Negacionismo científico e negacionismo político

Semanas atrás, recebi um comentário a um vídeo do meu canal do YouTube Planeta Língua intitulado “A palavra é… negacionismo”. Nesse vídeo, explico a origem e o significado da palavra, que se tornou tão corrente desde a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA em 2016. O comentário em questão afirmava que negacionismo é um termo pejorativo criado pela esquerda para depreciar, humilhar e intimidar a direita. Em outras palavras, o que o comentador do vídeo, indisfarçavelmente de direita, sustenta é que negacionismo não existe, trata-se de uma acusação vazia, o que implica que as posições que os supostos negacionistas defendem são legítimas.

Vamos então primeiramente falar sobre a origem do termo e do porquê de sua criação. A palavra negacionismo foi cunhada em francês (négationnisme) pelo historiador Henry Rousso em seu livro de 1987 A síndrome de Vichy, em que ele o aplica à atitude política de certos membros da direita francesa de negar a existência do Holocausto. Portanto, o termo negacionismo nasceu no âmbito da história e, por isso mesmo, é por vezes chamado de negacionismo histórico.

Na década de 1990, por ocasião dos debates sobre as mudanças climáticas, surgiram os negadores dessas mudanças, os chamados “ambientalistas céticos”. A partir daí, a comunidade científica, especialmente nos EUA, passou a empregar o termo negacionismo (em inglês negationism) em relação a esses céticos. Surgia o negacionismo científico.

Portanto, negacionismo é a postura de negar a realidade e, em especial, fatos cientificamente comprovados como forma de fugir de uma verdade incômoda.
É o triunfo da opinião sobre o fato. O negacionismo se distingue da simples negação porque rejeita uma tese mesmo que ela seja empiricamente comprovável e mesmo já esteja provada um sem-número de vezes. De certa forma, o negacionismo é primo-irmão das teorias conspiratórias. Os adeptos dessas teorias, chamados de conspiracionistas, sustentam que a comunidade científica internacional, denominada depreciativamente por eles mainstream científico, é fechada a novas ideias e rejeita sistematicamente teorias alternativas, como a de que a espécie humana é descendente de extraterrestres ou então teses criacionistas como o design inteligente, por exemplo. Na opinião desses conspiracionistas, a comunidade científica não seria nada mais do que uma máfia.

A questão é que o que eles chamam de mainstream é, na verdade, o conjunto majoritário de pesquisadores do mundo todo que baseiam seus conhecimentos no método científico, isto é, nos dados resultantes de experimentos nos quais uma hipótese é posta à prova e, se contradita pela experiência, é descartada. Essa comunidade de pesquisadores é responsável por estudos minuciosos, rigorosamente planejados e controlados, e sobretudo tão neutros e imparciais quanto possível, o que significa que nenhum resultado é privilegiado a priori, mas as teorias têm de se dobrar ante os fatos, e, se uma teoria entra em contradição com a realidade mostrada pelos resultados empíricos, errada está a teoria, não a realidade.

O ambiente científico é tão controlado que qualquer publicação séria tem de passar primeiro pelo crivo de pareceristas contratados pelo periódico ao qual o artigo é submetido, pareceristas estes de alta reputação científica, que fazem uma análise duplo-cego: nem o parecerista sabe o nome do autor do artigo nem vice-versa. Se aprovado e publicado, o artigo passa agora pelo crivo de toda a comunidade científica; o experimento ali descrito pode ser replicado por qualquer um, e os resultados obtidos devem ser os mesmos relatados no artigo. Se não forem, algo está errado. Logo, uma fraude científica cedo ou tarde é desmascarada. Este é o verdadeiro mainstream da ciência.

Por sinal, é a ele que devemos toda a evolução tecnológica do mundo atual, desde medicamentos para as mais diversas doenças até os modernos meios de transporte e comunicação, dentre tantas outras inovações. Ou seja, se as teorias científicas vigentes estivessem erradas e as “alternativas” é que fossem corretas, certamente ainda estaríamos na Idade Média. O grande problema dessas teorias alternativas, que, a rigor, nem teorias são, mas meras hipóteses, é que elas não têm suporte em dados empíricos, o que equivale a dizer que elas não apresentam provas de sua veracidade, são meros argumentos que podem convencer os mais ingênuos, mas não resistem a um teste mais rigoroso.

Em resumo, ao contrário do que afirma o comentador do meu vídeo, negacionismo não é uma pecha injusta criada pela esquerda política para depreciar direitistas, é uma acusação feita pelas pessoas de bom senso, que aceitam verdades sobejamente provadas, contra as que não as aceitam. O negacionismo é, pois, uma vertente do obscurantismo.

Mas o negacionismo não existe só na ciência, como na história (negação do Holocausto), na biologia (negação da evolução das espécies), na ecologia (negação do aquecimento global) ou na medicina (negação das vacinas); ele existe também na política. A atitude de negar os resultados de pesquisas eleitorais feitas por institutos sérios, com metodologia científica, apenas porque o candidato de sua preferência não está na liderança dessas pesquisas ou, pior, negar o resultado de eleições limpas e seguras, altamente monitoradas até por organismos internacionais, alegando fraude, jamais comprovada, apenas porque seu candidato não venceu, é uma forma de negacionismo político. Por conseguinte, o negacionismo político anda de mãos dadas com o golpismo. Aliás, todos os golpistas partem de uma mentira que eles sustentam como verdade para justificar seu golpe. A alegação de Putin de que o governo ucraniano é neonazista serviu de justificativa para a invasão da Ucrânia. Desde então, o governo russo nega verdades amplamente documentadas pela imprensa como a de que os mísseis russos miram alvos civis ao mesmo tempo que sustenta inverdades como a de que não há uma guerra e sim uma operação militar especial, o que quer que isso signifique.

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Antes que algum bolsonarista me acuse de ser esquerdista, comunista ou “mortadela”, quero esclarecer que sou politicamente de centro e no primeiro turno não votei nem em Lula nem em Bolsonaro. Logo, minhas considerações não têm nenhum caráter sectário ou ideológico, mas são na verdade a mera constatação de uma patologia social de nosso tempo chamada extremismo.

Cultura é artigo de consumo?

Outro dia, em sua coluna Sala de Música, na rádio CBN, o produtor musical João Marcello Bôscoli explicou que a palavra cultura veio do latim colere, que significa “cuidar, cultivar”, e que consumir veio de consumere, que quer dizer “consumir, gastar, destruir”. A partir daí, defendeu a tese de que não se deveria dizer “consumir cultura”, já que isso implicaria a ideia de destruição. Em vez de “consumir música” ou “consumir teatro”, ele sustenta que deveríamos voltar a dizer, como antigamente, “ouvir música”, “assistir ao teatro”, e assim por diante.

As informações etimológicas passadas por ele estão corretas, mas palavras ganham novos significados ao longo de sua história. Assim, se na Roma antiga consumir tinha o sentido exclusivo de gastar e destruir (por exemplo, “as chamas consumiram completamente o edifício”), com o tempo passou-se a empregar o termo referindo-se ao consumo de alimentos, que não deixa de ser uma destruição: destruímos os alimentos ao comê-los para nos mantermos vivos e saudáveis. Mas já que, para comê-los, é preciso primeiro comprá-los – a menos que tenhamos uma propriedade rural que nos forneça todos os recursos alimentícios de que precisamos –, consumir tornou-se sinônimo de comprar, adquirir. E, na sociedade de consumo em que vivemos, em que tudo, inclusive a cultura, virou produto, não é estranho pensar-se em consumir música, teatro, dança, livros, etc.

Aliás, a cultura não deixa de ser uma espécie de alimento – para o espírito, no caso. Assim como devoramos uma fruta, e ela, além de nos alimentar e nutrir, nos dá prazer com seu sabor e suculência, a cultura é algo que devoramos (quem nunca “devorou” um livro ou um disco?) e que nutre nosso espírito, ampliando nossos horizontes mentais. Uma vez comida, a fruta se transforma inexoravelmente em excremento, mas suas vitaminas alimentam nossas células e garantem nossa vida. Uma vez lido, um livro pode até virar calço de mesa, mas seu conteúdo nutriu nossos neurônios e fez mesmo nascerem novos.

Concordo com Marcello que, em tempos em que o consumismo domina as relações sociais e em que também há forte reação contra ele por parte de setores mais esclarecidos da sociedade, falar em consumir cultura pode soar mercantilista ou, no mínimo, fútil. Quem consome não frui, e a cultura deveria ser antes de tudo fruição. Então me lembro de que meu pai, ao ouvir na TV certos roqueiros dizerem que faziam um som, retrucava afirmando que antigamente se fazia música e que os “cabeludos” de hoje em dia (esse “hoje em dia” já faz algumas décadas) só fazem som, isto é, barulho. Pois o “som” que tanto incomodava meu pai atualmente é rock clássico. Imaginem, se ele fosse vivo hoje, o que diria do funk proibidão!

Por outro lado, também podemos despir o termo consumo de seu véu capitalista selvagem e vê-lo como algo que sempre existiu. Afinal, em todas as épocas os artistas tiveram de vender suas criações para sobreviver. Quer fossem sustentados por mecenas ou vendessem seus livros e quadros, bem como recitassem seus versos em praça pública, alguém pagava para lê-los, ouvi-los, assisti-los (assistir a eles, como manda a gramática normativa, é muito feio): a arte, assim como a filosofia e, mais tarde, a ciência, também era um produto vendido no mercado. Van Gogh, que vendeu um único quadro durante a vida, ficaria feliz de saber que suas pinturas hoje são comercializadas aos milhões de dólares. Mozart não desgostaria do fato de suas composições serem vendidas em lojas de CDs (as que ainda existem) ou baixadas em plataformas de streaming. Os poetas gregos cantavam seus poemas acompanhados da lira (o violão da época) na ágora ateniense em troca de moedas e do aplauso dos espectadores. O que há de errado nisso?

Por mais etéreas que sejam, ou pretendam ser, certas criações culturais, seus autores precisam comer, vestir-se, locomover-se, pagar contas… Logo, tudo é produto, tudo é consumível, devorável, digerível e tudo – alimentos ou livros – é nutriente de nossa vida.

O planeta tem esse nome porque é plano?

Parece incrível, mas em pleno século XXI ainda tem gente acreditando que a Terra é plana: são os terraplanistas, que, juntamente com os antivacinistas, formam a maior parte dos chamados negacionistas (o sufixo ‑ista de todos eles evidencia que são seguidores de ideologias ou doutrinas e constituem verdadeiros movimentos – ou seitas).

Existem negacionistas menos populares que esses dois tipos acima, como os que negam a morte de Elvis Presley e os que negam a morte de Hitler (claro, o Führer está vivo e forte aos 133 anos de idade!). Ao contrário, há aqueles que acreditam que Paul McCartney morreu em 1967 e quem está até hoje gravando discos e fazendo shows em seu lugar é um impostor.

Mas um dos comentários mais hilários que li de um terraplanista é que o planeta Terra se chama planeta justamente porque é plano. Tudo bem que nossos antepassados da Antiguidade ou da Pré-História pensassem que a Terra é chata, afinal a extensão de território que eles conseguiam percorrer era pequena demais para perceber a curvatura do nosso corpo celeste. Mesmo o horizonte marítimo visto da praia parece retilíneo, mas Aristóteles sabiamente já argumentava que, se a Terra fosse de fato plana, os navios não desapareceriam no horizonte. E os eclipses mostravam sobre a Lua a sombra circular da Terra, o que os gregos também já haviam percebido. Aliás, foi na Grécia antiga que, pela primeira vez, se mediu a circunferência da Terra. O autor do brilhante feito foi o matemático e astrônomo Eratóstenes de Cirene, e seu erro em relação à medida atual foi de apenas 300 quilômetros!

Mas, se os gregos já sabiam que nosso planeta é esférico, porque lhe deram justamente o nome de planeta? A resposta é simples, pelo menos para quem estuda etimologia e sabe um pouco de grego: é que a palavra grega planétes, que deu nosso planeta, não tem nenhum parentesco com o latim planus, que deu o português plano. Na verdade, planétes quer dizer “viajante”, do verbo plánasthai, “vagar, viajar”. Ou seja, os gregos não só sabiam que os planetas são esféricos como também que se movem no espaço. É verdade que o modelo geocêntrico de Ptolomeu colocava a Terra no centro do mundo, portanto numa posição imóvel em torno da qual os outros planetas giravam. Logo, a denominação planeta inicialmente não se aplicava à Terra. Foram os astrônomos renascentistas, a partir de Copérnico, que compreenderam que o centro era o Sol e que a Terra também se movia (eppur si muove, “e no entanto se move”, teria dito Galileu após ter abjurado do sistema heliocêntrico perante a Santa Inquisição a fim de preservar a própria vida). Portanto, agora a Terra também era um planeta, isto é, um viajante, um corpo errante no Universo.

Infelizmente, 400 anos depois disso e malgrado os esforços empreendidos e os riscos corridos pelos cientistas, ainda tem gente acreditando que a Terra é plana. E usando da falsa etimologia, ou etimologia de botequim, para sustentar sua esdrúxula teoria.

Linguística e espiritismo

O espiritismo é uma religião considerada por muitos de seus adeptos como ciência, já que lida com fenômenos observáveis, como mediunidade, telecinesia (movimentação de objetos a distância), xenoglossia (capacidade de falar línguas estrangeiras sem conhecê-las) e psicografia, dentre outros. O espiritismo, assim como outras correntes espiritualistas, é uma religião, dado o seu caráter doutrinário, fortemente ligado ao Cristianismo. Ao mesmo tempo, não pode ser considerado plenamente uma ciência, já que suas “pesquisas” não obedecem rigorosamente ao método científico.

Há quem afirme que a ciência tradicional não se interessa pelos chamados fenômenos paranormais, dentre os quais está a comunicação mediúnica, rejeitando tais fenômenos a priori, numa atitude preconceituosa. Preconceitos à parte, um dos entraves à investigação científica da mediunidade está no fato de que os próprios médiuns muitas vezes se opõem à metodologia utilizada pela ciência (utilização de sensores cerebrais, filmagem da sessão, instalação de aparelhagem eletrônica de alta sensibilidade no ambiente, etc.) dizendo que essa parafernália atrapalha o contato com os espíritos.

De todo modo, há certos procedimentos que podem, se não comprovar ou desmentir de forma patente tais fenômenos, ao menos lançar alguma luz numa eventual investigação legitimamente científica. E grande parte desses procedimentos envolve a linguística.

No caso de um documento psicografado por um médium, a primeira providência seria um exame grafológico do manuscrito, comparando-o a textos que se sabe com certeza terem sido escritos à mão pelo falecido. A grafologia não é parte da linguística, mas não deixa de analisar um aspecto da expressão verbal dos indivíduos, isto é, a caligrafia.

Entrando agora no terreno propriamente linguístico, é possível fazer uma análise estilística dos textos ditados pelo espírito de um determinado autor com textos que ele tenha produzido em vida. Existem técnicas estatísticas que permitem reconhecer a frequência de emprego de palavras e construções sintáticas típicas de uma pessoa, pois todos nós temos nossas idiossincrasias linguísticas e tendemos a usar com mais frequência certos vocábulos, campos semânticos e estruturas gramaticais, que se repetem como um padrão individual. Mesmo que procuremos camuflá-lo, esse padrão está presente em nossas produções linguísticas como uma sequência de DNA ou uma impressão digital.

Evidentemente, esse tipo de teste é mais fácil de fazer em relação a espíritos que ditam longos textos (como é o caso de romances psicográficos) e que, em vida, já tinham larga produção escrita. (O problema aqui é que grande parte dos best-sellers espíritas tem autores que não deixaram nada escrito em vida, assim como a maioria dos grandes escritores mortos não continua produzindo literatura no além-túmulo.)

Outro teste que pode ser feito utilizando conhecimentos linguísticos é a análise fonética da fala do médium durante a incorporação. Assim como a mente que controla a mão do médium durante a psicografia é a do espírito e não a do próprio médium, é de se supor que quem está no controle do aparelho fonador do médium em transe é o espírito incorporado. Se for possível gravar essa fala e compará-la a alguma elocução verbal que o morto tenha deixado gravada, pode-se dizer se as duas enunciações, embora feitas com vozes diferentes, têm características acústico-articulatórias que permitam atribuir ambos os atos de fonação à mesma pessoa.

É claro que, mesmo se esses resultados forem positivos, a decisão de reconhecer que houve de fato comunicação com o Além ainda permanece subjetiva (por exemplo, um juiz pode ou não aceitar um depoimento psicografado como prova num processo judicial). Mas, seja como for, a linguística é uma ciência que pode contribuir para gerar dados empíricos um pouco mais sólidos do que temos hoje, quando a questão da existência ou não de mediunidade se limita ao campo das opiniões e das crenças.

O problema agora é que, segundo afirmam alguns espíritas, os espíritos desencarnados têm habilidades que não tinham quando se encontravam encarnados num corpo humano. Assim, um tribuno romano que só falava latim pode ditar um romance em português brasileiro, embora nem a língua portuguesa nem o Brasil existissem no tempo de Roma, e embora ele jamais tivesse se aventurado na literatura em vida. É por essas e por outras, muito mais do que por preconceito dos estudiosos, que a investigação científica nesse terreno avança a passos de tartaruga – se é que avança.

Dos quatro tipos de professores pesquisadores

Em outro artigo, falei sobre a diferença que a língua inglesa faz entre as palavras teacher e professor. Apenas relembrando, teachers são professores de ensino básico, técnico e cursos livres, ao passo que professors são docentes de universidades, que, além de ensinar, fazem pesquisa, portanto são também e principalmente cientistas. É justamente devido a essa diferença que nem todo professor é pesquisador (na verdade, a maioria não é), mas quase todo pesquisador é também professor. Claro, pesquisadores que trabalham em institutos como o Butantan ou a Fiocruz não necessariamente dão aulas, mas, como a maioria dos cientistas está nas universidades e não em institutos de pesquisa (até porque estes são em bem menor número), é natural que eles dividam sua jornada de trabalho entre produzir e transmitir conhecimentos. Por isso mesmo, eles têm de desenvolver duas diferentes competências profissionais.

Mas, sendo essas competências bem diferentes entre si, é natural que nem todas as pessoas sejam aquinhoadas pela natureza com ambos os talentos. Daí decorre que há quatro tipos básicos de docentes universitários.

Em primeiro lugar, há aqueles que são grandes professores, donos de uma didática e de um cabedal de conhecimento incríveis, mas cuja produção científica é pífia ou, pelo menos, pouco relevante. Estes costumam ser a maior parte dos professores, ao menos nas grandes universidades.

Em segundo lugar, há aqueles (bem poucos) que são cientistas geniais, grandes produtores de saber e pensadores da realidade, mas que, na sala de aula, não se saem assim tão bem. Alguns desses gênios até têm certa preguiça de lecionar, já que sua verdadeira vocação é a ciência e não o magistério. Por isso, suas aulas são muitas vezes propositalmente displicentes.

O terceiro grupo (raríssimo) é o dos indivíduos que são ao mesmo tempo cientistas e intelectuais brilhantes e exímios educadores. Estes, aliás, costumam ser também grandes popularizadores do conhecimento científico, inspirando no público em geral a mesma paixão pela descoberta que eles próprios sentem.

Finalmente, há o grupo, infelizmente muito comum no Brasil, daqueles que não são bons nem na docência nem na pesquisa e estão em grandes universidades porque foram aprovados em concurso muito mais por razões políticas do que por mérito.

Vivi a experiência de ter na universidade professores de todos os tipos, exceto o terceiro. Já fui aluno de alguns luminares, mas também de vários medíocres. Alguns me fascinaram; de outros, nem me lembro direito. Alguns deles ficaram famosos, outros viveram na mais profunda obscuridade embora fossem bons professores e razoáveis pesquisadores. Muitos dedicaram sua vida predominantemente ao magistério e deixaram ternas lembranças em seus alunos, mas não ganharam projeção social. Outros fizeram fama e fortuna apesar de detestarmos suas aulas – ou pior, dormirmos nelas.

De todo modo, sou grato a todos eles, afinal me fizeram ser quem sou e chegar aonde cheguei. Alguns me mostraram com seu exemplo que tipo de profissional eu devia ser. Outros, também com seu exemplo, me mostraram o que eu jamais quero ser ou fazer.

Os excluídos da ciência

Minha especialidade, como todos sabem, é a linguística. E, como nem todos sabem, a linguística é uma ciência (a classificação “humanidades” que às vezes lhe é aposta não lhe faz justiça). Mais ainda, eu diria que é uma hard science, do mesmo nível de complexidade e de precisão na descrição de seu objeto que a física ou a biologia.

Mas o fato é que, como a pandemia de covid-19 colocou sob os holofotes mas também na berlinda a ciência em geral e a medicina em particular, como cientista que sou (e como professor de metodologia científica e orientador de pesquisas que fui durante vários anos), sinto-me autorizado e até mesmo instigado a falar sobre a ciência em geral e não só sobre linguística.

No meu artigo retrasado, falei sobre o renascimento da ciência, ou melhor, da credibilidade na ciência, em face do momento crítico que estamos atravessando. Mas é preciso reconhecer que, apesar de todos os sucessos que o trabalho abnegado de cientistas obteve nos últimos quatro séculos e, consequentemente, da substancial melhoria das condições de vida e da constante demolição de mitos que a ciência nos tem proporcionado, ela está longe de ser unanimidade, sobretudo entre as pessoas comuns, aquelas que têm da ciência apenas uma ideia vaga e, não raro, distorcida.

A religião, que os cientistas nunca consideraram sua inimiga (há até cientistas religiosos), mas que sempre teve a ciência e o pensamento lógico-racional como inimigos, ainda é muito forte e muito presente, principalmente nas sociedades menos desenvolvidas, com altos índices de pobreza e baixos níveis de escolaridade. Além dela, as bolhas produtoras de fake news das redes sociais também se comprazem em alardear informações anticientíficas, por vezes em tom catastrofista, por vezes em tom de escárnio.

É claro que a ciência jamais será unanimidade (diz o ditado popular que nem Jesus Cristo conseguiu atingi-la), mas o alto índice de desconfiança nas teorias científicas e nos alertas dos cientistas é, em grande parte, resultado da incompreensão da ciência pelo cidadão médio, muitas vezes até detentor de formação superior, mas ignorante do modo como a ciência funciona e de como as verdades científicas são construídas. E nesse ponto vale fazer um mea culpa: os próprios cientistas e professores são responsáveis em grande parte pela existência daquilo que Gabriela Prioli chamou de “os excluídos da ciência”.

De fato, a ciência não é fácil de entender porque a realidade que ela se propõe explicar não é simples. A teoria que descreve um fenômeno complexo, tentando ser fidedigna a esse fenômeno, também precisa ser complexa. Nesse sentido, aliás, as “explicações” religiosas são muito mais atraentes ao indivíduo leigo porque são fáceis de entender: tudo acontece por um passe de mágica ou um milagre divino (como Deus ou os deuses fazem para realizar esses prodígios a religião não explica nem os devotos perguntam). Mas a péssima educação científica de nossas escolas, que enfatiza mais o lado burocrático do que o criativo da pesquisa e se ocupa mais de fórmulas do que de ideias, além da complexidade do próprio discurso científico, contribuem para afastar os cidadãos comuns da ciência, embotando-lhes o interesse pelo assunto, o que é terrível se pensarmos que nossa vida é impactada todos os dias pela ciência e seu principal corolário, a tecnologia.

E, para completar, temos a indiferença dos próprios cientistas, mais preocupados em ter seu trabalho legitimado por seus pares do que em falar sobre suas descobertas ao público leigo, à grande massa. A meu ver, faltam em nossos cursos de formação de pesquisadores disciplinas voltadas à preparação de divulgadores científicos, de comunicadores sociais que, cientes do impacto de seu trabalho sobre a sociedade e também de que é essa sociedade que financia tal trabalho, sejam capazes de explicar o complexo em linguagem simples. Apesar das tecnologias digitais, às quais praticamente qualquer um pode ter acesso, ainda são muito poucos os cientistas que são também blogueiros, youtubers, colunistas de jornais e revistas, apresentadores de programas de TV ou conferencistas para o grande público. O prejuízo da sociedade com isso é enorme, pois, sem a informação correta, não podemos tomar decisões corretas sobre nossa própria vida. E aí damos mais ouvidos a quem não sabe mas acha que sabe (políticos, artistas, esportistas, participantes do BBB, sacerdotes, astrólogos, publicitários, o dono do bar da esquina) do que a quem de fato sabe.

A desconfiança dos leigos perpassa toda a história da ciência. Claro, as pessoas suspeitam e até têm medo daquilo que não entendem. Daí por que é tão importante fazer o maior número de pessoas, sobretudo as tomadoras de decisões, entender a ciência. Como ela, diferentemente das crenças e das opiniões – da doxa, diriam os gregos – é um conhecimento que se acumula e se aperfeiçoa com o tempo, fica ao leigo a impressão de que a ciência não sabe nada e de que os cientistas estão perdidos. O caso típico é a história do ovo, que no passado era tachado pelos médicos como um veneno para o nosso sistema circulatório e que hoje é considerado o alimento mais completo que existe.

Ocorre que as pessoas comuns querem respostas prontas e definitivas às suas dúvidas (e principalmente aos seus medos), e a ciência não tem tais respostas. É que a verdade científica, contrariamente à religiosa ou à política, é sempre provisória porque estamos sempre aprendendo mais e melhor sobre o mundo que nos cerca. A descrição do mundo natural feita por Einstein é melhor que a de Newton, que é melhor que a de Galileu, que é melhor que a de Aristóteles. E logo o mundo tal como desenhado por Einstein também será redesenhado por novas descobertas e novas teorias, que explicarão aquilo que as atuais não explicam. Portanto, o conhecimento científico é um conhecimento em permanente (re)construção. O máximo que a ciência pode dizer é que, neste momento, tudo o que sabemos aponta nessa direção. Dito de outro modo, a ciência aprende com seus próprios erros. Logo, ela não é infalível, mas não há nada que substitua a pesquisa sistemática e bem feita, o estudo do cientista submetido aos seus pares em revistas de grande peso e debatido em público. Em O mundo assombrado pelos demônios, o astrônomo americano Carl Sagan diz que ainda não inventaram nenhum método para chegar ao conhecimento melhor do que a ciência. O que equivale a dizer que a ciência é, das ferramentas de que dispomos atualmente, a que mais nos aproxima da verdade.

Mas o que é a verdade? Cada um tem a sua própria definição de verdade, e para a maioria das pessoas a verdade é aquilo em que elas acreditam. Ou seja, para o crente, sua crença não é crença, é “A Verdade”.

Na Idade Média, por exemplo, verdade era o que constava nas Sagradas Escrituras ou o que diziam o padre, o bispo ou o Papa. O argumento de autoridade era suficiente para legitimar uma afirmação como verdadeira.

Já a verdade científica é aquilo que pode ser provado – e já foi provado muitas vezes – e é assim independentemente de crermos nela ou não. A verdade objetiva é diferente da verdade pessoal (ou convicção) e da verdade dogmática (ou crença na autoridade), pois ela é verdade independentemente de qualquer outra coisa, inclusive do que pensemos a respeito dela. Eu posso não acreditar que a água ferva a 100 graus Celsius ao nível do mar, mas isso continuará a acontecer a despeito da minha descrença.

A ciência apresenta hipóteses verificáveis e as testa de maneira metódica. Se em muitos e muitos testes a hipótese se verifica e em nenhum ela falha, passa a ser uma teoria, isto é, uma verdade científica. A ciência, portanto, recusa o argumento de autoridade (isso é assim porque foi dito pelo profeta X ou porque está escrito no livro sagrado Y).

Ciência não é crença, é a percepção dos fatos concretos a partir da nossa observação e experimentação sistemática e controlada (isto é, em que fatores externos ao objeto investigado não interfiram em seu comportamento, conduzindo a conclusões erradas). E, como nossa capacidade de observação e experimentação são sempre limitadas, fica a impressão de que a ciência mais erra do que acerta. De fato, o que sabemos hoje pode estar baseado em dados incorretos ou, mais provavelmente, incompletos. Mas a ciência tem seu mecanismo de autocorreção, o que a religião, por exemplo, não tem. Por isso, ela insiste em seus dogmas mesmo quando há provas concretas contra eles.

Cientistas do passado erraram bastante (o heliocentrismo é um exemplo clássico), mas nem por isso seu trabalho deve ser jogado no lixo ou apontado como um fracasso da ciência. Eles construíram os degraus que permitiram que outros cientistas avançassem na escalada do conhecimento. O mundo como o conhecemos hoje é bem diferente da descrição que dele faziam no século XVI. Mas foi graças ao conhecimento do século XVI que chegamos ao conhecimento do século XXI. Caso contrário, ainda estaríamos na Idade da Pedra.

A cada dia, a ciência explica novas coisas, que até então só tinham uma explicação místico-religiosa ou achística. Opiniões, intuições ou supostas revelações divinas não podem contrapor o conhecimento científico. Nada é verdade porque eu acho que é, ou porque alguém que eu respeito muito disse que é, ou porque consta neste ou naquele site. Só um novo estudo científico, mais perfeito, com mais dados, mais variáveis e realizado com maior rigor pode contestar outro estudo. Portanto, não é um site, não é um estudo isolado, mas o consenso da comunidade científica que dita o que provavelmente é verdade. Por isso, um estudo só não basta. Uma pequena amostra não prova. A opinião de uma grande autoridade menos ainda.

O astrofísico americano Neil deGrasse Tyson disse: “Um dos grandes desafios deste mundo é saber o suficiente sobre um objeto para pensar que você está certo, mas não o suficiente para saber que você está errado”.

A ciência acima de tudo ensina a pensar (aquilo que o cidadão médio tem preguiça de fazer) e a questionar o que os outros dizem. A falta do hábito de questionar leva a indivíduos crédulos e facilmente ludibriáveis, seja por publicitários, vendedores ou líderes políticos e religiosos.

Sendo uma forma de pensar (a melhor delas, em minha opinião), a ciência também é uma forma de cultura, tanto quanto a arte, a filosofia, as humanidades e os esportes. Assim, a popularização científica tem o duplo papel de esclarecer as massas, ajudando-as a tomar melhores decisões e tirando-as da condição de excluídas do conhecimento – e do poder –, e de revelar ao homem uma visão de mundo e uma compreensão da realidade tanto quanto a literatura, o teatro, o cinema, a música, a filosofia, a psicologia e a religião. Pena que tão poucos cientistas se deem conta disso!

A observação, a experiência e o raciocínio lógico, partilhados com a sociedade, levam ao conhecimento, que leva à sabedoria.

O coronavírus e o renascimento da ciência

Se é que podemos dizer que há algo de positivo nessa pandemia de covid-19, é o retorno triunfante do pensamento racional, especialmente em sua forma mais elaborada, a ciência. A coitadinha andava desacreditada e com pouco ibope desde inícios do presente século, quando uma avalanche de tentativas de restabelecer os dogmas religiosos e ideológicos como verdades absolutas, chegando-se mesmo a lançar dúvidas sobre fatos cientificamente comprovados, como o de que a Terra é redonda e vacinas funcionam, passou a assolar a humanidade – principalmente sua parcela menos informada e mais temerosa do desconhecido, que ela erroneamente chama de sobrenatural ou de realidade transcendente.

Claro, a história passa por ciclos: já vivemos a Pré-História, o humanismo clássico da Grécia antiga, o obscurantismo da Idade Média, o novo culto do homem e da razão durante a Renascença e o Iluminismo, que desaguou no incrível avanço científico-tecnológico dos séculos XIX e sobretudo XX. Mas talvez a sordidez dos líderes políticos desse período, com seus campos de concentração, seus gulags e duas guerras mundiais, tenha levado certas pessoas a um desencanto com o racionalismo e, consequentemente, à busca do suposto transcendente.

No entanto, a crise do coronavírus está nos mostrando que somente a ciência pode nos tirar dessa encrenca em que nós mesmos nos metemos. Que me desculpem os terraplanistas e antivacinistas de plantão, mas o que vai nos salvar não são as preces do Papa nem o jejum do nosso Presidente da República. Aliás, as constantes e vexatórias derrotas que ele tem sofrido ao insistir em contrariar a ciência mostram que, se quisermos compreender pelo menos um pouquinho como a natureza funciona, não é nos livros sagrados que encontraremos as respostas – pelo menos não as verdadeiras.

Tudo bem, se você acredita que terremotos, tsunamis, pandemias e desastres aéreos são enviados por Deus para testar a fé dos homens e que, rezando para ele, você conseguirá escapar são e salvo, isso é problema seu. Mais do que isso, é um direito seu!

Porém, como diria Karl Marx, outro ideólogo dogmático, você pode saltar do vigésimo andar de um edifício e acreditar que, graças à sua fé, você sairá voando, mas infelizmente é no chão que você vai se arrebentar. Dito de outro modo, contra fatos não há argumentos.

É claro que a ciência, no seu atual estágio, não tem todas as respostas (e talvez nunca venha a ter, pois a própria mente humana tem seus limites), mas ela tem o método seguro que nos leva da dúvida à certeza. Mesmo que você não acredite no método científico (provavelmente não se trata de descrer mas de não conhecê-lo e compreendê-lo), não há nada que prove que as explicações metafísicas funcionam melhor. Senão, não teríamos hospitais, as igrejas dariam conta de tudo.

Também certas teorias pseudocientíficas, na verdade, dogmas disfarçados, precisam ser combatidos, como o de que o aquecimento global tem causas naturais, de que a culpa pela existência da pobreza é dos ricos, ou de que a desigualdade entre brancos e negros começou no século XVIII com a escravidão. Claro que é preciso eliminar a injustiça, bem como salvar o planeta, mas não é maquiando a verdade e apontando falsos culpados que conseguiremos isso.

Infelizmente, a crença em dogmas é inculcada no ser humano desde a mais tenra idade e em casa (quem nunca ouviu falar de papai do céu?). Já o ensino de ciência só começa bem mais tarde, na escola, é fraco, precário e sobretudo burocrático. Ou seja, é mais importante decorar fórmulas que cairão no vestibular do que compreender o método científico, com seus experimentos e observações, testes e refutações de hipóteses, até chegar a um conhecimento que, se não é completo, pelo menos funciona para nossas necessidades e avança cada vez mais.

Outro ponto que quero destacar é que mesmo as curas supostamente milagrosas não resistem a uma análise científica mais rigorosa. Ou seja, muitos santos do passado foram canonizados com base em “milagres” que hoje são perfeitamente explicáveis pela razão. É claro que o Papa nem cogita descanonizar essas pessoas, mas o fato é que os milagres de hoje serão os casos clínicos rotineiros de amanhã. Além disso, a religião se apega muito ao milagre que salvou uma pessoa, mas não ao descaso de Deus com os milhares de outras pessoas, que não receberam a graça divina.

Portanto, se lhe faz bem rezar, meditar, fazer rituais e frequentar cultos (virtualmente, é claro!), continue; não tenho nada contra isso. Mas, por favor, fique em casa, lave bem as mãos e, quando a vacina contra a covid-19 estiver disponível – e estará, pode confiar – não deixe de tomá-la. Não vale a pena apostar contra a ciência; o preço dessa aposta pode ser alto demais.

A metáfora do museu

O incêndio que destruiu o Museu Nacional no último domingo, 2 de setembro, foi, para repetir o já tão desgastado clichê, uma tragédia anunciada. E que teve dois infelizes precedentes: o incêndio no Museu da Língua Portuguesa em 2015 e o no Instituto Butantan em 2010. Nos três casos, perdas, a maior parte delas irreparáveis, para a história, a ciência e a cultura do nosso país.

Há muito tempo, a pesquisa científica, a preservação do patrimônio histórico e artístico e a de nossas riquezas biológicas vem sendo relegada a segundo, terceiro plano. Nos últimos anos, o orçamento destinado ao Museu Nacional decresceu, resultado de uma crise econômica provocada por incompetência dos governos e de uma corrupção desenfreada, aliada ainda a uma escolha política que prioriza privilégios em detrimento do essencial – saúde, educação, segurança, ciência, cultura.

Conforme explica a renomada neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel em vídeo disponível no YouTube, não existe no Brasil a profissão de cientista. Os cargos de direção dos setores responsáveis pela pesquisa, educação, cultura e patrimônio histórico do governo brasileiro – como, de resto, todos os cargos governamentais – são preenchidos por indicação política e não por critérios de mérito e competência técnica.

Sobre a inversão de valores na eleição das prioridades e a cultura do privilégio, leia-se matéria no site InfoMoney mostrando que a remuneração anual de um juiz ou o custo da troca dos carpetes do Senado poderiam suprir o orçamento do Museu Nacional.

Esse museu era um dos (poucos) motivos de orgulho do país. Com exatos 200 anos de história, o museu detinha 50 milhões de itens históricos, artísticos, arqueológicos, paleontológicos, mineralógicos e outros, incluindo a maior e melhor coleção de egiptologia da América Latina e o fóssil mais antigo de um ser humano habitante das Américas. Isso tudo, além do próprio valor histórico do prédio que o abrigava, lar de um rei e dois imperadores e local da assinatura da declaração de independência do Brasil, ironicamente num mesmo 2 de setembro.

Grande parte desse acervo foi amealhada por Dom Pedro II, homem progressista e entusiasta da ciência. Ao contrário da imagem retrógrada que a República procurou disseminar a respeito da Monarquia, nosso imperador era apaixonado por novidades tecnológicas e tratava de trazê-las ao Brasil tão logo surgiam. Basta dizer que o Brasil foi o segundo país do mundo a adotar o selo postal, três anos após sua invenção na Inglaterra. Ferrovias, cabo telefônico submarino, as primeiras instituições de ensino superior, ideias liberais e abolicionistas, defesa das liberdades e combate ao preconceito foram algumas das contribuições de seu reinado. Muito respeitado no Exterior, Pedro II era um estadista do tipo que nunca mais tivemos no Brasil. Que andava nas ruas travestido de cidadão comum para ouvir as queixas do povo. Que jamais roubou um centavo do erário. Naquela época, nosso país era proporcionalmente mais desenvolvido do que é hoje, não ficando muito atrás das grandes potências da época, como França, Grã-Bretanha e os emergentes Estados Unidos.

O Brasil é uma grande nação, com inúmeras riquezas naturais, um imenso território e um povo trabalhador e criativo, mas que não tem um Estado à sua altura. A nação brasileira é muito maior e melhor do que o Estado brasileiro; na verdade, é o Estado, tal qual está desenhado pela atual Constituição, o grande empecilho a que o Brasil se torne um país desenvolvido e uma potência mundial.

O incêndio no Museu Nacional não deixa de ser uma metáfora do que acontece atualmente no Rio de Janeiro e no Brasil. O descaso dos últimos governos com a coisa pública, com seu ápice no desgoverno Dilma-Temer, fez do Brasil uma nação em chamas, das quais só restará um rescaldo de cinzas. Em que nosso passado, nosso patrimônio, nossa identidade, carbonizados pelo fogo da incompetência e da corrupção, serão da mesma cor que nosso futuro.

A divulgação científica no Brasil, o lugar da linguística – e o meu lugar nisso tudo

Sempre fui apaixonado por duas coisas: arte e ciência. Vejo mesmo muita semelhança entre ambas. Afinal, ambas são produtos do espírito, formas de invenção (sim, a ciência não é só descoberta, ela é em grande parte criação, construção) e, de certa forma, ambas buscam a beleza, a elegância, a regularidade. A arte e a ciência são, por isso mesmo, o território do talento e da genialidade. A grande diferença entre elas é que a arte está quase totalmente voltada ao público em geral e tem como missão primeira ou única o entretenimento, ao passo que a maior parte da produção científica se volta ao próprio meio acadêmico e visa a solucionar problemas práticos do ser humano.

É verdade que há as artes aplicadas, como o design de embalagens, por exemplo, mas, quando se fala em arte, é nas exposições, nos espetáculos, nos concertos e shows, nos livros de ficção que se pensa. Ao contrário, a palavra “ciência” nos remete as mais das vezes a um laboratório de pesquisa, a pessoas de jaleco branco, a fórmulas matemáticas ininteligíveis… Se há um lado cultural e de entretenimento na ciência, é o da divulgação científica, também conhecida como popularização científica ou popularização do saber.

Confesso que eu sempre quis ser artista, mas a vocação que me faltou para as artes acabou se revelando na atividade científica. Para quem não sabe, cursei cinco semestres de física antes de perceber que a minha aptidão e o meu destino eram mesmo a linguística. Mas, mesmo como cientista, nunca deixei de ter o imenso desejo de me comunicar com a sociedade e não só com meus colegas. Tampouco perdi de vista que o conhecimento científico, mesmo oferecendo soluções tecnológicas para os problemas sociais, só se justifica plenamente quando chega, ele próprio, às pessoas. Afinal, todos nós usamos a tecnologia provida pela ciência todos os dias, mas poucos de nós são capazes de discutir temas científicos, ainda mais quando contrapostos a crendices populares, opiniões subjetivas e dogmas religiosos. Cabe ao divulgador científico a missão de tornar a ciência um assunto palatável e, mais do que isso, agradável.

No mundo desenvolvido, há uma grande oferta de produtos culturais ligados às ciências e às humanidades: livros de divulgação escritos por grandes cientistas, palestras públicas de pesquisadores e intelectuais, exposições de ciência, e muito mais. Os países que mais produzem conhecimento científico são também os que mais se preocupam em difundir ciência ao público leigo. Embora em todos os lugares a porcentagem de cientistas que divulgam abertamente seu trabalho seja relativamente pequena em relação ao total de pesquisadores, no Brasil ela é menor ainda. Ou seja, ainda não desenvolvemos uma cultura de difusão pública do saber com propósito cultural. Na área da filosofia, já temos alguns “pop stars”, como Mário Sérgio Cortella, Lenadro Karnal e Luiz Filipe Pondé; nas ciências naturais, nossos maiores divulgadores são o físico Marcelo Gleiser e a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que, no entanto, vivem e trabalham nos Estados Unidos.

A realidade é que não temos no Brasil figuras do alcance e abrangência – e talvez nem do talento – de um Carl Sagan na astronomia, de um Richard Dawkins na biologia, de um Stephen Hawking na física… E estes, juntamente com o matemático Keith Devlin e os linguistas David Crystal e Steven Pinker, são meus ídolos desde sempre.

O fato é que eu sempre tentei humildemente fazer divulgação científica no Brasil com os recursos que eu tinha disponíveis. E, pior ainda, divulgação de uma ciência que sempre teve pouco prestígio e pouquíssima difusão entre nós: a linguística.

Embalado pelos meus ídolos, me lancei a escrever uma coluna mensal na extinta revista Língua Portuguesa e depois um blog semanal no portal da mesma revista, falando sobre os aspectos curiosos e interessantes da(s) língua(s), sempre com viés científico, mas em linguagem acessível aos leigos razoavelmente escolarizados.

Após o fim da revista, decidi continuar por conta própria meu trabalho de cronista da língua por meio deste blog pessoal. Também compilei meus principais artigos em livro que aguarda uma editora interessada em publicá-lo.

Capa Canal Planeta Língua - Pedro

E agora, acabo de dar meu passo mais importante até o momento nessa trilha da divulgação do conhecimento sobre a nossa língua, as outras línguas e a linguagem humana em geral: lancei um canal no YouTube. Pois é, já está no ar o canal Planeta Língua. Nele, toda sexta-feira vou postar um vídeo novo tratando de algum assunto referente a esse universo, além de entrevistar pessoas da área ou que de alguma forma tenham a ver com ela, comentar livros e responder às perguntas do público sobre linguística, gramática, origem das palavras e o que mais aparecer. Vocês, meus leitores, estão obviamente convidados a visitar o canal e, se gostarem, a inscrever-se nele, curtir, comentar e compartilhar os vídeos, além de enviar perguntas e sugestões de pauta.

Confesso que não está sendo pequena essa empreitada, pois elaborar vídeos dá muito trabalho, desde a escolha do tema, a pesquisa a respeito, passando pela roteirização, filmagem, edição, finalização, até chegar à publicação e subsequente divulgação nas mídias sociais. E isso toda semana para que, na sexta-feira, chegue até vocês conteúdo fresquinho e de qualidade. Como não leciono mais, hoje trabalho full time com pesquisa e divulgação científicas. Para ajudar a custear todo esse trabalho, também lancei o canal na plataforma Patreon, que angaria patrocinadores, isto é, pessoas comuns, incluindo seguidores do canal e apreciadores do meu trabalho, que estejam dispostas a dar uma pequena contribuição mensal (simbólica mesmo) para manter o canal no ar com qualidade e periodicidade. Em troca, ofereço a esses “patronos” alguns privilégios que, com o progresso do canal, tenderão a ficar cada vez maiores.

Enfim, o carinha que ama música mas é desafinado e toca mal violão, que sonhava gravar discos e dar shows mas acabou escrevendo livros e artigos e dando palestras e aulas sobre língua agora também é vlogueiro – isso mesmo, vlogueiro com “v” de vídeo. Confiram e vejam se tenho futuro.

As bases da educação

O Brasil tem finalmente uma base comum curricular nacional, que garante igualdade de conteúdo a todos os estudantes, em todas as escolas. Também tem um novo currículo para o ensino médio, mais flexível do que os anteriores, portanto mais afinado com as demandas da realidade atual. No entanto, além de a qualidade do ensino no Brasil continuar péssima, principalmente na escola pública, não fica muito claro a que interesses ele serve – ou tenta servir.

A indústria, por exemplo, pleiteia por meio de suas federações um ensino focado em competências, já que hoje os jovens entram totalmente despreparados no mercado de trabalho. Entretanto, competência é diferente de conhecimento, e uma educação centrada nela na verdade forma apertadores de botões e não cabeças pensantes. Certamente porque, na visão dos empresários, um trabalhador não precisa ser mais do que um autômato sofisticado, que até pode e deve tomar certas decisões, desde que restritas ao escopo de sua tarefa. Em outras palavras, o operário deve ser intelectualmente superior a uma máquina, mas não precisa ser – e é melhor que não seja – um cidadão.

Mas será que a escola serve apenas para formar mão de obra? Será que o ensino, especialmente o público, deve estar somente a serviço do mercado de trabalho? Eu particularmente penso que não, até porque a formação de profissionais deve estar a cargo do ensino profissionalizante, seja ele de nível médio ou superior. O ensino básico, e dentro dele mais especificamente o ensino fundamental, deve estar voltado antes de mais nada à formação de cidadãos. Não acho que seja dever da escola transmitir aos estudantes noções que eles deveriam aprender em casa, como civilidade, boas maneiras e respeito ao próximo, e nesse sentido acho que a escola pública, justamente por não ser um comércio como é a privada, tem o direito de ser coercitiva com pais de alunos que abdicam do dever de educar seus filhos. Como bem diz o educador e filósofo Mário Sérgio Cortella, à escola cabe escolarizar, o dever de educar é da família.

Por isso mesmo, acho que se perde muito tempo com disciplinas como educação sexual, ideologia de gênero e educação para o trânsito, e com isso se desobriga as famílias de tratar esses temas com as crianças e adolescentes. (Aqui um parêntese: é claro que eu não ignoro que na escola pública há muitos filhos de famílias desestruturadas, incapazes de educá-los adequadamente, mas não seria justamente tarefa da educação contribuir, junto a outros órgãos públicos, para o combate a esse problema?) Enquanto a escola pública dá peixes em vez de ensinar a pescar, aquilo que eu considero realmente o objetivo principal da escola, a transmissão de conhecimento e a formação do senso crítico, acaba se perdendo.

Mas então que bases a educação deveria ter no meu entendimento? Não sou pedagogo e jamais dei aulas a não ser em universidades, mas, como fui professor e sou acima de tudo um cidadão consciente, me permito opinar, até porque a educação formatada pelos especialistas do governo definitivamente fracassou, o que me dá certo crédito para também dar meus pitacos.

Defendo uma educação assentada basicamente em quatro pilares:

1) Ética e cidadania. Embora eu acredite que os valores éticos devam vir de casa, isto é, do berço, penso que certas questões, como a corrupção e a ética na política são às vezes complexas demais para que os pais lidem com elas sozinhos. Por isso, acho bem-vindo o reforço desses valores na escola, mesmo porque é este o primeiro espaço público que a criança frequenta e onde ela pode pôr em prática aquilo que aprende em casa na teoria. Honestidade, lisura, respeito ao outro e à coisa pública, noções de justiça, equidade e solidariedade, além da compreensão do funcionamento das instituições (mas, por favor, nada chato como as antigas aulas de Educação Moral e Cívica, hein!) são essenciais à formação do cidadão. Além disso, deve haver uma base lógica no ensino da ética, isto é, que mostre ao aluno que, sendo éticos, todos ganham, ao passo que, numa sociedade sem ética, mais cedo ou mais tarde todos perdem. Que faça o estudante sentir a ética não como uma obrigação, mas como uma necessidade. Aqui eu embutiria até o ensino da teoria dos jogos de Neumann e Morgenstern, mas, evidentemente, sem seu arcabouço matemático altamente abstrato, focando, em vez disso, situações concretas do dia a dia.

2) Raciocínio lógico e senso crítico. Ao contrário do que se poderia pensar num primeiro momento, o exercício da lógica não é útil apenas às profissões das áreas de Exatas, Economia e Gestão, mas todo aquele que não pensa logicamente acaba sendo ludibriado, portanto todo cidadão que se preze precisa ser capaz de perceber as falácias do discurso alheio, compreender onde está o “pulo do gato”, distinguir a verdade da mentira e desenvolver o senso crítico que o tornará imune a manipulações, seja da mídia, dos políticos ou de líderes religiosos. Defendo mesmo a inclusão da disciplina Lógica no currículo escolar, cujo ensino se faça não sobre esquemas abstratos como os da lógica matemática mas sobre situações do cotidiano, como a análise de propagandas, discursos políticos e outros. Por sinal, um ótimo adjuvante no ensino da lógica é a prática do xadrez. Países de Primeiro Mundo ensinam as crianças a jogar xadrez, e não é inútil lembrar que os estrategistas russos que derrotaram o exército nazista na Segunda Guerra Mundial eram todos exímios enxadristas. Outra ferramenta que viria a calhar é a Análise do Discurso, mais uma vez sem grandes teorizações, mas com foco na desmontagem e desnudamento das informações que nos bombardeiam todos os dias.

3) Método científico. Defendo uma grande ênfase no ensino de matemática e ciências da natureza (física, química, biologia), mas não como uma mera decoreba de fórmulas que serão cobradas no vestibular, pois o ensino da fórmula sem a compreensão do raciocínio que lhe deu origem transforma a ciência num conjunto de dogmas comparável à sua grande antítese, que é a religião. Nenhuma forma de conhecimento é tão precisa e poderosa quanto a ciência, contudo muito poucas pessoas dão crédito a ela porque não a entendem e, com isso, preferem confiar na opinião do amigo, do vizinho, do pastor, do político, do vendedor… Compreender o método científico, isto é, como funciona a mente do cientista, como ele observa e testa a realidade à sua volta, e como utiliza o raciocínio lógico para chegar a um conhecimento que funciona na prática e que se autocorrige quando erra, é mais importante para o cidadão comum, qualquer que seja a sua profissão, do que a simples memorização de fórmulas matemáticas. Claro que sem as fórmulas não se faz ciência, mas sem raciocínio lógico e primazia do fato e da prova sobre a opinião e a crença, não se têm cidadãos críticos e sim marionetes nas mãos dos poderosos. Portanto, que se ensine a teoria, mas que se mostrem também os dilemas que perturbaram os grandes cientistas, sua luta contra a tirania da Igreja e o dogmatismo da religião, o modo como encontraram soluções criativas e respostas plausíveis a grandes problemas sem jamais apelar para o sobrenatural, bem como todos os benefícios que a ciência nos proporciona todos os dias.

4) Gramática, leitura e redação. É mais do que óbvio que cidadãos bem formados precisam dominar a norma culta, sobretudo sabendo quando devem usá-la e quando não, assim como precisam saber se expressar nela e entender o que significam os textos que leem. Neste ponto, tenho uma posição intermediária entre os gramáticos conservadores, que defendem um ensino eugenista de uma norma padrão ultrapassada, baseada nos clássicos literários de outros séculos e no uso lusitano da língua, e os pseudolinguistas pós-modernosos, para quem basta que o destinatário compreenda a mensagem e tudo bem. De um lado, sempre defendi a modernização e a racionalização da gramática normativa, mas, de outro, penso que é o português culto que tem de ser o objeto de estudo das aulas de Língua Portuguesa, pois no registro popular os alunos já são proficientes. Tenho visto aulas de português que utilizam até letras de funk como objeto e sinceramente não vejo como isso possa contribuir para a formação linguística do estudante; no máximo, funciona como entretenimento.

Quanto à leitura, me parece óbvio que quem lê mas não compreende não se informa, e quem não tem informação é presa fácil dos manipuladores de consciências. Mais do que isso, vivemos num mundo em que até a compreensão de um manual de instruções ou bula de remédio pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Por fim, o cidadão que não sabe se expressar linguisticamente em nível formal não obtém bons empregos, não consegue exigir seus direitos nem se fazer entender pelos outros; creio mesmo que quem se expressa mal no fundo raciocina mal.

Fica aqui, portanto, a minha humilde contribuição para a melhoria da educação em nosso país. Comentários e críticas, como sempre, são bem-vindos.