De onde vem o sufixo “-alha”?

Olá, Professor! Gostaria de saber de onde vem o sufixo de palavras como “gentalha”, “parentalha” etc.
Muito obrigado.
Wilberley Araújo Gomes

O português tem muitas palavras terminadas em -alha, como as citadas gentalha e parentalha, e também canalha, migalha, muralha, mortalha… Também tem palavras terminadas em -ália, como genitália e parafernália, por exemplo. Ambos os sufixos provêm do latim -alia, plural neutro de ‑alis, sufixo que em português forma adjetivos como nacional, central, cultural, etc. A diferença é que -alha nos chegou por herança latina ou empréstimo de outra língua românica, enquanto -ália é forma culta, vinda do latim por empréstimo.

O sentido latino desse sufixo era plural e coletivo. Assim, se genitale era a redução por elipse da expressão genitale organum, “órgão genital”, o plural genitalia significava “os genitais” (novamente subentendendo “órgãos”). Igualmente, Saturnalia eram as Saturnais, festas em honra do deus Saturno (redução de Saturnalia festa, plural de Saturnale festum, “festa saturnal”). Como a festa durava vários dias, era natural que se usasse sua denominação no plural. E paraphernalia eram os pertences pessoais que a noiva levava para seu novo lar após o casamento. Muitas dessas palavras passaram ao português em sua forma erudita, introduzidas por literatos, como genitália e parafernália. Outras herdamos diretamente do latim e, nesse caso, houve evolução fonética transformando o l seguido de i na consoante palatal lh. Foi assim que o latim Parentalia, “festa anual em homenagem aos parentes mortos” (plural neutro de parentalis, derivado de parentes, “antepassados, parentes”) resultou no português parentalha, com o sentido de “reunião de parentes, conjunto de todos os parentes”. A partir daí, o sufixo -alha se tornou produtivo na formação de coletivos, especialmente depreciativos, como gentalha (reunião de gente baixa, populacho, ralé). Aliás, canalha, que nos chegou do italiano canaglia (o sufixo italiano -aglia tem a mesma origem e significados que o português -alha) também significa “ralé, populacho, escória”, portanto tem sentido coletivo, e posteriormente passou a designar também o membro dessa classe. E como a tradição costuma associar às pessoas de baixa extração social os piores defeitos, daí para canalha passar a significar “calhorda, patife” foi um pulinho. Da mesma forma, migalha é um diminutivo um tanto quanto depreciativo de miga, que já é por si só qualquer coisa insignificante.

O sufixo culto -ália se presta à formação de nomes designativos de reuniões de pessoas, como o movimento musical da Tropicália (reunião de músicos de um país tropical) ou a Carnavália, feira de negócios relacionados ao Carnaval (e também título de uma canção dos Tribalistas).

Mas atenção: nem toda palavra portuguesa terminada em -alha ou -ália possui esse sufixo. Palha vem do latim palea, tralha vem de tragula, fornalha de fornacula, navalha de novacula, e assim por diante.

“Impeachment” é o mesmo que impedimento?

Nestes dias em que, diante de todas as ações e omissões de Bolsonaro que representam o contrário de como um governante deveria agir, já há mais de 60 pedidos de impeachment do Presidente da República sobre a mesa de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, alguns jornalistas têm empregado o termo vernáculo “impedimento” em substituição ao anglicismo impeachment, o que faz ressurgir a dúvida: impeachment e impedimento são a mesma coisa? Em outras palavras, é lícito traduzir o termo inglês pelo português? Mais ainda, é aconselhável fazer isso?

O impeachment é a figura jurídica surgida no mundo anglo-saxônico que permite ao parlamento cassar o mandato do chefe do Executivo diante de acusações comprovadas de improbidade no exercício do cargo. O substantivo inglês impeachment, assim como o verbo impeach, provêm do antigo francês empêcher, “impedir”, e empêchement, “impedimento”, por sua vez originários do baixo latim impedicare, derivado de pedica, “ferros que se prendem aos pés do prisioneiro para impedir seu movimento”. Daí talvez a tendência de traduzir impeachment como “impedimento”. No entanto, o próprio inglês distingue impeach, “fazer acusações contra, acusar de improbidade no exercício de mandato”, de impede, “impedir, obstruir, impossibilitar”. E a Constituição brasileira prevê o impedimento, temporário ou permanente, de um mandatário como justificativa para que seu suplente ocupe o cargo. Ou seja, uma doença ou viagem ao Exterior são motivos de impedimento do presidente, quando então o vice assume o posto. Esses impedimentos por razões corriqueiras nada têm a ver com o impeachment, que só se aplica em caso de acusação grave, que desautorize moralmente o presidente de permanecer no cargo. Nesse sentido, seria melhor traduzir impeachment por “cassação” do que por “impedimento”.

Logo, a tradução de impeachment por “impedimento” é inadequada, embora favorecida por uma certa semelhança sonora e parentesco etimológico. Evidentemente, o presidente cassado por impeachment fica definitivamente impedido de exercer seu mandato, mas, se o impeachment é um caso particular de impedimento, a recíproca não é verdadeira: nem todo impedimento se dá por impeachment.

A origem da palavra “feriado”

Na tentativa desesperada de frear a disseminação da covid-19, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, antecipou para o período de 26 de março a 4 de abril diversos feriados deste e do próximo ano. Alguns outros prefeitos estão fazendo ou pretendem fazer o mesmo. Ou seja, teremos um feriadão prolongado – e bem prolongado –, mas nada de viajar à praia ou ao campo nem muito menos fazer festas, hein!

Por falar em feriado e festa, republico aqui uma postagem de tempos atrás em que eu explicava a origem dessas palavras.

Primeiramente, por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, e, no caso presente, baixar os índices de contágio, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. “Feriado” deriva de “féria”, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações “segunda-feira”, “terça-feira”, etc., em que “feira”, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra “férias” seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de “féria”, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra “féria”, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra “feira” vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, “feira” passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras “teologia” e “ateu”, dentre outras.

Portanto, “feira”, “féria”, “férias”, “feriado”, festa”, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, fiquem em casa no feriadão e não façam festa para que a sua vida e a dos que vocês amam não tenham um final nefasto.

A graça da palavra “graça”

O que há de comum entre as palavras graça, grato, gratidão, agradecer, agradar, desgraça, desgraçado, engraçado, grátis, gratificar, congratular, e destas com favor, mercê e obrigado? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical graç‑, grat‑ ou grad‑, que remete à raiz latina grat‑, de gratus (grato, agradecido). Portanto, o latim gratia, qualidade de gratus, e que deu o nosso graça, era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra favor, da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário. (Será que hoje essa reciprocidade ainda existe?) E assim temos a explicação de por que dizemos “obrigado” ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, “de graça” ou “grátis”. Por isso, em espanhol se diz gracias, em italiano grazie e em francês merci (que quer dizer “mercê”, ou seja, “favor”) em lugar do nosso obrigado. Por isso também, a Virgem Maria é “cheia de graça”, de generosidade. E a exclamação “Graças a Deus!” é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, agradar significa “tornar grato, receptivo, simpático”. E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, “engraçado”. Daí que graça também passou a significar “alegria, jovialidade” (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, “hilaridade, comédia”. Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o – financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça. Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um desgraçado. Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas “infeliz”, assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Finalmente, favor, que não tem relação etimológica com graça, mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, favorito, que quer dizer “favorecido”. Assim, quando dizemos que num concurso público houve favorecimento a um dos candidatos, o que estamos dizendo é que o vencedor era favorito desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país.

As muitas faces (linguísticas) da mulher

No Dia Internacional da Mulher, vale a pena mergulharmos nos significados primitivos – isto é, na etimologia – da palavra “mulher” em várias línguas.

O português mulher, assim como o espanhol mujer, provém do latim mulier, “mulher em geral”, mas, sobretudo “mulher casada, esposa” (como no italiano moglie, “esposa”), o que significa que mulher de verdade é a casada, o que faz sentido numa sociedade como a romana (e por séculos também a nossa) em que o destino da mulher jovem e virgem (virgo em latim) era casar-se; a mulher adulta que não fosse casada era alvo de desprezo, pois ou era prostituta ou solteirona (e, neste último caso, nas sociedades católicas ia para o convento).

O francês femme remonta ao latim fēmina, “fêmea”, que se opunha a mās, “macho”. Portanto, a mulher era vista como a fêmea do homem (e não o homem como o macho da mulher), revelando uma visão androcêntrica – ou falocêntrica, como querem as feministas – do mundo; numa palavra, uma visão machista.

Como curiosidade, fēmina remete à raiz latina fē-, que também aparece em fecundar e significa “parir”. Ou seja, a qualidade distintiva da fêmea em geral e da mulher em particular é o dom de dar à luz, de procriar.

Em inglês, woman também remete à ideia de fêmea, já que provém de wīfman, que no inglês antigo era a composição de wīf, “fêmea” (que deu o inglês moderno wife, “esposa”), e man, “homem”. Portanto, wīfman era a fêmea do homem.

O italiano donna provém do latim domina, “senhora, mulher casada, dona da casa” (e, posteriormente, “dona de casa”), e tem, portanto, a mesma etimologia que o português dona. Logo, a mulher confunde-se com a esposa do dominus (“dono da casa, chefe da família”).

A mesma visão de mundo reflete-se no alemão Frau, igualmente “mulher” e “senhora”. A palavra original para “mulher”, Weib (cognata do inglês wife), vem caindo em desuso (cerca de 8.250.000 ocorrências no Google contra cerca de 251.000.000 de Frau).

Uma observação curiosa: em alemão, Frau é palavra feminina, enquanto Weib é neutra. É errado associar gênero gramatical com sexo biológico, mas esse dado não deixa de chamar a atenção.

Nas línguas escandinavas, temos kvinna (sueco), kvinne (norueguês) e kvinde (dinamarquês), todas cognatas do inglês queen, “rainha”. Não é que os escandinavos considerem toda mulher como uma rainha (o que até seria justo): na verdade, o étimo de todos esses termos queria dizer apenas “mulher”; o inglês é que especializou o termo como “a esposa do rei”.

Por sinal, a raiz indo-europeia de queen, kvinna, etc., é a mesma do grego gyné, “mulher”, que aparece em ginecologia, por exemplo.

Qualquer que seja a etimologia do vocábulo, seja “mulher”, “fêmea”, “senhora”, “rainha”, meus parabéns a todas vocês.

O que significa “déficit” e “superávit”?

Volta e meia nos deparamos nos noticiários com expressões como “déficit fiscal” ou “superávit primário”, dentre outros termos do economês. Mas o que significam essas expressões?

“Déficit” vem do latim deficit, terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo deficere, resultante de de- + facere, que significa “faltar”. Portanto, deficit quer dizer “falta, está faltando”.

Já “superávit” veio do latim superavit, terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo superare, que deu em português “superar” por via culta e “sobrar” por herança direta do latim. Portanto, superavit significa “sobrou”.

Esses termos nasceram com os antigos comerciantes, que, ao fechar o balanço diário de seus negócios, anotavam superavit no livro contábil quando sobrava dinheiro; quando terminavam o dia no prejuízo, escreviam deficit.

Essas palavras passaram ao uso dos contabilistas e, em seguida, dos economistas como termos técnicos, por isso foram mantidos em latim até hoje. O português apenas acrescentou o acento agudo para aportuguesar a grafia.

Uma curiosidade: em Portugal, “déficit” se diz “défice”, o que é um aportuguesamento um pouco mais avançado.

Os impasses da etimologia: o caso de “fidalgo”

Um dos grandes entraves à pesquisa etimológica de cunho científico é a larga tradição que temos no exercício de uma etimologia “achista”, feita por gramáticos e dicionaristas que pouco ou nada sabem da verdadeira ciência etimológica. Esses autores costumam dar explicações simplistas, remontando todas as palavras ao latim, não importa se foram herdadas ou nos chegaram por via culta, não importa se vieram diretamente do latim ou por intermédio de outra língua. Além disso, substituem frequentemente a etimologia propriamente dita pela decomposição morfológica da palavra, como se todos os vocábulos portugueses tivessem nascido aqui mesmo, no português, por composição ou derivação de outras palavras igualmente portuguesas ou, no máximo, a partir de radicais greco-latinos.

Um exemplo desse desatino etimológico é a palavra “fidalgo”. Basta consultar qualquer dicionário de português que traga informações etimológicas e lá está: “fidalgo”, contração de “filho de algo”. Essa explicação aparece, por exemplo, em Antenor Nascentes (p. 255). Isso nos faz crer que em algum momento da história do português, a expressão “filho de algo” sofreu sucessivas síncopes, nessa sequência: filho de algo > filho d’algo > filh’ d’algo > fi’ d’algo > fidalgo. Tudo parece muito lógico à luz da própria história fonética do português, cheia de síncopes de vogais e consoantes. (Síncope é o desaparecimento de um fonema em meio de palavra.) Além disso, “algo” significava “riqueza” no português medieval, o que parece fazer de “filho d’algo” uma expressão tipicamente portuguesa.

Só que há um complicador nessa história: o espanhol registra hijo dalgo no poema épico El Cid, do século XI, anterior portanto aos primeiros registros em português. E o dicionário etimológico espanhol Corominas, um dos mais completos do mundo, registra fidalgus num documento de cerca de 1197, o Fuero de Castroverde (p. 178).

Será então que o português e o espanhol cunharam ambos a mesma expressão “filho de algo” (isto é, filho de família rica e nobre) independentemente um do outro? E, mais surpreendente ainda, ambos sincoparam e aglutinaram suas respectivas expressões, chegando aos resultados idênticos fidalgo e hidalgo? Qualquer pessoa medianamente inteligente veria que tal explicação é inverossímil demais para se sustentar.

Na verdade, fidalgo não vem de filho d’algo, mas sim do espanhol hidalgo. Ou seja, foi em espanhol que a locução hijo de algo surgiu (o próprio significado de algo como “riqueza, nobreza” nasceu no espanhol e foi importado pelo português, o que pode ser provado pela datação das ocorrências dessas acepções em cada uma das línguas).

Pois bem, algo (no sentido de “riqueza”), hijo de algo, hijo dalgo e hidalgo são todas palavras espanholas emprestadas ao português com a respectiva tradução de hijo por “filho”. O próprio Corominas, muito mais detalhado e embasado que os dicionários etimológicos do português, menciona esse fato.

Esse é apenas um exemplo de por que é tão importante e urgente elaborarmos um dicionário etimológico da língua portuguesa calcado em premissas e métodos científicos, que busque o étimo e a origem das palavras de nossa língua por meio de investigação empírica e não através da mera consulta a outras obras, igualmente equivocadas, ou do achismo de seus autores. É isso que dá a nós, pesquisadores do NEHiLP-USP – Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (https://nehilp.prp.usp.br) –, a convicção de que estávamos no caminho certo e realizando um trabalho importantíssimo, que é a elaboração do DELPo – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Infelizmente, como mencionei em meu post anterior, semana retrasada, esse projeto está parado, sem data para voltar. Pior ainda, sua página no site do NEHiLP, na qual já era possível fazer algumas consultas, está fora do ar. Assim caminha a pesquisa científica no Brasil.

Como os dicionários etimológicos falham

Dicionários etimológicos do português explicam o substantivo concreto mancebo, “rapaz, moço” e também “amásio”, como procedente do latim vulgar mancipiu (latim clássico mancipium), bem como afirmam que o verbo amancebar-se é derivado de mancebo. Mas essa explicação é pouco convincente por duas razões. Em primeiro lugar, mancipium é substantivo abstrato, derivado de manceps, mancipis, “comprador, fiador” (literalmente, aquele que toma em suas mãos: lat. manus, “mão” e capere, “tomar”). Mancipium significa, portanto, “qualidade de quem é comprador ou fiador”, isto é, “compra, arremate, fiança”. Em segundo lugar, não há nenhuma ocorrência, mesmo em latim vulgar, da palavra mancipiu como substantivo concreto, designando pessoa.

O que ocorreu de fato é que mancebo derivou de amancebar, e não o contrário. Esse verbo amancebar, que os mesmos dicionários etimológicos dão como proveniente de mancebo por formação parassintética (isto é, acréscimo do prefixo a‑ e do sufixo de infinitivo ‑ar), na verdade, provém por evolução fonética regular do latim emancipare, “emancipar, libertar, deixar de tutelar”, que significava, dentre outras coisas, “conceder a um filho poderes civis quando este completasse a maioridade”. Portanto, manceps e emancipatus queriam dizer “maior de idade”. (No direito civil brasileiro temos o mesmo termo emancipado para designar o indivíduo que atingiu a maioridade ou a quem, sendo menor, a justiça concedeu as prerrogativas de cidadão adulto.)

Em resumo, manceps deu emancipare, que passou por herança ao português amancebar (emancipar é latinismo importado bem mais tarde), o qual, por sua vez, originou mancebo por derivação regressiva. Este, sim, produziu o derivado mancebia, “estado ou condição de mancebo”, isto é, “concubinato”. Ou seja, o que mais provavelmente se deu foi o contrário do que alguns etimólogos afirmam.

Esse exemplo mostra que os (poucos) dicionários etimológicos do português nem sempre são muito confiáveis, principalmente em se tratando das datações de primeira ocorrência do vocábulo, que, em alguns casos, pecam por coisa de vários séculos. Mas também por étimos “chutados”, como o do exemplo citado aqui.

É por isso que o NEHiLP (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa), ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo, no qual atuo como pesquisador, decidiu anos atrás criar o Projeto DELPo – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Um dicionário totalmente on line, atualizável a todo momento, elaborado com o máximo rigor científico e as ferramentas tecnológicas mais modernas, algumas das quais desenvolvidas por nós mesmos, e de acesso totalmente livre, sem custo algum. Um dicionário que pretende sanar todas as falhas dos atuais dicionários etimológicos e dar ao nosso idioma uma obra de qualidade comparável aos melhores dicionários etimológicos do mundo: os de língua inglesa, francesa, espanhola, italiana e alemã.

Infelizmente, esse projeto está há meses parado por falta de verba, situação agravada ainda pela pandemia de covid-19. E assim caminha a pesquisa científica no Brasil. Se falta dinheiro até para pesquisas sobre vacinas que podem salvar milhares de vidas, que dizer de pesquisas sobre a origem das palavras?

Entre o Céu e o Inferno

Praticamente todas as religiões e tradições míticas consideram a existência de um plano superior à vida terrena, habitado pelos deuses e eventualmente pelas almas bondosas, e um plano inferior, dominado por divindades maléficas, para onde vão as almas dos impuros, dos iníquos e também as dos adeptos de outras religiões.

Essa visão de que há três níveis de existência, da qual os vivos ocupam o intermediário, é uma constante nas mitologias e demais narrativas fundadoras da cultura. Em termos da nossa tradição judaico-cristã, há uma Terra, um Céu e um Inferno (o Cristianismo considera uma quarta instância, o Purgatório).

A palavra “céu” proveio do latim caelum ou coelum, por sua vez descentente de um hipotético indo-europeu *kailom, gênero neutro do adjetivo *kailos, “íntegro, intacto, puro” e, por extensão, “sagrado”. Essa mesma raiz indo-europeia deu o germânico *hailaz, e daí o inglês whole (inteiro) e o alemão heil (são, sadio). Um derivado germânico *hailigaz gerou dentre outras línguas o inglês holy e o alemão heilig, ambos significando “santo, sagrado”. E o verbo germânico *hailjan, “tornar íntegro, tornar inteiro” produziu o inglês heal e o alemão heilen, ambos com o sentido de “curar”. Ou seja, curar uma pessoa é torná-la íntegra novamente (pois a doença é uma forma de desintegração do organismo). E sagrado é aquilo que está intacto, afinal muitas culturas associam o tocar ao conspurcar, à profanação. Essa é, por sinal, a raiz da metáfora em que a virgindade feminina é um estado de pureza que o contato sexual macula (e daí a visão do sexo como impureza). Aliás, as palavras latinas intactus e integer, que deram respectivamente “intacto”, “inteiro” e “íntegro” em português provêm da união do prefixo negativo in- com radicais do verbo tangere, “tocar”. Logo, intacto, íntegro ou inteiro é aquilo que não foi tocado. E, por conseguinte, “céu” é, literalmente, o lugar do sagrado, bem como o espaço intocável, o que mostra seu caráter místico já na Pré-História.

As palavras germânicas para “céu” (dentre as quais heaven em inglês e Himmel em alemão) remetem à raiz indo-europeia *kemen (abóbada), mostrando uma visão mais física e menos espiritual do firmamento.

Já “inferno”, do latim infernum, “lugar baixo”, provém de infer (de “inferior”, “ínfimo”, etc.), do indo-europeu *ndher, que também resultou no inglês under e no alemão unter (embaixo, sob). O inglês hell e o alemão Hölle remontam ao indo-europeu *k’el, “encobrir”, donde o latim celare “esconder” e seu derivado occultus, “oculto”.

Quanto a “terra”, nome do nosso planeta e da matéria de que ele é feito, a origem está na raiz indo-europeia *ters, “seco”, de que também provém o latim torrere (torrar, isto é, secar pelo fogo), torridus (tórrido) e tostus (tostado). Da mesma raiz vieram o inglês thirst e o alemão Durst, “sede, secura na boca”. Portanto, a terra era originalmente a parte seca da superfície do planeta, por oposição aos oceanos. Por uma extensão de significado, passa a designar todo o planeta e, na visão geocêntrica dos antigos, o centro do Universo, único lugar com vida e, portanto, com seres dotados de alma, a qual, sendo boa, subiria para a abóbada celeste, morada dos deuses, e, sendo má, desceria às profundezas do inferno, no interior da própria Terra – um lugar muito quente, como o provam as lavas vulcânicas que, de quando em vez, emergem à superfície.

Finalmente, o Purgatório cristão é o lugar onde se purgam as almas. E o que é purgar? É tornar puro (o latim purgare provém de *purigare, formado de purus + agere, isto é, “fazer puro, conduzir à pureza”). Não por outra razão, os laxantes também são chamados de purgantes, já que fazem o corpo expelir as impurezas que causam mal-estar.

Todos os indígenas são índios?

A campanha de vacinação contra a covid-19, iniciada tardiamente e ameaçada de não ter continuidade por causa do isolacionismo diplomático em que nosso presidente coloca o Brasil, prioriza, neste primeiro momento, os profissionais de saúde que lutam na linha de frente, os idosos e os indígenas – estes últimos, também popularmente conhecidos como índios. A semelhança fonética entre “índio” e “indígena”, somada à semelhança de significados, nos induz logo a pensar que se trate de palavras aparentadas, o que não é verdade: trata-se, antes, de uma dessas coincidências capciosas, uma peça que a língua nos prega.

É que “indígena” provém do latim indigena, formado de indu, “dentro”, e geno, “gerar, dar à luz”, significando “natural do próprio país, nativo”. Ou seja, na Roma antiga, indígenas eram os próprios romanos (no Império Romano obviamente não havia índios). Por outro lado, na Renascença a palavra “índio” designava (e em espanhol ainda designa) os indianos; a confusão entre “índio” e “indiano” se deu justamente porque, segundo reza a lenda, os primeiros europeus a chegar à América, com a expedição de Cristóvão Colombo, acreditavam ter chegado às Índias. (Por causa disso, até hoje, a palavra inglesa Indian denomina tanto os indianos quanto os índios.)

Por outro lado, os índios não deixam de ser os nativos do continente americano, portanto legítimos indígenas. E aí está feita a confusão! Embora não seja usual, a palavra “indígena” seria perfeitamente aplicável a qualquer população nativa em relação aos exploradores europeus: nativos africanos, aborígines australianos, esquimós, habitantes das estepes siberianas, etc. Só que o uso reiterado de “indígena” em relação ao ameríndio e somente a este acaba reforçando a ilusão de parentesco entre palavras cuja similitude é puramente fortuita.

Quanto aos termos “índio” e “indiano”, suas origens remontam à Índia, terra assim chamada por causa do rio Indo, cujo nome no antigo persa era Hinduš. Essa denominação veio, por sua vez, do sânscrito Sindhu. É do persa, por meio do grego, que se origina o nome “hindu”, designativo de uma das religiões da Índia, e que muitos confundem com a própria etnia indiana. Como, na Antiguidade, muitas civilizações cresceram em torno de religiões, não é absurdo falar-se de uma civilização hindu, já que, naquela época, etnia e religião andavam juntas; entretanto, nos dias de hoje, é mais adequado nos referirmos à Índia como estado ou governo indiano do que estado ou governo hindu – até porque a nação indiana é composta de um sem-número de comunidades religiosas, das quais a hindu é a maior, mas não a única.