A graça do indulto

Desde que o presidente Jair Bolsonaro concedeu ao seu aliado político, o deputado Daniel Silveira, o indulto individual à pena a que fora condenado pelo Supremo Tribunal Federal, indulto esse chamado tecnicamente de graça, essa palavra veio à baila e ao noticiário nesse sentido em que quase ninguém, a não ser os juristas, a conhecia. Vamos então falar sobre esse vocábulo, um dos mais polissêmicos (isto é, que têm mais significados) da língua portuguesa.

Em primeiro lugar, graça quer dizer favor, mercê. Mas também pode ser benevolência, estima, amizade. Pode ainda, segundo a teologia, ser a participação do homem na vida divina, antes do pecado, assim como um socorro espiritual concedido por Deus. E também perdão, indulgência, indulto (aqui temos o sentido do ato de Bolsonaro). Pode ser algum atrativo pessoal, físico ou moral, um certo charme ou elegância. Pode ser um chiste, uma pilhéria. E ainda o nome de uma pessoa (Qual é a sua graça?). Isso sem falar que há mulheres cujo nome é Graça. Como nome próprio, é também o designativo de três deusas gregas, as três Graças. E de graça quer dizer “grátis”. Pode-se ainda cair nas graças de alguém ou estar em estado de graça. E, até que, no século XVI, o rei de França Francisco I instituísse o tratamento de “majestade” para reis, os súditos se dirigiam ao soberano pelo pronome de tratamento Vossa Graça. Finalmente, é graças à graça presidencial (desculpem o trocadilho) que trato hoje deste assunto aqui no blog.

O que há de comum entre as palavras graça, grato, gratidão, agradecer, agradar, desgraça, desgraçado, engraçado, grátis, gratificar, congratular, agraciar, congraçar, e destas com favor, mercê e obrigado? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical graç‑, graci‑, grat‑ ou grad‑, que remete à raiz latina grat‑, de gratus, “grato, agradecido”. Portanto, o latim gratia, qualidade de gratus, e que deu o nosso graça, era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra favor, da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário (será que hoje essa reciprocidade ainda existe?). E assim temos a explicação de por que dizemos obrigado ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, “de graça” ou “grátis”. Por isso, em espanhol se diz gracias, em italiano grazie e em francês merci (que quer dizer “mercê”, ou seja, “favor”) em lugar do nosso obrigado. Por isso também, a Virgem Maria é “cheia de graça”, de generosidade. E a exclamação “Graças a Deus!” é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, agradar significa “tornar grato, receptivo, simpático”. E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, “engraçado”. Daí que graça também passou a significar “alegria, jovialidade” (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, “hilaridade, comédia”. Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o – financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas, se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça. Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um desgraçado. Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas “infeliz”, assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Voltando ao caso Silveira, é possível dizer que ele foi “agraciado” com o perdão presidencial.

Finalmente, favor, que não tem relação etimológica com graça, mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, favorito, que quer dizer “favorecido”. Assim, quando dizemos que numa licitação pública houve favorecimento a um dos concorrentes, o que estamos dizendo é que a empresa vencedora era favorita desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país. Da mesma forma que anistiar por razões políticas ou pessoais quem é condenado pela justiça não tem a menor graça.

O dengo e a dengue

Ainda nem terminou a pandemia de covid-19, e o Brasil já vê explodirem os casos de dengue, mal que nos assola quase todos os anos dada a dificuldade no combate ao seu transmissor, o mosquito Aedes aegyptii, em parte por descaso de parcela da população, que deixa água acumulada em vasos, latas, pneus, piscinas não tratadas e outros repositórios de água parada que servem de criadouro ao inseto.

Mas de onde veio a palavra que nomeia essa doença? Há uma controvérsia sobre isso. Alguns dicionários trazem dois verbetes distintos com a denominação dengue, o que configuraria um caso de homonímia. Temos então dengue1, proveniente do quimbundo ndenge, cuja forma paralela é dengo, que significa “birra, melindre, faceirice, requebro”. É aquele charminho que as crianças – e também certos adultos, especialmente mulheres – fazem, donde chamá-los de dengosos. E temos também dengue2, de origem castelhana, referente à doença contagiosa propriamente dita.

Só que o dicionário etimológico Corominas da língua espanhola só registra uma entrada para dengue e a ela atribui tanto o significado de “melindre” quanto o de “doença epidêmica”. Segundo essa obra, por sinal um dos melhores dicionários etimológicos que existem, tal palavra seria de origem expressiva na primeira acepção e relacionada a outras, como dingolondango, “mimo”, tenguedengue, “melindre, afetação”, e tenguerengue, “a ponto de cair”. Portanto, justamente aquela acepção que em português se atribui ao quimbundo, língua africana falada em Angola, parece ser tão castelhana quanto a segunda, a de doença.

No entanto, como a palavra data em espanhol de 1732, época em que os colonizadores ibéricos já traficavam escravos da África, não é impossível que a língua espanhola tenha tomado o vocábulo do quimbundo. Quanto aos supostos cognatos dingolondango, tenguedengue e tenguerengue, tudo pode não passar de mera coincidência. Esses impasses deixam louco qualquer etimólogo.

Pelo menos, no Brasil fazemos a distinção entre o dengo, isto é, a qualidade de quem é dengoso, e a dengue, enfermidade que mata pessoas todo ano, de modo que, qualquer que seja a origem da palavra – ou das palavras, caso sejam de fato homônimas –, jamais associamos os sintomas da infecção com uma possível frescura do doente.

De onde vem o nome da Páscoa?

Novamente estamos na Semana Santa e desta vez podemos comemorá-la com um pouco mais de esperança, já que a pandemia de covid-19 parece estar chegando ao fim. Em compensação, passaremos mais uma Páscoa sem que a humanidade esteja totalmente em paz, haja vista a insana guerra agora travada entre Rússia e Ucrânia.

Em todo caso, já que é Páscoa, vamos explorar um pouco a origem do nome dessa festa. O termo Páscoa nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Mas, se o termo latino é Pascha, por que em português temos Páscoa e não Pasca, como seria de se esperar? É que o vocábulo se alterou por influência do latim pascua, feminino do adjetivo pascuus, “próprio para pastagem”, derivado do verbo pascere, “apascentar o gado”. Pascua (subentendido terra) era a terra própria para pastagem, ou seja, o pasto. A causa dessa confusão entre Pascha, “Páscoa”, e pascua, “pastagem” seria o término do período de jejum, que se dava na Páscoa, quando as pessoas podiam enfim voltar a se alimentar, visto que, além de “pasto”, pascua tinha o sentido mais geral de “alimento dos animais” – e, por extensão semântica, dos homens.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou *h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a estrela d’alva ou estrela da manhã).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha ou Pascua, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Então só me resta agora desejar feliz Páscoa a todos!

A cítara e a guitarra

Outro dia, um amigo meu que é roqueiro e toca guitarra elétrica me perguntou a origem da palavra guitarra. Como acho que essa pode ser também a curiosidade de outras pessoas, resolvi responder à sua pergunta neste espaço.

A palavra portuguesa guitarra, que aqui no Brasil empregamos como sinônimo de guitarra elétrica (ou violão elétrico, como se dizia antigamente), significa originalmente apenas “violão”. Esse é o sentido da palavra no português lusitano e também em outras línguas (francês guitare, inglês guitar, italiano chitarra, etc.). O inglês, por exemplo, faz distinção entre electric guitar (a nossa guitarra) e acoustic guitar (o nosso violão).

Aliás, em Portugal o termo guitarra também é empregado para designar um tipo particular de instrumento de cordas característico da música portuguesa – quem já escutou algum fado na vida com certeza ouviu o som da guitarra portuguesa.

Essa palavra nos chegou do espanhol guitarra, igualmente significando “violão” – aliás, a Espanha é o berço do violão moderno, este que conhecemos e que substituiu o alaúde como instrumento de música popular. Mas o espanhol tomou essa palavra do árabe kītâra ainda nos tempos da dominação islâmica na península Ibérica. E agora o mais incrível: o árabe kītâra é empréstimo do grego kithára, que quer dizer… “cítara”. Isso mesmo, a guitarra, elétrica ou não, é neta do alaúde e bisneta da cítara grega, aquele instrumento musical semelhante a uma lira (que, por sua vez, é semelhante a uma pequena harpa).

Um dado interessante: o italiano chitarra proveio diretamente do árabe, ao passo que, nas demais línguas, a origem é o espanhol. É que, na Idade Média, os italianos, em especial os venezianos, comerciavam diretamente com o Oriente, de onde trouxeram a palavra e também o instrumento.

A origem do sorvete

Nesse calor doido que tem feito, resolvi refrescar as ideias e falar sobre a origem da palavra sorvete. Mas antes quero explicar a diferença, em etimologia, entre étimo e origem. O étimo de uma palavra é a palavra, da mesma língua ou de outra, que é sua antepassada direta numa etapa histórica anterior. Já a origem é o termo historicamente mais remoto a que se consegue chegar para traçar a linhagem de uma palavra.

Assim, no caso de sorvete, a origem está no árabe shurba, que passou ao turco sherbet e daí ao italiano sorbetto, que, por sua vez, deu o francês sorbet. O termo português veio do francês e teve ainda a influência analógica do verbo sorver, já que o sorvete é um alimento que se sorve. Portanto, a origem do vocábulo é árabe, mas o étimo é francês.

Nos tempos do Brasil Império, o sorvete era chamado de gelado, como o é até hoje em Portugal e também em outros países: espanhol helado, italiano gelato, alemão Gefrorenes ou Speiseeis, “comida de gelo”, francês glace, “gelo”, inglês ice cream, “creme de gelo”, e assim por diante.

O picolé é um tipo especial de sorvete, que normalmente utiliza água em vez de leite e é servido preso a um palito de madeira ou plástico. Só que em São Paulo é muito comum chamar-se o picolé de sorvete – mas não o inverso.

O dia dos que se finaram

Amanhã é Dia de Finados, e, ao que parece, o nome dessa data em que celebramos a memória de nossos entes queridos que já se foram é um dos poucos exemplos de uso em português atual do substantivo finado, que, como todos sabem, quer dizer “falecido”. Pesquisas por essa palavra no Google demonstram que a ocorrência de finado em contextos outros que não a expressão Dia de Finados (ou simplesmente Finados) é pouco frequente. Antigamente era comum dizer-se “meu finado marido”, “minha finada avó”, mas parece que esse uso está em franca decadência: hoje é muito mais comum dizer “meu falecido marido”, “minha falecida avó”.

Finado é o particípio do igualmente raro verbo finar, derivado de fim. Mais comuns são os verbos acabar, terminar, concluir e mesmo findar, este derivado do adjetivo findo, herdado do latim finitus.

Mas a palavra latina finis, que quer dizer “fim”, produziu derivados na própria língua de Cícero e César. Por exemplo, o verbo finire, “acabar”, que existe até hoje em italiano, bem como seu cognato francês finir e o português de origem espanhola fenecer, “morrer”.

Em francês, tínhamos na Idade Média o verbo finer com o significado de “pagar, quitar uma dívida” (literalmente, “pôr fim a uma dívida”), cujo derivado finances, “pagamentos”, originou o nosso finanças. Desse verbo francês também proveio o inglês to fine, “multar” (o sentido original era “pagar uma multa”).

Ou seja, finados são aqueles que se finaram, isto é, morreram, chegaram ao fim da vida. Trata-se de uma maneira sutil de referir-se à morte. Em algumas regiões do Brasil, esse feriado de 2 de novembro também é chamado de Dia dos Mortos, denominação mais direta e menos cerimoniosa. Tenho a impressão – mas não dados empíricos sobre isso – de que os termos falecido e falecer são em geral usados como eufemismos para abrandar a carga semântica negativa das palavras morto e morrer.

Melhor ainda faz o inglês, que chama à data All Souls’ Day, “Dia de Todas as Almas”, certamente por influência da efeméride celebrada exatamente hoje, 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, ou All Saints’ Day.

Bom feriado!

A origem da palavra “feriado”

Eis que chegou mais um feriado. Mas por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. Feriado deriva de féria, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações segunda-feira, terça-feira, etc., em que feira, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra férias seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de féria, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra féria, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra feira vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, feira passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras teologia e ateu, dentre outras.

Portanto, feira, féria, férias, feriado, festa, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, como o dia de Nossa Senhora Aparecida, comemorado hoje, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, partiu comemorar o feriado, mas com moderação na comida e bebida, para que a festa não se transforme num dia nefasto.

Só o português tem saudade?

Um dos mitos mais arraigados entre os falantes do português é o de que só a nossa língua tem uma palavra para denotar o sentimento de tristeza causado pela ausência de algo ou alguém. Em primeiro lugar, é bom ter em mente que, se nem mesmo dentro de uma língua é possível encontrar sinônimos perfeitos, muito menos quando passamos de um idioma a outro.

No entanto, há expressões equivalentes em várias línguas para o sentimento que chamamos de saudade. Por exemplo, o espanhol tem añoranza, o inglês tem longing e yearning, o alemão tem Sehnsucht e Heimweh… Dizem mesmo que o polonês tem um equivalente exato (embora seja arriscado falar em exatidão em matéria de línguas) para o português “saudade”: é tęsknota.

E para expressar a falta de alguém querido, temos expressões como te extraño (espanhol), I miss you (inglês), tu me manques (francês), e assim por diante. Sem falar em nostalgia, palavra presente em muitos idiomas e originária do grego, em que quer dizer “saudade do lar, desejo de regressar” (de nóstos, “volta para casa”, e álgos, “dor”), sentimento experimentado pelos navegantes que passavam anos longe de casa e da família, como Ulisses na Odisseia (esse sentido também está presente no alemão Heimweh, de Heim, “lar”, e Weh, “dor”). Evidentemente, a nostalgia é, pelo menos para os falantes de português, um tipo específico de saudade: a que sentimos do passado, de um tempo em que éramos – ou pensávamos ser – mais felizes.

Seja como for, a nossa saudade provém do latim solitatem, “solidão”, a mesma palavra que deu o espanhol soledad. O que significa que a saudade estava originalmente ligada ao sentir-se só, abandonado, distante dos entes queridos. Para muitas pessoas, por sinal, estar longe de quem se ama é o mesmo que estar sozinho, ainda que em meio a uma multidão.

Quanto à separação silábica de saudade, os dicionários atuais só admitem sau-da-de. Entretanto, dicionários mais antigos, especialmente lusitanos, admitiam sa-u-da-de, com hiato – e muitos poemas até a época parnasiana trazem grafada a palavra como saüdade, para acentuar a separação entre o a e o u. Essa escansão se deve em parte às necessidades da métrica clássica e em parte a uma aproximação sonora com saúde e saudar (que se conjuga saúdo, saúdas, saúda, etc.). Aliás, o latim solitatem passou primeiro ao português soidade e só depois se tornou saudade. A explicação para essa passagem é obscura, mas uma hipótese plausível é que, assim como temos as variantes louro e loiro, coisa e cousa, soidade admitisse a variante dialetal soudade, que, por dissimilação ou influência de saudar, resultou na nossa saudade. O fato é que, embora o português e o espanhol sejam línguas irmãs, cada uma desenvolveu sua maneira própria de denominar esse sentimento.

O teste e a testa

A etimologia é uma ciência fascinante porque, volta e meia, nos pega de surpresa, revelando relações insuspeitas entre palavras que à primeira vista não teriam qualquer parentesco. Apesar da semelhança fonética, o que poderia haver de comum entre a testa, parte frontal da nossa cabeça, e o teste, isto é, o ensaio, a prova, o exame? Pois essas duas palavras têm muito em comum.

Para entendermos isso, é preciso recuar até o latim testa e testu, respectivamente “vaso de barro cozido” e “tampa do vaso”. Esta última palavra, que também se encontra na forma testum, significa igualmente o vaso e o próprio barro de que é feito, ambos por metonímia. Temos, aliás, em português o desusado testo, com o significado de vaso de barro e de tampa de vaso.

Mas como essas palavras latinas deram testa e teste em nossa língua? É que, como pote ou vaso de barro, testa passou desde logo a ser uma gíria para “cabeça” no latim popular (assim como capitia, “capuz”, que deu cabeça em português, também). Por essa razão, “cabeça” se diz testa em italiano e tête em francês.

Ao mesmo tempo, testu deu o já citado testo em português e têt (antigamente grafado test) em francês, este com os sentidos de pote, vaso e crânio. Acontece que nos domínios da alquimia, test não era um vaso qualquer, mas uma espécie de tubo de ensaio, ou seja, recipiente onde os alquimistas faziam seus experimentos, misturando substâncias (que às vezes explodiam) na busca de remédios miraculosos ou da transubstanciação de metais sem valor em ouro.

Por nova metonímia, test passou a ser não só o tubo de ensaio, mas o próprio ensaio, a prova, o experimento… numa palavra, o teste. Foi com esse sentido que a palavra ganhou o inglês e daí se espalhou pelo mundo (o próprio francês tem hoje a palavra test como empréstimo do inglês, ao passo que têt caiu em desuso).

Em português, o que ocorreu foi que testa, apelido de cabeça, se especializou designando apenas a parte frontal do crânio, enquanto teste nos chegou por via inglesa e, tal qual na língua de origem, sofreu um alargamento semântico, denominando não só testes científicos, mas qualquer tipo de prova, inclusive escolar.

Nesta última acepção, por sinal, teste sofreu um estreitamento semântico, tornando-se a redução da expressão teste de múltipla escolha. Por isso, de certa maneira, quando algum professor diz que aplicará uma prova teste (por oposição à prova dissertativa), está inconscientemente cometendo um pleonasmo, já que teste é em sua origem sinônimo de prova.

Uma advertência: o latim testari não significa “testar” e sim “testemunhar”, sendo derivado de testis, “testemunha”, que é de outra origem e nada tem a ver com vasos ou tampas de vasos, muito menos com cabeça.

Dobrando as palavras

Boa tarde, não sei se a pergunta chega valer um artigo em seu blog, mas aí vai: queria saber qual o significado da raiz “plic” (ou ao menos me parece ser uma só raiz). Percebo que tem um monte de verbos com essa raiz, mas não consigo discernir um conceito comum entre eles. Só agora de cabeça, lembro de: aplicar, complicar, explicar, replicar, suplicar, implicar. Lembro também dos baseados em números, como duplicar e triplicar, mas imagino que estes não sejam da mesma raiz, pois vêm de adjetivos como duplo e triplo, a não ser que os adjetivos é que venham dos verbos…
Um abraço,
Cleverson

Caro Cleverson, sua pergunta vale sim um artigo! E aqui vai ele.

Todos os verbos que você menciona vêm do latim e são derivados de plicare, que significa “dobrar”. É desse verbo que saiu o português prega (de vestido), que é uma dobra no tecido.

Além dos verbos applicare, complicare, explicare, replicare, supplicare, implicare, duplicare, triplicare, etc., também temos em latim os adjetivos formados a partir do elemento de composição ‑plex, ‑plicis, como, por exemplo, simplex, “simples”, duplex, “dúplice”, triplex, “tríplice”, e assim por diante. Ou seja, adjetivos com o sentido de “dobrado uma, duas, três, etc. vezes”.

A par desse elemento ‑plex, há também o elemento ‑plus de simplus, duplus, triplus, que deu em nossa língua duplo, triplo, etc. E ambos os elementos radicam no indo-europeu *‑pel, “dobrar”. Esse radical também aparece no grego haplós, dyplós, etc., que igualmente significa “simples, duplo” e que aparece em português em palavras como haplologia, haploide e diploide.

Agora algumas curiosidades: os apartamentos duplex e triplex (inclusive o do Guarujá) na verdade deveriam chamar-se dúplex e tríplex, mantendo, portanto, a acentuação latina. (Na verdade, é assim que eles se chamam segundo a gramática normativa, que nenhum corretor de imóveis segue.)

E mais, “dobrar” é plegar em espanhol, plier em francês e piegare em italiano, todos provenientes do latim plicare. E também o inglês fold, o alemão falten e o sueco fålla, “dobrar”, são parentes distantes de plicare, já que também provieram do indo-europeu *‑pel.

O nosso verbo chegar também veio de plicare. Mas o que chegar tem a ver com dobrar? É que na Roma antiga a expressão plicare vela significava “dobrar as velas do navio ao atracar no cais”. Com o tempo, plicare passou a significar “chegar ao cais” e, por extensão, “chegar” (a qualquer lugar).

Curiosamente, em romeno, outra língua neolatina, o verbo a pleca quer dizer exatamente o oposto, ou seja, “partir”. É que no latim dos soldados romanos plicare tentorium era “dobrar a tenda” e plicare sarcinam, “dobrar (isto é, fechar) a mochila”, duas atitudes de quem desmonta o acampamento para ir embora.