A misteriosa história do sovaco

Pois é, gente, o sovaco também tem história. Ou melhor, a palavra sovaco tem história. Ou não. É que várias palavras da nossa língua surgiram muitos séculos atrás, antes mesmo de o português ter-se tornado uma língua escrita, portanto deixando atrás de si um rastro obscuro. Muitas dessas palavras podem ter seu passado seguramente reconstruído a partir de evidências indiretas, enquanto outras não. Por exemplo, o verbo aguçar não tem antecedentes documentados, mas sabemos que aguçar é tornar agudo, e agudo vem do latim acutus, termo sobejamente registrado em documentos escritos. E também sabemos que o latim vulgar criava verbos a partir de adjetivos com o sufixo ‑iare. Assim, de minutus, “miúdo”, saiu exminutiare, que nos deu esmiuçar; de captus, “capturado”, resultou captiare, que nos legou caçar, e assim por diante. Logo, acutus deve ter produzido um verbo *acutiare, que evoluiu para o nosso aguçar.

Só que com o sovaco o buraco é mais embaixo. Antenor Nascentes, em seu dicionário etimológico, afirma que A. Coelho sugeriu que essa palavra proviria do latim subbracchium, de sub, “sob, embaixo”, e bracchium, “braço”, ou, literalmente, “debaixo do braço”. Mas essa etimologia tem um problema, que o próprio Nascentes aponta: subbracchium daria em português *sobraço e não sovaco ou mesmo a forma paralela sobaco, que existe em espanhol e é de onde o vocábulo provavelmente veio. Nascentes também descarta o étimo *subarcus, “sob o arco”, pela mesma impossibilidade de tal evolução fonética irregular.

Indo agora ao dicionário etimológico Corominas, da língua espanhola, encontramos que sobaco pode ter resultado do cruzamento de subala, “sob a asa”, e subhircus, formado de sub, que já vimos que significa “sob”, e hircus, “cheiro de bode” (o nosso conhecido bodum). Teríamos então o híbrido *subacus, jamais documentado. Essa hipótese é plausível, mas como bater o martelo se não podemos comprová-la diretamente, apenas deduzi-la a partir de um raciocínio bastante tortuoso? Se o elemento sov‑ de sovaco parece obviamente remeter ao prefixo sub, a origem do restante da palavra permanece obscura e, talvez, malcheirosa.

Time ou equipe?

Já faz um bom tempo que o futebol brasileiro deixou de ser o melhor do mundo. Em primeiro lugar, a maior parte dos atuais craques desse esporte é estrangeira. Em segundo, os jogos da atual seleção brasileira são um verdadeiro sonífero: eu deveria gravá-los para assistir nas noites de insônia. Vão longe os tempos em que qualquer criança sabia de cor a escalação do escrete canarinho.

Mas, como eu não entendo lá muito de futebol, minha observação sobre o tema é, como sempre, de ordem linguística.

Tenho ouvido muitas pessoas, incluindo comentaristas de futebol, se referirem às seleções como times. Em inglês, team (que é a origem do nosso time) quer dizer simplesmente “equipe” (não só esportiva, mas qualquer grupo de pessoas que atuem juntas, cooperativamente), portanto não há nada de errado em chamar uma seleção de time. Acontece, porém, que o uso transformou essa palavra em sinônimo de agremiação esportiva — e, mais especificamente ainda, clube de futebol, que chamamos simplificadamente de clube.

Assim, a seleção tem esse nome porque seleciona os melhores jogadores de cada clube de um país (ou, no caso brasileiro atual, de clubes estrangeiros) para formar uma equipe temporária.

O português não é a única língua a fazer distinção entre o time (com sentido esportivo) e a equipe (com sentido neutro e geral). Em primeiro lugar, o anglicismo team está em quase todas as línguas, resultado da influência do inglês como idioma dos inventores do futebol e também como língua hegemônica da atualidade. Curiosamente, o português é das poucas que adaptaram a grafia do termo ao seu sistema ortográfico (em espanhol, francês, italiano, alemão, continua-se a grafar team).

Paralelamente, são também empregadas palavras genéricas como o português equipe (ou equipa, na variedade lusitana), o espanhol equipo, o francês équipe, o italiano squadra, o alemão Mannschaft

De todo modo, a palavra time (ou team) tem sempre uma conotação esportiva. Por isso, aplicada ao mundo corporativo (por exemplo, quando um novo executivo vem integrar o “time” da companhia), fica a impressão subliminar de que o mundo dos negócios é um jogo, no qual as empresas competem pela vitória e pretendem derrotar seus adversários (isto é, as empresas concorrentes).

Enquanto isso, o inglês, criador da palavra, usa apenas team em todos os casos. É, pois — e ironicamente —, a única língua em que o vocábulo não tem uma aura marcadamente desportiva.

Enquanto falantes do português, espanhol, francês e inglês se referem à equipe de futebol que representa seus países em campeonatos internacionais como “seleção” (esp. Selección, fr. Sélection, ingl. Selection), o italiano e o alemão usam a perífrase “Equipe Nacional”, ou mais simplesmente “Nacional”: it. (Squadra) Nazionale, al. National(mannschaft).

De todo modo, seja o time, a equipe ou a Seleção, o que importa é a conquista da taça.

A produtividade do prefixo “pro‑”

Passado o primeiro turno das eleições, temos agora que aguentar a volta da insuportável propaganda eleitoral, desta vez com vistas ao segundo turno e novamente repleta de ataques mútuos (muitos abaixo da linha da cintura) e promessas tão mirabolantes quanto inexequíveis. As famosas “promessas de políticos”, jamais cumpridas, nas quais, por sinal, ninguém mais acredita — embora a maioria continue votando neles —, e que, na propaganda, são enganosamente chamadas de “propostas”.

E como tanto promessa quanto proposta são palavras que contém o prefixo pro‑, resolvi fazer uma brincadeira etimológica com ele. É que a promessa do político, feita em comício ou debate televisivo, torna-se proposta programática, impressa num documento chamado programa de governo (aliás, a propaganda política também se chama “programa eleitoral gratuito”).

Uma vez eleito, o agora gestor ou legislador vai formular e apresentar um projeto (de lei, de obra) que, para tornar-se realidade, vai demandar um programa de implantação (muitos depois viram programas com P maiúsculo: Programa Minha Casa Minha Vida, Programa Bolsa-Família, ProUni, e assim por diante).

Assim como na indústria, o programa gera um processo — de produção, no caso da indústria; de execução, no caso da gestão pública — que resulta num produto, seja um bem de consumo ou um serviço ou obra públicos. Que vão ensejar opiniões pró e contra.

Lançado o produto, sancionada a lei ou entregue a obra, é hora agora de alardear esse feito, pois a indústria precisa vender, e o político precisa “vender-se” (em sentido próprio e figurado: acho que deu pra entender, né?). Portanto, é hora de promover o produto, serviço ou realização. E quem faz isso? A propaganda. E assim o círculo se fecha: a promessa tornou-se proposta, que ensejou um projeto, que desencadeou um programa de produção, que, como processo, resulta em um produto, cuja promoção é feita pela propaganda. Viram como o prefixo pro‑ é produtivo?

Palavras que morrem sem deixar herdeiros

Boa tarde, Aldo. Estou lendo uma novela policial de Henning Mankell (A quinta mulher, Companhia das Letras, edição de 2002, tradução de Luciano Vieira Machado, formato epub). O que me chamou a atenção foi o uso de certos verbos que já foram muito comuns em traduções antigas, mas que caíram em desuso já há algumas décadas, tais como: redarguiu, retorquiu, anuiu. Você poderia dar sua visão sobre isso?
Marcus Frederico Ferreira Lopes

Caro Marcus, na minha visão (que não é só minha), está havendo um progressivo empobrecimento vocabular da população devido à decadência da educação, fruto do descaso do poder público e de uma campanha de certos grupos políticos que tentam (e, por sinal, estão conseguindo) deslegitimar o conhecimento do vernáculo, da norma-padrão, da gramática, tidos por eles como elitistas e opressores — como se a ignorância fosse libertadora! Com isso, verbos como os que você citou, que eram muito comuns em textos literários e mesmo jornalísticos do passado, vêm sendo proscritos, e quase ninguém mais os usa ou mesmo sabe o que significam.

Na verdade, muitas palavras têm caído em desuso, e não porque novas palavras de significado equivalente ou até mais preciso estejam nascendo para substituí-las, mas simplesmente porque as pessoas, sobretudo os mais jovens, não tendo mais contato íntimo com a leitura, especialmente de boas obras, sequer chegam a conhecer tais vocábulos. A partir disso ocorrem duas coisas: ou o falante busca um termo mais corriqueiro para expressar aquela ideia (por vezes até uma gíria), termo este que quase nunca exprime tão bem o conceito em questão quanto a palavra que se perdeu, ou o falante sequer concebe a ideia que aquela palavra expressava. Em outras palavras, pobreza de linguagem é pobreza de pensamento. Que se reflete em pobreza material e espiritual. Como disse Esaias Tegnér Jr., “o que é confusamente dito é confusamente pensado”.

Li recentemente uma pesquisa que procurava compreender por que no Brasil a taxa de alfabetização das crianças em idade escolar é tão baixa, mesmo comparada a outros países em desenvolvimento — ou, como se costuma dizer hoje em dia, do Sul Global. Pois o resultado foi que, além da má qualidade da nossa educação, as crianças das camadas mais baixas da população não veem sentido na escrita: há um abismo entre o mundo letrado e a realidade em que vivem. De fato, crianças filhas de pais com pouca ou nenhuma instrução, que pouco falam com elas e, quando o fazem, é somente sobre assuntos de pouca relevância e complexidade, que não leem para elas (nem para si próprios, diga-se) e, com isso, não cultivam nelas o hábito de ler, percebem a leitura e a escrita como algo inútil e enfadonho, que nada tem a ver com seu dia a dia e sua perspectiva de futuro, se é que têm alguma.

E, como disse acima, há grupos de intelectuais e acadêmicos que procuram legitimar essa situação porque é mais fácil e cômodo dar o pão do que ensinar a pescar e porque precisam da massa de manobra que essas pessoas vulneráveis representam para sustentar seu projeto político.

Infelizmente, é assim que eu vejo.