Palavras que inexplicavelmente sofreram evolução irregular em português

Quem estuda a formação histórica da língua portuguesa nos cursos de Letras (eu estudei isso ainda no ensino médio, que então se chamava segundo grau ou colegial) aprende que as consoantes surdas intervocálicas do latim se tornam sonoras em português e que as sonoras do latim desaparecem na nossa língua, com exceção do b, que vira v, e do m, que se mantém. (Surdas são as consoantes que não fazem vibrar as cordas vocais, como /p/, /t/, /k/, /f/ e /s/; sonoras são as que fazem vibrar, como /b/, /d/, /g/, /v/, /z/, /l/, /m/, /n/ e /r/.)

Assim, o latim crudus deu primeiramente cruu e depois cru, gelare deu gear, granum deu grão, lana passou a lãa e então a , persona evoluiu para pessõa e a seguir para pessoa.

No entanto — e isso é algo que intriga os historiadores da língua —, algumas palavras não sofreram esse processo, tendo mantido intactas consoantes sonoras intervocálicas que deveriam ter caído e que, por sinal, caíram em línguas irmãs do português. Foi assim que o latim valere deveria ter dado *vaer, mas deu valer. Do mesmo modo, pilus daria *peo e depois *peio, mas deu pelo; minus e minor resultaram em menos e menor (há indícios de que houve na Idade Média a forma mẽos, que teria evoluído para *meios, gerando confusão com a já existente palavra meios, do latim medios, o que explicaria o empréstimo da forma espanhola menos — em espanhol, o n entre vogais não caía).

Igualmente, o g se conservou em pago, pagão (habitante do pago), praga, chaga, estragar, negar, regar, sugar, fugir, fugidio, frigir e negro, respectivamente do latim pagus, paganus, plaga, *stragare, negare, rigare, sugare, fugere, fugitivus, frigere e niger. Nesse ponto, o espanhol também foi conservador em certas palavras: o latim plaga, paganus, negare, niger, gradus, nodus, nudus e nidus deram respectivamente llaga, pagano, negar, negro, grado, nudo, desnudo e nido. Nesses quatro últimos casos, o português eliminou a consoante: grau, , nu, ninho (< nĩo).

Algumas explicações têm sido aventadas para a não ocorrência da síncope (queda) de certas consoantes. Nos casos de pagão, praga e chaga, os falantes teriam evitado um encontro aa desagradável de pronunciar: *paão, *praa e *chaa, que naturalmente evoluiriam para pão, prá e chá. Em outros casos, também a possível convergência formal com outras palavras já existentes, gerando homonímia, teria sido a causa de os falantes pronunciarem essas palavras com mais cuidado, evitando o emudecimento da consoante, ou mesmo de terem reintroduzido na língua as formas latinas ou introduzido as espanholas depois que a homonímia já havia ocorrido — e causado confusão. Mas há ainda muitos casos sem uma explicação plausível, o que dá ensejo a muitas futuras pesquisas.

Palavras injustiçadas

Como você se sente quando toma conhecimento de que uma pessoa inocente foi condenada e encarcerada por um crime que não cometeu? Você fica indignado, não? Pois é isso o que anda acontecendo com muitas palavras e expressões da nossa língua, cujo exemplo mais recente publiquei aqui mesmo na semana passada.

Palavras e expressões que nunca tiveram qualquer caráter discriminatório ou ofensivo, ou que o tiveram séculos atrás e o perderam, de modo que ninguém mais tem consciência disso, vêm sendo constantemente “canceladas”, inclusive por órgãos oficiais, sem direito a defesa, com base apenas em pseudoetimologias, as mais das vezes criadas por agentes do movimento woke, ou na alegação de que alguém se sentiu ofendido por elas.

Tenho criticado muito essa atitude de autoridades, como tribunais de justiça, associações de classe, sindicatos, universidades e até ministérios, que se deixam levar por alegações sem prova ou por provas manipuladas apenas porque quem as apresenta tem força política ou usa da estratégia da vitimização (que eu chamo de “mimimização”) para fazer valer a sua versão dos fatos, inclusive calando vozes discordantes sob o argumento autoritário de que elas não têm “lugar de fala”. Mas hoje quero destrinçar melhor essa questão e mostrar por que tais atitudes são obscurantistas, já que se baseiam em pseudociência, e antidemocráticas.

Há quatro tipos de palavras ou expressões: as que não são nem nunca foram discriminatórias ou preconceituosas (por exemplo, caderno, azul, caminhar, fazer as contas, salvo melhor juízo), as que são e sempre foram ofensivas (calhorda, serviço de preto, vá para o Inferno), as que um dia foram pejorativas, mas deixaram de sê-lo, e as que não o eram, mas passaram a sê-lo. É destes dois últimos tipos que quero falar, pois são eles o alvo principal da discussão.

Muitos termos que hoje usamos para insultar pessoas nasceram no âmbito da medicina e eram meros termos técnicos que designavam doenças. Por exemplo, idiota, imbecil e retardado eram termos psiquiátricos hoje abandonados por pressão social sobre os médicos a partir do momento em que se popularizaram e se tornaram xingamentos. Tais termos foram substituídos por outros, o que não impede que estes também caiam no uso popular e ofensivo. Há hoje em dia quem se incomode com a palavra neurótico, por exemplo. Às vezes, um termo é substituído por outro tão anódino quanto o primeiro. É o caso de criança excepcional, que deu lugar a criança especial (qual a diferença entre excepcional e especial, duas palavras, por sinal, que também se usam para elogiar: um cantor excepcional, uma data especial?).

A palavra cretino, hoje um xingamento, tem uma origem particularmente interessante: veio de um dialeto francês medieval em que crétin significava “cristão”. Era assim que as pessoas se referiam a crianças abandonadas ou enjeitadas que eram acolhidas pela Igreja. Portanto, uma palavra piedosa que encobria a situação de vulnerabilidade social — para usar um termo da moda — da pobre criança. Era assim que as crianças de orfanato eram chamadas, sem nenhum preconceito ou sugestão deploratória. Com o tempo, o vocábulo francês crétin passou a ser usado pelos médicos para referir-se não só a órfãos, mas também a adultos recolhidos em manicômios. Mesmo assim, cretino era originalmente o indivíduo acometido de cretinismo, isto é, falha no desenvolvimento mental e cognitivo. É daí que surge o uso insultuoso da palavra. Evidentemente, ninguém que hoje se refira a um desafeto como cretino pode alegar em sua defesa que estava apenas fazendo um diagnóstico médico, sem nenhuma conotação depreciativa.

Pois se isso é assim em relação a palavras positivas ou neutras que se tornaram negativas, o mesmo deveria valer para palavras negativas que se tornaram neutras ou até positivas. Em sua origem, sofisticado significava “cheio de sofismas, de falácias, de mentiras”; um argumento sofisticado era um argumento falacioso, tipicamente utilizado pelos antigos sofistas para vencer uma discussão. Hoje sofisticado é algo bem elaborado, requintado, chique. Já formidável significava “terrivelmente cruel, implacável”; hoje é algo sensacional. Aliás, bárbaro era alguém desprovido de civilização (ainda hoje se fala em crime bárbaro), mas também chamamos (ou chamávamos, nos anos 1960) de bárbaro àquilo que nos causa admiração pela beleza ou qualidade.

Uma palavra como boçal, recentemente proscrita pela Advocacia-Geral da União por ser supostamente racista, como relatei semana passada, é um caso interessante. Há três possíveis etimologias para boçal, e nenhuma delas tem conotação racista. A primeira diz que proviria do latim vulgar *buccealis, jamais documentado e derivado de bucca, “boca”. Seria um artefato para ser usado na boca ou focinho dos animais. Como nunca foi atestada, essa origem é bem pouco provável, até porque não derivaria diretamente de bucca e sim de um adjetivo *bucceus, “bucal”, que igualmente nunca foi registrado.

A segunda hipótese é que provenha do italiano bozza, pedra grosseiramente talhada, de formato irregular; portanto, boçal é algo tosco, rude. O fato é que o adjetivo *bozzale, do qual proviria o português, nunca existiu. E a palavra portuguesa boça significa “cabo, corda”, logo nada a ver com o sentido italiano do termo. Aliás, a primeira acepção de bozza é “calombo”, que deu o português bossa, “corcunda”, e na gíria, “talento, aptidão, tino”, depois especializado em “aptidão para a música e a dança, gingado” (daí a Bossa Nova).

A terceira teoria aponta para o espanhol bozal, de boza, “buço”. O bozal era uma espécie de cabresto que se prendia ao focinho (buço) dos animais. Como buço é uma característica dos adolescentes, bozal referia-se a alguém inexperiente e, por conseguinte, desajeitado. Esta é a etimologia mais provável e aceita pelos estudiosos.

De fato, no período escravagista, boçal era o termo que denominava escravos recém-chegados às Américas, que ainda não sabiam falar a língua do colonizador. Portanto, referia-se a um escravo (ou, se preferirem, escravizado) novato. Só que o termo já era utilizado para brancos inexperientes bem antes do período da escravidão. Então, boçal é de fato ofensivo, mas não necessariamente racista. O mesmo se dá com gringo, denominação pejorativa de qualquer estrangeiro, que até o momento não foi censurada pelo simples fato de que os gringos que visitam nosso país ou para cá imigram em geral não são negros. Além disso, quem atualmente xinga o outro de boçal — mesmo que o outro, no caso, seja negro — não tem nenhuma intenção racista simplesmente porque ignora que um dia essa palavra foi aplicada a escravos negros — assim como você, leitor, aposto, também não sabia.

Mas, quando suas pseudoetimologias são desmontadas, os defensores do identitarismo se refugiam em argumentos do tipo “mesmo que a palavra em questão não seja intrinsecamente ofensiva, se eu me sinto ofendido com ela, é quanto basta para censurá-la ou processar você”. Esse argumento é perigosíssimo por dois motivos. Primeiro, porque coloca a opinião pessoal acima dos fatos. Nesse sentido, se eu acredito que a Terra é plana ou que vacinas provocam autismo, tenho o direito de punir quem acha — ou melhor, sabe — que a Terra é redonda, bem como alastrar pânico na população que antes se vacinava, causando epidemias e levando a saúde pública ao colapso. Segundo, porque qualquer pessoa pode alegar sentir-se ofendida por qualquer palavra ou expressão. Se eu inocentemente digo que fulano é um touro, referindo-me ao seu vigor físico, ou que sicrano é um leão graças à sua coragem, o dito-cujo pode alegar que ser comparado a um animal é indigno. E aí fica a critério de um juiz, de cuja cabeça, assim como do bumbum de um bebê, nunca se sabe o que vai sair, e que não entende nada de linguística, decidir a questão. E os juízes sempre tendem a dar razão ao queixoso, não ao réu. Em resumo, seria a subversão total do princípio do Direito, em que sempre cabe o contraditório e em que a prova técnica sempre se sobrepõe às alegações de uma ou outra parte.

Mas o fato mais escandaloso é que há na academia pseudoespecialistas em língua que endossam falsas etimologias porque militam a favor da agenda woke — e as universidades brasileiras estão repletas deles. Se um desses maus cientistas for convocado para testemunhar a favor de um “oprimido linguístico”, certamente despejará sobre o magistrado um amontoado de fake news identitaristas sob o argumento de autoridade, afinal, como estudioso do assunto, é ele que tem a última palavra.

O fato de que essa pregação mentirosa esteja fazendo a cabeça de autoridades dos três Poderes da República, da imprensa, de estudantes e do público incauto em geral é o que é verdadeiramente alarmante.

O “index” da AGU de Lula

Na Idade Média, durante o período da Inquisição, a Igreja Católica publicou o Index Librorum Prohibitorum, ou Índice dos Livros Proibidos, que listava as obras que os cristãos estavam proibidos de ler porque iam contra a fé católica e os dogmas da Igreja. Desde então, a palavra index passou a designar qualquer lista negra de publicações, palavras ou expressões a serem banidas pelas mais diversas razões.

Pois eis que agora a Advocacia-Geral da União (AGU), sob o comando do (talvez) futuro ministro do STF Jorge Messias (ou seria Bessias?), lançou o index das palavras e expressões que servidores do órgão estão proibidos de usar em suas comunicações oficiais por serem supostamente racistas, cabendo advertência, obrigatoriedade de aulas de “letramento racial” e, em último caso, processo judicial.

A lista inclui itens como mulato, denegrir, escravo, lista negra (que eu usei sem culpa mais acima) e até não sou tuas negas (fico a imaginar alguém da AGU usando essa expressão num ofício, despacho ou parecer). Seguem mais algumas:

  • a coisa tá preta (também é pouco provável que alguém use isso num documento oficial);
  • humor negro, a ser substituído por humor ácido ou macabro;
  • magia negra (as bruxas europeias da Idade Média sem dúvida eram racistas!);
  • mercado negro (os comerciantes venezianos do século XIII também eram racistas).

Portanto, se trabalho na AGU, não posso me referir aos escravos da Grécia ou Roma antigas ou aos escravos judeus no Egito, tantas vezes mencionados na Bíblia que o tal Messias, terrivelmente evangélico que é, tanto lê, senão como escravizados. Ou talvez melhor até como escravizados, escravizadas e escravizades.

Tampouco posso usar o termo mulato, que nada tem a ver com mula, já que vem do árabe muwallad, filho de branco e mouro. Nem denegrir, do latim denigrare, palavra já existente antes do contato dos romanos com os africanos. Nem criado-mudo, nem meia tigela, nem ovelha negra (como se sabe, as ovelhas são brancas, portanto quem criou essa expressão, em tempos imemoriais, para referir-se a um ponto totalmente fora da curva escolheu a cor preta não por razões raciais, mas porque é o antônimo de branco, a cor mais distante daquela no espectro luminoso; o efeito não seria o mesmo se a ovelha em questão fosse azul, rosa, verde…).

Além disso, substituir, por exemplo, lista negra por lista proibida, lista suja, etc., como sugere a normativa da AGU, inventa expressões que não existem nem em nossa língua nem em outras, em que termos como o inglês black list e dumb servant já estão consagrados há séculos, muito antes do advento da escravidão africana e do colonialismo.

Pois bem, se essas palavras e expressões (com exceção de não sou tuas negas, que, como disse, é improbabilíssima em documentos oficiais) nada têm de racistas, como o comprova a etimologia séria e científica, não a pseudoetimologia dos movimentos sociais identitaristas, qualquer sanção ao servidor que as usar será injusta e passível de questionamento judicial. E mais, se o infeliz servidor for, ele, alvo de processo jurídico, poderá convocar etimólogos sérios e de respeito como testemunhas de defesa. Eu mesmo me disponho a testemunhar em favor desses réus se for preciso. Como diz um princípio basilar do Direito, infelizmente nem sempre seguido pelo Judiciário brasileiro, “contra provas não há argumentos”. E a boa etimologia tem fartas provas de que essas listas negras — digo, afrodescendentes — de palavras e expressões “canceladas” não passam de panfletagem woke sem nenhuma base factual.

A pela, a pala, a bola

Você sabe por que o jogo de futebol de domingo no campinho de terra se chama pelada? Nada a ver com pelado, estado de quem está nu, palavra esta derivada de pele (isto é, a quem se tirou a pele ou que está com toda a pele à mostra). A pelada tem esse nome porque tradicionalmente se jogava com uma bola de meia: os garotos pobres envolviam várias meias umas nas outras até constituírem uma bola de tamanho razoável. Só que essa bola era macia e elástica como a pela. Mas o que é pela? Do latim pila, era a bola feita de tripa e recheada de crina (portanto, uma bola bem elástica) usada no jogo da pela, um antigo esporte praticado com raquete, bem semelhante ao tênis.

De pela saiu o diminutivo pelota, “bolinha”, designativo da bola de futebol (e de outros jogos) em espanhol e também de caroços que nascem na pele (por extensão, qualquer formação que lembre um caroço).

Mas, se o latim tinha a pila, o italiano tem a palla, isto é, a bola, vocábulo originário do antigo frâncico *balla, que também deu o francês balle, o inglês ball, o alemão Ball e o sueco boll. Esse termo radica no indo-europeu *bhel‑, “soprar”, que também deu o latim flare, “soprar, inflar”, e o inglês blow.

Já a nossa bola vem do latim bulla, “bolha”, dada a semelhança entre a bola e a bolha (veja a esse respeito o meu artigo Um bolo de significados). Não é curioso como palavras de diferentes origens convergiram na forma e no significado?

Uma etimologia alternativa para “coração”

Dizem alguns etimólogos que a palavra coração vem de um suposto latim vulgar *coratione, formado de cor, “coração”, e do sufixo ‑tionem, que aparece em nationem, operationem etc. (em português, nação, operação). Meu colega Mário Eduardo Viaro, etimólogo e professor da USP, em artigo na revista Língua Portuguesa, faz até uma analogia com coragem, que vem do francês antigo corage e é formado de cor + sufixo ‑age. Só que essa explicação não me parece totalmente satisfatória. Primeiro, ‑age é sufixo que indica qualidade (por exemplo, bobagem = qualidade de bobo, vassalagem = condição de vassalo). Portanto coragem é a qualidade de quem tem coração (visto como a sede das virtudes humanas). Além disso, ‑age é sufixo masculino em francês, e corage (que atualmente tem a forma courage) é de fato palavra masculina em francês. Essa palavra nasceu no francês e passou às outras línguas, inclusive à nossa, por empréstimo.

coração seria, segundo a hipótese acima, formado de cor + sufixo ‑ção. Só que esse sufixo é feminino, mas coração é palavra masculina tanto em português quanto em espanhol (corazón). Além disso, ‑ção é sufixo que designa ação e não qualidade (por exemplo, organizarorganização, embromarembromação). Seria estranho que se ligasse ao substantivo cor e não a um verbo de ação. Afinal, que ação o coração desempenha além de bater?

O mais provável é que o sufixo ‑ção de coração não venha do latim ‑tionem, mas seja na verdade um aumentativo, pois é sabido que muitas palavras que herdamos do latim vulgar eram aumentativos ou diminutivos de palavras latinas. Por exemplo, orelha vem de auricula, diminutivo de auris; agulha vem de acucula, diminutivo de acus; o francês soleil, “sol”, vem de soliculus, diminutivo de sol, e assim por diante. O latim vulgar também tinha os sufixos aumentativos ‑acium e ‑aciam (que deram os nossos sufixos ‑aço de golaço e mulheraço e ‑aça de barcaça, bem como o espanhol ‑azo/‑aza e o italiano ‑accio/‑accia) e o sufixo aumentativo ‑onem, que deu ‑ão em português, ‑ón em espanhol e ‑one em italiano.

Pois bem, é provável que coração seja um aumentativo de cor, aliás um superaumentativo, já que tem dois sufixos de aumento. A palavra no latim vulgar devia ser *coracionem, isto é, cor + ‑acium + ‑onem. Evidentemente, não há como provar essa tese, já que não existe registro histórico dessa forma, mas tampouco existe da forma *corationem. Portanto, aqui o julgamento deve se dar muito mais em bases probabilísticas do que empíricas. De todo modo, creio que a hipótese aqui apresentada tenha mais probabilidade de ser verdadeira — ao menos parece mais plausível — do que a outra.

Aliás, o Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana, de Joan Corominas, também aventa essa hipótese para o espanhol corazón. E uma forma primitiva de coração era corção, que ainda sobrevive como sobrenome.

Como a origem dessa palavra é controversa, o que deve ser levado em conta é a probabilidade de cada uma das hipóteses etimológicas. E creio que a hipótese de um aumentativo de cor é mais provável que a de um substantivo indicativo de ação.

Os curiosos nomes da laranja

A palavra laranja nos chegou a partir do árabe naranj, que por sua vez a recebeu do persa narang, esta vinda do sânscrito naranga. E todas significavam “laranja”, já que essa fruta é originária da Ásia. Na Roma antiga, não havia uma palavra nem para a laranja nem para a cor laranja. Os romanos obviamente ainda não conheciam a fruta e tampouco tinham uma palavra para a cor. E não porque não distinguissem o laranja, mas apenas porque, em sua cultura, essa cor era apenas um tom de amarelo. Em inglês antigo, a cor era chamada de gealuread, algo como yellow-red, isto é, um tom entre amarelo e vermelho.

Só para vocês terem uma ideia, em português o vermelho bem claro se chama rosa, e o bem escuro, marrom. No entanto, em relação ao azul, temos apenas azul-claro e azul-escuro. Portanto, se misturarmos tinta branca ou preta ao vermelho, obteremos duas cores distintas do próprio vermelho (pelo menos linguisticamente), mas, se adicionarmos branco ou preto ao azul, teremos apenas duas tonalidades diferentes de azul, mas ainda será azul. Incoerências das línguas.

A palavra árabe passou ao português laranja, ao espanhol naranja e ao italiano arancia. Deste passou ao francês orange, que o transmitiu ao inglês, ao alemão e também às línguas escandinavas com a mesma grafia (posteriormente, o norueguês reformou a ortografia, e orange virou oransje). Mas o alemão também tem o termo Apfelsine, que deu apelsin em sueco e appelsin em norueguês e dinamarquês. Mas de onde veio Apfelsine? Ora, Apfel significa “maçã” em alemão. E Sina era como os alemães chamavam a China na Idade Média. Conclusão: Apfelsine é literalmente “maçã da China”. É que os portugueses trouxeram a fruta da China para a Europa por volta de 1500. Ela chegou aos portos de Hamburgo e Amsterdã em torno de 1700 através do Mar do Norte. Mas o alemão também tem o vocábulo Pomeranze, vindo do latim medieval pomarancia, e este da composição em italiano de pomo e arancia.

Falando nos portugueses, é pelo mesmo motivo histórico que “laranja” em grego é portokálos, isto é, “Portugal”.

Azul-marinho ou azul marinha?

Quando eu era pequeno, me perguntava por que o azul-escuro se chama azul-marinho se o mar não é azul-escuro. Ouvi algumas explicações pouco convincentes de que se tratava de uma referência às profundezas do mar, aonde a luz não chega. Só que o fundo do mar é negro e não azul-escuro.

Anos depois, já trabalhando com etimologia, descobri que a origem do nosso azul-marinho é o termo inglês navy blue, literalmente “azul marinha”. E por que azul marinha? A explicação é que o nome da cor provém do fato de os oficiais da marinha real britânica, a Royal Navy, usarem o azul-escuro em seus uniformes desde 1748. Até o século XIX, a cor dos uniformes chamava-se marine blue, tendo passado depois a navy blue. O termo data de 1840, embora o Oxford English Dictionary o cite desde 1813.

Portanto, azul-marinho é um decalque (isto é, uma tradução) malfeito de navy blue. O mais correto teria sido que o tivéssemos traduzido por azul marinha, como fez o francês (bleu marine), o alemão (marineblau), o dinamarquês (marineblå), o holandês (marineblauw), mas não o espanhol (azul marino), o italiano (blu marino) ou o catalão (blau marí). Portanto, se traduzimos errado, estamos em boa companhia.

Qual é a pronúncia correta do sobrenome do papa?

A recente eleição do cardeal americano-peruano Robert Francis Prevost como papa Leão XIV acendeu uma polêmica: como se pronuncia o sobrenome Prevost? Desde que a fumacinha branca saiu da chaminé da Capela Sistina, temos ouvido os jornalistas e seus entrevistados pronunciarem esse nome das mais diversas maneiras: prévost, prevóst, prevôst, prevôs, prevous… O próprio papa afirmou que pronuncia seu sobrenome como prevôs. Mas será essa a pronúncia correta? Meu sobrenome é Bizzocchi, de origem italiana, e sua pronúncia em italiano é bidzóqui, mas eu próprio pronuncio bizóqui para não soar afetado. Portanto, a pronúncia do papa não é garantidamente a mais correta, visto que ele é falante nativo da língua inglesa e seu sobrenome não é inglês.

Na verdade, esse sobrenome é de origem francesa e corresponde à antiga grafia do substantivo prévôt, que significa “preboste”, do latim praepositus, “preposto”. E o que é um preboste? E um preposto? Segundo a Wikipédia:

Preboste era um agente do senhor feudal ou do Rei, encarregado de ministrar justiça e gerir a propriedade que lhe era confiada, na Idade Média e durante o Antigo Regime.
Passou depois a designar um magistrado ou oficial responsável pela manutenção da lei e da ordem dentro do Exército. Hoje, em alguns exércitos é a designação do comandante ou do próprio serviço de polícia militar.
Esta função foi instituída pelo Rei Salomão.
[…]
No Brasil o termo preposto designa aquele quem tem poderes substabelecidos por um outorgante para o representar e defender em causas judiciais. Muito utilizado nas demandas da Justiça do Trabalho, conforme estabelecido nos artigos 483; 630; 843, §1º; 861, todos da CLT – Consolidação das Leis de Trabalho.
No Exército Português, até 1984, existiu um órgão central de direção de Polícia Militar/Polícia do Exército, denominado como Chefia do Serviço de Preboste, subordinado ao chefe do Estado-Maior do Exército, cuja função foi atribuída à Direção da Arma de Cavalaria em julho de 1984.

Portanto, a pronúncia correta de Prevost é prevô, pois, mesmo antes da reforma ortográfica que transformou prevost em prévôt, o s e o t já eram mudos. Da mesma forma como pronunciamos os sobrenomes portugueses Baptista e Assumpção como Batista e Assunção, o nome Prevost, mesmo grafado à moda antiga, deve ser pronunciado tal qual se fala hoje em dia.

Então, a partir de agora vocês já sabem: o nome do papa é prevô! Comecem a pronunciar assim e, se for o caso, corrijam seus amigos e familiares. Assim, dentro em breve todos estarão dizendo esse sobrenome corretamente.

Ainda sobre o português e o “brasileiro”

Em dezembro de 2024, lancei no meu canal do YouTube Planeta Língua o vídeo “Brasileiro é uma língua distinta do português?”, no qual falo sobre a afirmação dos linguistas Fernando Venâncio e Marcos Bagno de que o português falado no Brasil será nas próximas décadas uma língua distinta do português de Portugal — segundo Bagno, essa cisão até já aconteceu. Teríamos então (ou já temos) a “língua brasileira”.

No vídeo, explico que há critérios científicos, portanto objetivos, para decidir se duas ou mais expressões linguísticas configuram uma só ou mais de uma língua, critérios estes que os dois linguistas conhecem, mas não aplicam, apresentando no lugar suas convicções pessoais, fruto de militância política e ideológica.

É uma realidade que nas ciências humanas é muito viva a crença de que não há dados objetivos, fatos concretos observáveis e testáveis segundo o método científico, mas tudo é questão de ponto de vista. E se esse ponto de vista for o marxista, melhor ainda. Nem a linguística, a mais exata das ciências humanas, consegue escapar desse dogma, jamais provado e muitas vezes desmentido.

A questão é que choveram comentários ao meu vídeo, a maioria vinda de pessoas leigas no assunto, algumas até semialfabetizadas, mas que, graças à “democratização” promovida pelas redes sociais, acham que sua opinião vale o mesmo que o parecer abalizado de um especialista no assunto. E na medida em que supostos especialistas como Bagno e Venâncio também substituem pareceres técnicos por opiniões pessoais, qualquer um pode ser doutor em linguística, não é mesmo? E dá-lhe coisas como “eu falo brasileiro, e pronto!”, “o português é a língua mais linda do mundo”, “eu não entendo o que os portugueses falam, então é outra língua”, e por aí vai. Esse tipo de comentário não merece que eu perca meu tempo nem o dos leitores comentando. Porém também há comentários de pessoas que se dizem formadas em Letras, mas que, novamente, apresentam visões pessoais e relativistas como verdades absolutas.

O que ocorre, e que já comentei certa vez num artigo chamado “200 milhões de linguistas”, é que, diferentemente de assuntos como astronomia e medicina, que as pessoas comuns sabem que não dominam e por isso não se atrevem a debater com especialistas, todo mundo acha que entende de língua (assim como todo mundo acha que entende de futebol) só porque é falante. Some-se a isso a suposta falta de cientificidade das ciências humanas, em que a opinião vale mais do que o fato, e temos o que temos.

No vídeo, expliquei que o que define uma língua é seu sistema, isto é, quantos e quais são seus fonemas, seu modo de flexionar nomes em gênero e número, seu modo de conjugar os verbos, a ordem das palavras na frase, etc. E nesse ponto há praticamente uma total concordância entre as variedades portuguesa e brasileira do idioma, o que já não é verdade em relação ao galego, língua muito próxima do português, mas com sistema distinto em muitos aspectos.

Na verdade, as pessoas tendem a prestar muito mais atenção às diferenças do que às semelhanças. Se compararmos duas versões do mesmo texto, uma lusitana e outra brasileira, notaremos que as diferenças não chegam a 2%: uma palavra diferente aqui ou ali, um infinitivo no lugar de um gerúndio acolá, e nada mais. Mesmo assim, essas diferenças não estão em nível de sistema e sim de norma (a gramática da língua portuguesa permite tanto estou estudando quanto estou a estudar). Em outras palavras, são usos e costumes diferentes dentro de uma mesma gramática, do mesmo modo como em São Paulo se usa você foi e no Pará se diz tu foste. Paulistas e paraenses falam línguas diferentes?

Portanto, sobretudo em nível formal, as diferenças entre português e “brasileiro” são meramente de uso, não de essência. O que chama a atenção de muita gente é a diferença entre o português brasileiro falado informal, especialmente o dos falantes menos escolarizados, e o português lusitano falado informal. Mas a língua portuguesa é muito mais do que apenas o registro informal em sua modalidade oral na boca dos menos letrados: a língua é uma construção histórica que, no caso do português, existe sem solução de continuidade do século XII até o presente e que, ao longo de todo esse tempo, passou por muitas mudanças, tendo tido, portanto, alguns sistemas diferentes. A cada uma dessas fases históricas da língua, com seu sistema particular, dá-se o nome de língua funcional. Logo, o português tem sido uma grande sucessão de línguas funcionais dentro da mesma língua histórica. Até o século XIV, o galego constituiu com o português um único sistema — em outras palavras, eram a mesma língua. Desde então, o português foi-se afastando do galego, que, por sua vez, foi-se aproximando do castelhano. Hoje, português e galego são línguas mutuamente intercompreensíveis, mas distintas, com sistemas fonológico, morfológico, sintático e léxico diferentes.

Aliás, o critério da inteligibilidade recíproca não é válido para distinguir idiomas. Muitos brasileiros têm dificuldade de entender a pronúncia lusitana, mas os portugueses entendem os brasileiros perfeitamente bem. Do mesmo modo, brasileiros e bolivianos se entendem bem, mesmo falando idiomas distintos. Já eu nem sempre entendo bem certos sulistas ou nordestinos, especialmente os da zona rural.

Vou contar um caso anedótico. Certa época, na minha sala na Universidade de São Paulo, todo dia duas senhoras nordestinas entravam para fazer a faxina. Elas conversavam entre si o tempo todo, mas eu não entendia bulhufas do que elas falavam. A única expressão que eu compreendia (ou pelo menos achava que compreendia) era “marrapai”, que eu deduzia ser “mas, rapaz!”. Será que essas senhoras não falavam a mesma língua que eu?

Se tomarmos a língua falada em Paris por imigrantes congoleses ou senegaleses e mesmo por seus filhos já nascidos e criados na capital francesa, diremos que aquilo não é francês. Se compararmos as normas orais informais das mais diversas línguas com suas normas-padrão, encontraremos abismos em quase todas. Se compararmos as normas orais informais dos vários países em que uma mesma língua (português, espanhol, francês, inglês) é falada, igualmente encontraremos diferenças chocantes.

Por exemplo, no espanhol platino usa-se o pronome pessoal reto vos, que inexiste na Espanha e no restante da América, e misturado ao oblíquo te; os canadenses usam vous no lugar de tu e constroem suas frases de modo bem diferente dos franceses; um americano de classe baixa diz coisas como I ain’t got no money em vez de I don’t have any money; em compensação, ingleses de classe baixa têm uma pronúncia chamada cockney que nem os próprios ingleses de outras classes sociais entendem. Seríamos então levados a concluir que nos Estados Unidos ou na Jamaica não se fala inglês, que no Quebec ou no Senegal não se fala francês, que na Argentina não se fala espanhol. Isso faz algum sentido?

É óbvio que o modo de falar dos brasileiros, especialmente os menos cultos, com seus anacolutos e topicalizações, orações clivadas, próclises generalizadas, mistura de pessoas verbais, etc., é gritantemente diferente do modo como os portugueses, mesmo os menos cultos, falam. Mas ao ouvirmos um professor brasileiro, um português e um angolano falando numa mesa-redonda sobre linguística (posso testemunhar porque já participei de muitas assim), temos clareza de estar ouvindo a mesma língua. O mesmo quando lemos textos escritos por esses professores. Um português ou um angolano que me leia neste momento — ou que assista aos meus vídeos — não terá dúvida de que estou usando a mesma língua que eles.

Senão vejamos. Leiam o trecho abaixo, escrito pelo meu colega, o Prof. Marco Neves, da Universidade de Lisboa:

Já recebi esta pergunta várias vezes. A resposta é esta: os portugueses não traduzem, em geral, os nomes das pessoas. Traduzimos os nomes de algumas personagens históricas, os nomes dos papas, os nomes da Bíblia, os nomes de alguns reis. É verdade que até o século XIX era muito habitual traduzirmos outros nomes, mas agora é algo excepcional.

Que lhes parece? É uma língua distinta da que vocês, meus leitores, falam ou escrevem? A versão oral do texto acima, disponível no canal de vídeos do Prof. Neves, tampouco difere do modo como um brasileiro falaria, exceto, é claro, pela pronúncia.

Leiam agora o seguinte trecho:

No fondo, o reintegracionismo non é máis que unha das dúas opcións normalizadoras que existen hoxe en día dentro do galego. Para comprender en que consiste esta opción e os fundamentos nos que se sustenta, cremos imprescindible coñecer primeiro en que consiste un proceso de normalización lingüística e as razóns polas que se levan a cabo estes procesos nas distintas sociedades. Para iso propoñémosche que vaias á páxina seguinte, onde ofrecemos, de forma resumida e sen complicacións, unha breve explicación destas realidades.

Isto é galego. É a mesma língua que o português? É bem parecida, sim, mas é a mesma língua?

Bagno e alguns colegas seus de universidades brasileiras defendem a construção de uma gramática normativa cem por cento brasileira, que abone coisas como “aconteceu dois acidentes” e “a mulher que o marido é médico”, sem falar da próclise em início de período e outros brasileirismos. Ao mesmo tempo, acusam SEM PROVAS a gramática atual de ser baseada no português lusitano do século XIX, de escolher arbitrariamente só os exemplos que comprovem as idiossincrasias dos gramáticos, e uma série de outras calúnias apresentadas como verdades científicas.

A questão é que eles forçam a barra ao tentar introduzir na norma-padrão do idioma usos que são exclusivos do português brasileiro informal oral — e a norma-padrão serve para guiar o registro formal escrito. No âmbito do português escrito formal (literário, acadêmico, jurídico, jornalístico, técnico, burocrático), o que os brasileiros usam correntemente é a gramática normativa que está em vigor tanto no Brasil quanto em Portugal — exceto por alguns deslizes resultantes de má escolarização. Portanto, não é possível comparar alhos com bugalhos. Uma coisa é constatar que a fala dos brasileiros, sobretudo dos menos letrados, que é a maioria da população, é diferente da portuguesa; mesmo assim, em nível de norma e não de sistema. Outra coisa é comparar a fala e a escrita das pessoas verdadeiramente cultas de todas as nações lusófonas.

É claro que falas informais são diferentes não só entre países, mas também entre regiões de um mesmo país. É claro que o português do século XXI é diferente do galaico-português do século XII. É claro sobretudo que diferentes regiões (incluindo diferentes países) têm pronúncias diferentes, às vezes difíceis de compreender, mas a língua não é sua fonética, é sua fonologia, sua morfologia, sua sintaxe e seu léxico. E nesse ponto diferenças, se há, são tão mínimas que qualquer pessoa de bom senso, que não esteja agindo de má-fé para sustentar uma ideologia política ou para “lacrar” nas redes sociais, reconhece que a afirmação de que no Brasil se fala ou se falará em breve um idioma distinto do português, uma nova língua românica, talvez uma língua crioula descendente do português, é tão absurda quanto afirmar que português e espanhol são a mesma língua.

Um último ponto: toda a argumentação de Bagno, Venâncio e dos comentaristas do meu vídeo se dão na mesma língua em que estou escrevendo agora. E que, salvo melhor juízo, é o português.