O dilema da ciência

Mais ou menos desde o século XVIII, a ciência passou a gozar do prestígio e da credibilidade antes conferida somente à religião. Tanto que o conceito de verdade deixou de ser o que está escrito na Bíblia e passou a ser aquilo que pode ser provado cientificamente. Sobretudo os prodígios da aplicação do conhecimento científico à solução de problemas práticos, aquilo a que chamamos de tecnologia, mostraram que a ciência é um tipo de explicação da realidade muito superior à filosofia, à religião e ao senso comum. Mas também é verdade que, desde os seus primórdios, a ciência sempre manteve estreitas relações com a política e a economia. Já na Grécia antiga, o grande cientista Arquimedes desenvolveu várias técnicas e ferramentas para servir aos interesses do poder. Por exemplo, ele descobriu o princípio da hidrodinâmica — e saiu às ruas nu gritando eureca — porque o rei Hierão II lhe havia solicitado que medisse a densidade de ouro de sua coroa. Ele também inventou um espelho que concentrava os raios solares num único ponto (o ponto focal) e que, levado nos navios de guerra gregos, queimava as velas dos navios inimigos.

Ainda hoje, as descobertas científicas logo ganham aplicações tecnológicas que contribuem para a agricultura, a indústria, as comunicações, os transportes e mesmo o nosso dia a dia (veja-se o telefone celular, por exemplo). Se a indústria farmacêutica investe milhões de dólares para desenvolver novos medicamentos, não é porque se preocupa com a saúde das pessoas, é porque remédios geram lucro. Nesse sentido, enquanto uma pequena parte dos cientistas faz pesquisas para alargar os horizontes de conhecimento do ser humano e saciar nossa curiosidade, a maioria das pesquisas visa a produzir conhecimento aplicável nas atividades econômicas ou militares. Um exemplo é o recente e bem-sucedido ataque americano aos bunkers iranianos: nada disso teria sido possível sem muita investigação científica.

Mas, em razão da importância estratégica do saber científico, pesquisadores que produzem conhecimentos úteis para o Estado ou para a economia costumam ganhar muito dinheiro e prestígio. E é aí que começa o problema. Em primeiro lugar, as universidades, lócus principal da produção do conhecimento, têm pressionado cada vez mais seus docentes a gerar conhecimentos inovadores e a publicá-los; essa pressão é conhecida pelo lema em língua inglesa publish or perish, “publique ou pereça”. De fato, pesquisadores com baixos índices de aceitação de artigos para publicação, especialmente nos grandes periódicos, correm até o risco de perder seus empregos. Na corrida pelo conhecimento de ponta, as universidades acabam privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade; ainda que os índices cientométricos, que avaliam estatisticamente o impacto das publicações, de seus autores e das universidades que os financiam, procurem destacar as pesquisas de maior relevância, o fato é que o volume de publicações de uma determinada instituição ou pesquisador também pesa, e muito. A ânsia de publicar sempre e mais leva a que muitos autores recorram ao autoplágio, isto é, publiquem vários artigos sobre o mesmo tema, dizendo basicamente as mesmas coisas, apenas com outras palavras e outro título — às vezes, até parágrafos inteiros de um artigo são reproduzidos em outro, num verdadeiro mecanismo de “copia e cola”.

Mais grave ainda, alguns investigadores menos éticos manipulam dados para chegar à conclusão desejada, aquela que vai causar mais impacto na comunidade acadêmica — veja a esse respeito meu artigo Impostura científica lá e aqui —, ou chegam a fraudar pesquisas e falsificar descobertas, como fez um determinado paleontólogo, que uniu a cabeça de um fóssil à cauda de outro e alegou ter descoberto uma nova espécie de réptil pré-histórico. Mas a cereja do bolo é a atual invasão da inteligência artificial na atividade científica. Se de um lado ela trouxe grandes avanços e melhorias à prática da pesquisa, como decifrar em minutos um texto antigo escrito numa língua desconhecida que havia permanecido por séculos indecifrável ou resolver em segundos equações complexíssimas, que levariam décadas para ser resolvidas à mão, por outro lado ela também trouxe malefícios, afinal a função da IA deveria ser a de auxiliar o pesquisador e não substituí-lo. Por exemplo, triar e organizar em minutos milhares de dados, o que exigiria um trabalho hercúleo do investigador humano, poupa tempo, esforço e recursos. No entanto, há gente hoje dentro da academia que usa IA não apenas para organizar dados, mas também para extrair deles conclusões e, o que é pior, para redigir o artigo que apresentará esses dados e essas conclusões. Portanto, esses profissionais estão sendo remunerados, as mais das vezes com dinheiro público, para não fazer nada. E o mais grave é que, como sabemos, a inteligência artificial por vezes alucina, produzindo informações falsas. Como confiar num conhecimento produzido por uma máquina que não tem ética nem mecanismos de autocorreção?

O fato é que, além do tradicional vínculo entre a ciência e o poder, que há séculos já vem desvirtuando boa parte da atividade científica, levando-a a criar tecnologias que servem mais para o mal do que para o bem, agora a própria credibilidade da ciência vem sendo posta em xeque. De um lado, as universidades foram sendo ao longo das últimas décadas aparelhadas por docentes adeptos da chamada teoria crítica, da filosofia pós-moderna, do desconstrucionismo, do anti-intelectualismo, do materialismo dialético, do marxismo, do decolonialismo, do identitarismo — em suma, professores e pesquisadores de esquerda (em alguns casos, de extrema-esquerda), mais afeitos à militância ideológica do que à metodologia científica. De outro, a ascensão da extrema-direita nos últimos anos como reação a essa contaminação ideológica da academia, da mídia e até da Justiça fez emergirem discursos negacionistas dos mais diversos matizes: antivacinismo, terraplanismo, criacionismo bíblico… Se, desde o triunfo do Iluminismo no século XVIII, a ciência passou a ser a régua a medir o que é verdade e o que não é, relegando crenças a redutos mais refratários ao pensamento racional e influenciando até mesmo a atividade legislativa, hoje em dia afirmar que algo está cientificamente provado não quer dizer muita coisa; em tempos de relativismo cultural, em que a opinião vale mais do que o fato — especialmente se essa opinião parte de alguém socialmente oprimido ou minorizado —, ou de pós-verdade e fake news, em que a veracidade de uma alegação depende de seu propósito político, a ciência ficou relegada a ser apenas mais um discurso na avalanche de narrativas que permeiam as redes sociais. E, diga-se de passagem, em um mundo em que o estatuto de verdade é estabelecido pelo número de likes e pelo engajamento, a ciência é um discurso bem pouco viral.

O que os empresários geram além de empregos?

Sempre que partidos ou governos de esquerda criticam o chamado “andar de cima”, isto é, os ricos, os capitalistas, estes se defendem argumentando que empresários geram empregos, portanto são essenciais ao desenvolvimento do país. De fato, não seria concebível o progresso econômico, social e tecnológico sem a atuação de pessoas que decidam empreender e, usando seu capital, criem negócios que empreguem outras pessoas, as quais, não sendo empreendedoras, vendem sua força de trabalho a quem empreende.

Mas, desde a Revolução Industrial e sobretudo hoje, em tempos de mecanização do trabalho e inteligência artificial, eu diria que empresários geram desemprego, na medida em que não hesitam em substituir mão de obra humana por robôs e algoritmos — afinal máquinas e softwares não fazem greve, não pedem aumento de salário, não faltam, não ficam doentes, não tiram férias, não se recusam a cumprir ordens, não demandam encargos trabalhistas, não processam seus patrões…

Como disse o economista escocês Adam Smith, “o padeiro põe o pão na minha mesa todas as manhãs porque faz pão no seu próprio interesse, não no meu”. E o interesse do empresário é um só: o lucro. A lógica do capitalismo é que, na medida em que aufira lucro, o empreendedor também presta um serviço à sociedade, provendo-a com produtos e serviços que de outra forma não existiriam — ou teriam de ser providos pelo Estado, como nos regimes comunistas, o que gera ineficiência e baixa qualidade, além de muitas vezes escassez.

Mas é justamente o fato de que o empresário só produz em razão do lucro o que leva à mentalidade da maximização do lucro a qualquer custo. Nesse sentido, empresários geram empregos, mas também fazem propaganda enganosa para vender mais, usam de seu braço armado, chamado marketing, para nos convencer a comprar o que não precisamos ou para enaltecer as qualidades miraculosas que seus produtos não têm. Pior, aliciam até as indefesas crianças com o chamado “marketing futuro”, visando a moldar desde cedo os futuros consumidores. Empresários anunciam mercadorias a preços que sempre terminam com o algarismo 9 para parecerem mais baratos do que realmente são. Em nome do lucro máximo, empresários nos fazem comer carne com hormônios e antibióticos e verduras com agrotóxicos, além de nos fazerem consumir alimentos ultraprocessados porque são mais lucrativos para eles, não importa quantas doenças eles produzam. Empresários impulsionam nas redes sociais publicações que tenham muito engajamento mesmo que sejam golpes, fake news, discursos de ódio, propagandas falsas ou incentivos à violência e ao terrorismo, afinal like is money. Empresários em geral têm desprezo pelo meio ambiente, visto como um empecilho aos seus empreendimentos, e pelos animais, vistos como mera mercadoria. Se certos pecuaristas dizem adotar tratamento “ético” ao gado, não é por amor aos bichinhos ou respeito à vida e sim por pressão de certos setores mais esclarecidos da sociedade; se dizem adotar medidas de compliance ambiental, é para não perder mercados e não porque se preocupem com o futuro do planeta ou com o mundo que vão legar a seus netos. Aliás, muitas das políticas de sustentabilidade econômica, social e ambiental que as empresas dizem adotar não passam de retórica, isto é, de mais uma estratégia de marketing para capturar os incautos.

Em nome da maximização do lucro, empresários não hesitam em vender produtos que sabidamente fazem mal à saúde sob a alegação do direito de escolha do consumidor. Em certos casos, não hesitam em adicionar componentes que viciam, criam dependência, visando a manter um público consumidor cativo, como é o caso da nicotina nos cigarros, das famigeradas bets para a classe baixa ou das redes sociais para as crianças e adolescentes. Empresários fazem lobbies nos parlamentos (isto é, corrompem parlamentares) para que estes defendam seus interesses, garantindo isenções fiscais ou vetando leis que prejudiquem ou inviabilizem seus negócios. Empresários usam de seu poder econômico para oprimir seus empregados (cinicamente chamados de “colaboradores”) e seus consumidores, obrigando estes a sujeitar-se ao que lhes é oferecido. Se o consumidor tenta reclamar, deve primeiro submeter-se à via crucis do menu eletrônico e suas infinitas opções, dos call centers e seus atendentes gerundistas, dos longos prazos (estipulados pelas próprias empresas) de espera por uma resposta para, ao final, receber uma nota redigida pela assessoria de imprensa dizendo sarcasticamente que ele (consumidor) é muito importante para a empresa, mas que infelizmente sua reclamação não pôde ser atendida ou porque não procede ou por razões técnicas ou porque a lei não o obriga, etc. etc.

Empresários geram empregos, mas também são aqueles que elevam imediatamente o preço do combustível na bomba quando ele sobe na refinaria, mas jamais reduzem o valor no posto quando ele cai na petrolífera. Empresários reduzem o volume da embalagem quando não podem aumentar o preço do produto e assim vendem um litro de 900 ml, um quilo de 950 gramas e um pó de café com mais serragem e menos café. Empresários correm com seus Porsches e outros carros de luxo em vias públicas onde a velocidade máxima é 50 km/h, matando trabalhadores inocentes e pais de família, pois, sendo ricos, estão acima da lei. E se a lei os atinge, sempre existe o famoso jeitinho, não é? Finalmente, empresários patrocinam e financiam um golpe de Estado para destruir a democracia a fim de que um governo de esquerda (mesmo que seja aquele que mais favoreceu o sistema financeiro) assuma o poder. Aliás, grandes corporações influenciam o resultado de eleições no mundo inteiro para que seus interesses econômicos não sejam contrariados.

Verdade seja dita e justiça seja feita, há muitos empresários honestos e éticos, sobretudo os pequenos, e empreender não é fácil, ainda mais no Brasil, com seu cipoal de tributos, normas legais, burocracias e fiscais corruptos. Mas o fato é que a atividade empresarial, cerne do capitalismo, está fundada num dos instintos mais primitivos do ser humano, a ganância, o desejo infinito de poder e de dinheiro, em nome do qual se mata e se morre, destrói-se a sociedade e o planeta, e pensa-se somente em si mesmo e em mais nada.

Impostura científica lá e aqui

A psicóloga social italiana Francesca Gino, professora da Harvard Business School, especialista em ética, criatividade e honestidade no ambiente corporativo, é (ou, pelo menos, era) uma autoridade em sua área, tendo artigos largamente citados e dando consultoria a grandes instituições, como o Banco Mundial, por exemplo. Acontece que desde 2021 vem sendo alvo de denúncias públicas de manipulação de dados em trabalhos assinados por ela em coautoria, sendo que um deles já havia sido retratado (retratação de um trabalho científico é a retirada desse trabalho do periódico em que havia sido publicado e a emissão de um alerta à comunidade científica de que ele não deve mais ser utilizado como fonte bibliográfica).

Em decorrência das denúncias, a Universidade de Harvard realizou uma investigação interna que concluiu que Gino havia adulterado dados em pelo menos quatro artigos. A partir daí, ela foi afastada, impedida de ter acesso ao campus, perdeu seu cargo de professora e ao final foi demitida. Ironicamente, uma especialista em honestidade foi punida por ser desonesta.

Esse caso revela que, em instituições sérias, mesmo um indivíduo de grande prestígio acadêmico pode ser punido se cometer fraude científica. Mas levanta também a questão sobre a eficácia da revisão por pares, que nem sempre é capaz de flagrar inconsistências, erros ou fraudes em artigos submetidos à publicação, e sobre a postura dúbia das universidades em relação a punir seus pesquisadores de maior prestígio mesmo quando suas pesquisas são postas em dúvida.

O caso em questão é emblemático porque mostra a diferença entre a conduta de uma instituição respeitável como Harvard, que não tem medo de cortar na própria carne, e as universidades brasileiras, que fazem vista grossa de fraudes metodológicas cometidas por seus docentes, especialmente na área de Humanas, ou até mesmo as endossam se tais fraudes servirem para confirmar certo viés ideológico com o qual essas universidades compactuam.

Digo isso porque na minha área, a linguística, há inúmeros casos de trabalhos, alguns que até já se tornaram referência entre alunos e pesquisadores, realizados por nomes celebrados no meio acadêmico nacional trazendo afirmações categóricas que são desmentidas pelos dados empíricos, o que revela, no mínimo, a desonestidade intelectual de seus autores.

Seus artigos e livros afirmam, por exemplo, que certas construções sintáticas ou recomendações gramaticais não se usam mais quando as estatísticas mostram que estão em pleno vigor, que no Brasil já se fala uma língua distinta do português quando não há nenhuma evidência material disso, além do que criticam gramáticos normativos com pouco ou nenhum fundamento. A falta de seriedade dessas obras e a tendenciosidade de seus autores é patente. Mesmo assim, eles continuam gozando de prestígio, posando de autoridades no assunto, dando consultorias e entrevistas na televisão e até exercendo cargos no governo. E quem os denuncia é tachado de fascista — aliás, dependendo de quem for o alvo da crítica ou denúncia, pode até mesmo ser acusado de racista ou misógino.

Mas talvez o problema não seja só brasileiro. Há bastante tempo, as ciências humanas perderam sua credibilidade tanto no Norte quanto no Sul Global. Em 1996, o físico Alan Sokal submeteu um artigo propositalmente falso e absurdo chamado “Transgredindo as fronteiras: rumo a uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica” a um prestigioso periódico de ciências sociais chamado Social Text. No artigo, Sokal defendia dentre outras coisas que a gravidade quântica é uma construção social e linguística. O artigo foi aprovado e publicado; três semanas depois, Sokal revelou que o artigo era uma farsa e que fazia parte de um experimento em que ele pretendia provar que “alguns periódicos de humanidades publicarão qualquer coisa, desde que tenha o pensamento esquerdista adequado e seja citado ou escrito por pensadores esquerdistas bem conhecidos” (Paul R. Gross e Norman Levitt, Higher Superstition). Sokal partiu do princípio de que “o que importa é a subserviência ideológica, as referências bajuladoras a escritores desconstrucionistas e a quantidade suficiente do jargão apropriado”. Ele diz:

Os resultados do meu pequeno experimento demonstram, no mínimo, que alguns setores da moda da esquerda acadêmica americana têm se tornado intelectualmente preguiçosos. Os editores da Social Text gostaram do meu artigo porque gostaram da sua conclusão: que “o conteúdo e a metodologia da ciência pós-moderna fornecem um poderoso suporte intelectual para o projeto político progressista”. Aparentemente, eles não sentiram necessidade de analisar a qualidade das evidências, a coerência dos argumentos ou mesmo a relevância dos argumentos para a conclusão pretendida. 

Segundo a Wikipédia:

Após se referir com ceticismo ao “chamado método científico”, o artigo declarou que “está se tornando cada vez mais evidente que a ‘realidade física’ é fundamentalmente uma construção social e linguística”. Prosseguiu afirmando que, como a pesquisa científica é “inerentemente carregada de teorias e autorreferencial”, ela “não pode afirmar um status epistemológico privilegiado em relação a narrativas contra-hegemônicas emanadas de comunidades dissidentes ou marginalizadas” e que, portanto, uma “ciência libertadora” e uma “matemática emancipatória”, desprezando “o cânone da casta de elite da ‘alta ciência’”, precisavam ser estabelecidas para uma “ciência pós-moderna [que] forneça um poderoso suporte intelectual para o projeto político progressista”.

Mais recentemente, os autores Peter Boghosian, James Lindsay e Helen Pluckrose fizeram um experimento semelhante, enviando artigos falsos a periódicos acadêmicos sobre tópicos da teoria social crítica, como estudos culturais, queer, raciais, de gênero, de gordofobia e de sexualidade para ver se eles passariam pela revisão por pares e seriam aceitos para publicação. Quatro desses artigos foram publicados. Segundo os autores, “desenvolveu-se uma cultura na qual apenas certas conclusões são permitidas e que coloca queixas sociais à frente da verdade objetiva”.

O fato é que a chamada filosofia pós-moderna tem feito um grande estrago nas ciências humanas, substituindo a cientificidade pela ideologia a partir do postulado (falso) de que tudo, absolutamente tudo, até as leis da física, é uma construção social — e mais, uma construção branca, judaico-cristã, ocidental, capitalista, colonialista, heteronormativa e cisgênero. Ideias como a de que a nossa gramática normativa é opressora por ser produto de uma elite burguesa e de que, portanto, ela deve ser substituída pelo uso supostamente culto das classes mais favorecidas, embora os dados (ver INAF 2024) desmintam seu “alto” grau de letramento e cultura, são o produto desse caldo de cultura que se baseia não em fatos, por mais desconfortáveis que eles pareçam, e sim em dogmas ideológicos sempre mais reconfortantes. Mas, como disse Bertrand Russell:

Ao estudar qualquer assunto ou considerar qualquer filosofia, pergunte-se apenas quais são os fatos e qual é a verdade que eles comprovam. Nunca se deixe desviar pelo que você gostaria de acreditar ou pelo que você acha que teria efeitos sociais benéficos se se acreditasse. Olhe apenas, e unicamente, para os fatos.

Verdades inconvenientes

Existem certas verdades que todos — ou quase todos — conhecemos e sabemos que são de fato verdades, mas que, no entanto, não podemos afirmar publicamente sob pena de censura, cancelamento ou mesmo punição legal. Comentamos essas verdades entre amigos, familiares, colegas de trabalho (dependendo de onde trabalhamos, é claro!), mas jamais podemos expô-las num veículo ou evento públicos, como um blog, site, entrevista, palestra ou reunião. Sobretudo de algumas décadas para cá, criou-se no mundo ocidental uma espécie de verdades oficiais incontestáveis que todos os órgãos de imprensa reproduzem e os políticos das mais diversas colorações ideológicas defendem — uns por acreditar (ou fingir acreditar) realmente nessas “verdades”, outros por medo de contrariá-las e assim perder votos ou prestígio. Há verdades que não podem ser ditas — a menos que se aceite pagar o alto preço da desonra e do linchamento moral.

Muitas vezes, especialmente na esfera das políticas públicas, insiste-se num falso diagnóstico de certos problemas, que leva inevitavelmente à proposição de falsas soluções, porque a verdadeira causa do problema não pode ser apontada abertamente já que ela pode não ser politicamente correta. Como resultado, as soluções apresentadas jamais resolvem o problema, e aí culpa-se aquilo ou aqueles que não são os verdadeiros responsáveis, ou o são apenas em parte. Mexe-se no que pode ser mexido, mas há sempre algo “imexível”, algo que, por ser uma verdade sagrada, um dogma inquestionável, não pode ser tocado, pois, por definição, não é ali que está o problema — embora esteja.

Circulam entre nós certas verdades inconvenientes, que todos nós sabemos que são verdades, alguns de nós fingem que são mentiras, mas ninguém ousa sustentar publicamente. A situação assemelha-se muito ao clima daquelas ditaduras em que todos os cidadãos sabem que vivem sob o jugo de um tirano cruel e sanguinário, mas, temendo pela própria vida, o saúdam como o mais justo e generoso dos líderes. Há uma anedota dos tempos da China comunista de Mao Tsé-Tung (mas parece que a situação lá não é muito diferente hoje em dia) em que um cidadão ocidental pergunta a um chinês: “Como vai a situação política aí na China?” Ao que o chinês responde: “Não posso me queixar.”

Qual é a pronúncia correta do sobrenome do papa?

A recente eleição do cardeal americano-peruano Robert Francis Prevost como papa Leão XIV acendeu uma polêmica: como se pronuncia o sobrenome Prevost? Desde que a fumacinha branca saiu da chaminé da Capela Sistina, temos ouvido os jornalistas e seus entrevistados pronunciarem esse nome das mais diversas maneiras: prévost, prevóst, prevôst, prevôs, prevous… O próprio papa afirmou que pronuncia seu sobrenome como prevôs. Mas será essa a pronúncia correta? Meu sobrenome é Bizzocchi, de origem italiana, e sua pronúncia em italiano é bidzóqui, mas eu próprio pronuncio bizóqui para não soar afetado. Portanto, a pronúncia do papa não é garantidamente a mais correta, visto que ele é falante nativo da língua inglesa e seu sobrenome não é inglês.

Na verdade, esse sobrenome é de origem francesa e corresponde à antiga grafia do substantivo prévôt, que significa “preboste”, do latim praepositus, “preposto”. E o que é um preboste? E um preposto? Segundo a Wikipédia:

Preboste era um agente do senhor feudal ou do Rei, encarregado de ministrar justiça e gerir a propriedade que lhe era confiada, na Idade Média e durante o Antigo Regime.
Passou depois a designar um magistrado ou oficial responsável pela manutenção da lei e da ordem dentro do Exército. Hoje, em alguns exércitos é a designação do comandante ou do próprio serviço de polícia militar.
Esta função foi instituída pelo Rei Salomão.
[…]
No Brasil o termo preposto designa aquele quem tem poderes substabelecidos por um outorgante para o representar e defender em causas judiciais. Muito utilizado nas demandas da Justiça do Trabalho, conforme estabelecido nos artigos 483; 630; 843, §1º; 861, todos da CLT – Consolidação das Leis de Trabalho.
No Exército Português, até 1984, existiu um órgão central de direção de Polícia Militar/Polícia do Exército, denominado como Chefia do Serviço de Preboste, subordinado ao chefe do Estado-Maior do Exército, cuja função foi atribuída à Direção da Arma de Cavalaria em julho de 1984.

Portanto, a pronúncia correta de Prevost é prevô, pois, mesmo antes da reforma ortográfica que transformou prevost em prévôt, o s e o t já eram mudos. Da mesma forma como pronunciamos os sobrenomes portugueses Baptista e Assumpção como Batista e Assunção, o nome Prevost, mesmo grafado à moda antiga, deve ser pronunciado tal qual se fala hoje em dia.

Então, a partir de agora vocês já sabem: o nome do papa é prevô! Comecem a pronunciar assim e, se for o caso, corrijam seus amigos e familiares. Assim, dentro em breve todos estarão dizendo esse sobrenome corretamente.

Quando a fama vem pelo motivo errado

Certa vez, o escritor e humorista Luís Fernando Veríssimo afirmou que o pior tipo de fama é quando se fica famoso pelo motivo errado. Pois é mais ou menos o que está acontecendo comigo agora (não que eu esteja ficando famoso, ainda não cheguei lá, mas me aguardem!).

É que em 2017 publiquei numa revista internacional um artigo científico chamado How many phonemes does the English language have? (“Quantos fonemas tem a língua inglesa?”), no qual eu sustentei (e provei) que, contrariamente ao que dizem os manuais de fonologia da língua inglesa, o inglês tem 35 fonemas e não 44. O caso é que esses manuais consideram como fonemas distintos o que são na verdade alofones, isto é, variantes combinatórias, dos mesmos fonemas. Também consideram ditongos como se fossem uma única unidade, sendo que eles podem perfeitamente ser decompostos em uma vogal e uma semivogal. Nesse sentido, o modelo de sistema fonológico que propus é mais simples, mais lógico e obedece mais rigorosamente aos critérios de identificação de fonemas postulados pela fonologia clássica.

Esse artigo tem tido muitas citações (só no Google Acadêmico são 35 até agora), o que deveria me deixar muito feliz, afinal não é fácil um pesquisador latino-americano ter um artigo falando sobre a língua inglesa citado por pesquisadores de diversas partes do mundo, inclusive de países de língua inglesa. No entanto, em quase todos os artigos que citam meu trabalho o que se lê é algo do tipo “Segundo Bizzocchi (2017), a língua inglesa possui 44 fonemas”. Ou seja, estão me creditando por afirmar algo que eu não só não afirmei como ainda disse que está errado!

O que eu digo logo no início do resumo do artigo é:

Most phonology textbooks claim that the phonological system of the English language is composed of 44 phonemes, of which 24 are consonants (actually, two are semivowels) and 20 are vowels. Yet, this number results of a misinterpretation of the English vowel system, since several authors consider clusters of sounds (diphthongs and pseudo triphthongs) as single phonemes, as well as combinatorial allophones of the same phoneme as distinct phonemes.

Ou, traduzido em bom português:

A maioria dos manuais de fonologia afirma que o sistema fonológico da língua inglesa é composto de 44 fonemas, dos quais 24 são consoantes (na verdade, dois são semivogais) e 20 são vogais. No entanto, esse número resulta de uma interpretação errônea do sistema vocálico inglês, uma vez que vários autores consideram grupos de sons (ditongos e pseudotritongos) como fonemas únicos, bem como alofones combinatórios do mesmo fonema como fonemas distintos.

Parece que os autores que citam meu artigo não se dão ao trabalho de ler o resumo inteiro (que dirá o trabalho inteiro!), mas restringem-se à primeira oração do parágrafo: “A maioria dos manuais de fonologia afirma que o sistema fonológico da língua inglesa é composto de 44 fonemas”. Conclusão: estou ficando conhecido no meio científico internacional por ter afirmado algo que estou justamente contestando. E com provas. Isso me faz desacreditar da eficácia da ciência em produzir conhecimento verdadeiro. Não por culpa da própria ciência, que, a meu ver, é o método mais seguro de que a humanidade dispõe para chegar o mais próximo possível da verdade, e sim por culpa de maus pesquisadores, que sequer entendem o que leem e propagam informações falsas que outros pesquisadores, igualmente incautos, aceitarão como verdadeiras e passarão adiante.

O processo industrialmente frenético com que são produzidos hoje os papers acadêmicos, inclusive com a ajuda da Inteligência Artificial (isso quando não é ela que redige 100% do artigo), por força de uma pressão institucional das universidades, que querem a todo custo elevar seus índices de produtividade, e das editoras científicas, para quem quanto maior a quantidade de publicações, maior o lucro, tem gerado trabalhos científicos sem nenhuma qualidade e, o que é pior, com resultados altamente questionáveis, quando não absolutamente falsos.

Essa industrialização do trabalho científico leva ao descrédito da ciência junto à opinião pública para alegria dos negacionistas, dos terraplanistas, dos antivacinistas, dos criacionistas, dos trumpistas, dos bolsonaristas… E eu, defensor ferrenho do método científico, corro o risco de ficar com a pecha de disseminador de fake news científicas. Durma-se com um barulho desses! Ou, como se diz por aí: seria cômico se não fosse trágico.

Quando alguns são mais iguais do que os outros

Há um dito jocoso, atribuído a George Orwell em seu romance A revolução dos bichos, que diz: “todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Pois nos últimos tempos instalou-se nas sociedades ocidentais uma mentalidade segundo a qual pessoas pertencentes a minorias, especialmente os pobres e os negros (que no nosso país estão longe de ser minoria), podem descumprir as leis sem que nada lhes aconteça.

Por exemplo, um grupo de moradores da periferia pode, nos fins de semana, especialmente à noite, fechar uma rua, impedindo o livre trânsito dos cidadãos e cerceando seu direito de ir e vir, para promover um baile funk ou pancadão e pode perturbar o sossego dos moradores da vizinhança e impedi-los de dormir — sem falar no tráfico e consumo de drogas, aliciamento de menores, estímulo à prostituição, presença de veículos roubados, etc. —, tudo isso com o apoio e o aplauso de certos políticos e sem que o poder público possa reprimi-los. Afinal, funk é cultura, certo? Afinal, os jovens da periferia não têm outra forma de lazer, certo? Afinal, a polícia, se tenta fazer cumprir a lei, é truculenta, certo?

Se um branco ofende um negro com base na cor de sua pele, pode ser preso sem direito a fiança ou prescrição de sua pena, mas se um negro ofende um branco com base na cor de sua pele, nada acontece, afinal não existe racismo reverso, certo? Pelo menos, esse é o entendimento do nosso Poder Judiciário.

Vivemos numa sociedade em que algumas pessoas podem aceder a vagas na universidade ou no serviço público sem ter mérito suficiente, passando assim à frente de outras pessoas mais qualificadas, apenas pela cor da pele ou pela situação socioeconômica. Vivemos numa sociedade em que alguns grupos têm certos privilégios, como se outros grupos lhes devessem algo, e esses privilégios, mesmo quando injustos ou ainda que um dia não sejam mais necessários, jamais serão revogados, pois “conquistas sociais” não podem retroceder, certo?

Quando certa mentalidade vigente, ainda mais tornada lei, divide os cidadãos entre “nós” e “eles” e estabelece que alguns são mais iguais do que os outros, é o início do esgarçamento do tecido social, com toda sorte de ressentimentos, que é a raiz dos discursos de ódio, da polarização política e do rompimento das relações entre amigos, entre familiares, entre colegas de trabalho, e ao resultado de tudo isso estamos assistindo hoje no país e no mundo.

Sobre J. K. Rowling e o wokismo

Não gosto da saga Harry Potter, considero-a subliteratura, mesmo que destinada ao público infanto-juvenil, mas admiro a coragem de sua autora, a britânica J. K. Rowling, em posicionar-se contra a cultura woke, ou identitarismo (ou mimimismo, como eu costumo chamá-la), ou ainda cultura do cancelamento, um movimento liderado por elites intelectuais brancas, principalmente acadêmicos e jornalistas, supostamente em favor de minorias. Muitas dessas minorias, por sinal, não se sentem representadas por essas elites, que usurparam suas bandeiras e suas dores e que não lutam por justiça social — embora digam que sim —, senão pelo poder. A elite wokista já é maioria nas universidades, na mídia, no show business e mantém seu poder por meio de negacionismo e desinformação científica, sobretudo etimológica, bem como pela censura e pelo linchamento moral de quem dela discorda.

Antes de qualquer coisa, um esclarecimento: não sou de direita; tenho horror a Donald Trump e Jair Bolsonaro; rompi com familiares por seu posicionamento reacionário e golpista. Mas tampouco sou de esquerda; abomino sobretudo os identitaristas e sua postura de donos da verdade, monopolistas da pureza e palmatória do mundo, seu cinismo de condenar a extrema-direita por fazer aquilo que eles próprios fazem.

Leiam o que J. K. Rowling disse.

“Essa ideia de ‘por que você se importa com uma fração minúscula da população?’ é, e sempre foi, completamente ridícula.

A ideologia de gênero minou a liberdade de expressão, a verdade científica, os direitos dos gays e a segurança, privacidade e dignidade de mulheres e meninas. Também causou danos físicos irreparáveis a crianças vulneráveis.

Ninguém votou nisso, a vasta maioria das pessoas discorda, mas ainda assim foi imposto de cima para baixo por políticos, órgãos de saúde, acadêmicos, partes da mídia, celebridades e até pela polícia. Seus ativistas ameaçaram e cometeram atos de violência contra aqueles que ousaram se opor. Pessoas foram difamadas e discriminadas por questioná-la. Empregos foram perdidos e vidas arruinadas, tudo pelo ‘crime’ de saber que o sexo é real e importa.

Quando a poeira baixar, ficará mais do que evidente que isso nunca foi sobre uma suposta minoria vulnerável, apesar do fato de algumas pessoas realmente vulneráveis terem sido prejudicadas. As dinâmicas de poder que sustentam nossa sociedade foram reforçadas, não desmontadas. As vozes mais influentes durante todo esse fiasco vieram de pessoas protegidas das consequências por sua riqueza e/ou status.

Elas não correm o risco de acabar presas em uma cela com um estuprador de 1,90 metro que agora se chama Dolores. Não precisam de centros públicos de atendimento a vítimas de estupro, nem frequentam os provadores de lojas populares. Elas sorriem em sofás de programas de TV enquanto falam sobre aqueles ‘horríveis extremistas de direita’ que não querem pênis balançando nos chuveiros das meninas, seguras de que suas piscinas particulares continuam sendo os refúgios seguros de sempre.

Os maiores beneficiados pela ideologia de identidade de gênero foram homens, tanto os que se identificam como trans quanto os que não. Alguns foram recompensados por seu fetiche de vestir roupas femininas com acesso a todos os espaços antes reservados às mulheres. Outros transformaram seu conveniente novo status de vítima em uma desculpa para ameaçar, agredir e assediar mulheres.

Homens de esquerda que não se identificam como trans encontraram uma plataforma magnífica para exibir suas credenciais progressistas, zombando das necessidades de mulheres e meninas, enquanto se dão tapinhas nas costas por ceder direitos que não são deles.

As verdadeiras vítimas desse caos foram mulheres e crianças, especialmente as mais vulneráveis, além de pessoas gays que resistiram ao movimento e pagaram um preço horrível, e pessoas comuns que trabalham em ambientes onde um pronome errado pode levar à humilhação pública ou à demissão.

Não me digam que isso é sobre uma minoria vulnerável. Esse movimento impactou a sociedade de formas desastrosas, e se você tiver um pouco de juízo, estará silenciosamente apagando cada traço de mantras ativistas, ataques ad hominem, falsas equivalências e argumentos circulares de suas redes sociais, porque está se aproximando o dia em que você vai querer fingir que sempre viu através dessa loucura e nunca acreditou nela por um segundo sequer.”

Será que voltamos aos anos 1930?

Diz um certo ditado que quem não conhece a história corre o risco de repeti-la. Pois o momento atual me lembra muito o vivido pela humanidade no início dos anos 1930. Precisamente em 1933, Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha pelo voto popular. Sim, o Partido Nazista venceu as eleições democraticamente! Com uma plataforma populista e elegendo os judeus como os grandes inimigos da nação, responsáveis por todo o mal que se abatia sobre os alemães, Hitler conquistou a maioria no parlamento, tornou-se chanceler, acumulou o cargo de presidente da república e, uma vez eleito democraticamente, seu primeiro ato foi acabar com a democracia na Alemanha. A tragédia humanitária e o desastre político que se seguiram todo mundo conhece. Almejando criar a “Grande Alemanha”, Hitler anexou a Áustria, a parte da Tchecoslováquia que falava alemão, depois invadiu a Polônia e deu início à mais sangrenta de todas as guerras.

Corta para 2025. Com um programa de governo igualmente populista, Donald Trump elege-se presidente dos Estados Unidos mirando nos imigrantes ilegais como os grandes inimigos, a causa de todos os males que afligem a América. Em seu sonho megalomaníaco, deseja tornar seu país grande novamente e, para isso, ameaça anexar a Groenlândia, o canal do Panamá e quem sabe até o Canadá inteiro. Assim como Hitler odiava judeus, ciganos, latinos, negros, deficientes físicos, homossexuais, Trump demonstra desprezo por negros, gays, latino-americanos… Assim como Hitler desprezava a ciência (a menos que ela servisse a seus intentos bélicos), Trump é um negacionista da ciência, embora disposto a investir milhões em inteligência artificial, produto inequívoco da ciência, evidentemente para atender a seus propósitos estratégicos e militares.

Mas por que figuras tão nefastas como Hitler e Trump são eleitas pelo voto popular? E não só eles: Hugo Chávez e seu discípulo Nicolás Maduro chegaram ao poder via eleições — Maduro procura legitimar-se no poder com base numa eleição fraudada —; o tirano sírio recém-deposto Bashar al-Assad também, assim como o ditador Vladimir Putin. Atualmente, os grandes déspotas não tomam o poder por um golpe de Estado e sim pelo voto popular, invariavelmente com uma plataforma populista e demagógica e promessas sedutoras embora irrealizáveis. E chegam ao poder porque a maioria dos eleitores, formada por aquilo que Bertolt Brecht chamou de “analfabetos políticos”, acredita neles. Descontentes com um governo fraco, que não consegue resolver seus problemas, votam num governo que promete ser forte para enfrentar esses problemas, mas que, uma vez no poder, torna-se ele próprio o problema.

É triste constatar, mas a democracia permite que isso aconteça porque a democracia é o governo da maioria, e as maiorias costumam ser burras. Seja em questões estéticas ou políticas. A maioria das pessoas consome informação de forma acrítica, aprecia todo tipo de lixo cultural, não distingue fato de boato, quer soluções imediatistas e sobretudo prioriza seus próprios interesses pessoais em detrimento do bem maior da coletividade. Foram maiorias “democráticas” que crucificaram Jesus, que condenaram Sócrates à morte e que elegeram Mussolini e Hitler.

O grande problema da democracia é que ela permite que grupos e partidos explicitamente antidemocráticos, como foi no passado o Partido Nazista e como são hoje a Alternativa para a Alemanha ou a Reunião Nacional francesa, bem como partidos igualmente extremistas de esquerda, participem da vida política institucional, concorram em eleições, elejam seus representantes e, ao fim e ao cabo, assumam o poder nacional. Parece um contrassenso, mas as constituições dos países democráticos não proíbem que partidos antidemocráticos disputem eleições — em suma, a democracia permite sua própria destruição.

Se Trump invadir o Panamá para retomar seu canal sob o silêncio amedrontado dos demais países, assim como a Europa se calou quando Hitler anexou a Áustria e a Tchecoslováquia, sua sanha imperialista não terá fim. Ou, pior, se Trump levar a cabo suas intenções expansionistas sobre a Groenlândia, possessão da Dinamarca, ou sobre o Canadá, membros da Otan, teremos uma guerra mundial entre aliados, para alegria de Putin, que verá seus potenciais inimigos digladiando-se entre si. Aliás, o ditador russo se sentirá à vontade para não só conquistar toda a Ucrânia como, quem sabe, toda a Europa.

Posso estar sendo apenas pessimista, mas a conjuntura atual se assemelha muito à do início dos anos 1930. E todos sabemos como terminou essa história. Com a única diferença de que os nazistas não tinham armas nucleares.

Inteligência ou burrice artificial?

Meu leitor Maurício Terra Dias pediu ao ChatGPT que escrevesse uma matéria crítica sobre a minha obra. Alguns excertos da resposta são os seguintes:

Aldo Bizzocchi, embora não seja amplamente reconhecido no circuito artístico mainstream, representa uma figura de significativa importância dentro do contexto da arte contemporânea, principalmente no que diz respeito à arte brasileira. Sua obra, marcada por uma abordagem multifacetada, transita entre o abstrato e o figurativo, o pictórico e o tridimensional, explorando as potencialidades da forma, da cor e da textura. No entanto, sua produção não se limita apenas ao campo visual: Bizzocchi insere questões filosóficas e existenciais em seu trabalho, criando um diálogo constante entre o concreto e o metafísico. […] Uma das características mais marcantes da obra de Bizzocchi é a reflexão sobre a condição humana. Ele utiliza suas peças como uma espécie de laboratório visual para investigar a fragilidade da existência, as tensões entre o ser e o não ser, e a busca por sentido em um mundo muitas vezes marcado pela incerteza e pelo caos. […] A técnica adotada por Bizzocchi também é digna de destaque. O artista se utiliza de materiais inusitados, entre eles a escultura e o desenho, para construir peças que provocam tanto a percepção tátil quanto a visual. […] Ele não tem medo de mergulhar no experimental, desafiando o espectador a sair da zona de conforto e repensar sua percepção estética. […] Uma crítica que pode ser feita à obra de Aldo Bizzocchi é a sua complexidade. […] O trabalho do artista exige paciência, atenção e um certo grau de envolvimento do espectador, o que pode ser desafiador para quem está acostumado com a superficialidade da arte de consumo rápido. […] Ele não está preocupado em agradar ou em se encaixar em tendências; sua arte é antes um reflexo de sua própria visão de mundo. […] Aldo Bizzocchi, com sua arte imersiva e muitas vezes desconcertante, é uma figura essencial no panorama da arte contemporânea. Sua capacidade de transformar o abstrato em algo visceral e de forçar o espectador a uma experiência sensorial e filosófica ao mesmo tempo é o que faz sua obra relevante. […] Mais do que um artista que se insere em uma tradição ou tendência, Bizzocchi é um criador de universos, um reflexo da busca constante pela transcendência e pelo entendimento de um mundo em constante transformação.

Confesso que fiquei lisonjeado com resenha tão elogiosa — exceto pelo fato de que eu não sou nem nunca fui artista plástico e minha única incursão no mundo das artes foram alguns poemas que escrevi muito tempo atrás.

Segundo Maurício, a resposta da Meta AI à mesma pergunta foi ainda mais estranha. E, ao trocar o meu nome pelo dele, saiu uma lenga-lenga enorme sobre sua influência como artista revolucionário.

Mas ele também fez testes pedindo uma análise crítica sobre a obra do neto de um amigo que tem três anos de idade. E pediu ainda uma comparação entre as ideologias de Karl Marx, Groucho Marx, Roberto Burle Marx, Armando Marques e Gabriel García Marques. Resultado: mais um monte de blá-blá-blá sem nexo e, pior, sem relação com a realidade.

Evidentemente, como assinala Maurício, existe uma enorme quantidade de inteligência envolvida na produção de respostas por esses aplicativos. O problema é que eles deliram e inventam informações que absolutamente não correspondem à verdade. Seria cômico se não fosse trágico. Basta imaginar a quantidade de estudantes de todos os níveis utilizando esses aplicativos de IA para fazer trabalhos escolares.

Em tempos de pós-verdade, em que o que importa não são os fatos e sim as versões, tese defendida tanto por Trump e os bolsonaristas quanto pela esquerda identitária, programas como o ChatGPT e a Meta AI caem como uma luva. Diante de tão honrosa análise crítica de minha obra, agora só falta eu expor meus quadros em alguma galeria famosa — quando eu pintar algum, é claro.