O instante do momento

Por trás de toda palavra, frase ou texto há sempre um significado oculto – ou muitos. Não raro, o que queremos dizer é muito diferente, quando não exatamente o oposto, do que nossa fala diz. A riqueza maior da linguagem reside em sua capacidade de “dizer” muito mais do que é efetivamente dito. Além do discurso literal, denotativo – que Roland Barthes chamou de “grau zero” da linguagem –, temos as quase infinitas possibilidades da conotação, com suas figuras retóricas (daí falarmos em linguagem figurada).

Além disso, a escolha, nem sempre consciente, que nossos antepassados fizeram para nomear certos conceitos ou dar conta de certas situações revela muito do que eles pensavam, de como viam o mundo. E, na medida em que utilizamos essas mesmas palavras, reproduzimos essa mesma visão de mundo, ou, como se costuma dizer tecnicamente, essa mesma ideologia.

Muitas vezes, usamos certas palavras ou expressões para ser enfáticos e abusamos de metáforas, hipérboles, sinédoques, catacreses e outros recursos estilísticos. Mas quando fazemos o caminho de volta, isto é, realizamos uma leitura literal do que foi dito, acabamos nos surpreendendo.

Quando, por exemplo, queremos aludir à desmesurada concentração populacional de uma megalópole como São Paulo, dizemos que essa cidade é um verdadeiro formigueiro humano. Ora, precisamente nessa frase o formigueiro não é “verdadeiro”, mas apenas uma metáfora. Não é curioso que se enfatize (até mesmo acentuando a entonação) o mais denotativo de todos vocábulos num contexto em que ele é totalmente conotativo?

E quando aquele conhecido a quem você deve inúmeros favores pergunta se você não poderia lhe emprestar algum dinheiro? É possível que você responda, por exemplo, “lógico!” ou “naturalmente!”. Mas o que há de lógico ou natural em fazer algo que não queremos? Na verdade, nada.

Prestar favores não é um instinto natural, é uma norma cultural. A lógica que há nisso – se é que há alguma – é que a manutenção dos liames sociais se baseia em grande parte na reciprocidade. Como nosso instinto animal é muito mais competitivo do que solidário, o altruísmo é uma mutação de nossa natureza. Diante de um pedido que não gostaríamos de atender, o lógico e natural é responder “não”.

Mas a língua tem muitos outros aspectos aparentemente contraditórios. Por exemplo, se perguntamos por alguém e recebemos como resposta que ele, “com certeza”, saiu, é porque quem nos responde não tem realmente certeza do paradeiro da pessoa indagada.

E as palavras que denominam as menores frações de tempo? “Momento” vem do latim momentum, “movimento”, e refere-se ao balanço do pêndulo dos relógios. Tanto que a física chama esse movimento pendular de “momento angular”. Cada ida ou vinda do pêndulo é um “momento”.

Ou seja, um “momento” não era, na sua origem, o mesmo que um tempo infinitesimal, mas uma duração suficiente para que algo se movesse de forma perceptível aos olhos. Já “instante” (do latim instans) significa “insistente, que perdura”. Não é paradoxal que o instante seja justamente o intervalo de tempo mais fugaz que existe?

Aquela história de que em português “pois sim” significa “não” e “pois não” significa “sim” já virou até piada. Mas quando comparamos o modo como dizemos as coisas em português com a maneira como as outras línguas expressam os mesmos conceitos, descobrimos fatos interessantes.

Em inglês, por exemplo, “ganhar dinheiro” se diz make money, literalmente “fazer dinheiro”, o que dá a ideia de produção, trabalho, geração de riqueza. Já a nossa expressão “ganhar dinheiro” remete à ideia de presente, prêmio, lucro fácil, pois ganhar é sempre de graça, sem dar nada em troca. Será por isso que os países de língua inglesa são mais ricos e desenvolvidos que os de língua portuguesa?

Uma última: “canhão” em francês é canon. E na França canon significa também “mulher bonita, mulherão” (daquelas de parar o trânsito). Já no Brasil, como se sabe, “canhão” é mulher feia. Pela escolha do termo, parece que ambas matam: uma, de prazer; a outra, de desespero.

Ah, que saudade do “a”!

Já faz um bom tempo que o português brasileiro aposentou a preposição a. Atualmente, a maioria dos verbos que antes regiam essa graciosa preposição preferem a companhia do para. Hoje em dia, não se dá nada a alguém, mas para alguém; não se diz algo a uma pessoa, mas se fala alguma coisa para ela. Verbos de transmissão (em latim, verba dativa), aqueles em que há implícita a ideia de fazer alguém ter algo que não tem, como dar, entregar, contribuir, enviar, e verbos de comunicação (lat. verba dicendi), como dizer, contar, explicar, informar, etc., que sempre pediram como complemento a preposição a – e que ainda o fazem em outros idiomas, como o espanhol, o francês e o italiano – resolveram trair essa companheira de tantos séculos na adúltera relação com para ou, pior, com sua irmã plebeia pra (mais raramente, com em e com, como no caso de chegar em, contribuir com, e por aí vai).

A razão desse adultério deve ser a possível confusão entre a preposição a e o artigo feminino a. Aliás, esses dois homônimos são a causa maior da dificuldade que nove entre dez falantes – ou melhor, escreventes – do português têm de usar a crase. A esse imbróglio se une o pronome pessoal oblíquo a. Assim, uma frase como “Aconselhei-a a ir de carro à padaria” vira algo como “Aconselhei ela pra ir de carro na padaria”. Dada a ambiguidade dos três a’s, a preposição virou pra ou em, o pronome oblíquo virou ela, e só o artigo ainda não foi substituído.

A preposição a atualmente resiste apenas em locuções petrificadas como a respeito de, a propósito, com vistas a, a meu ver, a qualquer preço, a todo custo… Nos demais casos, a teve de ceder o lugar que antes era exclusivamente seu: hoje se vai pra escola ou na escola, jamais à escola. Até o famoso Parabéns a você já virou Parabéns pra você.

A rejeição ao a se deve em grande parte aos hiatos desagradáveis que provoca. Por exemplo, “Ataliba adora-a a toda prova”. Essa sequência cacofônica de a’s não se resolve mudando o pronome de lugar: “Ataliba a adora a toda prova”.

Os portugueses em geral apreciam o a muito mais do que os brasileiros. Lá na terrinha, fala-se ao telefone, senta-se à mesa, fica-se ao sol, paga-se a dinheiro, entrega-se a domicílio. Até o famoso a nível de, tão repudiado pelos gramáticos brasileiros, tem seu lugar ao sol (ou no sol?) em Portugal. Além disso, os tempos cursivos, também chamados de progressivos, que aqui no Brasil se formam com o gerúndio (estou fazendo, estou dizendo) são construídos com a preposição a em terras lusitanas: estou a fazer, estou a dizer.

Outro dia, me deparei com esta bela frase em espanhol: todo lo que te sucede en la vida no es a ti, es para ti. Percebam a distinção que o castelhano faz das preposições a e para – assim como o inglês tampouco confunde to com for. Em português brasileiro, uma tradução não ambígua desse dito seria “tudo o que acontece na sua vida não é com você, é para você”. O verbo acontecer regia classicamente a preposição a (algo acontece a alguém), hoje rege preferencialmente com, preposição de companhia ou instrumento e não de alvo da ação. É o mesmo caso de contribuir com em lugar de contribuir a.

E a confusão de a com então? Isso aconteceu dois minutos, mas aquilo vai acontecer daqui a duas horas. Aí o povo vai e escreve: “a dois dias atrás…”, com duplo erro: preposição a em vez do verbo e redundância entre (no caso, a) e atrás.

E o que dizer de construções arcaicas como chegar a casa e preferir banana a laranja? Hoje se chega em casa e se prefere mais banana do que laranja. Aliás, há quem prefira muito mais uma coisa do que outra! Só faltou falar da interjeição ah: “ah, a amiga Aurora, há tempos que não a vejo!”.

Resumindo, o português brasileiro substituiu a preposição a por para (e consequentemente trocou à por para a, que no linguajar corrente virou pra a e depois simplesmente pra), substituiu por tem (exceto em expressões de tempo como “há dois dias” que se transforma automaticamente em “faz (ou, pior ainda, fazem) dois dias” e só manteve o a artigo (que não tem como substituir, né?) e a interjeição ah, que não se confunde com os outros a’s porque é sempre longa: “aaahh, que saudade do a!”.

Campanha da Rede Globo contra o racismo peca por ignorância

Por ocasião dos 132 anos da abolição da escravatura no Brasil, a Rede Globo acaba de lançar uma campanha contra expressões verbais consideradas racistas por conterem as palavras “negro” ou “preto” (ou suas flexões de gênero e número). O comercial consiste em omitir a palavra em questão em expressões consagradas na língua portuguesa – e que têm equivalentes em outras línguas –, substituindo-a por uma lacuna (o famoso underline, para quem é da geração digital). Temos então: a coisa está _____, não sou tuas _____, serviço de _____, ovelha _____, mercado _____, lista _____, e por aí vai. O problema é que boa parte dessas expressões não tem nenhuma relação com a raça negra, portanto não tem nada de racista.

Se, de fato, serviço de preto significa “serviço malfeito” porque feito por negros (na época da origem da expressão, escravos), e não sou tuas negas se refere às negras com quem o senhor de escravos se deitava, as demais expressões remetem ao negro como cor e não como raça.

Desde tempos imemoriais, o homem teme a escuridão – e na época das cavernas muito mais do que hoje –, afinal à noite o risco de ser atacado por predadores ou inimigos era muito maior. Da mesma forma, uma caverna escura poderia conter ameaças, desde um buraco até uma fera. Não por outra razão, o negro foi escolhido como a cor do luto, já que a escuridão evoca a tristeza e o medo do desconhecido. Evoca sobretudo o maior de nossos medos: a morte. Daí deriva também o uso da cor negra como símbolo de tudo que é negativo, nefasto e fora do padrão, assim como o branco sempre foi associado à pureza e à virtude. Se todas as ovelhas são brancas, o indivíduo que destoa de seu grupo só poderia ser uma ovelha negra – ovelhas azuis ou amarelas não surtiriam o mesmo efeito de contraste. A lista negra é a que contém os nomes dos indesejáveis, dos que não merecem confiança porque são impuros no caráter. O mercado negro é o comércio ilegal, clandestino, que opera às escuras, sem ser visto pela lei. “A coisa está preta” é mera alusão às nuvens negras anunciando tempestade, e assim por diante.

A maior parte dessas expressões nasceu na Antiguidade ou na Europa medieval, num tempo portanto muito anterior à escravidão negra na América e ao preconceito racial dela decorrente, num tempo em que os europeus praticamente não tinham nenhum contato com os africanos.

O que se passa é que a ideologia do politicamente correto promove uma caça às bruxas, tentando encontrar culpados a todo custo e criminalizando palavras e expressões que, em sua origem, não tinham nada de preconceituoso. Querendo combater o fascismo da sociedade, é o politicamente correto que se torna fascista, censurando qualquer um que não se comporte ou fale segundo sua cartilha. A seguir essa lógica, logo estaremos proibidos de escrever com caneta preta, e as mulheres não poderão mais usar vestido pretinho básico.

A intenção da Globo foi boa, mas de boas intenções o inferno está cheio. Nota zero para essa campanha, que demonstra ignorância da origem das expressões que condena!

*-*-*

Acho que já contei essa história aqui, mas, em todo caso, vale repeti-la. Certa vez, eu estava dando aula enquanto um temporal medonho se avizinhava lá fora, com enormes nuvens negras, raios e trovões dignos de filme de terror. Olhei pela janela e disse aos alunos: “Pessoal, a coisa lá fora tá preta”. Nisso, uma aluna negra me interpelou dizendo que eu não deveria usar essa expressão, que eu deveria demonstrar mais respeito pelo holocausto africano, etc. etc. (Sim, meus amigos, em seu longo sermão ela usou o termo “holocausto” em relação à escravidão). Um tanto perplexo, eu não perdi a pose e voltei à janela, olhei para fora novamente e remendei: “Pessoal, me desculpem, eu quis dizer que a coisa lá fora está afrodescendente”.

Língua oral ou língua escrita: qual é melhor?

Imagine que a língua portuguesa é um idioma desconhecido e que você é um linguista tentando descrevê-la, isto é, decifrar sua gramática e assim revelar sua estrutura. Imagine também que você tem duas amostras da língua para usar em sua análise: um discurso oral e um texto escrito. Observe primeiramente o discurso oral abaixo.

Amostra 1 (língua oral): Bom, a Maria ela foi na… é… eu acho que ela fo-foi na farmácia, qué dizê, na drogaria, né? Ela falô pra mim que, tipo assim, ela ia comprá uns remédio, num sei que remédio é. Agora, ãh… se ela… se ela foi mesmo só na farmácia… na na… drogaria, né?, então eu acho que ela num vai demorá pra voltá, tá ligado?

Analise agora a segunda amostra, desta vez de um texto escrito.

Amostra 2 (língua escrita): Ao que parece, Maria foi à drogaria comprar alguns remédios que eu não sei quais sejam, mas, se de fato ela tiver ido somente lá, provavelmente não demorará a voltar.

Então, se o seu objetivo como linguista é descrever a estrutura gramatical dessa língua, reconhecendo a ordem dos elementos na frase, as flexões, as concordâncias e regências, o encadeamento das palavras no sintagma, dos sintagmas nas orações e das orações nos períodos, qual das duas amostras acima lhe seria mais útil?

A linguística do século XX, a partir de Saussure, postulou que seu objeto de estudo é a linguagem verbal em sua modalidade oral, até porque a maioria das línguas do mundo não tem expressão escrita – são as chamadas línguas ágrafas. Portanto, quando etnolinguistas se deparam com uma língua recém-descoberta desse tipo, eles têm de analisar amostras cheias de anacolutos, topicalizações, interrupções, gaguejos, marcadores conversacionais (os famosos “ééé…”, “ããh…”, “entendeu?”, “sabe?”, “né?”), etc. Mesmo assim, eles buscam construir um modelo teórico de “língua ideal”, ou seja, aquela que seria falada se o falante não fosse um ser humano dotado de emoções e sim uma máquina de produzir enunciados a partir das regras gramaticais de base do idioma. Nas línguas de cultura, a escrita culta é essa língua ideal, também chamada pelos gramáticos de língua exemplar.

Quando aprendemos um idioma estrangeiro numa escola, normalmente aprendemos a gramática “ideal” (isto é, normativa) do idioma paralelamente a diálogos bastante artificiais desprovidos de qualquer cacoete. Algo do tipo: “Onde está o livro? O livro está sobre a mesa.”. É o famoso método The Book Is on the Table.

Já quando aprendemos o idioma na prática (por exemplo, quando passamos uma longa temporada num país estrangeiro para o qual fomos sem saber falar uma palavra sequer da sua língua nativa), é a língua oral que vamos aprender. Mesmo assim, nosso cérebro consegue filtrar todos os cacoetes da oralidade (quebras de continuidade, gaguejos, hesitações, gírias) e montar intuitivamente a gramática da língua. É por isso que, mesmo quando aprendemos na prática (ou “na raça”, como se diz), nos tornamos capazes de criar novos enunciados, que nunca proferimos nem ouvimos antes: é que nossa gramática interna, deduzida intuitivamente, nos guia mesmo sem termos consciência dela.

Atualmente, nosso objeto de estudo não é mais tão estreito quanto o da linguística estruturalista do século passado, pois sabemos que, mesmo que noventa por cento do uso que se faz da língua seja na modalidade oral informal, a mente trabalha com uma gramática interna de regras bem definidas (o que Chomsky chama de competência linguística), não necessariamente as regras da gramática normativa, que só quem frequenta a escola aprende (se é que aprende, né?), mas ainda assim regras rígidas, quase computacionais.

O que a linguística atual faz é estudar e compreender todas as marcas da oralidade – que, por incrível que possa parecer, também têm suas regras – e incorporá-las à gramática interna da língua.

Nesse sentido, o estudo da norma culta é tão importante quanto a análise dos discursos orais de todos os falantes de todos os grupos sociais. E o estudo da língua escrita formal é tão relevante para a pesquisa e o avanço do conhecimento científico na área quanto o estudo da língua oral coloquial das classes menos escolarizadas.

A origem do nome da Páscoa

Embora não pareça, estamos na Semana Santa, e mais uma vez em meio a más notícias. Este ano, é a pandemia do novo coronavírus, assim como no ano passado foi o incêndio na catedral de Notre-Dame de Paris, evento triste para os franceses em particular e os amantes da civilização em geral. Assim, achei oportuno republicar hoje o artigo que já havia publicado na Páscoa passada falando justamente sobre a origem da palavra Páscoa.

Esse termo nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a “estrela d’alva” ou “estrela da manhã”).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Feliz Páscoa a todos! E fiquem em casa, hein!

Desinfectar é o mesmo que desinfetar?

Quando pensamos que já sabemos tudo sobre a língua, ela nos prega peças, criando nuances de expressão ou de sentido surpreendentes. É o que tem acontecido nestas últimas semanas, diante da pandemia do novo coronavírus. A imprensa tem repetidamente falado sobre as medidas de descontaminação de ambientes como hospitais, aeroportos, trens, metrô, ônibus e demais locais de circulação pública, afirmando que estão sendo devidamente desinfectados. É perfeitamente compreensível que, se o vírus infecta lugares, objetos e pessoas, o inverso desse processo se designa apondo o prefixo des- ao verbo infectar, o que produz desinfectar. O problema é que já dispomos do verbo desinfetar, antônimo de infectar (que também admite a forma infetar).

Resulta daí que desinfetar e desinfectar passaram a ser coisas diferentes: desinfetamos uma torneira, pia, ralo ou objeto (tesoura, alicate, talher) com água e sabão ou com um desinfetante desses que se compram no supermercado; já o ambiente hospitalar contaminado por vírus e bactérias de grande letalidade e alto poder de contágio é desinfectado com procedimentos que envolvem o uso de roupas, equipamentos e produtos especiais, obedecendo a normas rígidas e protocolos internacionais.

Ou seja: se o emprego de desinfectar for chancelado pelas gramáticas e abonado pelos dicionários, o verbo infectar terá dois antônimos, e estes não serão sinônimos entre si (algo como a palavra humano, que, dependendo da acepção, admite os antônimos inumano e desumano).

Só que a coisa não é tão simples assim. Tradicionalmente, o encontro consonantal ct recebe dois tratamentos em português quando se trata do empréstimo de palavras latinas por via culta: ou mantém-se intacto, como em detectar e octógono, ou simplifica-se para t, como em contato, ator e fato (do latim contactus, actor e factus). Em português brasileiro, esse grupo consonântico se grafa como se pronuncia. Por isso, dizemos e escrevemos infectar mas desinfetar. Em português lusitano, a letra c se mantinha, até o Acordo Ortográfico de 2009, mesmo quando era muda; daí que em Portugal se grafava contacto e actor e ainda se grafa facto, uma vez que neste último caso o c nunca deixou de ser pronunciado.

Em face dessa divergência ortográfica que o Acordo visou minimizar, nós brasileiros grafamos infectar mas desinfetar, ao passo que os portugueses grafavam infectar e desinfectar e hoje grafam infetar e desinfetar. Portanto, o neologismo brasileiro desinfectar não faz nenhum sentido em Portugal, isto é, provavelmente é só a imprensa brasileira que está fazendo distinção entre as ações de desinfetar e desinfectar. Somente o tempo dirá se essa nova forma vingará ou não. Afinal, para a maioria dos brasileiros e a totalidade dos portugueses, pouco importa se estamos eliminando vírus letais ou meros germes de banheiro: o verbo desinfetar já dá conta de ambos os sentidos.

A palavra do ano em 2020

O ano mal começou, mas já podemos eleger a palavra do ano, aquela que terá sido a mais falada e escrita em 2020: coronavírus. Em segundo lugar, e perdendo por uma cabeça de distância, vem a sua sinônima Covid-19. Nas posições seguintes, teremos pandemia, quarentena, isolamento e contágio. Pelo menos, esse é o meu prognóstico.

Outra palavra que aposto será muito usada em 2020 é recessão, pois, passada a crise sanitária, certamente perdurará – e talvez se intensifique – a crise econômica global.

E já que estamos todos em quarentena e distanciamento social, um pouco de cultura inútil não faz mal a ninguém. Que o coronavírus tem esse nome pela sua semelhança física a uma coroa acho que todo mundo já sabe. Da mesma forma, os rotavírus assim se chamam porque se assemelham a uma roda. Mas de onde vem a palavra vírus? Assim como corona e rota, vem do latim, mais precisamente de vīrus, ī, substantivo neutro que, segundo o dicionário latino-português de Francisco Torrinha, significa “1. Suco das plantas. 2. Humor, esperma, veneno, peçonha (dos animais). 3. Veneno, peçonha (em geral). 4. Amargor; mau cheiro, fedor.”. Em fins do século XIX, o microbiologista holandês Martinus Beijerinck escolheu justamente esse nome para designar um agente infeccioso recém-descoberto distinto das já conhecidas bactérias.

E por que Covid-19? Trata-se de um acrônimo do termo inglês Coronavirus Disease acrescido da referência a 2019, ano em que foram registrados na China os primeiros casos da doença. Epidemias anteriores como a Sars e a Mers também têm seus nomes formados a partir de siglas do inglês: Sars é Serious Acute Respiratory Syndrome (síndrome respiratória aguda grave), e Mers é Middle East Respiratory Syndrome (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Já a palavra quarentena vem da língua veneziana dos séculos XIV e XV e significa “quarenta dias”, período em que todos os navios deveriam ser isolados antes que passageiros e tripulantes pudessem desembarcar durante a epidemia da Peste Negra. Quarentena seguiu o trentino, período de isolamento de trinta dias, imposto pela primeira vez em 1377 em Ragusa, cidade dominada por Veneza.

Epidemia, do grego ἐπί (epí), “sobre” e δῆμος (dêmos), “povo”, refere-se à rápida disseminação de uma doença sobre uma população. Quando essa doença atinge um grande número de populações ou mesmo a humanidade inteira, temos a pandemia, do grego παν (pan), “todo(s)”.

Finalmente, isolamento deriva de isolar, do italiano isolare, “ilhar”, derivado de isola, “ilha”. Ou seja, isolar é manter sem contato do mesmo modo como uma ilha está isolada do continente pelas águas do mar. Mas, nestes tempos de isolamento social a que somos forçados a nos submeter, convém lembrar a máxima do poeta renascentista inglês John Donne de que “nenhum homem é uma ilha”. Ou seja, mesmo distantes fisicamente, precisamos estar juntos nessa batalha, cultivar a empatia e a solidariedade, pois ninguém é capaz de sobreviver sem a ajuda dos demais.

Boa quarentena a todos!

A língua portuguesa ela está mudando

The times they are a-changing
Bob Dylan

Você já deve ter notado – se é que você próprio não faz isso – que hoje em dia está cada vez mais comum as pessoas dobrarem o sujeito da oração. Se antigamente se dizia (e os muito cultos ainda dizem) “Pedro foi à farmácia”, hoje o normal é “O Pedro ele foi na farmácia”. Pois é, “o Pedro ele”. Essa construção está generalizada nas conversas do dia a dia e nas comunicações de massa (rádio, TV, internet). Se você duvida, assista a um pouco de televisão e procure observar como as pessoas falam – inclusive repórteres e apresentadores.

Muitos linguistas tratam esse cacoete verbal como um caso de topicalização do sujeito, tese da qual eu discordo, conforme vou expor adiante. Mas antes vamos explicar que diabos é essa tal de topicalização.

Há duas maneiras de construir uma oração. A primeira é usando a estrutura sujeito-predicado, que todos conhecem (espero). A outra é com a estrutura tópico-comentário. O tópico é um substantivo sem função sintática, colocado de forma isolada no início da frase, ao qual se segue uma frase completa (o comentário) falando sobre ele. Algo do tipo “O Pedro, a irmã dele vai casar”. Há até mesmo frases com tópico e subtópico, como “A Maria, o carro dela, o pneu furou”.

Nas construções do tipo tópico-comentário, o tópico, por ser elemento isolado e sem função sintática, vem separado por vírgula (ou por pausa, no discurso oral). Mas o que está acontecendo atualmente em português brasileiro é outra coisa, diferente da topicalização. Tanto que o sujeito não vem separado por vírgula ou pausa, mas ligado diretamente ao pronome pessoal que lhe serve de eco. Percebe-se isso claramente na fala rápida. No exemplo que dei, “O Pedro ele foi na farmácia”, não há nada separando “Pedro” de “ele”.

O que está ocorrendo, na verdade, é um outro fenômeno, chamado tecnicamente de deslocamento à esquerda. O que vem a ser isso? É a tendência que nós brasileiros temos de explicitar os elementos gramaticais que ficam no início da frase (portanto, à esquerda de quem lê) e ocultar os que estão mais ao fim, isto é, à direita.

Na frase “Os menino foi tudo na roça”, note que a única marca de plural está no primeiro elemento da esquerda, o artigo “os”. As demais marcas de plural foram simplesmente apagadas. Essa é a tendência oposta à dos nossos irmãos portugueses, que omitem à esquerda e explicitam à direita. A uma pergunta como “Você viu o João”, um português responderia “Não o vi”, ao passo que um brasileiro responde “Eu não vi”. Ou seja, os lusitanos apagam o pronome reto “eu” enquanto nós apagamos o pronome oblíquo “o”.

Nesse sentido, o reforço do sujeito com o pronome pessoal seria um desdobramento dessa tendência de explicitar o sujeito sempre. Tanto que isso ocorre também em orações subordinadas adjetivas, em que o sujeito é o pronome relativo “que”. Temos então casos como “O João é um cara que ele não leva desaforo pra casa”, “Eu sou uma pessoa que eu ponho a amizade acima de tudo”, e assim por diante. Perceba que, neste último caso, o sujeito não precisa estar na terceira pessoa, pois o sujeito “eu” da oração principal é reforçado pela própria repetição do “eu” na oração subordinada mesmo embora esta já tenha um sujeito, no caso o pronome relativo “que”.

Casos como esse não podem ser considerados de topicalização porque simplesmente não há tópico e comentário, há apenas duplicidade do sujeito. A linguista Charlotte Galves chama a isso de “pronome lembrete”. E cita outros exemplos:

  • Os linguistas, eles estão sempre mudando de teoria.
  • Tenho um amigo que ele vai todos os dias ao cinema.
  • A moça que eu vim com ela já foi embora.
  • O rapaz que o irmão dele dançava no circo acabou mal.

Ao que parece, o português brasileiro vai pouco a pouco adquirindo a mesma estrutura sintática do veneziano, língua minoritária falada na região do Vêneto, Itália, e que já foi um idioma muito importante na Idade Média. Em veneziano, ou vêneto, como também é chamado, a repetição do sujeito por meio da colocação de nome e pronome lado a lado é perfeitamente gramatical e obrigatória no padrão culto da língua. Mas não deixa de ser algo linguisticamente pouco econômico.

Cultura afra?

Durante o tempo em que estive ausente se acumularam consultas à seção “Pergunte ao Linguista”. Uma delas é do leitor Jorge Rubens Abdalla, de São Paulo, que pergunta:

Prezado Aldo, tenho ouvido e lido em muitos lugares as expressões “cultura afro”, “línguas afro”, etc. Se afro é um adjetivo terminado em “o” (como negro, africano, etc.), por que não faz concordância de gênero e número com o substantivo que vem junto dele? Obrigado e parabéns pela coluna, sempre muito elucidativa.

Caro Jorge, o elemento “afro”, que encontramos em muitas expressões hoje em dia (cabelo afro, música afro, cultura afro, danças afro, etc.) é na verdade uma redução por economia linguística de palavras compostas como “afro-brasileiro”, “afro-americano”, etc. (portanto, cabelo afro-brasileiro, música afro-brasileira, danças afro-brasileiras, população afro-americana, e assim por diante). Nesse caso, “afro” não era em princípio uma palavra, mas um elemento de composição, ou prefixoide (como bio-, geo-, foto-, fono-, anglo-, franco-, etc.), que, com o tempo, se tornou um adjetivo autônomo. Mesmo assim, por estar subentendido que se trata da redução de um adjetivo mais longo, permanece invariável (o mesmo raciocínio se aplica ao substantivo “foto” por “fotografia”, por exemplo).

Mas você tocou num ponto interessante: “afro” provém do adjetivo latino “afer” (masc.)/“afra” (fem.)/“afrum” (neutro), que quer dizer “africano”, referindo-se especialmente aos povos nômades do norte da África, os chamados “cafres” (os romanos quase não tinham contato com os povos da África subsaariana). Aliás, tudo leva a crer que “afer” tenha relação etimológica com o patronímico “kaffir (cafre). Em resumo, no latim essa palavra tinha flexão de gênero, número e caso. Por sinal, “África” era o território habitado pelos “afri” (plural de “afer”).

O mais curioso é que existe em português o adjetivo “afro”, cujo feminino é “afra” e o plural é “afros/afras”, com o significado de “africano”. Esse adjetivo, há muito registrado nos dicionários, já estava presente em nosso idioma bem antes de o prefixoide destacado de “afro-brasileiro” ganhar autonomia lexical.

O que isso significa? Que expressões como “cultura afra”, “danças afras”, etc., embora soem estranhas e sejam desusadas na atualidade, estão tecnicamente corretas. A diferença é que “cultura afro” pressupõe “cultura afro-brasileira”, isto é, aquela de origem africana mas aclimatada no Brasil, ao passo que “cultura afra” seria a cultura africana pura, tal como se encontra na África. Só que nesses casos, para evitar mal-entendidos, é preferível dizer “cultura africana” mesmo.

Abaixo o Congresso ou os congressistas?

A polêmica suscitada na última semana pelo presidente Jair Bolsonaro ao repassar um vídeo que supostamente conclama seus seguidores a marchar, no dia 15 de março próximo, em apoio a ele e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal gira em torno de duas questões: 1) pode (ou deve) um Presidente convocar passeata a favor de si mesmo e contra os outros dois poderes da República? 2) a manifestação agendada para 15 de março é realmente contra os Poderes Legislativo e Judiciário?

A resposta à primeira questão eu deixo aos especialistas em Direito constitucional; já a segunda me parece que leva a uma falsa controvérsia e contém uma sutileza linguística que vale a pena comentar.

De fato, os vídeos, cartazes e posts convocando para a passeata usam os termos “contra o Congresso e o STF”. Mas será que os organizadores do evento querem realmente fazer um movimento golpista de fechamento do Congresso e da Suprema Corte? Parece-me que não. O que ocorre é que, muitas vezes, usamos a metonímia continente pelo conteúdo sem nos darmos conta e, assim, nos referimos ao Congresso e ao Supremo quando, na verdade, queremos nos referir aos congressistas e aos ministros do STF.

Afinal, o que deixa a nós brasileiros p… da vida são políticos corruptos e fisiológicos e juízes tendenciosos e venais. Acredito que a maioria dos apoiadores da manifestação não quer realmente o fechamento do Congresso e do Supremo e sua substituição por um ditador travestido de salvador da pátria. Em outras palavras, a maioria do povo brasileiro não quer a volta do regime militar (uma pequena minoria até quer) e sim um parlamento que realmente o represente, que vote a favor daquilo que é para o bem do Brasil sem cobrar nada em troca, sejam cargos, sejam emendas parlamentares. E também quer uma corte suprema que julgue com imparcialidade e bom-senso, que não livre da cadeia dezenas de criminosos do colarinho branco, que não use de filigranas ou casuísmos jurídicos para beneficiar corruptos. Em suma, que não faça interpretações malabarísticas da Constituição Federal para manter o status quo.

Portanto, o que está sendo questionado não são as instituições republicanas, sem as quais não há estado de direito, mas certas pessoas que momentaneamente ocupam cargos nessas instituições e não têm honrado tais cargos.

Creio que daqui a dois domingos teremos nas ruas dois tipos de manifestantes: alguns radicais, que sonham com a reedição do AI-5; e uma maioria de moderados (eu diria racionais), que desejam que as instituições da República continuem funcionando – e harmonicamente, de preferência – em beneficio de nossa democracia a tão duras penas conquistada, mas sem toma-lá-dá-cá, sem chantagens e sem legislação em causa própria. Se conseguirmos isso, já será um grande passo. Só esperemos que o Presidente não estrague tudo.