Afinal, o que é o Ocidente?

Nesta última terça-feira, o Vice-Presidente do Conselho de Segurança da Rússia,  Dmitri Medvedev, escreveu em sua conta na rede social Telegram: “Eu odeio os ocidentais. Eles são bastardos e degenerados. Querem a morte para nós e para a Rússia. E, enquanto eu estiver vivo, farei todo o possível para fazê-los desaparecer”. Como temos visto, desde que a guerra na Ucrânia começou, tem havido uma constante e crescente tensão entre a Rússia e o chamado Ocidente. E fica claro que os russos – pelos menos os que estão no poder – não se consideram parte desse Ocidente. No entanto, a Rússia é um país europeu, em que pese ter grande parte do seu território na Ásia, fruto de conquistas ao longo da História. Afinal de contas, o berço do povo russo é a Europa oriental, mais precisamente o reino medieval chamado Rússia de Kiev, que existiu do século IX ao XIII e foi fundado por vikings suecos. O próprio nome Rússia deriva de rus ou russi, palavra do antigo nórdico, língua que deu origem  ao sueco, norueguês, dinamarquês e islandês. E os russos são eslavos, povo de origem indo-europeia surgido no Leste europeu, onde se encontram até hoje.

Se os russos não se sentem ocidentais, e mesmo muitos ocidentais não os consideram como tal, então convém definir o que se convencionou chamar de Ocidente, Mundo Ocidental ou ainda Civilização Ocidental.

O embrião da nossa civilização foi a Grécia antiga, onde, por volta do século VI a.C. surgiu a primeira civilização do homem, isto é, que colocava o ser humano e sua capacidade de raciocínio no centro da realidade. O pensamento racional por oposição ao misticismo foi a primeira grande marca da cultura ocidental, que a distinguiu das culturas orientais.

Esse modelo de cultura pouco depois se espalhou para Roma, misturando-se em parte a tradições locais e resultando no que chamamos hoje de cultura greco-romana. A partir do século I d.C., Roma passou a sofrer a influência do cristianismo e sua moral de origem judaica, tendo mesmo adotado essa religião como oficial do Império Romano em 325 d.C. Agora, a civilização greco-romana era civilização greco-romano-judaico-cristã. Para muitos historiadores, Civilização Ocidental é sinônimo de Civilização Cristã; logo, pertenceriam ao mundo ocidental todos os povos majoritariamente cristãos, incluindo os russos.

O Império Romano nunca foi uma unidade étnica e, desde que conquistou a Grécia, a parte oriental do Império sempre foi mais grega do que latina. Em 395 d.C., o imperador romano Teodósio dividiu o Império em dois: Império do Ocidente, cuja capital permaneceu sendo Roma, e Império do Oriente, com capital em Constantinopla (atual Istambul).

Com o esfacelamento do Império Romano, outro povo incorporava sua cultura a esse substrato: os germanos. Com eles, veio o feudalismo, o direito consuetudinário, que ainda prevalece nos países nórdicos, a cavalaria medieval e sua ética cavalheiresca, os castelos, etc. É a partir dessa época, chamada de Alta Idade Média, que surgem os reinos que depois se transformariam nos atuais Estados europeus: França, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Espanha, e assim por diante. É também o momento em que línguas como o francês, o inglês e outras produzem seus primeiros registros escritos e suas primeiras obras literárias. Como mencionei acima, é nessa época também que surge a Rússia.

Enquanto isso, o Império do Oriente sobreviveria ainda por mil anos com o nome de Império Bizantino. Sua cultura era eminentemente grega.

Em 1054, o Grande Cisma do Oriente provoca uma ruptura no seio do cristianismo, dando origem a duas igrejas: a Católica Apostólica Romana, com sede em Roma, e a Católica Apostólica Ortodoxa, sediada em Constantinopla, atual Istambul. Essa ruptura aumentou a distância cultural que já havia na Europa: é nesse momento que os europeus mais a oeste, que permaneceram fiéis à Igreja de Roma e submetidos à influência da língua latina, passam a ver os europeus do leste, ortodoxos e influenciados pela língua e pela cultura gregas, como algo que já não fazia parte de sua civilização.

O Renascimento e sua retomada dos valores culturais e artísticos greco-romanos, que não chegou ao Leste europeu, aprofundou ainda mais a diferença entre as duas Europas. Embora continuasse a haver um mundo cristão em oposição ao mundo muçulmano que o ameaçava, começava a haver também dois conceitos de Ocidente: o conjunto de toda a cristandade ou somente a cristandade católica.

No século XVI, um novo cisma religioso abalaria a Europa: a Reforma Protestante, que separaria os países do norte, fundamentalmente germânicos, daqueles do sul, predominantemente latinos. Entretanto, esse novo cisma não seria suficiente para romper com o conceito mais restritivo de Ocidente: a ruptura religiosa não representava uma ruptura cultural, e os europeus do norte e do sul continuaram a intercambiar literatura, arte, ciência, filosofia, além de mercadorias. As revoluções da Idade Moderna – a Comercial, a Científica, a Francesa e a Industrial – afetaram toda essa região, mas não chegaram ao extremo leste da Europa. Somente no século XVIII, o czar russo Pedro o Grande promoveu a ocidentalização da Rússia, forçando sua corte a adotar costumes sobretudo franceses. Nesse momento, pode-se dizer que a Rússia voltava a fazer parte do Ocidente.

Os Grandes Descobrimentos do século XVI ampliaram o conceito de Ocidente, incluindo agora também as Américas. O descobrimento da Austrália e da Nova Zelândia no século XVIII levava essa civilização até o Oceano Pacífico. E em 1861 o Japão se abria ao Ocidente, adotando sua cultura. Apesar de manter algumas de suas tradições, pode-se dizer que hoje a terra do Sol nascente também é uma nação ocidental, assim como a Coreia do Sul e também Israel.

A Revolução Bolchevique de 1917, que fundou a União Soviética e inaugurou o comunismo como regime de governo, criou novo fosso entre leste e oeste. Agora o Ocidente era capitalista e o Oriente, ainda mais com a Revolução Chinesa de 1949, socialista. Surgiam o chamado Mundo Livre e a Cortina de Ferro.

A queda do muro de Berlim e o subsequente fim da União Soviética fez com que os países do Leste europeu novamente se aproximassem do Oeste, adotando o capitalismo, a democracia liberal e os costumes e o estilo ocidentais na moda, na música, no cinema, etc.

Agora, Vladimir Putin parece querer distanciar novamente a Rússia da Europa ocidental e dos Estados Unidos e, com a guerra na Ucrânia, parece querer também arrastar os antigos países satélites da extinta URSS para junto de si. O que move Putin a esse intento é sua filiação ideológica ao chamado eurasianismo, movimento político surgido em princípios do século XX, inicialmente inspirado nas ideias de Konstantin Leontiev e liderado, dentre outros, pelo príncipe Nikolai Trubetzkoy, que por sinal era linguista e foi o fundador da fonologia, ou estudo dos fonemas da língua.

O eurasianismo prega que a Rússia não pertence nem à categoria “europeia” nem à “asiática”, mas constitui o conceito geopolítico de “Eurásia”. Situando-se geograficamente entre os dois continentes e tendo em seu território populações de origem tanto europeia, sobretudo eslava, quanto asiática (turcos, fino-úgrios, cartvélios, sino-tibetanos, dentre outros), bem como tendo toda uma história em que se sucedem momentos de aproximação e de afastamento em relação à Europa ocidental, é natural que pelo menos parte dos russos não se sinta realmente pertencente ao mundo ocidental. O nacionalismo russo, que sempre esteve presente, também joga um papel importante nesse posicionamento.

Em seu livro Choque de civilizações, de 1996, o cientista político americano Samuel Huntington define Ocidente como toda a Europa católica e protestante (mas não a ortodoxa, o que exclui até a Grécia, berço de nossa civilização), os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. Curiosamente, ele distingue a América Latina do Ocidente, embora nossa cultura seja predominantemente ocidental (contribuições africanas e ameríndias existem também nos Estados Unidos e Canadá).

Já a definição clássica de Ocidente compreende toda a Europa, inclusive a Rússia europeia, toda a América, a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. E há ainda algumas outras definições, baseadas em critérios políticos, como, por exemplo, pertencimento ou não à OTAN.

Como vimos, não há um conceito único de Ocidente, mas conceitos apenas parcialmente coincidentes, de modo que a única parte do globo terrestre que está presente em todos é a chamada Europa ocidental, basicamente católica ou protestante e, em termos étnico-linguísticos, fundamentalmente latino-germânica. Mas o Ocidente que Putin e Medvedev querem destruir se chama simplesmente Estados Unidos – a Europa ocidental e, mais ainda, América Latina e Oceania são para eles meros satélites que cairiam junto com o Tio Sam.

Russofobia e outras fobias

Uma das ironias dessa guerra na Ucrânia é que o governo Putin resolveu se queixar de que a Rússia está sofrendo uma onda de “russofobia”, uma ojeriza e rejeição a tudo que é russo ou tem a ver com os russos. Por que será, né?

Bem, mas deixando de lado os aspectos políticos e até folclóricos da campanha anti-Rússia, como o boicote ao estrogonofe por certo bar de São Paulo, o fato é que esse neologismo, russofobia, vem somar-se a uma série de outras fobias instituídas de tempos para cá pelo politicamente correto: xenofobia, homofobia, transfobia, gordofobia… Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco até a claustrofobia e a agorafobia serão consideradas politicamente incorretas!

Brincadeiras à parte, o elemento de composição ‑fobia, que em grego quer dizer “aversão, repulsa”, tem sido bastante usado para identificar discursos de ódio contra certas minorias, o que indica que a tal russofobia segue essa onda. Com a única ressalva de que, no caso do governo russo, os discursos de ódio são plenamente justificáveis. Afinal, por mais amor e perdão que se tenha no coração, como não odiar um indivíduo e seus asseclas que massacram sobretudo mulheres e crianças do modo mais desleal e desumano por mera ambição de poder e vaidade pessoal?

Ah, e quanto ao estrogonofe, há controvérsia se sua origem é realmente russa. Parece que a ideia original veio de lá, mas foi tremendamente aperfeiçoada pelos franceses. Ou seja, o prato que conhecemos hoje como estrogonofe é muito mais uma iguaria francesa do que russa.

Pior ainda, certo vereador paulistano sugeriu a alteração do nome da Rua Rússia para Rua Ucrânia, bem como a da Avenida Lineu de Paula Machado, onde fica o consulado russo em São Paulo, para Avenida dos Heróis Ucranianos.

Só que, além do transtorno que a mudança do nome de um logradouro causa aos seus moradores e comerciantes, eu pergunto: e quando acabar a guerra, o governo Putin cair e as relações diplomáticas e comerciais com a Rússia voltarem ao normal, os nomes dos logradouros serão alterados de novo? Convém não confundir as justas e necessárias sanções econômicas, esportivas e culturais que os governos e empresas do Ocidente vêm impondo a Putin com essa atitude infantil que ganhou o nome de russofobia.

O peso das palavras

A linguagem é a mais maravilhosa invenção humana, aquilo que de fato nos tornou humanos e nos distinguiu para sempre dos outros animais, para o bem e para o mal – embora o linguista israelense Guy Deutscher faça a ressalva de que a linguagem nunca foi realmente inventada, já que é, ao que tudo indica, um instinto natural. De todo modo, poder fazer os outros compreenderem o que estamos pensando, transplantar para eles o nosso pensamento e os nossos sentimentos por meio da fala ou da escrita é verdadeiramente sensacional.

Mas a linguagem também tem sido ao longo dos tempos a principal fonte de discórdias e mesmo de conflitos sangrentos. Por isso, é preciso sempre dosar as palavras que empregamos, pois elas têm um peso que às vezes não somos capazes de avaliar. E palavra dita não volta atrás. Além disso, o que importa na comunicação não é o que dizemos, mas o que o outro entende daquilo que dizemos.

Nessa guerra da Ucrânia, estamos tendo vários exemplos de como as palavras são manipuladas para produzir certos efeitos de sentido. Em primeiro lugar, a própria guerra está sendo chamada pelo governo Putin de “operação militar especial” e a invasão de um país soberano, de “libertação”. E quem na Rússia utilizar os termos “guerra” ou “invasão” pode pegar até 15 anos de cadeia. Aliás, a própria censura imposta por Putin à imprensa e à internet mostra como os poderosos, especialmente os autocratas, têm medo das palavras e da informação que elas portam.

A resolução votada e aprovada pela ONU semana passada substituiu o termo “condena” por “lamenta” em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia por receio de irritar ainda mais um indivíduo que já provou não estar na plenitude de sua sanidade mental e tem o dedo no botão vermelho das armas nucleares.

Enquanto isso, o chanceler brasileiro Carlos França substitui a palavra “neutralidade”, usada por Bolsonaro, por “equilíbrio”, tentando dar um ar positivo à indiferença pelos mortos, feridos, desabrigados e exilados, pois o que importa são nossos interesses comerciais – leia-se fertilizantes –, mesmo sabendo que nossa neutralidade, ou melhor, equilíbrio, não vai permitir a importação desses insumos de que éramos autossuficientes décadas atrás, já que o comércio com a Rússia está internacionalmente bloqueado.

Por outro lado, é também com palavras que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, insufla em seu povo a coragem e o patriotismo para lutar contra os invasores. Zelensky, inicialmente desacreditado por ser um comediante que chegou ao poder na onda da antipolítica, revela-se com sua retórica poderosa um grande estadista, um verdadeiro líder, cuja maior arma, na falta de material bélico efetivo, são suas palavras. E que, com elas, conseguiu a proeza de unir o Ocidente e fazê-lo tomar medidas corajosas que, de outro modo, jamais seriam tomadas contra uma potência como a Rússia.

Neste grave momento da História, é preciso mais do que nunca saber usar bem as palavras, seja para aplacar ditadores, seja para enfrentá-los. Só o que não se pode é ficar calado.

Sobre bielorrussos e oligarcas

Nesta absurda e inexplicável guerra na Ucrânia, temos ouvido falar bastante sobre o país cúmplice das atrocidades de Putin: Belarus. Para quem não sabe, esse país, independente a partir de 1991 e desde 1994 governado com mão de ferro pelo ditador Aleksandr Lukashenko, era até então a república soviética da Bielorrússia, ou Rússia Branca (é exatamente isso que Bielorrússia quer dizer em russo).

Desde que se tornou independente, passou a ser chamada aqui no Ocidente (capitaneado pela língua inglesa, claro) de Belarus, mas o curioso é que os habitantes desse país continuam a chamar-se bielorrussos – e não belarusos, como seria de se esperar. Essas mudanças de nome, como Pequim para Beijing ou Kiev para Kyiv, são como trocar seis por meia dúzia. Na verdade, até tornam a pronúncia mais complicada.

Ao mesmo tempo, tem-se falado muito nas sanções econômicas contra aliados de Putin, como o bloqueio financeiro dos oligarcas russos. E eis que aí aparece outra palavra com a qual não estamos muito acostumados. Claro, todos já ouviram falar em oligarquias – por exemplo, aqui no Brasil é comum falarmos da oligarquia que domina a política no Nordeste –, mas dificilmente nos referimos aos coronéis nordestinos que têm mandato em Brasília como oligarcas. A oligarquia é o sistema econômico e também político em que uns poucos detêm todo o poder. Aristóteles dividia as formas de governo em monarquia (o poder nas mãos de um só mandatário), oligarquia (o poder em mãos de um pequeno grupo) e democracia (o poder para todos). Como se pode deduzir, o poder na Rússia está nas mãos de uns poucos amigos de Putin – na verdade, como este pode mandar matar qualquer “amigo” que se oponha a seus interesses, o poder, na prática, está todo nas mãos sujas de sangue do tirano Putin.

Para terminar, um recadinho ao nosso presidente: quem vê o mal ser praticado e se cala ou não se posiciona é cúmplice do mal. A neutralidade beneficia o agressor, não a vítima.

Qual a sua playlist preferida?

Assim como as línguas, os seres vivos e as sociedades, a tecnologia também evolui – nem sempre para melhor, diga-se de passagem. A pergunta do título é bastante frequente hoje em dia, em que a maioria das pessoas baixa músicas de aplicativos de celular. Sou do tempo, não tão distante assim, em que, para colecionarmos as canções de que gostávamos, precisávamos ficar ouvindo o rádio com o gravador a postos e, quando a canção começava a tocar, imediatamente a púnhamos para gravar. Às vezes, o locutor falava durante a execução da dita cuja, o que estragava nossa gravação. Mas a ansiedade com que esperávamos para poder gravá-la e o prazer de conseguir essa proeza é que eram o grande barato de toda a operação. E, além disso, era de graça.

Hoje as pessoas precisam pagar para baixar suas músicas prediletas – como aliás precisam pagar para assistir TV de qualidade (e a qualidade da TV paga nem sempre é lá essas coisas), pagar para acessar a internet, e assim por diante.

Mas o maior problema que eu vejo é que a possibilidade de comprar canções isoladas simplesmente acabou com o conceito de álbum, aquela obra que cada artista só lançava uma vez por ano e que trazia em geral 10 a 12 faixas embaladas numa capa que era uma obra de arte. Aliás, às vezes até o selo do disco era uma obra de arte.

Pois é, minha gente, o álbum de música, seja ele um LP ou CD, não era um simples amontoado de canções ou temas instrumentais colocados ali a esmo: a ordem das faixas tinha um propósito, havia uma faixa principal (a chamada música de trabalho), que era a que tocava nas rádios e aguçava em nós a vontade de comprar o disco inteiro para poder ouvir mais daquela maravilha.

Havia até álbuns em que a sequência das faixas contava uma história, de modo que ouvi-las fora de ordem, apertando o botão shuffle do toca-CD, não fazia sentido.

Mas o álbum, assim como o livro físico, feito de papel, tem uma mística que a playlist do celular não tem. Em primeiro lugar, havia a magia das lojas de discos, em que podíamos passar uma tarde inteira vasculhando as novidades, garimpando preciosidades, degustando faixa por faixa de cada disco, escolhendo o que íamos comprar. Hoje esse prazer só resiste nos velhos sebos de discos, único lugar em que ainda podemos ter contato físico com a obra do artista.

E esse contato incluía o cheiro típico do vinil e do papelão, a contemplação da capa, a possibilidade de ler na contracapa um texto que funcionava como espécie de prefácio em que o autor do álbum ou um crítico musical apresentava a obra ao público, a capa interna dos álbuns duplos, que geralmente traziam fotos do making of (os músicos dentro do estúdio ou em momentos de descontração entre as gravações), o famoso encarte, em que vinham escritas as letras das canções – o que era especialmente útil no caso das cantadas em inglês – e também os créditos (quem compôs cada canção, quem tocou o quê, quem produziu, onde e quando).

O álbum físico podia ser dado de presente, e em sua capa podíamos escrever uma dedicatória à pessoa presenteada, assim como podíamos guardar cartas de amor e pétalas de flores dentro dos álbuns. Quem hoje em dia presenteia playlists? E quem escreve cartas de amor hoje em dia?

Todo mundo já deve ter ouvido falar do álbum branco dos Beatles, ou do Abbey Road, ou do Sgt. Pepper’s, não? Pois é, existem até antologias do tipo 1.001 Álbuns que Você Precisa Ouvir antes de Morrer ou coisa parecida. Não acredito que futuramente se escreva algum livro do tipo 1.001 Playlists que Você Precisa Ouvir… Na verdade, ouvir playlists é para mim como ler um capítulo de cada livro: você nunca vai entender a história.

É claro que os mais jovens, que não conheceram outra realidade, podem achar perfeitamente mágico e maravilhoso ouvir playlists e podem até achar careta este meu papo. Na verdade, todos nós, à medida que vamos ficando mais velhos, temos a tendência de achar que nosso tempo de adolescência é que era bom. Mas, vendo a maneira veloz como o mundo atual está se deteriorando em todos os aspectos (social, afetivo, político, econômico, cultural, ambiental), chego a pensar que os mais velhos não estão de todo errados.

A maldade humana é predominantemente masculina

Fiquei chocado com o vídeo que viralizou na internet na semana passada, em que estudantes de medicina veterinária da Unoeste castram um cachorro sem anestesia, sem equipamentos adequados e, ao que parece, em uma república, que obviamente não tem nenhuma estrutura para um procedimento cirúrgico. Felizmente, a universidade houve por bem – e por pressão da opinião pública – expulsar os “açougueiros”.

Mas essa ocorrência me fez pensar. Não tenho em mãos dados estatísticos, porém me parece que as mulheres são maioria entre os estudantes e os profissionais de veterinária, e é raro ouvir falar de alguma barbaridade praticada contra animais ou seres humanos por mulheres, veterinárias ou não. Parece que elas escolhem essa carreira por amor aos bichos, ao passo que os homens nem sempre.

Os trotes violentos que costumavam acontecer em faculdades de medicina também eram predominantemente capitaneados por alunos do sexo masculino, o que me levava a perguntar: ser médico não é querer livrar o ser humano do sofrimento? Então por que futuros médicos infligiam sofrimento aos calouros, chegando até a matar alguns deles?

Se olharmos a população penitenciária, constataremos que ela é quase totalmente masculina. Mulheres são minoria nas cadeias e geralmente são presas por crimes sem violência. Aliás, mulheres costumam visitar seus companheiros na prisão; já o inverso raramente acontece.

Feminicídios, como o próprio nome indica, são crimes praticados por homens contra mulheres, em geral suas (ex-)companheiras. Até hoje não se ouviu falar de viricídio, ou seja, crime praticado por uma mulher contra seu companheiro ou ex. Igualmente, estupro é um crime exclusivamente masculino.

Mas, de modo mais geral, se observarmos as atitudes que, assim como o crime, fazem mal à humanidade, como a destruição do meio ambiente, a ganância por dinheiro, a agressividade contra o próximo, a opressão, a corrupção na política, veremos sempre um predomínio dos homens sobre as mulheres. No caso específico da política, o próprio ambiente tóxico da esfera estatal parece afugentar as mulheres. E, no entanto, sou daqueles que acreditam que um mundo governado por elas seria, sem dúvida, um mundo melhor.

Em resumo, parece que a maldade, atributo exclusivamente humano, é também essencialmente um atributo masculino. Não que não haja mulheres más, mas os serial killers, os grandes ditadores, os assediadores morais e sexuais, os desordeiros, os sádicos, os perversos, os desumanos são quase sempre homens.

A genética e a evolução natural explicam esse caráter, Mas, desde que deixamos a selva e, portanto, paramos de nos comportar como animais selvagens para nos tornarmos civilizados, esse impulso agressivo e predatório do homem deixou de ser uma vantagem evolutiva e passou a ser um mal social. Como homem que pensa e reflete, não posso deixar de ser a favor do feminismo e – por que não? – de um mundo mais feminino, no sentido de um mundo com mais cuidado e mais bondade.

Linguística e espiritismo

O espiritismo é uma religião considerada por muitos de seus adeptos como ciência, já que lida com fenômenos observáveis, como mediunidade, telecinesia (movimentação de objetos a distância), xenoglossia (capacidade de falar línguas estrangeiras sem conhecê-las) e psicografia, dentre outros. O espiritismo, assim como outras correntes espiritualistas, é uma religião, dado o seu caráter doutrinário, fortemente ligado ao Cristianismo. Ao mesmo tempo, não pode ser considerado plenamente uma ciência, já que suas “pesquisas” não obedecem rigorosamente ao método científico.

Há quem afirme que a ciência tradicional não se interessa pelos chamados fenômenos paranormais, dentre os quais está a comunicação mediúnica, rejeitando tais fenômenos a priori, numa atitude preconceituosa. Preconceitos à parte, um dos entraves à investigação científica da mediunidade está no fato de que os próprios médiuns muitas vezes se opõem à metodologia utilizada pela ciência (utilização de sensores cerebrais, filmagem da sessão, instalação de aparelhagem eletrônica de alta sensibilidade no ambiente, etc.) dizendo que essa parafernália atrapalha o contato com os espíritos.

De todo modo, há certos procedimentos que podem, se não comprovar ou desmentir de forma patente tais fenômenos, ao menos lançar alguma luz numa eventual investigação legitimamente científica. E grande parte desses procedimentos envolve a linguística.

No caso de um documento psicografado por um médium, a primeira providência seria um exame grafológico do manuscrito, comparando-o a textos que se sabe com certeza terem sido escritos à mão pelo falecido. A grafologia não é parte da linguística, mas não deixa de analisar um aspecto da expressão verbal dos indivíduos, isto é, a caligrafia.

Entrando agora no terreno propriamente linguístico, é possível fazer uma análise estilística dos textos ditados pelo espírito de um determinado autor com textos que ele tenha produzido em vida. Existem técnicas estatísticas que permitem reconhecer a frequência de emprego de palavras e construções sintáticas típicas de uma pessoa, pois todos nós temos nossas idiossincrasias linguísticas e tendemos a usar com mais frequência certos vocábulos, campos semânticos e estruturas gramaticais, que se repetem como um padrão individual. Mesmo que procuremos camuflá-lo, esse padrão está presente em nossas produções linguísticas como uma sequência de DNA ou uma impressão digital.

Evidentemente, esse tipo de teste é mais fácil de fazer em relação a espíritos que ditam longos textos (como é o caso de romances psicográficos) e que, em vida, já tinham larga produção escrita. (O problema aqui é que grande parte dos best-sellers espíritas tem autores que não deixaram nada escrito em vida, assim como a maioria dos grandes escritores mortos não continua produzindo literatura no além-túmulo.)

Outro teste que pode ser feito utilizando conhecimentos linguísticos é a análise fonética da fala do médium durante a incorporação. Assim como a mente que controla a mão do médium durante a psicografia é a do espírito e não a do próprio médium, é de se supor que quem está no controle do aparelho fonador do médium em transe é o espírito incorporado. Se for possível gravar essa fala e compará-la a alguma elocução verbal que o morto tenha deixado gravada, pode-se dizer se as duas enunciações, embora feitas com vozes diferentes, têm características acústico-articulatórias que permitam atribuir ambos os atos de fonação à mesma pessoa.

É claro que, mesmo se esses resultados forem positivos, a decisão de reconhecer que houve de fato comunicação com o Além ainda permanece subjetiva (por exemplo, um juiz pode ou não aceitar um depoimento psicografado como prova num processo judicial). Mas, seja como for, a linguística é uma ciência que pode contribuir para gerar dados empíricos um pouco mais sólidos do que temos hoje, quando a questão da existência ou não de mediunidade se limita ao campo das opiniões e das crenças.

O problema agora é que, segundo afirmam alguns espíritas, os espíritos desencarnados têm habilidades que não tinham quando se encontravam encarnados num corpo humano. Assim, um tribuno romano que só falava latim pode ditar um romance em português brasileiro, embora nem a língua portuguesa nem o Brasil existissem no tempo de Roma, e embora ele jamais tivesse se aventurado na literatura em vida. É por essas e por outras, muito mais do que por preconceito dos estudiosos, que a investigação científica nesse terreno avança a passos de tartaruga – se é que avança.

Pequeno Dicionário Tabi-Português Português-Tabi

Quinta-feira passada, publiquei no meu canal do YouTube uma entrevista que fiz com um jovem paquistanês, agora naturalizado brasileiro, que aqui chegou em 2015 sem saber falar uma palavra de português e que, tendo morado na minha casa de 2016 até 2019, me permitiu acompanhar o seu processo de aprendizagem do nosso idioma, ocorrido basicamente no âmbito da minha família, já que os contatos externos que ele tinha, pelo menos nos primeiros meses, eram com conterrâneos seus radicados no Brasil.

Aftab, cujo apelido é Tabi, e que hoje goza o status extraoficial de meu afilhado, veio ao Brasil a trabalho, trazido por uma indústria farmacêutica indiana exatamente no ano em que eclodiu nossa pior crise econômica de todos os tempos – a famosa crise financeira da Dilma e do Mantega. Como resultado, Tabi se viu desempregado seis meses depois, quando a farmacêutica indiana resolveu encerrar suas atividades no Brasil. Ele, que até então morava num hotel pago pela empresa, viu-se obrigado a ir viver numa república de imigrantes do Oriente Médio, onde só se falava árabe, hindi, urdu e punjabi.

Mas qual a relação desse rapaz comigo? É que ele é irmão de uma ex-colega de colégio da minha esposa, uma paquistanesa que hoje vive na Alemanha, mas cuja família inteira morava no Brasil vinte e tantos anos atrás. Aliás, o próprio Tabi é nascido em São Paulo, embora tenha sido registrado como paquistanês, de modo que sua recente naturalização não deixou de ser a correção de um equívoco do destino.

O fato é que essa ex-colega pediu à minha esposa que recebesse Tabi no Brasil, já que ele não conhecia ninguém aqui. Mais do que recepcioná-lo, ela acabou tornando-se uma assessora desse meu agora afilhado, acompanhando-o a cartórios, consulado, polícia federal e demais instâncias burocráticas que um imigrante precisa visitar.

Quando o dinheiro acabou e ele não pôde mais pagar pela república, nos vimos na obrigação moral e já também afetiva de acolhê-lo em nossa casa. E foi nessa imersão num lar onde só se fala português que ele foi pouco a pouco adquirindo a nova língua.

Não sou psicolinguista nem especialista em aquisição de segunda  língua, portanto o processo que testemunhei foi muito mais uma vivência empírica do que a testagem e confirmação de conhecimentos teóricos que não tenho.

Mas pude perceber alguns fatos interessantes. Primeiro, que ele sofria uma certa influência da língua inglesa, um dos idiomas oficiais de seu país. Por isso, às vezes algum termo inglês pipocava em meio à sua fala. Depois vim a saber que o uso de palavras inglesas é prática comum no urdu, língua pátria do Paquistão. Outro fato curioso é que ele associava palavras novas a outras já conhecidas e por vezes confundia termos parecidos, trocando um pelo outro.

Mas o aspecto mais hilário e peculiar de seu esforço para falar português era a invenção de termos, o que me fez começar a anotá-los e elaborar um pequeno dicionário Tabi-português português-Tabi. Uma breve amostra desse “dicionário” (na verdade, um glossário) é o que eu lhes dou a seguir. Divirtam-se! Ah, e não deixem de assistir ao vídeo, hein!

  • acender → acesar;
  • açúcar mascavo → açúcar mascado (que nojo!);
  • água sanitária → água cemitéria;
  • alcachofra → cachorra;
  • alface → alfaço;
  • alumínio → alimúnio;
  • antidepressivo → depreciativo;
  • anti-impacto → antipático;
  • antirraiva → antirruiva;
  • Aracaju → Acaraju;
  • Armarinhos Fernando (uma rede de lojas em São Paulo) → Armênios Fernânios;
  • arroz com passas → arroz com Páscoa;
  • arroz parboilizado → arroz parabolizado;
  • até → atita;
  • babão → babaqueiro;
  • barulho → balu, barulu;
  • batata palha → batata palhada;
  • Bauducco (marca de panetone) → bugudutucu;
  • bisteca → biscuíta;
  • bolacha → borracha;
  • brócolis → Brooklins;
  • camada → camisinha;
  • cara de pau → cara de pão;
  • carambola → caramba rola;
  • chorão → chorento;
  • churrascaria → churrasqueira;
  • cilindrada → celindário;
  • coco → cocô;
  • colorau → coral;
  • configurar → confurigar;
  • costurar → escuturar;
  • criativo → crioso;
  • dívida → dúvida;
  • dúvida → dívida;
  • engenheiro → engenérico;
  • entupir → entupidar;
  • esmola → mola;
  • esteira → estrela;
  • estuprar → estupidar;
  • esvaziar → desvazar;
  • fazendeiro → fazendador;
  • feirante → barraqueiro;
  • f*dido → fudado;
  • folheto → foelho;
  • freguesia → fressiguesa;
  • fumaça → fumasca;
  • funerária, funilaria → funelária;
  • golpista → golpeiro;
  • grana → grama;
  • inventivo → inventoso;
  • Itubaína (marca de refrigerante) → Tabuína;
  • jabuticaba → jabaticuíba;
  • Jardim Cambará (bairro de São Paulo) → Jardim Caramba;
  • Jardim João XIII (outro bairro de São Paulo) → Jardim João Xixi;
  • leilão → lilá;
  • leite fermentado → leite Fernando;
  • leite Ninho → leite Nino;
  • lixa → lixeira;
  • lua → luva;
  • madrasta → madastrada;
  • máquina → maquina (provável influência do inglês machine);
  • maracujá → macurujá;
  • margarina → margarita;
  • massa → maçã;
  • mijão → xixeiro;
  • noz sem casca → noz sem casaca;
  • oftalmo → ofotônomo;
  • Otacílio Tomanik (avenida de São Paulo) → Tomacilo;
  • pão de forma → pão de forno;
  • papel higiênico → papel ingenético;
  • paralelepípedo → parelepíparo;
  • patinador → patineiro;
  • pepino → pepinho;
  • pesquisa → pesquisita;
  • pizza margherita → pizza de margarina;
  • polipropileno → popireoplano;
  • por exemplo → for exemplo (influência do inglês);
  • preguiça → pirissiguese;
  • presunto Seara → presunto Ceará;
  • psicopata → pescopata;
  • quiabo → tiabo;
  • quilômetro → quilomitro (influência do inglês);
  • recusar → cruzar, recruzar;
  • Rivotril (calmante) → Rotivil;
  • salada de frutas → fruta de salada;
  • sambódromo → sabadôrnomo;
  • serralheiro → ferralheiro;
  • sobremesa → sobresma;
  • sortudo → sorteado;
  • Sukita (refrigerante) → sicuta;
  • tampa → tâmpada (provável influência de lâmpada);
  • tapete → capete (influência do inglês carpet);
  • taxista → taxeza;
  • temperatura → tempura;
  • terno → térmica;
  • tigela → tijolo;
  • tuberculose → tuberculatose;
  • uva passa → uva páscoa, uva pasta;
  • vácuo → vacume (influência do inglês vacuum);
  • varal → verão, varão.

O politicamente correto, a ideologia da neutralização de gênero e a Constituição alemã

O politicamente correto e seu mais novo rebento, a ideologia da neutralização de gênero, têm dado muito o que falar – mal, principalmente. Não à toa, tal a bizarrice dessa proposta, que, apesar de bem-intencionada, promete não chegar a lugar algum, pois suas bases lógicas, científicas e políticas são frágeis como bolha de sabão em espinheiro.

O problema é que a vida imita a arte, e vice-versa, e aquilo que achamos absurdo a ponto de virar motivo de piada de repente é levado a sério por gente insuspeita. Pois ontem o humorista português Ricardo Araújo Pereira publicou uma crônica satírica cuja leitura recomendo vivamente às minhas leitoras e aos meus leitores e que deveria fazer corarem as defensoras e os defensores do tal gênero neutro. Só que elas e eles não coram. Pelo contrário, elas e eles levam muito a sério uma ideia que não tem a menor possibilidade de prosperar. Tanto que elas e eles chegam a redigir documentos oficiais como a Carta Magna de um país de respeito nessa linguagem que nenhum ser humano ou ser humana em estado normal consegue falar.

Para verem que não estou mentindo, transcrevo abaixo a tradução para o português de um pequeno trecho da Constituição da República Federal da Alemanha, em sua redação mais recente, após a reunificação.

  • O Governo Federal: O Governo Federal é composto pela Chanceler Federal ou Chanceler Federal e pelas Ministras Federais ou Ministros Federais. Juntos, elas ou eles compõem o Gabinete.
  • O papel da Chanceler Federal ou do Chanceler Federal: A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tem uma posição de destaque no governo. A Chanceler Federal ou  o Chanceler decide quem se torna membro do governo, pois só ela ou ele tem o direito de formar um Gabinete. A Chefe do Governo ou o Chefe do Governo escolhe as Ministras ou os Ministros e faz uma proposta vinculativa para a sua nomeação ou exoneração do Presidente Federal. Ela ou ele também decide sobre o número de Ministras ou de Ministros e define suas áreas de responsabilidade. A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal determina os pilares da política governamental (Princípio do Chanceler).
  • O papel da Ministra ou do Ministro: Embora a Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tenha o direito de emitir instruções às Ministras ou aos Ministros, a Constituição também enfatiza que as Ministras Federais ou os Ministros Federais administram sua área de responsabilidade de forma independente e sob sua própria responsabilidade dentro do quadro político definido (Princípio Departamental).

Pois é, minhas amigas, meus amigos e mees amigues, cabe a todas, todos e todes vocês julgar se esse negócio de linguagem neutra de gênero faz algum sentido ou não – ou, como se diz lá em Minas: Tem base esse trem?

As raízes biológicas do preconceito

Vê-se, nos dias atuais, um grande esforço em prol da inclusão social, por meio de campanhas educativas, ações afirmativas, valorização da diversidade, repressão à intolerância, adoção de cotas para minorias, e outras. No entanto, por mais que se tente combatê-lo, o preconceito segue firme e forte em todas as sociedades, das mais primitivas às mais desenvolvidas.

Discriminação por motivos étnicos, raciais, religiosos, sociais e até linguísticos parece uma chaga longe de ser superada.

A explicação para esse comportamento pode estar em nossa biologia. Estudos conduzidos de maneira independente em diversas universidades, uns com viés biológico, outros com foco psicológico ou social, apontam que a rejeição que sentimos pelo diferente pode ter sido moldada por milênios de evolução da espécie humana.

Para a bióloga Marta Fischer, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o preconceito é algo natural. “É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies”, afirma a especialista.

Como o homem é um ser gregário, o sentimento de pertencer a um grupo e, consequentemente, o impulso a rechaçar os elementos estranhos foi uma estratégia inteligente de sobrevivência numa época em que estávamos longe de dominar o planeta. Criar vínculos sociais com base em características semelhantes parece natural e é algo que transcende a espécie humana.

Segundo Marta, ao formarmos grupos, atentamos ao que nos aproxima de determinados indivíduos e que nos diferencia dos demais. “Assim, a discriminação ajuda a manter a identidade e união do nosso grupo. Isso nada mais é do que o preconceito. Um animal com cheiro ou aparência distinta dos demais de sua espécie pode chamar a atenção de predadores. Isso faz com que seja discriminado, abandonado ou até mesmo morto por alguém do grupo.”

Em Prejudice, its social psychology (Preconceito, sua psicologia social), Rupert Brown, professor de psicologia da Universidade de Sussex, descreve várias experiências sugerindo que superestimamos características que fogem da normalidade, especialmente em relação a minorias. “Coisas menos comuns que a média, ou que acontecem raramente, parecem atrair uma parcela desproporcional da nossa atenção e são lembradas mais facilmente. Esse fenômeno pode dar origem a estereótipos.”

Segundo uma pesquisa americana, bebês de menos de dois anos usando a mesma roupa tendem a não brincar com uma criança vestida com roupas de cores diferentes das suas.

O papel da evolução biológica na formação do preconceito é claro: toda vez que nossos ancestrais pré-históricos ouviam um barulho estranho, imaginavam algum perigo iminente, como um predador, por exemplo, e tratavam de se proteger. Poderia não ser nada, apenas o vento entre as folhagens, mas, como diz o biólogo britânico Richard Dawkins, um falso positivo pode ser apenas perda de tempo; já um falso negativo pode significar a morte. Ou seja, a seleção natural favoreceu aqueles que tinham um olhar mais desconfiado sobre os outros à sua volta, isto é, os mais preconceituosos.

O mesmo raciocínio se aplica ainda hoje: se estou caminhando por uma rua escura e avisto um sujeito mal-encarado caminhando em minha direção, minha tendência natural – se eu for esperto, claro – é fugir dali. É bem possível que o tal sujeito não seja de fato um criminoso, mas vinha visão preconcebida sobre o seu caráter baseada em sua aparência pode, eventualmente, salvar a minha vida.

Dentre as várias formas de discriminação, está o preconceito linguístico. Esse termo, difundido por Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, denomina a aversão por aqueles que falam de modo diferente, especialmente as pessoas menos escolarizadas, por isso mesmo mais distantes do padrão linguístico, e as provenientes de rincões afastados dos grandes centros, cuja fala é mais regional. Em suma, pessoas que utilizam variedades linguísticas de menor prestígio.

Segundo Bagno, o preconceito linguístico encobre, na verdade, formas mais profundas de discriminação. O indivíduo cuja fala revela origem rural é identificado com traços como pobreza, ignorância, alienação, falta de polidez, de bom gosto, bom senso, cidadania… Ou seja, sua pronúncia e sua gramática nos levam a traçar um raio X — verdadeiro ou equivocado, mas de todo modo preconcebido — dessa pessoa. E aí o preconceito linguístico se torna preconceito social, étnico, religioso ou racial.

Mas, se o preconceito, seja linguístico ou de qualquer outra natureza, existe e é um instinto biológico instalado em nossos genes, então a educação pode — como em relação aos nossos demais instintos —, no máximo, atenuar essa pulsão, jamais eliminá-la: até as pessoas mais cultas e conscientes do problema deixam extravasar, em momentos de descontrole emocional (quando aflora o “instinto animal”), sua ira contra o diferente, em especial se este é visto como inferior.

No caso específico da língua, o preconceito tem duas vertentes: uma de índole grupal e chauvinista, resquício de nossa herança tribal, e outra social, ligada à dinâmica da vida numa sociedade estratificada.

De um lado, o falante reage positivamente a quem se expressa como ele (há imediata identidade: se ele fala como eu, é porque é igual a mim) e negativamente a quem fala de modo diferente. A lógica subjacente, ainda que inconsciente, é: pessoas de outras regiões, classes sociais, credos religiosos, modos de vida não podem me compreender, nem eu as compreendo, então eu as vejo com desconfiança.

De outro lado, há uma tendência a valorizar o que pertence às classes sociais mais elevadas. Assim, tudo o que foge ao padrão, à norma, ao bom uso da língua deve ser rechaçado.

Embora essa postura seja de fato um preconceito e, como tal, seja injusta na maioria das vezes, é um dado real com o qual se tem de lidar. É preciso ter claro que ações educativas ou coercitivas podem reduzir o problema, mas dificilmente erradicá-lo, já que suas causas são biológicas.

Nesse sentido, muitos trabalhos teóricos têm equivocadamente enfatizado os aspectos sociais da questão — alguns linguistas, como Marta Scherre, da Universidade Federal do Espírito Santo, chegam a defender a criminalização do preconceito linguístico — quando seria mais proveitoso unir as teorias da linguagem aos conhecimentos da biologia, psicologia e neurociência para compreender melhor o fenômeno e saber até que ponto somos ou não capazes de combatê-lo. A ciência deve primeiro conhecer os fatos para depois julgar os valores.