A pesquisa linguística no Brasil

Apesar de ainda sermos um país em vias de desenvolvimento (ou emergente, como se diz hoje em dia) e mesmo com os constantes ataques da nada saudosa gestão Bolsonaro à ciência e os sucessivos cortes de verbas e de investimento no setor, não só por aquele desastroso governo, mas também pelos anteriores, nossas pesquisas científicas e tecnológicas em várias áreas já se equiparam ao que de melhor se produz no mundo. Cirurgia cardíaca, neurociência, física, química, engenharia de materiais, aeronáutica, agricultura, dentre outros, são setores em que o Brasil vem continuamente se destacando no cenário mundial, com uma produção científica e intelectual relevante do ponto de vista tanto quantitativo como qualitativo. Infelizmente, nada semelhante pode ser dito a respeito das ciências da linguagem. Em nosso país, há poucas universidades (quase todas públicas) com departamentos de linguística. E, nestes, a pesquisa que se faz está quase sempre voltada ao ensino de português na escola básica. Ironicamente, nunca se ensinou tão mal a nossa língua nas escolas, haja vista os deploráveis resultados dos testes de avaliação aplicados aos nossos estudantes. Em plena sexta série, muitos são analfabetos funcionais — ou absolutos!

Enquanto no mundo desenvolvido as pesquisas em linguística versam sobre temas como a origem da linguagem e a primeira língua falada pelo homem, a reconstrução de línguas pré-históricas, as relações entre o cérebro humano e o processamento da linguagem, o uso do conhecimento linguístico no desenvolvimento de inteligência artificial e o tratamento de patologias da linguagem, dentre outros, aqui os departamentos de linguística mais parecem extensões das faculdades de educação. Não que a pesquisa aplicada ao ensino não seja relevante, mas os departamentos de linguística das universidades não deveriam ocupar-se somente disso. Além do mais, os linguistas que pesquisam sobre educação em geral propugnam não o ensino da norma-padrão da língua portuguesa, aquela que é correntemente utilizada pelas pessoas de alto letramento na imprensa, nos livros, na redação jurídica, técnica, acadêmica, etc., mas uma outra, em grande parte inventada por eles, que só gente que escreve mal emprega.

Todo o problema deriva do mau uso de uma disciplina linguística bastante importante, a sociolinguística, que estuda a relação entre o modo como as pessoas se expressam e o grupo social (classe, nível socioeconômico, profissão, idade, sexo, etc.) a que pertencem. Muitos linguistas brasileiros confundem a análise neutra, objetiva e imparcial do fenômeno com o suposto dever de militar em favor de algum grupo social e, por conseguinte, adequar o ensino de gramática às deficiências desse grupo, ministrando aos pobres — ou melhor, às pessoas em situação de vulnerabilidade econômica — uma educação igualmente pobre. Essas pesquisas não atacam a raiz do problema, isto é, a desigualdade social (o que, aliás, não é da competência dos linguistas fazer), nem propõem a solução óbvia, a melhoria da educação pública. Em vez disso, optam por sugerir o empobrecimento do vocabulário e da gramática para que, nivelando-os por baixo, sejam acessíveis a estudantes em situação de vulnerabilidade intelectual.

O problema é que esse tipo de pesquisa dá com os burros n’água na medida em que em nada contribuem para a melhoria do desempenho linguístico dos alunos, especialmente nas situações que realmente importam, ligadas à atividade profissional de alto nível. E pesquisas como essas ou como tantas outras, que enfocam questões meramente locais, têm pouca relevância no Brasil e nenhuma em nível global. De fato, pesquisas sobre questões pontuais e desimportantes — certa vez um professor meu da USP publicou um artigo sobre os parassinônimos do verbo andar; e um doutorando defendeu uma tese sobre o léxico dos travestis da Praça da Sé —, publicadas em língua portuguesa, acabam não tendo aplicação prática na elaboração de políticas públicas nem interessam à comunidade científica internacional, que, aliás, não lê português. Enquanto isso, outros países emergentes como China, Rússia, Índia e mesmo os vizinhos Chile e Argentina se destacam pela quantidade e pela qualidade de suas pesquisas, de interesse mundial e não apenas local.

Portanto, falta à linguística brasileira em particular e às ciências humanas em geral uma postura mais científica e menos ideológica. Falta que os linguistas encastelados nas universidades públicas brasileiras façam mais ciência e menos política. Ainda mais quando essa política já se provou na prática ineficaz, quando não nociva ao desenvolvimento do país.

Educar é humilhar?

Em seu artigo “O preconceito linguístico disfarçado de elegância nas redes sociais”, publicado no site Folha Vitória, a professora Larissa O’Hara critica uma certa postura arrogante e preconceituosa de quem, tendo domínio da norma-padrão do idioma, ou mesmo sendo professor dela, usa de seu conhecimento linguístico para humilhar quem não a domina. Ela diz: “A elegância, quando usada para desqualificar o outro, não é uma virtude; ao contrário, torna-se um instrumento de exclusão. Utilizar o domínio da norma-padrão para menosprezar dialetos marginalizados reforça uma postura segregacionista e violenta”.

E justifica:

[…] foi apenas no final do século XX, em 1996, com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que a escola se universalizou e o perfil da população estudantil se diversificou. […] Antes, a escola era espaço das elites; com a democratização, passou a acolher também alunos das classes trabalhadoras e de segmentos à margem do sistema de produção. Nesse processo, a escola passou a receber estudantes que falam, por exemplo, “nóis vai”, “abrido”, “cheguemu”, expressões típicas de suas comunidades e contextos sociais.

De fato, a universalização do ensino básico levou para dentro da escola pública a quase totalidade das crianças e adolescentes das classes mais baixas da população (e, diga-se de passagem, introduziu no ambiente escolar muitos pequenos marginais que ameaçam a integridade física e a vida de colegas e professores). Mas, antes de continuarmos, deixem-me explicar algo que já mencionei em outras oportunidades.

A língua tem três níveis de linguagem, ou registros (na verdade, o terceiro deles é muito mais um dialeto do que um registro), que são o formal (iremos), o informal-coloquial (nós vamos, a gente vai) e o vulgar, ou iletrado (nóis vai, a gente vamo). Este último é antes um dialeto do que um registro porque registros são modos de expressão que adotamos conforme a situação de comunicação. Assim, o mesmo falante que emprega iremos num texto profissional utiliza a gente vai num bate-papo entre amigos. Mas ele jamais diria nóis vai, a não ser de brincadeira. Já quem diz nóis vai é incapaz de usar nós vamos ou nós iremos. Há uma barreira social e educacional entre a pessoa que alterna os dois primeiros registros e a que só utiliza o terceiro. Vale lembrar que a função da escola é tornar o aluno proficiente no primeiro registro, que é o que lhe abrirá portas em seu futuro profissional e civil, pois nos outros dois registros ele já é proficiente.

Vamos imaginar que, se o Brasil tivesse um ensino público gratuito e universal de altíssima qualidade como têm países como Finlândia ou Dinamarca e, portanto, todas as crianças recebessem desde cedo esse nível de educação, ninguém no país falaria nóis vai. É o que se espera de um país desenvolvido — eu diria até, civilizado.

Obviamente, crianças oriundas de favelas ou zonas rurais, filhas de pais analfabetos, que não podem dar aos filhos o que não têm nem conhecem, chegam à escola dizendo nóis vai. E concordo com a articulista de que não é justo que sejam humilhadas por isso, afinal não têm culpa da condição socioeconômica em que nasceram.

Citando Stela Maris, Ph.D. em Linguística, na obra Nós cheguemu na escola, e agora?, Larissa recomenda “que a norma culta seja ensinada nas escolas, mas que, ao mesmo tempo, sejam preservados os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social”. 

E é aí que discordo da colunista e da doutora em linguística. Os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social devem, sim, ser respeitados, mas não preservados. A escola deve, sim, corrigir o aluno que diz nóis vai e ensiná-lo de que, daqui para frente, deve dizer nós vamos, nós iremos ou a gente vai, dependendo do contexto. Mas, e quando esse aluno for para casa e conversar com seus pais, ele deve usar a nova forma que aprendeu ou mudar a chave e dizer: “hoje nóis aprendeu uma coisa nova lá na escola”? Ninguém passa pela escolarização impunemente. Portanto, o que se espera de alguém que está sendo escolarizado é que aplique na sua vida o que aprende na escola. Logo, esse aluno deve aos poucos se acostumar a empregar um linguajar mais condizente com sua condição escolar. Se os pais acharem estranha a nova forma de expressão da criança, esta deve dizer: “pai, mãe, a professora ensinou que essa é a forma correta de falar”. Essa criança estará indiretamente educando também os seus pais, num efeito multiplicador. Antes de causar estranheza, esse novo modo de falar deveria causar orgulho em pais que não puderam estudar, mas cujos filhos estudam para um dia ter uma posição social melhor que a deles. A menos que esses pais sonhem em ter um filho traficante, funkeiro, jogador de futebol ou influenciador digital.

Larissa prossegue: “Aprender a norma culta deve significar uma ampliação da competência linguística e comunicativa do aluno, capacitando-o a usar uma variedade ou outra, conforme a situação discursiva”. Fico imaginando um eminente jurista como Joaquim Barbosa, que veio de um meio muito humilde, chegando à casa de seus pais depois de dar uma palestra em português castiço e dizer “hoje eu di uma palestra numa facurdade pra lá de boa e os pessoal me apraudiu tudo”. Seria concebível essa situação?

Respeitar o socioleto do aluno vindo da favela é uma coisa, ensiná-lo a usar variedades de maior prestígio para seu próprio bem é outra. À medida que o aluno aprende uma forma de expressão mais prestigiosa, que o afasta do ambiente tóxico em que estaria condenado a viver, por que ele continuaria a usar uma forma linguística que só o prende a essa realidade?

A colunista finaliza:

Os alunos devem se sentir à vontade para falar em sala de aula, independentemente da variedade linguística que utilizem. Quando seus antecedentes culturais e linguísticos não são respeitados, podem desenvolver um sentimento de insegurança e inadequação. […] Como poderíamos ensinar menosprezando, desautorizando e humilhando nossos próprios alunos? Não somos contrários às regras, nem defensores de um “vale-tudo” linguístico.
Na verdade, apreciamos ensinar as normas do português padrão e promover uma boa escrita. No entanto, isso é muito diferente de diminuir alguém por sua forma de se expressar. […] Humilhar outra pessoa por sua forma de falar, não apenas silencia uma voz, mas também perpetua um ciclo de opressão.

Obviamente, sou contra qualquer humilhação que um professor possa impor a um aluno, especialmente por seu modo de falar. Mas a sociolinguística, base teórica da noção de variação e variedade linguísticas, que prega a igualdade de valor entre todas as variedades, tem sido frequentemente usada por professores inexperientes, preguiçosos ou mal-intencionados para deixar de ensinar a norma-padrão (até linguistas de universidades brasileiras recomendam que não se ensine mais gramática) sob a alegação de que corrigir o aluno constitui preconceito linguístico que pode traumatizá-lo e de a gramática normativa é uma forma de opressão das elites contra a classe trabalhadora; por isso, é melhor deixá-lo continuar a dizer nóis vai — e a vandalizar a sala de aula e ameaçar colegas, professores e diretores. É por isso que o artigo da professora O’Hara, embora bem-intencionado, pode ser perigoso se mal interpretado.

Corrigir o aluno é preconceito?

“O que o senhor pensa sobre a posição de muitos linguistas que criticam o ensino de gramática normativa nas escolas? Segundo essa visão, corrigir o aluno é considerado preconceito linguístico. Tenho consciência da variação linguística, mas isso vale para tudo? Por exemplo, se alguém não pronuncia uma palavra da forma como ela é, isso é variação? Qual o limite entre o preconceito linguístico e o ensino da gramática normativa (GN)? Como podemos diferenciar variação de uso incorreto? Que obras/materiais/vídeos o senhor indica que tratam dessas questões? Creio que essas são dúvidas de muitos professores de Língua Portuguesa pelo Brasil.”

A pergunta do leitor, que infelizmente não se identificou, é muito oportuna, e espero que a reflexão que faço a seguir seja proveitosa aos professores de português em geral.

A finalidade de ensinar língua portuguesa na escola é, num primeiro momento, ensinar a ler e escrever, isto é, alfabetizar o aluno. Num segundo momento, ensiná-lo a interpretar textos, ou seja, ler e compreender o que está lendo, bem como ensiná-lo a redigir com coesão, coerência, riqueza vocabular e de acordo com as regras da norma-padrão, que estão codificadas nas gramáticas normativas. Todas essas habilidades lhe serão cobradas em sua vida como cidadão e como profissional.

Uma decorrência desse aprendizado é que ele também saberá falar segundo a norma-padrão quando isso for necessário e tenderá a falar de modo mais próximo desse padrão mesmo em situações informais. Ou seja, a função do ensino de LP é preparar o aluno para ser um cidadão pleno e um profissional qualificado, não um mero trabalhador braçal ou um excluído social.

De fato, a variação linguística existe e deve ser respeitada, mas ensinar o padrão não é exercer preconceito linguístico. Se um professor de educação física corrige a postura de um aluno durante um exercício, ele está cumprindo seu papel de educador e não sendo preconceituoso. Portanto, a função da escola é corrigir o uso inadequado da língua. E inadequado é usar a norma que se trouxe de casa em situações que exigem linguagem formal, como uma reunião de trabalho, a redação de um documento, etc.

Se o papel do professor de LP fosse deixar o aluno se expressar em todas as situações como ele já o faz, essa disciplina não seria de modo algum necessária, pois todos já chegam à escola sabendo falar.

O que ocorre é que hoje a escola pública recebe um grande contingente de alunos provindos das classes mais baixas da sociedade, nascidos em famílias cujos pais são ignorantes e nas quais não há incentivo ao estudo, à leitura, e, sobretudo nas chamadas “comunidades” (leia-se “favelas”), há um preconceito em sentido contrário, isto é, quem tem mais estudo e se expressa melhor é que é discriminado.

A postura de certos linguistas de querer abolir o ensino da gramática normativa e de não corrigir a fala e a escrita do aluno atende a uma finalidade ideológica e a uma finalidade prática. A ideológica é a implementação de uma agenda “de esquerda” — na verdade, esquerda burra, pois esquerdistas inteligentes dão valor ao conhecimento e têm, eles próprios, grande proficiência na norma-padrão — que considera que inclusão social é normalizar o anormal e não transformar para melhor a realidade social dos menos favorecidos. A finalidade prática dessa postura é não criar conflitos com alunos que, por sua origem familiar e social, são potencialmente violentos. Ou seja, “deixe os alunos falarem como quiserem e fazerem o que bem entenderem; meu salário de professor está garantido do mesmo jeito”.

Observe que a questão do ensino ou não da gramática normativa afeta basicamente a escola pública, pois nas escolas particulares, em que a maioria dos alunos provém da classe média ou alta, esse debate praticamente não se coloca. A menos, é claro, que algum professor militante de esquerda lecione nessas escolas. E quando digo “militante”, não me refiro à escolha ideológica que o docente, como qualquer cidadão, tem o direito de fazer em sua vida privada; refiro-me ao extremismo ideológico que invade o fazer pedagógico e o deturpa, sobrepondo convicções pessoais aos fatos científicos.

O cumprimento de uma agenda político-partidária por boa parte dos professores dos cursos de Letras traz um viés nocivo ao fazer científico. Imagine um biólogo adepto do criacionismo bíblico confrontado com evidências da evolução das espécies em suas pesquisas. Ele tem dois caminhos a seguir: ou aceita as evidências concretas da evolução e renega sua crença no criacionismo ou nega as evidências em favor de seu dogma religioso. Em nome do cumprimento de sua agenda ideológica, o docente universitário dessa que chamo de “esquerda burra” — e há muitíssimos deles nas áreas de Humanas, especialmente das universidades públicas — recusa os fatos que, como cientista, deveria prezar e sobre os quais deveria apoiar suas pesquisas e reflexões.

O uso incorreto (segundo a gramática normativa, bem entendido) da língua é, sim, uma forma de variação, que em certos casos chega a se constituir como um dialeto (“nós fumo”, “nós vai”, “a gente cheguemo”, “pobrema” podem ser perfeitamente considerados como um dialeto do português — veja a esse respeito a obra de Amadeu Amaral).

Mitos e verdades sobre a linguística – e os linguistas

A linguística já tem 200 anos de existência, mas ainda é uma ciência pouco conhecida da maioria das pessoas. De fato, muitas delas acreditam que a única disciplina que se ocupa da língua é a gramática, já que é a única que se estuda no ensino básico.

Consequentemente, nós linguistas somos muitas vezes confundidos com gramáticos ou professores de português. Não raro, quando digo que sou linguista, a pessoa fica imediatamente constrangida e diz: “Puxa, então a partir de agora eu preciso me policiar para não falar errado na sua frente”. Na coluna Pergunte ao Linguista deste blog, a maioria das perguntas que recebo diz respeito à famosa dicotomia certo x errado ou traz dúvidas de gramática normativa. Até aí, tudo bem: se sei a resposta, respondo; se não sei, pesquiso; se está totalmente fora da minha área de atuação profissional, me desculpo, e pronto.

Mas, mesmo aqueles que têm alguma noção do que venha a ser a linguística revelam por vezes certas crenças equivocadas que lhes foram inculcadas ou por professores de português mal (in)formados ou por divulgadores da linguística pouco preparados (e, sim, há muitos divulgadores científicos na área da linguística, mas a maioria são estudantes de graduação ou pós-graduação, portanto profissionais ainda não totalmente formados, com pouca experiência profissional e sobretudo com pouca maturidade).

Decorrência disso é que há muitos mitos cercando a nossa profissão. Por isso, resolvi aqui discutir alguns deles e tentar esclarecer o que há de verdade e o que há de fantasia em cada um.

Primeiro mito: a linguística só estuda a língua falada, especialmente no registro coloquial; a língua escrita formal é território exclusivo da gramática normativa. Na verdade, durante todo o século XIX, em que a pesquisa linguística foi basicamente histórica, os linguistas se debruçaram sobre os únicos registros existentes de estados passados das línguas, e estes eram todos documentos escritos. Foi só no início do século XX, a partir da obra de Ferdinand de Saussure, que a linguística se voltou mais à língua falada, até porque 96% das línguas do mundo não têm expressão escrita (são as chamadas línguas ágrafas). Em outros dois artigos (A importância da escrita na pesquisa linguística e Língua oral ou língua escrita: qual é melhor?), no entanto, já expliquei que a modalidade escrita da língua é objeto legítimo da linguística tanto quanto a língua oral. Isso continua valendo para os estudos históricos, mas também para a análise do modo como as pessoas escrevem hoje em dia. E isso tem implicações no ensino da língua. Aliás, a linguística pode contribuir muito com os gramáticos normativos, ortógrafos e educadores, fornecendo-lhes subsídios científicos para guiar suas tarefas técnicas.

Segundo mito: a linguística é contra a gramática normativa e defende que cada um deve se expressar como quiser, qualquer que seja a situação de discurso. Nada mais falso! É bem verdade que há alguns colegas falsamente progressistas, inclusive professores de prestigiosas universidades públicas, que, influenciados por uma leitura enviesada da sociolinguística, defendem que a inclusão social passa pela legitimação em todas as esferas da sociedade do modo de falar dos menos escolarizados. Mas o que a própria sociolinguística ajudou a demonstrar é que a língua varia não só de uma classe social a outra como também de uma situação de comunicação a outra. Isso significa que há situações, principalmente profissionais, em que é legítimo exigir o uso da norma-padrão, aquela regulamentada pela gramática normativa. O que linguistas verdadeiramente progressistas entendem como inclusão social é o ensino dessa norma-padrão a todos os cidadãos, para que todos tenham acesso a melhores posições sociais e profissionais e, por conseguinte, acedam a uma vida melhor. Tanto não é verdade que a linguística defenda o vale-tudo na língua ou que deseje demolir a norma-padrão que os próprios linguistas pseudoprogressistas se expressam nessa norma nos artigos em que advogam a abolição da dita-cuja. Ou seja, esse combate à norma é posição absolutamente minoritária entre os linguistas e não passa de hipocrisia com viés ideológico e político-partidário.

Terceiro mito: todo linguista é poliglota. Não, não necessariamente. Aliás, a maioria dos linguistas que conheço fala no máximo duas línguas: português e inglês. No entanto, é natural que as pessoas vocacionadas a trabalhar com o objeto língua amem as línguas e se interessem por várias delas. Ou seja, muitos linguistas (inclusive este cronista) são, de fato, poliglotas. Eu particularmente acredito que um linguista poliglota seja melhor profissional do que um monoglota. E explico: quando só falamos a nossa própria língua, ou no máximo mais uma muito próxima da nossa, como é o caso do inglês ou do espanhol, tendemos a não perceber certos fenômenos e certas relações que transcendem o nosso idioma; corremos, além disso, o risco de tomar por gerais fatos que são particulares da língua que falamos/estudamos ou, ao contrário, de considerar como particularidades da nossa língua fatos que são gerais ou, pelo menos, comuns a muitos idiomas.

O que ocorre é que grande parte dos nossos linguistas se formou em Letras com especialização em um único idioma, geralmente o próprio português, e só foi trabalhar efetivamente com a ciência da linguagem na pós-graduação, acabando por dedicar-se ao estudo da língua em que se especializou. Contudo, enquanto no Brasil a maior parte dos linguistas se dedica ao estudo da língua portuguesa, e mais especificamente ao português brasileiro, em países do Primeiro Mundo estuda-se de tudo, desde a própria língua pátria até idiomas muito exóticos e mesmo línguas mortas. O que sabemos sobre a antiga língua egípcia, por exemplo, se deve muito mais a linguistas franceses, britânicos e norte-americanos do que aos próprios egípcios.

Daqui decorre o quarto mito, o de que o linguista deve necessariamente estudar sua própria língua e, mais, o ensino dessa língua. Como disse, se esta é a tendência no Brasil, não é uma regra geral. Aliás, as grandes teorias linguísticas nasceram de pesquisadores que não só estudaram muitas línguas diferentes como também analisaram a linguagem humana de maneira abstrata, como sistema universal ligado aos processos cognitivos da mente. Nesse sentido, fazemos aqui no Brasil, com raras e louváveis exceções, o que chamo de a pequena ciência, enquanto nos países mais desenvolvidos se faz a grande ciência.

Quanto a dedicar-se a pesquisas sobre o ensino de língua, trata-se de tarefa da chamada linguística aplicada. É evidentemente uma tarefa muito digna e muito importante, sobremaneira num país com um déficit educacional tão grande como o nosso. Mas trata-se apenas de uma dentre dezenas, talvez centenas, de aplicações possíveis dessa ciência. Logo, nem todo linguista entende de ensino de línguas; tudo depende da área em que ele é especialista.

Bem, acho que por ora é suficiente. Meu conselho aos leitores é que não acreditem em tudo o que se diz sobre a linguística: há muita fake news e muita manipulação ideológica a respeito.