Sobre Pelé e a genialidade

A recente morte de Pelé, ídolo dos ídolos, celebridade das celebridades, deus do futebol, o eterno Rei, o mais ilustre dos brasileiros, fez aumentar subitamente de frequência o uso da palavra gênio, e não sem justa razão. É bem verdade que essa palavra anda meio banalizada ultimamente, tendo virado elogio fácil a qualquer um que, na suspeita e duvidosa opinião de alguns, tenha realizado algum feito notável, ainda que trivial. Nesses nossos tempos, Anitta é um gênio por ter chegado ao topo do ranking do Spotify, Galvão Bueno é o gênio da narração esportiva, Steve Jobs foi o gênio da tecnologia por ter inventado o i-Phone, e por aí vai. Mas, apesar desse uso lisonjeiro e pouco autêntico do termo, existem e existiram os gênios verdadeiros, aqueles que revolucionaram com sua inteligência e habilidades ímpares as áreas em que atuaram. Se para nós Pelé se tornou, mais do que um nome próprio, um substantivo comum designativo do indivíduo que chegou ao mais alto nível de seu ofício, tornando-se insuperável, podemos dizer que muitos seres humanos merecem esse epíteto. Não é errado dizer que Ivo Pitanguy foi o Pelé da cirurgia plástica, que Oscar Niemeyer foi o Pelé da arquitetura, Ayrton Senna o Pelé do automobilismo, Michael Phelps o Pelé da natação, Muhammad Ali o Pelé do pugilismo, e assim por diante. Talvez até devêssemos grafar Pelé nesse sentido com inicial minúscula: “o deputado fulano de tal é o pelé da corrupção”.

Mas, ao assistir na TV nestes últimos dias aos feitos fantásticos, inigualáveis e, por que não?, sobre-humanos do nosso querido Rei, me vêm à mente os nomes de muitos pelés que admiro e tenho como guias e fontes de inspiração, cada um tendo sido um divisor de águas em sua profissão, repartindo-a em “antes” e “depois” dele; alguns, diferentemente, foram tão iluminados que fundaram a própria profissão; para estes, só existiu o “depois”.

Por exemplo, penso em Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, capaz de fazer reflexões profundas e complexas sobre todas as áreas do conhecimento, um homem cujas ideias na maioria dos campos em que filosofou ainda são válidas nos dias de hoje e que fez isso numa época em que a filosofia ainda dava seus primeiros passos. O fato é que nenhum filósofo depois dele conseguiu realizar obra mais perene e monumental do que o famoso estagirita, como ficou conhecido.

E o que dizer de Isaac Newton, o sábio inglês que, ao ver, segundo dizem, cair uma maçã, enunciou as leis que regem nosso Universo e que explicam todos os fenômenos físicos, exceto os muito rápidos (próximos à velocidade da luz) e os muito pequenos (na escala subatômica)? Newton não só fundou a física moderna, especialmente nos domínios da mecânica e da óptica, e, de certa forma, toda a ciência moderna, mas também foi um dos mais brilhantes astrônomos e matemáticos de todos os tempos. E, como se não bastasse, ainda fazia estudos em teologia e ciências ocultas. Apenas um homem se igualou a ele, mas não o superou: foi Albert Einstein, o criador da Teoria da Relatividade. Esses dois gênios resumem toda a física. No entanto, Newton prestou reverência a seus mestres, outros gênios um pouco menores mas sem os quais Newton não seria Newton: Copérnico, Galileu e Kepler. Do mesmo modo, Aristóteles não seria quem foi sem seus mestres Sócrates e Platão, e também Tales, Anaximandro, Parmênides, Leucipo, Demócrito…

Enquanto isso, Charles Darwin revolucionou a biologia e, de quebra, abalou nossas mais profundas crenças religiosas com a Teoria da Evolução das Espécies, uma ideia simples, como são todas as ideias geniais, e que hoje se aplica a animais, plantas, línguas, culturas, sociedades, sistemas planetários e o próprio Universo. Mais uma vez, Darwin deve tributo a predecessores menos festejados pela História como Lineu e Lamarck.

Saindo da ciência e indo para a arte, como não lembrar de Johann Sebastian Bach, o maior compositor de todos, o sujeito que não apenas produziu os maiores hits de todos os tempos (sim, se vivesse nos dias de hoje, Bach seria um hitmaker maior que Paul McCartney ou Burt Bacharach, certamente ganhador de todos os Grammys) como simplesmente definiu a estrutura da música ocidental. Tudo o que Mozart, Beethoven, Tchaikovsky, os Beatles, Michael Jackson, Tom Jobim, etc., fizeram só foi possível porque Bach fez primeiro. E sua música sublime é conhecida nos quatro cantos do mundo; não há ninguém que nunca tenha ouvido alguma de suas melodias, nem que seja num comercial de televisão. Aliás, conta-se que um certo crítico musical, quando perguntado quem em sua opinião era o rei da música, respondeu: “Beethoven”. Sua resposta causou surpresa e certa indignação ao indagador, que arguiu: “E Bach?”. Ao que o crítico esclareceu: “Beethoven é o rei da música, já Bach é o deus da música”.

E Lavoisier, o homem que inventou a química e tornou possíveis todos os infinitos produtos industriais que temos hoje? E Thomas Edison, o maior inventor da História? E Sigmund Freud, o médico que desvendou a mente humana? E Leonardo da Vinci, o grande polímata, considerado por muitos o maior de todos os gênios, um craque (poderíamos dizer “um Pelé”) na pintura, escultura, arquitetura, música, poesia, engenharia, anatomia, botânica, aeronáutica, precursor de grande parte dos inventos que só surgiriam oficialmente séculos depois dele, sobretudo o “inventor” do Renascimento e, por consequência, do mundo moderno?

E temos ainda alguns gênios menos difundidos, mas não menos brilhantes: Michael Faraday, o autodidata que destrinçou a eletricidade e tornou possível toda a moderna tecnologia; Alfred Wegener, o geofísico alemão que percebeu a complementaridade entre as formas dos continentes e criou a teoria da Pangeia, segundo a qual todos os atuais continentes um dia formaram uma única massa, que se partiu graças ao movimento das placas tectônicas; Gian Lorenzo Bernini, o mais magistral dos escultores, cujas estátuas parecem ter vida; William Jones, o jurista britânico que, percebendo as semelhanças entre várias línguas da Europa e da Ásia, postulou sua ancestralidade comum num idioma pré-histórico, o indo-europeu, e, com isso, inaugurou a linguística; e, depois dele, Ferdinand de Saussure, o linguista suíço que deitou as bases dessa ciência a partir de uma meia dúzia de dicotomias, das quais já falei diversas vezes em meus escritos. Enfim, há tantos “pelés” a quem devemos o melhor de nossa ciência, arte, tecnologia, esporte, cultura. E o mais incrível é que a maioria deles partiu de ideias absolutamente simples, só que ninguém as teve antes deles, e que se mostraram revolucionárias, além de terem trabalhado às vezes com os recursos mais rudimentares, como a bola de meia com que Pelé aprendeu a jogar futebol. Como diz um provérbio chinês antigo — e mineiro moderno —, inteligente é quem descobre o óbvio. O que nosso Pelé fez com a bola nos pés é no fundo muito simples, mas que outro jogador seria capaz de fazê-lo? Na verdade, muitos craques, como Zico, Maradona, Ronaldo, Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, fizeram em algum momento algo que Pelé fez, mas o Rei fez primeiro; e fez, sozinho, o que todos os outros craques fazem juntos. Ou seja, seria preciso somar o talento de todos eles para produzir Pelé. E esse gênio, um dos maiores da galeria que elenquei aqui, era negro, pobre e brasileiro, para nosso orgulho. Pelé morreu. Viva Pelé!

Programas, shows e concertos

Uma das coisas mais interessantes que a linguística nos ensina é que cada língua, espelho de uma cultura, “recorta” a realidade de modo diferente, mesmo quando se trata de línguas muito próximas, que partilham em grande parte uma mesma visão de mundo, como é o caso das línguas europeias.

Um exemplo disso é o curioso caso das palavras programa, show e concerto. Para nós brasileiros, a primeira representa um espetáculo de televisão, seja um musical, uma série, um documentário, uma atração humorística ou “de auditório”, como se diz. Já a segunda é para nós essencialmente um espetáculo de música popular a que se assiste num teatro ou casa de espetáculos (mais raramente num ginásio ou estádio) e que pode eventualmente ser transmitido pela TV. Finalmente, a terceira é um espetáculo de música erudita – também chamada de música clássica, sinfônica ou de concerto –, seja ele presencial ou televisionado.

Em contraste, a língua inglesa raramente emprega program (ou programme) para programas de TV: o usual nesse caso é falar-se em TV show. Em compensação, o que aqui chamamos de show lá nos países de língua inglesa eles chamam de concert, isto é, “concerto”. Igualmente, os concertos de música erudita são concerts para os anglofalantes. O que, a meu ver, faz todo o sentido. Afinal, até o século XIX havia uma clara distinção entre a música erudita, que tinha esse nome justamente por ser consumida pela elite econômica e cultural da sociedade, e a música popular, essencialmente tocada e dançada nos folguedos e festas populares com instrumentos rústicos como pandeiro e banjo.

Naquela época, a música chamada erudita tinha nomes como “Concerto n.º 1 para piano e orquestra opus 31” e era executada em um teatro centenário, com acústica que dispensava microfones e amplificadores, por uma orquestra sinfônica composta de músicos trajando casaca e regida por um maestro que ficava de costas para a plateia. Enquanto isso, a música popular eram valsinhas e modinhas ou então aquilo que hoje chamamos de música folclórica (coco, caboclinho, maracatu, xote, catira, vanerão, fandango, polca, tarantela) e tinha nomes como “A primeira vez em que te vi”, “Não te apartes de mim, ó, linda dama”, e outras cousas do gênero.

O fato é que, a partir do século XX, quando a música sinfônica descamba para coisas como música estocástica e música eletroacústica, utilizando até utensílios como panelas, bigornas e folhas de zinco como instrumentos musicais, e a música popular se torna um conjunto de gêneros muito diferentes entre si, como jazz, tango, bolero, rumba, salsa, merengue, samba, MPB, rock, pop, soul, blues, rhythm’n’blues, funk, dance, house, lounge, K-pop, world music, etc., utilizando orquestras, instrumentos eletrônicos e produções milionárias, fica difícil dizer o que é erudito e o que é popular. Ou seja, atualmente existe apenas música, e a própria música sinfônica ou de concerto se tornou apenas mais um dentre os muitos gêneros que encontramos nas lojas de discos (as que ainda existem, evidentemente) e nas plataformas de streaming.

Hoje, temos o jazz moderno e a música instrumental em geral, além de música new age, jazz-rock, rock progressivo e rock sinfônico, que se aproximam muito da música erudita. Aliás, muitos arranjos do pop internacional e da MPB abusam de elementos sinfônicos, como naipe de cordas ou metais, piano, cravo, órgão, harpa, tímpanos, enquanto músicos sinfônicos compõem peças para sintetizadores, guitarra elétrica, violão, cavaquinho, etc. Isso sem falar de arranjos sinfônicos para canções populares, tipo The Royal Symphony Orchestra Plays Beatles. E sem falar também que compositores populares como Paul McCartney, Robin Gibb e Francis Hime já enveredaram pelos concertos e sinfonias.

Temos ainda as trilhas sonoras incidentais de filmes, compostas por mestres como John Williams, Ennio Morricone, Nino Rota, Michel Legrand e outros grandes nomes com formação erudita e tocadas por orquestras sinfônicas. Temas como os de Indiana Jones, E.T. e Superman são verdadeiras sinfonias.

Ao mesmo tempo, quão populares são Tom Jobim, Burt Bacharach ou Yanni? Dá para metê-los no mesmo balaio de Zeca Pagodinho, Anitta, Michel Teló e Bonde do Tigrão?

Ou seja, voltamos ao que a música era na Antiguidade e Idade Média: uma única forma de arte e uma única profissão, a de músico, que apenas se divide em gêneros por razões estéticas. Sempre haverá aquela música que agrada mais ao ouvido apurado do ouvinte culto e refinado e aquela que agita as multidões, o chamado “povão”. Mas também sempre haverá literatura, teatro, cinema, dança, teledramaturgia e artes visuais para todos os gostos. No entanto, Marcel Proust e cordel nordestino são apenas literatura e não literatura erudita e literatura popular. O mesmo se diga de Leonardo da Vinci e dos grafittis de rua (é bem verdade que, na dança, ainda há quem distinga entre balé clássico e balé moderno, mas as companhias de dança de hoje em dia sabiamente misturam as duas coisas, e as escolas de dança atualmente formam bailarinos versáteis).

Por isso, certos estão os ingleses e americanos, que chamam qualquer espetáculo de música, das sinfonias de Beethoven ao rap de Eminem, de concerto. Afinal, as palavras ganham novos significados conforme evolui a sociedade. Por exemplo, hoje um estúdio é um local onde se gravam discos, vídeos, filmes e novelas e também se fazem fotos e produtos gráficos enquanto, no passado, um estúdio era, como diz o próprio nome, o lugar onde se estuda – um misto de biblioteca e escritório. De uma década para cá, estúdio passou também a ser um nome chique para apartamento conjugado ou quitinete. O mundo muda, a língua muda junto. Simples assim.

Envolver a língua portuguesa

Na semana que passou, a cantora Anitta, que completa 29 anos hoje, realizou um feito inédito e memorável: tornou-se a primeira artista brasileira a chegar ao top one da plataforma de streaming Spotify com o sucesso Envolver. Claro que devemos estar contentes e orgulhosos com essa conquista, pela qual Anitta merece nossos parabéns, afinal trata-se de uma vitória no universo extremamente competitivo da música pop mundial. Mas acho que aqui também cabem algumas considerações sobre esse fato.

Em primeiro lugar, a música popular brasileira não vive hoje seu melhor momento. Pelo contrário, nosso país, que já produziu gênios como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Elis Regina, hoje tem como mainstream musical gêneros popularescos como o sertanejo e o funk. Mesmo a MPB de hoje em dia não tem produzido nomes com perspectivas de passar à posteridade. Que me perdoem os fãs de Anitta e da música atual se meu comentário parece ter um ranço saudosista, mas qualquer crítico musical sério pode confirmar o que estou dizendo. Aliás, esse cenário é um reflexo do próprio momento que o Brasil e o mundo estão vivendo.

Nesse contexto, Anitta se torna a número um do ranking musical mundial com uma canção “descartável”, num ritmo caribenho que visa a atingir sobretudo o público da América Latina e o grande mercado dos hispânicos que vivem nos Estados Unidos, tudo produzido segundo uma estética estritamente norte-americana e cantada em… espanhol. Quanta brasilidade!

É neste último ponto que, como linguista, gostaria de centrar a minha análise. Embora o Brasil seja o mais importante país da América Latina tanto em termos políticos e econômicos quanto culturais, é a única nação do continente a falar português. E nosso idioma, assim como toda a cultura que produz, é bastante periférico em termos mundiais. Não só não tem a importância histórica de línguas europeias mais “centrais”, como o francês, o inglês, o italiano e o alemão, como ainda sofre a concorrência de uma língua muito próxima à nossa e que, no último meio século, ganhou importância internacional: o espanhol. Sim, a língua de Cervantes já é a terceira mais importante língua europeia (em alguns casos até mesmo a segunda), atrás apenas do inglês e do francês. Justifica essa posição a enorme presença dos países hispanofalantes no hemisfério ocidental e o gigantesco mercado que representam. A própria comunidade hispânica dos Estados Unidos, por seu tamanho e peso político, fez com que o espanhol se tornasse a segunda língua daquele país, o que, convenhamos, não é pouca coisa. Some-se a isso o aumento da relevância da Espanha no âmbito da União Europeia, no que não é acompanhada por Portugal.

Por outro lado, a semelhança entre o espanhol e o português leva muitos estrangeiros que já sabem falar castelhano a não se interessar em aprender nosso idioma, uma vez que conseguem se comunicar conosco sem maiores embaraços.

Não faz muito tempo, costumava-se dizer que a ignorância dos países desenvolvidos em relação a nós era tanta que os americanos acreditavam que a capital do Brasil fosse Buenos Aires. (Hoje eles já sabem que é o Rio de Janeiro rs rs.) Infelizmente, ainda hoje, as notícias que chegam a eles sobre nós continuam a ter grande dose de folclore, já que nada de importante acontece ao sul do Equador. Sem dúvida, temos grandes artistas que fazem sucesso lá fora, mas, na maioria dos casos, ainda se trata de um sucesso localizado (por exemplo, apenas no Japão ou em certos países europeus) e que atinge um público mais elitizado, de cabeça mais aberta, que conhece e aprecia música além do que é oferecido pelas plataformas de streaming e pela indústria do marketing cultural.

É certo que nem Carmen Miranda, nem Tom Jobim, nem Milton Nascimento chegaram ao top one do Spotify (na época em que brilharam, por sinal, nem havia essa tecnologia), mas fizeram – e ainda fazem – sucesso levando ao mundo uma música verdadeiramente brasileira, única e original mesmo quando incorpora aqui e ali, de maneira discreta, elementos do jazz ou do rock anglo-saxônicos. Não vejo essa mesma qualidade em Anitta: parece que ela se rendeu totalmente ao sistema do show business americano, pondo a meta do sucesso planetário e do dinheiro que o acompanha acima do primor estético, da riqueza de conteúdo e da exaltação da nossa cultura.

Ironicamente, o filme brasileiro que concorreu este ano ao Oscar é um documentário rodado nos Estados Unidos e falado em inglês abordando a questão dos sem-teto norte-americanos. Parece que é só assim, na terra e na língua deles, que nós brasileiros temos condições de competir hoje em dia.

A intérprete da pronúncia

Hoje o Brasil está completando quatro décadas sem Elis Regina. A Pimentinha, como era chamada, foi indubitavelmente uma das maiores intérpretes de nossa música popular, não só por seu grande talento e estilo inconfundível, mas também por ter lançado ao estrelado alguns dos maiores compositores da MPB dos anos 60 e 70 do século passado, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, João Bosco e tantos outros.

Elis dava às músicas interpretações definitivas, tanto que alguns autores admitiam compor para ela, mesmo que a canção acabasse gravada por outro intérprete.

Elis brincava com a voz, cantava rindo, chorando, resmungando, imitando vozes e sotaques, da impostação à la Ângela Maria ao caipirês de Renato Teixeira e ao bexiguês de Adoniran Barbosa. Da dicção afetada das socialites ao timbre rouco de Louis Armstrong, tudo era pretexto para um malabarismo melódico-rítmico-fonético. Elis explorou como poucos as potencialidades da voz e fala humanas ao cantar. Mas, além das vozes e sotaques que simulava, tinha sua própria pronúncia, que evoluiu ao longo da carreira, confirmando o traço camaleônico de sua personalidade.

É difícil, se não impossível, saber o quanto de intencionalidade havia nas pronúncias que Elis adotou, o quanto esse processo era consciente e deliberado.

Sabe-se que há pessoas mais propensas do que outras a incorporar hábitos linguísticos do lugar em que passam a viver. Embora a idade seja um fator importante na sedimentação desses hábitos (quanto mais jovem alguém muda de cidade ou país, maior sua facilidade em incorporar o novo padrão sem deixar vestígios do antigo), algumas pessoas imitam com perfeição a fala alheia, enquanto outras são capazes de viver décadas numa nova terra sem jamais perder as características de sua fala original.

O fato é que, se num primeiro momento, Elis simplesmente adotou a pronúncia carioca, talvez para se inserir melhor num mercado profissional em que o sotaque sulista não seria bem aceito, após algum tempo desenvolveu uma pronúncia própria e única, um sotaque “elisiano”, se é que se pode assim chamá-lo.

Elis Regina Carvalho Costa era natural de Porto Alegre, portanto imagina-se que, até o momento de abraçar a carreira musical, falasse como uma típica cidadã gaúcha. No entanto, ao lançar seu primeiro disco, no Rio de Janeiro, em 1961, ela já esboça uma pronúncia carioca que, por conta da Bossa Nova, começava a se tornar hegemônica na MPB, substituindo a articulação (e a impostação vocal) operística que predominara nas décadas de 1930 e 40.

Elis fixou residência em São Paulo a partir de 1964, e nessa cidade permaneceu até sua morte, em 1982. Seu s carioca (isto é, palatalizado em fim de sílaba) permaneceu inalterado até meados dos anos 1970, quando, aos poucos, foi substituído pelo impropriamente denominado s paulista (não palatalizado).

Pessoas não versadas em fonética ou dialetologia costumam referir-se a certos sons da fala brasileira por seus modelos prototípicos. Assim, o chamado r carioca (velar ou uvular, tecnicamente falando) não é próprio só do Rio, é padrão em boa parte do país. Da mesma forma, o r caipira deixou há muito de ser só interiorano, já que é usado por nativos de cidades como São Paulo e Curitiba.

As gravações de Elis entre 1975 e 1979 revelam características fonéticas um pouco diferentes do período anterior: um r cada vez mais gutural, incomum até no Rio de Janeiro; um l mais velarizado (como na pronúncia lusitana) e, vez por outra, a abertura das vogais pré-tônicas à maneira nordestina; momentos em que a voz soa mais anasalada, em outros menos; e assim por diante.

Especificamente em relação ao s final de sílaba, pode-se reconhecer em Elis três fases:

1) a primeira, em que o fonema soa tal como pronunciado no Rio (por exemplo, “casas” pronunciado como “cásach” ou “cásaich”);

2) a seguir, uma pronúncia mais próxima do brasileiro padrão (“cásaç”);

3) finalmente, um misto dos dois: “cásaiç”. Esta pronúncia a levou a articular “céus” como “céuis” em determinada canção.

Nossa querida Pimentinha constitui um riquíssimo caso de estudo, não só para musicólogos e críticos, mas também para linguistas.

Os 450 anos de “Os Lusíadas”

Este ano completa 450 anos de sua publicação a obra máxima da literatura em língua portuguesa, a epopeia Os Lusíadas, de Luís de Camões (ou Luis de Camoẽs, como era a verdadeira grafia de seu nome). O poema, composto de 10 cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos decassílabos, narra, de forma romanceada e misturando elementos do fantástico e do maravilhoso (como a intervenção dos deuses do Olimpo na história), a viagem de Vasco da Gama em busca do caminho das Índias. Portugal se encontrava então, como de resto toda a Europa ocidental, em pleno Renascimento. O gênero épico estava muito em voga nessa época, pois uma das características mais marcantes da Renascença foi a imitação dos gêneros artísticos greco-romanos. Naquele período, influenciados pelas epopeias clássicas – a Ilíada e a Odisseia de Homero e a Eneida de Virgílio –, muitos poetas criaram obras da mesma natureza e segundo os mesmos padrões estéticos. Podemos citar dentre eles os italianos Matteo Maria Boiardo, autor de Orlando Enamorado, Ludovico Ariosto, criador de Orlando Furioso, e Torquato Tasso, de Jerusalém Libertada, além do inglês John Milton (O Paraíso Perdido), todos eles precedidos de Dante Alighieri e sua Divina Comédia.

Mas, embora a obra de Camões seja das epopeias renascentistas a menos difundida internacionalmente, é a que mais fielmente recupera os traços do gênero épico da Antiguidade. Por sinal, a narrativa de uma viagem marítima cheia de perigos e indo ao encontro do desconhecido retoma elementos d’Os Argonautas, de Apolônio de Rodes, por exemplo. Além disso, enquanto as demais epopeias evocam temas cristãos ou medievais, Os Lusíadas estão repletos de mitologia grega e referências ao mundo clássico, tema, aliás, em que Camões tinha grande erudição.

Não vou me deter aqui nos aspectos mais propriamente literários da obra, visto que não sou especialista em literatura, nem tampouco vou falar da biografia do autor, cuja vida aventureira daria, ela própria, uma epopeia. Quero relatar a minha experiência pessoal com a obra, que desde o início exerceu sobre mim um extremo fascínio. Na verdade, desde criança eu ouvia falar vagamente de uma obra chamada Os Lusíadas, mas até então não sabia nada a respeito. Quando, nas aulas de literatura do colégio, finalmente compreendi do que se tratava e pude ler alguns excertos no livro didático que utilizávamos, foi paixão à primeira vista: corri a comprar uma edição, que tenho até hoje, publicada pela Edições de Ouro e comentada por Francisco da Silveira Bueno, além de belissimamente ilustrada com gravuras do século XIX. Li a gigantesca obra de uma lufada só, dia após dia, e a reli, no todo ou em partes, diversas vezes depois.

Mais do que isso, me aventurei a arriscar uns versos imitando o estilo do autor. Embora no século passado a epopeia já estivesse superada como gênero literário, eu quis, mesmo que de brincadeira, redigir o meu próprio poema épico – aliás, não fui o único maluco a fazer isso: Fernando Pessoa, Jorge de Lima e Cecília Meireles também se arriscaram, e com sucesso. A verdade é que meu poema nunca passou do primeiro canto; para ser bem sincero, nunca passou de um devaneio adolescente. Mas foi válido como experiência. Arrisco-me a dizer que minhas estrofes em oitava-rima (isto é, padrão de rimas ABABABCC) não ficaram nada más. Se tivesse nascido nos séculos XVI ou XVII, eu teria talvez sido até um poeta clássico razoável. Mas, por outro lado, não teria conhecido Drummond e sua poesia ácida e cética, minha grande inspiração no tempo em que eu cometia versos, também influenciado pelas letras de MPB no tempo em que letras de canções brasileiras eram verdadeira literatura.

Não sei como serão os festejos pelos 450 anos do poema que não só inseriu Portugal e a língua portuguesa na história da literatura mundial como também fixou o padrão linguístico que usamos até hoje, que se convencionou chamar de “português moderno”. Em tempos de pandemia e de Bolsonaro, é pouco provável que se dê algum relevo aqui no Brasil a essa efeméride. Já em Portugal espera-se uma grande comemoração. Se você ama poesia e literatura clássica, não deixe de ler Os Lusíadas; há boas edições no mercado e mesmo na internet.

Os estranhos nomes da MPB

A música popular brasileira atual tem sido marcada por um fenômeno incomum em outras épocas, bem como em outros países: a modificação dos sobrenomes dos artistas. Às vezes, o erro pode ser do próprio tabelião, e por isso um sobrenome italiano como Calcagnotto se torna Calcanhoto. Mas o mais frequente é que os próprios artistas simplifiquem seus nomes para facilitar a venda de discos, num claro reconhecimento de que o público tem dificuldade de soletrar nomes estrangeiros. Aí Vercillo vira Vercilo, Cañas vira Canhas, e assim por diante.

Curiosamente, isso ocorre com artistas, digamos, mais elitizados. Os mais populares têm feito o movimento inverso, duplicando consoantes para dar um ar sofisticado a nomes absolutamente comuns. E assim temos Gusttavo, Leitte, e uma série de grafias pouco ortodoxas, para não dizer estranhas mesmo.

Isso também acontece com atores de televisão. De um tempo para cá, tornaram-se frequentes as Alinnes, Paollas, etc. Há até uma atriz cujo sobrenome passou do prosaico Oliveira para Ólive, Óllive e finalmente Óliive (!). O motivo alegado em geral é a numerologia: tais grafias supostamente favorecem o sucesso. Crendices à parte, o êxito ou fracasso ligado à grafia do nome se deve mais ao gosto do público. Aparentemente, pessoas menos escolarizadas preferem nomes com grafias estrambóticas, cheios de k’s, w’s e y’s. Ao contrário, as de maior instrução optam pela simplicidade. Talvez por isso, a cantora Cláudia, cujo trabalho sempre teve por foco a MPB de boa qualidade, tenha caído em certo ostracismo, apesar do inequívoco talento, depois que, por razões numerológicas, passou a assinar-se Cláudya.

Deve-se ensinar alta literatura a adolescentes?

A polêmica da semana é a postagem do digital influencer Felipe Neto, segundo a qual “forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”. E acrescentou: “o fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”.

Sem dúvida, em um país que pouco lê e cuja cultura letrada, mesmo entre as classes mais abastadas, é bem baixa, questionar o ensino de literatura é algo bastante temerário e até mesmo iconoclasta. (Bem, talvez tenha sido realmente essa a intenção do famoso e controverso youtuber.)

Mas a questão é bem complexa e delicada, já que envolve vários aspectos, e o próprio ponto de vista dos estudantes não pode deixar de ser levado em conta. O filósofo e historiador Leandro Karnal afirma em seu Instagram que

Machado é um gênio, talvez o maior na prosa. É bom forçar um adolescente a ler Dom Casmurro para fazer uma prova? Acredito que isto precisa ser muito debatido. A diferença entre remédio e veneno é a dose. Como professor e amante da obra de Machado, eu diria: a) primeiro textos curtos e sedutores; b) avaliar idade e maturidade de cada turma; c) preparar o ambiente e trabalhar, talvez, O Alienista ou um conto curto; d) valorizar mais a ideia e as ironias, um pouco menos as personagens em uma avaliação. A questão está na gradação, no método, no prazer e na capacidade crítica. Eu começaria mostrando uma imagem tradicional de Machado “embranquecido” e o Machado real e perguntaria: “por que o gênio foi mudado na aparência?” Talvez, preparando O Alienista, lançaria o debate: “quem é louco para vocês?”. Dar uma obra densa, explicar que é realista e marcar uma prova é o caminho para despertar a raiva ou o tédio… De novo: ensinar alunos jovens é um desafio gigantesco.

O saudoso Rubem Alves diz em seu artigo O prazer da leitura:

Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. (…) [A criança] Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. (…) Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão.

Devo confessar que eu próprio sou uma das vítimas desse ensino equivocado de literatura. Sempre gostei de escrever, amo as línguas desde que me entendo por gente – ou, pelo menos, desde descobri que há muitas línguas no mundo. Abandonei o curso de física no quinto semestre para me dedicar à linguística por amor à palavra. No entanto, ter sido obrigado a ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, ou, pior ainda, A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, e O Cabeleira, de Franklin Távora, provocaram em mim um trauma que carrego até hoje: sou totalmente avesso à prosa de ficção. Na verdade, leio muito, desde filosofia, passando por divulgação científica, história, biografias, atualidades, política, crônica, música, até humor e poesia, mas há anos não pego nas mãos um romance ou livro de contos. Não que eu desmereça a literatura ou não tenha consciência de sua importância artística e cultural. Pelo contrário, admiro muito as pessoas que têm a paciência de ler a descrição de um ambiente ou do vestido da heroína feita em três longas páginas, cheias de figuras de linguagem e torneios sintáticos inusitados! Assim como admiro as pessoas que, lendo uma narrativa ficcional, conseguem transportar-se mentalmente aos ambientes que ela visita e conseguem visualizar as feições dos personagens sem associá-las a atores de televisão. Mas admito que, em matéria de ficção, sou de uma geração mais imediatista, que de fato achava um saco passar dias e dias lendo uma estória quando o cinema nos conta essa mesma estória em pouco menos de duas horas, com trilha sonora, recursos audiovisuais, maravilhosos cenários, belos atores e atrizes e, em alguns casos, até narrador (aquela voz em off que fala com o espectador como o narrador onisciente ou como um dos personagens contando sua própria história).

Lembro-me que no ano de 2000 publiquei um artigo na Folha de S. Paulo com o título Repensando o ensino de literatura. Nele, eu dizia:

[o] ensino de literatura portuguesa e brasileira faz parte do currículo escolar de primeiro e segundo graus, e o conhecimento dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares. A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão. Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação geral e humanística que se espera de qualquer cidadão escolarizado.
No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem-se restringido, as mais das vezes, à história da literatura brasileira e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de que o início do Romantismo no Brasil se deu com a publicação, em 1836, de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns livros enfadonhos (…).
Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música, a pintura, a escultura, o teatro… Entretanto, o ensino de educação artística nas escolas não se restringe à história da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos por meio da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente, o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é claro, para as carreiras de música e de artes plásticas).

Minha tese, que ainda sustento, é que o contato com a leitura deve ser prazeroso e que o aluno deveria ter a liberdade de escolher o que ler, seja ficção ou não ficção, seja nacional ou estrangeiro. Pois a cultura geral do cidadão não se faz apenas com narrativas de ficção, mas também e principalmente com a leitura de grandes intelectuais e pensadores, e o conhecimento que forma a cultura não está restrito a autores de língua portuguesa. Aliás, venhamos e convenhamos que a literatura de língua portuguesa goza de bem pouco prestígio em termos mundiais, o que parece indicar que há muito mais coisas boas a serem lidas lá fora do que aqui dentro.

Por isso, naquele artigo eu também defendia que,

[s]e o objetivo do ensino de literatura na escola média é estimular no aluno o hábito da leitura, então por que, em vez de obrigá-lo a ler obras de ficção de séculos passados, não se propõe a ele a leitura de obras importantes de não ficção da atualidade, como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos, por sinal muito bem escritos, ou os de Carl Sagan, que possuem, aliás, excelentes traduções em português? Será que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões reais do mundo contemporâneo, como a globalização e a poluição, por exemplo, não é mais relevante que o estudo de obras ficcionais?

Ou seja, eu considerava que a literatura de ficção, como arte, deve ser, sim, conhecida e apreciada, e que, para isso, é preciso educar a mente assim como se educam os ouvidos para apreciar boa música ou o paladar para degustar um bom vinho. E que o modo como essa literatura vinha – e pelo jeito ainda vem – sendo ensinada simplesmente desestimula o estudante a ler, mata-lhe a capacidade da fruição estética e o enche de enfado e tédio. Finalmente, a cobrança dessas leituras em concursos vestibulares favorece o surgimento de cursinhos e sites que fornecem resumos, de modo que o candidato possa responder às questões da prova sem ter passado pelo suplício de ler as obras.

À época, recebi muitas cartas de apoio (os e-mails ainda estavam engatinhando; comentários e likes nem sonhavam em existir). Mas também fui detonado por dois ou três professores de literatura de universidades renomadas, que, defendendo seu feudo, chamaram meu arrazoado de “barbárie”.

Portanto, não espero que você, leitor, concorde comigo, mas que reflita sobre a problematização que fiz. E que não pegue o atalho fácil de sair malhando essa ou aquela celebridade que posta alguma opinião polêmica nas redes sociais sem ter analisado a fundo a questão. Às vezes, até um Felipe Neto da vida pode dizer algo que faça sentido. Ou propor um debate que valha a pena.

A ciência do gosto

Outro dia, estava participando de um bate-papo em uma rede social quando veio à baila a questão do preconceito de uma suposta elite socioeconômica contra certas formas de expressão artística mais populares, ou popularescas – para falar português claro, bregas. Aí se incluiriam gêneros musicais como o sertanejo universitário (até hoje não entendi o que há de universitário nesse tipo de música), o pagode, o forró (igualmente universitário), a axé music, bem como as telenovelas mexicanas, os livros de Paulo Coelho, e por aí vai.

A tese de um dos debatedores era que há um preconceito por parte “da zelite” que têm dinheiro e estudo contra as formas de expressão do “povão” e que o gosto é uma construção social e cultural, sendo, pois, arbitrário, de modo que, por via de conclusão, a pecha de brega não se justifica, sendo mera perseguição simbólica daqueles que podem mais contra os que podem menos.

Essa história de que tudo é construção social, de que nada no ser humano é natural, é uma tese muito cara às chamadas ciências sociais (sociologia, história, política, etc.), mas que, as mais das vezes, não tem base científica alguma; pelo contrário, a ciência demonstra que a biologia quase sempre se sobrepõe à ideologia.

Deixando de lado o fato de que por trás dessa cultura extremamente popular está uma indústria milionária, cujos agentes (empresários, produtores, artistas) estão mais para elite do que para povo, o fato é que há muito tempo a filosofia e a ciência vêm se perguntando se o belo é uma convenção social, que portanto muda de sociedade para sociedade e de época para época, ou se é algo universal, que obedece às mesmas leis e critérios em todas as sociedades e em todas as épocas.

Aristóteles já havia se debruçado sobre a questão há 2.300 anos na sua Arte Poética. Antes dele, Sócrates e Platão também já haviam se perguntado sobre o que torna algo belo. A indagação perpassou a Idade Média, Renascença e Idade Moderna. Mas a ciência atual lançou alguma objetividade sobre o tema de modo a mostrar que beleza não é mera questão de gosto, mas o próprio bom-gosto pode ter raízes em nossa biologia.

Em primeiro lugar, descobriu-se que algo não é considerado de bom-gosto porque é apreciado pelas classes mais altas da sociedade, mas bem o contrário: os estratos superiores, por deterem o maior conhecimento, é que apreciariam o que é de fato bom. Isto é, a sensibilidade estética decorreria de um refinamento dos sentidos proporcionado pelo estudo, proporcionado por sua vez pelo dinheiro. Seja como for, dá-se um círculo virtuoso em que o refinamento intelectual busca o bom-gosto, e este gera mais refinamento.

Em segundo lugar, foram conduzidos experimentos com o objetivo de determinar se o sentido do belo é universal ou varia segundo parâmetros puramente culturais. Por exemplo, estudiosos pediram que voluntários dos mais diversos países e backgrounds culturais, divididos por gênero, idade, nível de escolaridade, classe social, etc., observassem fotos de rostos e apontassem aqueles que achavam bonitos. Havia rostos de todos os tipos: de homens, mulheres, crianças, brancos, negros, amarelos, jovens, velhos, e assim por diante. A pesquisa concluiu que os rostos escolhidos pela maioria dos voluntários tinham algo em comum: a simetria e proporcionalidade das feições. Mais ainda, os rostos mais belos na opinião das pessoas submetidas à experiência eram aqueles que melhor se enquadravam na chamada proporção áurea.

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A proporção áurea

Em termos matemáticos, a proporção áurea é a que se tem quando o lado menor de um retângulo está para o maior assim como este está para a soma dos dois. De modo mais geral, temos essa proporção quando a parte menor está para a maior assim como a maior está para o todo. Por sinal, um exemplo clássico de beleza corporal que baliza os artistas plásticos desde o Renascimento é o chamado homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, desenho em que se pode perceber as partes do corpo humano obedecendo claramente à proporção áurea.

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O homem vitruviano, de Da Vinci

Outro experimento lidou com combinações de cores. Pedia-se aos voluntários, igualmente possuidores dos mais diversos perfis, que fizessem combinações entre cores previamente dadas. Ao final, certas combinações prevaleceram sobre outras. Por exemplo, as que uniam uma cor quente, isto é, tendente ao vermelho, e uma cor fria (tendente ao azul) eram preferidas às que uniam duas cores quentes ou duas frias. Combinações entre tons claros e escuros também foram preferidos a combinações mais monótonas.

Outros tantos experimentos manipularam sons, vozes humanas, objetos bi e tridimensionais, texturas e muito mais. Aplicados à estética, esses resultados indicam que o bom-gosto está ligado ao equilíbrio, à simetria, à regularidade. Isso não quer dizer que uma forma assimétrica não possa ser bonita: a arte moderna rompeu em grande parte esse paradigma. No entanto, esse tipo de arte apela para outro dado igualmente importante quando se trata da criação artística: o efeito-surpresa. Nosso cérebro foi programado para prever eventos; e ele o faz baseado em experiências anteriores memorizadas. Por exemplo, se lemos uma frase como “Ele passou ___ no pão”, temos a tendência natural de completar a lacuna com palavras tais como “manteiga”, “geleia”, “margarina”, etc. De repente, se a lacuna é preenchida com a palavra “graxa”, nossas ondas cerebrais, monitoradas por um aparelho de eletroencefalografia, apresentarão um comportamento anormal, o que não acontece se a palavra oculta fosse “manteiga”, por exemplo. É que nossa mente reage ao que não espera. É isso que torna uma anedota engraçada: um final surpreendente, que contraria nossa expectativa. Diante dessa quebra de expectativa, desse estranhamento, temos a reação instintiva de rir. O elemento-surpresa é também fartamente explorado por narrativas de suspense e terror, mas, de forma geral, toda boa história tem enredo e sobretudo desfecho pouco óbvios.

Um terceiro elemento frequentemente ligado à sensação do belo é a complexidade. Embora também se possa encontrar muita beleza em coisas simples, a complexidade instiga nossa mente e aguça nossa curiosidade. Está aí a chave do prazer que nos causam os quebra-cabeças, as estórias policiais, os arabescos, a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach…

O que se pode dizer da arte popularesca é que, de modo geral, ela vai na contramão desses princípios: uso e abuso de clichês, desfechos óbvios, rimas pobres e previsíveis (como “sorte” e “morte” ou “paixão” e “coração”), repetição de fórmulas desgastadas, que um dia foram originais mas não são mais, e outros truques semelhantes.

Se a mente treinada pelo estudo e pela exposição ao maior número possível de experiências sensoriais busca a harmonia combinada à originalidade e à elaboração formal, o intelecto simplório das pessoas que não tiveram a oportunidade de viver experiências mentais instigantes se sente confortável diante do já conhecido, da expectativa não frustrada, da facilidade de decodificação, da oferta de mais do mesmo. E a indústria cultural de massas sabe bem disso (há inclusive especialistas da academia trabalhando para ela) e explora esse tipo de cultura à exaustão.

Portanto, deixando de lado o preconceito dos que preferem música clássica, jazz ou MPB à música brega, o fato é que os gêneros mais “elitizados”, digamos assim, de arte forçam nosso cérebro a formar novas conexões neuronais, ao passo que a arte mais popular e simplista apenas reforça as conexões já formadas. Dito de outro modo, a mente desafiada se torna mais inteligente, e a mente inteligente busca sempre mais desafios. É claro que, no frigir dos ovos, gosto não se discute, e há obras para todos os gostos. Mas bom-gosto se aprende, e todo gosto, seja ele bom ou mau, se pode estudar cientificamente.

Poesia, arte maior ou atividade marginal?

Ao longo da História, a poesia sempre foi considerada “a grande Arte”. Tanto que a palavra grega poíesis (criação, composição), da qual provém “poesia”, era o termo utilizado pelos gregos para designar a arte em geral (a palavra tékhne era reservada às artes manuais, como a escultura e a ourivesaria). Essa distinção se dava porque os gregos consideravam que um pintor ou escultor eram meros reprodutores servis da realidade, e que um quadro ou estátua, portanto, não passavam de cópias de objetos ou figuras humanas que qualquer artífice bem treinado seria capaz de fazer. Já a verdadeira criação do espírito estava na poesia e na música, que exigiam gênio para ser compostas. Aliás, a música e a poesia sempre conviveram na Antiguidade, tanto que o símbolo grego da poesia é um instrumento musical, a lira. Tal como na música popular de hoje, os poemas eram cantados e não recitados.

A facilidade em decorar versos foi fator determinante para o triunfo da poesia, a ponto de a maioria dos livros antigos, mesmo aqueles com finalidades práticas ou religiosas, como os Vedas indianos, ter sido escrita em versos. Numa época em que a transmissão do conhecimento era oral, a versificação facilitava muito as coisas. E entoar os versos, seguindo uma melodia, facilitava ainda mais.

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Foram os grandes poemas, as epopeias, os textos fundadores de línguas e nacionalidades. Foi assim com o Gilgamesh na Mesopotâmia, a Ilíada e a Odisseia na Grécia, a Eneida em Roma, o Mahabharata na Índia, além, é claro, do nosso épico Os Lusíadas, marco da língua portuguesa.

Até meados do século passado, a poesia figurava entre as grandes artes, e os poetas eram tidos em alta conta na sociedade (Bandeira, Drummond, João Cabral, Cecília Meireles são reverenciados até hoje). Muitos movimentos estéticos, como o Romantismo e o Modernismo, nasceram na poesia e só depois se espraiaram aos outros campos artísticos.

No entanto, a partir das décadas de 1950 e 1960, a “grande arte” entrou em decadência. As vendas de livros de poemas caíram, as editoras passaram a publicar menos (a não ser os grandes clássicos e, mesmo assim, visando sobretudo ao mercado didático), e grandes poetas, como Vinicius de Moraes, migraram para a música popular ou a publicidade.

Por sinal, no caso brasileiro, a MPB tem sido o grande refúgio dos poetas: e aí que, a meu ver, se encontram hoje os melhores textos em versos. É este também o melhor ganha-pão dos fazedores de versos; afinal, ser letrista de composições de sucesso pode render muito dinheiro em direitos autorais.

Não à toa, Chico Buarque, que nunca publicou um livro de poemas, já foi considerado o maior poeta brasileiro – em que pese a velha polêmica sobre se letra de canção é poema ou não.

Nos anos 1970 e 1980, a poesia já dava claros sinais de ter descido aos infernos da marginalidade com a chamada “geração mimeógrafo”. Tratava-se de poetas que imprimiam seus escritos no velho mimeógrafo (para quem não sabe ou não se lembra, é um aparelho que faz cópias de um texto manuscrito ou datilografado utilizando álcool) e saíam pelos bares e eventos culturais vendendo seu trabalho de mão em mão. Os mais abonados chegavam a imprimir seus livros em gráficas, às vezes com ótimo acabamento. Quem viveu essa época deve se lembrar de como às vezes eram inconvenientes esses poetas, interrompendo a conversa de casais de namorados para ofertar um livro (alguns até dedicavam certo poema ao amor do casal).

De lá para cá, o advento da internet fez migrar os poetas-camelôs para os blogs, meio muito mais eficiente e econômico de divulgar poemas. Mesmo assim, o alcance de um texto poético na rede é bem pequeno se comparado a blogs de moda, tecnologia, esportes, notícias, etc.

O que hoje se nota é que a poesia, outrora rainha das artes, mudou-se de mala e cuia para a periferia das cidades, e é um fenômeno que anima sobretudo as classes mais baixas. Na onda do hip-hop, grande parte dos atuais poetas de periferia são rappers, que novamente unem a música à palavra para dar seu recado. Um recado que fala em geral de coisas pouco poéticas, como crime e violência policial.

Se no século XIX saraus literários eram eventos da elite, regados a chá e quitutes finos, hoje o sarau ocorre em bares e salões paroquiais, e poetas e espectadores se confundem; neles, há participação de artistas amadores, donas de casa, estudantes, aposentados…

Não que o fenômeno seja desprezível. Embora longe dos holofotes da mídia ou do interesse dos críticos acadêmicos, esse movimento poético marginal envolve um grande número de pessoas, muitos livros fabricados artesanalmente têm sua tiragem esgotada na venda direta do autor ao leitor, e muitos desses poetas são verdadeiras celebridades em seu meio. Só que a qualidade dessa produção também é bastante irregular: poetas de qualidade declamam ao lado de senhoras que versejam por passatempo ou adolescentes que dedicam suas criações um tanto infantis ao ser amado.

Como os livros são produzidos sob encomenda do próprio autor – e por ele financiados –, não há um critério de seleção por qualidade ou viabilidade comercial como ocorre nas editoras. E tais obras, desconhecidas da maioria da sociedade, jamais entrarão para o cânone literário, jamais serão estudadas nas aulas de literatura, jamais entrarão para a História.

A poesia resiste, seja nas letras de canções, seja nos blogs e nos saraus de periferia, mas é triste constatar que essa arte, que fundou a literatura, que é a mais antiga forma de manifestação artística do homem e que define povos e culturas, hoje vive na marginalidade. Enquanto músicos, artistas plásticos, atores, cineastas, performers e mesmo escritores de prosa mais comercial ganham dinheiro e fama com sua arte, os poetas se misturam e se confundem com a pobreza e a violência do lado esquecido (“excluído” é moda dizer hoje em dia) da cidade e da sociedade.

O caipirês de “Êta Mundo Bom”

Têm corrido as redes sociais alguns comentários criticando o sotaque caipira dos personagens da telenovela Êta Mundo Bom (Rede Globo, 18 horas). Segundo tais comentários, a pronúncia dos atores do núcleo interiorano do folhetim estaria exagerada, já que ninguém fala desse modo.

Em outra oportunidade, eu já havia discutido essa questão de como atores baseados no Rio de Janeiro ou em São Paulo imitam pronúncias regionais ou sotaques estrangeiros no artigo Sotaque de novela.

É evidente que o sotaque que ouvimos nessa novela é carregado e por vezes pouco verossímil, mas neste caso parece que a intenção é essa mesmo – afinal, trata-se de uma obra cômica, que busca o tom caricato. O público pode gostar ou não do gênero, mas não cabe dizer que a pronúncia está errada; fosse uma telenovela dramática, as críticas seriam pertinentes.

Além disso, quem conhece o interior sabe que em certas regiões, principalmente da zona rural, a pronúncia é de fato carregada, em especial entre os mais velhos e os menos escolarizados.

O que chama a atenção de um especialista em linguística não é, portanto, o sotaque, mas um erro comum quando um cidadão urbano, como são os atores, tenta imitar o “caipirês”: como se sabe, os habitantes da roça costumam trocar “l” final de sílaba por “r” (“animar”, “arma”, “artura” por “animal”, “alma”, “altura”). Só que, como na maior parte do Brasil o “l” e o “u” finais de sílaba soam igual, alguns atores acabam pronunciando “cér” e “armento” por “céu” e “aumento”.

No verdadeiro português caipira, só o “l” é trocado por “r”; o “u” permanece tal e qual se a sílaba é tônica (caso de “céu” e “capiau”) ou então o ditongo a que pertence se reduz a uma vogal “o” ou “u” se a sílaba é átona (“omento”, “Oropa”, “uvido” em lugar de “aumento”, “Europa”, “ouvido”).

É que o dialeto caipira (sim, o caipirês é um dialeto) descende diretamente do português falado pelos nossos primeiros colonizadores e, como se sabe, os portugueses fazem clara distinção entre “l” e “u” (“mal” e “mau” não têm a mesma pronúncia em Portugal, razão pela qual eles não têm a mesma dificuldade que nós em grafar essas palavras).

Seja como for, mesmo essa impropriedade fonética deve ser relevada como “licença poética”, pois se trata de uma comédia, em que todos os exageros são permitidos em nome do humor.