Cotas trans em universidades e a questão do mérito acadêmico

Algumas universidades brasileiras que já adotam o sistema de cotas para o ingresso de estudantes pretos, pardos, indígenas, quilombolas e de baixa renda também adotaram nos últimos tempos cotas para pessoas transexuais, travestis e não binárias, em mais um lance das chamadas ações afirmativas ou de diversidade e inclusão.

Cotas raciais e socioeconômicas podem até ser justificáveis tendo em vista que negros são em sua maioria pobres e, consequentemente, obrigados a cursar o ensino básico na escola pública, que não lhes dá base para ser aprovados nos disputadíssimos vestibulares das grandes universidades. Mas eu pergunto: o que identidade de gênero tem a ver com desempenho acadêmico? Pessoas transexuais precisam de cotas para ingressar em universidades? Aquelas que são pobres porque sua condição sexual as marginaliza economicamente já estão contempladas nas cotas para estudantes de baixa renda. No entanto, os gays e trans brasileiros não têm, em média, condição socioeconômica muito diferente da dos heterossexuais cisgênero. Há homossexuais, transexuais e não binários em todas as classes sociais e em igual proporção, afinal orientação sexual e identidade de gênero não escolhem classe social. É verdade que muitos travestis acabam na prostituição, mas estes em geral já provêm de um ambiente pobre, para não dizer miserável. E mulheres heterossexuais que se prostituem também costumam ser oriundas de famílias carentes, quando não desestruturadas. Portanto, estão todos no mesmo balaio da pobreza endêmica que assola nosso país há séculos e que nenhum governante ou legislador tem interesse em eliminar.

Marcos Lopes, professor de literatura geral e comparada da Unicamp, em seu artigo Consenso e liberdade acadêmica, publicado neste domingo, 20 de abril de 2025, no jornal O Estado de S. Paulo, alerta em primeiro lugar que essas ações afirmativas beneficiam um número mínimo de pessoas, isto é, a maioria dos negros, pobres, transexuais, etc., não tem acesso ao ensino superior nem mesmo por meio de cotas. Em segundo lugar, que esses benefícios, criados para ser temporários, acabam perpetuando-se, o que, a meu ver, se constitui num privilégio, num “direito adquirido” inamovível, como são hoje, por exemplo, os supersalários do Poder Judiciário. Em terceiro, ele aponta, citando Thomas Sowell no livro Ação afirmativa ao redor do mundo, que “o incentivo para grupos preferenciais raramente alcança os resultados prometidos, podendo produzir efeitos colaterais indesejáveis para o conjunto da sociedade”.

Mas o ponto mais nefasto que ele destaca é o problema da autocensura: “Há, sem dúvida, uma maioria silenciosa, na comunidade acadêmica, que discorda dos mecanismos de implementação de certas ações afirmativas. Contudo, ela teme o cancelamento e os rótulos de ‘direitista’, quando não de ‘fascista’ […]”. E a universidade deveria ser o espaço do debate de ideias, do confronto de visões diferentes e mesmo antagônicas para chegar a um consenso que nos aproxime da verdade. Mas transformou-se no lugar da unanimidade burra de que falou Nelson Rodrigues e do pensamento único e inquestionável. Em suma, a universidade é a nova Igreja.

A escolarização medíocre proporcionada pela rede pública de ensino afeta igualmente negros e brancos, homens e mulheres, héteros, homos e transexuais desde que sejam pobres e não tenham condições de frequentar uma boa escola privada — se bem que hoje em dia também há muitas escolas privadas que não passam de comércios disfarçados, que não educam, apenas adestram seus estudantes.

Nas entrelinhas, o que essa política de cotas trans, por mais bem intencionada que seja, insinua é que pessoas transgênero seriam intelectualmente inferiores às cisgênero, por isso precisariam de uma mãozinha das cotas para ser aprovadas em um vestibular. O pressuposto subjacente a essa medida deveria deixar indignada a comunidade LGBTQIAPNXYZ+. Mas quem vai se sentir ofendido em ganhar um privilégio, ainda mais um privilégio imerecido, não é?

O pior de tudo é que, com essas ações afirmativas, a universidade vai aos poucos deixando de ser um centro de excelência e produção de conhecimento de ponta para tornar-se cada vez mais um agente de assistencialismo barato e demagógico.

Quando alguns são mais iguais do que os outros

Há um dito jocoso, atribuído a George Orwell em seu romance A revolução dos bichos, que diz: “todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Pois nos últimos tempos instalou-se nas sociedades ocidentais uma mentalidade segundo a qual pessoas pertencentes a minorias, especialmente os pobres e os negros (que no nosso país estão longe de ser minoria), podem descumprir as leis sem que nada lhes aconteça.

Por exemplo, um grupo de moradores da periferia pode, nos fins de semana, especialmente à noite, fechar uma rua, impedindo o livre trânsito dos cidadãos e cerceando seu direito de ir e vir, para promover um baile funk ou pancadão e pode perturbar o sossego dos moradores da vizinhança e impedi-los de dormir — sem falar no tráfico e consumo de drogas, aliciamento de menores, estímulo à prostituição, presença de veículos roubados, etc. —, tudo isso com o apoio e o aplauso de certos políticos e sem que o poder público possa reprimi-los. Afinal, funk é cultura, certo? Afinal, os jovens da periferia não têm outra forma de lazer, certo? Afinal, a polícia, se tenta fazer cumprir a lei, é truculenta, certo?

Se um branco ofende um negro com base na cor de sua pele, pode ser preso sem direito a fiança ou prescrição de sua pena, mas se um negro ofende um branco com base na cor de sua pele, nada acontece, afinal não existe racismo reverso, certo? Pelo menos, esse é o entendimento do nosso Poder Judiciário.

Vivemos numa sociedade em que algumas pessoas podem aceder a vagas na universidade ou no serviço público sem ter mérito suficiente, passando assim à frente de outras pessoas mais qualificadas, apenas pela cor da pele ou pela situação socioeconômica. Vivemos numa sociedade em que alguns grupos têm certos privilégios, como se outros grupos lhes devessem algo, e esses privilégios, mesmo quando injustos ou ainda que um dia não sejam mais necessários, jamais serão revogados, pois “conquistas sociais” não podem retroceder, certo?

Quando certa mentalidade vigente, ainda mais tornada lei, divide os cidadãos entre “nós” e “eles” e estabelece que alguns são mais iguais do que os outros, é o início do esgarçamento do tecido social, com toda sorte de ressentimentos, que é a raiz dos discursos de ódio, da polarização política e do rompimento das relações entre amigos, entre familiares, entre colegas de trabalho, e ao resultado de tudo isso estamos assistindo hoje no país e no mundo.

Textos jornalísticos deveriam servir de modelo à norma-padrão?

Alguns linguistas têm criticado a gramática normativa por eleger prioritariamente textos literários como modelo a nortear o que deve ou não ser abonado em termos de norma. Em contraposição, sugerem que se adotem como parâmetro os discursos jornalístico e acadêmico, mais próximos, segundo eles, do que a maioria dos usuários cultos do idioma demanda como exemplo de redação a ser seguido, o chamado “grau zero da escrita” de Roland Barthes.

Esse argumento parece até razoável se considerarmos, como disse no artigo do mês passado, que os grandes literatos não consultam gramáticas para elaborar suas obras e que os cidadãos comuns, especialmente os estudantes e os profissionais de nível superior, buscam produzir textos profissionais com feição mais próxima ao jornalístico ou ao acadêmico do que à alta literatura.

O problema é que os escritores de ficção de hoje em dia escrevem muito mais como jornalistas do que como artífices da palavra, ao contrário do que faziam os escritores do passado. E os jornalistas e acadêmicos de hoje em dia escrevem muitas vezes como estudantes de ensino básico.

Como pesquisador na área da linguística, sou constantemente requisitado a dar pareceres em artigos científicos submetidos para publicação em periódicos especializados, assim como, na qualidade de docente, sou frequentemente convidado a integrar bancas de mestrado e doutorado e, portanto, obrigado a ler dissertações e teses. Em ambos os casos, constato horrorizado as barbaridades gramaticais e lexicais que nossos acadêmicos e/ou candidatos a acadêmicos perpetram.

Quanto ao jornalismo, fica a impressão de que quem redige as matérias atualmente, em especial na mídia eletrônica (a impressa já deixou de existir há muito tempo), não são jornalistas formados e sim estagiários, provavelmente cursando as inúmeras faculdades xiriricas que existem por aí. Seguem algumas “pérolas” que pesquei em sites jornalísticos (grifos meus):

1) “Tom Jobim promoveu a ‘fundição’ do samba com o jazz”;

2) “Os alimentos estocados estavam em ‘inconformismo’ com as normas sanitárias”;

3) “É preciso haver um ‘equilibramento’ entre oferta e demanda”;

4) “Com o ‘restauramento’ da monarquia na França…”.

Fico imaginando Tom Jobim fundindo o samba ao jazz numa serralheria ou num forno siderúrgico, assim como visualizo mentalmente alimentos inconformados e indignados por terem sido estocados em desacordo com a lei.

E temos ainda as traduções malfeitas do inglês, como realizar no sentido de perceber e inauguração em lugar de posse.

Pois é, amigos, fundição por fusão, incorformismo por desconformidade, equilibramento por equilíbrio, restauramento por restauração… É esse o padrão de exemplaridade idiomática que meus colegas linguistas propugnam? Ou eles também  pretendem estabelecer um “cânone” jornalístico assim como existe o cânone literário? E o cânone acadêmico, seria integrado por quem? Por eles mesmos? Os textos de Marcos Bagno, eivados de erros de português (propositais) fariam parte desse cânone?

O fato é que temos hoje no Brasil uma grande quantidade de textos acadêmicos com erros decorrentes da má escolarização dos atuais mestres, doutores, mestrandos e doutorandos. Quanto aos textos jornalísticos (especialmente os de internet), são escritos às pressas, por estagiários analfabetos funcionais, com erros de digitação, ortografia, pontuação, palavras invertidas, frases truncadas, fruto de uma edição apressada e não revisada feita em editores de texto como o Word®. É isso que devemos tomar como guia para escrever bem?

Diante de todos esses descalabros que dublês de jornalistas e de docentes universitários cometem, só me resta dizer duas palavras: para bens!

Sobre J. K. Rowling e o wokismo

Não gosto da saga Harry Potter, considero-a subliteratura, mesmo que destinada ao público infanto-juvenil, mas admiro a coragem de sua autora, a britânica J. K. Rowling, em posicionar-se contra a cultura woke, ou identitarismo (ou mimimismo, como eu costumo chamá-la), ou ainda cultura do cancelamento, um movimento liderado por elites intelectuais brancas, principalmente acadêmicos e jornalistas, supostamente em favor de minorias. Muitas dessas minorias, por sinal, não se sentem representadas por essas elites, que usurparam suas bandeiras e suas dores e que não lutam por justiça social — embora digam que sim —, senão pelo poder. A elite wokista já é maioria nas universidades, na mídia, no show business e mantém seu poder por meio de negacionismo e desinformação científica, sobretudo etimológica, bem como pela censura e pelo linchamento moral de quem dela discorda.

Antes de qualquer coisa, um esclarecimento: não sou de direita; tenho horror a Donald Trump e Jair Bolsonaro; rompi com familiares por seu posicionamento reacionário e golpista. Mas tampouco sou de esquerda; abomino sobretudo os identitaristas e sua postura de donos da verdade, monopolistas da pureza e palmatória do mundo, seu cinismo de condenar a extrema-direita por fazer aquilo que eles próprios fazem.

Leiam o que J. K. Rowling disse.

“Essa ideia de ‘por que você se importa com uma fração minúscula da população?’ é, e sempre foi, completamente ridícula.

A ideologia de gênero minou a liberdade de expressão, a verdade científica, os direitos dos gays e a segurança, privacidade e dignidade de mulheres e meninas. Também causou danos físicos irreparáveis a crianças vulneráveis.

Ninguém votou nisso, a vasta maioria das pessoas discorda, mas ainda assim foi imposto de cima para baixo por políticos, órgãos de saúde, acadêmicos, partes da mídia, celebridades e até pela polícia. Seus ativistas ameaçaram e cometeram atos de violência contra aqueles que ousaram se opor. Pessoas foram difamadas e discriminadas por questioná-la. Empregos foram perdidos e vidas arruinadas, tudo pelo ‘crime’ de saber que o sexo é real e importa.

Quando a poeira baixar, ficará mais do que evidente que isso nunca foi sobre uma suposta minoria vulnerável, apesar do fato de algumas pessoas realmente vulneráveis terem sido prejudicadas. As dinâmicas de poder que sustentam nossa sociedade foram reforçadas, não desmontadas. As vozes mais influentes durante todo esse fiasco vieram de pessoas protegidas das consequências por sua riqueza e/ou status.

Elas não correm o risco de acabar presas em uma cela com um estuprador de 1,90 metro que agora se chama Dolores. Não precisam de centros públicos de atendimento a vítimas de estupro, nem frequentam os provadores de lojas populares. Elas sorriem em sofás de programas de TV enquanto falam sobre aqueles ‘horríveis extremistas de direita’ que não querem pênis balançando nos chuveiros das meninas, seguras de que suas piscinas particulares continuam sendo os refúgios seguros de sempre.

Os maiores beneficiados pela ideologia de identidade de gênero foram homens, tanto os que se identificam como trans quanto os que não. Alguns foram recompensados por seu fetiche de vestir roupas femininas com acesso a todos os espaços antes reservados às mulheres. Outros transformaram seu conveniente novo status de vítima em uma desculpa para ameaçar, agredir e assediar mulheres.

Homens de esquerda que não se identificam como trans encontraram uma plataforma magnífica para exibir suas credenciais progressistas, zombando das necessidades de mulheres e meninas, enquanto se dão tapinhas nas costas por ceder direitos que não são deles.

As verdadeiras vítimas desse caos foram mulheres e crianças, especialmente as mais vulneráveis, além de pessoas gays que resistiram ao movimento e pagaram um preço horrível, e pessoas comuns que trabalham em ambientes onde um pronome errado pode levar à humilhação pública ou à demissão.

Não me digam que isso é sobre uma minoria vulnerável. Esse movimento impactou a sociedade de formas desastrosas, e se você tiver um pouco de juízo, estará silenciosamente apagando cada traço de mantras ativistas, ataques ad hominem, falsas equivalências e argumentos circulares de suas redes sociais, porque está se aproximando o dia em que você vai querer fingir que sempre viu através dessa loucura e nunca acreditou nela por um segundo sequer.”

Será que voltamos aos anos 1930?

Diz um certo ditado que quem não conhece a história corre o risco de repeti-la. Pois o momento atual me lembra muito o vivido pela humanidade no início dos anos 1930. Precisamente em 1933, Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha pelo voto popular. Sim, o Partido Nazista venceu as eleições democraticamente! Com uma plataforma populista e elegendo os judeus como os grandes inimigos da nação, responsáveis por todo o mal que se abatia sobre os alemães, Hitler conquistou a maioria no parlamento, tornou-se chanceler, acumulou o cargo de presidente da república e, uma vez eleito democraticamente, seu primeiro ato foi acabar com a democracia na Alemanha. A tragédia humanitária e o desastre político que se seguiram todo mundo conhece. Almejando criar a “Grande Alemanha”, Hitler anexou a Áustria, a parte da Tchecoslováquia que falava alemão, depois invadiu a Polônia e deu início à mais sangrenta de todas as guerras.

Corta para 2025. Com um programa de governo igualmente populista, Donald Trump elege-se presidente dos Estados Unidos mirando nos imigrantes ilegais como os grandes inimigos, a causa de todos os males que afligem a América. Em seu sonho megalomaníaco, deseja tornar seu país grande novamente e, para isso, ameaça anexar a Groenlândia, o canal do Panamá e quem sabe até o Canadá inteiro. Assim como Hitler odiava judeus, ciganos, latinos, negros, deficientes físicos, homossexuais, Trump demonstra desprezo por negros, gays, latino-americanos… Assim como Hitler desprezava a ciência (a menos que ela servisse a seus intentos bélicos), Trump é um negacionista da ciência, embora disposto a investir milhões em inteligência artificial, produto inequívoco da ciência, evidentemente para atender a seus propósitos estratégicos e militares.

Mas por que figuras tão nefastas como Hitler e Trump são eleitas pelo voto popular? E não só eles: Hugo Chávez e seu discípulo Nicolás Maduro chegaram ao poder via eleições — Maduro procura legitimar-se no poder com base numa eleição fraudada —; o tirano sírio recém-deposto Bashar al-Assad também, assim como o ditador Vladimir Putin. Atualmente, os grandes déspotas não tomam o poder por um golpe de Estado e sim pelo voto popular, invariavelmente com uma plataforma populista e demagógica e promessas sedutoras embora irrealizáveis. E chegam ao poder porque a maioria dos eleitores, formada por aquilo que Bertolt Brecht chamou de “analfabetos políticos”, acredita neles. Descontentes com um governo fraco, que não consegue resolver seus problemas, votam num governo que promete ser forte para enfrentar esses problemas, mas que, uma vez no poder, torna-se ele próprio o problema.

É triste constatar, mas a democracia permite que isso aconteça porque a democracia é o governo da maioria, e as maiorias costumam ser burras. Seja em questões estéticas ou políticas. A maioria das pessoas consome informação de forma acrítica, aprecia todo tipo de lixo cultural, não distingue fato de boato, quer soluções imediatistas e sobretudo prioriza seus próprios interesses pessoais em detrimento do bem maior da coletividade. Foram maiorias “democráticas” que crucificaram Jesus, que condenaram Sócrates à morte e que elegeram Mussolini e Hitler.

O grande problema da democracia é que ela permite que grupos e partidos explicitamente antidemocráticos, como foi no passado o Partido Nazista e como são hoje a Alternativa para a Alemanha ou a Reunião Nacional francesa, bem como partidos igualmente extremistas de esquerda, participem da vida política institucional, concorram em eleições, elejam seus representantes e, ao fim e ao cabo, assumam o poder nacional. Parece um contrassenso, mas as constituições dos países democráticos não proíbem que partidos antidemocráticos disputem eleições — em suma, a democracia permite sua própria destruição.

Se Trump invadir o Panamá para retomar seu canal sob o silêncio amedrontado dos demais países, assim como a Europa se calou quando Hitler anexou a Áustria e a Tchecoslováquia, sua sanha imperialista não terá fim. Ou, pior, se Trump levar a cabo suas intenções expansionistas sobre a Groenlândia, possessão da Dinamarca, ou sobre o Canadá, membros da Otan, teremos uma guerra mundial entre aliados, para alegria de Putin, que verá seus potenciais inimigos digladiando-se entre si. Aliás, o ditador russo se sentirá à vontade para não só conquistar toda a Ucrânia como, quem sabe, toda a Europa.

Posso estar sendo apenas pessimista, mas a conjuntura atual se assemelha muito à do início dos anos 1930. E todos sabemos como terminou essa história. Com a única diferença de que os nazistas não tinham armas nucleares.

Inteligência ou burrice artificial?

Meu leitor Maurício Terra Dias pediu ao ChatGPT que escrevesse uma matéria crítica sobre a minha obra. Alguns excertos da resposta são os seguintes:

Aldo Bizzocchi, embora não seja amplamente reconhecido no circuito artístico mainstream, representa uma figura de significativa importância dentro do contexto da arte contemporânea, principalmente no que diz respeito à arte brasileira. Sua obra, marcada por uma abordagem multifacetada, transita entre o abstrato e o figurativo, o pictórico e o tridimensional, explorando as potencialidades da forma, da cor e da textura. No entanto, sua produção não se limita apenas ao campo visual: Bizzocchi insere questões filosóficas e existenciais em seu trabalho, criando um diálogo constante entre o concreto e o metafísico. […] Uma das características mais marcantes da obra de Bizzocchi é a reflexão sobre a condição humana. Ele utiliza suas peças como uma espécie de laboratório visual para investigar a fragilidade da existência, as tensões entre o ser e o não ser, e a busca por sentido em um mundo muitas vezes marcado pela incerteza e pelo caos. […] A técnica adotada por Bizzocchi também é digna de destaque. O artista se utiliza de materiais inusitados, entre eles a escultura e o desenho, para construir peças que provocam tanto a percepção tátil quanto a visual. […] Ele não tem medo de mergulhar no experimental, desafiando o espectador a sair da zona de conforto e repensar sua percepção estética. […] Uma crítica que pode ser feita à obra de Aldo Bizzocchi é a sua complexidade. […] O trabalho do artista exige paciência, atenção e um certo grau de envolvimento do espectador, o que pode ser desafiador para quem está acostumado com a superficialidade da arte de consumo rápido. […] Ele não está preocupado em agradar ou em se encaixar em tendências; sua arte é antes um reflexo de sua própria visão de mundo. […] Aldo Bizzocchi, com sua arte imersiva e muitas vezes desconcertante, é uma figura essencial no panorama da arte contemporânea. Sua capacidade de transformar o abstrato em algo visceral e de forçar o espectador a uma experiência sensorial e filosófica ao mesmo tempo é o que faz sua obra relevante. […] Mais do que um artista que se insere em uma tradição ou tendência, Bizzocchi é um criador de universos, um reflexo da busca constante pela transcendência e pelo entendimento de um mundo em constante transformação.

Confesso que fiquei lisonjeado com resenha tão elogiosa — exceto pelo fato de que eu não sou nem nunca fui artista plástico e minha única incursão no mundo das artes foram alguns poemas que escrevi muito tempo atrás.

Segundo Maurício, a resposta da Meta AI à mesma pergunta foi ainda mais estranha. E, ao trocar o meu nome pelo dele, saiu uma lenga-lenga enorme sobre sua influência como artista revolucionário.

Mas ele também fez testes pedindo uma análise crítica sobre a obra do neto de um amigo que tem três anos de idade. E pediu ainda uma comparação entre as ideologias de Karl Marx, Groucho Marx, Roberto Burle Marx, Armando Marques e Gabriel García Marques. Resultado: mais um monte de blá-blá-blá sem nexo e, pior, sem relação com a realidade.

Evidentemente, como assinala Maurício, existe uma enorme quantidade de inteligência envolvida na produção de respostas por esses aplicativos. O problema é que eles deliram e inventam informações que absolutamente não correspondem à verdade. Seria cômico se não fosse trágico. Basta imaginar a quantidade de estudantes de todos os níveis utilizando esses aplicativos de IA para fazer trabalhos escolares.

Em tempos de pós-verdade, em que o que importa não são os fatos e sim as versões, tese defendida tanto por Trump e os bolsonaristas quanto pela esquerda identitária, programas como o ChatGPT e a Meta AI caem como uma luva. Diante de tão honrosa análise crítica de minha obra, agora só falta eu expor meus quadros em alguma galeria famosa — quando eu pintar algum, é claro.

Quando ninguém é inocente

Na última terça-feira, dia 03/01/2025, foi divulgado que o jogador de futebol amador Kauan Galdino Florêncio Pereira, de 18 anos, baleado na cabeça após pisar no pé de um traficante de drogas num baile funk em Queimados, na Baixada Fluminense, teve morte cerebral.

Que lições tiramos desse fato? Primeiro, que para os criminosos a vida humana não vale nada. Mas disso já sabíamos. Assim como sabemos que pancadões, batidões e bailes funk são frequentados pela nata da marginalidade, logo não são locais recomendáveis a pessoas de bem, mesmo que pobres e periféricas.

Segundo, que boa educação e gentileza não ocupam espaço. Se eu pisar no pé de alguém — ou mesmo se não pisar, mas a pessoa achar que eu pisei —, minha reação natural é pedir desculpas. Mas o jovem Kauan não fez isso. Ao contrário, desentendeu-se com um desconhecido que, pelo simples fato de estar naquele local, coisa boa não deveria ser. Terminou baleado e morto. Ao que consta, o próprio assassino do jovem também foi morto dias depois por ordem do Comando Vermelho, que não quer uma investigação policial em seus domínios.

Parece uma história de final trágico em que ninguém tinha razão. Bailes funk são locais de intensa aglomeração de jovens pobres, que se misturam a marginais (ladrões, assassinos, traficantes), prostitutas, menores aliciados, onde há farta distribuição e consumo de drogas, circulação de carros e motos roubadas, corrupção policial e até disseminação de doenças. Pancadões bloqueiam vias públicas, cerceiam o direito de ir e vir de motoristas e transeuntes, cerceiam com o barulho o direito de dormir de trabalhadores que moram nas proximidades, atraem furtos, assaltos e outros crimes para suas redondezas, além de uma série de outras mazelas. Não são, definitivamente, lugar de gente de bem.

Por outro lado, um pisão é um acidente que pode ocorrer em qualquer aglomeração. Relevar o fato por parte da pessoa pisada e desculpar-se por parte da pessoa pisadora fazem parte dos princípios de civilidade e urbanidade que qualquer cidadão deveria ter — mas os frequentadores desses eventos geralmente não têm.

Por fim, atirar na cabeça de um jovem cheio de planos (ser futebolista profissional e paraquedista das Forças Armadas) por um motivo tão fútil e banal nos mostra que nessa história trágica todos perderam (inclusive a vida) e ninguém era inocente.

Um lugar na janelinha

A semana que passou foi marcada por uma polêmica inusitada: num voo do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, uma criança chora pedindo para viajar na janelinha do avião, a moça sentada à janela — que pagou por esse assento — permanece indiferente, a mãe da criança nada fala, mas uma terceira mulher resolve tomar as dores do menino e começa a filmar a jovem sentada à janela dizendo que, em pleno século XXI, ela não tem coração, não tem nenhuma empatia pela criança, e por aí vai. Depois, a filha dessa mulher espalha o vídeo em suas redes sociais e o assunto viraliza, polarizando mais uma vez a nação. De um lado, os defensores da jovem Jennifer, a moça da janela, argumentando que ela exerceu seu direito ao assento com vista para as nuvens e reprovando a mãe da criança mimada, que não saberia impor limites ao filho. De outro, os defensores de Aline, a mãe, acusando Jennifer de insensibilidade e egoísmo. E nenhum dos lados sabendo que quem provocou a controvérsia foi a nutricionista Eluciana, que filmou a cena e fez os comentários desairosos contra Jennifer. Mas esta, até então uma pacata bancária anônima, de repente ganhou dois milhões de seguidores em suas redes sociais sem ter feito absolutamente nada — literalmente nada! Agora já vem sendo assediada por marcas que a querem como sua garota-propaganda.

Esse episódio nos ensina várias lições. Primeiro, que hoje, na era dos smartphones, qualquer um que se sinta de alguma forma injustiçado ou ultrajado se acha no direito de sair filmando os outros, em flagrante desrespeito ao direito de imagem, ao direito à privacidade e até ao direito à ampla defesa.

Segundo, que hoje qualquer um se sente no direito (eu diria até no dever) de passar adiante em suas redes sociais qualquer tipo de notícia capaz de causar controvérsia — e com isso obter engajamento — sem checar a fonte ou a veracidade da informação. Se a notícia em questão for uma fake news ou um fato descontextualizado, o estrago já estará feito. E a monetização garantida.

Em terceiro lugar, a internet se transformou no grande tribunal de justiçamento público, no qual as pessoas julgam, sentenciam e executam o linchamento moral dos outros sem possibilidade de apelação e, o que é pior, sem se aterem à realidade dos fatos. Como disse certa vez um famoso editor de jornais, se a versão é mais interessante que o fato, publique-se a versão.

Em quarto, hoje em dia as pessoas são muito ciosas de seus direitos, mas não tanto de seus deveres, logo todos dão carteiradas em todos. Quer dizer, todos não: ainda há pessoas de bom senso e dotadas de civilidade e gentileza, que dialogam em vez de agredir, mas são cada vez em menor número.

Por último, qualquer pessoa absolutamente medíocre pode tornar-se uma (sub)celebridade e gozar de seus quinze segundos de fama (quinze minutos é uma eternidade hoje em dia) sem ter mérito algum; a opinião do grande pensador e a do tiozinho do zap têm o mesmo peso nas redes. Isso quando a deste não dá mais ibope que a daquele!

Agora que as grandes emissoras de televisão restabeleceram a verdade dos fatos, esclarecendo quem é quem nessa história, pouco importa: o partido já está tomado, o linchamento tanto de uma quanto da outra já foi feito, o vídeo já foi monetizado, o senhor Mark Zuckerberg já ficou (ainda) mais rico, e vida que segue, com uns metendo o bedelho em escala global na vida dos outros.

O cancelamento nosso de cada dia

Dia 17 último, durante os Jogos Jurídicos tradicionalmente disputados entre alunos de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), torcedores desta última gritaram impropérios de cunho supostamente racista contra os estudantes da USP, chamando-os de “cotistas” e “pobres” (usei a expressão supostamente racista porque cotista e pobre não são, salvo melhor juízo, denominações de raça e sim de condição social).

Já no dia 27 deste mesmo mês, a desembargadora Rosita Falcão Maia, durante uma sessão do Tribunal de Justiça da Bahia, fez críticas ao sistema de cotas raciais adotado no Brasil ao dizer que elas “vieram mais para desunir do que unir a população”. A sessão deliberava sobre a admissão ou não de uma candidata aprovada como cotista num concurso do próprio Tribunal.

A desembargadora também afirmou que “a meritocracia é importantíssima no serviço público”. E ainda alegou que a Faculdade de Direito da Universidade da Bahia (UFBA) “era excelente, [mas] hoje já não é tanto, porque todos os professores comentam o desnível dos estudantes. O nível dos estudantes baixou”.

Por fim, a filha de um amigo meu saiu-se muito bem no vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mas foi barrada pela política de cotas. Obteve nota geral 7,65 enquanto os cotistas entraram com menos de 6,00.

Tanto a manifestação dos torcedores da PUC-SP quanto a da magistrada baiana foram intensamente repudiadas por seu caráter racista, preconceituoso e discriminatório.

Bem, criticar ou injuriar pretos e pardos pelo simples fato de serem pretos ou pardos é, sem dúvida alguma, um abominável ato de racismo, especialmente porque ninguém tem o poder de escolher a cor da própria pele (que eu saiba, Michael Jackson foi o único a fazer isso). Mas criticar uma política governamental de cotas ou enaltecer o critério do mérito não constituem crime. Principalmente quando a crítica tem algum embasamento. E parece que a da desembargadora tinha. Primeiro, ela apontou o próprio diagnóstico dos professores do curso de Direito da UFBA. Em segundo lugar, o episódio dos Jogos Jurídicos USP x PUC demonstra que, de fato, as cotas geram divisão em vez de promover união. Antes delas, a presença de um aluno negro nos bancos da universidade, ainda que minoritária, era digna de louvor, visto que o estudante em questão havia superado inúmeras barreiras — de pobreza, de educação precária, de desestímulo social, de dificuldade de transporte e alimentação — para chegar àquela posição. Era alguém que fez por merecer o lugar onde estava. Hoje, os cotistas são vistos por muitos colegas não cotistas como alguém que entrou na universidade pela porta dos fundos, alguém que, sem ter o devido mérito, usufruiu um privilégio. Não vou entrar aqui nas espinhosas questões de reparação histórica, promoção da diversidade, combate ao racismo, etc. etc. Estou apenas me referindo ao sentimento de injustiça que muitos alunos, como a filha de meu amigo, nutrem em relação a colegas que, em termos de bagagem cultural, estão em posição inferior. Sentimento esse que produz desunião e desconfiança num ambiente que deveria ser de fraternidade e coleguismo.

Mas, como se vê, a própria crítica à política de cotas, cujo objetivo seria o de combater o racismo, de que está na prática alimentando o racismo, ainda que escorada em fatos, é ela própria acusada de ser racista. Diante disso, só nos resta depositar flores sobre o túmulo da liberdade de consciência e de expressão do pensamento.

O que me choca é que, quando magistrados, professores, estudiosos e intelectuais criticam esta ou aquela política, não o fazem com propósito depreciativo e sim com espírito de crítica construtiva, de quem deseja aperfeiçoar o sistema e não destruí-lo. Mas mesmo a crítica construtiva é vista como um ataque aos direitos — e talvez até privilégios — conquistados por certas minorias, que por meio deles exercem seu poder de censurar e cancelar qualquer um que pense diferente.

“África” é um nome racista?

Tenho sempre dito que o negacionismo, fundamentado em notícias falsas, por vezes fabricadas propositalmente, não é exclusividade da direita: a esquerda, especialmente a identitarista (faço questão de distinguir entre identitarista e identitário: o segundo luta por causas justas, o primeiro faz delas instrumento de luta pelo poder), é tão negacionista quanto, apenas produz desinformação sobre outras questões.

Leio no portal de notícias G1 a matéria Filósofos africanos consideram que a palavra ‘África’ é uma injúria racial, e que continente deveria ser renomeado (disponível em https://g1.globo.com/educacao/noticia/2024/09/13/filosofos-africanos-consideram-que-a-palavra-africa-e-uma-injuria-racial-e-que-continente-deveria-ser-renomeado.ghtml), em que o professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade de Pretória, África do Sul, Jonathan Okeke Chimakonam é entrevistado. A matéria se inicia com as seguintes perguntas: “Os africanos devem ser chamados de negros ou a categorização das pessoas pela cor da pele é uma prática racista? E quanto à África? O nome do continente é uma injúria racial porque foi escolhido pelos exploradores europeus e baseado no clima, e não nas pessoas, e deveria ser renomeado?”

A partir dessas perguntas, o entrevistado, de quem se deduz que, sendo professor de uma das mais importantes universidades africanas, deveria ter um conhecimento razoável de história, geografia e mesmo de etimologia, não hesita em desfiar um rosário de informações mentirosas a fim de sustentar sua tese wokista de que tudo o que os indivíduos brancos fazem ou fizeram tem sempre uma intenção racista (mesmo que os negros façam o mesmo em relação aos brancos, mesmo que qualquer etnia faça o mesmo em relação a qualquer outra etnia).

Diz Chimakonam:

O nome África foi dado ao continente pelos exploradores, escravagistas e colonizadores europeus que chegaram como comerciantes e exploradores nos anos 1400. Acredita-se que “África” tenha sido tirado do grego aphrike, que significa sem frio; em latim, traduz-se para aprica, que significa ensolarado.

Agora vamos aos fatos. Em primeiro lugar, o nome do continente não surgiu nos anos 1400, dado “pelos exploradores, escravagistas e colonizadores europeus”. Na verdade, o nome Africa já era correntemente usado pelos romanos para designar o norte do continente, especialmente a Líbia e o Egito, a única parte do extenso continente que eles conheciam à época. Igualmente chamavam seus habitantes de afri, donde saiu o nosso prefixoide afro (de afrodescendente, por exemplo). Segundo a Wikipédia,

Afri era um nome latino usado para se referir aos habitantes do que era então conhecido como norte da África, localizado a oeste do rio Nilo, e em seu sentido mais amplo referindo-se a todas as terras ao sul do Mediterrâneo, também conhecido como Líbia Antiga. Este nome parece ter originalmente se referido a uma tribo nativa da Líbia, um ancestral dos berberes modernos; […] O nome tinha sido geralmente ligado com a palavra fenícia ʿafar que significa “poeira”, mas uma hipótese de 1981 afirmou que deriva da palavra berbere ifri (plural ifran) que significa “caverna”, em referência aos moradores de cavernas. A mesma palavra pode ser encontrada no nome dos Banu Ifran da Argélia e Tripolitânia, uma tribo berbere originária de Yafran (também conhecida como Ifrane) no noroeste da Líbia, bem como da cidade de Ifrane no Marrocos.

Como ocorre muitas vezes nos estudos etimológicos e onomásticos (onomástica é o ramo da etimologia que estuda os nomes próprios), não há certezas absolutas quanto à origem de nomes muito antigos, mas o simples benefício da dúvida já seria suficiente para que não se lançassem acusações levianas e desprovidas de evidências contra certas palavras ou nomes. O que se sabe com certeza — e que contradiz veementemente o argumento de Chimakonam — é que o nome da África não foi dado pelos colonizadores europeus do século XV nem tem relação com o suposto grego aphriké, vocábulo que nem consta nos dicionários de grego. Em grego clássico, aphrós significa “espuma” (daí o nome da deusa Afrodite, nascida da espuma do mar), e phriké é a agitação do mar encapelado. Tampouco África tem a ver com o verbo latino aprico, “aquecer ao sol”. O ilustre professor chega até a confundir o grego phriké com o latim frigus, “frio” ao dizer que aphriké é “sem frio”. Uma verdadeira salada de pseudoetimologias!

Mas ele segue em frente em sua argumentação falaciosa:

Os antigos judeus se referiam a pessoas de outras nações e crenças como gentios, o que era uma calúnia porque os identificavam como forasteiros. Os antigos chineses se referiam aos povos da Mongólia como bárbaros, e a lista continua.

Só que gentio deriva de gente, portanto não tem nada a ver com “forasteiro”, e bárbaro é um termo de origem grega para designar os povos não gregos, logo essa palavra jamais foi empregada pelos chineses para referir-se aos mongóis. Mas, como diz o próprio Chimakonam, “a lista continua” — no caso, a lista de fake news identitaristas:

De fato, em muitos casos, os nomes são calúnias destinadas a rebaixar essas pessoas ou lugares. Por exemplo, aprendemos com os relatos de Homero, o antigo poeta grego, que, quando os gregos encontraram pela primeira vez os povos do leste da África, eles os chamaram de aethiops ou Aithiops, que significa rosto queimado pelo sol.

Voltemos à Wikipédia:

Não é muito certo quão velha é a palavra Etiópia, cujo uso mais antigo aparece na Bíblia em Gênesis, capítulo 2. E também na Ilíada, onde o nome aparece duas vezes, e na Odisseia, onde aparece três vezes. O uso mais antigo atestado na região é um nome cristianizado do Reino de Axum no século IV, em escrituras de pedra do Rei Ezana. O nome ge’ez ʾĪtyōṗṗyā e seu cognato português são considerados por alguns estudiosos serem derivados da palavra grega Αἰθιοπία, Aithiopia, de Αἰθίοψ, Aithiops ‘um etíope’, derivado, por sua vez, de palavras gregas que significam “de rosto queimado”. No entanto, O Livro de Axum, uma crônica em ge’ez compilada no século XV, alega que o nome é derivado de ’Ityopp’is — um filho (não mencionado na Bíblia) de Cuxe, filho de Cam, quem, de acordo com a lenda, fundou a cidade de Axum. Plínio, o Velho alega, igualmente, que o nome da nação deriva de alguém cujo nome foi Aethiops. Uma terceira etimologia, sugerida por pesquisadores etíopes recentes e o poeta laureado Tsegaye Gabre-Medhin, traça o nome às palavras “egípcias, velhas e negras”: Et (Verdade ou Paz), Op (Alto ou Superior) e Bia (Terra ou País), sendo Etiópia a “terra de paz superior”.

Mais uma vez, o étimo “de rosto queimado” é apenas uma hipótese, por sinal, a mais fraca em termos de evidências científicas. Mas, entre a “terra da paz superior” e a “terra dos rostos queimados”, os wokistas preferem a segunda, já que precisam de um argumento para sua autovitimização. Aliás, se a ideia é criar falsas etimologias para incriminar os brancos opressores, escravistas, racistas, misóginos, homofóbicos, fascistas, etc., então que tal relacionar África com o grego áphron, “irrefletido, inconsequente, disparatado, tolo”?

Mas o sábio filósofo africano prossegue: “o nome África é uma injúria racial. Aphrike ou aprica refere-se ao clima quente do continente, talvez em exagero, com a falsa impressão de que o continente é ‘sem frio’. Se o continente é quente e não tem frio, isso o tornaria o proverbial fogo do inferno, não é mesmo?”

Agora ele nos brinda com a informação de que a referência ao alegado clima quente da África é uma injúria racial (por essa lógica, o nome da Islândia, que significa “terra do gelo”, também seria uma ofensa aos islandeses, não?) e conclui por meio de um raciocínio altamente tortuoso que, se a África é quente (do ponto de vista dos europeus, obviamente), então ela tem a ver com fogo, e fogo tem a ver com inferno, logo, por uma série questionável de silogismos, a África é o próprio Inferno da tradição judaico-cristã, certo? Viram como é fácil misturar sofismas lógicos com pseudoetimologias para criar bandeiras de luta identitarista e bombar nas redes sociais?

Mas a cereja do bolo vem agora:

Alguém se pergunta por que os defensores do racismo científico em algumas universidades europeias nos anos 1700 e 1800 […] decidiram classificar os povos indígenas africanos com a cor preta, os índios americanos com o vermelho, alguns povos asiáticos com o marrom, outros com o amarelo e os europeus com o branco? […] esses sãovários níveis de degeneração, com exceção da cor branca, que é intocada, pura e imaculada. Em nossa opinião, identificar um ser humano com qualquer cor é racismo. Identificar-se como branco é desconsiderar os outros como não brancos, o que é racismo indireto, e chamar alguém de qualquer outra cor — como negro — é uma subordinação racial direta.
A essência do projeto de categorização de cores da humanidade era estabelecer a hierarquia racial como parte de uma tentativa de defender o racismo científico e justificar a escravidão, a opressão colonial e a exploração.

Portanto, segundo Chimakonam, chamar os negros de negros (embora seja essa a cor de sua pele) é racismo, mas chamarem-se os próprios brancos de brancos (embora essa também seja a cor da sua pele) não é porque, na visão do filósofo, a cor branca é diferente das demais (talvez ela tenha alguma propriedade óptica que as demais cores do espectro não têm, alguma propriedade oculta que os físicos ainda não descobriram). Mas será que denominar os negros como afrodescendentes, os asiáticos como orientais, os índios como povos originários ou os brancos como caucasianos muda alguma coisa em relação ao racismo? O que motiva o ódio entre etnias é uma simples questão estética como a cor da pele? Ou será que o preconceito e a discriminação nascem do choque entre culturas, em que grupos sociais com hábitos muito diferentes, por vezes inconciliáveis, são forçados a habitar o mesmo espaço?

Pois o pensador sul-africano propõe alterar o nome do continente africano para Anaésia, termo derivado de duas palavras do idioma igbo, ana e esi, que significam “terra ou local de origem”: o continente onde se originou a espécie humana e onde a primeira língua humana foi falada. Nome bonito de significado idem. Mas até que ponto — e a que custo — se deve mudar um nome com milênios de tradição apenas porque um acadêmico sul-africano que pouco ou nada entende de etimologia ou história acha que o nome atual é ofensivo? Se for assim, proponho mudar o nome da América, que faz alusão a um branco europeu racista, opressor, colonialista, escravagista, capitalista selvagem — e por que não machista, homo e transfóbico? — chamado Américo Vespúcio. Gostaram da ideia?