Galícia ou Galiza?

A maioria das pessoas que conheço, inclusive as altamente escolarizadas, pronuncia o nome de certos topônimos do modo tradicional e não na forma como publicações mais recentes costumam trazê-los. E vejam que não estou falando necessariamente de gente velha, de hábitos linguísticos mais arraigados. Muitos jovens também agem assim. Para essas pessoas, não existe Mumbay, o que há é a boa e velha Bombaim, cidade de tantos contos fabulosos que remetem à nossa infância. Igualmente, não sabem o que é Beijing (podem achar que se trata de um beijinho), ou sabem, mas, ao falar, dizem invariavelmente Pequim. Alguns ainda chamam Taiwan de Formosa, mas estes, sem dúvida, denunciam uma idade mais avançada.

Algumas inovações nesse campo definitivamente não “pegaram”, isto é, não conquistaram a adesão da maioria. Quantas pessoas chamam a Malásia de Maláisia, como consta em vários atlas? Quantos chamam a Moldávia de Moldova, ou a Bielorrússia de Belarus? Ou ainda Camarões de Camerum?

Vale a pena lembrar que boa parte desses topônimos é criação portuguesa, dos tempos em que nossos irmãos lusos navegavam e comerciavam pelas costas da África e Ásia. “Formosa” e “Camarões” são designações legitimamente portuguesas, enquanto “Taiwan” é chinês e “Camerum” vem do holandês.

Mudar hábitos linguísticos não é fácil, ainda mais que falar é algo que fazemos por inércia: uma vez que aprendemos, resistimos a ter de reaprender. Exemplo disso é o costume de chamar nosso dinheiro (que já foi mil-réis, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro real, URV e real) de conto. É difícil e incômodo ter de se adaptar a cada nova unidade monetária que surge quando a inflação corrói a anterior. Por isso, a lembrança do saudoso conto de réis ainda sobrevive entre nós.

É por essa razão que a região autônoma espanhola da Galiza se chama correntemente Galícia entre nós. Na verdade, há um certo movimento no meio acadêmico (e também no político) para adotarmos a forma “Galiza”. O argumento é o de que “Galícia” é forma espanhola e de que os próprios galegos denominam “Galiza” ao seu país. Além disso, deveríamos preferir tal grafia para evitar confusão com uma região da Europa central, ao norte dos Cárpatos, também chamada Galícia.

Esses argumentos apresentam algumas fragilidades. Em primeiro lugar, o nome latino da província que hoje constitui a região em questão era Gallaecia ou Gallicia, e o mais correto gramaticalmente é denominar países europeus pela forma aportuguesada de sua denominação latina e não pela forma corrente na língua nativa desses países. Se não, chamaríamos a França de France e a Áustria de Österreich. Portanto, a denominação “Galícia” é legítima e constitui importação do próprio topônimo latino.

No entanto, no galaico-português o nome latino Gallicia resultou em “Galiça”, seguindo as leis normais da evolução fonética. Por muito tempo, os próprios galegos assim escreveram – e alguns ainda escrevem – o nome de sua região. Em época mais recente, o idioma galego, cujo uso era proibido pelo regime franquista (1936-1975), foi reconhecido como uma das línguas oficiais da Espanha e, desde que recuperou o direito a ser veiculado publicamente, adota dois sistemas ortográficos: um, de inspiração lusitana, e outro, de influência castelhana. Nesse segundo sistema, todo ç é grafado como z, tal como ocorre em espanhol (por exemplo, danzar, alianza, cazador, etc.). Isso se deve ao fato de, em espanhol, c e z terem a mesma pronúncia. Por isso, alguns galegos se chamam Lourenço e outros, Lourenzo. O fato é que “Galiza” é a forma galega do nome da Galícia, e sua pronúncia em galego é “Galiça”. Portanto, as melhores denominações dessa região em português seriam o latinizado “Galícia” (que erroneamente tem sido apontado como espanholismo) e o desusado “Galiça”.

Quanto à confusão com a região da Europa central de mesmo nome, o que se há de fazer se há duas Galícias? O mesmo ocorre em relação à província grega da Macedônia e à república eslava da Macedônia, outrora integrante da ex-Iugoslávia, assim como em italiano o nome Monaco designa tanto o principado de Mônaco quanto a cidade de Munique. (Para fazer a distinção, os italianos se referem a Monaco di Francia e Monaco di Germania.) Em inglês, Romania significa tanto “România” quanto “Romênia”. Se quisermos evitar mais essa coincidência, então seria melhor adotarmos “Galiça” em lugar de “Galícia”, mas nunca “Galiza”.

A etimologia da vela

Vela em latim é candela. Que deu em português “candeia”, “candelabro”, “candelária”, e é da mesma raiz de “cândido”, “incandescente”, “candidato” e “incêndio”. Então porque chamamos vela de vela? Na verdade, esse vocábulo é um derivado regressivo do verbo “velar”, que por sua vez veio do latim vigilare, “vigiar”, isto é, ficar acordado (a vigília é o oposto do sono).

A razão do nome “vela” é que esse objeto de cera ou parafina que serve para iluminar era usado nos velórios (“velório” é justamente um coletivo de velas), nos quais se velava — isto é, se vigiava — o morto. É que o verbo “vigiar” significa não apenas estar desperto, mas também montar guarda, já que quem está encarregado de vigiar alguma coisa não pode dormir.

Mas por que vigiar um defunto? A explicação é que algumas pessoas sofrem de catalepsia, distúrbio que leva a um estado de morte aparente, da qual o indivíduo “ressuscita” após algumas horas. Assim, os antigos criaram o hábito de vigiar o corpo durante 24 horas. Findo esse prazo, o finado não voltando à vida, podia o cadáver ser enterrado sem susto. (Na prática, sabe-se que muitos já foram enterrados vivos pois só acordaram depois de vencidas as 24 horas.)

Mas o fato é que as pessoas varavam a noite em claro segurando velas, já que não havia luz elétrica, vigiando o falecido. Daí que o objeto usado para velar ganhou o nome de “vela”, isto é, “vigia”. E a reunião de pessoas vigilantes em torno do caixão passou a se chamar velório.

Uma curiosidade: no interior de Minas Gerais, velório se chama “sentinela”, termo de origem militar que traduz a mesma ideia de vigilância.

“Teachers” e “professors” – ou: como tratamos os professores no Brasil

A língua portuguesa, assim como as demais neolatinas, utiliza a palavra “professor” para designar qualquer pessoa que ensina algo; temos, assim, não só os professores propriamente ditos, do ensino formal, mas professores de piano, de dança, de artes marciais, de musculação, de direção (o atual Código de Trânsito Brasileiro substituiu “professor” por “instrutor de direção”), e assim por diante.

Na via oposta, alguns cursos de línguas têm instrutores de inglês ou de espanhol, ou mesmo facilitadores, palavra que acho de uma tremenda hipocrisia, como se o professor apenas auxiliasse, mas o mérito do aprendizado fosse exclusivamente do aluno, ou melhor, do “facilitando”. Talvez essa mudança de nomenclatura seja para justificar salários mais baixos, já que um instrutor ou facilitador não precisa ter a bagagem cultural de um professor.

O ensino a distância criou também a figura do tutor, um tirador de dúvidas sobre aulas pré-gravadas ministradas por outro professor. Aliás, muitos desses tutores sequer têm formação na área em que “lecionam”, se é que tirar dúvidas é lecionar.

Há ainda o tratamento por “mestre”, à primeira vista respeitoso, mas que, na boca de certos estudantes, soa a escárnio. Além disso, existe na pós-graduação a titulação de mestre, uma abaixo da de doutor, o que só aumenta a confusão, já que licenciados, bacharéis, mestres e doutores são todos chamados indistintamente de mestres.

Mas é curioso que as línguas germânicas fazem distinção entre o professor de ensino básico, e mesmo o instrutor, e o professor universitário. Em inglês, temos teacher (professor em geral) e professor (professor universitário, que também é pesquisador).

O professor teacher é aquele que ensina ano após ano as mesmas coisas – oração subordinada, equação de segundo grau, tabela periódica, divisão celular, clima semiárido, Império Romano, descobrimento do Brasil… Ou seja, basicamente o programa estabelecido pelo governo. Já o professor muitas vezes cria suas próprias disciplinas, especialmente na pós-graduação, e estas não raro têm a ver com a própria pesquisa acadêmica desse docente.

Fazendo uma analogia com a música popular, o teacher é o intérprete, que canta composições alheias, e cujo repertório é sempre o mesmo, o que muda de um ano para outro é a interpretação, ao passo que o professor é o “cantautor”, isto é, o compositor que interpreta suas próprias composições, além das de outros compositores, e cujas canções são interpretadas por muitos outros cantores.

No Brasil, como não há essa distinção linguística, professors são tratados e vistos socialmente como se fossem teachers. Há até mesmo estudantes universitários que tratam jocosamente seus mestres por teacher, acostumados que estão a tratar dessa maneira os professores de inglês do ensino básico. Trata-se de um fato linguístico que, involuntariamente, reflete a situação do ensino superior no Brasil, sobretudo o privado, que, além de profundamente vulgarizado pela oferta comercial, também é tratado, tanto pelos estudantes quanto pelos mantenedores, como um “grande ensino médio”.

É claro que muitos ainda percebem a diferença entre o docente de uma grande universidade que dá entrevistas no rádio e na televisão e publica livros que se tornam best-sellers e o professor que leciona em escolas públicas da periferia, humilhado pelo salário aviltante e diariamente ameaçado pela violência da comunidade, inclusive dentro da sala de aula. Enquanto o professor tem Currículo Lattes, pós-doutorado em Harvard e é forte candidato a ministro, o teacher é espezinhado pelos alunos e, absurdo dos absurdos, pelos pais dos alunos. Por isso, quando alguém no Brasil diz que é professor, provoca um misto de emoções, que vão da admiração pela coragem em ter tal profissão no Brasil atual até a pena, a comiseração, quando não o desprezo mesmo (se é professor, é porque não teve competência para ser médico, engenheiro… Ou seja, quem sabe faz, quem não sabe ensina, não é mesmo?).

De tanto ser confundido com teachers e receber condolências pelo meu ofício, passei a me identificar como linguista e professor universitário – já que não temos a palavra inglesa professor. Aí a conversa muda de figura, e a fisionomia de meu interlocutor se transmuda de pesar em admiração e respeito: “Puxa, o senhor deve ter estudado bastante, né?”. Aliás, ele deixa imediatamente de me tratar por você e passa a me chamar de senhor.

Ou seja, no Brasil não temos uma distinção linguística entre teacher e professor, mas temos uma tremenda distinção social entre ambos. Enquanto isso, nos países anglo-saxônicos há a distinção linguística, mas o nível de respeito é o mesmo. Aliás, nos Estados Unidos, por exemplo, um professor de ensino básico quase nunca é chamado de teacher pelos alunos; o que prevalece é o respeitoso tratamento “Mr.” ou “Mrs.” seguido do sobrenome. (Sim, fora do Brasil, não se diz “Seu Zé” ou “Dona Maria” e sim “Sr. ou Sr.ª Pereira”) Ou seja, chamar professor de inglês de teacher é coisa de brasileiro – e o pior é que o professor de inglês as mais das vezes não corrige esse hábito nos alunos. Talvez justamente para não ser chamado de “Mr. Pereira”.

Os cães e a comunicação

O que cachorros passeando têm a ver com a comunicação humana? Pois estava eu, certo dia, bem antes da pandemia, passeando na rua com os meus dois “filhos” de quatro patas quando me dei conta de que, guardadas as devidas proporções, cães e homens têm muito em comum, inclusive em seus interesses sociais. Durante um passeio, os cães basicamente farejam tudo à sua volta em busca de indícios da passagem de outros cães pelo mesmo local. Aliás, cachorros deixam seu rastro de xixi nos postes e troncos das árvores para marcar território, ou seja, para que outros animais saibam que eles passaram por ali. Quando um cão encontra outro na rua (e eles não se estranham logo de cara), é normal que um cheire a glândula anal e os órgãos sexuais do outro. Esse comportamento permite saber algo da vida do novo conhecido: se é macho ou fêmea, se é castrado, que tipo de alimento come, se é amistoso…

Ora, nós humanos nos comunicamos fundamentalmente pelo mesmo motivo – para saber da vida alheia. Algumas teorias sobre a origem da linguagem especulam, por sinal, que a aptidão linguística do homem teria se desenvolvido graças a uma prática cada vez mais comum no tempo das cavernas: a fofoca. Isso mesmo, a fofoca! Falar do outro – bem ou, principalmente, mal – sempre foi o nosso esporte preferido.

Pois a comunicação, especialmente a de massas, existe para nos informar da vida alheia – e não estou falando só das revistas e programas de mexericos sobre celebridades. Se pensarmos bem, tudo o que lemos, ouvimos ou vemos nos meios de comunicação nos conta o que os outros estão fazendo. Seja as notícias dos jornais, as entrevistas da TV e até mesmo as obras de ficção (porque nossa curiosidade sobre a vida alheia é tanta que mesmo a vida de personagens inventados nos interessa e prende nossa atenção), tudo nos mostra, voyeuristicamente, o que se passa com o outro. Parece que temos a crença de que a vida alheia é sempre mais excitante do que a nossa. Até quando descobrimos que a vida privada dos artistas também tem momentos de tédio, isso nos conforta e alivia o nosso próprio tédio.

Além disso, assim como os cães deixam suas marcas urinárias para que os demais saibam de sua existência, nós humanos temos uma necessidade muito grande de ser conhecidos. Aquela artista famosa que se queixa de não poder ir à praia em paz, tão assediada que é pelos paparazzi, está simplesmente blefando: ela fica realmente preocupada quando, por mais de duas semanas, não sai nenhuma nota sobre a sua pessoa na imprensa. Algumas celebridades até convocam os indiscretos fotógrafos para flagrá-las em situações íntimas – mesmo que depois ameacem processá-los por invasão de privacidade, ameaça aliás nunca levada adiante.

O fato é que precisamos desesperadamente saber da vida alheia, assim como precisamos que os outros saibam da nossa. Talvez até esta crônica seja, no fundo, uma forma de eu me mostrar. É, nós e os cachorros temos mesmo muito em comum…

Quais vidas importam: as pretas ou as negras?

O assassinato do cidadão afro-americano George Floyd por um policial branco em Minneapolis, EUA, há cerca de duas semanas não só detonou um movimento mundial contra o racismo como também suscitou uma dúvida linguística. É que esse movimento antirracista tem como palavra de ordem a frase black lives matter, que aqui no Brasil tem sido majoritariamente traduzida como “vidas negras importam”. Entretanto, alguns jornalistas e outras personalidades formadoras de opinião apresentaram aqui e ali a tradução alternativa “vidas pretas importam”. E aí, qual é a tradução mais correta?

Para responder, precisamos entender o significado das palavras “preto” e “negro” em português, bem como de “black” em inglês.

Primeiramente, é preciso dizer que, das línguas europeias mais difundidas, só o português tem duas palavras, “preto” e “negro”, para designar a cor mais escura da gama cromática. E isso causa certo embaraço aos estrangeiros que aprendem português, bem como às crianças pequenas, que também estão começando a familiarizar-se com as sutilezas do idioma. Tanto que não é raro criancinhas dizerem “lápis negro” ou “blusa negra” e estrangeiros, “Mar Preto” ou “lista preta”.

Até o despertar da consciência negra, primeiro nos EUA com o movimento pelos direitos civis da década de 1960, depois também no Brasil, o termo mais usado para designar a raça oriunda da África era “preto”. Por exemplo, a santa padroeira dos escravos no período colonial era Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Em Portugal, os negros são chamados até hoje de pretos.

Já o IBGE (confira, por exemplo, www.diferenca.com/preto-pardo-e-negro) divide nossa população em cinco grupos étnicos, ou “raças”: branco, preto, pardo, amarelo (ou oriental) e indígena (ou índio). Trata-se de uma simplificação grosseira, mas necessária em virtude do tratamento estatístico por que passam os dados. Por exemplo, tanto o mestiço de branco e preto quanto o de branco e índio são considerados pardos (no senso comum, muitos dos chamados mamelucos ou caboclos são vistos como brancos). E onde fica o mestiço de branco e amarelo? Embora raras, essas pessoas teriam de enquadrar-se como brancas ou como amarelas, dependendo de quão puxados são seus olhos.

Mas o cerne da questão aqui é: “preto” ou “negro”, o que é melhor usar. Ou, dito de outro modo, qual das duas denominações é politicamente correta. Aqui surgem os mal-entendidos. No Brasil de hoje, “preto” em relação à cor da pele é considerado depreciativo; o politicamente correto recomenda dizer “negro”. Só que, para o IBGE, “negro” inclui “preto” e “pardo”, ou seja, é a soma de ambos os grupos. Numa simplificação bem reducionista, poderíamos dizer que negros são todos os afrodescendentes, sejam eles pretos puros (sem mistura) ou mestiços. Só que, como vimos, os pardos incluem mulatos (mestiços de branco e preto), cafuzos (preto e índio), caboclos (branco e índio) e ainda os mestiços de branco, preto e índio, cuja designação étnica no vernáculo este cronista desconhece.

Por outro lado, nos EUA, onde o racismo sempre foi mais declarado que no Brasil, o termo usual é black, ou seja “preto”, pois negro (pronunciado “nígrou”) é altamente ofensivo, significando algo como “negão”. Há ainda uma palavra mais injuriosa em inglês: nigger, corruptela de negro.

É interessante que, com exceção do espanhol, que só conhece a palavra negro tanto para cor quanto para raça, as demais línguas têm, como o português, duas palavras. Em francês, noir e nègre; em italiano, nero e negro; em alemão, schwarz e Neger; e assim por diante. A segunda de cada uma dessas designações é exclusiva de raça.

Portanto, no lema “black lives matter”, quais vidas importam: as pretas ou as negras (pelo critério do IBGE, bem entendido)? Penso que o racismo atinge não só os pretos puros e retintos, mas também os pardos, especialmente os mais escuros (há até a teoria do colorismo ou pigmentocracia, segundo a qual, quanto mais melanina, mais preconceito).

Nos EUA, não há meio-termo: quem não é branco puro, especialmente de origem anglo-saxônica, é black. Portanto, a melhor tradução em português é “vidas negras importam”, até porque o português brasileiro tem diversos termos eufemísticos (“moreno”, “moreninho”, “escurinho”, “de cor”, “queimado de sol”, “da cor do pecado”, etc.) que buscam pôr no mesmo balaio todos os afrodescendentes, tanto os puros quanto os mestiços.

As duas maneiras de sofrer

Neste exato momento, o Brasil sofre com três crises: sanitária, política e econômica. Muitos sentem na pele – e principalmente nos pulmões – os efeitos da covid-19, outros padecem a perda de entes queridos, e muitos mais sofrem com o isolamento forçado. Mas, diante de tanto sofrimento, vocês sabiam que em português há duas maneiras de sofrer?

A palavra “sofrer” chegou ao português por herança do latim sufferre, passando pelo estágio intermediário sufferere (ou sufferrere) no latim vulgar. Os dicionários registram basicamente duas acepções para essa palavra: padecer, ter dor física ou moral (“Meu avô sofreu muito antes de morrer”; “Ele está sofrendo por amor”); e suportar, ser submetido a, passar por (“Meu avô sofreu uma cirurgia”; “Meu time sofreu uma fragorosa derrota” “Os vírus sofrem mutação”).

A primeira acepção é geralmente intransitiva e admite o substantivo deverbal (isto é, derivado de um verbo) “sofrimento”. A segunda é transitiva e não tem deverbal. Pode-se até pensar que quem sofre uma cirurgia ou uma derrota de alguma forma tem dor. Talvez por isso tal verbo, que em latim significava originalmente “sustentar”, tenha assumido também o sentido de “padecer”.

O latim sufferre é formado de sub- (sob, embaixo, de baixo para cima) e ferre (levar, transportar). Portanto, significa levar algo sobre si, estando embaixo da coisa transportada. Como carregar coisas – especialmente pesadas – não é tarefa das mais agradáveis, sufferre logo passou a ter o sentido de “padecer”, para o qual o latim já dispunha do verbo pati (no latim vulgar, patere), do qual derivaram palavras como “paixão”, “passivo”, “paciente”, etc. Em Valério Máximo temos stuprum pati coacta (forçada a sofrer estupro). E em Sêneca, iniuriam pati (sofrer uma injúria).

No entanto, o latim também tinha um terceiro verbo com o mesmo significado: subire, formado de sub- e ire (ir para debaixo de, portanto, submeter-se ou ser submetido a), que também significa “subir” (isto é, “ir de baixo para cima”), sentido que passou ao português.

Curiosamente, outras línguas europeias usam dois verbos diferentes para as acepções “padecer” e “submeter-se”, em geral empréstimos respectivamente de sufferre e subire. No francês temos souffrir e subir; no italiano, soffrire e subire; no inglês suffer e undergo, este último tradução de subire (under = sub, go = ire).

O que se nota é que tanto sufferre quanto subire contêm o prefixo sub-, que significa “embaixo, de baixo”. Assim, em ambos os casos há a ideia de rebaixamento, inferioridade, submissão. Metaforicamente, quem padece uma dor ou se submete a uma experiência está debaixo de algo. Podemos pensar no escravo que sofre ao carregar peso ou que sofre um castigo. No paciente (do latim patiens, “aquele que padece”) que sofre uma cirurgia, situação em que está deitado e tem os cirurgiões trabalhando por cima. Na coluna que suporta (do latim supportare, “levar, portar embaixo”) o edifício. Ou ainda no trabalhador que sustenta (do latim sustentare, forma intensiva de sustinere, “segurar por baixo”) a família.

Consequentemente, o sentido básico de ambos os verbos sufferre e subire é o de suportar, sustentar, isto é, ficar embaixo de algo, resistindo para não deixar cair. Como o velho Atlas, mítico rei da Mauritânia que, segundo a lenda, tendo-se recusado a hospedar Perseu, foi por este metamorfoseado em montanha – o monte Atlas, no norte da África. Como essa montanha era a mais alta dentre as conhecidas pelos gregos, surgiu o mito de que Atlas suportava o céu sobre os ombros. Não por acaso, as estátuas que representam esse personagem o mostram com uma fisionomia sofredora.

O instante do momento

Por trás de toda palavra, frase ou texto há sempre um significado oculto – ou muitos. Não raro, o que queremos dizer é muito diferente, quando não exatamente o oposto, do que nossa fala diz. A riqueza maior da linguagem reside em sua capacidade de “dizer” muito mais do que é efetivamente dito. Além do discurso literal, denotativo – que Roland Barthes chamou de “grau zero” da linguagem –, temos as quase infinitas possibilidades da conotação, com suas figuras retóricas (daí falarmos em linguagem figurada).

Além disso, a escolha, nem sempre consciente, que nossos antepassados fizeram para nomear certos conceitos ou dar conta de certas situações revela muito do que eles pensavam, de como viam o mundo. E, na medida em que utilizamos essas mesmas palavras, reproduzimos essa mesma visão de mundo, ou, como se costuma dizer tecnicamente, essa mesma ideologia.

Muitas vezes, usamos certas palavras ou expressões para ser enfáticos e abusamos de metáforas, hipérboles, sinédoques, catacreses e outros recursos estilísticos. Mas quando fazemos o caminho de volta, isto é, realizamos uma leitura literal do que foi dito, acabamos nos surpreendendo.

Quando, por exemplo, queremos aludir à desmesurada concentração populacional de uma megalópole como São Paulo, dizemos que essa cidade é um verdadeiro formigueiro humano. Ora, precisamente nessa frase o formigueiro não é “verdadeiro”, mas apenas uma metáfora. Não é curioso que se enfatize (até mesmo acentuando a entonação) o mais denotativo de todos vocábulos num contexto em que ele é totalmente conotativo?

E quando aquele conhecido a quem você deve inúmeros favores pergunta se você não poderia lhe emprestar algum dinheiro? É possível que você responda, por exemplo, “lógico!” ou “naturalmente!”. Mas o que há de lógico ou natural em fazer algo que não queremos? Na verdade, nada.

Prestar favores não é um instinto natural, é uma norma cultural. A lógica que há nisso – se é que há alguma – é que a manutenção dos liames sociais se baseia em grande parte na reciprocidade. Como nosso instinto animal é muito mais competitivo do que solidário, o altruísmo é uma mutação de nossa natureza. Diante de um pedido que não gostaríamos de atender, o lógico e natural é responder “não”.

Mas a língua tem muitos outros aspectos aparentemente contraditórios. Por exemplo, se perguntamos por alguém e recebemos como resposta que ele, “com certeza”, saiu, é porque quem nos responde não tem realmente certeza do paradeiro da pessoa indagada.

E as palavras que denominam as menores frações de tempo? “Momento” vem do latim momentum, “movimento”, e refere-se ao balanço do pêndulo dos relógios. Tanto que a física chama esse movimento pendular de “momento angular”. Cada ida ou vinda do pêndulo é um “momento”.

Ou seja, um “momento” não era, na sua origem, o mesmo que um tempo infinitesimal, mas uma duração suficiente para que algo se movesse de forma perceptível aos olhos. Já “instante” (do latim instans) significa “insistente, que perdura”. Não é paradoxal que o instante seja justamente o intervalo de tempo mais fugaz que existe?

Aquela história de que em português “pois sim” significa “não” e “pois não” significa “sim” já virou até piada. Mas quando comparamos o modo como dizemos as coisas em português com a maneira como as outras línguas expressam os mesmos conceitos, descobrimos fatos interessantes.

Em inglês, por exemplo, “ganhar dinheiro” se diz make money, literalmente “fazer dinheiro”, o que dá a ideia de produção, trabalho, geração de riqueza. Já a nossa expressão “ganhar dinheiro” remete à ideia de presente, prêmio, lucro fácil, pois ganhar é sempre de graça, sem dar nada em troca. Será por isso que os países de língua inglesa são mais ricos e desenvolvidos que os de língua portuguesa?

Uma última: “canhão” em francês é canon. E na França canon significa também “mulher bonita, mulherão” (daquelas de parar o trânsito). Já no Brasil, como se sabe, “canhão” é mulher feia. Pela escolha do termo, parece que ambas matam: uma, de prazer; a outra, de desespero.

Ah, que saudade do “a”!

Já faz um bom tempo que o português brasileiro aposentou a preposição a. Atualmente, a maioria dos verbos que antes regiam essa graciosa preposição preferem a companhia do para. Hoje em dia, não se dá nada a alguém, mas para alguém; não se diz algo a uma pessoa, mas se fala alguma coisa para ela. Verbos de transmissão (em latim, verba dativa), aqueles em que há implícita a ideia de fazer alguém ter algo que não tem, como dar, entregar, contribuir, enviar, e verbos de comunicação (lat. verba dicendi), como dizer, contar, explicar, informar, etc., que sempre pediram como complemento a preposição a – e que ainda o fazem em outros idiomas, como o espanhol, o francês e o italiano – resolveram trair essa companheira de tantos séculos na adúltera relação com para ou, pior, com sua irmã plebeia pra (mais raramente, com em e com, como no caso de chegar em, contribuir com, e por aí vai).

A razão desse adultério deve ser a possível confusão entre a preposição a e o artigo feminino a. Aliás, esses dois homônimos são a causa maior da dificuldade que nove entre dez falantes – ou melhor, escreventes – do português têm de usar a crase. A esse imbróglio se une o pronome pessoal oblíquo a. Assim, uma frase como “Aconselhei-a a ir de carro à padaria” vira algo como “Aconselhei ela pra ir de carro na padaria”. Dada a ambiguidade dos três a’s, a preposição virou pra ou em, o pronome oblíquo virou ela, e só o artigo ainda não foi substituído.

A preposição a atualmente resiste apenas em locuções petrificadas como a respeito de, a propósito, com vistas a, a meu ver, a qualquer preço, a todo custo… Nos demais casos, a teve de ceder o lugar que antes era exclusivamente seu: hoje se vai pra escola ou na escola, jamais à escola. Até o famoso Parabéns a você já virou Parabéns pra você.

A rejeição ao a se deve em grande parte aos hiatos desagradáveis que provoca. Por exemplo, “Ataliba adora-a a toda prova”. Essa sequência cacofônica de a’s não se resolve mudando o pronome de lugar: “Ataliba a adora a toda prova”.

Os portugueses em geral apreciam o a muito mais do que os brasileiros. Lá na terrinha, fala-se ao telefone, senta-se à mesa, fica-se ao sol, paga-se a dinheiro, entrega-se a domicílio. Até o famoso a nível de, tão repudiado pelos gramáticos brasileiros, tem seu lugar ao sol (ou no sol?) em Portugal. Além disso, os tempos cursivos, também chamados de progressivos, que aqui no Brasil se formam com o gerúndio (estou fazendo, estou dizendo) são construídos com a preposição a em terras lusitanas: estou a fazer, estou a dizer.

Outro dia, me deparei com esta bela frase em espanhol: todo lo que te sucede en la vida no es a ti, es para ti. Percebam a distinção que o castelhano faz das preposições a e para – assim como o inglês tampouco confunde to com for. Em português brasileiro, uma tradução não ambígua desse dito seria “tudo o que acontece na sua vida não é com você, é para você”. O verbo acontecer regia classicamente a preposição a (algo acontece a alguém), hoje rege preferencialmente com, preposição de companhia ou instrumento e não de alvo da ação. É o mesmo caso de contribuir com em lugar de contribuir a.

E a confusão de a com então? Isso aconteceu dois minutos, mas aquilo vai acontecer daqui a duas horas. Aí o povo vai e escreve: “a dois dias atrás…”, com duplo erro: preposição a em vez do verbo e redundância entre (no caso, a) e atrás.

E o que dizer de construções arcaicas como chegar a casa e preferir banana a laranja? Hoje se chega em casa e se prefere mais banana do que laranja. Aliás, há quem prefira muito mais uma coisa do que outra! Só faltou falar da interjeição ah: “ah, a amiga Aurora, há tempos que não a vejo!”.

Resumindo, o português brasileiro substituiu a preposição a por para (e consequentemente trocou à por para a, que no linguajar corrente virou pra a e depois simplesmente pra), substituiu por tem (exceto em expressões de tempo como “há dois dias” que se transforma automaticamente em “faz (ou, pior ainda, fazem) dois dias” e só manteve o a artigo (que não tem como substituir, né?) e a interjeição ah, que não se confunde com os outros a’s porque é sempre longa: “aaahh, que saudade do a!”.

Campanha da Rede Globo contra o racismo peca por ignorância

Por ocasião dos 132 anos da abolição da escravatura no Brasil, a Rede Globo acaba de lançar uma campanha contra expressões verbais consideradas racistas por conterem as palavras “negro” ou “preto” (ou suas flexões de gênero e número). O comercial consiste em omitir a palavra em questão em expressões consagradas na língua portuguesa – e que têm equivalentes em outras línguas –, substituindo-a por uma lacuna (o famoso underline, para quem é da geração digital). Temos então: a coisa está _____, não sou tuas _____, serviço de _____, ovelha _____, mercado _____, lista _____, e por aí vai. O problema é que boa parte dessas expressões não tem nenhuma relação com a raça negra, portanto não tem nada de racista.

Se, de fato, serviço de preto significa “serviço malfeito” porque feito por negros (na época da origem da expressão, escravos), e não sou tuas negas se refere às negras com quem o senhor de escravos se deitava, as demais expressões remetem ao negro como cor e não como raça.

Desde tempos imemoriais, o homem teme a escuridão – e na época das cavernas muito mais do que hoje –, afinal à noite o risco de ser atacado por predadores ou inimigos era muito maior. Da mesma forma, uma caverna escura poderia conter ameaças, desde um buraco até uma fera. Não por outra razão, o negro foi escolhido como a cor do luto, já que a escuridão evoca a tristeza e o medo do desconhecido. Evoca sobretudo o maior de nossos medos: a morte. Daí deriva também o uso da cor negra como símbolo de tudo que é negativo, nefasto e fora do padrão, assim como o branco sempre foi associado à pureza e à virtude. Se todas as ovelhas são brancas, o indivíduo que destoa de seu grupo só poderia ser uma ovelha negra – ovelhas azuis ou amarelas não surtiriam o mesmo efeito de contraste. A lista negra é a que contém os nomes dos indesejáveis, dos que não merecem confiança porque são impuros no caráter. O mercado negro é o comércio ilegal, clandestino, que opera às escuras, sem ser visto pela lei. “A coisa está preta” é mera alusão às nuvens negras anunciando tempestade, e assim por diante.

A maior parte dessas expressões nasceu na Antiguidade ou na Europa medieval, num tempo portanto muito anterior à escravidão negra na América e ao preconceito racial dela decorrente, num tempo em que os europeus praticamente não tinham nenhum contato com os africanos.

O que se passa é que a ideologia do politicamente correto promove uma caça às bruxas, tentando encontrar culpados a todo custo e criminalizando palavras e expressões que, em sua origem, não tinham nada de preconceituoso. Querendo combater o fascismo da sociedade, é o politicamente correto que se torna fascista, censurando qualquer um que não se comporte ou fale segundo sua cartilha. A seguir essa lógica, logo estaremos proibidos de escrever com caneta preta, e as mulheres não poderão mais usar vestido pretinho básico.

A intenção da Globo foi boa, mas de boas intenções o inferno está cheio. Nota zero para essa campanha, que demonstra ignorância da origem das expressões que condena!

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Acho que já contei essa história aqui, mas, em todo caso, vale repeti-la. Certa vez, eu estava dando aula enquanto um temporal medonho se avizinhava lá fora, com enormes nuvens negras, raios e trovões dignos de filme de terror. Olhei pela janela e disse aos alunos: “Pessoal, a coisa lá fora tá preta”. Nisso, uma aluna negra me interpelou dizendo que eu não deveria usar essa expressão, que eu deveria demonstrar mais respeito pelo holocausto africano, etc. etc. (Sim, meus amigos, em seu longo sermão ela usou o termo “holocausto” em relação à escravidão). Um tanto perplexo, eu não perdi a pose e voltei à janela, olhei para fora novamente e remendei: “Pessoal, me desculpem, eu quis dizer que a coisa lá fora está afrodescendente”.