O desprestígio da área de Letras

Pode soar estranho para a maioria das pessoas, mas a língua é, das instituições sociais criadas pelo homem, a mais “exata”, no sentido matemático do termo. Isso porque, na verdade, a língua não foi propriamente “criada” pela espécie humana, mas é o desenvolvimento natural de uma aptidão que tem raízes biológicas. Como disse o linguista israelense Guy Deutscher, “a língua é a maior invenção da humanidade, exceto pelo fato de que nunca foi inventada”. Como quer que seja, as línguas humanas são estruturas formadas de elementos que se combinam segundo regras precisas para formar elementos de um nível superior, que por sua vez se combinam segundo as mesmas regras, e assim por diante, seguindo um princípio hierárquico que vai dos elementos mínimos (os fonemas) até os enunciados máximos (os textos e discursos).

Embora haja também fenômenos psicossociais envolvidos na comunicação humana verbal, o fato é que a ferramenta básica dessa comunicação é um sistema cujo funcionamento segue leis matemáticas e, por isso mesmo, permite coisas como tradução automática, inteligência artificial e muito mais.

Olhando desse ponto de vista, um profissional de Letras deveria ser muito respeitado em nossa sociedade, já que é detentor de um conhecimento técnico tão complexo quanto o dos engenheiros, médicos, advogados, economistas, analistas de sistemas, cientistas… Só que não, e é fácil entender por quê. Enquanto um médico estuda no mínimo seis anos e um engenheiro ou advogado no mínimo cinco para se formarem, além de outros profissionais universitários, que estudam pelo menos quatro anos, um professor de português ou inglês estuda, na maioria das faculdades de Letras do nosso país, apenas três anos. E boa parte desse tempo é dedicada a disciplinas pedagógicas (como dar uma aula, como elaborar um plano de ensino, etc.). E hoje, com o advento hegemônico da educação à distância, até a prática pedagógica é ensinada… teoricamente.

Não bastasse isso, no pouco tempo que sobra para estudar a língua propriamente dita, o que se estuda não é a gramática normativa, que é a que deverá ser ensinada pelos futuros professores. Enquanto médicos, engenheiros e advogados, dentre outros, são bem remunerados por serem profissionais “pensantes”, que têm de usar seu conhecimento técnico e seu raciocínio para resolver problemas complexos, o professor é visto como alguém que não pensa, apenas repete como papagaio as informações que memorizou em seus poucos anos de estudo superior. E, nesse entremeio, o professor de Letras é o mais desvalorizado, afinal um professor de matemática ou química, bem ou mal, lida com coisas “exatas”.

Infelizmente, o ensino de Letras em nosso país só faz justificar essa visão preconceituosa da profissão. Não é à toa que cursos de medicina ou engenharia existem principalmente em universidades de grande porte, muitas das quais famosas e conceituadas (bem, hoje em dia as faculdades de medicina de fundo de quintal já são quase tão onipresentes quanto as igrejas do Edir Macedo). Já cursos de Letras costumavam até pouco tempo atrás pulular em faculdadezinhas sem nenhuma qualidade. (É evidente que também há cursos ruins de medicina e engenharia em faculdades igualmente ruins, mas para cada curso ruim de medicina ou engenharia havia cinco ou seis de Letras ou Pedagogia. Esse cenário mudou nos últimos anos, quando o desinteresse geral dos estudantes em seguir a carreira do magistério levou ao fechamento da maioria dos cursos de Letras ou à sua transferência para a modalidade à distância, com redução ainda maior da carga horária e nenhuma prática pedagógica, ao mesmo tempo que cresceu a busca pelos cursos de Direito, Informática e Medicina.)

Outro ponto importante é que um estudante de Engenharia é alguém que supostamente estudou bastante matemática e física no colégio e, por isso, chega aos bancos universitários relativamente preparado para o que vem pela frente. (Bem, novamente aqui tenho que fazer essa afirmação com certa ressalva, pois posso estar redondamente enganado.) Ao contrário, o estudante de Letras é, via de regra, alguém cuja educação básica não estimulou seu raciocínio lógico. Em outras palavras, é alguém que não está acostumado a pensar, a fazer abstrações, a visualizar diagramas e esquemas em duas ou mais dimensões — em resumo, é alguém que está na área de Humanas para fugir do raciocínio, alguém que, vindo das classes mais baixas e de um ensino público falido, escolhe o curso “mais fácil”. Então, quando esse aluno depara com uma disciplina chamada Linguística e suas subdivisões (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, pragmática) e começa a ver esquemas, diagramas em árvore, oposições binárias, linguagem de conjuntos e outros que-tais, entra em desespero e desiste do curso. Ou conclui a faculdade odiando a linguística e, assim, vai ser mais um profissional não pensante, mal remunerado e desprezado socialmente. Infelizmente, na maioria dos casos, esse indivíduo fez por merecer — ainda que involuntariamente — o preconceito que se lhe abate.

O pretuguês é realmente português de preto?

Esta semana me chamou a atenção um vídeo no Instagram de uma jovem de nome Camilla, cujo perfil é @pretaletrada, falando sobre o pretuguês, isto é, o português brasileiro falado, especialmente pelas pessoas pouco ou nada letradas. Esse conceito, o pretuguês, ou “português de preto”, foi criado pela ativista negra Lélia González (que não era linguista) provavelmente baseado no consagrado Black English, o dialeto (sim, dialeto!) dos negros americanos pobres e iletrados, sobretudo os do Sul dos Estados Unidos. Lá, séculos atrás, surgiu um dialeto crioulo resultante da tentativa de escravos negros africanos de falar inglês, língua estrangeira para eles, sendo que os próprios africanos pertenciam a várias etnias e tinham línguas maternas distintas. (Atenção: língua crioula não é língua de preto, como podem pensar os desavisados; é uma língua nascida nas colônias europeias da América, da África e da Ásia, resultante da mistura das línguas dos colonizadores e dos colonizados.)

Nos EUA, o linguajar popular tem de fato uma forte influência africana, mas muito pouco indígena, pois os índios americanos foram simplesmente dizimados, o que justifica a denominação Black English. Já no Brasil, o dialeto crioulo que surgiu era um português inculto falado pelos primeiros colonizadores, gente de baixa cultura, altamente influenciado em primeiro lugar pelas línguas indígenas, especialmente o tupi, e posteriormente pelas línguas africanas, com destaque para o quimbundo e o iorubá. Logo, o pretuguês não é apenas preto e português, é também índio, ou pretindiuguês. E por que isso é importante? É o que veremos a seguir.

A moça preta e letrada do vídeo afirma que brusa, pobrema, os menino e as casa não são erros e sim produtos da herança africana na nossa língua. Em primeiro lugar, ela aparentemente ignora os diferentes significados da palavra erro em linguística e em gramática (ela tampouco é linguista). Em linguística, não há erros, há variedades distintas (de região, de idade, de nível social, de escolaridade, etc.), logo os menino e os meninos são variantes diastráticas, isto é, de classe sociocultural, da mesma expressão portuguesa. Já na gramática normativa, é considerado erro o uso em um texto ou discurso formal de tudo aquilo que não é próprio da variedade chamada de norma-padrão. Portanto, erro é o uso inadequado de uma variedade linguística em contexto de comunicação em que ela não é recomendada. Assim, numa sociedade letrada como a nossa, em que ocorreu há várias décadas a universalização do ensino básico, dizer brusa ou os menino só não é inadequado aos analfabetos (absolutos ou funcionais).

Dito isso, muitos dos fatos que a preta letrada aponta como africanismos no português brasileiro oral são de fato herdados das línguas africanas, especialmente das línguas bantu, dentre as quais o mencionado quimbundo. A marcação do plural apenas no artigo (os menino) é quase consensualmente aceita como uma marca africana.

Em compensação, construções como os tempos contínuos ou cursivos, formados pelo verbo estar mais um gerúndio (estou fazendo, por exemplo), não são herança africana, já que esse tipo de construção existe em espanhol, galego, catalão, italiano e inglês, dentre outros. No próprio português lusitano, essa construção predominou até o século XIX (mais uma vez, é a mais usual em Camões); foi a partir daí que estou a fazer acabou suplantando estou fazendo. Mesmo assim, em algumas regiões de Portugal ainda prevalece estou fazendo.

Já o rotacismo, isto é, a troca de l por r, que a jovem argumenta ser causada pelo fato de as línguas africanas trazidas ao Brasil não terem o fonema /l/, é bastante discutível. Em primeiro lugar, esse fenômeno já existia no português medieval (latim plattu, fluxu, clavu > português prato, frouxo, cravo), de modo que pode ter sido trazido pelos próprios portugueses. Até Camões, n’Os Lusíadas, emprega simpres por simples. Mas a causa também pode ser indígena, pois o tupi, este sim, não tinha o som de l, tanto que pronúncias como carça, asfarto, borso por calça, asfalto, bolso se originam de regiões como o interior do Estado de São Paulo, onde a língua de substrato era o tupi e não o quimbundo.

Por outro lado, inúmeras palavras brasileiras de origem afro têm l e justamente porque tinham l no quimbundo da era colonial. Por exemplo, moleque (< quimbundo mu’leke, “menino”), quizília (< kizila, “aborrecimento”), beleléu (< mbalale, “cemitério”), caçula (< kasakula), lundu, quilombo, senzala, Luanda

Esta última, nome da capital de Angola, situada na ilha do mesmo nome, deriva de lu’ndandu, formada por lu, “litoral”, e ndandu, “búzio”. Curiosamente, foi no Brasil que o nome Luanda deu origem ao termo religioso Aruanda, “Paraíso”. Por falar em religião, a palavra candomblé se origina da junção do quimbundo candombe, “dança ao som de atabaques”, com o iorubá ilê, “casa”. Como vocês podem ver (e o baiano Ilê Aiyê confirma), o iorubá também tem l.

Pois bem, é nisso que dá quando militantes woke resolvem sustentar suas pautas identitárias em informações falsas, resultado de falta de pesquisa ou, em certos casos, de desonestidade intelectual. E a jovem Camilla, que sintomaticamente usa termos como bacharela e escravizados (em 2010 e 2014, ela deve ter votado na presidenta), é declaradamente uma militante, assim como Lélia González também o era. A causa defendida por ambas ganharia muito em força argumentativa se se apoiasse em fatos cientificamente comprovados e não em achismos disseminados em grupos de militância, onde quase ninguém sabe realmente do que está falando.

Ainda sobre a ortoépia — ou ortoepia

Semana passada publiquei aqui um texto cômico para explicar o que é ortoépia, ramo da gramática que indica a pronúncia correta das palavras — e cujo nome tem, ele próprio, duas pronúncias corretas, já que também pode ser grafado e pronunciado ortoepia.

Pode parecer bobagem, mas há muitos casos em nossa língua de palavras com duas grafias e pronúncias igualmente corretas, como autópsia e autopsia, necrópsia e necropsia, biópsia e biopsia, catorze e quatorze, e assim por diante. Esse assunto se tornou relevante depois que um certo membro do Ministério Público resolveu processar a Rede Globo porque seus repórteres pronunciam récorde em vez de recorde. Ora, acho que a maioria do povo brasileiro, incluindo pessoas cultas, pronuncia récorde. E também transístor e bêisebol em lugar de transistor e beisebol. Portanto, já é hora de os dicionários e o próprio VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) abonarem essas formas, afinal língua é uso, e o uso é soberano.

Mas aqui quero tratar de um fenômeno curioso que vem acontecendo após a reforma ortográfica de 2009. Embora na maioria das línguas a grafia não represente fielmente a pronúncia, parece que os falantes do português são tão apegados ao modo de escrever das palavras que, quando ele muda, a pronúncia muda junto.

Na América do Sul há dois países chamados Guiana, a República da Guiana e a Guiana Francesa (antigamente, o Suriname também se chamava Guiana Holandesa). Pois até 2009 a grafia do nome desses países era Güiana, seguindo a forma como são chamados em outros idiomas. Aliás, até 1943 essa grafia era Guyana, que se mantém nas demais línguas. Pois foi só a reforma ortográfica abolir o trema que as pessoas, inclusive jornalistas, passaram a pronunciar esse nome como se o u fosse mudo.

Outro fato curioso é que até a oficialização da reforma, grafávamos protéico, nucléico, estóico, paranóico, e assim por diante. Já faz algum tempo que ouço pessoas dizerem protêico, com e fechado, mas minha maior surpresa foi ouvir na televisão Luiz Felipe Pondé pronunciar estôico. Justo ele, que é filósofo e grande estudioso do estoicismo desde quando estóico tinha acento. Duvido que naquela época ele ou qualquer outra pessoa pronunciasse estôico. No entanto, é assim que ele se refere atualmente aos seguidores dessa escola de pensamento. Resta saber se Pondé está fazendo isso por ignorância de que mudanças na grafia não implicam mudanças na língua (duvido muito dessa hipótese) ou se por pura gozação ou protesto contra a nova ortografia da língua portuguesa. Em todo caso, a ortoépia (ou ortoepia) ensina que todas as palavras terminadas em ‑eico, ‑oico ou ‑oide se pronunciam com a vogal aberta e não fechada.

O fato é que o português já passou por muitas reformas ortográficas (quatro só no último século), sendo que, na minha opinião, nenhuma foi satisfatória, e essas mudanças constantes só atrapalham quem procura escrever corretamente. E agora estão atrapalhando também a fala. Enquanto isso, outras línguas europeias não sofrem reformas ortográficas há séculos, e ninguém tem problema para pronunciar as palavras.

O ortoepista

Germano estava em uma loja informando seus dados pessoais ao atendente do setor de crediário. Nome: Germano Fontes. Data de nascimento: tanto de tanto de mil novecentos e tanto. Profissão: ortoepista. Ao dizer isso, o rapaz do cadastro lançou-lhe um olhar de perplexidade: orto o quê?! “Ortoepista”, respondeu Germano.

— O senhor é médico? Trata de fraturas, né?

— Não, não, eu sou gramático, especialista em ortoépia — ou ortoepia.

— E, desculpa perguntar, o que faz um orto, orto…?

— Ortoepista. É o profissional que estuda e ensina a correta pronúncia das palavras.

— Ah, que interessante! O senhor podia dar um exemplo?

— Claro, o próprio nome da minha profissão é um exemplo. Você pode pronunciar ortoépia ou ortoepia, ambas as formas estão corretas.

— Puxa, mas essa profissão existe mesmo? Eu nunca tinha ouvido falar.

— Claro que existe, tanto que eu sou filiado ao Sindicado Nacional dos Ortoepistas e das Ortoepistas, membro da Sociedade Brasileira de Ortoépia — ou Ortoepia — e credenciado junto ao Conselho Federal de Ortoépia — ou Ortoepia.

— Nossa, agora eu fiquei pasmo! Pra ser sincero com o senhor, eu num intindi nada. Pra mim isso é uma compreta novidade.

— Então, só para lhe mostrar como um profissional como eu é útil, a pronúncia correta é “não entendi” e não “num intindi”. E o certo é “completa” e não “compreta”.

— Ah, doutor, mas o senhor tem estudo, né, eu não. Quer dizer então que o orto, orto… enfim, isso aí que o senhor falou, é a pessoa que correge os ignorantes?

— Olha, não é bem isso, meu trabalho não é humilhar ninguém, mas, já que você tocou no assunto, o certo é “corrige” e não “correge”.

— Legal, aprendi um monte de coisa com o senhor agora, vou voltar mais inteligente pra casa. O senhor pode assinar aqui embaixo? Pode ser só uma rúbrica.

— Rubrica, meu amigo, rubrica.

Eu te amo

Uma das expressões mais universais que existem é a declaração de amor, o famoso “eu te amo”. Tanto que, outro dia, me deparei com uma publicação na internet listando como se diz “eu te amo” em 40 línguas diferentes. Algumas dessas formas são famosíssimas, como o inglês I love you e o francês je t’aime, tantas vezes presentes em filmes e canções românticas. Mas outras formas, como o espanhol te quiero e o italiano io ti amo (e também ti voglio bene), são igualmente difundidas.

Em português, a forma mais conhecida é o manjado eu te amo, mas, curiosamente, a nossa língua apresenta diferentes formas de dizer isso conforme a variedade geográfica e também histórica. Por exemplo, se a atual dublagem brasileira de filmes estrangeiros sapeca invariavelmente eu te amo, dublagens mais antigas (dos anos ’60, por exemplo) traziam os formais eu o amo e eu a amo, conforme a pessoa amada fosse homem ou mulher. Em Portugal, o comum é dizer amo-te ou ainda eu amo-te, e em alguns lugares do Nordeste o que se ouve é eu lhe amo. É curioso como a profusão de variedades do português afeta até uma expressão universal e que na maioria das línguas tem uma forma única, não?

Palavras que inexplicavelmente sofreram evolução irregular em português

Quem estuda a formação histórica da língua portuguesa nos cursos de Letras (eu estudei isso ainda no ensino médio, que então se chamava segundo grau ou colegial) aprende que as consoantes surdas intervocálicas do latim se tornam sonoras em português e que as sonoras do latim desaparecem na nossa língua, com exceção do b, que vira v, e do m, que se mantém. (Surdas são as consoantes que não fazem vibrar as cordas vocais, como /p/, /t/, /k/, /f/ e /s/; sonoras são as que fazem vibrar, como /b/, /d/, /g/, /v/, /z/, /l/, /m/, /n/ e /r/.)

Assim, o latim crudus deu primeiramente cruu e depois cru, gelare deu gear, granum deu grão, lana passou a lãa e então a , persona evoluiu para pessõa e a seguir para pessoa.

No entanto — e isso é algo que intriga os historiadores da língua —, algumas palavras não sofreram esse processo, tendo mantido intactas consoantes sonoras intervocálicas que deveriam ter caído e que, por sinal, caíram em línguas irmãs do português. Foi assim que o latim valere deveria ter dado *vaer, mas deu valer. Do mesmo modo, pilus daria *peo e depois *peio, mas deu pelo; minus e minor resultaram em menos e menor (há indícios de que houve na Idade Média a forma mẽos, que teria evoluído para *meios, gerando confusão com a já existente palavra meios, do latim medios, o que explicaria o empréstimo da forma espanhola menos — em espanhol, o n entre vogais não caía).

Igualmente, o g se conservou em pago, pagão (habitante do pago), praga, chaga, estragar, negar, regar, sugar, fugir, fugidio, frigir e negro, respectivamente do latim pagus, paganus, plaga, *stragare, negare, rigare, sugare, fugere, fugitivus, frigere e niger. Nesse ponto, o espanhol também foi conservador em certas palavras: o latim plaga, paganus, negare, niger, gradus, nodus, nudus e nidus deram respectivamente llaga, pagano, negar, negro, grado, nudo, desnudo e nido. Nesses quatro últimos casos, o português eliminou a consoante: grau, , nu, ninho (< nĩo).

Algumas explicações têm sido aventadas para a não ocorrência da síncope (queda) de certas consoantes. Nos casos de pagão, praga e chaga, os falantes teriam evitado um encontro aa desagradável de pronunciar: *paão, *praa e *chaa, que naturalmente evoluiriam para pão, prá e chá. Em outros casos, também a possível convergência formal com outras palavras já existentes, gerando homonímia, teria sido a causa de os falantes pronunciarem essas palavras com mais cuidado, evitando o emudecimento da consoante, ou mesmo de terem reintroduzido na língua as formas latinas ou introduzido as espanholas depois que a homonímia já havia ocorrido — e causado confusão. Mas há ainda muitos casos sem uma explicação plausível, o que dá ensejo a muitas futuras pesquisas.

Palavras injustiçadas

Como você se sente quando toma conhecimento de que uma pessoa inocente foi condenada e encarcerada por um crime que não cometeu? Você fica indignado, não? Pois é isso o que anda acontecendo com muitas palavras e expressões da nossa língua, cujo exemplo mais recente publiquei aqui mesmo na semana passada.

Palavras e expressões que nunca tiveram qualquer caráter discriminatório ou ofensivo, ou que o tiveram séculos atrás e o perderam, de modo que ninguém mais tem consciência disso, vêm sendo constantemente “canceladas”, inclusive por órgãos oficiais, sem direito a defesa, com base apenas em pseudoetimologias, as mais das vezes criadas por agentes do movimento woke, ou na alegação de que alguém se sentiu ofendido por elas.

Tenho criticado muito essa atitude de autoridades, como tribunais de justiça, associações de classe, sindicatos, universidades e até ministérios, que se deixam levar por alegações sem prova ou por provas manipuladas apenas porque quem as apresenta tem força política ou usa da estratégia da vitimização (que eu chamo de “mimimização”) para fazer valer a sua versão dos fatos, inclusive calando vozes discordantes sob o argumento autoritário de que elas não têm “lugar de fala”. Mas hoje quero destrinçar melhor essa questão e mostrar por que tais atitudes são obscurantistas, já que se baseiam em pseudociência, e antidemocráticas.

Há quatro tipos de palavras ou expressões: as que não são nem nunca foram discriminatórias ou preconceituosas (por exemplo, caderno, azul, caminhar, fazer as contas, salvo melhor juízo), as que são e sempre foram ofensivas (calhorda, serviço de preto, vá para o Inferno), as que um dia foram pejorativas, mas deixaram de sê-lo, e as que não o eram, mas passaram a sê-lo. É destes dois últimos tipos que quero falar, pois são eles o alvo principal da discussão.

Muitos termos que hoje usamos para insultar pessoas nasceram no âmbito da medicina e eram meros termos técnicos que designavam doenças. Por exemplo, idiota, imbecil e retardado eram termos psiquiátricos hoje abandonados por pressão social sobre os médicos a partir do momento em que se popularizaram e se tornaram xingamentos. Tais termos foram substituídos por outros, o que não impede que estes também caiam no uso popular e ofensivo. Há hoje em dia quem se incomode com a palavra neurótico, por exemplo. Às vezes, um termo é substituído por outro tão anódino quanto o primeiro. É o caso de criança excepcional, que deu lugar a criança especial (qual a diferença entre excepcional e especial, duas palavras, por sinal, que também se usam para elogiar: um cantor excepcional, uma data especial?).

A palavra cretino, hoje um xingamento, tem uma origem particularmente interessante: veio de um dialeto francês medieval em que crétin significava “cristão”. Era assim que as pessoas se referiam a crianças abandonadas ou enjeitadas que eram acolhidas pela Igreja. Portanto, uma palavra piedosa que encobria a situação de vulnerabilidade social — para usar um termo da moda — da pobre criança. Era assim que as crianças de orfanato eram chamadas, sem nenhum preconceito ou sugestão deploratória. Com o tempo, o vocábulo francês crétin passou a ser usado pelos médicos para referir-se não só a órfãos, mas também a adultos recolhidos em manicômios. Mesmo assim, cretino era originalmente o indivíduo acometido de cretinismo, isto é, falha no desenvolvimento mental e cognitivo. É daí que surge o uso insultuoso da palavra. Evidentemente, ninguém que hoje se refira a um desafeto como cretino pode alegar em sua defesa que estava apenas fazendo um diagnóstico médico, sem nenhuma conotação depreciativa.

Pois se isso é assim em relação a palavras positivas ou neutras que se tornaram negativas, o mesmo deveria valer para palavras negativas que se tornaram neutras ou até positivas. Em sua origem, sofisticado significava “cheio de sofismas, de falácias, de mentiras”; um argumento sofisticado era um argumento falacioso, tipicamente utilizado pelos antigos sofistas para vencer uma discussão. Hoje sofisticado é algo bem elaborado, requintado, chique. Já formidável significava “terrivelmente cruel, implacável”; hoje é algo sensacional. Aliás, bárbaro era alguém desprovido de civilização (ainda hoje se fala em crime bárbaro), mas também chamamos (ou chamávamos, nos anos 1960) de bárbaro àquilo que nos causa admiração pela beleza ou qualidade.

Uma palavra como boçal, recentemente proscrita pela Advocacia-Geral da União por ser supostamente racista, como relatei semana passada, é um caso interessante. Há três possíveis etimologias para boçal, e nenhuma delas tem conotação racista. A primeira diz que proviria do latim vulgar *buccealis, jamais documentado e derivado de bucca, “boca”. Seria um artefato para ser usado na boca ou focinho dos animais. Como nunca foi atestada, essa origem é bem pouco provável, até porque não derivaria diretamente de bucca e sim de um adjetivo *bucceus, “bucal”, que igualmente nunca foi registrado.

A segunda hipótese é que provenha do italiano bozza, pedra grosseiramente talhada, de formato irregular; portanto, boçal é algo tosco, rude. O fato é que o adjetivo *bozzale, do qual proviria o português, nunca existiu. E a palavra portuguesa boça significa “cabo, corda”, logo nada a ver com o sentido italiano do termo. Aliás, a primeira acepção de bozza é “calombo”, que deu o português bossa, “corcunda”, e na gíria, “talento, aptidão, tino”, depois especializado em “aptidão para a música e a dança, gingado” (daí a Bossa Nova).

A terceira teoria aponta para o espanhol bozal, de boza, “buço”. O bozal era uma espécie de cabresto que se prendia ao focinho (buço) dos animais. Como buço é uma característica dos adolescentes, bozal referia-se a alguém inexperiente e, por conseguinte, desajeitado. Esta é a etimologia mais provável e aceita pelos estudiosos.

De fato, no período escravagista, boçal era o termo que denominava escravos recém-chegados às Américas, que ainda não sabiam falar a língua do colonizador. Portanto, referia-se a um escravo (ou, se preferirem, escravizado) novato. Só que o termo já era utilizado para brancos inexperientes bem antes do período da escravidão. Então, boçal é de fato ofensivo, mas não necessariamente racista. O mesmo se dá com gringo, denominação pejorativa de qualquer estrangeiro, que até o momento não foi censurada pelo simples fato de que os gringos que visitam nosso país ou para cá imigram em geral não são negros. Além disso, quem atualmente xinga o outro de boçal — mesmo que o outro, no caso, seja negro — não tem nenhuma intenção racista simplesmente porque ignora que um dia essa palavra foi aplicada a escravos negros — assim como você, leitor, aposto, também não sabia.

Mas, quando suas pseudoetimologias são desmontadas, os defensores do identitarismo se refugiam em argumentos do tipo “mesmo que a palavra em questão não seja intrinsecamente ofensiva, se eu me sinto ofendido com ela, é quanto basta para censurá-la ou processar você”. Esse argumento é perigosíssimo por dois motivos. Primeiro, porque coloca a opinião pessoal acima dos fatos. Nesse sentido, se eu acredito que a Terra é plana ou que vacinas provocam autismo, tenho o direito de punir quem acha — ou melhor, sabe — que a Terra é redonda, bem como alastrar pânico na população que antes se vacinava, causando epidemias e levando a saúde pública ao colapso. Segundo, porque qualquer pessoa pode alegar sentir-se ofendida por qualquer palavra ou expressão. Se eu inocentemente digo que fulano é um touro, referindo-me ao seu vigor físico, ou que sicrano é um leão graças à sua coragem, o dito-cujo pode alegar que ser comparado a um animal é indigno. E aí fica a critério de um juiz, de cuja cabeça, assim como do bumbum de um bebê, nunca se sabe o que vai sair, e que não entende nada de linguística, decidir a questão. E os juízes sempre tendem a dar razão ao queixoso, não ao réu. Em resumo, seria a subversão total do princípio do Direito, em que sempre cabe o contraditório e em que a prova técnica sempre se sobrepõe às alegações de uma ou outra parte.

Mas o fato mais escandaloso é que há na academia pseudoespecialistas em língua que endossam falsas etimologias porque militam a favor da agenda woke — e as universidades brasileiras estão repletas deles. Se um desses maus cientistas for convocado para testemunhar a favor de um “oprimido linguístico”, certamente despejará sobre o magistrado um amontoado de fake news identitaristas sob o argumento de autoridade, afinal, como estudioso do assunto, é ele que tem a última palavra.

O fato de que essa pregação mentirosa esteja fazendo a cabeça de autoridades dos três Poderes da República, da imprensa, de estudantes e do público incauto em geral é o que é verdadeiramente alarmante.

O “index” da AGU de Lula

Na Idade Média, durante o período da Inquisição, a Igreja Católica publicou o Index Librorum Prohibitorum, ou Índice dos Livros Proibidos, que listava as obras que os cristãos estavam proibidos de ler porque iam contra a fé católica e os dogmas da Igreja. Desde então, a palavra index passou a designar qualquer lista negra de publicações, palavras ou expressões a serem banidas pelas mais diversas razões.

Pois eis que agora a Advocacia-Geral da União (AGU), sob o comando do (talvez) futuro ministro do STF Jorge Messias (ou seria Bessias?), lançou o index das palavras e expressões que servidores do órgão estão proibidos de usar em suas comunicações oficiais por serem supostamente racistas, cabendo advertência, obrigatoriedade de aulas de “letramento racial” e, em último caso, processo judicial.

A lista inclui itens como mulato, denegrir, escravo, lista negra (que eu usei sem culpa mais acima) e até não sou tuas negas (fico a imaginar alguém da AGU usando essa expressão num ofício, despacho ou parecer). Seguem mais algumas:

  • a coisa tá preta (também é pouco provável que alguém use isso num documento oficial);
  • humor negro, a ser substituído por humor ácido ou macabro;
  • magia negra (as bruxas europeias da Idade Média sem dúvida eram racistas!);
  • mercado negro (os comerciantes venezianos do século XIII também eram racistas).

Portanto, se trabalho na AGU, não posso me referir aos escravos da Grécia ou Roma antigas ou aos escravos judeus no Egito, tantas vezes mencionados na Bíblia que o tal Messias, terrivelmente evangélico que é, tanto lê, senão como escravizados. Ou talvez melhor até como escravizados, escravizadas e escravizades.

Tampouco posso usar o termo mulato, que nada tem a ver com mula, já que vem do árabe muwallad, filho de branco e mouro. Nem denegrir, do latim denigrare, palavra já existente antes do contato dos romanos com os africanos. Nem criado-mudo, nem meia tigela, nem ovelha negra (como se sabe, as ovelhas são brancas, portanto quem criou essa expressão, em tempos imemoriais, para referir-se a um ponto totalmente fora da curva escolheu a cor preta não por razões raciais, mas porque é o antônimo de branco, a cor mais distante daquela no espectro luminoso; o efeito não seria o mesmo se a ovelha em questão fosse azul, rosa, verde…).

Além disso, substituir, por exemplo, lista negra por lista proibida, lista suja, etc., como sugere a normativa da AGU, inventa expressões que não existem nem em nossa língua nem em outras, em que termos como o inglês black list e dumb servant já estão consagrados há séculos, muito antes do advento da escravidão africana e do colonialismo.

Pois bem, se essas palavras e expressões (com exceção de não sou tuas negas, que, como disse, é improbabilíssima em documentos oficiais) nada têm de racistas, como o comprova a etimologia séria e científica, não a pseudoetimologia dos movimentos sociais identitaristas, qualquer sanção ao servidor que as usar será injusta e passível de questionamento judicial. E mais, se o infeliz servidor for, ele, alvo de processo jurídico, poderá convocar etimólogos sérios e de respeito como testemunhas de defesa. Eu mesmo me disponho a testemunhar em favor desses réus se for preciso. Como diz um princípio basilar do Direito, infelizmente nem sempre seguido pelo Judiciário brasileiro, “contra provas não há argumentos”. E a boa etimologia tem fartas provas de que essas listas negras — digo, afrodescendentes — de palavras e expressões “canceladas” não passam de panfletagem woke sem nenhuma base factual.

A pela, a pala, a bola

Você sabe por que o jogo de futebol de domingo no campinho de terra se chama pelada? Nada a ver com pelado, estado de quem está nu, palavra esta derivada de pele (isto é, a quem se tirou a pele ou que está com toda a pele à mostra). A pelada tem esse nome porque tradicionalmente se jogava com uma bola de meia: os garotos pobres envolviam várias meias umas nas outras até constituírem uma bola de tamanho razoável. Só que essa bola era macia e elástica como a pela. Mas o que é pela? Do latim pila, era a bola feita de tripa e recheada de crina (portanto, uma bola bem elástica) usada no jogo da pela, um antigo esporte praticado com raquete, bem semelhante ao tênis.

De pela saiu o diminutivo pelota, “bolinha”, designativo da bola de futebol (e de outros jogos) em espanhol e também de caroços que nascem na pele (por extensão, qualquer formação que lembre um caroço).

Mas, se o latim tinha a pila, o italiano tem a palla, isto é, a bola, vocábulo originário do antigo frâncico *balla, que também deu o francês balle, o inglês ball, o alemão Ball e o sueco boll. Esse termo radica no indo-europeu *bhel‑, “soprar”, que também deu o latim flare, “soprar, inflar”, e o inglês blow.

Já a nossa bola vem do latim bulla, “bolha”, dada a semelhança entre a bola e a bolha (veja a esse respeito o meu artigo Um bolo de significados). Não é curioso como palavras de diferentes origens convergiram na forma e no significado?

A espera, a expectativa e a esperança

Já tratei deste tema em outra ocasião, mas de vez em quando gosto de repisar certos assuntos.

Os substantivos espera, expectativa e esperança estão obviamente todos ligados ao verbo esperar: a espera de um ônibus ou de uma encomenda, a expectativa de ser promovido no emprego ou de que faça sol amanhã, a esperança de que um dia a corrupção acabe. O que diferencia os três é o grau de probabilidade de que a coisa esperada chegue. A espera pressupõe a quase certeza de que o fato ocorrerá: o ônibus passa todos os dias à mesma hora, portanto não haveria por que hoje não passar. Comprei umas bugigangas na Shein ou Shopee, e eles sempre entregam. Eu tenho feito um bom trabalho e meu chefe reconhece meu esforço, logo há boas chances de eu ser promovido. Já o fim da corrupção no Brasil…

O interessante é que outras línguas têm verbos diferentes para indicar a espera, a expectativa e a esperança. O francês tem attendre, s’attendre à e espérer. O inglês tem wait for, expect e hope. Enquanto isso, nosso anódino esperar conduz a certa ambiguidade: “Quem espera sempre alcança”. Espera o que exatamente?