Sobre os textos de Marcio Esteves que ninguém (ninguém?) lê

Meu amigo de Facebook Marcio Esteves publicou há dois ou três dias uma crônica-desabafo que expressa bem o absurdo do tempo que vivemos, turbinado pelo veneno das redes sociais. Eis o texto:

Sobre meus textos que ninguém lê…

Quando a política vira religião, o diálogo se torna heresia: o ad hominem e a cegueira moral do nosso tempo.

Nos últimos meses, uma nova leva de países — Canadá, Austrália, Irlanda, Noruega e Espanha, entre outros — reconheceu formalmente o Estado Palestino. Trata-se de um movimento diplomático que pretende, em tese, reforçar a solução de dois Estados. No entanto, esse reconhecimento foi feito sem condições prévias, mesmo com o Hamas ainda controlando Gaza, o que o transforma, inevitavelmente, em um ato politicamente delicado.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reagiu com veemência. Segundo ele, reconhecer um Estado palestino governado pelo Hamas equivale a premiar o terrorismo — um gesto que, em suas palavras, “recompensa o ódio e a tentativa de destruir os judeus”. Ele lembrou ainda que, após os ataques de 7 de outubro de 2023, cerca de 90% da população palestina teria festejado nas ruas, subido em telhados e distribuído doces — uma tradição do Oriente Médio para comemorar eventos considerados vitoriosos.

Não é necessário ser admirador de Netanyahu para reconhecer que seu argumento possui consistência lógica. Nenhum líder israelense — seja de direita ou de esquerda — pode se dar ao luxo de ser leniente com um grupo cuja razão de existir é o extermínio dos judeus. Essa é uma linha vermelha que ultrapassa governos e ideologias.

Dito isso, é importante frisar: não gosto de Netanyahu. Vejo nele um político de viés autoritário, alinhado a uma direita religiosa e messiânica, que já comprometeu a democracia israelense com reformas judiciais regressivas e discursos divisionistas. Acredito sinceramente que ele deveria renunciar e permitir a ascensão de novas lideranças.

Mas uma coisa é sua política interna; outra, muito diferente, é a validade factual de um argumento. E é exatamente aqui que começa o problema mais profundo — o ad hominem moral e ideológico que domina o debate público atual.

Hoje, verdades deixam de ser aceitas não por serem falsas, mas por terem sido ditas pela pessoa “errada”. A lógica do tribalismo político passou a substituir o pensamento crítico. Em vez de analisarmos o conteúdo, julgamos o emissor; em vez de ponderarmos ideias, medimos lealdades.

Essa inversão ficou visível recentemente na ONU, quando um número expressivo de líderes mundiais virou as costas e deixou o plenário enquanto Netanyahu discursava. Vocês já viram algo parecido acontecer, por exemplo, com representantes do regime islâmico do Irã, responsável por execuções públicas e repressão brutal a mulheres e dissidentes? Ou com regimes sabidamente genocidas, como o da Nigéria, que permanece calado diante do massacre de milhares de cristãos por grupos islâmicos radicais?

Não. Vocês jamais verão isso. Esse tipo de repulsa diplomática seletiva parece reservado apenas ao representante de Israel, independentemente do que ele diga.

Esse é o retrato mais nítido do nosso tempo: não se trata mais de buscar a verdade, mas de punir quem a diz.

O psicólogo social Jonathan Haidt descreve esse fenômeno em The Righteous Mind: o ser humano moderno raciocina menos para descobrir a verdade e mais para defender a tribo à qual pertence. Quando a política vira religião, o diálogo se torna heresia.

O resultado disso é um empobrecimento brutal do debate público. As redes sociais se tornaram o campo perfeito para esse adestramento mental. Basta olhar para qualquer postagem sobre Israel: se o autor é visto como “de direita”, será acusado de genocida; se é “de esquerda”, será taxado de antissemita. O que se perde nesse jogo é justamente o direito de pensar fora das etiquetas — e o direito de dizer algo verdadeiro sem ser linchado por isso.

Percebo isso, inclusive, nas minhas próprias publicações. Quando escrevo sobre política brasileira, as reações são intensas; mas, quando o tema é Israel, mesmo aplicando a mesma lógica e o mesmo rigor, os engajamentos caem a níveis ínfimos. É como se o mero fato de tocar nesse assunto acionasse uma repulsa automática, não racional.

E é aí que reside o perigo. Porque quando a verdade passa a depender de quem a enuncia, ela deixa de ser verdade e vira opinião de grupo. E quando a opinião de grupo se torna critério moral, o diálogo morre — e com ele, a própria democracia.

Vivemos tempos em que o ad hominem não é mais apenas uma falácia lógica. É uma estrutura de pensamento. Uma brutalidade contra a razão, um esvaziamento da escuta e um sintoma grave da nossa regressão intelectual.

P.S. 1 — “Ad hominem” é uma das falácias clássicas do raciocínio argumentativo. Consiste em atacar a pessoa que formula uma ideia, em vez de discutir a ideia em si. É uma forma de desviar o foco do conteúdo para o emissor, substituindo a razão pelo preconceito intelectual.

P.S. 2 — Hoje o Hamas atacou um ônibus em Israel e matou seis israelenses inocentes que se dirigiam a seus trabalhos ou levavam filhos à escola.

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