Palavras que inexplicavelmente sofreram evolução irregular em português

Quem estuda a formação histórica da língua portuguesa nos cursos de Letras (eu estudei isso ainda no ensino médio, que então se chamava segundo grau ou colegial) aprende que as consoantes surdas intervocálicas do latim se tornam sonoras em português e que as sonoras do latim desaparecem na nossa língua, com exceção do b, que vira v, e do m, que se mantém. (Surdas são as consoantes que não fazem vibrar as cordas vocais, como /p/, /t/, /k/, /f/ e /s/; sonoras são as que fazem vibrar, como /b/, /d/, /g/, /v/, /z/, /l/, /m/, /n/ e /r/.)

Assim, o latim crudus deu primeiramente cruu e depois cru, gelare deu gear, granum deu grão, lana passou a lãa e então a , persona evoluiu para pessõa e a seguir para pessoa.

No entanto — e isso é algo que intriga os historiadores da língua —, algumas palavras não sofreram esse processo, tendo mantido intactas consoantes sonoras intervocálicas que deveriam ter caído e que, por sinal, caíram em línguas irmãs do português. Foi assim que o latim valere deveria ter dado *vaer, mas deu valer. Do mesmo modo, pilus daria *peo e depois *peio, mas deu pelo; minus e minor resultaram em menos e menor (há indícios de que houve na Idade Média a forma mẽos, que teria evoluído para *meios, gerando confusão com a já existente palavra meios, do latim medios, o que explicaria o empréstimo da forma espanhola menos — em espanhol, o n entre vogais não caía).

Igualmente, o g se conservou em pago, pagão (habitante do pago), praga, chaga, estragar, negar, regar, sugar, fugir, fugidio, frigir e negro, respectivamente do latim pagus, paganus, plaga, *stragare, negare, rigare, sugare, fugere, fugitivus, frigere e niger. Nesse ponto, o espanhol também foi conservador em certas palavras: o latim plaga, paganus, negare, niger, gradus, nodus, nudus e nidus deram respectivamente llaga, pagano, negar, negro, grado, nudo, desnudo e nido. Nesses quatro últimos casos, o português eliminou a consoante: grau, , nu, ninho (< nĩo).

Algumas explicações têm sido aventadas para a não ocorrência da síncope (queda) de certas consoantes. Nos casos de pagão, praga e chaga, os falantes teriam evitado um encontro aa desagradável de pronunciar: *paão, *praa e *chaa, que naturalmente evoluiriam para pão, prá e chá. Em outros casos, também a possível convergência formal com outras palavras já existentes, gerando homonímia, teria sido a causa de os falantes pronunciarem essas palavras com mais cuidado, evitando o emudecimento da consoante, ou mesmo de terem reintroduzido na língua as formas latinas ou introduzido as espanholas depois que a homonímia já havia ocorrido — e causado confusão. Mas há ainda muitos casos sem uma explicação plausível, o que dá ensejo a muitas futuras pesquisas.

7 comentários sobre “Palavras que inexplicavelmente sofreram evolução irregular em português

  1. Por que algumas palavras do português desobedeceram às leis históricas da língua e conservaram consoantes que deveriam ter desaparecido — e ninguém consegue explicar plenamente por quê?

  2. Um exemplo interessante de evolução irregular é o nome JESUS, que, creio eu, deveria ser em português JESO, a exemplo de MARCELO, FÁBIO, FLÁVIO, JÚLIO, TÚLIO e outros nomes que nos vieram do latim. DEUS talvez se enquadre também entre tais exceções.

    1. Só que esses casos são explicáveis por serem nomes sagrados, cuja pronúncia era sempre muito cuidada e ocorria basicamente num ambiente altamente monitorado, que era a igreja. São as palavras chamadas semivulgares.

  3. Prof. Aldo, esse é um assunto que me interessa. Já não me lembro de nada. Infelizmente, o prof. responsável por essa matéria na época de faculdade adoeceu. Entrou outro em seu lugar que não tinha nem de longe o conhecimento do primeiro. Tinha pouquíssima experiência também. Essas informações eu encontro na Gramática Histórica, do Coutinho? Há livros mais modernos, talvez com uma didática melhor, que expliquem o passo a passo da evolução das palavras do latim ao português?

  4. Patrick, os livros que melhor explicam esses processos são “Do latim ao português”, de Edwin B. Williams”, e “Elementos de filologia românica”, de Bruno F. Bassetto, mas a “Gramática histórica”, de M. Said Ali, também é ótima.

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