A origem da palavra “feriado”

Eis que chegou mais um feriado. Mas por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. Feriado deriva de féria, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações segunda-feira, terça-feira, etc., em que feira, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra férias seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de féria, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra féria, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra feira vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, feira passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras teologia e ateu, dentre outras.

Portanto, feira, féria, férias, feriado, festa, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, como o dia de Nossa Senhora Aparecida, comemorado hoje, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, partiu comemorar o feriado, mas com moderação na comida e bebida, para que a festa não se transforme num dia nefasto.

Homossexualismo ou homossexualidade?

O caso da piada homofóbica feita pelo disseminador de fake news bolsonarista Otávio Fakhoury contra o senador Fabiano Contarato e a elegantíssima resposta dada por este ao negacionista Fakhoury na sessão da CPI da pandemia repercutiu durante toda a semana. Emocionado, indignado, mas altivo, o senador falou em nome de todos aqueles que são diariamente desrespeitados neste país por sua orientação sexual, cor da pele, gênero, idade, condição física, origem étnica ou geográfica, e assim por diante.

É claro que eu jamais faria uma brincadeira tão sem graça e tão desrespeitosa, mas se a tivesse feito, naquele momento na CPI, diante das câmeras e de milhões de telespectadores brasileiros, teria cavado um buraco no chão e me enterrado nele. Para resumir numa palavra a atitude do militante bolsonarista, eu diria que, além de insultuosa, foi uma tremenda babaquice, coisa de moleque e não de homem feito. Ainda mais vindo de alguém que detém certa cultura, muitos recursos materiais e que exalta a família o tempo todo, mas só um tipo de família – a dele.

Mas o caso suscitou novamente uma controvérsia linguística. Qual a forma politicamente mais correta: homossexualismo ou homossexualidade? Esse debate não é novo, e muitos dizem que cabe aos membros da própria comunidade LGBTQIA+ decidir como devemos nos referir a eles. Não vou entrar nessa polêmica, que envolve lugar de fala e outras questões atinentes à linguagem inclusiva. Vou apenas expressar minha opinião com base no meu conhecimento de língua.

Critica-se a forma homossexualismo alegando que o sufixo ‑ismo remete à ideia de doença ou patologia. Teríamos então nanismo, autismo, sedentarismo, etc., ao passo que o sufixo ‑dade de homossexualidade seria mais neutro, denotando condição – uns chamam até de opção (o que não é o caso, já que ninguém escolhe ser homossexual) ou orientação.

Entretanto, há inúmeras contraprovas desse argumento. Em primeiro lugar, o sufixo -ismo aparece em capitalismo, marxismo, classicismo, romantismo, automobilismo, alpinismo, cristianismo, budismo, e muitos outros.

Em segundo lugar, o sufixo ‑dade ocorre no nome de várias patologias: ansiedade, obesidade, hiperatividade.

Portanto, penso que não há nada de negativo em homossexualismo e nada de neutro ou positivo em homossexualidade. Ainda que os portadores dessa condição tenham sua preferência vocabular – e eles estão no seu direito –, não vejo sentido em repreender alguém por usar outro termo que tem exatamente o mesmo significado. Ou seja, sufixos não são bandeiras ideológicas, são meras ferramentas da língua para expressar conceitos. Há muitos indivíduos homofóbicos usando a palavra homossexualidade, assim como há muitos simpatizantes da causa LGBTQIA+ empregando homossexualismo, tudo por uma questão de hábito, sem qualquer outra conotação.

E em tempo: parabéns ao senador Contarato por sua coragem e postura cívica e a todos aqueles que, como ele, se sentiram ofendidos por um babaca.

A morte das palavras

Palavras são como as pessoas: nascem, vivem e morrem. Umas de morte morrida, tão velhas ficaram como as coisas que designavam. Quem hoje penteia suas madeixas ou anda de tílburi? Quem hoje compra rapé ou usa pince-nez?

Outras morrem de morte matada: são substituídas por palavras mais modernas, mais “antenadas” com nosso tempo. Quem hoje chamaria o goleiro de quíper ou o médio-volante de centeralfo? Quem chamaria “locutor” de speaker? Quem ainda datilografa o próprio nome ou disca um número no telefone? Evidentemente, as palavras são o espelho da realidade e mudam com o mesmo dinamismo com que muda a realidade. Logo, não é de causar pesar a morte de certas palavras, embora outras, de tão belo uso em tempos passados na boca ou na pena de nossos grandes escritores, tenham sido sentenciadas de morte em tribunal de legitimidade duvidosa, como favela, aleijão, prenhez

Mas o espantoso é que até palavras gramaticais, aquelas que não espelham a realidade, apenas fazem a língua funcionar, também morram – por vezes, assassinadas pelos próprios falantes. É o caso de cujo, pronome relativo possessivo, muito útil no passado, mas que, talvez por obrigar a uma inversão sintática da oração, começou a causar embaraço aos usuários menos destros do vernáculo. Especialmente quando está em jogo outra pedra no sapato dos falantes egressos de nosso ensino público: a concordância. E assim até falantes supostamente cultos (pelo menos, portadores de diploma universitário) fazem certos malabarismos verbais para evitar o emprego de um cujo que, mal colocado, é uma verdadeira casca de banana à espera do transeunte incauto. E dá-lhe “a pessoa que o nome dela eu não lembro agora” ou “o sujeito que o filho é médico”. Às vezes, ocorre o oposto: querendo parecer letrado, o gaiato sapeca um cujo o qual: “troquei a lâmpada cuja a qual estava queimada”.

Por razões que desconheço, onde, antigo advérbio de lugar, assumiu o posto do falecido cujo em frases como “o candidato onde as propostas são melhores” e coisas do tipo. Talvez a origem desse uso tenha um dia sido de fato locativa: “a cidade cujos habitantes têm a maior renda” passou a alternar com “a cidade onde os habitantes têm a maior renda”. Só que daí a onde virar palavra passe-par-tout foi um pulo.

E tampouco, quem ainda usa? Algum trocadilhista poderia objetar que essa palavra hoje se usa tão pouco… Mas o fato é que renunciamos a um vocábulo legitimamente pertencente a nosso sistema gramatical, já que é antônimo de também, para em seu lugar empregarmos o insípido e menos econômico também não: “Eu não fui à festa, e João também não”. Claro que construções mais literárias como “Mas não estou triste, tampouco alegre, não estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, não vou gritar, não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo” (Martha Medeiros) ficariam empobrecidas se tascássemos um também não no lugar de tampouco: “Mas não estou triste, também não alegre…”.

Vejam que não estou falando de palavras rebuscadas, índice de erudição pedante, como obséquio ou contradança; estou falando de palavras que têm equivalentes em outras línguas perfeitamente vivos e vigorosos: qualquer um que aprenda inglês ou espanhol terá de saber usar whose, either, neither, cuyo, asimismo, tampoco.

A realidade é que certas palavras e expressões como outrossim, sobremaneira, deveras, com efeito, debalde, dar azo se perderam nas brumas do passado, e outras não nasceram para substituí-las. Ou seja, o idioma apenas se empobreceu de recursos expressivos, na mesma medida talvez em que se encheu de termos técnicos. Para um amante das palavras, para um cultor do estilo, para um admirador da língua, esse passamento dos vocábulos pode ser melancólico e suscitar nostalgia de um tempo quiçá mais poético. Mas, como disse Drummond na crônica Antigamente, “tudo isso era antigamente, isto é, outrora”.

Bolsonaro foi a Canossa

Um dos fatos históricos mais marcantes da Idade Média foi a chamada Questão das Investiduras, ou Querela das Investiduras. Trata-se de um conflito ocorrido de 1075 a 1122 entre o papa e o imperador germânico no qual se disputava a primazia na nomeação de bispos. Ocorria que o imperador Henrique IV desejava escolher ele mesmo os bispos a serem investidos dentro dos territórios do Império. Por outro lado, o papa não abria mão de seu poder sobre cardeais, bispos, abades e párocos. Assim, Henrique declarou guerra ao papado e, por causa disso, acabou excomungado pelo papa Gregório VII. Isso fez com que os barões alemães esboçassem a intenção de emancipar-se do jugo do imperador. Temendo a fragmentação de seu império, Henrique pediu ao papa que revogasse sua excomunhão.

Gregório VII exigiu então que o imperador viajasse de Speyer, na Alemanha, a Canossa, na Itália, e que permanecesse três dias e três noites ajoelhado às portas do castelo, sob frio e neve, descalço e trajando apenas uma túnica de lã. Cumprida essa penitência, o papa o recebeu e revogou sua excomunhão sob certas condições, que Henrique viria a violar pouco tempo depois.

Desse episódio histórico surgiram as expressões “penitência de Canossa” e “ir a Canossa” para designar um ato humilhante que alguém tem de praticar para conseguir o perdão por um malfeito.

Foi exatamente o que Bolsonaro foi obrigado a fazer ontem ao publicar uma carta à nação assinada por ele, mas redigida pelo ex-presidente Michel Temer, em que afirma não ter querido dizer aquilo que dissera em 7 de setembro sobre o STF e o ministro Alexandre de Moraes.

O fato de o presidente não ter redigido a carta com suas próprias palavras já põe em dúvida a sinceridade de seu conteúdo. Mas, como o que vale é a assinatura, para todos os efeitos – e para decepção de seus militantes – Bolsonaro fez um vexatório recuo estratégico. Ou seja, foi a Canossa.

Melhor para o Brasil, que já não tem poucos problemas a resolver. No entanto, o ceticismo é geral, não só dos ministros do Supremo, mas até mesmo dos próprios aliados políticos do presidente. Conhecendo o temperamento do capitão, estamos todos aguardando que ele, como Henrique IV, logo viole as promessas de bom comportamento que acabou de fazer. Como não é a primeira vez que ele morde e depois assopra, fica difícil acreditar nessa nova versão “Bolsonarinho paz e amor”.

As metáforas da crise política

Desde que a crise política entre os Poderes do Estado se instalou, ou melhor, foi artificialmente criada em nosso país, tem pululado na imprensa e entre os agentes políticos uma série de metáforas para descrever a situação. Desde que Bolsonaro começou a ensaiar o golpe que nunca dará, passamos a ouvir expressões como “jogar fora das quatro linhas da Constituição”, “esticar a corda”, “avançar o sinal”, “cruzar o Rubicão”, “enquadrar o STF”, “panela de pressão prestes a explodir”, “queimar as pontes entre o Executivo e o Judiciário”, “jogar para a plateia”, “fazer cortina de fumaça” e algumas outras.

“Jogar fora das quatro linhas da Constituição” faz referência a uma partida de futebol, em que só são válidas as jogadas que ocorrem dentro de campo; portanto, fora das quatro linhas, temos o desrespeito à Constituição e, consequentemente, o arbítrio.

Também do futebol vem a expressão “jogar para a plateia”, em que o jogador está mais preocupado em fazer jogadas bonitas do que eficientes, logo em encantar o público e não em ganhar o jogo. Nesse sentido, ao fazer suas bravatas, o Presidente insufla sua torcida, isto é, seus apoiadores, mas não rompe de fato com o estado de direito.

Já “esticar a corda” remete ao cabo de guerra, esporte em que cada grupo de competidores puxa uma das extremidades de uma corda, vencendo aquele que conseguir derrubar o grupo adversário. Muito praticado pelos militares, e por isso mesmo relacionado ao universo de Bolsonaro, é um exercício de medição de forças. Ou seja, ele e o Supremo Tribunal Federal estariam disputando para ver que é o mais forte. Depois de suas declarações de ontem em Brasília e em São Paulo por ocasião do Sete de Setembro, o capitão Bolsonaro teria, segundo analistas, não apenas esticado, mas rompido a corda, num processo sem volta.

Também do vocabulário militar vêm as expressões “fazer cortina de fumaça” e “queimar as pontes”. A cortina de fumaça é uma fogueira que as tropas fazem para que, encobertas pela fumaça, o inimigo não possa vê-las. Assim, a própria crise entre os Poderes seria uma tática diversionista para desviar a atenção da opinião pública dos reais problemas do país: má gestão da pandemia, com quase 600 mil mortes; má gestão da crise hídrica, em grande parte causada pelo próprio descaso do governo com a destruição da Amazônia (sim, amigos, o desmatamento é o principal responsável pela falta de chuvas no Sudeste e Centro-Oeste); alta do dólar; alta dos combustíveis; alta da inflação; desemprego em massa; fome; corrupção no governo; reformas ruins e que, mesmo assim, não andam no Congresso (agora devem andar menos ainda), y otras cositas más.

Por outro lado, quando uma tropa atravessa um rio, ela queima a ponte por onde passou para que o inimigo não possa alcançá-la. Por isso, “queimar as pontes” é ao mesmo tempo romper a comunicação e destruir qualquer possibilidade de retorno. É exatamente o que faz o Presidente.

“Avançar o sinal” é evidente metáfora do trânsito, em que ultrapassar o sinal vermelho é infração gravíssima, assim como desrespeitar ou tentar destruir a ordem democrática.

“Cruzar o Rubicão” alude ao episódio da história de Roma em que, tendo conquistado a Gália, Júlio César atravessou um rio chamado Rubicão, que separava a Gália Cisalpina da Itália, marchou com seu exército sobre Roma, o que era proibido pela lei romana, e declarou guerra ao Senado. Nessa ocasião, proclamou: alea jacta est, “a sorte está lançada”. A partir de então, “cruzar o Rubicão” passou a significar “tomar uma decisão arriscada e irreversível”.

A “panela de pressão prestes a explodir” é uma óbvia analogia a situações de grande tensão emocional das quais qualquer ato explosivo pode repentinamente surgir, como a ruptura institucional, por exemplo.

Por fim, “enquadrar o STF” ou “enquadrar o ministro Alexandre de Moraes” remete a colocar a pessoa ou instituição dentro de uma moldura, como um quadro, de modo que ela não possa sair e fique confinada a esse espaço. No caso em questão, trata-se de limitar o poder de ação do(s) ministro(s) do Supremo, especialmente em ações que possam atingir Bolsonaro ou seus apoiadores.

O recurso à metáfora é uma das estratégias comunicativas mais antigas que existem. Eu arriscaria dizer que ela surgiu praticamente junto com a própria aptidão linguística do ser humano. Prova disso é que grande parte das palavras que usamos são metáforas desgastadas das quais já não nos damos mais conta. Tanto que acabei de empregar uma: desgastar uma metáfora é empregá-la com tal frequência que ela deixa de ser sentida como figura de linguagem, do mesmo modo como se desgasta uma ferramenta de tanto usá-la até que ela perca sua funcionalidade. Infelizmente, o cenário atual nos tem brindado com mais metáforas do que com saídas para a crise.

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Agora uma consideração política: apoiar Bolsonaro neste momento é, a meu ver, trabalhar para eleger Lula no próximo ano. Se o capitão sofrer impeachment, o segundo turno da eleição de 2022 será disputado entre Lula e o candidato da terceira via, seja ele quem for. E esse candidato, seja ele quem for, terá grandes chances de derrotar Lula, dada a grande rejeição que o petista e seu partido têm no eleitorado brasileiro. Já uma disputa de segundo turno entre Lula e Bolsonaro evidentemente favorece o primeiro. Portanto, os bolsonaristas podem estar involuntariamente fazendo campanha para seu arqui-inimigo. Ou, para usar mais uma metáfora, dando um tiro no próprio pé.

Só o português tem saudade?

Um dos mitos mais arraigados entre os falantes do português é o de que só a nossa língua tem uma palavra para denotar o sentimento de tristeza causado pela ausência de algo ou alguém. Em primeiro lugar, é bom ter em mente que, se nem mesmo dentro de uma língua é possível encontrar sinônimos perfeitos, muito menos quando passamos de um idioma a outro.

No entanto, há expressões equivalentes em várias línguas para o sentimento que chamamos de saudade. Por exemplo, o espanhol tem añoranza, o inglês tem longing e yearning, o alemão tem Sehnsucht e Heimweh… Dizem mesmo que o polonês tem um equivalente exato (embora seja arriscado falar em exatidão em matéria de línguas) para o português “saudade”: é tęsknota.

E para expressar a falta de alguém querido, temos expressões como te extraño (espanhol), I miss you (inglês), tu me manques (francês), e assim por diante. Sem falar em nostalgia, palavra presente em muitos idiomas e originária do grego, em que quer dizer “saudade do lar, desejo de regressar” (de nóstos, “volta para casa”, e álgos, “dor”), sentimento experimentado pelos navegantes que passavam anos longe de casa e da família, como Ulisses na Odisseia (esse sentido também está presente no alemão Heimweh, de Heim, “lar”, e Weh, “dor”). Evidentemente, a nostalgia é, pelo menos para os falantes de português, um tipo específico de saudade: a que sentimos do passado, de um tempo em que éramos – ou pensávamos ser – mais felizes.

Seja como for, a nossa saudade provém do latim solitatem, “solidão”, a mesma palavra que deu o espanhol soledad. O que significa que a saudade estava originalmente ligada ao sentir-se só, abandonado, distante dos entes queridos. Para muitas pessoas, por sinal, estar longe de quem se ama é o mesmo que estar sozinho, ainda que em meio a uma multidão.

Quanto à separação silábica de saudade, os dicionários atuais só admitem sau-da-de. Entretanto, dicionários mais antigos, especialmente lusitanos, admitiam sa-u-da-de, com hiato – e muitos poemas até a época parnasiana trazem grafada a palavra como saüdade, para acentuar a separação entre o a e o u. Essa escansão se deve em parte às necessidades da métrica clássica e em parte a uma aproximação sonora com saúde e saudar (que se conjuga saúdo, saúdas, saúda, etc.). Aliás, o latim solitatem passou primeiro ao português soidade e só depois se tornou saudade. A explicação para essa passagem é obscura, mas uma hipótese plausível é que, assim como temos as variantes louro e loiro, coisa e cousa, soidade admitisse a variante dialetal soudade, que, por dissimilação ou influência de saudar, resultou na nossa saudade. O fato é que, embora o português e o espanhol sejam línguas irmãs, cada uma desenvolveu sua maneira própria de denominar esse sentimento.

Jogos para o quê?!

Enfim vão começar os Jogos Paralímpicos, que outrora se chamavam Jogos Paraolímpicos. Me lembro que, quando acompanhava pela televisão os jogos de Londres em 2012, estranhei locutores e apresentadores pronunciarem paralímpico e Paralimpíadas em lugar de paraolímpico e Paraolimpíadas. Eu mesmo tive, num primeiro momento, a impressão de que o repórter havia cometido um lapsus linguae. Mas, logo a seguir, quando outros jornalistas insistiram nessas pronúncias, me dei conta de que algo havia mudado na língua portuguesa.

Mas por que paralímpico? A explicação é que o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) decidira  trocar de nome para acompanhar a tendência mundial. De fato, comitês de outros países já usavam havia algum tempo essa forma sem a vogal o. Essa inovação surgiu, como sempre, no âmbito da língua inglesa, na qual paraolympic e paralympic têm a mesma pronúncia (tanto a quanto ao soam como o nosso â). Por isso mesmo, os falantes do inglês devem ter achado a grafia paralympic mais adequada, por estar mais próxima da pronúncia. E nosso comitê embarcou na onda, dando um prazo de 18 meses para que as entidades filiadas a ele fizessem a alteração ortográfica.

O problema é que, na ocasião, o CPB tomou essa decisão sem consultar quem de direito: os estudiosos da língua. Um parecer encomendado em 2008 pelo comitê desportivo português à linguista Margarita Correia afirmava ser mais consentâneo com a estrutura da língua portuguesa que o termo mantivesse a vogal inicial o da palavra olímpico. De fato, se paraolímpico resulta da junção do prefixo de origem grega para‑ com o adjetivo igualmente grego olímpico, por que suprimir uma vogal que afinal pertence ao radical da palavra? Contração mais lógica é parolímpico, que, aliás, seria a forma da palavra se tivesse sido cunhada na Grécia antiga. (Em caso de contração, o grego clássico mutilava o prefixo, nunca o radical; por exemplo, para‑ + onomásia = paronomásia.) Esse princípio é o mesmo que deu hidrelétrico a partir de hidro‑ mais elétrico ou psicanálise de psico‑ e análise, por exemplo. A realidade é que o parecer da linguista lusitana foi solenemente ignorado.

À época, tudo levava a crer que, com a decisão burocrática do CPB e o aval da imprensa, dentro de algum tempo paraolímpico e Paraolimpíada deixariam de existir, o que de fato ocorreu. Tanto que já na logomarca dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro de 2016, foi essa a grafia oficialmente utilizada. E agora em Tóquio, estamos novamente pronunciando e escrevendo algo que de um ponto de vista estrutural não faz sentido. Fazer o quê? A língua evolui…

O teste e a testa

A etimologia é uma ciência fascinante porque, volta e meia, nos pega de surpresa, revelando relações insuspeitas entre palavras que à primeira vista não teriam qualquer parentesco. Apesar da semelhança fonética, o que poderia haver de comum entre a testa, parte frontal da nossa cabeça, e o teste, isto é, o ensaio, a prova, o exame? Pois essas duas palavras têm muito em comum.

Para entendermos isso, é preciso recuar até o latim testa e testu, respectivamente “vaso de barro cozido” e “tampa do vaso”. Esta última palavra, que também se encontra na forma testum, significa igualmente o vaso e o próprio barro de que é feito, ambos por metonímia. Temos, aliás, em português o desusado testo, com o significado de vaso de barro e de tampa de vaso.

Mas como essas palavras latinas deram testa e teste em nossa língua? É que, como pote ou vaso de barro, testa passou desde logo a ser uma gíria para “cabeça” no latim popular (assim como capitia, “capuz”, que deu cabeça em português, também). Por essa razão, “cabeça” se diz testa em italiano e tête em francês.

Ao mesmo tempo, testu deu o já citado testo em português e têt (antigamente grafado test) em francês, este com os sentidos de pote, vaso e crânio. Acontece que nos domínios da alquimia, test não era um vaso qualquer, mas uma espécie de tubo de ensaio, ou seja, recipiente onde os alquimistas faziam seus experimentos, misturando substâncias (que às vezes explodiam) na busca de remédios miraculosos ou da transubstanciação de metais sem valor em ouro.

Por nova metonímia, test passou a ser não só o tubo de ensaio, mas o próprio ensaio, a prova, o experimento… numa palavra, o teste. Foi com esse sentido que a palavra ganhou o inglês e daí se espalhou pelo mundo (o próprio francês tem hoje a palavra test como empréstimo do inglês, ao passo que têt caiu em desuso).

Em português, o que ocorreu foi que testa, apelido de cabeça, se especializou designando apenas a parte frontal do crânio, enquanto teste nos chegou por via inglesa e, tal qual na língua de origem, sofreu um alargamento semântico, denominando não só testes científicos, mas qualquer tipo de prova, inclusive escolar.

Nesta última acepção, por sinal, teste sofreu um estreitamento semântico, tornando-se a redução da expressão teste de múltipla escolha. Por isso, de certa maneira, quando algum professor diz que aplicará uma prova teste (por oposição à prova dissertativa), está inconscientemente cometendo um pleonasmo, já que teste é em sua origem sinônimo de prova.

Uma advertência: o latim testari não significa “testar” e sim “testemunhar”, sendo derivado de testis, “testemunha”, que é de outra origem e nada tem a ver com vasos ou tampas de vasos, muito menos com cabeça.

Ralando na etimologia

Hoje vou falar de um verbo latino que deu muitas palavras em português e também em outras línguas. Trata-se de radere, que significa “raspar, ralar”. Em primeiro lugar, saíram os vocábulos latinos radula, “ralador”, que deu em português rádula, nome da língua do peixe-espada (por ser áspera como um ralador), e rallum, “ralo”, que tanto é o ralador de calosidades ou de legumes quanto o ralo da pia, mas que não se confunde com o adjetivo ralo, do latim rallus, de *rarulus, diminutivo de rarus, que se opõe a spissus, “espesso”. Ou seja, quem tem cabelo ralo na verdade tem pouco cabelo, logo seu cabelo é raro.

A partir de ralo proveniente de rallum temos o verbo ralar e os substantivos ralador e ralação, este último uma gíria significando “trabalho duro”.

Em segundo lugar, a partir de rasus, particípio passado de radere, temos em português raso, isto é, pouco profundo (como um couro cabeludo raspado); rasura, “marca deixada no papel quando raspado com borracha; arrasar, “tornar raso, cortar pela raiz, destruir”; rasante, e outros mais.

De radere também saiu o derivado rastrum, “rastelo, instrumento de jardinagem” que deu em nosso idioma rasto (e daí arrastar, rasteiro e rastejar) por herança vernácula e rastro por via culta. Aliás, como o rastelo deixa sulcos na terra, por metonímia, rastrum passou a significar também o rastro, a marca deixada no chão pela passagem de alguém. E o próprio rastelo veio do latim rastellus, diminutivo de rastrum. E ainda temos rastilho, do espanhol rastillo, diminutivo de rasto, já que se costuma deixar um rastro de pólvora na terra para provocar uma explosão à distância.

De rasus também proveio o francês raser, “raspar a barba, barbear”, e daí rasoir, “navalha”, que passou ao inglês razor. Por falar em inglês, erase, “apagar” e eraser, “apagador”, também se originam de ­rasus, já que, como disse acima, apaga-se o escrito raspando o papel ou o pergaminho.

Por fim, o latim vulgar rasicare, derivado de rasus, nos deu rascar, rascante e rasqueado. E, para encerrar, “apagar” em alemão é radieren.

De fato, é preciso ralar muito para fazer etimologia!

Os estranhos nomes da MPB

A música popular brasileira atual tem sido marcada por um fenômeno incomum em outras épocas, bem como em outros países: a modificação dos sobrenomes dos artistas. Às vezes, o erro pode ser do próprio tabelião, e por isso um sobrenome italiano como Calcagnotto se torna Calcanhoto. Mas o mais frequente é que os próprios artistas simplifiquem seus nomes para facilitar a venda de discos, num claro reconhecimento de que o público tem dificuldade de soletrar nomes estrangeiros. Aí Vercillo vira Vercilo, Cañas vira Canhas, e assim por diante.

Curiosamente, isso ocorre com artistas, digamos, mais elitizados. Os mais populares têm feito o movimento inverso, duplicando consoantes para dar um ar sofisticado a nomes absolutamente comuns. E assim temos Gusttavo, Leitte, e uma série de grafias pouco ortodoxas, para não dizer estranhas mesmo.

Isso também acontece com atores de televisão. De um tempo para cá, tornaram-se frequentes as Alinnes, Paollas, etc. Há até uma atriz cujo sobrenome passou do prosaico Oliveira para Ólive, Óllive e finalmente Óliive (!). O motivo alegado em geral é a numerologia: tais grafias supostamente favorecem o sucesso. Crendices à parte, o êxito ou fracasso ligado à grafia do nome se deve mais ao gosto do público. Aparentemente, pessoas menos escolarizadas preferem nomes com grafias estrambóticas, cheios de k’s, w’s e y’s. Ao contrário, as de maior instrução optam pela simplicidade. Talvez por isso, a cantora Cláudia, cujo trabalho sempre teve por foco a MPB de boa qualidade, tenha caído em certo ostracismo, apesar do inequívoco talento, depois que, por razões numerológicas, passou a assinar-se Cláudya.