Receita para viver melhor (nos dias de hoje)

Hoje em dia, fala-se muito em qualidade de vida, mas o fato é que nossa qualidade de vida nunca foi tão ruim. Sem dúvida, há muitos fatores que deterioram ou mesmo podem dar cabo de nossa estadia neste planeta e são inevitáveis: poluição atmosférica (a menos que você viva no meio do mato), mudança climática, guerra nuclear, pandemias, criminalidade, domínio total dos seres humanos pela inteligência artificial… Mas há também muita coisa que podemos fazer para ter uma vida melhor, e não estou me referindo a ter uma alimentação saudável ou praticar exercícios físicos, o que, com certeza, também é muito importante. Refiro-me a certas atitudes que, nos dias atuais, são essenciais para preservar sobretudo nossa sanidade mental.

Primeiro, se você é uma pessoa seletiva, que gosta de ter conversas inteligentes sobre temas relevantes, afaste-se das pessoas tóxicas e sem conteúdo, que nada lhe acrescentam. Tenha um pequeno e seleto grupo de amigos (lembre-se, o importante é qualidade, não quantidade), de preferência com o mesmo nível cultural que você (mais um adendo: nível cultural é diferente de grau de escolaridade, hein!), que curtam as mesmas coisas que você curte e que sejam leais e sinceros, não “amigos da onça”. Quando você precisar, e também quando não precisar, eles estarão lá. E um lembrete: os amigos são a família que escolhemos ter. Vizinhos, parentes e colegas de trabalho não são necessariamente amigos; as mais das vezes, são ameaças.

Em segundo lugar, ouça boa música. Pagode, sertanejo, funk, forró, esqueça! Anitta, Marília Mendonça, Luísa Sonza, Pablo Vittar, MC Não Sei O Quê…, se você já ouviu falar, finja que nunca ouviu. Use uma plataforma de streaming para selecionar uma playlist que valha a pena ser ouvida. Ou, melhor ainda, compre um aparelho de som tudo em um e visite regularmente sebos de discos; há excelentes CDs e LPs por preço módico.

Tenha uma TV por assinatura (TV aberta, nem pensar!) e só assista a canais que veiculem cultura: filmes (de preferência mais antigos) que não sejam blockbusters, séries que não sejam pastelão ou bubble gum, música que não seja rap ou hip hop, viagens, culinária, ciência, história, literatura, debates de alto nível sobre temas da atualidade. Se bem que vai ser difícil achar canais assim, mesmo na TV a cabo. Mas tente.

Ainda falando sobre televisão, no intervalo comercial, tire o som ou mude de canal. Além de os anúncios estarem ficando cada vez mais irritantes, com trilha sonora de funk e locutores berrando, lembre-se: a publicidade visa aos interesses do anunciante e não aos seus.

Além disso, leia bons livros, tanto de ficção quanto de não ficção. Obviamente, Harold Robbins, Dan Brown, Paulo Coelho e best sellers em geral estão fora. Autoajuda e esoterismo idem.

Tenha nos seus telefones (fixo e celular) sistemas de bloqueio de chamadas; autorize apenas chamadas dos seus entes queridos. Pode bloquear o resto sem pena: o resto, no caso, é telemarketing ou golpes.

Por falar em celular, use-o o mínimo possível. Mantenha-o ligado apenas em horário comercial, das 9 às 18 horas; depois disso, esqueça que ele existe. Com as redes sociais, faça o seguinte (eu faço isso): no Facebook, só poste quando tiver algo realmente relevante para postar (o prato que você vai comer no restaurante não está incluído nesse quesito) e nunca veja o que os outros postam; com certeza é só bobagem. No Instagram, siga apenas quem é realmente importante para você e ignore os perfis patrocinados e as recomendações da plataforma; eles só fazem você perder tempo. Do TikTok, X e similares, passe longe. No YouTube, busque conteúdo semelhante ao que recomendei em relação à TV fechada.

Se for possível optar entre tecnologia digital e o bom e velho método analógico, escolha o segundo. No menu eletrônico, vá o mais depressa possível (e nem sempre é possível) para a opção “falar com atendente”; por mais ignorante que seja o rapaz ou moça do call center, pelo menos são humanos, portanto dotados de uma inteligência que nenhum robô, menu eletrônico, bot ou IA possui.

Se você mora em cidade grande, evite ao máximo sair de casa; o delivery existe para isso. Trânsito caótico, motoboys enfurecidos, fumaça de óleo diesel, buzinas, pra quê? Se precisar mesmo sair, chame um táxi ou uber; pelo menos, não será o seu retrovisor que o entregador por aplicativo vai destruir.

Outra coisa: não assista a telejornais nem leia sites de notícias: eles só o(a) deixarão deprimido(a). Visto que você não pode mudar o mundo, tomar conhecimento de suas mazelas só vai lhe fazer mal. Evite especialmente o noticiário de política, afinal já bastam os golpes que malandros comuns tentam lhe aplicar, que dizer dos malandros de colarinho branco?

Por falar em política, não assista à propaganda política na TV nem tome conhecimento dos candidatos. Vote nulo em todas as eleições. Mesmo que você decida votar num candidato honesto e com boas ideias, lembre-se: bons políticos são uma ínfima minoria e, mesmo quando eleitos, pouco ou nada podem fazer. Aliás, duvido que haja um número suficiente de bons políticos para preencher as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e as 81 do Senado. Portanto, os pilantras sempre serão maioria.

Ah, e se você é uma pessoa sociável, que gosta de puxar conversa com estranhos ou que é receptivo quando estranhos puxam conversa com você, fique atento: jamais discuta assuntos polêmicos, como religião ou Lula x Bolsonaro. Se o assunto descambar para tais temas, peça licença, finja que vai ao banheiro e desapareça.

Enfim, estes são alguns conselhos que eu dou de graça e princípios que eu mesmo pratico. Talvez eles não tornem sua vida melhor, mas pelo menos podem torná-la mais suportável. Boas festas!

Palavras que inexplicavelmente sofreram evolução irregular em português

Quem estuda a formação histórica da língua portuguesa nos cursos de Letras (eu estudei isso ainda no ensino médio, que então se chamava segundo grau ou colegial) aprende que as consoantes surdas intervocálicas do latim se tornam sonoras em português e que as sonoras do latim desaparecem na nossa língua, com exceção do b, que vira v, e do m, que se mantém. (Surdas são as consoantes que não fazem vibrar as cordas vocais, como /p/, /t/, /k/, /f/ e /s/; sonoras são as que fazem vibrar, como /b/, /d/, /g/, /v/, /z/, /l/, /m/, /n/ e /r/.)

Assim, o latim crudus deu primeiramente cruu e depois cru, gelare deu gear, granum deu grão, lana passou a lãa e então a , persona evoluiu para pessõa e a seguir para pessoa.

No entanto — e isso é algo que intriga os historiadores da língua —, algumas palavras não sofreram esse processo, tendo mantido intactas consoantes sonoras intervocálicas que deveriam ter caído e que, por sinal, caíram em línguas irmãs do português. Foi assim que o latim valere deveria ter dado *vaer, mas deu valer. Do mesmo modo, pilus daria *peo e depois *peio, mas deu pelo; minus e minor resultaram em menos e menor (há indícios de que houve na Idade Média a forma mẽos, que teria evoluído para *meios, gerando confusão com a já existente palavra meios, do latim medios, o que explicaria o empréstimo da forma espanhola menos — em espanhol, o n entre vogais não caía).

Igualmente, o g se conservou em pago, pagão (habitante do pago), praga, chaga, estragar, negar, regar, sugar, fugir, fugidio, frigir e negro, respectivamente do latim pagus, paganus, plaga, *stragare, negare, rigare, sugare, fugere, fugitivus, frigere e niger. Nesse ponto, o espanhol também foi conservador em certas palavras: o latim plaga, paganus, negare, niger, gradus, nodus, nudus e nidus deram respectivamente llaga, pagano, negar, negro, grado, nudo, desnudo e nido. Nesses quatro últimos casos, o português eliminou a consoante: grau, , nu, ninho (< nĩo).

Algumas explicações têm sido aventadas para a não ocorrência da síncope (queda) de certas consoantes. Nos casos de pagão, praga e chaga, os falantes teriam evitado um encontro aa desagradável de pronunciar: *paão, *praa e *chaa, que naturalmente evoluiriam para pão, prá e chá. Em outros casos, também a possível convergência formal com outras palavras já existentes, gerando homonímia, teria sido a causa de os falantes pronunciarem essas palavras com mais cuidado, evitando o emudecimento da consoante, ou mesmo de terem reintroduzido na língua as formas latinas ou introduzido as espanholas depois que a homonímia já havia ocorrido — e causado confusão. Mas há ainda muitos casos sem uma explicação plausível, o que dá ensejo a muitas futuras pesquisas.

Palavras injustiçadas

Como você se sente quando toma conhecimento de que uma pessoa inocente foi condenada e encarcerada por um crime que não cometeu? Você fica indignado, não? Pois é isso o que anda acontecendo com muitas palavras e expressões da nossa língua, cujo exemplo mais recente publiquei aqui mesmo na semana passada.

Palavras e expressões que nunca tiveram qualquer caráter discriminatório ou ofensivo, ou que o tiveram séculos atrás e o perderam, de modo que ninguém mais tem consciência disso, vêm sendo constantemente “canceladas”, inclusive por órgãos oficiais, sem direito a defesa, com base apenas em pseudoetimologias, as mais das vezes criadas por agentes do movimento woke, ou na alegação de que alguém se sentiu ofendido por elas.

Tenho criticado muito essa atitude de autoridades, como tribunais de justiça, associações de classe, sindicatos, universidades e até ministérios, que se deixam levar por alegações sem prova ou por provas manipuladas apenas porque quem as apresenta tem força política ou usa da estratégia da vitimização (que eu chamo de “mimimização”) para fazer valer a sua versão dos fatos, inclusive calando vozes discordantes sob o argumento autoritário de que elas não têm “lugar de fala”. Mas hoje quero destrinçar melhor essa questão e mostrar por que tais atitudes são obscurantistas, já que se baseiam em pseudociência, e antidemocráticas.

Há quatro tipos de palavras ou expressões: as que não são nem nunca foram discriminatórias ou preconceituosas (por exemplo, caderno, azul, caminhar, fazer as contas, salvo melhor juízo), as que são e sempre foram ofensivas (calhorda, serviço de preto, vá para o Inferno), as que um dia foram pejorativas, mas deixaram de sê-lo, e as que não o eram, mas passaram a sê-lo. É destes dois últimos tipos que quero falar, pois são eles o alvo principal da discussão.

Muitos termos que hoje usamos para insultar pessoas nasceram no âmbito da medicina e eram meros termos técnicos que designavam doenças. Por exemplo, idiota, imbecil e retardado eram termos psiquiátricos hoje abandonados por pressão social sobre os médicos a partir do momento em que se popularizaram e se tornaram xingamentos. Tais termos foram substituídos por outros, o que não impede que estes também caiam no uso popular e ofensivo. Há hoje em dia quem se incomode com a palavra neurótico, por exemplo. Às vezes, um termo é substituído por outro tão anódino quanto o primeiro. É o caso de criança excepcional, que deu lugar a criança especial (qual a diferença entre excepcional e especial, duas palavras, por sinal, que também se usam para elogiar: um cantor excepcional, uma data especial?).

A palavra cretino, hoje um xingamento, tem uma origem particularmente interessante: veio de um dialeto francês medieval em que crétin significava “cristão”. Era assim que as pessoas se referiam a crianças abandonadas ou enjeitadas que eram acolhidas pela Igreja. Portanto, uma palavra piedosa que encobria a situação de vulnerabilidade social — para usar um termo da moda — da pobre criança. Era assim que as crianças de orfanato eram chamadas, sem nenhum preconceito ou sugestão deploratória. Com o tempo, o vocábulo francês crétin passou a ser usado pelos médicos para referir-se não só a órfãos, mas também a adultos recolhidos em manicômios. Mesmo assim, cretino era originalmente o indivíduo acometido de cretinismo, isto é, falha no desenvolvimento mental e cognitivo. É daí que surge o uso insultuoso da palavra. Evidentemente, ninguém que hoje se refira a um desafeto como cretino pode alegar em sua defesa que estava apenas fazendo um diagnóstico médico, sem nenhuma conotação depreciativa.

Pois se isso é assim em relação a palavras positivas ou neutras que se tornaram negativas, o mesmo deveria valer para palavras negativas que se tornaram neutras ou até positivas. Em sua origem, sofisticado significava “cheio de sofismas, de falácias, de mentiras”; um argumento sofisticado era um argumento falacioso, tipicamente utilizado pelos antigos sofistas para vencer uma discussão. Hoje sofisticado é algo bem elaborado, requintado, chique. Já formidável significava “terrivelmente cruel, implacável”; hoje é algo sensacional. Aliás, bárbaro era alguém desprovido de civilização (ainda hoje se fala em crime bárbaro), mas também chamamos (ou chamávamos, nos anos 1960) de bárbaro àquilo que nos causa admiração pela beleza ou qualidade.

Uma palavra como boçal, recentemente proscrita pela Advocacia-Geral da União por ser supostamente racista, como relatei semana passada, é um caso interessante. Há três possíveis etimologias para boçal, e nenhuma delas tem conotação racista. A primeira diz que proviria do latim vulgar *buccealis, jamais documentado e derivado de bucca, “boca”. Seria um artefato para ser usado na boca ou focinho dos animais. Como nunca foi atestada, essa origem é bem pouco provável, até porque não derivaria diretamente de bucca e sim de um adjetivo *bucceus, “bucal”, que igualmente nunca foi registrado.

A segunda hipótese é que provenha do italiano bozza, pedra grosseiramente talhada, de formato irregular; portanto, boçal é algo tosco, rude. O fato é que o adjetivo *bozzale, do qual proviria o português, nunca existiu. E a palavra portuguesa boça significa “cabo, corda”, logo nada a ver com o sentido italiano do termo. Aliás, a primeira acepção de bozza é “calombo”, que deu o português bossa, “corcunda”, e na gíria, “talento, aptidão, tino”, depois especializado em “aptidão para a música e a dança, gingado” (daí a Bossa Nova).

A terceira teoria aponta para o espanhol bozal, de boza, “buço”. O bozal era uma espécie de cabresto que se prendia ao focinho (buço) dos animais. Como buço é uma característica dos adolescentes, bozal referia-se a alguém inexperiente e, por conseguinte, desajeitado. Esta é a etimologia mais provável e aceita pelos estudiosos.

De fato, no período escravagista, boçal era o termo que denominava escravos recém-chegados às Américas, que ainda não sabiam falar a língua do colonizador. Portanto, referia-se a um escravo (ou, se preferirem, escravizado) novato. Só que o termo já era utilizado para brancos inexperientes bem antes do período da escravidão. Então, boçal é de fato ofensivo, mas não necessariamente racista. O mesmo se dá com gringo, denominação pejorativa de qualquer estrangeiro, que até o momento não foi censurada pelo simples fato de que os gringos que visitam nosso país ou para cá imigram em geral não são negros. Além disso, quem atualmente xinga o outro de boçal — mesmo que o outro, no caso, seja negro — não tem nenhuma intenção racista simplesmente porque ignora que um dia essa palavra foi aplicada a escravos negros — assim como você, leitor, aposto, também não sabia.

Mas, quando suas pseudoetimologias são desmontadas, os defensores do identitarismo se refugiam em argumentos do tipo “mesmo que a palavra em questão não seja intrinsecamente ofensiva, se eu me sinto ofendido com ela, é quanto basta para censurá-la ou processar você”. Esse argumento é perigosíssimo por dois motivos. Primeiro, porque coloca a opinião pessoal acima dos fatos. Nesse sentido, se eu acredito que a Terra é plana ou que vacinas provocam autismo, tenho o direito de punir quem acha — ou melhor, sabe — que a Terra é redonda, bem como alastrar pânico na população que antes se vacinava, causando epidemias e levando a saúde pública ao colapso. Segundo, porque qualquer pessoa pode alegar sentir-se ofendida por qualquer palavra ou expressão. Se eu inocentemente digo que fulano é um touro, referindo-me ao seu vigor físico, ou que sicrano é um leão graças à sua coragem, o dito-cujo pode alegar que ser comparado a um animal é indigno. E aí fica a critério de um juiz, de cuja cabeça, assim como do bumbum de um bebê, nunca se sabe o que vai sair, e que não entende nada de linguística, decidir a questão. E os juízes sempre tendem a dar razão ao queixoso, não ao réu. Em resumo, seria a subversão total do princípio do Direito, em que sempre cabe o contraditório e em que a prova técnica sempre se sobrepõe às alegações de uma ou outra parte.

Mas o fato mais escandaloso é que há na academia pseudoespecialistas em língua que endossam falsas etimologias porque militam a favor da agenda woke — e as universidades brasileiras estão repletas deles. Se um desses maus cientistas for convocado para testemunhar a favor de um “oprimido linguístico”, certamente despejará sobre o magistrado um amontoado de fake news identitaristas sob o argumento de autoridade, afinal, como estudioso do assunto, é ele que tem a última palavra.

O fato de que essa pregação mentirosa esteja fazendo a cabeça de autoridades dos três Poderes da República, da imprensa, de estudantes e do público incauto em geral é o que é verdadeiramente alarmante.

O “index” da AGU de Lula

Na Idade Média, durante o período da Inquisição, a Igreja Católica publicou o Index Librorum Prohibitorum, ou Índice dos Livros Proibidos, que listava as obras que os cristãos estavam proibidos de ler porque iam contra a fé católica e os dogmas da Igreja. Desde então, a palavra index passou a designar qualquer lista negra de publicações, palavras ou expressões a serem banidas pelas mais diversas razões.

Pois eis que agora a Advocacia-Geral da União (AGU), sob o comando do (talvez) futuro ministro do STF Jorge Messias (ou seria Bessias?), lançou o index das palavras e expressões que servidores do órgão estão proibidos de usar em suas comunicações oficiais por serem supostamente racistas, cabendo advertência, obrigatoriedade de aulas de “letramento racial” e, em último caso, processo judicial.

A lista inclui itens como mulato, denegrir, escravo, lista negra (que eu usei sem culpa mais acima) e até não sou tuas negas (fico a imaginar alguém da AGU usando essa expressão num ofício, despacho ou parecer). Seguem mais algumas:

  • a coisa tá preta (também é pouco provável que alguém use isso num documento oficial);
  • humor negro, a ser substituído por humor ácido ou macabro;
  • magia negra (as bruxas europeias da Idade Média sem dúvida eram racistas!);
  • mercado negro (os comerciantes venezianos do século XIII também eram racistas).

Portanto, se trabalho na AGU, não posso me referir aos escravos da Grécia ou Roma antigas ou aos escravos judeus no Egito, tantas vezes mencionados na Bíblia que o tal Messias, terrivelmente evangélico que é, tanto lê, senão como escravizados. Ou talvez melhor até como escravizados, escravizadas e escravizades.

Tampouco posso usar o termo mulato, que nada tem a ver com mula, já que vem do árabe muwallad, filho de branco e mouro. Nem denegrir, do latim denigrare, palavra já existente antes do contato dos romanos com os africanos. Nem criado-mudo, nem meia tigela, nem ovelha negra (como se sabe, as ovelhas são brancas, portanto quem criou essa expressão, em tempos imemoriais, para referir-se a um ponto totalmente fora da curva escolheu a cor preta não por razões raciais, mas porque é o antônimo de branco, a cor mais distante daquela no espectro luminoso; o efeito não seria o mesmo se a ovelha em questão fosse azul, rosa, verde…).

Além disso, substituir, por exemplo, lista negra por lista proibida, lista suja, etc., como sugere a normativa da AGU, inventa expressões que não existem nem em nossa língua nem em outras, em que termos como o inglês black list e dumb servant já estão consagrados há séculos, muito antes do advento da escravidão africana e do colonialismo.

Pois bem, se essas palavras e expressões (com exceção de não sou tuas negas, que, como disse, é improbabilíssima em documentos oficiais) nada têm de racistas, como o comprova a etimologia séria e científica, não a pseudoetimologia dos movimentos sociais identitaristas, qualquer sanção ao servidor que as usar será injusta e passível de questionamento judicial. E mais, se o infeliz servidor for, ele, alvo de processo jurídico, poderá convocar etimólogos sérios e de respeito como testemunhas de defesa. Eu mesmo me disponho a testemunhar em favor desses réus se for preciso. Como diz um princípio basilar do Direito, infelizmente nem sempre seguido pelo Judiciário brasileiro, “contra provas não há argumentos”. E a boa etimologia tem fartas provas de que essas listas negras — digo, afrodescendentes — de palavras e expressões “canceladas” não passam de panfletagem woke sem nenhuma base factual.