGBT (e também anti-LGBT) é certeza de perder monetização ou mesmo ter seu conteúdo tirado do ar. E, bem nos moldes d’O processo de Kafka, não adianta recorrer: as redes nunca revelam a razão de sua censura, limitando-se a um lacônico comunicado “você infringiu as normas de conduta da plataforma”, normas estas que nunca estão suficientemente claras ao usuário.

O absurdo é que, por exemplo, vídeos de denúncia que expõem maus-tratos a animais são derrubados sob a alegação de que as plataformas não permitem a exibição de tortura. Ora, o algoritmo, burro que é como toda máquina, não sabe distinguir entre a apologia e a denúncia aos maus-tratos. E situações semelhantes se repetem em relação a outros temas sensíveis.

A diferença entre a ditadura tradicional e a algorítmica é que os inquisidores humanos podem ser sensibilizados por seus interrogados se perceberem que estes não são terroristas ou subversivos e que agiram de boa-fé — ou mesmo nem agiram, foram presos por engano —, ao passo que as plataformas digitais não permitem questionamento (como questionar um robô?), e os funcionários humanos das redes focam exclusivamente no lucro, não na justiça.

Mas há também outro tipo de censura: a ideológica. Hoje, sob o pretexto de serem preconceituosas ou contrárias à democracia, muitas postagens são retiradas do ar por ordem judicial, mesmo que as falas, ainda que moralmente indefensáveis, não configurem nenhum crime. Não só as big techs e seus algoritmos como também a própria opinião pública dominante nas redes lincha moralmente quem pensa diferente, transformando o que deveria ser debate em pensamento único, característica típica das autocracias. Viva o admirável mundo novo!

A política do ódio

Todo extremismo tende a aceitar, ou até mesmo defender, a violência como método. Vemos isso no Irã dos aiatolás, na Venezuela de Maduro, no Brasil da ditadura militar (e de ambos os lados, tanto o do regime quanto o dos militantes socialistas). Mas percebo uma diferença crucial entre a extrema-esquerda e a extrema-direita: embora ambas achem legítimo o uso da força para impor sua visão de mundo, os radicais de esquerda parecem ser movidos por um fanatismo quase religioso, em que se sentem detentores do monopólio da Verdade (aquilo a que chamam “estar do lado certo da História”) e por isso acham justos assaltos a bancos, atentados terroristas, etc., em nome de sua causa, ao passo que os extremistas de direita são movidos por muito ódio — ódio à democracia, ódio às liberdades individuais (exceto as suas, é claro), ódio às minorias, ao meio ambiente, aos animais…

Noto um traço comum a todos os direitistas radicais, como Jair Bolsonaro (que, diante de milhares de mortos pela covid-19, disse “e daí, não sou coveiro”), seu filho Eduardo, os ex-deputados Daniel Silveira, Roberto Jefferson e Carla Zambelli (a qual responde a uma gozação com uma arma em punho), Donald Trump, J. D. Vance, Pete Hegseth, Kristi Noem (a xerifa do ICE, que executou a tiros seu próprio cachorro), e muitos outros: o amor que esses indivíduos têm às armas (as portadas por cidadãos comuns e as usadas nas guerras, que eles adoram promover) tem o mesmo tamanho do desprezo que eles têm pelos mais pobres e desprotegidos, por todos aqueles que para eles são losers (“perdedores”, em inglês), incluindo animais indefesos como o cãozinho Orelha. Para eles, só o dinheiro e o poder importam, e tudo o que atrapalhe o seu projeto político deve ser eliminado, inclusive pessoas. Para isso, não hesitam em lançar mão de mentiras e de apontar para um suposto inimigo (os judeus na Alemanha nazista, os imigrantes na América de hoje, os intelectuais, os artistas, as mulheres, os gays, e assim por diante). E, para combatê-los, não bastam as medidas legais, é preciso acrescentar muita truculência. O radicalismo que se esconde sob o eufemismo de “conservadores” é turbinado por pura maldade.

A extrema-direita é basicamente composta por pessoas más, perversas, cruéis, sádicas. Pessoas que não apenas querem prender ou banir seus alegados inimigos, mas querem antes humilhá-los e torturá-los, como o latrocida que não se contenta em roubar, mas precisa matar, mesmo depois de já ter obtido o que desejava.

Não que todas as pessoas desalmadas e sem empatia sejam de extrema-direita, mas penso que todos os militantes e simpatizantes dessa ala são abjetos, desalmados, pérfidos. O extremo direito do espectro político é o lugar ideal para brigões, encrenqueiros, grosseirões e também para sociopatas de toda ordem. O crescimento dessa corrente no mundo inteiro acende um alerta: pessoas comuns, que não têm necessariamente perfil antissocial, estão aderindo a essa facção por ignorância, falta de cultura política — e geral — e crença ingênua em falsos profetas que prometem soluções milagrosas, o que as torna mera massa de manobra nas mãos de canalhas. Pior do que quem pratica o mal é quem nele consente.

Receita para viver melhor (nos dias de hoje)

Hoje em dia, fala-se muito em qualidade de vida, mas o fato é que nossa qualidade de vida nunca foi tão ruim. Sem dúvida, há muitos fatores que deterioram ou mesmo podem dar cabo de nossa estadia neste planeta e são inevitáveis: poluição atmosférica (a menos que você viva no meio do mato), mudança climática, guerra nuclear, pandemias, criminalidade, domínio total dos seres humanos pela inteligência artificial… Mas há também muita coisa que podemos fazer para ter uma vida melhor, e não estou me referindo a ter uma alimentação saudável ou praticar exercícios físicos, o que, com certeza, também é muito importante. Refiro-me a certas atitudes que, nos dias atuais, são essenciais para preservar sobretudo nossa sanidade mental.

Primeiro, se você é uma pessoa seletiva, que gosta de ter conversas inteligentes sobre temas relevantes, afaste-se das pessoas tóxicas e sem conteúdo, que nada lhe acrescentam. Tenha um pequeno e seleto grupo de amigos (lembre-se, o importante é qualidade, não quantidade), de preferência com o mesmo nível cultural que você (mais um adendo: nível cultural é diferente de grau de escolaridade, hein!), que curtam as mesmas coisas que você curte e que sejam leais e sinceros, não “amigos da onça”. Quando você precisar, e também quando não precisar, eles estarão lá. E um lembrete: os amigos são a família que escolhemos ter. Vizinhos, parentes e colegas de trabalho não são necessariamente amigos; as mais das vezes, são ameaças.

Em segundo lugar, ouça boa música. Pagode, sertanejo, funk, forró, esqueça! Anitta, Marília Mendonça, Luísa Sonza, Pablo Vittar, MC Não Sei O Quê…, se você já ouviu falar, finja que nunca ouviu. Use uma plataforma de streaming para selecionar uma playlist que valha a pena ser ouvida. Ou, melhor ainda, compre um aparelho de som tudo em um e visite regularmente sebos de discos; há excelentes CDs e LPs por preço módico.

Tenha uma TV por assinatura (TV aberta, nem pensar!) e só assista a canais que veiculem cultura: filmes (de preferência mais antigos) que não sejam blockbusters, séries que não sejam pastelão ou bubble gum, música que não seja rap ou hip hop, viagens, culinária, ciência, história, literatura, debates de alto nível sobre temas da atualidade. Se bem que vai ser difícil achar canais assim, mesmo na TV a cabo. Mas tente.

Ainda falando sobre televisão, no intervalo comercial, tire o som ou mude de canal. Além de os anúncios estarem ficando cada vez mais irritantes, com trilha sonora de funk e locutores berrando, lembre-se: a publicidade visa aos interesses do anunciante e não aos seus.

Além disso, leia bons livros, tanto de ficção quanto de não ficção. Obviamente, Harold Robbins, Dan Brown, Paulo Coelho e best sellers em geral estão fora. Autoajuda e esoterismo idem.

Tenha nos seus telefones (fixo e celular) sistemas de bloqueio de chamadas; autorize apenas chamadas dos seus entes queridos. Pode bloquear o resto sem pena: o resto, no caso, é telemarketing ou golpes.

Por falar em celular, use-o o mínimo possível. Mantenha-o ligado apenas em horário comercial, das 9 às 18 horas; depois disso, esqueça que ele existe. Com as redes sociais, faça o seguinte (eu faço isso): no Facebook, só poste quando tiver algo realmente relevante para postar (o prato que você vai comer no restaurante não está incluído nesse quesito) e nunca veja o que os outros postam; com certeza é só bobagem. No Instagram, siga apenas quem é realmente importante para você e ignore os perfis patrocinados e as recomendações da plataforma; eles só fazem você perder tempo. Do TikTok, X e similares, passe longe. No YouTube, busque conteúdo semelhante ao que recomendei em relação à TV fechada.

Se for possível optar entre tecnologia digital e o bom e velho método analógico, escolha o segundo. No menu eletrônico, vá o mais depressa possível (e nem sempre é possível) para a opção “falar com atendente”; por mais ignorante que seja o rapaz ou moça do call center, pelo menos são humanos, portanto dotados de uma inteligência que nenhum robô, menu eletrônico, bot ou IA possui.

Se você mora em cidade grande, evite ao máximo sair de casa; o delivery existe para isso. Trânsito caótico, motoboys enfurecidos, fumaça de óleo diesel, buzinas, pra quê? Se precisar mesmo sair, chame um táxi ou uber; pelo menos, não será o seu retrovisor que o entregador por aplicativo vai destruir.

Outra coisa: não assista a telejornais nem leia sites de notícias: eles só o(a) deixarão deprimido(a). Visto que você não pode mudar o mundo, tomar conhecimento de suas mazelas só vai lhe fazer mal. Evite especialmente o noticiário de política, afinal já bastam os golpes que malandros comuns tentam lhe aplicar, que dizer dos malandros de colarinho branco?

Por falar em política, não assista à propaganda política na TV nem tome conhecimento dos candidatos. Vote nulo em todas as eleições. Mesmo que você decida votar num candidato honesto e com boas ideias, lembre-se: bons políticos são uma ínfima minoria e, mesmo quando eleitos, pouco ou nada podem fazer. Aliás, duvido que haja um número suficiente de bons políticos para preencher as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e as 81 do Senado. Portanto, os pilantras sempre serão maioria.

Ah, e se você é uma pessoa sociável, que gosta de puxar conversa com estranhos ou que é receptivo quando estranhos puxam conversa com você, fique atento: jamais discuta assuntos polêmicos, como religião ou Lula x Bolsonaro. Se o assunto descambar para tais temas, peça licença, finja que vai ao banheiro e desapareça.

Enfim, estes são alguns conselhos que eu dou de graça e princípios que eu mesmo pratico. Talvez eles não tornem sua vida melhor, mas pelo menos podem torná-la mais suportável. Boas festas!

A hipocrisia brasileira na COP-30

Nesta COP-30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, o Brasil pretende despontar como a grande liderança mundial na transição energética, na redução da emissão de gases de efeito-estufa e na defesa do meio ambiente. No entanto, uma série de fatos relativos ao nosso país indicam que talvez tudo não passe de hipocrisia. E não me refiro só à exploração de petróleo na Margem Equatorial, tão criticada por especialistas e por opositores ao governo Lula, embora essa seja uma contradição flagrante.

A questão, a meu ver mais profunda, é que diversas características peculiares do Brasil se colocam na contramão das propostas apresentadas na COP.

Em primeiro lugar, o Brasil sempre foi um país predominantemente agrícola. Até o final do século XIX, o único produto de exportação brasileiro foi o café, e 90% da população vivia no meio rural. Houve um primeiro surto de industrialização com a chegada dos imigrantes estrangeiros (o conde Francesco Matarazzo é um exemplo) e um segundo no governo Juscelino Kubitschek. Ainda assim, o carro-chefe da nossa economia ainda hoje é o agronegócio, que desmata florestas para criar gado — e os gases emitidos pelos rebanhos (acho que não preciso explicar por onde, né?) são uma das maiores causas da mudança climática —, além de despejar toneladas de agrotóxicos no solo, nos rios e nos lençóis freáticos. Em pleno século XXI, ainda somos um país eminentemente agrícola e, desta vez, donos de uma agricultura poluidora, que derruba e queima florestas, além de envenenar as águas. Enquanto isso, o governo (este e todos os anteriores) é refém da chamada bancada ruralista do Congresso, além de não fiscalizar devidamente o desmatamento ilegal, que até tem diminuído, mas continua existindo.

Por sinal, para atender ao escoamento de soja, o governo pretende construir a polêmica ferrovia Ferrogrão, interligando o Norte e o Centro-Oeste do país. Dizem as más línguas que esse empreendimento atravessará áreas de conservação, terras demarcadas e ainda atrairá mais garimpo ilegal às reservas indígenas.

Por outro lado, o Estado não constrói ferrovias onde elas são realmente necessárias. Contraditoriamente, nosso país, que tem uma matriz energética majoritariamente limpa, com sobra de energia hidrelétrica — e agora também solar, eólica e da biomassa — optou há décadas pelo transporte rodoviário de mercadorias e pessoas, desprezando os outros modais e, assim, queimando óleo Diesel e poluindo ainda mais o planeta, bem como encarecendo desnecessariamente os bens transportados. Isso sem falar de como ficamos reféns das greves de caminhoneiros.

Nossa ministra do meio ambiente, Marina Silva, fala muito em floresta de pé, como se meio ambiente se resumisse a florestas. Há muitas alternativas não poluentes à matéria plástica, algumas até mais baratas (até cerca de 50 anos atrás, quase nada era feito de plástico, e vivíamos muito bem, obrigado), mas nenhum governo e nenhum parlamentar são capazes de propor uma lei restringindo seu uso ao estritamente necessário e insubstituível.

Apesar de catador de resíduos ser uma das principais “profissões” no Brasil, haja vista o grande número de puxadores de carrinho em nossas ruas, apenas 2% de nosso lixo reciclável é efetivamente reciclado. E o que dizer dos lixões, que deveriam ter acabado 10 anos atrás, mas seguem firmes e fortes para alegria dos urubus?

Enfim, pode até haver no governo pessoas bem-intencionadas com relação à busca de soluções à emergência climática, mas, como se sabe, de boas intenções o Inferno está cheio.

A pronúncia de “Titanic”

Em 1998, quando Titanic ganhou o Oscar de melhor filme, o mestre de cerimônias anunciou: and the Oscar goes to… Titanic. E pronunciou claramente [taiténik], no que foi seguido pelo comentarista brasileiro da Rede Globo, Rubens Ewald Filho, que a seguir emendou: “ou melhor, [titaníque]”. Mas por que chamamos o transatlântico inglês Titanic de Titanique?

É que, em 1912, quando o portentoso navio naufragou, não havia no Brasil a influência cultural anglo-americana que existe hoje. Na época, a língua de maior penetração era o francês; por isso, a tendência na época era que nomes estrangeiros fossem pronunciados à moda francesa, do mesmo modo como hoje qualquer nome estrangeiro, seja alemão, russo ou japonês, acaba sendo pronunciado à moda inglesa. Assim, os postos de gasolina Atlantic [atléntik] são chamados por nós até hoje de Atlantique. Pela mesma razão, um pó de arroz muito famoso 100 anos atrás de nome Lady [lêidi] era chamado aqui no Brasil de Ladí.

Sobre os textos de Marcio Esteves que ninguém (ninguém?) lê

Meu amigo de Facebook Marcio Esteves publicou há dois ou três dias uma crônica-desabafo que expressa bem o absurdo do tempo que vivemos, turbinado pelo veneno das redes sociais. Eis o texto:

Sobre meus textos que ninguém lê…

Quando a política vira religião, o diálogo se torna heresia: o ad hominem e a cegueira moral do nosso tempo.

Nos últimos meses, uma nova leva de países — Canadá, Austrália, Irlanda, Noruega e Espanha, entre outros — reconheceu formalmente o Estado Palestino. Trata-se de um movimento diplomático que pretende, em tese, reforçar a solução de dois Estados. No entanto, esse reconhecimento foi feito sem condições prévias, mesmo com o Hamas ainda controlando Gaza, o que o transforma, inevitavelmente, em um ato politicamente delicado.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reagiu com veemência. Segundo ele, reconhecer um Estado palestino governado pelo Hamas equivale a premiar o terrorismo — um gesto que, em suas palavras, “recompensa o ódio e a tentativa de destruir os judeus”. Ele lembrou ainda que, após os ataques de 7 de outubro de 2023, cerca de 90% da população palestina teria festejado nas ruas, subido em telhados e distribuído doces — uma tradição do Oriente Médio para comemorar eventos considerados vitoriosos.

Não é necessário ser admirador de Netanyahu para reconhecer que seu argumento possui consistência lógica. Nenhum líder israelense — seja de direita ou de esquerda — pode se dar ao luxo de ser leniente com um grupo cuja razão de existir é o extermínio dos judeus. Essa é uma linha vermelha que ultrapassa governos e ideologias.

Dito isso, é importante frisar: não gosto de Netanyahu. Vejo nele um político de viés autoritário, alinhado a uma direita religiosa e messiânica, que já comprometeu a democracia israelense com reformas judiciais regressivas e discursos divisionistas. Acredito sinceramente que ele deveria renunciar e permitir a ascensão de novas lideranças.

Mas uma coisa é sua política interna; outra, muito diferente, é a validade factual de um argumento. E é exatamente aqui que começa o problema mais profundo — o ad hominem moral e ideológico que domina o debate público atual.

Hoje, verdades deixam de ser aceitas não por serem falsas, mas por terem sido ditas pela pessoa “errada”. A lógica do tribalismo político passou a substituir o pensamento crítico. Em vez de analisarmos o conteúdo, julgamos o emissor; em vez de ponderarmos ideias, medimos lealdades.

Essa inversão ficou visível recentemente na ONU, quando um número expressivo de líderes mundiais virou as costas e deixou o plenário enquanto Netanyahu discursava. Vocês já viram algo parecido acontecer, por exemplo, com representantes do regime islâmico do Irã, responsável por execuções públicas e repressão brutal a mulheres e dissidentes? Ou com regimes sabidamente genocidas, como o da Nigéria, que permanece calado diante do massacre de milhares de cristãos por grupos islâmicos radicais?

Não. Vocês jamais verão isso. Esse tipo de repulsa diplomática seletiva parece reservado apenas ao representante de Israel, independentemente do que ele diga.

Esse é o retrato mais nítido do nosso tempo: não se trata mais de buscar a verdade, mas de punir quem a diz.

O psicólogo social Jonathan Haidt descreve esse fenômeno em The Righteous Mind: o ser humano moderno raciocina menos para descobrir a verdade e mais para defender a tribo à qual pertence. Quando a política vira religião, o diálogo se torna heresia.

O resultado disso é um empobrecimento brutal do debate público. As redes sociais se tornaram o campo perfeito para esse adestramento mental. Basta olhar para qualquer postagem sobre Israel: se o autor é visto como “de direita”, será acusado de genocida; se é “de esquerda”, será taxado de antissemita. O que se perde nesse jogo é justamente o direito de pensar fora das etiquetas — e o direito de dizer algo verdadeiro sem ser linchado por isso.

Percebo isso, inclusive, nas minhas próprias publicações. Quando escrevo sobre política brasileira, as reações são intensas; mas, quando o tema é Israel, mesmo aplicando a mesma lógica e o mesmo rigor, os engajamentos caem a níveis ínfimos. É como se o mero fato de tocar nesse assunto acionasse uma repulsa automática, não racional.

E é aí que reside o perigo. Porque quando a verdade passa a depender de quem a enuncia, ela deixa de ser verdade e vira opinião de grupo. E quando a opinião de grupo se torna critério moral, o diálogo morre — e com ele, a própria democracia.

Vivemos tempos em que o ad hominem não é mais apenas uma falácia lógica. É uma estrutura de pensamento. Uma brutalidade contra a razão, um esvaziamento da escuta e um sintoma grave da nossa regressão intelectual.

P.S. 1 — “Ad hominem” é uma das falácias clássicas do raciocínio argumentativo. Consiste em atacar a pessoa que formula uma ideia, em vez de discutir a ideia em si. É uma forma de desviar o foco do conteúdo para o emissor, substituindo a razão pelo preconceito intelectual.

P.S. 2 — Hoje o Hamas atacou um ônibus em Israel e matou seis israelenses inocentes que se dirigiam a seus trabalhos ou levavam filhos à escola.

Onde fica o Sul Global?

Nos tempos da Guerra Fria, o planeta estava dividido em Primeiro Mundo (os países capitalistas desenvolvidos), Segundo Mundo (os países comunistas) e Terceiro Mundo (os países subdesenvolvidos). Com a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo, o Segundo Mundo desapareceu, e seus países foram redistribuídos entre o Primeiro e o Terceiro Mundos. Portanto, desde então havia apenas dois mundos: o desenvolvido e o subdesenvolvido, cujos integrantes eram — e em parte ainda são — chamados de “países em desenvolvimento”, termo, por sinal, enganoso: outro dia, ouvi uma reportagem chamar o Senegal (ou seria a Zâmbia?) de país em desenvolvimento. Em desenvolvimento?! Que desenvolvimento?

Pois é, a academia e a imprensa não cansam de tentar mascarar a realidade inventando nomes positivos para coisas negativas, como se mudar o nome transformasse para melhor a (triste) realidade.

Agora inventaram de chamar as nações desenvolvidas de Norte Global e as subdesenvolvidas — ou, se preferirem, em desenvolvimento — de Sul Global. A ideia talvez seja referir-se aos países por sua posição geográfica, eliminando qualquer alusão a seu estado de (sub)desenvolvimento. Tudo seguindo estritamente a cartilha do politicamente correto. O problema é imaginar que as nações do norte são todas desenvolvidas e as do sul, “em vias de subdesenvolvimento”, como dizia jocosamente o meu saudoso orientador de doutorado referindo-se ao Brasil.

O fato é que os principais membros do Sul Global — China, Rússia e Índia — ficam no Hemisfério Norte. Metade da África fica acima da linha do Equador e metade, abaixo. Quer dizer que a África do Sul é atrasada, mas o Egito, a Líbia e o Sudão são superdesenvolvidos? E o que dizer da Austrália e da Nova Zelândia, dois dos países mais ricos e adiantados do mundo, que ficam no Hemisfério Sul? Enquanto isso, Turquia, Azerbaijão, Arábia Saudita, Afeganistão ficam no norte. Isso faz algum sentido? Por isso, continuo usando nos meus escritos os únicos dois termos que acho cabíveis e que descrevem com exatidão a atual conformação do mundo: nações desenvolvidas e nações subdesenvolvidas. Até porque não há nações em desenvolvimento: quem está “em desenvolvimento” não é desenvolvido, logo é subdesenvolvido, para não dizer atrasado, como é o caso do nosso Brasil com suas insolúveis mazelas políticas, econômicas e sociais.

A língua e a vocação dos povos

Sempre achei — mas é apenas uma hipótese pessoal, sem nenhuma comprovação científica — que a língua falada por um povo influencia de alguma forma sua história e sua vocação cultural. Como estudioso das línguas românicas e germânicas, é sobre elas que faço algum juízo, mesmo que neste caso seja algo impressionista. E sempre achei que os povos latinos, falantes dos idiomas românicos, têm mais vocação para as artes, a literatura, a poesia, a culinária, a moda do que os saxônicos, mais afeitos à ciência, à engenharia, à tecnologia, à economia, à guerra. E que isso teria a ver com as características das línguas que falam.

De fato, as línguas românicas ou neolatinas têm uma gramática mais complexa, com maior abundância de flexões, mais irregularidades, maior variedade de construções sintáticas e, ao mesmo tempo, uma fonética mais simples, com poucos fonemas, poucos encontros consonantais, predominância de sons vocálicos, muitos ditongos, o que tornaria essas línguas a um só tempo muito plásticas gramaticalmente e muito musicais, favorecendo a poesia, a palavra cantada e o romance (nos dois sentidos: da literatura de ficção e do amor).

Já as línguas germânicas ou teutônicas têm gramática bastante simples e rígida (até monótona, eu diria), pouco afeita a grandes torneios, a hipérbatos e outras figuras de linguagem, um vocabulário com poucas palavras gregas ou latinas e uma fonética bem complicada, com muitos fonemas, vogais longas e breves, tônicas, subtônicas e átonas, consoantes simples e duplas, aspiradas e não aspiradas, tons ascendentes, descendentes e planos, støds, oclusões glotais e outras peculiaridades, com predomínio de consoantes e encontros consonantais às vezes assustadores (nunca me esqueço da palavra sueca hjälmskt, com suas impressionantes cinco consoantes em sequência). Em suma, idiomas definitivamente pouco recomendáveis a um poema ou declaração de amor.

Não por acaso, fala-se no romantismo da língua francesa ou da espanhola, na doçura do português, na musicalidade do italiano. E, por consequência, na figura do amante latino, do casanova, do Don Juan. Ao contrário, pensa-se sempre na língua alemã como imperativa, impositiva e símbolo de autoridade. Ou na língua inglesa como fria e imparcial.

A plasticidade e sonoridade das línguas latinas, contraposta à rigidez mecânica das anglo-saxônicas, me faz pensar que estas são essencialmente línguas do logos, do discurso lógico e racional, ao passo que aquelas são línguas do mythos, do conto, da fábula, da anedota, da fantasia e da imaginação. Talvez por isso só seja possível filosofar em alemão, como se diz. Lendas à parte, o idioma germânico permite uma exatidão de conceitos e definições que favorece muito o raciocínio lógico e matemático. Em contrapartida, a poesia inglesa, mesmo a de Shakespeare, é dura, estéril, não tem a eloquência de um Camões ou a leveza de um Vinicius de Moraes. Não consigo imaginar Saramago escrevendo em inglês, embora Joyce tenha feito grandes experimentos linguísticos e assim tirado leite de pedra. Também talvez por isso as letras das canções anglo-americanas sejam tão pobres estilisticamente, comparáveis no máximo ao nosso breganejo, muito distantes da genialidade de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo César Pinheiro, Fernando Brant, Arnaldo Antunes.

Penso mesmo que uma revolução cultural como o Renascimento só poderia ter nascido na Itália, assim como a Revolução Industrial só poderia ter surgido na Inglaterra. Não à toa a Itália é o país das artes plásticas e da música, a França a nação da literatura, da moda e da culinária, o Brasil o país do Carnaval e da alegria, e assim por diante. Da mesma maneira, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos são os países das ciências naturais, dos grandes institutos de pesquisa, da indústria, do comércio exterior, das inovações tecnológicas. São também os países da guerra (pense-se, por exemplo, no belicismo prussiano, no colonialismo britânico, no envolvimento norte-americano em quase todos os conflitos armados do século XIX ao XXI). O fascismo, mesmo nascido na Itália, só encontrou sua forma perfeita no nazismo alemão. Inversamente, o romantismo, embora gestado na Alemanha, extrapolou os limites de estilo literário e se tornou estilo de vida quando encontrou o calor humano dos povos latinos. É claro que o clima mediterrâneo do sul da Europa e o tropical da América do Sul devem ter ajudado; é claro que as baixas temperaturas e a paisagem gelada do norte da Europa e da América devem ter favorecido o trabalho, a engenhosidade, o sentido do dever acima do prazer, mas as línguas, sem dúvida, refletiram esse espírito. Aliás, há uma teoria linguística que afirma ter sido o contrário: o clima frio motivaria a que as línguas se tornassem mais consonantais, mais “fechadas”, mais guturais. Hipótese que tem muitos contraexemplos.

Mesmo assim, é curioso que o protestantismo, que prega a salvação pelas obras e promete a prosperidade nesta vida pelo trabalho e não no além-túmulo, tenha surgido na Alemanha e se propagado fundamentalmente pelos países germânicos. Em seu livro A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber demonstra como a ideologia protestante ensejou a Revolução Científica do século XVII e a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. E está impulsionando a revolução tecnológica dos séculos XX e XXI.

Bem, mas tudo isso são confabulações minhas num domingo de frio para ser publicadas na segunda-feira.

Revoluções científicas e a “revolução” na gramática

Nos últimos tempos, tenho me dedicado bastante a criticar a postura militante de certos colegas que, em vez de fazer ciência, fazem política identitária travestida de ciência. E defendem que o pesquisador de humanas deve ter uma atitude engajada — desde que esse engajamento seja na direção de uma certa ideologia política e não de outra qualquer.

Pois bem, no livro Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, organizado por Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira, este último afirma às páginas 40 e 41:

Kuhn afirma que as revoluções científicas assemelham-se às revoluções políticas, e eu alargo seu pensamento ao contexto das produções emergentes das gramáticas do português brasileiro. Seus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica. Não à toa as características que Kuhn afirma pertencerem às revoluções políticas e científicas podem ser apontadas como constitutivas da revolução do fazer gramatical brasileiro. Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário. (grifos meus)

Como se pode depreender das palavras de ordem inflamadas do autor, o que se pretende é uma revolução do fazer gramatical análoga provavelmente à Revolução Bolchevique ou à Revolução Cultural chinesa. Isso porque, segundo os autores do livro e os demais linguistas que militam nessa causa, a gramática normativa atual do português é elitista, excludente, opressora, conservadora/reacionária, elaborada por homens brancos, burgueses, heterossexuais, homofóbicos, racistas e misóginos. Talvez Vieira defenda que se faça com os gramáticos o que Mao Tsé-Tung fez com os intelectuais e os opositores de seu regime.

Mas vamos analisar o grande erro conceitual cometido por esse linguista e escorado numa leitura equivocada do filósofo da ciência americano Thomas Kuhn. Em seu livro A estrutura das revoluções científicas, Kuhn explica que o progresso científico passa pelas seguintes fases:

1) estabelecimento de um paradigma, isto é, de um metamodelo teórico que serve de base e guia para o desenvolvimento das teorias científicas numa determinada época histórica. Por exemplo, o geocentrismo de Cláudio Ptolomeu, o mecanicismo do século XVII, o positivismo do século XIX, o estruturalismo e o funcionalismo do século XX, e assim por diante. São as chamadas escolas ou correntes de pensamento cujas diretrizes norteiam as hipóteses que, se comprovadas, darão origem às teorias.

2) ciência normal, período durante o qual o paradigma vigente funciona bem e permite explicar satisfatoriamente os dados empíricos colhidos nos experimentos científicos.

3) crise do paradigma, quando novos dados experimentais já não podem ser explicados satisfatoriamente pelas teorias em vigor, e o paradigma começa a ser posto em xeque.

4) ciência extraordinária, quando novos paradigmas são propostos e competem entre si até que um deles se prove o mais adequado a explicar os novos dados e, ao mesmo tempo, a explicar igualmente bem os dados antigos, dos quais as teorias anteriores davam conta perfeitamente.

5) revolução científica, em que esse novo paradigma vitorioso suplanta definitivamente o anterior, ponto a partir do qual o ciclo recomeça.

Portanto, diferentemente das revoluções políticas, em que um determinado grupo, não necessariamente melhor que o então dominante, o depõe e toma o poder em seu lugar num ato de violência, uma revolução científica se inicia com uma descoberta que desafia o poder de explicação do conhecimento de que se dispunha até aquele momento e mostra que algo no paradigma vigente está errado ou incompleto.

A primeira grande revolução científica dos tempos modernos ocorreu com a publicação em 1543 do livro De revolutionibus orbium coelestium (Da revolução das esferas celestes), de Nicolau Copérnico, no qual ele mostrava que o modelo astronômico geocêntrico de Ptolomeu, do século I d.C., além de ser extremamente complexo, não dava conta do movimento de certos corpos celestes observados pelos astrônomos. Copérnico propõe que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. A seguir, o alemão Johannes Kepler demonstra que não só o Sol está de fato no centro do sistema, mas que as órbitas dos planetas são elípticas com o astro-rei ocupando um dos polos.

Então Galileu Galilei, fazendo experimentos com planos inclinados nos quais deslizam pequenos objetos e com pêndulos que oscilam suspensos por cordas fixas a grande altura (um desses pêndulos foi fixado no topo da torre de Pisa), enuncia as primeiras leis matemáticas do movimento. É o surgimento da física moderna.

Simultaneamente, dois filósofos, o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes, dão estrutura teórica a esse novo paradigma, em que o conhecimento deve ser construído a partir da lógica, da matemática e da observação dos fenômenos naturais e não a partir do argumento de autoridade de antigos pensadores ou de teólogos. Nasce assim o chamado método científico, em que a teoria deve conformar-se à realidade e não o inverso.

Ainda dentro desse período histórico (séculos XVI a XVIII) conhecido como Revolução Científica, Isaac Newton enuncia as três leis do movimento, conhecidas como Leis de Newton, e a Lei da Gravitação Universal, um corpo teórico chamado de física clássica, que explica tanto os fenômenos físicos aqui na Terra quanto os movimentos planetários. A mecânica newtoniana vigorou sem abalos até o fim do século XIX, quando estudos sobre o eletromagnetismo e a luz mostraram que esta é uma onda eletromagnética que se propaga a uma velocidade constante, representada pela letra c, independentemente do movimento da fonte luminosa ou do ponto de referência adotado, o que contradiz as Leis de Newton, segundo as quais a velocidade, inclusive a da luz, é sempre relativa e dependente do referencial escolhido.

Para explicar essa inconformidade, Albert Einstein propõe em 1905 uma mudança radical de paradigma, a Teoria da Relatividade, em que agora a velocidade da luz é uma grandeza absoluta e, contrariamente à nossa intuição, o espaço e o tempo é que são relativos.

Ao mesmo tempo, outra revolução se desenhava com a descoberta de que, no mundo microscópico das partículas subatômicas, não é possível determinar com precisão ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula, de que os valores das grandezas não são contínuos e sim discretos, chamados quanta, e de que uma partícula pode estar e não estar num determinado lugar ao mesmo tempo, dentre outras revelações assombrosas. Esse conjunto de fatos, que deixaram perplexos os físicos, deu origem a uma nova teoria, a mecânica quântica.

Ainda no século XIX, Charles Darwin propôs a sua Teoria da Evolução das Espécies pela Seleção Natural, que revolucionaria a biologia, e Louis Pasteur sepultava definitivamente a crença na geração espontânea de seres vivos, além de provar que certas doenças antes atribuídas a causas sobrenaturais são provocadas por micro-organismos.

A mais recente revolução científica foi a descoberta de que o Universo está se expandindo, o que ensejou a teoria do Big Bang, em que o Cosmos teve início há cerca de 13,7 bilhões de anos a partir de uma singularidade na qual toda a matéria e energia estavam extremamente concentradas.

Nos estudos da linguagem, a primeira revolução foi a descoberta, por William Jones, de que a maioria das línguas da Europa, do Irã e do subcontinente indiano descenderiam de uma língua ancestral batizada de indo-europeu. Isso fundou o método histórico-comparativo e inaugurou uma nova ciência, a linguística, separando definitivamente o estudo científico da linguagem da tradição gramatical que remontava à Grécia antiga.

A segunda revolução foi causada em 1916 pela publicação póstuma do Curso de linguística geral, de Ferdinand de Saussure, que lançou as bases da linguística moderna e do paradigma científico chamado Estruturalismo.

Em 1957, uma terceira revolução ocorre com a publicação de Estruturas sintáticas, de Noam Chomsky, revelando que a aptidão para a linguagem é inata, portanto de natureza biológica, e que as estruturas linguísticas seguem padrões matemáticos, tornando a linguística uma ciência ao mesmo tempo humana, exata e biológica.

Mais recentemente, a cooperação entre a linguística, a neurociência e as ciências cognitivas deu origem a pesquisas sobre como o cérebro humano processa a linguagem e a novas disciplinas, como a neurolinguística (não confundir com a Programação Neurolinguística, ou PNL, que é uma técnica de autoajuda), a semântica cognitiva e a semiótica cognitiva, áreas em que também atuo.

Finalmente, a Inteligência Artificial vem possibilitando a solução de uma série de problemas em todas as áreas do conhecimento que permaneciam insolúveis até agora.

Isso são revoluções científicas. A normatização da escrita formal é uma atividade técnica e não científica, que se pauta por critérios objetivos plenamente defensáveis e razoáveis, mas não necessariamente científicos. Mais ainda, o estabelecimento de uma nova norma-padrão, baseada na fala informal ou em textos formais escritos por pessoas de escolaridade deficiente, não é uma conduta científica nem técnica, é simplesmente um ato iconoclasta que privilegia a mediocridade num terreno em que deve imperar a excelência, e tudo por razões puramente ideológicas e político-partidárias. A “revolução” que Vieira, Faraco e outros querem fazer se assemelha mais à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 ou ao nosso 8 de Janeiro do que a uma revolução científica propriamente. Até porque elaborar gramáticas não é tarefa de cientistas, assim como elaborar leis de trânsito não é competência dos físicos.