A origem do nome da Páscoa

Embora não pareça, estamos na Semana Santa, e mais uma vez em meio a más notícias. Este ano, é a pandemia do novo coronavírus, assim como no ano passado foi o incêndio na catedral de Notre-Dame de Paris, evento triste para os franceses em particular e os amantes da civilização em geral. Assim, achei oportuno republicar hoje o artigo que já havia publicado na Páscoa passada falando justamente sobre a origem da palavra Páscoa.

Esse termo nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a “estrela d’alva” ou “estrela da manhã”).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Feliz Páscoa a todos! E fiquem em casa, hein!

A palavra do ano em 2020

O ano mal começou, mas já podemos eleger a palavra do ano, aquela que terá sido a mais falada e escrita em 2020: coronavírus. Em segundo lugar, e perdendo por uma cabeça de distância, vem a sua sinônima Covid-19. Nas posições seguintes, teremos pandemia, quarentena, isolamento e contágio. Pelo menos, esse é o meu prognóstico.

Outra palavra que aposto será muito usada em 2020 é recessão, pois, passada a crise sanitária, certamente perdurará – e talvez se intensifique – a crise econômica global.

E já que estamos todos em quarentena e distanciamento social, um pouco de cultura inútil não faz mal a ninguém. Que o coronavírus tem esse nome pela sua semelhança física a uma coroa acho que todo mundo já sabe. Da mesma forma, os rotavírus assim se chamam porque se assemelham a uma roda. Mas de onde vem a palavra vírus? Assim como corona e rota, vem do latim, mais precisamente de vīrus, ī, substantivo neutro que, segundo o dicionário latino-português de Francisco Torrinha, significa “1. Suco das plantas. 2. Humor, esperma, veneno, peçonha (dos animais). 3. Veneno, peçonha (em geral). 4. Amargor; mau cheiro, fedor.”. Em fins do século XIX, o microbiologista holandês Martinus Beijerinck escolheu justamente esse nome para designar um agente infeccioso recém-descoberto distinto das já conhecidas bactérias.

E por que Covid-19? Trata-se de um acrônimo do termo inglês Coronavirus Disease acrescido da referência a 2019, ano em que foram registrados na China os primeiros casos da doença. Epidemias anteriores como a Sars e a Mers também têm seus nomes formados a partir de siglas do inglês: Sars é Serious Acute Respiratory Syndrome (síndrome respiratória aguda grave), e Mers é Middle East Respiratory Syndrome (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Já a palavra quarentena vem da língua veneziana dos séculos XIV e XV e significa “quarenta dias”, período em que todos os navios deveriam ser isolados antes que passageiros e tripulantes pudessem desembarcar durante a epidemia da Peste Negra. Quarentena seguiu o trentino, período de isolamento de trinta dias, imposto pela primeira vez em 1377 em Ragusa, cidade dominada por Veneza.

Epidemia, do grego ἐπί (epí), “sobre” e δῆμος (dêmos), “povo”, refere-se à rápida disseminação de uma doença sobre uma população. Quando essa doença atinge um grande número de populações ou mesmo a humanidade inteira, temos a pandemia, do grego παν (pan), “todo(s)”.

Finalmente, isolamento deriva de isolar, do italiano isolare, “ilhar”, derivado de isola, “ilha”. Ou seja, isolar é manter sem contato do mesmo modo como uma ilha está isolada do continente pelas águas do mar. Mas, nestes tempos de isolamento social a que somos forçados a nos submeter, convém lembrar a máxima do poeta renascentista inglês John Donne de que “nenhum homem é uma ilha”. Ou seja, mesmo distantes fisicamente, precisamos estar juntos nessa batalha, cultivar a empatia e a solidariedade, pois ninguém é capaz de sobreviver sem a ajuda dos demais.

Boa quarentena a todos!

A origem do nome da Páscoa

Estamos na Semana Santa (por sinal, uma semana particularmente triste para os franceses e os amantes da civilização, dado o incêndio na catedral de Notre-Dame de Paris), e, assim, achei oportuno falar um pouco sobre a origem da palavra Páscoa. Esse termo nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a “estrela d’alva” ou “estrela da manhã”).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Feliz Páscoa a todos!

A origem do terrorismo – e da palavra que o designa

Esta semana ficou marcada por pelo menos três ataques violentos – em Suzano (São Paulo), Christchurch (Nova Zelândia) e Utrecht (Holanda) – que podemos, sem dúvida, chamar de atentados terroristas, não importa se seus autores pertencem a organizações políticas consagradas a espalhar ódio, terror e pânico na sociedade ou se são meros “lobos solitários”, designação que se dá ao terrorista isolado, que pode até agir inspirado em alguma organização desse tipo, mas que formalmente não pertence a ela.

Nesses tempos de ódio generalizado, em que todos parecem estar contra todos, e as pessoas buscam motivos para sentir-se ofendidas, vale a pena revisitar a história das palavras atentado e terrorismo.

A primeira remonta ao latim tardio attentatum, “tentativa”, particípio do verbo attentare, também encontrado nas formas adtentare e attemptare, que, segundo o Dicionário Latino-Português de Francisco Torrinha, significa “pôr a mão em; tocar em; experimentar, ensaiar, tentar”, mas sobretudo “atacar, atentar contra”. Esse verbo, por sua vez, é um derivado de tentare ou temptare, que deu “tentar” e “tentação” em português e provém de uma raiz indo-europeia (sobre o indo-europeu, leia o meu artigo Em busca das laringais perdidas, neste mesmo blog) *ten‑, que significava algo como “segurar, estender, esticar, retesar”, presente em verbos latinos como tenere, que deu o nosso “ter”, e tendere, que resultou no português tender, atender, estender, etc.

terrorismo é palavra cunhada originalmente em francês à época da Revolução Francesa (final do século XVIII). Sua motivação é o período que ficou conhecido como o Terror (1793-1794), comandado por Maximilien de Robespierre, líder dos jacobinos, ocasião em que milhares de pessoas morreram na guilhotina.

Sua primeira acepção, de 1794, era “doutrina dos partidários do Terror”; em português, o termo teve seu primeiro registro em 1836.

Mas terrorismo deriva do latim terror, terroris, “terror, medo”, substantivo proveniente do verbo terrere, “tremer (de medo)”. Que é parente de tremere, “tremer”, e ambos radicam no indo-europeu *ter‑, “tremer”. Portanto, terrorismo é a prática da disseminação do terror entre as pessoas por meio de ações violentas. O sufixo ‑ismo, que primariamente evocava a ideia de “doutrina”, passou a indicar uma tática política.

O curioso é que a prática de atentados terroristas é muito mais antiga que a palavra, pois já existia na Antiguidade, segundo nos informa a Britannica Concise Encyclopedia. Entretanto, nada que se comparasse ao que estamos presenciando hoje em dia, especialmente depois do 11 de Setembro. Parece que este será o Século do Terrorismo, turbinado ainda pela internet e as redes sociais. É esperar para ver.

As controversas origens do Carnaval

Terminado o Carnaval (será que terminou mesmo?), republico aqui um artigo que publiquei no ano passado, acrescido de alguns novos dados, face à oportunidade da data e visto que ganhei muitos leitores desde então. Trata-se da origem da palavra Carnaval.

A etimologia da palavra Carnaval é uma das mais controversas que existem. Assim como a origem dessa festividade remonta à Pré-História e a ritos pagãos da fertilidade, em que se comemorava o início do ano agrícola e pedia-se aos deuses uma boa safra, a origem da palavra também se perde na escuridão do passado. Alguns autores, como Körting (Lateinisches-Romanisches Wörterbuch, “Dicionário Latino-Românico”), sustentam que teria vindo do latim carrus navalis, barco ornamentado que entre os romanos abria desfiles alegóricos como os das Saturnalia e das Bacchanalia, festas em celebração da chegada da primavera e do vinho.

Outros, porém, como Antenor Nascentes, na esteira de vários estudiosos, apontam a origem em carnem levare, “suspender a carne”, isto é, suprimir o consumo desse alimento durante a Quaresma, portanto já no período cristão do Império Romano. Wilhelm Meyer-Lübke, no seu Romanisches Etymologisches Wörterbuch (Dicionário Etimológico Românico), dá essa origem para o francês e o provençal. Policarpo Petrocchi apresenta o baixo latim carnelevamen, depois modificado para carnelevare, como étimo do antigo pisano carnelevare, do napolitano carnolevare, do calabrês carnalevare, do siciliano carnilivari, do vicentino carlavare e do veneziano carlevar. A forma primitiva carnelevare teria sido depois mudada para carnelevale em milanês (1130) e, por etimologia popular, em carne, vale!, isto é, “adeus, carne!”. Essa etimologia é confirmada por Corominas em seu Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana. Já o Duden – Das Herkunftswörterbuch, o principal dicionário etimológico do alemão, apresenta ambas as hipóteses, dando, no entanto, mais crédito à segunda.

Em espanhol, a forma paralela carnal teria sido a responsável pela mudança da vogal, de carneval para carnaval. A ideia básica de suspensão do consumo de carne é reforçada por formas paralelas como o espanhol carnestolendas  e o catalão carnestoltes (ambas do latim tollere, “retirar”), o italiano carnelasciare e carnasciare, assim como o romeno lăsatul de carne, todas do latim laxare, “deixar, abandonar”. O próprio latim já apresentava carneprivium, “privação da carne”, o que dá alguma convicção a essa etimologia. De certo, somente que o antecessor do termo em todas as línguas modernas é o italiano carnevale, especialmente em face da grande fama dos carnavais italianos (o de Veneza, principalmente) durante a Renascença.

O que há de comum entre “doce” e “glicose”?

E aí, pessoal, comeram muitos doces nessas Festas? Todo início de ano, as pessoas prometem perder peso, trancar a boca, fazer academia, mas, na última semana do ano, o que elas fazem? Ganham peso! É claro que o doce não é o único vilão dessa história, mas datas como Natal e Páscoa são pródigos em guloseimas açucaradas.

Todo mundo sabe que o que dá o gosto doce aos alimentos é o açúcar. Ou melhor, os açúcares, já que se trata de um vasto conjunto de compostos químicos que atendem pelos mais diversos nomes científicos: glicose, frutose, lactose, sacarose…

A origem de termos como frutose e lactose é óbvia: açúcares extraídos respectivamente das frutas e do leite. Mas, de onde vêm sacarose? E glicose?

Sacarose (e também sacarina, sacarídeo, etc.) deriva de um radical grego sakkharon, que significa “açúcar” e provém do páli sakkhara, este por sua vez procedente do sânscrito sárkara, “areia”. Portanto, na origem do nome está uma interessante metáfora, em que os grãos do açúcar são comparados aos da areia. (Não por acaso, já vi arear panelas com açúcar, se bem que, após o advento da palha de aço, nem areia se usa mais para esse fim.)

A própria palavra açúcar é da mesma origem, embora nos tenha chegado por outro caminho. Neste caso, o sânscrito passou ao persa shakar, que passou ao árabe sukkar. Este deu o italiano zucchero, e daí o alemão Zucker, mas também o francês sucre (e deste o inglês sugar). Já o português e o espanhol tomaram a palavra diretamente do árabe, e com a incorporação do artigo, pois al sukkar significa literalmente “o açúcar”. Por assimilação, al sukkar evoluiu para assukkar, que para entrar no português só precisou de uma adaptação ortográfica.

Curiosamente, “açúcar” em romeno é zahar, o que denuncia a origem da palavra diretamente no grego ou em alguma língua do Oriente.

E o radical glico-, de glicose, que também se diz glucose, de onde veio? Havia em indo-europeu uma raiz *dluk, “doce”, que, por dissimilação (e, evidentemente, por maior facilidade de pronúncia) deu em grego gluk, de onde vieram glicose, glucose, glicemia, glicogênio, etc. Em latim, *dluk deu dulk, também para facilitar a pronúncia (convenhamos que esse encontro consonantal dl não é dos mais fáceis de pronunciar). E de dulk veio o adjetivo dulcis, que produziu em português doce, edulcorar, Dulcora (uma antiga marca de balas e drops), dulçor, o nome próprio Dulce, e assim por diante.

Uma última curiosidade: em muitas línguas, “doce” é sinônimo de “macio” (por exemplo, em francês chiffon doux quer dizer “pano macio”), provavelmente porque o gosto doce é percebido como suave ao paladar. Por isso mesmo, um homem apaixonado oferece bombons à amada; espinafre não teria o mesmo efeito romântico… Mas, voltando à etimologia, a raiz indo-europeia *swad, que significava indiferentemente “doce” ou “macio”, é a origem do grego hedús, de hedonismo, do latim suavis, “suave”, e do inglês sweet, “doce”.

Então, pessoal, partiu 2019, bora malhar!

A história da palavra “Natal”

Que Natal tem a ver com nascimento, todos sabemos. No entanto, estamos tão acostumados a ver essa palavra associada ao nascimento de Jesus Cristo que a longa história desse termo acaba obscurecida. Por isso, vale a pena revisitá-la.

O latim natalis surgiu como adjetivo derivado do substantivo natus, “nascimento”, mediante o sufixo -alis. Portanto, significava “relativo ao nascimento”. Exemplos desse uso são as expressões natalis humus, “terra natal”, e natale solum, “solo natal”, ambas referentes à pátria (também chamada de natio, “nação”, do mesmo radical). Nesse mesmo sentido, temos também dies natalis, o dia do nascimento de alguém (por isso, o aniversário natalício, que aqui no Brasil reduzimos para aniversário, chama-se em Portugal natalício). Finalmente, natale astrum é o astro que preside ao nascimento, portanto relacionado aos signos do zodíaco.

Aqui cabe mencionar que o substantivo natus deriva do radical do particípio natum, do verbo nascor, “nascer”, que por sua vez remonta à raiz indo-europeia *ĝenh1, cujo grau zero (isto é, sem a vogal) acrescido do sufixo incoativo -sk- deu *gnasco em latim arcaico e nascor no clássico. Do mesmo grau zero com redobro do radical saiu gigno, “gerar, parir”. Logo, nascor significava originalmente “ser gerado”. Da mesma raiz indo-europeia temos também o grego génesis, “criação, geração”, palavra de grande simbolismo.

Mas o adjetivo natalis passou a atuar também como substantivo comum, num processo chamado conversão (ou derivação imprópria). É que dies natalis foi reduzido a natalis por economia linguística (assim como o já citado “aniversário natalício” encolheu para “natalício”). E, nessa acepção, natalis era o dia do nascimento de uma pessoa, o próprio ato de nascer e ainda o ano da fundação de Roma.

Mas natalis ganharia ainda dois outros empregos pagãos antes de ser incorporado pelo cristianismo: como designativo do gênio ou deus que preside ao nascimento de uma pessoa e a acompanha durante toda a vida (algo como o nosso anjo da guarda) e como nome próprio masculino (em português também temos pessoas chamadas Natal).

Mas foi na acepção de “nascimento” que Natalis se especializou como denominativo do nascimento de Jesus e, por conseguinte, da festa cristã que comemora esse evento. Tanto que jamais usamos tal substantivo fora desse contexto, para falar do nascimento de outras pessoas que não a figura central do Cristianismo.

Dito isto, só me resta agora desejar votos de felicidades a todos os amigos leitores e seguidores do nosso blog e do nosso canal no YouTube que nos acompanharam ao longo de mais um ano. Feliz Natal!

A etimologia e as eleições

Estamos a menos de uma semana das eleições, e mais uma vez teremos um pleito marcado por tensão, ressentimento e ódio. Mas não é propriamente disso que quero falar. A etimologia das palavras relacionadas ao processo eleitoral é bastante sugestiva das metáforas cognitivas de que lançamos mão para falar de algo essencialmente moderno usando radicais linguísticos que remontam à Pré-História.

Embora “eleição” provenha do latim, e o português seja uma língua latina, essa palavra não existia no português arcaico, tendo sido introduzida posteriormente por via culta. Ela provém do latim electionem, caso acusativo (isto é, forma de objeto direto) de electio, com mutação fonética de ct para it e tradução do sufixo ‑tionem pelo correspondente vernáculo ‑ção. Ou seja, um falante culto do português em algum momento da Idade Média cunhou esse vocábulo por imitação da palavra correspondente latina, fazendo as devidas adaptações fonéticas e morfológicas para aclimatar o termo no português. Quem cunhou a palavra e quando é algo que não se sabe, pois só podemos recuar no tempo até o primeiro registro escrito de que dispomos, datado do século XIII, o qual pode não ter sido o original.

O fato é que o latim electio deriva do verbo eligere, por sua vez composto do prefixo ex, “fora”, e legere, “catar, colher”, provenientes respectivamente do indo-europeu *eks (ou *eghs) e *leg‑. (Para saber mais sobre o indo-europeu, assista ao vídeo A língua mais importante do mundo em todos os tempos no meu canal do YouTube.) Portanto, eleger alguma coisa é extraí-la de seu conjunto, como se faz quando se tira um grão de feijão de um saco.

Já “concorrer”, do latim concurrere, é literalmente “correr juntos” e referia-se à competição esportiva da corrida na Roma antiga. Até hoje a metáfora da competição, inclusive eleitoral, como uma corrida permanece ligada ao verbo “concorrer” e seus cognatos “concorrência”, “concorrente”, “concurso”, etc. A imprensa, por exemplo, volta e meia se refere à “corrida presidencial”.

“Voto” vem do latim votum, particípio do verbo vovere, “prometer, jurar solenemente, fazer um voto (de castidade, por exemplo), fazer votos (de felicidade, etc.)”. Do voto com sentido religioso passou-se ao voto político, que era pronunciado solenemente em voz alta no senado romano. Por sinal, “voto” é da mesma origem que “voz”, e em ambos os casos há a ideia de fala. Por isso mesmo, criou-se a expressão aliterativa “direito a voz e voto”.

Urna, na Roma antiga, era um vaso de gargalo estreito e bojo largo que servia para guardar água, óleo, cinzas e… votos. Por incrível que pareça, urna é da mesma origem que urina, e ambas remontam à raiz indo-europeia *wod‑, “água”, que deu water em inglês e vodka (a água que passarinho não bebe) em russo.

Finalmente, “candidato” vem do latim candidatus, aquele que se vestia de branco (candidus em latim) para concorrer a uma vaga no senado, pois a túnica branca era uma espécie de traje oficial dos políticos da época, assim como o terno hoje em dia. Candidus deu “cândido” e “candura” em português. E como o branco é a cor da pureza, uma pessoa cândida é uma pessoa pura, sem máculas de caráter. Já que cândido é branco, sem manchas, existe até um alvejante de roupas com essa marca. E a lição que fica é que os candidatos a cargos públicos deviam ser pessoas cândidas de caráter, isto é, políticos “ficha limpa”. (Será que eram mesmo?)

“Cândido” é da mesma origem de “candeia”, “candelabro”, incandescente”, “candente”, “incêndio”, etc. E todos provêm da raiz indo-europeia *kand‑, que quer dizer “brilhar”. Como o brilho resulta da luz, que na Pré-História só podia provir do fogo ou do Sol (que também é, grosso modo, uma bola de fogo), daí a relação entre a cor branca e o fogo, ambos dotados de brilho e resumidos na raiz *kand‑.

Como vemos, numa eleição há vestígios de conceitos imemoriais, como catar, correr, voz, vaso, água, brilhar, branco… Só não se pode dizer que haja pureza!

Boa eleição a todos!

A ortografia do português deve ser fonológica ou etimológica?

Todos os sistemas ortográficos já adotados em português sempre oscilaram entre duas posturas: a grafia etimológica, que procura preservar o modo como as palavras se escreviam em grego e latim clássicos, e a grafia fonológica (erradamente chamada de “fonética”, já que o sistema ortográfico deve representar os fonemas da língua, isto é, as unidades distintivas de significado, e não os infinitos e instáveis sons da fala). A primeira postura, defendida já em 1576 por Duarte Nunes de Leão na sua Orthographia da lingoa portuguesa, é evidentemente mais conservadora e exige grande poder de memorização dos falantes, bem como conhecimentos de grego e latim. Já a segunda postura é defendida por aqueles que entendem a língua como instrumento prático de comunicação, cuja escrita deve ser a mais racional e simples possível.

Como um idioma é um misto das duas coisas – instrumento de comunicação e patrimônio histórico e cultural de um povo –, tem-se procurado, na maioria das línguas europeias, um meio-termo entre as duas atitudes. Nesse sentido, substitui-se ph por f, mas mantém-se a distinção entre ss e ç, por exemplo.

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Até aí, nada de errado. O problema são as opções feitas pelos elaboradores de reformas ortográficas sobre o que deve ser mantido e o que deve ser simplificado.

Por exemplo, argumenta-se que “estender” deve ser grafado com s por ser palavra hereditária, isto é, que já fazia parte do acervo lexical dos primeiros falantes do português, ao passo que “extensão” deve ser com x porque é empréstimo erudito. Ou seja, na palavra vernácula deve prevalecer o critério fonológico, enquanto no termo culto deve ser aplicada a regra etimológica.

Esse princípio não faz muito sentido no exemplo dado, visto que “extensão” não é mais, rigorosamente, palavra culta, mas semiculta, pois sofreu metaplasmo (cujo nome técnico é metamorfismo) que igualou sua pronúncia à de “estender”. Exemplo análogo é a palavra italiana estensione, cuja grafia com s se deve exatamente a esse fenômeno, por sinal, abundante naquele idioma.

Mas a questão é: por que substituir o ph de “farmácia” por f, mas manter o x de “extensão”? Em alguns casos, as reformas ortográficas anteriores normalizaram com base na etimologia grafias oscilantes. Assim, se até 1943 “portuguez” e “embriaguez” se escreviam com z, convencionou-se que “português” deveria ser com s, já que nosso sufixo ‑ês provém do latino ‑ensis, enquanto o sufixo ‑ez de “embriaguez” vem do latim ‑ities. Da mesma forma, “quizesse” virou “quisesse” por causa do latim quaesivissem, que é com s, enquanto “fizesse” manteve o z por causa do latim fecissem, sem s.

Nesse caso, toda palavra que em latim tivesse x deveria tê-lo também em português. No entanto, se “texto” e “extensão” se escrevem com x, “misto” e “estender” são com s. E a justificativa não é o caráter culto ou hereditário dessas palavras, pois tanto “texto” quanto “misto” nos chegaram por via erudita. A regra aí é que x só se manteve em vocábulos cultos quando precedido de e (por isso “texto” e também “dextrose”), mas converteu-se em s quando em termos vernáculos (por isso, “destreza”) ou em termos cultos em que não é precedido de e (por isso, “misto”). Dá para entender uma regra dessas?

E se, por razões etimológicas, “portuguez” se tornou “português”, mas “embriaguez” se manteve intacta, então por que “hífen” (do grego hyphen) é com n, mas “devem”, “amém”, “delfim”, “jardim” e “marrom” (respectivamente, do latim debent, amen e delphinus, e do francês jardin e marron) são com m? Isso se aplica até à própria palavra “latim” (de latine)! Aliás, o português é a língua europeia com o maior número de palavras terminadas em m e o menor número em n, na contramão de todas as demais.

E por que quem nasce em Jerusalém é jerusalemita (ou hierosolimita), mas quem nasce em Belém (do hebraico Bethlehem) é Belenense? E por que “albumina” (de “álbum”) é com m, mas “mediúnico” (de “médium”) é com n?

Em resumo, mantivemos a grafia etimológica em alguns casos, mas não em outros. E o critério usado para determinar quais casos são esses permanece obscuro.

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Há ainda uma questão mais delicada do que essa: sendo o português uma língua cujas diferenças de pronúncia entre as diversas variedades (lusitana, brasileira, africana, asiática) vai além do plano puramente fonético, mas atinge o fonológico (isto é, não se trata da mera diferença de pronúncia de um fonema, mas do emprego de fonemas diferentes), a representação gráfica das palavras não deveria ser tão rigorosamente fiel à fonologia da língua quanto o é em espanhol ou italiano, por exemplo. Na verdade, deveríamos adotar um sistema a meio caminho entre os dessas duas línguas e o de idiomas como o francês e inglês, em que a distância entre o que se escreve e o que se diz é bem grande.

Um exemplo disso é a questão do timbre das vogais a, e e o e do consequente uso dos acentos agudo e circunflexo. Em Portugal, grafa-se (e pronuncia-se) parámetro, génio e económico, enquanto aqui no Brasil se diz e se escreve parâmetro, gênio e econômico. Ora, visto que não há oposição fonológica (isto é, distinção de significado) entre vogal aberta e vogal fechada diante de consoante nasal, o que equivale a dizer que as pronúncias nóme, nôme e nõme significam exatamente a mesma coisa, “nome”, seria mais lógico que se adotasse um único acento (o agudo, digamos) tanto lá quanto cá, qualquer que seja o timbre da vogal em cada uma das localidades do mundo onde se fala português. (Nesse ponto, sou até um pouco mais radical: acho que também a grafia do ditongo ão em certos casos deveria encontrar um meio-termo; afinal, o que no Brasil é islã, garçom, acordeom e elétron em Portugal é islão, garção, acordeão e elétrão.)

A conclusão que se tira de tudo isso é que nossa língua vive certos impasses, decorrentes em grande parte do distanciamento cultural e linguístico entre os diversos povos lusoparlantes, impasses esses que dificultam inclusive a difusão internacional do sexto idioma mais falado do mundo e que são dificílimos de contornar, especialmente porque uma reforma radical de nossa ortografia, como tudo o que é radical, é impensável – ou, pelo menos, deveria ter sido feita pelo menos um século atrás.

O ser e o devir

A ontologia é a parte da filosofia que estuda o ser em si, independente de suas qualidades. Um dos primeiros filósofos a se preocupar com a questão do ser foi Parmênides, para quem “o ser é, o não-ser não é”. Essa afirmação algo enigmática pressupõe a imutabilidade do real e a inexistência do nada: a realidade é perene e eterna em sua plenitude, e a mudança que percebemos no mundo, mera ilusão.

Contrapondo-se a essa visão estática do ser, Heráclito afirmou que tudo flui e nada permanece, portanto não se pode atravessar duas vezes o mesmo rio. Estava instaurada a noção de “devir”, isto é, “tornar-se”, do latim devenire, que produziu o francês devenir e o italiano diventare.

Aristóteles procurou conciliar essas duas visões da realidade postulando a diferença entre potência e ato: a realidade é o que é, mas contém também a possibilidade do vir a ser (assim como a semente é uma árvore em potencial).

Se o ser é visto como algo estático, permanente, o devir é a mudança, o movimento. Talvez por isso os verbos que nomeiam esse processo de passar de um estado a outro (de um ser a um não ser e então a um novo ser) estejam relacionados ao deslocamento, seja de longe para perto (do ausente ao presente, diríamos), representado pelo “vir” (latim devenire, inglês become, português “vir a ser”), seja o deslocamento em torno ao próprio eixo (de costas para a frente), como algo que, ao girar, se nos apresenta.

Essa segunda concepção do devir como volta, giro, está presente no grego pélein, proveniente da raiz indo-europeia *kwel, que também deu pólos (polo, eixo), kýklos (círculo) e em latim produziu colere (revolver, cultivar), collum (pescoço), em sânscrito cakram (chacra, círculo) e em inglês wheel (roda).

Além do grego pélein, a ação de tornar-se se expressa em várias línguas com termos que significam “virar, verter”: alemão werden, espanhol volverse e convertirse, além do próprio português “tornar-se” (de “torno”) e “virar”, este último de uso popular. É como se aquilo que se transforma girasse em torno do próprio eixo e, ao completar a volta, fosse outro (como o super-herói disfarçado de cidadão comum que, ao girar rapidamente, ressurge já com sua máscara e sua capa, pronto para combater o mal).

Essa recorrência da imagem do giro como transformação espontânea é o que chamamos de metáfora cognitiva: é tão intuitivo associar mudança a movimento e a mudança de si mesmo ao giro em torno do próprio centro que muitos povos e culturas recorrem a essa concepção para nomear o devir. Talvez a própria percepção de que os movimentos do cosmos são cíclicos nos tenha levado a ver a transformação como ciclo: a realidade é um constante e eterno embate entre o ser e o devir – no fundo, um eterno retorno.