Justiçamento de palavras

Logo após o golpe de Estado de 1964, que implantou no Brasil o regime militar — na verdade uma ditadura de militares com massiva colaboração de políticos e empresários de direita e extrema-direita —, muitos grupos de esquerda e sobretudo de extrema-esquerda, que já vinham planejando impor ao país uma outra ditadura, a “do proletariado”, aproveitaram a ocasião para lançar-se à luta armada contra o novo regime sob a alegação de que estavam defendendo a democracia. Na guerra suja em que se transformou o combate entre as forças do governo militar e seus opositores, classificados como subversivos e guerrilheiros, valia de tudo. Do lado governista, houve a implantação do Ato Institucional n.º 5, o famoso AI-5, que dava às autoridades militares e policiais o poder de censurar órgãos de imprensa e manifestações artísticas, bem como de prender, torturar e matar qualquer cidadão sob a suspeita de colaborar ou simplesmente simpatizar com grupos ou movimentos revolucionários, sem direito ao devido processo legal — na verdade, sem direito até a um sepultamento digno, visto que os corpos dos executados desapareciam sem deixar vestígios.

Do lado dos guerrilheiros esquerdistas, havia assaltos a bancos para financiar os “aparelhos”, nome dado aos grupos subversivos, havia sequestros de figuras públicas, inclusive estrangeiras (o sequestro do embaixador americano ficou particularmente famoso), ataques a bomba a prédios públicos e atentados à vida de pessoas supostamente ligadas ao governo militar ou simpáticas a ele. E havia também os chamados “justiçamentos”, execuções sumárias de membros das próprias falanges de esquerda acusados de traição à causa revolucionária mediante a mera suspeita de que fossem agentes duplos, igualmente sem direito à defesa, sem provas concretas e sem nenhum drama de consciência.

É claro que as condições em que operavam tanto os militares quanto seus opositores eram de guerra (uma guerra secreta, não noticiada pela imprensa, amordaçada pela censura), portanto não havia como promover um julgamento justo dos suspeitos de colaborar seja com o regime seja com a guerrilha. Logo, a execução sumária era uma medida extrema, porém justificada: era preferível matar um inocente a permitir que o inimigo continuasse conspirando.

Portanto, justiçamento é a justiça feita com as próprias mãos, à margem do sistema institucional e, por óbvio, sem cumprir os requisitos do devido processo legal, consubstanciados em três princípios básicos:

  1. todo acusado tem direito à ampla defesa e ao contraditório;
  2. todo réu é inocente até que se prove a sua culpa (é a chamada presunção de inocência); e
  3. o ônus da prova cabe à acusação e não à defesa.

Por que estou aludindo a esses fatos? É que, de algum tempo para cá, os movimentos identitários, de negros, gays, trans, mulheres e outras “minorias”, herdeiros e sucedâneos dos esquerdistas que, nas décadas de 1960 e 70 sonharam transformar o Brasil numa república popular, eufemismo para ditadura comunista, passaram a praticar o justiçamento de palavras, acusando-as de racismo, machismo, homofobia, etc., julgando-as, condenando-as e executando-as na forma de censura e banimento do léxico da língua portuguesa com base única e exclusivamente em sua própria percepção subjetiva, isto é, na mera suspeita de que tais vocábulos sejam de fato criminosos.

Palavras e expressões como denegrir, criado-mudo, travestido, mulato, hombridade, meia tigela, nas coxas não têm tido direito à ampla defesa e ao contraditório; seus advogados, no caso, os etimólogos e os lexicólogos, têm sustentado em vão que algumas dessas palavras e expressões jamais tiveram origem em preconceitos de raça, gênero ou orientação sexual, assim como outras, que até podem ter tido tal origem, não carregam mais o significado ou a conotação discriminatória original há séculos e que, portanto, ninguém mais as emprega em sentido pejorativo ou ofensivo. Os especialistas na história e na semântica das palavras simplesmente não são ouvidos; por vezes, são até alvo de acusações vazias e desprovidas de fundamento, como a de que estariam a serviço da burguesia opressora e da “zelite dominante”.

Em segundo lugar, não tem sido concedido a tais vocábulos e locuções o direito à presunção de inocência, o benefício da dúvida, o in dubio, pro reo do Direito romano. Uma vez acusadas pelo tribunal identitário, são imediatamente declaradas culpadas, mesmo sem provas conclusivas. E é preciso dizer que, na pesquisa etimológica, em que os vestígios da história de uma palavra não raro são apagados pelo tempo, em muitos casos não há como provar nem que um certo termo tenha origem discriminatória nem que não tenha. E é aí que entra o benefício da dúvida, a presunção de inocência. Parece que em julgamentos justiceiros e não justos, é preferível condenar o inocente a absolver um possível culpado: in dubio, contra reo.

Por fim, a acusação, a quem deveria caber o ônus da prova, neste caso nada precisa provar: se eu sou negro, ou homossexual, ou transexual, ou não binário, ou mulher, ou nordestino, ou deficiente, ou…, e me sinto incomodado com tal ou qual expressão, minha palavra basta. Na corte de justiça(mento) identitária, a opinião vale mais do que o fato, a emoção conta mais do que a razão, o entendimento do leigo pertencente a uma minoria (ou demagogicamente apoiador dela) tem mais peso que o parecer do especialista, e a turba ignara que vibra diante de linchamentos, sejam eles físicos ou morais, entusiasticamente noticiados pela mídia policial ou celebrados pelas patrulhas culturais e ideológicas, sente-se recompensada, pois esses movimentos policialescos da linguagem estão seguramente contribuindo para construir uma sociedade mais justa. Ou talvez mais justiceira.

Por que os estúpidos sempre ganham a discussão?

Você já notou que, enquanto os sábios sempre têm muitas dúvidas, as pessoas estúpidas são sempre cheias de certezas e se comportam como donas da verdade? Elas geralmente falam em tom professoral e por vezes têm uma atitude arrogante, de quem acha que estúpidos são os outros — especialmente os que discordam delas.

Livros e palestras de autoajuda são em geral um amontoado de bobagens, mas outro dia assisti a um vídeo em que um coach dividiu os saberes em quatro categorias: as coisas que sabemos que sabemos, as coisas que sabemos que não sabemos, as coisas que não sabemos que sabemos e as coisas que não sabemos que não sabemos.

Em seu livro A ilha do conhecimento, o físico brasileiro Marcelo Gleiser compara metaforicamente nosso saber a uma ilha cercada pelo oceano da ignorância. Quanto mais pesquisamos e aprendemos, maior fica a área dessa ilha. Mas, conforme a ilha se expande em superfície, também cresce o comprimento de sua orla. Em outras palavras, quanto mais sabemos, mais nos damos conta do quanto ainda falta saber. Quanto mais conhecimento acumulamos, mais dúvidas e perguntas temos sobre o que não conhecemos. A postura do sábio é exatamente esta: o que sei é pouco, o que ignoro é muito. Ou, como disse Sócrates, “só sei que nada sei”. Embora pareça um paradoxo, a frase do filósofo grego mostra que ter a consciência de nada saber já é um saber. Portanto, quem nada sabe, mas sabe que não sabe, sabe alguma coisa.

O problema dos imbecis é que sua “ilha do conhecimento” é tão pequena, em alguns casos tão resumida a um único pontinho no oceano, que o litoral de ignorância dessa ilha também é ínfimo. E, das quatro categorias de saberes acima mencionadas, os idiotas só conhecem as duas primeiras: as coisas que eles sabem que sabem e as coisas que eles sabem que não sabem. Mas eles não têm consciência das coisas que não sabem que sabem e menos ainda das coisas que não sabem que não sabem.

Um Zé Ruela qualquer pode ter grande competência no seu ofício braçal (por exemplo, assentar tijolos) e até dar aula sobre isso: é o que ele sabe que sabe. Pode também ter ciência de que não sabe falar inglês, pois já viu muitos gringos falando “aquela língua das estranjas”. Mas provavelmente ele não sabe que talvez saiba cozinhar, isto é, que tenha aptidão para a culinária, simplesmente porque nunca experimentou fazer comida. Por fim, em sua pouca cultura letrada, ele não sabe que não sabe nada sobre política, economia, física, astronomia, cosmologia, literatura, filosofia… O problema é que ele, erradamente, classifica as coisas que não sabe que ignora na categoria das coisas que sabe que sabe. Passa então, dentro de seu estreitíssimo horizonte,  a discutir política e economia como um doutor no assunto. Sua única leitura é a Bíblia, mas como, para ele, ali está a palavra de Deus, não há necessidade de ler mais nada, pois todas as respostas ali estão, da origem do Universo, da origem e do propósito da vida, do certo e do errado, do moral e do imoral, da morte e da vida após a morte, da superioridade do ser humano sobre todas as outras criaturas, do seu direito de fazer do planeta o que quiser (porque não é o dono do mundo, mas é filho do dono), e assim por diante. Ele pensa que sabe quem escreveu esse livro, mas não sabe quem realmente o escreveu nem por que razões nem em que circunstâncias. E zomba de quem pensa diferente dele: sabe de nada, inocente!

O imbecil é manipulado o tempo todo pelo marketing, pelos políticos e pelos líderes religiosos, mas tem certeza de que sabe quem é o melhor nome para ocupar a prefeitura, o governo estadual, a presidência da república. E briga com quem vote em outro candidato. Ele é a massa de manobra perfeita nas mãos dos espertalhões, que enriquecem à custa dele, mas ele é quem se acha o grande espertalhão. E isso se confirma cada vez que discute com alguém mais instruído que ele, afinal, nessas discussões, ele sempre “lacra”, sempre dá a última palavra. Mas o que ele não sabe que não sabe é que o interlocutor mais escolado, mais bem informado e dotado de maior senso crítico, mais próximo, portanto, do patamar de sabedoria, vendo a pobreza espiritual do estúpido, conclui que é inútil continuar a debater com ele e encerra a conversa, deixando que o cretino pense que venceu a argumentação. E, assim, de discussão em discussão, o energúmeno vai se sentindo cada vez mais sábio, cada vez mais autoconfiante em sua sapiência. Só que não.

Por isso, se você costuma discutir temas complexos sem ser especialista e em geral vence a discussão, fique atento: os grandes idiotas são grandes idiotas exatamente porque não sabem que são idiotas.

Sobre descrever, prescrever — e mentir (ou “A falácia do espantalho”)

Recentemente, o linguista Marcos Bagno publicou no site da Editora Parábola um artigo intitulado O certo, o errado, a ciência e a má-fé, no qual apresenta diversas informações e argumentos a respeito da linguística enquanto ciência e de sua tarefa de descrição da língua que merecem alguma reflexão.

Bagno começa explicando que a gramática, também chamada de gramática normativa ou gramática tradicional, nascida na Grécia Antiga, tem por objetivo fixar uma norma, isto é, um padrão, para a língua. Em suas palavras,

[f]ixar uma norma significa, inescapavelmente, fazer escolhas, e fazer escolhas significa, inevitavelmente, descartar tudo o que sobra depois de feita a seleção. O que a norma seleciona então passa a ser o certo, o correto, o aceitável, enquanto o que não entra na norma é o anormal, o equívoco, o que deve ser evitado.

É evidente que toda norma, seja ela linguística, técnica, jurídica ou de qualquer outra espécie, opera escolhas — quase sempre segundo critérios razoáveis — cuja observância  passa a ser recomendável (em alguns casos obrigatória) pelos profissionais da respectiva área. Logo, toda norma diz o que deve ou não deve ser feito em tal ou qual situação. Por exemplo, os plugues e as tomadas atualmente em uso no Brasil (maldosamente chamadas de “tomadas do Lula”) seguem um modelo determinado pela ABNT — Associação Brasileira de Normas Técnicas. Isso significa que todos os fabricantes de plugues, tomadas, máquinas, eletrodomésticos e aparelhos elétricos em geral devem seguir esse modelo. É claro que um determinado fabricante pode produzir e colocar no mercado produtos fora desse padrão, só que, por razões óbvias, eles não terão aceitação, pois o plugue não encaixará na tomada. É claro também que o modelo escolhido como padrão poderia ser outro, mas a ABNT deve ter tido boas razões técnicas para eleger o que está atualmente em uso.

A norma gramatical funciona da mesma maneira que as normas da ABNT: é preciso que haja uma padronização da linguagem escrita formal para que as pessoas se entendam sem equívocos ou ambiguidades em atos de comunicação que impliquem grande responsabilidade. A gramática não obriga ninguém a escrever segundo suas normas, mas, em muitos casos, sobretudo profissionais, quem não o fizer estará sujeito a sanções, que podem ir desde a mera advertência até a perda do emprego.

A seguir, Bagno explica que a linguística nasceu como ciência descritivo-explicativa no século XIX e que, como toda ciência, não faz juízos de certo e errado, mas analisa os fenômenos linguísticos de forma objetiva. Nesse sentido, reconhece que muitos fatos apontados pela gramática como erros são, na verdade, formas desviantes que denunciam o fenômeno da mudança linguística, isto é, da evolução histórica da língua. E Bagno enumera uma série de exemplos de como palavras do latim se transformaram até chegar ao português, o que demonstra que ele não faltou às aulas de linguística histórica. E argumenta corretamente que nada na língua é por acaso (aliás, esse é o título de um de seus livros): as mutações seguem padrões fixos e previsíveis, o que contempla um dos princípios básicos de toda ciência, que é o chamado determinismo científico (as mesmas causas, nas mesmas condições, devem produzir sempre os mesmos efeitos).

Mas Bagno confunde alhos com bugalhos ao confrontar o trabalho do linguista com o do gramático. O primeiro analisa a língua como ela é, em todas as suas variedades, inclusive as variedades não padrão, isto é, aquelas que costumamos atribuir às pessoas menos letradas, pois “o erro de hoje pode vir a ser o acerto de amanhã”. Já o gramático tem a tarefa de normatizar uma variedade específica da língua, o padrão escrito formal, também chamado de norma-padrão.

Assim como os físicos estudam todos os materiais condutores de eletricidade sem fazer juízos de valor sobre eles, os linguistas estudam todas as formas de manifestação linguística sem julgá-las. Da mesma maneira, assim como os engenheiros da ABNT têm de escolher, dentre todas as possibilidades de conduzir eletricidade de uma tomada para um plugue e deste para um equipamento, um determinado modelo de plugue e de tomada, os gramáticos precisam escolher as estruturas linguísticas que farão parte da norma que orienta a redação de textos formais. E seu critério tem sido a média dos usos dos melhores prosadores contemporâneos da língua, tanto ficcionistas quanto não ficcionistas, sobre cuja alta qualidade haja consenso.

Portanto, de um ponto de vista linguístico e, por conseguinte, científico, não há certo e errado, há apenas fatos a serem descritos e explicados, o que o próprio Bagno reconhece em seu artigo. Já, de um ponto de vista normativo, que é o ponto de vista da gramática aplicada a textos formais, há o recomendável e o não recomendável — ou, se preferirem, o “certo” e o “errado”. Obviamente, a gramática não é nem nunca foi uma camisa de força, e os bons prosadores, sejam eles ficcionais, ensaísticos ou técnicos, sempre tiveram liberdade para transgredir aqui e ali as normas (assim como todos temos a liberdade de conectar um benjamim à tomada antiga para ligar um eletrodoméstico novo, que segue o atual padrão ABNT).

No entanto, Bagno afirma que “pelo fato de descrevermos e explicarmos esses fenômenos de mudança, muitas pessoas dão um salto ideológico adiante e acham que estamos ‘defendendo’ os erros e até incentivando as pessoas a ‘falar errado’”. De fato, muitos leigos em linguística nos fazem esse tipo de acusação, o que demonstra seu desconhecimento da diferença entre descrever e prescrever. O problema começa quando linguistas, que devem descrever a língua, se põem a prescrever usos distintos daqueles recomendados pelas gramáticas tradicionais, gerando desorientação na cabeça de quem apenas precisa redigir textos formais aceitáveis.

Bagno demonstra lucidez ao afirmar que “o que defendemos é que, sim, todas e todos devem ter garantido o acesso à escolarização de qualidade, a única que permite a ampliação do repertório linguístico das cidadãs e dos cidadãos, o contato com as normas de prestígio e sua inserção na cultura letrada”.

Entretanto, em sua Gramática pedagógica e em outros escritos seus, ele abona usos que de modo algum fazem parte da “cultura letrada”, como eu encontrei ele, ela está meia cansada, chegou os novos livros, e coisas do gênero.

Em primeiro lugar, não há conflito entre o fazer descritivo da linguística e o fazer prescritivo da gramática. São atividades diferentes com propósitos e objetivos diferentes. Em segundo lugar, pode-se sugerir que a gramática abone usos que já estão consagrados na escrita de pessoas cultas (e culto aqui significa “portador de alto letramento, vasto conhecimento e muitas horas de leitura” e não apenas “portador de diploma universitário e vivência urbana”), como assistir o filme paralelamente a assistir ao filme ou estou me lavando concomitantemente a estou-me lavando ou estou lavando-me. Aliás, nem é preciso sugerir: os gramáticos da atualidade já fazem isso por dever de ofício.

Mas Bagno ridiculariza a gramática e os gramáticos dizendo que “a gramática é uma ‘religião’ mais antiga que o cristianismo, o que faz as pessoas considerarem os compêndios gramaticais como livros quase sagrados, merecedores de toda reverência, e seus autores como uma casta de sacerdotes de uma seita esotérica”. E também, como é seu costume, lança insultos contra seus críticos, com termos como “má-fé encharcada de ideologia fascistoide”, “terraplanismo linguístico”, “má-fé, ignorância e alinhamento ideológico assumidamente reacionário — a santíssima trindade do fascismo clássico”, “bravatas hidrófobas”, “cão raivoso”, e várias outras ofensas. Tudo porque esses críticos, dentre os quais me incluo, apontam na obra de Bagno inúmeras inverdades, imprecisões, afirmações sem prova ou, o que é pior, alegações que vão de encontro às evidências empíricas. Não tendo como se defender, ele parte do princípio de que “a melhor defesa é o ataque”. E ainda lança mais uma inverdade: a de que a crítica recai indistintamente sobre todos os linguistas que descrevem a língua portuguesa em suas diversas variedades, como se todos eles estivessem sustentando as teses não comprovadas e não comprováveis de Bagno.

Quem me acompanha desde os tempos em que escrevia na saudosa revista Língua Portuguesa sabe que sempre advoguei uma simplificação da norma-padrão do português, a exemplo do que já aconteceu com as normas de nossas línguas-irmãs, o espanhol, o francês e o italiano. Mas “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, ou “devagar com o andor que o santo é de barro”: de um lado, pode-se perfeitamente flexibilizar a colocação pronominal (o que já acontece na prática em textos verdadeiramente cultos), até porque a regra atual é extremamente complexa; de outro lado, não se pode chancelar no âmbito da escrita culta formal usos que atualmente estão restritos à fala das pessoas de baixo letramento, como meia cansada ou chegou os livros. Talvez um dia, seguindo os metaplasmos naturais da língua que Bagno didaticamente ilustrou em seu artigo, a forma pobrema venha a ser incorporada à norma-padrão, assim como problema venha a ser apontado como arcaísmo. Mas, por enquanto, pobrema é inadmissível em textos formais, da mesma forma como fresta seria inadmissível no português do século XIII, em que o “certo” era feestra.

Em outra postagem, desta vez no Facebook, Bagno, em coautoria com Carlos Alberto Faraco, diz: “Não conheço um(a) linguista que tenha proposto que usos como ‘os menino chegou’ ou pronúncias como ‘praça’, ‘pranta’, ‘trabaio’ sejam considerados recomendáveis e dignas (sic) de figurar numa norma de referência para os usos formais da língua”. Só que em sua Gramática pedagógica, ele assevera que no português brasileiro culto, inclusive escrito, estão corretos tanto Aconteceram dois acidentes na estrada quanto Aconteceu dois acidentes na estrada.

E no próprio trecho citado acima, Bagno constrói uma oração cujo sujeito composto usos e pronúncias concorda (concorda?) simultaneamente com o adjetivo masculino considerados e o feminino dignas. Distração, falta de revisão ou mais uma inovação de sua proposta gramatical, que ele chama de “social-democrata”?! Ou seja, o esquerdista radical Marcos Bagno agora é social-democrata, ao passo que os verdadeiros social-democratas, que defendem educação de qualidade para todos em vez de um nivelamento por baixo da norma e de seu ensino, são os reacionários e fascistoides.

Uma última observação: numa terceira postagem, também no Facebook, Bagno afirma:

Não temos absolutamente nada contra quem quiser seguir à risca as prescrições tradicionais. Nosso projeto é democrático, não é autoritário: ninguém quer substituir uma norma por outra, apenas mostrar que, no século 21, é interessante que haja uma norma do século 21, em que as pessoas se reconheçam. Mas quem quiser continuar a escrever como Rui Barbosa, escreva e seja feliz, mas deixe a gente em paz.

Daí se depreendem duas conclusões.

Primeiro, que a norma proposta por Bagno e seus seguidores não quer substituir a norma-padrão vigente, mas sim conviver com ela. Então cabe a pergunta: qual das duas o cidadão comum, que precisa redigir textos profissionais, deve seguir? A coexistência de duas normas diferentes só servirá para confundir ainda mais a cabeça de estudantes e profissionais que precisam escrever.

Segundo, pessoas que seguem à risca a norma atual não estão escrevendo como Rui Barbosa — a não ser os chamados operadores do Direito, que adoram um linguajar preciosista e rebarbativo, só que estes são incorrigíveis —, mas redigem como o próprio Bagno redigiu suas três postagens aqui citadas, o que mostra que o tão propalado abismo existente entre a norma atual e o modo como as pessoas bem escolarizadas escrevem no século XXI não passa de ficção — ou de um espantalho. É bem verdade que em sua Gramática, Bagno comete vários desvios em relação à norma, mas percebe-se claramente que são desvios forçados e não espontâneos, isto é, que Bagno não escreve assim normalmente, mas “forçou a barra” na referida obra para marcar posição e com isso criar um inimigo imaginário contra o qual possa dirigir sua rebeldia sem causa.

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Em tempo: para mais informações sobre essa “falácia do espantalho”, visitem os seguintes links: https://www.facebook.com/share/p/YVDxgHB3jk7Dizdq, https://www.facebook.com/share/p/rxijwSajUgbqMj7a e https://www.facebook.com/share/p/Pa21U3sdtCtK2Ugo/?mibextid=oFDknk.

O número mentiroso

Não aprecio muito o número 99 — e não por razões de superstição numerológica, que definitivamente não tenho, mas porque atualmente, na maioria dos textos e contextos em que ocorre, ele encerra uma mentira ou, ao menos, uma afirmação duvidosa.

Você já notou que quase todos os preços de produtos e mercadorias terminam com 99? Por que isso acontece? Você vê o anúncio de um televisor por R$ 1.399,99 e pensa: puxa, está barato, apenas 1.300 reais! Só que, na verdade, você não vai pagar 1.300 e sim 1.400 reais. Até porque, se você der ao vendedor 1.400 reais em espécie, ele certamente não lhe devolverá 1 centavo de troco.

Enfim, preços terminados em 9, 99, 999 são mais uma invenção matreira do marketing para nos enganar. Penso até que o algarismo 9 deveria ser proibido por lei em preços de produtos a não ser na primeira casa da esquerda: ou o comerciante cobra 900 reais ou 1.000 reais ou ainda qualquer valor entre esses dois desde que não seja nem 990 nem 999 — 999,99 então, nem pensar!

Outro exemplo de discurso mercadológico que inspira pouca credibilidade são esses anúncios de desinfetantes que prometem matar 99% dos germes. 99 por cento? Como os anunciantes chegaram a esse número? Será que eles têm vergonha de afirmar que seu produto é 100% eficiente? Se uma propaganda de desinfetante dissesse que estudos laboratoriais demonstraram que ele extermina 98,4% dos germes, eu até poderia acreditar, mesmo que seja mentira, pois 98,4 parece de fato o resultado de alguma estatística ou experimento científico. Mas 99% é conta de mentiroso.

O número 99 também aparece com frequência em discursos políticos, como o de um certo governador do Rio de Janeiro ao afirmar que as operações policiais nas favelas — perdoem-me, nas comunidades — cariocas visava apenas a capturar marginais e não ferir ou matar os 99% de cidadãos de bem que moram nessas favelas (ops, errei de novo!). Cá para nós, se somente 1% dos moradores dessas comunidades (agora acertei!) fosse de marginais, aí incluídos criminosos e simpatizantes, a segurança pública no Brasil seria sopa no mel.

É por essas e por outras que não confio no número 99. Afinal, um número que é quase 100, mas fica sempre devendo 1, não merece confiança.