Dos quatro tipos de professores pesquisadores

Em outro artigo, falei sobre a diferença que a língua inglesa faz entre as palavras teacher e professor. Apenas relembrando, teachers são professores de ensino básico, técnico e cursos livres, ao passo que professors são docentes de universidades, que, além de ensinar, fazem pesquisa, portanto são também e principalmente cientistas. É justamente devido a essa diferença que nem todo professor é pesquisador (na verdade, a maioria não é), mas quase todo pesquisador é também professor. Claro, pesquisadores que trabalham em institutos como o Butantan ou a Fiocruz não necessariamente dão aulas, mas, como a maioria dos cientistas está nas universidades e não em institutos de pesquisa (até porque estes são em bem menor número), é natural que eles dividam sua jornada de trabalho entre produzir e transmitir conhecimentos. Por isso mesmo, eles têm de desenvolver duas diferentes competências profissionais.

Mas, sendo essas competências bem diferentes entre si, é natural que nem todas as pessoas sejam aquinhoadas pela natureza com ambos os talentos. Daí decorre que há quatro tipos básicos de docentes universitários.

Em primeiro lugar, há aqueles que são grandes professores, donos de uma didática e de um cabedal de conhecimento incríveis, mas cuja produção científica é pífia ou, pelo menos, pouco relevante. Estes costumam ser a maior parte dos professores, ao menos nas grandes universidades.

Em segundo lugar, há aqueles (bem poucos) que são cientistas geniais, grandes produtores de saber e pensadores da realidade, mas que, na sala de aula, não se saem assim tão bem. Alguns desses gênios até têm certa preguiça de lecionar, já que sua verdadeira vocação é a ciência e não o magistério. Por isso, suas aulas são muitas vezes propositalmente displicentes.

O terceiro grupo (raríssimo) é o dos indivíduos que são ao mesmo tempo cientistas e intelectuais brilhantes e exímios educadores. Estes, aliás, costumam ser também grandes popularizadores do conhecimento científico, inspirando no público em geral a mesma paixão pela descoberta que eles próprios sentem.

Finalmente, há o grupo, infelizmente muito comum no Brasil, daqueles que não são bons nem na docência nem na pesquisa e estão em grandes universidades porque foram aprovados em concurso muito mais por razões políticas do que por mérito.

Vivi a experiência de ter na universidade professores de todos os tipos, exceto o terceiro. Já fui aluno de alguns luminares, mas também de vários medíocres. Alguns me fascinaram; de outros, nem me lembro direito. Alguns deles ficaram famosos, outros viveram na mais profunda obscuridade embora fossem bons professores e razoáveis pesquisadores. Muitos dedicaram sua vida predominantemente ao magistério e deixaram ternas lembranças em seus alunos, mas não ganharam projeção social. Outros fizeram fama e fortuna apesar de detestarmos suas aulas – ou pior, dormirmos nelas.

De todo modo, sou grato a todos eles, afinal me fizeram ser quem sou e chegar aonde cheguei. Alguns me mostraram com seu exemplo que tipo de profissional eu devia ser. Outros, também com seu exemplo, me mostraram o que eu jamais quero ser ou fazer.

A origem do nome do panetone

Semana passada, falei sobre a etimologia das palavras ligadas ao Natal e ao Ano Novo. Hoje vou falar sobre o panetone, essa guloseima indefectível nas mesas do Natal. Corre uma lenda, que vem até impressa em algumas embalagens de panetone, de que esse pão doce recheado de frutas cristalizadas (e hoje também de chocolate e outros ingredientes) teria sido criado na cidade de Milão, na Idade Média, por um confeiteiro chamado Tony, o qual teria dedicado seu invento à mulher amada. Daí o porquê do nome panetone: seria “o pão de Tony”.

Embora romântica, essa lenda não tem o menor fundamento. Primeiro, porque não há nenhuma evidência histórica que respalde essa versão. Segundo, porque é pouquíssimo provável que na Itália medieval houvesse alguém com o apelido de Tony. Trata-se da forma reduzida do nome inglês Anthony, e, como se sabe, a influência anglo-americana sobre o italiano só surgiu após a Segunda Guerra Mundial.

Na verdade, a palavra italiana panettone é aumentativo de panetto (pãozinho), e, portanto, nada tem a ver com um possível confeiteiro de nome Tony. O fato é que muitas vezes nos refugiamos nas lendas porque a realidade parece bem sem graça. A origem mítica do panetone, alimento símbolo do Natal, é, com certeza, mais sedutora ao nosso imaginário do que sua prosaica etimologia verdadeira. E, como os próprios italianos costumam dizer, “se non è vero, è bene trovato”: não é verdade, mas bem que poderia ser.

Feliz Ano Novo!

De onde surgiram as palavras que marcam as festas de fim de ano?

Semana passada, falei sobre a origem da palavra Natal. Mas faltou dizer que, enquanto o português denomina essa data com uma palavra de origem culta, tomada de empréstimo ao latim Natalis, outras línguas empregam termos hereditários, que sofreram ao longo dos séculos todo o processo da evolução fonética. É assim com o galego Nadal, em que o t intervocálico do latim se transmutou em d num fenômeno evolutivo bem conhecido. A mesma palavra latina deu o francês Noël, cuja mutação fonética foi ainda mais severa que em galego. Em espanhol, temos Navidad, do latim Nativitatem, a natividade de Jesus.

Nas línguas germânicas, as origens da palavra para Natal são diversas: em inglês, Christmas provém de Christ mass, a missa de Cristo; o alemão Weihnachten significa “noites sagradas” e refere-se às noites de inverno que já eram celebradas pelos antigos germanos antes do cristianismo, assim como o sueco Jul (e também o inglês Yule), festa nórdica pagã que depois assumiu o sentido cristão atual.

Nosso Papai Noel veio do francês Père Noël, literalmente o Pai Natal (por sinal, é assim que o bom velhinho é chamado em Portugal). Na Inglaterra, ele é o Father Christmas, expressão em tudo equivalente às portuguesas e à francesa. Já nos Estados Unidos, prevaleceu Santa Claus, corruptela do holandês Sinter Klaas ou Sinter Klaes (São Nicolau) devido à grande influência que os holandeses tiveram na colonização americana. Em alemão temos Weihnachtsmann, o homem do Natal.

Já que falamos em Papai Noel, é curioso que aqui no Brasil utilizemos o nome francês da data natalina enquanto os portugueses parecem mais nacionalistas a esse respeito. Igualmente, a palavra Réveillon é muito usada no Brasil e na França (claro, os franceses são os criadores do termo!). Em outros países, preferem-se outras denominações, como o inglês New Year’s Eve (Véspera do Ano Novo). O francês Réveillon vem do verbo réveiller (acordar, ficar acordado) e designava, originalmente, o jantar da noite de Natal; depois passou a referir-se à ceia da véspera do Ano Novo e, finalmente, à própria virada do ano.

Então feliz 2021 a todos! Que no novo ano tenhamos a cura da pandemia, mas principalmente a cura do egoísmo que leva pessoas a se aglomerar em festinhas e nações a comprar mais vacinas do que o necessário para vacinar toda a sua população.

A história da palavra “Natal”

Depois de amanhã é Natal, e parece que o fim de um ano nunca foi tão esperado quanto agora. Enfim, sobrevivemos, embora muitos não tenham tido a mesma sorte. E, já que chegamos até aqui, resolvi republicar o post que lancei no ano passado nesta mesma época. É o que segue.

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Que Natal tem a ver com nascimento, todos sabemos. No entanto, estamos tão acostumados a ver essa palavra associada ao nascimento de Jesus Cristo que a longa história desse termo acaba obscurecida. Por isso, vale a pena revisitá-la.

O latim natalis surgiu como adjetivo derivado do substantivo natus, “nascimento”, mediante o sufixo -alis. Portanto, significava “relativo ao nascimento”. Exemplos desse uso são as expressões natalis humus, “terra natal”, e natale solum, “solo natal”, ambas referentes à pátria (também chamada de natio, “nação”, do mesmo radical). Nesse mesmo sentido, temos também dies natalis, o dia do nascimento de alguém (por isso, o aniversário natalício, que aqui no Brasil reduzimos para aniversário, chama-se em Portugal natalício). Finalmente, natale astrum é o astro que preside o nascimento, portanto relacionado aos signos do zodíaco.

Aqui cabe mencionar que o substantivo natus deriva do radical do particípio natum, do verbo nascor, “nascer”, que por sua vez remonta à raiz indo-europeia *ĝenh1, cujo grau zero (isto é, sem a vogal) acrescido do sufixo incoativo -sk- deu *gnasco em latim arcaico e nascor no clássico. Do mesmo grau zero com redobro do radical saiu gigno, “gerar, parir”. Logo, nascor significava originalmente “ser gerado”. Da mesma raiz indo-europeia temos também o grego génesis, “criação, geração”, palavra de grande simbolismo.

Mas o adjetivo natalis passou a atuar também como substantivo comum, num processo chamado conversão (ou derivação imprópria). É que dies natalis foi reduzido a natalis por economia linguística (assim como o já citado “aniversário natalício” encolheu para “natalício”). E, nessa acepção, natalis era o dia do nascimento de uma pessoa, o próprio ato de nascer e ainda o ano da fundação de Roma.

Mas natalis ganharia ainda dois outros empregos pagãos antes de ser incorporado pelo cristianismo: como designativo do gênio ou deus que preside o nascimento de uma pessoa e a acompanha durante toda a vida (algo como o nosso anjo da guarda) e como nome próprio masculino (em português também temos pessoas chamadas Natal).

Mas foi na acepção de “nascimento” que Natalis se especializou como denominativo do nascimento de Jesus e, por conseguinte, da festa cristã que comemora esse evento. Tanto que jamais usamos tal substantivo fora desse contexto, para falar do nascimento de outras pessoas que não a figura central do cristianismo.

Dito isto, só me resta agora desejar votos de felicidades a todos os amigos leitores e seguidores do nosso blog e do nosso canal no YouTube que nos acompanharam ao longo de mais um ano, por sinal, um ano bem difícil. Feliz Natal!

Extremismos na língua e o “caminho do meio”

Como todos sabemos e sentimos, o Brasil atravessa uma excruciante polarização política entre extremos. Cada uma de seu lado, esquerda e direita se digladiam em defesa de suas ideologias enquanto a maioria silenciosa, adepta da moderação e do equilíbrio, permanece tal, silenciosa – ou melhor, silenciada pela grita histérica que se eleva das extremidades do espectro político.

Pois a mesmíssima coisa está ocorrendo neste momento no âmbito da língua. Temos de um lado uma esquerda radical, com sua neutralização de gênero, seu “todos, todas, todes e todxs”, sua defesa incondicional do “se deu pra intendê, tá tudo certo” e outras bandeirolas ideológicas; de outro, temos os guardiães da tradição, que veem a norma-padrão do idioma como entidade metafísica, sacrossanta, impoluta e inquestionável, e que advoga a normatização gramatical com base na tradição pré-científica que remonta à Grécia antiga e no uso da arte literária em lugar da ciência como parâmetro para essa normatização.

O grande “muso” da extrema esquerda, o super-herói defensor dos fracos e oprimidos da língua é Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, que, embora o negue, é o paladino do vale-tudo linguístico, o salvador das variedades estigmatizadas, vítimas do preconceito linguístico (conceito que ele mesmo criou), um sujeito que diz coisas como “o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado” ou “toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo”, ou ainda “a norma culta que se lasque, que se dane, que se esboroe! Saber falar o ‘bom português’ nunca permitiu a ascensão social de ninguém, ao contrário do que prega a propaganda enganosa da pequena, pequeníssima burguesia”.

No outro extremo, cujo pontífice é o finado Napoleão Mendes de Almeida, temos os gramáticos normativos tradicionalistas, cujo método de descrição gramatical remonta a Dionísio, o Trácio (séculos II-I a.C.) e sua Tekhné Grammatiké (“Arte Gramatical”), e cujo corpus de onde extraem os modelos de “língua exemplar” são as obras dos grandes literatos, especialmente os clássicos.

Para esses gramáticos puristas, a palavra de ordem é tradição; ou seja, devemos falar e escrever como nossos antepassados o fizeram e como o fazem os mais ilustres prosadores de nosso idioma, especialmente os ficcionistas, aqueles que levam a língua ao “estado mais puro de arte” e fazem malabarismos linguísticos como “fá-lo”, “fê-lo”, “fi-lo”, “pô-lo”, “pu-lo” ou mesmo “qué-lo” (outra variante seria “quere-o”), sem falar nas mesóclises do tipo “dar-lho-ás” e “dir-no-los-ia”.

Enquanto isso, os pobres mortais que apenas desejam – ou pior, têm por obrigação – redigir textos formais e para os quais a norma-padrão tem valor meramente operacional, isto é, como ferramenta de trabalho e não de criação artística, se veem diante de um emaranhado pouco lógico de regras e exceções, de definições francamente falhas porque não científicas (“sujeito é aquele de quem se declara algo” ou “é o autor da ação”; “os termos essenciais da oração são sujeito e predicado” – só que existem orações sem sujeito, e por aí vai).

Ou seja, para uma maioria “de centro”, tanto política quanto linguisticamente, nem tanto ao mar nem tanto à terra: nem a abolição total da norma-padrão e sua substituição pelo “cada um fala como pode e como qué” nem a idolatria de uma norma anacrônica, pedante mesmo, vista como sagrada.

O fato é que as línguas mudam com o tempo (a isso se chama evolução), e a norma-padrão também precisa ser atualizada periodicamente. Como instrumento de comunicação formal que deve ser, sobretudo, funcional, ela tem de ser estabelecida com base no conhecimento científico e não nos arroubos estéticos de escritores que, por mais prestigiados que sejam, também erram (José de Alencar, por exemplo, costumava separar sujeito e predicado por vírgula). Ela deve ter como norte a simplicidade, regularidade e racionalidade. Nesse sentido, gramáticos que abonam certas construções que tornam a regra mais complexa e criam exceções de difícil explicação apenas porque um grande literato as usou prestam um grande desserviço à língua e seus usuários.

Da mesma forma, linguistas “progressistas” que defendem a incorporação à norma de certos usos populares que irregularizam o que até então era regular apenas porque tais usos são isso mesmo, “populares” – e é preciso valorizar a fala do povo para ser um verdadeiro democrata, não é mesmo? – igualmente mais atrapalham do que ajudam.

A realidade é que nossa norma-padrão precisa, sim, ser atualizada, racionalizada e simplificada, da mesma maneira como o fizeram nos últimos cem anos outras línguas neolatinas, notadamente o espanhol e o italiano. Precisamos, sim, de gramáticas normativas que incorporem o método científico e substituam definições, categorias e terminologias ultrapassadas por outras, sustentadas por dados e modelos fornecidos pela ciência.

Mas também é fato que precisamos da norma-padrão, pois nenhuma língua de cultura existe sem ela, e é ela que garante a intercomunicação dos variados grupos que constituem a sociedade sem que haja mal-entendidos, seja em nível profissional, acadêmico ou mesmo prático, como num manual de instruções, por exemplo. É ela que nos dá acesso a direitos e à cidadania; é ela que permite ascensão social a quem não sabe jogar futebol nem cantar pagode; é ela que nos possibilita ler e entender o que lemos; é ela que nos permite redigir e ser compreendidos.

Por via de consequência, a posição “centrista”, de bom senso, livre de extremismos demagógicos, é a que defende ambos os movimentos: de um lado, através da educação, a aproximação dos falantes à gramática normativa; de outro, por meio da reforma desta, a aproximação da gramática aos falantes. É pena que, nesse ambiente radicalizado em que vivemos, a voz da sensatez e da razoabilidade não esteja sendo ouvida.

Por favor, curta esta postagem!

Em tempos de Facebook, a onda é “curtir”. Seja foto, vídeo, piada, frase de efeito, convocação para passeata ou mesmo as informações mais inúteis (basta uma celebridade postar na web que adora sushi e pronto: milhares de “curtidas” dos fãs). Essa ferramenta aparentemente tola das redes sociais se tornou tão crucial às pessoas conectadas que, para muitas delas, ser curtível, isto é, receber muitos likes, é questão de vida ou morte. E já que ser curtido tornou-se objetivo de vida, não me admira que os profissionais de marketing tenham criado uma espécie de “Índice de Curtibilidade” que afere o grau de popularidade das nossas postagens – com possibilidade de ganharmos algum dinheiro em verbas de publicidade.

O curioso é que a palavra inglesa para “curtir” – em seu uso virtual, bem entendido – é o insípido like, literalmente “gostar”. Se pensarmos que “curtir”, no brasileiríssimo sentido de “aproveitar, adorar, deliciar-se”, se diz divertirse em espanhol, have fun ou have a good time em inglês e avoir le bon temps em francês, veremos que essa palavra, originalmente negativa (afinal curtir é deixar a carne ou a pele de um animal ao sol durante dias para que fique bem ressequida), tem conotações em português que escapam aos outros idiomas. “Curtir de montão” é bem diferente de “gostar muito” ou “aproveitar intensamente”. E curtir uma pessoa, é apenas gostar dela? Ou é sentir um prazer único em sua presença, rir com suas tiradas, admirar sua perspicácia? Portanto, ao traduzir like como “curtir”, o Facebook brasileiro conseguiu ser mais criativo que o original americano.

E tudo começou com a expressão “curtir uma dor” (ou “curtir uma fossa”, como se dizia lá pelos anos setenta), que veio substituir o tradicional “carpir a dor”. Por exemplo, o clássico do cancioneiro nacional Lábios que beijei, de J. Cascata e Leonel Azevedo, imortalizado na voz de Orlando Silva, diz a certa altura: “Passo os dias soluçando com meu pinho / Carpindo a minha dor, sozinho / Sem esperanças de vê-la jamais”. É o mesmo sentido do lema latino carpe diem (curta o dia de hoje). Mas por que curtir a dor? Talvez a ideia seja a de sofrer por muito tempo (às vezes meses ou anos) como o couro curtindo ao sol ao longo de dias. E assim como o couro seca e se torna rígido e impermeável, o coração de quem sofre se torna insensível, indiferente à dor.

Seja como for, nos dias de hoje, o cantor das multidões não carpiria, mas curtiria a sua dor. E não com seu pinho, isto é, seu violão, mas talvez com uma guitarra elétrica.

O particípio presente em português

Como se sabe, são três as formas nominais do verbo: o infinitivo, o gerúndio e o particípio, este dividido em particípio presente, de sentido ativo (amante, vivente, seguinte), e particípio passado, ou pretérito, de sentido passivo (amado, vivido, seguido). No entanto, o particípio presente não costuma ser considerado uma forma verbal legítima em português. Por quê?

Primeiramente, lembremos que as formas nominais do verbo servem para formar tempos compostos (vou fazer, estou fazendo, tenho feito). E não há nenhum tempo composto formado com particípio presente (algo como estou fazente). O próprio exemplo esdrúxulo que acabo de dar demonstra que a maioria dos verbos em português não tem particípio presente (alguns poetas, como Drummond, brincam com isso inventando particípios que não existem: “ser pensante, sentinte e solidário”). Tampouco há orações reduzidas de particípio presente em nossa língua.

Em muitos idiomas, o particípio presente é uma forma verbal genuína. As línguas germânicas, que, com exceção do inglês, não têm gerúndio, usam em seu lugar esse particípio. Em italiano e alemão, é possível e até corriqueiro dizer coisas como “todos os funcionários trabalhantes no setor de produção terão férias coletivas”. Em português, só se pode dizer “todos os funcionários que trabalham no setor” (mesmo a construção gerundiva “todos os funcionários trabalhando no setor” é condenada pela maioria dos gramáticos).

Outro indício de que o particípio presente não é uma forma verbal legítima do português é que muitos desses particípios têm etimologia diferente da do verbo a que correspondem (em geral, são empréstimos cultos, enquanto os verbos são palavras vernáculas). Vejamos alguns exemplos: ver/vidente, carecer/carente, sentir/senciente, cair/cadente, intervir/interveniente, etc. Se tais particípios derivassem de fato dos verbos, teríamos vente, carecente, sentinte, cainte, intervinte, etc.

Portanto, o particípio presente é, na verdade, um adjetivo formado a partir do verbo mediante o sufixo ‑nte, ou mesmo importado do latim, que, como adjetivo, pertence à classe dos nomes e não à dos verbos.

Portanto, nossa língua é bem pobre em matéria de tipos de particípio (só temos o particípio passado passivo), exceto pelo fato de que alguns verbos admitem dois tipos de particípio, o longo e o breve (aceitado/aceito, pagado/pago, etc.).

Ao contrário, línguas como o grego têm particípios ativos e passivos no presente, pretérito e futuro. O esperanto, idioma artificial criado para ser prático e lógico, segue esse padrão. Na língua inventada por Ludwig Zamenhof, a vogal temática -a- indica o presente, -i- o pretérito, e -o- o futuro. O sufixo -nt- representa a voz ativa, e -t- a voz passiva. Temos, então, para o verbo ami, “amar”:

  • amanta = que ama, que está amando;
  • aminta = que amou ou amava;
  • amonta = que amará;
  • amata = que é ou está sendo amado;
  • amita = que foi ou era amado;
  • amota = que será amado.

Em português, temos alguns adjetivos ou substantivos com sentido de particípio presente ativo (cambiante, reluzente, constituinte) e uns poucos com sentido futuro ativo (vindouro, duradouro, imorredouro) ou passivo (formando, reeducando). Por isso, usamos por vezes um particípio pretérito passivo em função não pretérita ou não passiva. Por exemplo, quando empregamos necessitado com significado de “pobre, carente”, note que o sentido é presente e ativo: a necessidade de ajuda existe hoje, e a pessoa em questão necessita, não é necessitada por alguém. Portanto, o indivíduo carente deveria ser necessitante e não necessitado.

Do mesmo modo, quando digo que um filme é divertido, não estou querendo dizer que ele foi divertido por mim (pretérito passivo) e sim que ele me diverte (presente ativo). Em italiano se diz no mesmo caso que o filme é divertente.

Ainda segundo essa lógica, o indivíduo malcheiroso não deveria ser fedido, mas fedente, o intrometido deveria ser abusante e não abusado, e assim por diante.

Essa ambiguidade no uso dos particípios em português é o que enseja trocadilhos como o do sujeito que, recusando o convite para almoçar, responde: “Obrigado, mas já estou comido”.

O nascimento de uma língua

Toda língua evolui. Este é um dos mantras da linguística desde os seus primórdios, ainda em princípios do século XIX. Na verdade, desde que a espécie humana começou a falar, nunca houve solução de continuidade na história da linguagem, portanto toda língua é a continuação histórica de algum sistema linguístico precedente, e um sistema se transforma em outro lenta e imperceptivelmente, num lavor de séculos ou milênios. Sendo assim, pode a qualquer momento surgir uma nova língua? É possível que uma comunidade humana invente um idioma sincronicamente, sem tê-lo herdado de seus antepassados?

Pois foi descoberto alguns anos atrás em Lajamanu, um pequeno vilarejo de 700 pessoas no norte da Austrália, um novo idioma, chamado warlpiri rampaku, ou warlpiri rápido, língua falada exclusivamente por menores de 35 anos.

A pesquisadora Carmel O’Shannessy, da Universidade de Michigan, que descobriu o idioma, afirma tratar-se realmente de um novo sistema linguístico, pois, embora majoritariamente composto por palavras e estruturas gramaticais de outros idiomas, esses elementos se combinam de modo sistemático e inovador, como numa língua natural que fosse produto da evolução.

Os habitantes de Lajamanu falam warlpiri (língua aborígine australiana), inglês e crioulo (mistura de warlpiri e inglês), mas, curiosamente, metade da população fala o warlpiri rápido, alguns como primeiro idioma.

Essa nova língua está sendo comparada à linguagem usada pelos adolescentes, com seus termos próprios, incompreensíveis aos adultos. Mas com a diferença de que, ao contrário do que acontece com as gírias infanto-juvenis, que são abandonadas à medida que os jovens crescem, neste caso os falantes continuam utilizando o mesmo código depois de adultos, e a próxima geração o aprende desde o nascimento.

Segundo O’Shannessy, o surgimento dessa língua deve ter-se dado porque os pais, sendo bilíngues, misturavam os idiomas ao falar com os filhos.

Em sua opinião, a aparição de novas línguas é mais comum do que se imagina, embora o fato nem sempre seja detectado por linguistas. Para ela, a ocorrência do fenômeno é mais provável em comunidades em que haja muitas pessoas multilíngues, especialmente jovens.

Apesar de recém-nascido em termos da escala evolutiva das línguas, o warlpiri rápido apresenta grande vitalidade. Como língua minoritária dentro da Austrália, não é possível saber por quanto tempo sobreviverá, mas o simples fato de estar sendo falada, inclusive como língua materna, por um número considerável de pessoas atesta que línguas podem, sim, ser criadas sincronicamente, e não como meros experimentos de laboratório, como é o caso dos idiomas artificiais, mas como sistemas efetivos de comunicação cotidiana.

A cartilha antirracista dos juízes de Pernambuco

Já falei mais de uma vez aqui neste espaço sobre esse assunto, mas parece que certos grupos não compreendem – ou melhor, não querem compreender, pois há razões políticas e ideológicas envolvidas –, e por isso sou obrigado a voltar ao tema, mesmo sabendo que, mais uma vez, de nada adiantará. Em todo caso, vamos lá.

A Associação dos Magistrados de Pernambuco (Amape) elaborou recentemente uma cartilha de 13 páginas intitulada Racismo nas Palavras, a qual sugere a substituição de dez expressões ou palavras tidas como “racistas”. Em vez de denegrir, a cartilha sugere difamar; no lugar de mercado negro, propõe mercado ilegal; em substituição a lista negra, teríamos lista de restrições, e ainda a coisa está preta daria lugar a a situação está difícil, dentre outras sugestões de mudança.

Essa cartilha provocou a reação de 34 magistrados filiados à Associação, que assinaram manifesto contra a introdução de pautas ideológicas na categoria profissional, o que poderia, segundo eles, levar a cisões internas.

Diz a certa altura o manifesto:

Por fim apresentamos esse MANIFESTO em repúdio à produção de cursos, lives, webinários, panfletos, cartilhas e similares que nos ponham em apoio a correntes ideológicas e provoque cisões internas, criação de subgrupos de juízes.

A juíza Andrea Rose Borges Cartaxo, uma das subscritoras do manifesto, afirma que a crítica não se dirige às causas de minorias. Segundo ela, “as causas são legítimas. O motivo do manifesto é que o estatuto da associação está sendo ferido”. E acrescenta: “A Justiça precisa ser cega, não abraçar causas ideológicas, e essa causa é de uma ideologia”.

Ou seja, segundo esses juízes “dissidentes” (a maioria dos associados concordou com a cartilha e a realização de cursos sobre o tema do racismo), o problema não é o combate de expressões supostamente racistas e sim o desvio de função da Associação.

Já para mim, o pecado da cartilha é outro: como já havia demonstrado em artigo anterior, o erro dessas cartilhas politicamente corretas é atribuir conotação racista a expressões que nada têm de discriminatórias à raça negra pelo simples fato de que elas contêm as palavras preto ou negro ou fazem alusão à cor preta, um matiz do espectro cromático como qualquer outro.

Ou seja, mais uma vez, os movimentos sociais e seus defensores partem de premissas falsas para sustentar suas bandeiras. Mas, se essas bandeiras são justas – e eu particularmente acho que são –, por que contaminá-las e enfraquecê-las com falsos argumentos? Por que não se ater a fatos reais (exemplos de racismo existem – infelizmente – aos montes em nosso país) em vez de criar inimigos imaginários?

Senão, vejamos: denegrir provém do latim denigrare, que significava originalmente “enegrecer, tingir de preto” e posteriormente “difamar, tornar negra a reputação de alguém”. Ora, esse verbo foi cunhado pelos romanos dois milênios antes da escravidão de africanos por europeus, portanto refere-se às conotações sombrias que a cor preta suscita, sem qualquer relação com tom de pele, mas sim com escuridão, trevas, morte, etc.

Eu poderia explicar a origem não preconceituosa das demais palavras e expressões proscritas pela dita cartilha, mas, como disse, já fiz isso em outro artigo e convido os leitores a lê-lo (basta clicar no link acima).

Ou seja, além do alegado gasto de recursos da Amape com empreendimento alheio à sua finalidade, os juízes que subscreveram o manifesto poderiam também ter questionado a falsidade dos argumentos apresentados na malsinada cartilha a respeito do cunho racista de certas palavras e expressões.

Pelo modo como a coisa anda, daqui a um tempo o próprio uso das palavras preto e negro será proibido, mesmo que você esteja se referindo meramente a um lápis de cor ou ao tom de um vestido.

O politicamente correto, a ideologia da neutralização de gênero e a Constituição alemã

O politicamente correto e seu mais novo rebento, a ideologia da neutralização de gênero, têm dado muito o que falar – mal, principalmente. Não à toa, tal a bizarrice dessa proposta, que, apesar de bem-intencionada, promete não chegar a lugar algum, pois suas bases lógicas, científicas e políticas são frágeis como bolha de sabão em espinheiro.

O problema é que a vida imita a arte, e vice-versa, e aquilo que achamos absurdo a ponto de virar motivo de piada de repente é levado a sério por gente insuspeita. Pois ontem o humorista português Ricardo Araújo Pereira publicou uma crônica satírica cuja leitura recomendo vivamente às minhas leitoras e aos meus leitores e que deveria fazer corarem as defensoras e os defensores do tal gênero neutro. Só que elas e eles não coram. Pelo contrário, elas e eles levam muito a sério uma ideia que não tem a menor possibilidade de prosperar. Tanto que elas e eles chegam a redigir documentos oficiais como a Carta Magna de um país de respeito nessa linguagem que nenhum ser humano ou ser humana em estado normal consegue falar.

Para verem que não estou mentindo, transcrevo abaixo a tradução para o português de um pequeno trecho da Constituição da República Federal da Alemanha, em sua redação mais recente, após a reunificação.

  • O Governo Federal: O Governo Federal é composto pela Chanceler Federal ou Chanceler Federal e pelas Ministras Federais ou Ministros Federais. Juntos, elas ou eles compõem o Gabinete.
  • O papel da Chanceler Federal ou do Chanceler Federal: A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tem uma posição de destaque no governo. A Chanceler Federal ou  o Chanceler decide quem se torna membro do governo, pois só ela ou ele tem o direito de formar um Gabinete. A Chefe do Governo ou o Chefe do Governo escolhe as Ministras ou os Ministros e faz uma proposta vinculativa para a sua nomeação ou exoneração do Presidente Federal. Ela ou ele também decide sobre o número de Ministras ou de Ministros e define suas áreas de responsabilidade. A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal determina os pilares da política governamental (Princípio do Chanceler).
  • O papel da Ministra ou do Ministro: Embora a Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tenha o direito de emitir instruções às Ministras ou aos Ministros, a Constituição também enfatiza que as Ministras Federais ou os Ministros Federais administram sua área de responsabilidade de forma independente e sob sua própria responsabilidade dentro do quadro político definido (Princípio Departamental).

Pois é, minhas amigas, meus amigos e mees amigues, cabe a todas, todos e todes vocês julgar se esse negócio de linguagem neutra de gênero faz algum sentido ou não – ou, como se diz lá em Minas: Tem base esse trem?