O senhor, a senhora

Não gosto de ser tratado por senhor. Nunca gostei. Mas, depois de uma certa idade, tenho gostado menos ainda. Quando criança, aprendi que deveríamos tratar os mais velhos por senhor ou senhora em sinal de respeito. Quando se é criança, mais velhos são todos os adultos, inclusive os de 18, 19 anos. E o respeito aos mais velhos é um princípio basilar da civilização. Afinal, o primeiro fundamento de uma sociedade organizada é o respeito à autoridade, começando pelos próprios pais. Portanto, não respeitamos nossos pais por serem mais velhos que nós, mas por serem hierarquicamente superiores. Embora a palavra senhor provenha do latim senior, que significa “mais velho”, a ideia é que senhor é aquele que tem poder: senhor de si mesmo, senhor de escravos, senhor feudal, assenhorear-se… No entanto, sempre tratei meus pais por você e nunca faltei ao respeito com eles. Em contrapartida, parlamentares se tratam por Vossa Excelência mesmo quando se xingam e se acusam de corruptos.

É por essa razão que tratamos por senhor aqueles que têm autoridade política, administrativa ou intelectual: delegados de polícia, médicos, advogados, professores, nosso chefe, o diretor da empresa, e assim por diante. Também tratamos por senhor ou senhora pessoas desconhecidas, com quem não temos proximidade, desde que não sejam mais jovens que nós.

Assim, depois que passei dos 40 anos comecei a ser tratado por senhor por balconistas, manobristas, atendentes e todo tipo de prestadores de serviço, o que significa que esse tratamento tem a ver com idade, mas também com posição social. Aliás, hoje em dia, a etiqueta empresarial recomenda que todo cliente seja tratado por senhor mesmo que seja jovem. Também sou tratado por senhor por muitos de meus alunos, embora eu nunca tenha feito questão disso e, desde o primeiro dia de aula, os deixe à vontade para dirigir-se a mim como quiserem, desde que com respeito.

Mas a questão é que o uso dos pronomes de tratamento o senhor e a senhora encobre um certo etarismo. Afinal, somos quem somos desde que nascemos e até quando morrermos. Por que deveríamos ser tratados pelas pessoas de modo diferente só porque envelhecemos? Chamar alguém de senhor sem que haja um desnível hierárquico é uma maneira sutil de dizer “você é velho”. E por que deveríamos tratar os velhos de maneira diferenciada? Nas sociedades tribais e ágrafas, os velhos são os detentores do conhecimento ancestral, que passa de geração a geração; portanto, merecem respeito porque são a própria salvaguarda da continuidade da tribo e de sua cultura. Além disso, são os detentores do poder na tribo. Mas, na nossa sociedade “civilizada”, o velho é geralmente visto como alguém não produtivo, desatualizado, frágil, dependente, sem autonomia, “bananeira que já deu cacho” — enfim, numa palavra, alguém inútil, quando não um fardo que a sociedade tem de carregar. E numa sociedade que exalta a juventude, a vitalidade e a produtividade, o velho é a antítese de tudo isso.

É por essa razão que não gosto de ser chamado de senhor. Porque, mesmo já não tão jovem, sou ativo, produtivo, antenado com as novas tendências, e porque, como disse, o tratamento mais formal não necessariamente indica respeito e sim um preconceito disfarçado. É por isso também que não pretendo ser velho: quero ser vintage.

O bom e o belo

“O homem é a medida de todas as coisas.” A famosa frase do filósofo grego Protágoras (c. 490 a.C. – c. 415 a.C.) foi completada à época do Renascimento: “O homem é a medida de todas as coisas; é a medida do bom, do belo e do justo”. A ideia de que o bom e o belo andam juntos é bem antiga (na língua grega, kalós significa tanto “bom” quanto “belo”). E em latim também há essa relação. Nossa palavra bom veio do latim bonus, cuja forma arcaica era duenos; já belo vem de bellus, cuja forma primitiva era duenolos, diminutivo de duenos, do mesmo modo como bonito provém do espanhol, em que é um diminutivo de bueno. Portanto, o belo é o “bonzinho”, forma carinhosa de descrever algo bom.

De fato, como se sabe desde o advento da estética, ramo da filosofia que tem por objeto de estudo o fenômeno da beleza, belo é aquilo que é bom para os sentidos, especialmente a visão e a audição (o que é bom para o olfato é cheiroso, o bom para o paladar é saboroso, e para o tato é macio).

Portanto, há muito tempo o homem se pergunta o que torna belo um objeto, especialmente uma obra de arte. Mas não só ela: por que algumas pessoas são belas, outras são feias, outras não cheiram nem fedem? E por que achamos belos certos lugares e não outros? Por que até uma simples pedra pode ter uma forma bela, ainda que produzida casualmente pela natureza? Em outros termos, por que achamos belo algo que não foi criado para esse propósito?

Se o belo é o bom para os sentidos, aquilo que nos dá prazer, a noção de beleza se reduz à de qualidade. E qualidade não tem nada a ver com gosto, como pensam muitos. A qualidade é objetiva: qualquer um sabe distinguir perfeitamente um produto ou serviço de qualidade de um ruim. Nesse sentido, Beethoven, Tom Jobim ou Beatles são objetivamente melhores que Tati Quebra-Barraco ou Ana Castela. Já o gosto é subjetivo  e decorre sobretudo da influência do meio: uma pessoa nascida e criada num ambiente pobre e exposta desde a infância ao funk e ao forró certamente gosta desses gêneros, até porque não conhece ou não compreende outros. A pressão social faz com que cada um molde seu gosto ao ambiente a que pertence e ao qual procura adequar-se. Isso significa que uma coisa é não gostar da música de Chico Buarque, outra é afirmar que sua música é ruim.

No artigo A ciência do gosto, ilustrei como experimentos científicos demonstraram que o senso estético tem uma natureza biológica; ainda que certas preferências sejam condicionadas por fatores culturais, há uma tendência convergente em todos os seres humanos de reconhecer o belo de modo objetivo. E a beleza normalmente obedece a certos padrões que têm a ver com simetria, harmonia e originalidade.