“O que o senhor pensa sobre a posição de muitos linguistas que criticam o ensino de gramática normativa nas escolas? Segundo essa visão, corrigir o aluno é considerado preconceito linguístico. Tenho consciência da variação linguística, mas isso vale para tudo? Por exemplo, se alguém não pronuncia uma palavra da forma como ela é, isso é variação? Qual o limite entre o preconceito linguístico e o ensino da gramática normativa (GN)? Como podemos diferenciar variação de uso incorreto? Que obras/materiais/vídeos o senhor indica que tratam dessas questões? Creio que essas são dúvidas de muitos professores de Língua Portuguesa pelo Brasil.”
A pergunta do leitor, que infelizmente não se identificou, é muito oportuna, e espero que a reflexão que faço a seguir seja proveitosa aos professores de português em geral.
A finalidade de ensinar língua portuguesa na escola é, num primeiro momento, ensinar a ler e escrever, isto é, alfabetizar o aluno. Num segundo momento, ensiná-lo a interpretar textos, ou seja, ler e compreender o que está lendo, bem como ensiná-lo a redigir com coesão, coerência, riqueza vocabular e de acordo com as regras da norma-padrão, que estão codificadas nas gramáticas normativas. Todas essas habilidades lhe serão cobradas em sua vida como cidadão e como profissional.
Uma decorrência desse aprendizado é que ele também saberá falar segundo a norma-padrão quando isso for necessário e tenderá a falar de modo mais próximo desse padrão mesmo em situações informais. Ou seja, a função do ensino de LP é preparar o aluno para ser um cidadão pleno e um profissional qualificado, não um mero trabalhador braçal ou um excluído social.
De fato, a variação linguística existe e deve ser respeitada, mas ensinar o padrão não é exercer preconceito linguístico. Se um professor de educação física corrige a postura de um aluno durante um exercício, ele está cumprindo seu papel de educador e não sendo preconceituoso. Portanto, a função da escola é corrigir o uso inadequado da língua. E inadequado é usar a norma que se trouxe de casa em situações que exigem linguagem formal, como uma reunião de trabalho, a redação de um documento, etc.
Se o papel do professor de LP fosse deixar o aluno se expressar em todas as situações como ele já o faz, essa disciplina não seria de modo algum necessária, pois todos já chegam à escola sabendo falar.
O que ocorre é que hoje a escola pública recebe um grande contingente de alunos provindos das classes mais baixas da sociedade, nascidos em famílias cujos pais são ignorantes e nas quais não há incentivo ao estudo, à leitura, e, sobretudo nas chamadas “comunidades” (leia-se “favelas”), há um preconceito em sentido contrário, isto é, quem tem mais estudo e se expressa melhor é que é discriminado.
A postura de certos linguistas de querer abolir o ensino da gramática normativa e de não corrigir a fala e a escrita do aluno atende a uma finalidade ideológica e a uma finalidade prática. A ideológica é a implementação de uma agenda “de esquerda” — na verdade, esquerda burra, pois esquerdistas inteligentes dão valor ao conhecimento e têm, eles próprios, grande proficiência na norma-padrão — que considera que inclusão social é normalizar o anormal e não transformar para melhor a realidade social dos menos favorecidos. A finalidade prática dessa postura é não criar conflitos com alunos que, por sua origem familiar e social, são potencialmente violentos. Ou seja, “deixe os alunos falarem como quiserem e fazerem o que bem entenderem; meu salário de professor está garantido do mesmo jeito”.
Observe que a questão do ensino ou não da gramática normativa afeta basicamente a escola pública, pois nas escolas particulares, em que a maioria dos alunos provém da classe média ou alta, esse debate praticamente não se coloca. A menos, é claro, que algum professor militante de esquerda lecione nessas escolas. E quando digo “militante”, não me refiro à escolha ideológica que o docente, como qualquer cidadão, tem o direito de fazer em sua vida privada; refiro-me ao extremismo ideológico que invade o fazer pedagógico e o deturpa, sobrepondo convicções pessoais aos fatos científicos.
O cumprimento de uma agenda político-partidária por boa parte dos professores dos cursos de Letras traz um viés nocivo ao fazer científico. Imagine um biólogo adepto do criacionismo bíblico confrontado com evidências da evolução das espécies em suas pesquisas. Ele tem dois caminhos a seguir: ou aceita as evidências concretas da evolução e renega sua crença no criacionismo ou nega as evidências em favor de seu dogma religioso. Em nome do cumprimento de sua agenda ideológica, o docente universitário dessa que chamo de “esquerda burra” — e há muitíssimos deles nas áreas de Humanas, especialmente das universidades públicas — recusa os fatos que, como cientista, deveria prezar e sobre os quais deveria apoiar suas pesquisas e reflexões.
O uso incorreto (segundo a gramática normativa, bem entendido) da língua é, sim, uma forma de variação, que em certos casos chega a se constituir como um dialeto (“nós fumo”, “nós vai”, “a gente cheguemo”, “pobrema” podem ser perfeitamente considerados como um dialeto do português — veja a esse respeito a obra de Amadeu Amaral).