O desprestígio da área de Letras

Pode soar estranho para a maioria das pessoas, mas a língua é, das instituições sociais criadas pelo homem, a mais “exata”, no sentido matemático do termo. Isso porque, na verdade, a língua não foi propriamente “criada” pela espécie humana, mas é o desenvolvimento natural de uma aptidão que tem raízes biológicas. Como disse o linguista israelense Guy Deutscher, “a língua é a maior invenção da humanidade, exceto pelo fato de que nunca foi inventada”. Como quer que seja, as línguas humanas são estruturas formadas de elementos que se combinam segundo regras precisas para formar elementos de um nível superior, que por sua vez se combinam segundo as mesmas regras, e assim por diante, seguindo um princípio hierárquico que vai dos elementos mínimos (os fonemas) até os enunciados máximos (os textos e discursos).

Embora haja também fenômenos psicossociais envolvidos na comunicação humana verbal, o fato é que a ferramenta básica dessa comunicação é um sistema cujo funcionamento segue leis matemáticas e, por isso mesmo, permite coisas como tradução automática, inteligência artificial e muito mais.

Olhando desse ponto de vista, um profissional de Letras deveria ser muito respeitado em nossa sociedade, já que é detentor de um conhecimento técnico tão complexo quanto o dos engenheiros, médicos, advogados, economistas, analistas de sistemas, cientistas… Só que não, e é fácil entender por quê. Enquanto um médico estuda no mínimo seis anos e um engenheiro ou advogado no mínimo cinco para se formarem, além de outros profissionais universitários, que estudam pelo menos quatro anos, um professor de português ou inglês estuda, na maioria das faculdades de Letras do nosso país, apenas três anos. E boa parte desse tempo é dedicada a disciplinas pedagógicas (como dar uma aula, como elaborar um plano de ensino, etc.). E hoje, com o advento hegemônico da educação à distância, até a prática pedagógica é ensinada… teoricamente.

Não bastasse isso, no pouco tempo que sobra para estudar a língua propriamente dita, o que se estuda não é a gramática normativa, que é a que deverá ser ensinada pelos futuros professores. Enquanto médicos, engenheiros e advogados, dentre outros, são bem remunerados por serem profissionais “pensantes”, que têm de usar seu conhecimento técnico e seu raciocínio para resolver problemas complexos, o professor é visto como alguém que não pensa, apenas repete como papagaio as informações que memorizou em seus poucos anos de estudo superior. E, nesse entremeio, o professor de Letras é o mais desvalorizado, afinal um professor de matemática ou química, bem ou mal, lida com coisas “exatas”.

Infelizmente, o ensino de Letras em nosso país só faz justificar essa visão preconceituosa da profissão. Não é à toa que cursos de medicina ou engenharia existem principalmente em universidades de grande porte, muitas das quais famosas e conceituadas (bem, hoje em dia as faculdades de medicina de fundo de quintal já são quase tão onipresentes quanto as igrejas do Edir Macedo). Já cursos de Letras costumavam até pouco tempo atrás pulular em faculdadezinhas sem nenhuma qualidade. (É evidente que também há cursos ruins de medicina e engenharia em faculdades igualmente ruins, mas para cada curso ruim de medicina ou engenharia havia cinco ou seis de Letras ou Pedagogia. Esse cenário mudou nos últimos anos, quando o desinteresse geral dos estudantes em seguir a carreira do magistério levou ao fechamento da maioria dos cursos de Letras ou à sua transferência para a modalidade à distância, com redução ainda maior da carga horária e nenhuma prática pedagógica, ao mesmo tempo que cresceu a busca pelos cursos de Direito, Informática e Medicina.)

Outro ponto importante é que um estudante de Engenharia é alguém que supostamente estudou bastante matemática e física no colégio e, por isso, chega aos bancos universitários relativamente preparado para o que vem pela frente. (Bem, novamente aqui tenho que fazer essa afirmação com certa ressalva, pois posso estar redondamente enganado.) Ao contrário, o estudante de Letras é, via de regra, alguém cuja educação básica não estimulou seu raciocínio lógico. Em outras palavras, é alguém que não está acostumado a pensar, a fazer abstrações, a visualizar diagramas e esquemas em duas ou mais dimensões — em resumo, é alguém que está na área de Humanas para fugir do raciocínio, alguém que, vindo das classes mais baixas e de um ensino público falido, escolhe o curso “mais fácil”. Então, quando esse aluno depara com uma disciplina chamada Linguística e suas subdivisões (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, pragmática) e começa a ver esquemas, diagramas em árvore, oposições binárias, linguagem de conjuntos e outros que-tais, entra em desespero e desiste do curso. Ou conclui a faculdade odiando a linguística e, assim, vai ser mais um profissional não pensante, mal remunerado e desprezado socialmente. Infelizmente, na maioria dos casos, esse indivíduo fez por merecer — ainda que involuntariamente — o preconceito que se lhe abate.

O ortoepista

Germano estava em uma loja informando seus dados pessoais ao atendente do setor de crediário. Nome: Germano Fontes. Data de nascimento: tanto de tanto de mil novecentos e tanto. Profissão: ortoepista. Ao dizer isso, o rapaz do cadastro lançou-lhe um olhar de perplexidade: orto o quê?! “Ortoepista”, respondeu Germano.

— O senhor é médico? Trata de fraturas, né?

— Não, não, eu sou gramático, especialista em ortoépia — ou ortoepia.

— E, desculpa perguntar, o que faz um orto, orto…?

— Ortoepista. É o profissional que estuda e ensina a correta pronúncia das palavras.

— Ah, que interessante! O senhor podia dar um exemplo?

— Claro, o próprio nome da minha profissão é um exemplo. Você pode pronunciar ortoépia ou ortoepia, ambas as formas estão corretas.

— Puxa, mas essa profissão existe mesmo? Eu nunca tinha ouvido falar.

— Claro que existe, tanto que eu sou filiado ao Sindicado Nacional dos Ortoepistas e das Ortoepistas, membro da Sociedade Brasileira de Ortoépia — ou Ortoepia — e credenciado junto ao Conselho Federal de Ortoépia — ou Ortoepia.

— Nossa, agora eu fiquei pasmo! Pra ser sincero com o senhor, eu num intindi nada. Pra mim isso é uma compreta novidade.

— Então, só para lhe mostrar como um profissional como eu é útil, a pronúncia correta é “não entendi” e não “num intindi”. E o certo é “completa” e não “compreta”.

— Ah, doutor, mas o senhor tem estudo, né, eu não. Quer dizer então que o orto, orto… enfim, isso aí que o senhor falou, é a pessoa que correge os ignorantes?

— Olha, não é bem isso, meu trabalho não é humilhar ninguém, mas, já que você tocou no assunto, o certo é “corrige” e não “correge”.

— Legal, aprendi um monte de coisa com o senhor agora, vou voltar mais inteligente pra casa. O senhor pode assinar aqui embaixo? Pode ser só uma rúbrica.

— Rubrica, meu amigo, rubrica.

O que é e para que serve a norma-padrão?

Uma grande amiga me perguntou por e-mail o que é norma-padrão. Ela, que é jornalista, precisa dominar a tal norma para trabalhar. Mas, e quem não trabalha com as palavras, também precisa dominá-la? Devemos seguir as regras da gramática normativa em todas as situações ou só nas formais? Devemos corrigir quem fala “errado” ou ser condescendentes? Essa inquietação não é só de minha amiga: muitas pessoas (se) fazem as mesmas perguntas. Afinal, numa sociedade como a nossa, em que quase tudo é motivo de exclusão, o modo como se fala é um dos maiores alvos do preconceito e da intolerância.

Ia responder à minha amiga também por e-mail, só que a resposta a essas indagações é tão complexa — a menos que, à maneira de certos professores, eu desse respostas dogmáticas do tipo “isso é assim porque é assim e pronto” — que a mensagem eletrônica se transformou neste artigo que convido minha amiga a ler.

Em primeiro lugar, a língua que falamos, seja qual for (português, inglês, coreano…), não é uma, são várias. Tanto que um dos mais eminentes gramáticos brasileiros, Evanildo Bechara, disse a respeito: “Todos temos de ser poliglotas em nossa própria língua”. Qualquer um sabe que não deve falar em uma reunião de trabalho como falaria numa mesa de bar. Ou seja, a língua varia. E o faz em função de quatro parâmetros básicos. Varia no tempo (daí o português medieval, renascentista, do século XIX, dos anos 1940, de hoje em dia), varia no espaço (por isso temos um português lusitano, brasileiro, e mais, um português carioca, paulista, sulista, nordestino), varia segundo a escolaridade do falante (resultando em duas variedades de língua: a escolarizada e a não escolarizada) e finalmente varia segundo a situação de comunicação, isto é, o local em que nos encontramos, a pessoa com quem falamos e o motivo da nossa comunicação — e, nesse caso, há duas variedades de fala: formal e informal.

Tenho dito sempre que a língua é como a roupa que vestimos: há um traje para cada ocasião. Há situações em que se deve usar traje social, outras em que o mais adequado é uma roupa casual, sem falar nas situações em que se usa pijama, maiô ou mesmo nada (para tomar banho esse é o traje ideal). Trata-se de normas indumentárias, pois pressupõem um uso “normal”. Não é proibido ir à praia de terno, mas não é normal, é um desvio que causa estranheza.

A língua funciona do mesmo modo: há uma norma para entrevistas de emprego, audiências judiciais, textos técnicos; há outra para fazer compras no supermercado, bater papo, falar com a empregada… Portanto, a norma-padrão é o padrão de linguagem que se deve usar em situações formais. Do ponto de vista temporal, ela tende a ser conservadora, refletindo um padrão que recobre pelo menos o último século; em termos geográficos, corresponde ao linguajar dos grandes centros (no caso brasileiro, especialmente os do Sudeste). Em termos sociais, culturais e situacionais, é a norma das classes mais altas e mais escolarizadas, nas situações de relacionamento em que deve haver distanciamento respeitoso entre os interlocutores.

Portanto, assim como há lugares onde se deve usar terno e outros em que o melhor é calça jeans e tênis, todos dizemos “tô, tá” em vez de “estou, está”, “a gente” em lugar de “nós”, “sentar” em vez de “sentar-se”, “na minha casa” por “em minha casa”, e assim por diante, nas situações informais (e hoje em dia até em algumas formais). Não empregar o padrão culto nesses casos não é erro, é bom senso. Errado é falar como as pessoas incultas (“nós foi, a gente somos, teje, menas”). Só que ninguém escolarizado fala assim, a não ser de brincadeira. E quem fala assim não o faz porque quer, mas porque não teve a chance de aprender “as várias línguas dentro da língua”. Ou seja, está condenado a ser monoglota. Enquanto nós temos no guarda-roupa opções de trajes para todas as ocasiões, o indivíduo não escolarizado é como um indigente que vai maltrapilho a todos os lugares.

A questão é: devemos usar a norma-padrão em todas as situações? Evidentemente que não, sob pena de soarmos pedantes. Dizer “nós fôramos” em vez de “a gente tinha ido” numa conversa de botequim é como ir de terno à praia. Mas saudar com um “E aí, tudo beleza?” o entrevistador a quem fomos pleitear um emprego é como ir à entrevista de pijama.

E quanto a corrigir quem fala errado? É claro que os pais devem ensinar seus filhos a se expressar corretamente, assim como é dever do professor corrigir o aluno, mas será que tenho o direito de advertir o balconista que me cobra “dez real” pelo cafezinho? Ao fazê-lo, não estaria humilhando essa pessoa, ainda que com a melhor das intenções? Mais ainda, não estaria sendo ofensivo, insolente, intrometido? Não estaria fazendo à toa um inimigo? É justo criticar a camiseta puída do catador de sucata sabendo que ele não tem condições de comprar uma nova?

Espero que essas ponderações ajudem a esclarecer as dúvidas de minha amiga. E dos demais leitores.

Revoluções científicas e a “revolução” na gramática

Nos últimos tempos, tenho me dedicado bastante a criticar a postura militante de certos colegas que, em vez de fazer ciência, fazem política identitária travestida de ciência. E defendem que o pesquisador de humanas deve ter uma atitude engajada — desde que esse engajamento seja na direção de uma certa ideologia política e não de outra qualquer.

Pois bem, no livro Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, organizado por Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira, este último afirma às páginas 40 e 41:

Kuhn afirma que as revoluções científicas assemelham-se às revoluções políticas, e eu alargo seu pensamento ao contexto das produções emergentes das gramáticas do português brasileiro. Seus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica. Não à toa as características que Kuhn afirma pertencerem às revoluções políticas e científicas podem ser apontadas como constitutivas da revolução do fazer gramatical brasileiro. Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário. (grifos meus)

Como se pode depreender das palavras de ordem inflamadas do autor, o que se pretende é uma revolução do fazer gramatical análoga provavelmente à Revolução Bolchevique ou à Revolução Cultural chinesa. Isso porque, segundo os autores do livro e os demais linguistas que militam nessa causa, a gramática normativa atual do português é elitista, excludente, opressora, conservadora/reacionária, elaborada por homens brancos, burgueses, heterossexuais, homofóbicos, racistas e misóginos. Talvez Vieira defenda que se faça com os gramáticos o que Mao Tsé-Tung fez com os intelectuais e os opositores de seu regime.

Mas vamos analisar o grande erro conceitual cometido por esse linguista e escorado numa leitura equivocada do filósofo da ciência americano Thomas Kuhn. Em seu livro A estrutura das revoluções científicas, Kuhn explica que o progresso científico passa pelas seguintes fases:

1) estabelecimento de um paradigma, isto é, de um metamodelo teórico que serve de base e guia para o desenvolvimento das teorias científicas numa determinada época histórica. Por exemplo, o geocentrismo de Cláudio Ptolomeu, o mecanicismo do século XVII, o positivismo do século XIX, o estruturalismo e o funcionalismo do século XX, e assim por diante. São as chamadas escolas ou correntes de pensamento cujas diretrizes norteiam as hipóteses que, se comprovadas, darão origem às teorias.

2) ciência normal, período durante o qual o paradigma vigente funciona bem e permite explicar satisfatoriamente os dados empíricos colhidos nos experimentos científicos.

3) crise do paradigma, quando novos dados experimentais já não podem ser explicados satisfatoriamente pelas teorias em vigor, e o paradigma começa a ser posto em xeque.

4) ciência extraordinária, quando novos paradigmas são propostos e competem entre si até que um deles se prove o mais adequado a explicar os novos dados e, ao mesmo tempo, a explicar igualmente bem os dados antigos, dos quais as teorias anteriores davam conta perfeitamente.

5) revolução científica, em que esse novo paradigma vitorioso suplanta definitivamente o anterior, ponto a partir do qual o ciclo recomeça.

Portanto, diferentemente das revoluções políticas, em que um determinado grupo, não necessariamente melhor que o então dominante, o depõe e toma o poder em seu lugar num ato de violência, uma revolução científica se inicia com uma descoberta que desafia o poder de explicação do conhecimento de que se dispunha até aquele momento e mostra que algo no paradigma vigente está errado ou incompleto.

A primeira grande revolução científica dos tempos modernos ocorreu com a publicação em 1543 do livro De revolutionibus orbium coelestium (Da revolução das esferas celestes), de Nicolau Copérnico, no qual ele mostrava que o modelo astronômico geocêntrico de Ptolomeu, do século I d.C., além de ser extremamente complexo, não dava conta do movimento de certos corpos celestes observados pelos astrônomos. Copérnico propõe que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. A seguir, o alemão Johannes Kepler demonstra que não só o Sol está de fato no centro do sistema, mas que as órbitas dos planetas são elípticas com o astro-rei ocupando um dos polos.

Então Galileu Galilei, fazendo experimentos com planos inclinados nos quais deslizam pequenos objetos e com pêndulos que oscilam suspensos por cordas fixas a grande altura (um desses pêndulos foi fixado no topo da torre de Pisa), enuncia as primeiras leis matemáticas do movimento. É o surgimento da física moderna.

Simultaneamente, dois filósofos, o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes, dão estrutura teórica a esse novo paradigma, em que o conhecimento deve ser construído a partir da lógica, da matemática e da observação dos fenômenos naturais e não a partir do argumento de autoridade de antigos pensadores ou de teólogos. Nasce assim o chamado método científico, em que a teoria deve conformar-se à realidade e não o inverso.

Ainda dentro desse período histórico (séculos XVI a XVIII) conhecido como Revolução Científica, Isaac Newton enuncia as três leis do movimento, conhecidas como Leis de Newton, e a Lei da Gravitação Universal, um corpo teórico chamado de física clássica, que explica tanto os fenômenos físicos aqui na Terra quanto os movimentos planetários. A mecânica newtoniana vigorou sem abalos até o fim do século XIX, quando estudos sobre o eletromagnetismo e a luz mostraram que esta é uma onda eletromagnética que se propaga a uma velocidade constante, representada pela letra c, independentemente do movimento da fonte luminosa ou do ponto de referência adotado, o que contradiz as Leis de Newton, segundo as quais a velocidade, inclusive a da luz, é sempre relativa e dependente do referencial escolhido.

Para explicar essa inconformidade, Albert Einstein propõe em 1905 uma mudança radical de paradigma, a Teoria da Relatividade, em que agora a velocidade da luz é uma grandeza absoluta e, contrariamente à nossa intuição, o espaço e o tempo é que são relativos.

Ao mesmo tempo, outra revolução se desenhava com a descoberta de que, no mundo microscópico das partículas subatômicas, não é possível determinar com precisão ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula, de que os valores das grandezas não são contínuos e sim discretos, chamados quanta, e de que uma partícula pode estar e não estar num determinado lugar ao mesmo tempo, dentre outras revelações assombrosas. Esse conjunto de fatos, que deixaram perplexos os físicos, deu origem a uma nova teoria, a mecânica quântica.

Ainda no século XIX, Charles Darwin propôs a sua Teoria da Evolução das Espécies pela Seleção Natural, que revolucionaria a biologia, e Louis Pasteur sepultava definitivamente a crença na geração espontânea de seres vivos, além de provar que certas doenças antes atribuídas a causas sobrenaturais são provocadas por micro-organismos.

A mais recente revolução científica foi a descoberta de que o Universo está se expandindo, o que ensejou a teoria do Big Bang, em que o Cosmos teve início há cerca de 13,7 bilhões de anos a partir de uma singularidade na qual toda a matéria e energia estavam extremamente concentradas.

Nos estudos da linguagem, a primeira revolução foi a descoberta, por William Jones, de que a maioria das línguas da Europa, do Irã e do subcontinente indiano descenderiam de uma língua ancestral batizada de indo-europeu. Isso fundou o método histórico-comparativo e inaugurou uma nova ciência, a linguística, separando definitivamente o estudo científico da linguagem da tradição gramatical que remontava à Grécia antiga.

A segunda revolução foi causada em 1916 pela publicação póstuma do Curso de linguística geral, de Ferdinand de Saussure, que lançou as bases da linguística moderna e do paradigma científico chamado Estruturalismo.

Em 1957, uma terceira revolução ocorre com a publicação de Estruturas sintáticas, de Noam Chomsky, revelando que a aptidão para a linguagem é inata, portanto de natureza biológica, e que as estruturas linguísticas seguem padrões matemáticos, tornando a linguística uma ciência ao mesmo tempo humana, exata e biológica.

Mais recentemente, a cooperação entre a linguística, a neurociência e as ciências cognitivas deu origem a pesquisas sobre como o cérebro humano processa a linguagem e a novas disciplinas, como a neurolinguística (não confundir com a Programação Neurolinguística, ou PNL, que é uma técnica de autoajuda), a semântica cognitiva e a semiótica cognitiva, áreas em que também atuo.

Finalmente, a Inteligência Artificial vem possibilitando a solução de uma série de problemas em todas as áreas do conhecimento que permaneciam insolúveis até agora.

Isso são revoluções científicas. A normatização da escrita formal é uma atividade técnica e não científica, que se pauta por critérios objetivos plenamente defensáveis e razoáveis, mas não necessariamente científicos. Mais ainda, o estabelecimento de uma nova norma-padrão, baseada na fala informal ou em textos formais escritos por pessoas de escolaridade deficiente, não é uma conduta científica nem técnica, é simplesmente um ato iconoclasta que privilegia a mediocridade num terreno em que deve imperar a excelência, e tudo por razões puramente ideológicas e político-partidárias. A “revolução” que Vieira, Faraco e outros querem fazer se assemelha mais à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 ou ao nosso 8 de Janeiro do que a uma revolução científica propriamente. Até porque elaborar gramáticas não é tarefa de cientistas, assim como elaborar leis de trânsito não é competência dos físicos.

O discurso jurídico deve ser modelo de exemplaridade idiomática?

Na última semana, causou certa celeuma o despacho do ministro do STF Alexandre de Moraes sobre medida cautelar imposta por ele mesmo ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e não só por seu conteúdo um tanto obscuro, o que enseja insegurança jurídica aos defensores do ex-mandatário, mas também por razões linguísticas. É que nele figurou a frase “a JUSTIÇA É CEGA MAIS NÃO É TOLA!!!!!” (sic), que chamou a atenção da imprensa e de professores de português pelo uso do advérbio mais no lugar da conjunção mas, além da ausência de vírgula antes dessa conjunção. O erro no uso do advérbio foi posteriormente corrigido, a falta de vírgula não.

Também chama a atenção em uma sentença judicial o excesso de pontos de exclamação, recurso mais aceitável numa comunicação informal. Mas, lendo com atenção o texto do ministro, é possível encontrar uma série de outras incorreções gramaticais, que passaram despercebidas aos olhos da imprensa. Pode-se argumentar que tais erros sejam fruto da pressa do magistrado em emitir sua decisão e da pressão que tem sofrido por parte dos bolsonaristas e até de Donald Trump, mas o fato é que certos erros, sendo recorrentes, demonstram estar arraigados na escrita do juiz, pois, como dizia meu saudoso pai, “ninguém escreve o número 5 de cabeça para baixo só porque está distraído”.

Na decisão do ministro, encontra-se à página 2 “À PARTIR DAS 19H00 ATÉ AS 6H00 DE SEGUNDA A SEXTA FEIRAS”. Como se sabe, na locução prepositiva a partir de não há crase, portanto a presença do acento grave na preposição a é injustificável. Também faltou o hífen em sexta feiras — aliás, o correto é o plural sextas-feiras. Na verdade, Moraes teria se saído melhor se tivesse redigido de segunda a sexta-feira ou das segundas às sextas-feiras. O mesmo erro de crase aparece na página 5: “as redes sociais do investigado EDUARDO NANTES BOLSONARO foram utilizadas à favor de JAIR MESSIAS BOLSONARO”.

Voltando à página 2, encontramos “foram divulgadas diversas postagens nas redes sociais, em que o réu JAIR MESSIAS BOLSONARO exibe…”. Aqui temos uma vírgula que transforma uma oração adjetiva que deveria ser restritiva em explicativa. Na página seguinte, encontra-se “Requereu o embargante, que a decisão de eDoc. 1.486 seja esclarecida”. Agora, além do objeto direto separado do verbo por vírgula indevida, teria sido melhor que Moraes fizesse a correlação temporal dos verbos: “requereu que a decisão fosse esclarecida”.

Ainda sobre vírgulas mal empregadas, há na mesma página a frase “ficou consignado que, as condutas praticadas por JAIR MESSIAS BOLSONARO…”; agora temos uma vírgula após a conjunção integrante que, outro emprego incorreto da pontuação. O mesmo acontece à p. 5, em que se lê “uma vez que, as redes sociais do investigado…”.

À p. 3, na mesma frase temos “material pré fabricado” (sem hífen em pré-fabricado) e “posterior postagens”, sem concordância entre adjetivo e substantivo (o correto é posteriores postagens). E ainda “condutas ilícitas que, eventualmente, poderiam ser praticadas por JAIR MESSIAS BOLSONARO, sejam em entrevistas, sejam em atos públicos…”. Pode ser que algum gramático abone o uso das conjunções sejaseja no plural, concordando com condutas ilícitas, mas a boa redação recomenda que seja permaneça invariável no singular, até porque se trata de conjunção e não de verbo, este sim que se flexiona em número. E, ainda na mesma página, aparece “tanto em entrevistas, quanto em discursos públicos ou privados”; ora, não se separam termos correlativos introduzidos por tantoquanto por vírgula.

Já na p. 4 encontramos “será considerado burla à proibição imposta pela PRIMEIRA TURMA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ao réu JAIR MESSIAS BOLSONARO, à replicação de conteúdo…”. Aqui há três erros: primeiro, a falta de concordância entre o sujeito replicação e o predicativo considerado, pois, na ordem direta, teríamos “a replicação de conteúdo será considerada burla”; segundo, a presença inadequada da vírgula após “BOLSONARO”, separando o sujeito replicação do complemento nominal ao réu JAIR MESSIAS BOLSONARO; terceiro, o acento grave em “à replicação” quando esse a é o artigo definido feminino referente a replicação e não a contração da preposição a com esse artigo, visto que não existe preposição, nem seria cabível que houvesse, nesse contexto. Além disso, no parágrafo seguinte ocorre “teve aplicada as medidas cautelares”, sem a devida concordância entre aplicadas e medidas.

Mais abaixo, no mesmo parágrafo, lê-se “A legislação permite impedir que quaisquer medidas cautelares sejam burladas, como por exemplo, o bloqueio de contas bancárias…”, em que, como se sabe, a locução por exemplo deveria vir isolada entre vírgulas (“como, por exemplo, o bloqueio”). E também “Permitir que o investigado possa abrir uma nova conta bancária ou se utilizar de contas de terceiros para continuar na lavagem de dinheiro, corresponderia a desrespeito flagrante a medida cautelar ensejando a prisão preventiva”, em que temos vírgula onde não deveria haver, isto é, separando o sujeito composto permitire se utilizar do verbo corresponderia, mas não a temos onde deveria estar, separando medida cautelar de ensejando, já que aí se introduz oração subordinada. Eu também faria a crase em “desrespeito flagrante à medida cautelar”, já que se trata da medida específica proferida dias antes e não qualquer medida em geral.

No parágrafo a seguir podemos ler “discurso proferido por JAIR MESSIAS BOLSONARO na Câmara do Deputado” (grifo meu). Quem dera este país tivesse só um deputado e não 513 (ou talvez 531 se o veto do presidente Lula for derrubado)! Quanta economia de dinheiro e de leis inúteis e nocivas ao Brasil! E quantas bobagens e absurdos a menos teríamos de ouvir! Mas a Câmara é dos Deputados e não do Deputado. Seria esse erro crasso devido ao próprio Moraes ou a algum de seus assessores, que ajudaram a redigir a decisão, mas não a revisaram?

Como se pode perceber nos exemplos acima, a adoção do discurso jurídico como padrão de exemplaridade idiomática para nele basear a norma-padrão da língua portuguesa e, consequentemente, as gramáticas normativas precisa ser feita com cuidado: é evidente que grandes juristas escrevem bem, sobretudo quando publicam livros de Direito que são revisados pelas editoras, mas petições, sentenças, acórdãos, despachos, intimações, mandados, etc., precisam ser tomadas cum grano salis, pois, se um ministro do Supremo, professor da mais prestigiosa universidade pública brasileira e jurista reconhecido comete erros gramaticais, o que dizer de advogados formados em faculdades de qualidade duvidosa? Fica aí uma questão para se pensar.

P.S. Meu propósito com este artigo não é desmoralizar o ministro Alexandre de Moraes (provavelmente nem foi ele quem redigiu o documento) e assim dar munição aos bolsonaristas, mas sim dar subsídios à discussão que hoje ocorre na academia sobre qual modelo de norma-padrão devemos adotar. Como se sabe, certos linguistas, que são maioria nas universidades, defendem a substituição do cânone literário por textos acadêmicos, técnicos, jurídicos e jornalísticos como novo padrão. É uma discussão que dá pano pra manga.

A redundância é sempre um vício de linguagem?

Um dos chamados vícios de linguagem mais condenados pelos gramáticos normativos é a chamada redundância, também conhecida como pleonasmo. Sem dúvida, casos como “subir para cima” ou “descer para baixo” são inadmissíveis, mas os próprios gramáticos admitem que, por razões de expressividade, certos casos se justificam, como quando os advérbios cima e baixo aparecem modificados por outro advérbio: “Sobe lá em cima no telhado e ajusta a antena para mim”.

A redundância nem sempre é nociva à comunicação — pelo contrário, a maior parte dos nossos enunciados contém várias redundâncias justamente para garantir a eficácia da comunicação em face do ruído. E, em teoria da comunicação, ruído não é só o barulho que atrapalha nossa audição nas comunicações orais, mas qualquer fenômeno, físico ou mental, como distração, cansaço, uma palavra desconhecida ou mal pronunciada, ou ainda um erro de impressão ou um borrão no papel, que possa interferir na apreensão do que foi ouvido ou lido.

Numa frase simples como “as crianças estão brincando felizes”, a marca de plural aparece redundantemente quatro vezes. Já em “as criança tá brincando feliz”, aparece uma única vez. É mais fácil perceber que a frase se refere a mais de uma criança na primeira versão do que na segunda, não? Esse é o efeito positivo da redundância.

Mas existem redundâncias combatidas pelos gramáticos que estão cristalizadas na língua e são profundamente expressivas. Por exemplo, há quem condene até mesmo dizendo que ou se usa até ou se usa mesmo, jamais ambos juntos. Só que até mesmo é, pelo menos a meu ver, mais enfático que até ou mesmo isolados.

O mesmo se pode dizer de nem mesmo (ou nem sequer), que alguns professores mais puristas condenam afirmando que nem já exprime a ideia de negação enfática por oposição a não, que seria uma negação neutra. Compare: “ele não tocou na comida” x “ele nem tocou na comida”. Só que os advérbios mesmo e sequer exigem a presença de nem, pois não mesmo e sobretudo não sequer seriam agramaticais: *“ele não mesmo tocou na comida!”, *“ele não sequer tocou na comida”.

E o que dizer da expressão já agora, tão usada pelos portugueses? Os conservadores dirão que e agora são sinônimos, logo trata-se de pleonasmo. E mas porém, expressão usada até por Camões nOs Lusíadas? Se lembrarmos que porém, além de conjunção adversativa equivalente a mas, é também, segundo a gramática clássica, um advérbio da mesma esfera de significado de contudo, entretanto, etc., então mas porém equivale a mas contudo, mas no entanto, formas perfeitamente abonadas.

Outra redundância combatida é já não mais, que, segundo os normativistas, é a junção indevida de já não com não mais: “a casa em que nasci já não existe”; “a casa em que nasci não existe mais”. Só que Lima Barreto, o grande Lima Barreto, em seu prefácio a Histórias e sonhos, diz: “Já não sou mais menino e, desde que me meti nessas coisas de letras, foi com toda a decisão, sinceridade e firme desejo de ir até ao fim”. É claro que os grandes escritores também cometem erros de português — ou melhor, aquilo que os gramáticos consideram erro de português, até porque os grandes escritores estão mais preocupados com a força e a expressividade de suas palavras na produção do efeito estético do que com a obediência à norma-padrão. E, ironicamente, são os grandes escritores, integrantes do chamado cânone literário, que os gramáticos elegem como corpus no qual baseiam suas lições.

Um último exemplo é outra alternativa, expressão comum em frases como “não tive outra alternativa senão pedir um empréstimo”. Dizem os normativistas que a palavra alternativa já contém outra, o que de fato é verdade, visto que alter em latim quer dizer “o outro (dentre dois)”. Nesse caso, recomendam em lugar de outra alternativa simplesmente alternativa (“não tive alternativa senão…”) ou então outra opção, outra escolha (“não tive outra escolha senão…). O argumento é que só se deve empregar a palavra alternativa quando há duas e somente duas opções possíveis. Havendo mais de duas, trata-se de opções ou escolhas, não de alternativas. Só que os próprios professores de português, nos testes de múltipla escolha que aplicam a seus alunos, oferecem cinco opções de resposta a uma questão, a quinta delas sendo “nenhuma das alternativas anteriores”.

Resta aos gramáticos e professores puristas entender que existe uma força na língua que se sobrepõe a todas as outras: a força do uso. E aquilo que é muito usado acaba, cedo ou tarde, consolidando-se como norma e tendo de ser aceito pelos legisladores da língua culta.

A posição do sujeito e sua concordância com o verbo — respondendo a uma leitora

Minha leitora Patricia B. Limongi me fez uma pergunta interessante sobre uma dúvida que também pode ser, creio, de muitos outros leitores. Ela pergunta:

Em seu artigo Ainda sobre o português e o “brasileiro”, de 24 de março, o senhor critica os linguistas que defendem a abonação de construções como “aconteceu dois acidentes”.

De acordo com a gramática tradicional, que delimita nitidamente o grupo restrito dos verbos impessoais e classifica como pessoais todos os outros, nesse exemplo faltou a concordância verbal com o sujeito posposto. Mas, de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal, o que leva à tentativa de compreender a causa do fenômeno sintático e propor novas descrições para ele.

No livro Não é errado falar assim!, capítulo “Concordância com sujeito posposto”, Marcos Bagno diz que a ordem SVO está “tão enraizada no nosso processamento mental da língua que nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”. Ele cita a hipótese de Mattoso, segundo a qual, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal. E conclui:

O mais democrático a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância. Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal.

Acho essa explicação muito lúcida e convincente. A minha dúvida é esta: existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?

Em resposta a ela, esclareço que, em primeiro lugar, existe uma diferença entre a linguística descritiva e a gramática normativa. A primeira descreve e explica como as pessoas falam e/ou escrevem nas mais diversas situações de comunicação. A segunda prescreve como as pessoas devem escrever textos formais (acadêmicos, técnicos, científicos, jurídicos, jornalísticos, literários, etc.) consoante o próprio modelo de referência já empregado nesses textos. A gramática estabelece uma norma, um modelo exemplar de uso da língua nas situações mais formais, como são os textos profissionais. E, para isso, ela toma como padrão o uso feito pelos melhores prosadores do idioma, pessoas de comprovada alta cultura linguística — e, evidentemente, cultura geral — e não apenas portadoras de diploma de nível superior (muitas das quais hoje em dia analfabetas funcionais). Se queremos estabelecer um padrão exemplar de bom uso da língua, devemos buscar os melhores exemplos (literários e não literários) de uso e não nos pautar pela mediocridade de textos jornalísticos de internet escritos por estagiários (isto é, estudantes ainda não formados de faculdades de jornalismo de qualidade duvidosa) ou de textos técnicos (relatórios, petições, contratos, trabalhos escolares — incluindo teses acadêmicas) redigidos por profissionais de letramento deficiente, que não são raros entre nossos advogados, engenheiros, médicos e pós-graduandos em geral.

Portanto, os exemplos supostamente encontrados pelos linguistas descritivistas de construções desviantes da norma-padrão, mesmo que produzidos por redatores de nível superior, não podem justificar a mudança dessa norma — ainda mais para acolher usos que são fruto de má escolarização.

Aliás, normatizar o padrão culto da língua é tarefa dos gramáticos e não de linguistas. Ao tentar legislar sobre a norma-padrão, certos linguistas invadem uma atribuição profissional que não é sua. E o fato é que, por mais que esbravejem contra a gramática normativa, os gramáticos vão continuar a exercer seu ofício sem lhes dar ouvidos, e as pessoas de bom senso vão continuar a seguir as recomendações da gramática ao redigir seus textos. O mal que esses linguistas causam é que eles doutrinam seus alunos, futuros professores de português, a não ensinar gramática, e assim a educação no Brasil, que já é péssima, fica ainda pior.

A questão é justamente a confusão que linguistas como Marcos Bagno fazem entre descrição e normatividade. Confundem registro coloquial com registro culto, modalidade falada com modalidade escrita, gêneros textuais menos formais com gêneros textuais mais formais e colocam tudo num mesmo balaio. Pior: usam critérios da linguística descritiva para orientar a elaboração da gramática normativa, duas atividades que têm lógicas e propósitos totalmente diferentes. O papel da gramática normativa é descrever e, em consequência disso, normatizar os usos linguísticos das pessoas verdadeiramente cultas da sociedade, a partir da modalidade escrita desses indivíduos em gêneros textuais de maior grau de cultivo, esmero, cuidado da língua, ou, se se desejar, de formalidade, visando a uma norma supradialetal — a norma-padrão. Isso não tem nada a ver com o modo como as pessoas de média ou baixa cultura linguística falam ou escrevem no seu dia a dia em situações de pouca ou nenhuma formalidade ou mesmo em situações em que deveriam ser formais, mas não têm plena proficiência para isso.

Outro ponto que preciso destacar é quando Patricia afirma que “de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”. A questão é que esses linguistas jamais provam o que afirmam. E ciência se faz com provas, fatos concretos, evidências que possam ser constatadas e não com opiniões, impressões pessoais ou achismos. Eu mesmo leio frequentemente textos formais dos mais diversos tipos (livros, artigos científicos, dissertações, teses, colunas em jornais e revistas, etc.) e, contrariamente ao que afirmam Bagno e seus colegas, nunca encontro construções como “aconteceu dois acidentes”. Mas, para não contrapor a minha visão pessoal à deles, cito o meu colega Prof. Fernando Pestana, que em sua dissertação de mestrado desmascarou as mentiras (sim, mentiras!) propaladas por Bagno, Faraco, Possenti, Perini, Ataliba e outros, fazendo um extenso, exaustivo e minucioso levantamento dos usos encontrados em textos cultos. Sobre a não concordância do verbo com sujeito posposto, ele apresenta os números que estão na seguinte tabela, na qual DNP significa “dentro da norma-padrão” e FNP, “fora da norma-padrão”:

Vejam os números e concluam por vocês mesmos. São números como esses que os linguistas citados por ela jamais apresentam, provavelmente porque contradizem suas teses.

O fato é que a definição de sujeito apresentada pelas gramáticas normativas dá conta perfeitamente da realidade dos usos que compõem a norma que elas delineiam.

Se, portanto, é um fato comprovado e comprovável que os usuários realmente cultos 99% das vezes pluralizam o verbo cujo sujeito simples plural venha posposto, o papel da gramática normativa é registrar essa regularidade, esse padrão, delimitando assim tal concordância verbal.

Quando Bagno afirma que “essa forma [Aconteceu dois acidentes] é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”, está apenas reiterando a arbitrariedade mentirosa registrada em sua própria gramática.

Quanto à definição de sujeito, é preciso esclarecer que o que define um elemento sintático como sujeito ou como objeto direto não é sua posição na oração (antes ou depois do verbo) e sim sua função sintáxico-semântica, também chamada de papel temático. Tanto que, em latim, a ordem das palavras na oração é totalmente livre, mas sujeito e objeto jamais se confundem, e o verbo sempre concorda com o sujeito.

Segundo Bernard Pottier, criador da sintaxe-semântica, o sujeito exerce funções, chamadas por ele de casos, que são o nominativo, o ergativo, etc., ao passo que o objeto exerce os casos acusativo, dativo, benefactivo, e assim por diante.

Na teoria dos papéis temáticos, as funções semânticas (ou “papéis”) são: agente, fonte, experienciador, locativo, alvo e tema. O sujeito é sempre agente, fonte ou experienciador; o objeto é sempre alvo ou tema. Portanto, em “aconteceu dois acidentes”, dois acidentes está no caso ergativo e não no acusativo, logo não pode ser objeto de um suposto verbo impessoal transitivo direto acontecer. Segundo a teoria dos papéis temáticos, dois acidentes é fonte e não alvo, portanto novamente só pode ser sujeito e não objeto direto.

Quando Bagno afirma “nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”, eu pergunto: nós quem, cara pálida? Uma coisa é a análise subjetiva e ingênua (no sentido de “não técnica, não especializada”) que um falante comum, de baixa ou média escolaridade, faz da língua; outra é a análise técnica e abalizada que um estudioso faz com base em modelos científicos testados e comprovados.

Quando Mattoso Câmara, um linguista mil vezes maior do que Bagno, afirma que, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal, ele está se referindo à análise subjetiva e ingênua do falante comum de baixa ou média escolaridade e não à estrutura sintática real da língua, só acessível mediante estudo por pessoas de alto letramento e pesquisadores qualificados, como o próprio Mattoso. Aliás, ele próprio contrapõe em sua obra a visão ingênua e subjetiva do falante comum à estrutura real da língua, objeto de estudo da linguística. E em nenhum momento ele afirma que esta deva ser substituída por aquela, especialmente na elaboração de gramáticas normativas. A linguística descritiva explica como o falante comum interpreta os fatos de língua, o que não significa que essa interpretação seja sempre correta.

Por fim, gostaria de chamar a atenção para as palavras de Bagno: “O mais democrático (grifo meu) a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância”. Agora temos Bagno fazendo o que ele sempre faz: introduzindo juízos de valor de natureza político-ideológica em um discurso científico, que, como tal, deveria primar pela impessoalidade, imparcialidade, objetividade e isenção, atendo-se estritamente aos fatos observáveis e eximindo-se de qualquer opinião. Ciência se faz com juízos de verdade e não com juízos de valor. Não existe ciência democrática, inclusiva, identitária, antirracista, liberal, conservadora, esquerdista, direitista…, existe apenas ciência. Seu papel é descrever e tentar explicar fatos concretos, objetivos e efetivamente observados à luz da razão, do raciocínio lógico e de modelos teóricos já testados e comprovados. O pesquisador pode ter suas convicções políticas e pode inclusive externá-las em artigos jornalísticos, em entrevistas à imprensa, em palestras, mas não em trabalhos científicos; aí, ele deve exclusivamente expor os fatos e apresentar conclusões que decorram estritamente desses fatos e não de seus desejos pessoais, por mais nobres que sejam. Defender uma posição política num trabalho científico é absolutamente inadmissível e depõe contra a própria credibilidade desse trabalho!

Quando um autor como Bagno publica um livro chamado Não é errado falar assim!, ele induz o leitor incauto a pensar que certas construções são aceitáveis em situações formais quando não o são e assim leva esse leitor a ter prejuízos pessoais, como ser reprovado em um processo seletivo. O que ele faz é um desserviço à sociedade!

Acrescento ainda que o que Bagno propõe é uma complicação ainda maior da norma-padrão. Hoje o verbo concorda com o sujeito em 100% dos casos; na proposta dele, passaríamos a ter casos em que há concordância e casos em que não. Por que criar exceções a uma regra e tornar ainda mais complexo o que já não é simples?

Bagno ainda afirma: “Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal”. Ora, como um mesmo elemento pode exercer duas funções sintáticas tão distintas quanto sujeito e objeto direto? Que tipo de análise sintática é essa? Bagno fala tanto em ciência e, no entanto, sua análise “científica” pode ser qualquer uma, ao gosto do freguês?

Em resumo, o papel da gramática normativa é registrar o que efetivamente se usa na norma culta do idioma e recomendar que se obedeça a esse padrão ao se escreverem textos formais. A gramática normativa não é nem pode ser democrática e muito menos demagógica, como propõe Bagno. Sua proposta é simplesmente populista e anticientífica. O fato de existir no sistema da língua e na norma coloquial/popular/vulgar uma estrutura A e uma estrutura B, facilmente comprovadas (seja na fala, seja na escrita de qualquer brasileiro), não implica a automática existência de ambas na norma culta, pois só uma delas efetivamente existe nessa norma, a saber: “aconteceram dois acidentes”. É isso que Bagno e todos os seus seguidores não entendem (ou fingem não entender), apesar de quererem muito acreditar que “aconteceu dois acidentes” já faz parte da norma culta escrita do português brasileiro, o que é nada menos do que uma insustentável mentira.

Assim, à pergunta de Patricia “existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?”, o que posso responder é que toda a tradição gramatical, com sua definição clássica de sujeito, e também toda a teoria sintática desenvolvida pela linguística estruturalista e pós-estruturalista (gerativista, cognitivista, etc.) invalidam essa análise, que, como disse, é descritiva e não normativa e parte da interpretação do falante ingênuo sobre um fato de língua e não sobre o fato de língua em si.

Espero que esta minha resposta tenha sido esclarecedora a Patricia e a todos os meus leitores.

Ainda sobre o português e o “brasileiro”

Em dezembro de 2024, lancei no meu canal do YouTube Planeta Língua o vídeo “Brasileiro é uma língua distinta do português?”, no qual falo sobre a afirmação dos linguistas Fernando Venâncio e Marcos Bagno de que o português falado no Brasil será nas próximas décadas uma língua distinta do português de Portugal — segundo Bagno, essa cisão até já aconteceu. Teríamos então (ou já temos) a “língua brasileira”.

No vídeo, explico que há critérios científicos, portanto objetivos, para decidir se duas ou mais expressões linguísticas configuram uma só ou mais de uma língua, critérios estes que os dois linguistas conhecem, mas não aplicam, apresentando no lugar suas convicções pessoais, fruto de militância política e ideológica.

É uma realidade que nas ciências humanas é muito viva a crença de que não há dados objetivos, fatos concretos observáveis e testáveis segundo o método científico, mas tudo é questão de ponto de vista. E se esse ponto de vista for o marxista, melhor ainda. Nem a linguística, a mais exata das ciências humanas, consegue escapar desse dogma, jamais provado e muitas vezes desmentido.

A questão é que choveram comentários ao meu vídeo, a maioria vinda de pessoas leigas no assunto, algumas até semialfabetizadas, mas que, graças à “democratização” promovida pelas redes sociais, acham que sua opinião vale o mesmo que o parecer abalizado de um especialista no assunto. E na medida em que supostos especialistas como Bagno e Venâncio também substituem pareceres técnicos por opiniões pessoais, qualquer um pode ser doutor em linguística, não é mesmo? E dá-lhe coisas como “eu falo brasileiro, e pronto!”, “o português é a língua mais linda do mundo”, “eu não entendo o que os portugueses falam, então é outra língua”, e por aí vai. Esse tipo de comentário não merece que eu perca meu tempo nem o dos leitores comentando. Porém também há comentários de pessoas que se dizem formadas em Letras, mas que, novamente, apresentam visões pessoais e relativistas como verdades absolutas.

O que ocorre, e que já comentei certa vez num artigo chamado “200 milhões de linguistas”, é que, diferentemente de assuntos como astronomia e medicina, que as pessoas comuns sabem que não dominam e por isso não se atrevem a debater com especialistas, todo mundo acha que entende de língua (assim como todo mundo acha que entende de futebol) só porque é falante. Some-se a isso a suposta falta de cientificidade das ciências humanas, em que a opinião vale mais do que o fato, e temos o que temos.

No vídeo, expliquei que o que define uma língua é seu sistema, isto é, quantos e quais são seus fonemas, seu modo de flexionar nomes em gênero e número, seu modo de conjugar os verbos, a ordem das palavras na frase, etc. E nesse ponto há praticamente uma total concordância entre as variedades portuguesa e brasileira do idioma, o que já não é verdade em relação ao galego, língua muito próxima do português, mas com sistema distinto em muitos aspectos.

Na verdade, as pessoas tendem a prestar muito mais atenção às diferenças do que às semelhanças. Se compararmos duas versões do mesmo texto, uma lusitana e outra brasileira, notaremos que as diferenças não chegam a 2%: uma palavra diferente aqui ou ali, um infinitivo no lugar de um gerúndio acolá, e nada mais. Mesmo assim, essas diferenças não estão em nível de sistema e sim de norma (a gramática da língua portuguesa permite tanto estou estudando quanto estou a estudar). Em outras palavras, são usos e costumes diferentes dentro de uma mesma gramática, do mesmo modo como em São Paulo se usa você foi e no Pará se diz tu foste. Paulistas e paraenses falam línguas diferentes?

Portanto, sobretudo em nível formal, as diferenças entre português e “brasileiro” são meramente de uso, não de essência. O que chama a atenção de muita gente é a diferença entre o português brasileiro falado informal, especialmente o dos falantes menos escolarizados, e o português lusitano falado informal. Mas a língua portuguesa é muito mais do que apenas o registro informal em sua modalidade oral na boca dos menos letrados: a língua é uma construção histórica que, no caso do português, existe sem solução de continuidade do século XII até o presente e que, ao longo de todo esse tempo, passou por muitas mudanças, tendo tido, portanto, alguns sistemas diferentes. A cada uma dessas fases históricas da língua, com seu sistema particular, dá-se o nome de língua funcional. Logo, o português tem sido uma grande sucessão de línguas funcionais dentro da mesma língua histórica. Até o século XIV, o galego constituiu com o português um único sistema — em outras palavras, eram a mesma língua. Desde então, o português foi-se afastando do galego, que, por sua vez, foi-se aproximando do castelhano. Hoje, português e galego são línguas mutuamente intercompreensíveis, mas distintas, com sistemas fonológico, morfológico, sintático e léxico diferentes.

Aliás, o critério da inteligibilidade recíproca não é válido para distinguir idiomas. Muitos brasileiros têm dificuldade de entender a pronúncia lusitana, mas os portugueses entendem os brasileiros perfeitamente bem. Do mesmo modo, brasileiros e bolivianos se entendem bem, mesmo falando idiomas distintos. Já eu nem sempre entendo bem certos sulistas ou nordestinos, especialmente os da zona rural.

Vou contar um caso anedótico. Certa época, na minha sala na Universidade de São Paulo, todo dia duas senhoras nordestinas entravam para fazer a faxina. Elas conversavam entre si o tempo todo, mas eu não entendia bulhufas do que elas falavam. A única expressão que eu compreendia (ou pelo menos achava que compreendia) era “marrapai”, que eu deduzia ser “mas, rapaz!”. Será que essas senhoras não falavam a mesma língua que eu?

Se tomarmos a língua falada em Paris por imigrantes congoleses ou senegaleses e mesmo por seus filhos já nascidos e criados na capital francesa, diremos que aquilo não é francês. Se compararmos as normas orais informais das mais diversas línguas com suas normas-padrão, encontraremos abismos em quase todas. Se compararmos as normas orais informais dos vários países em que uma mesma língua (português, espanhol, francês, inglês) é falada, igualmente encontraremos diferenças chocantes.

Por exemplo, no espanhol platino usa-se o pronome pessoal reto vos, que inexiste na Espanha e no restante da América, e misturado ao oblíquo te; os canadenses usam vous no lugar de tu e constroem suas frases de modo bem diferente dos franceses; um americano de classe baixa diz coisas como I ain’t got no money em vez de I don’t have any money; em compensação, ingleses de classe baixa têm uma pronúncia chamada cockney que nem os próprios ingleses de outras classes sociais entendem. Seríamos então levados a concluir que nos Estados Unidos ou na Jamaica não se fala inglês, que no Quebec ou no Senegal não se fala francês, que na Argentina não se fala espanhol. Isso faz algum sentido?

É óbvio que o modo de falar dos brasileiros, especialmente os menos cultos, com seus anacolutos e topicalizações, orações clivadas, próclises generalizadas, mistura de pessoas verbais, etc., é gritantemente diferente do modo como os portugueses, mesmo os menos cultos, falam. Mas ao ouvirmos um professor brasileiro, um português e um angolano falando numa mesa-redonda sobre linguística (posso testemunhar porque já participei de muitas assim), temos clareza de estar ouvindo a mesma língua. O mesmo quando lemos textos escritos por esses professores. Um português ou um angolano que me leia neste momento — ou que assista aos meus vídeos — não terá dúvida de que estou usando a mesma língua que eles.

Senão vejamos. Leiam o trecho abaixo, escrito pelo meu colega, o Prof. Marco Neves, da Universidade de Lisboa:

Já recebi esta pergunta várias vezes. A resposta é esta: os portugueses não traduzem, em geral, os nomes das pessoas. Traduzimos os nomes de algumas personagens históricas, os nomes dos papas, os nomes da Bíblia, os nomes de alguns reis. É verdade que até o século XIX era muito habitual traduzirmos outros nomes, mas agora é algo excepcional.

Que lhes parece? É uma língua distinta da que vocês, meus leitores, falam ou escrevem? A versão oral do texto acima, disponível no canal de vídeos do Prof. Neves, tampouco difere do modo como um brasileiro falaria, exceto, é claro, pela pronúncia.

Leiam agora o seguinte trecho:

No fondo, o reintegracionismo non é máis que unha das dúas opcións normalizadoras que existen hoxe en día dentro do galego. Para comprender en que consiste esta opción e os fundamentos nos que se sustenta, cremos imprescindible coñecer primeiro en que consiste un proceso de normalización lingüística e as razóns polas que se levan a cabo estes procesos nas distintas sociedades. Para iso propoñémosche que vaias á páxina seguinte, onde ofrecemos, de forma resumida e sen complicacións, unha breve explicación destas realidades.

Isto é galego. É a mesma língua que o português? É bem parecida, sim, mas é a mesma língua?

Bagno e alguns colegas seus de universidades brasileiras defendem a construção de uma gramática normativa cem por cento brasileira, que abone coisas como “aconteceu dois acidentes” e “a mulher que o marido é médico”, sem falar da próclise em início de período e outros brasileirismos. Ao mesmo tempo, acusam SEM PROVAS a gramática atual de ser baseada no português lusitano do século XIX, de escolher arbitrariamente só os exemplos que comprovem as idiossincrasias dos gramáticos, e uma série de outras calúnias apresentadas como verdades científicas.

A questão é que eles forçam a barra ao tentar introduzir na norma-padrão do idioma usos que são exclusivos do português brasileiro informal oral — e a norma-padrão serve para guiar o registro formal escrito. No âmbito do português escrito formal (literário, acadêmico, jurídico, jornalístico, técnico, burocrático), o que os brasileiros usam correntemente é a gramática normativa que está em vigor tanto no Brasil quanto em Portugal — exceto por alguns deslizes resultantes de má escolarização. Portanto, não é possível comparar alhos com bugalhos. Uma coisa é constatar que a fala dos brasileiros, sobretudo dos menos letrados, que é a maioria da população, é diferente da portuguesa; mesmo assim, em nível de norma e não de sistema. Outra coisa é comparar a fala e a escrita das pessoas verdadeiramente cultas de todas as nações lusófonas.

É claro que falas informais são diferentes não só entre países, mas também entre regiões de um mesmo país. É claro que o português do século XXI é diferente do galaico-português do século XII. É claro sobretudo que diferentes regiões (incluindo diferentes países) têm pronúncias diferentes, às vezes difíceis de compreender, mas a língua não é sua fonética, é sua fonologia, sua morfologia, sua sintaxe e seu léxico. E nesse ponto diferenças, se há, são tão mínimas que qualquer pessoa de bom senso, que não esteja agindo de má-fé para sustentar uma ideologia política ou para “lacrar” nas redes sociais, reconhece que a afirmação de que no Brasil se fala ou se falará em breve um idioma distinto do português, uma nova língua românica, talvez uma língua crioula descendente do português, é tão absurda quanto afirmar que português e espanhol são a mesma língua.

Um último ponto: toda a argumentação de Bagno, Venâncio e dos comentaristas do meu vídeo se dão na mesma língua em que estou escrevendo agora. E que, salvo melhor juízo, é o português.

Textos jornalísticos deveriam servir de modelo à norma-padrão?

Alguns linguistas têm criticado a gramática normativa por eleger prioritariamente textos literários como modelo a nortear o que deve ou não ser abonado em termos de norma. Em contraposição, sugerem que se adotem como parâmetro os discursos jornalístico e acadêmico, mais próximos, segundo eles, do que a maioria dos usuários cultos do idioma demanda como exemplo de redação a ser seguido, o chamado “grau zero da escrita” de Roland Barthes.

Esse argumento parece até razoável se considerarmos, como disse no artigo do mês passado, que os grandes literatos não consultam gramáticas para elaborar suas obras e que os cidadãos comuns, especialmente os estudantes e os profissionais de nível superior, buscam produzir textos profissionais com feição mais próxima ao jornalístico ou ao acadêmico do que à alta literatura.

O problema é que os escritores de ficção de hoje em dia escrevem muito mais como jornalistas do que como artífices da palavra, ao contrário do que faziam os escritores do passado. E os jornalistas e acadêmicos de hoje em dia escrevem muitas vezes como estudantes de ensino básico.

Como pesquisador na área da linguística, sou constantemente requisitado a dar pareceres em artigos científicos submetidos para publicação em periódicos especializados, assim como, na qualidade de docente, sou frequentemente convidado a integrar bancas de mestrado e doutorado e, portanto, obrigado a ler dissertações e teses. Em ambos os casos, constato horrorizado as barbaridades gramaticais e lexicais que nossos acadêmicos e/ou candidatos a acadêmicos perpetram.

Quanto ao jornalismo, fica a impressão de que quem redige as matérias atualmente, em especial na mídia eletrônica (a impressa já deixou de existir há muito tempo), não são jornalistas formados e sim estagiários, provavelmente cursando as inúmeras faculdades xiriricas que existem por aí. Seguem algumas “pérolas” que pesquei em sites jornalísticos (grifos meus):

1) “Tom Jobim promoveu a ‘fundição’ do samba com o jazz”;

2) “Os alimentos estocados estavam em ‘inconformismo’ com as normas sanitárias”;

3) “É preciso haver um ‘equilibramento’ entre oferta e demanda”;

4) “Com o ‘restauramento’ da monarquia na França…”.

Fico imaginando Tom Jobim fundindo o samba ao jazz numa serralheria ou num forno siderúrgico, assim como visualizo mentalmente alimentos inconformados e indignados por terem sido estocados em desacordo com a lei.

E temos ainda as traduções malfeitas do inglês, como realizar no sentido de perceber e inauguração em lugar de posse.

Pois é, amigos, fundição por fusão, incorformismo por desconformidade, equilibramento por equilíbrio, restauramento por restauração… É esse o padrão de exemplaridade idiomática que meus colegas linguistas propugnam? Ou eles também  pretendem estabelecer um “cânone” jornalístico assim como existe o cânone literário? E o cânone acadêmico, seria integrado por quem? Por eles mesmos? Os textos de Marcos Bagno, eivados de erros de português (propositais) fariam parte desse cânone?

O fato é que temos hoje no Brasil uma grande quantidade de textos acadêmicos com erros decorrentes da má escolarização dos atuais mestres, doutores, mestrandos e doutorandos. Quanto aos textos jornalísticos (especialmente os de internet), são escritos às pressas, por estagiários analfabetos funcionais, com erros de digitação, ortografia, pontuação, palavras invertidas, frases truncadas, fruto de uma edição apressada e não revisada feita em editores de texto como o Word®. É isso que devemos tomar como guia para escrever bem?

Diante de todos esses descalabros que dublês de jornalistas e de docentes universitários cometem, só me resta dizer duas palavras: para bens!

Afinal, que gramática queremos?

Vem-se travando há algumas décadas uma guerra entre linguistas e gramáticos. Vejam, não estão em conflito a linguística e a gramática, duas disciplinas que, dadas suas atribuições específicas, podem e devem trabalhar em plena harmonia e cooperação. A “guerra” em questão se dá por parte de alguns linguistas, que não representam necessariamente a posição dessa ciência, mas são majoritários nas universidades públicas e entidades de classe, contra os gramáticos em geral, antigos e modernos.

O argumento desses linguistas é que a gramática normativa preconiza um padrão anacrônico, já que supostamente baseado em autores do passado, predominantemente lusitano e exclusivamente literário, além de privilegiar formas arbitrariamente escolhidas pelos gramáticos para confirmar suas lições, ao mesmo tempo omitindo casos que não corroborem tais lições.

Em contraposição, esses linguistas defendem que o padrão normativo deva basear o corpus que lhe servirá de modelo, predominante ou exclusivamente, em textos brasileiros contemporâneos de não ficção, especialmente jornalísticos e acadêmicos. Em alguns casos, sustentam que construções populares típicas da oralidade informal como “eu vi ele” ou “aconteceu dois acidentes” sejam abonadas na norma-padrão, bem como sugerem o banimento de mesóclises (por exemplo, dar-lhe-ei) e de termos como o pronome relativo cujo e o demonstrativo este, que alegam terem caído em desuso.

Em primeiro lugar, tais linguistas faltam com a verdade ao proclamarem a extinção de formas que qualquer levantamento nem muito rigoroso demonstra que continuam vivas na escrita formal — e mesmo na fala dos mais bem escolarizados.

Em segundo lugar, propõem que se tome como padrão de exemplaridade idiomática textos cuja qualidade é bastante irregular (não me canso de pescar “pérolas” de semianalfabetismo em textos jornalísticos e, para meu desespero, também em acadêmicos).

Em terceiro lugar, criticam gramáticas que foram produzidas décadas e décadas atrás, de autores já mortos e enterrados, mas as gramáticas que eles mesmos elaboram não têm nem de longe o rigor metodológico das gramáticas tradicionais, mesmo as que porventura já estejam um tanto desatualizadas.

Em sua defesa, os gramáticos que atualizam frequentemente suas obras argumentam que elegem o gênero literário como o mais recomendado para compor seu corpus por ser a literatura a seara em que a expressão linguística atinge seu mais alto nível de perfeição e elaboração, sendo, mais do que qualquer outro, o discurso exemplar do idioma. Além disso, a literatura possui um cânone, isto é, uma coleção de obras de qualidade indiscutível e consensual, o que não ocorre com textos jornalísticos ou acadêmicos. Mesmo assim, obras de não ficção de grande qualidade, redigidas por nomes de inquestionável domínio linguístico, também entram nesse corpus.

Ademais, e ao contrário do que acusam esses linguistas, os gramáticos não impõem um padrão arbitrário e idiossincrático; eles, antes, coletam desse corpus rigorosamente construído em termos metodológicos os usos que efetivamente ali ocorrem de modo majoritário ou pelo menos significativo (e há critérios para definir o que seja significativo).

Mas a questão que quero tratar aqui é: afinal, que gramática queremos e para quê. Para isso, a primeira pergunta a ser feita é: para que serve a gramática?

Embora as gramáticas normativas se baseiem preferencialmente nos usos literários da língua, gramáticas não são elaboradas para servir de guia a literatos, já que estes prescindem de tal guia e é justamente o uso que fazem do idioma que vai servir de molde aos demais usuários. Assim, poderíamos definir a gramática como uma obra pedagógica cuja função é ser uma espécie de manual de uso da língua em sua expressão escrita formal. Nesse sentido, a enorme maioria dos consulentes das gramáticas é de redatores de textos de não ficção com propósitos profissionais e acadêmicos, tais como relatórios, reportagens, laudos, documentos, trabalhos escolares (incluindo dissertações e teses), livros técnicos, artigos científicos, etc.

Um segundo ponto importante a ser considerado é que, ao definir o objeto da gramática normativa, costumeiramente se faz a oposição entre o registro formal, quase onipresente na modalidade escrita, e o informal, predominante na fala. Na verdade, não há dois e sim quatro níveis de linguagem ou registros em que podemos nos expressar:

1) o registro ultraformal, atualmente restrito quase que somente ao universo do Direito (mais especificamente às instâncias mais elevadas do Poder Judiciário, visto que, no exercício da advocacia, abundam bacharéis mal letrados);

2) o registro formal, aquele mais usual nos textos profissionais em geral, como os mencionados acima;

3) o registro informal ou coloquial, típico da fala de pessoas alta ou medianamente escolarizadas, especialmente em situações de pouca ou nenhuma formalidade, mas que ocorre por escrito apenas em comunicações informais, como um bilhete ou mensagem de Whatsapp;

4) o registro vulgar ou iletrado, o qual é, na verdade, muito mais um dialeto do que um registro, visto que as pessoas que o utilizam, de baixíssima ou nenhuma escolaridade, jamais se expressam nos demais registros, sendo a recíproca igualmente verdadeira. Há, pois, uma barreira a separar os três primeiros registros deste último.

Um exemplo simplório, mas, creio, ilustrativo desses registros seria o seguinte:

1) “Fá-lo-emos tão logo a situação assim o permita” (ultraformal);

2) “Nós o faremos assim que a situação permitir” (formal);

3) “Nós vamos” (ou “a gente vai”) “fazer isso quando a situação permitir” (informal);

4) “Nóis vai fazê quando dé” (vulgar).

A gramática normativa baseia suas prescrições e serve de guia em relação aos dois primeiros níveis. No ultraformal, por exemplo, a mesóclise permanece muito viva. No nível formal, é possível que já tenha um uso mais marginal (note que neste mesmo texto eu não a empreguei nenhuma vez). Nos dois últimos registros ela definitivamente não ocorre. Assim, quando um linguista afirma que tal ou qual forma linguística não se usa mais e por isso deve ser banida da gramática, em qual desses registros ele apoia sua tese?

Quando se discute, por exemplo, a simplificação da linguagem jurídica, muitos entendem erroneamente que o que se pretende é rebaixar o jargão do Direito ao falar dos botequins. Nada mais errado. Pode-se perfeitamente (e eu particularmente acho bastante desejável) trazer o discurso jurídico — com seu linguajar bacharelesco, empolado e rebarbativo, que, por seu excesso de erudição e preciosismo, soa pedante e mesmo ridículo — do nível ultraformal para o formal, o mesmo de outras profissões de nível superior, preservada, sem dúvida, a terminologia técnica do Direito.

Portanto, a gramática deve orientar a redação de textos formais e ultraformais, cabendo ao redator adequar o uso ao registro em que opera. Aqui mesmo, estou produzindo um texto formal, mas não ultraformal; por isso, estou tentando (e espero estar conseguindo) equilibrar elegância e clareza. Não vejo sentido em usar uma linguagem indigente com o pretexto de ser claro nem uma linguagem rebuscada a fim de soar elegante ou culto. Esse é o ponto de equilíbrio que o bom uso da gramática permite.

Por outro lado, como linguista que conhece várias línguas e estando no momento a conduzir uma análise comparativa do nível de complexidade gramatical das principais línguas europeias, posso adiantar a partir dos primeiros resultados que o português padrão apresenta, sim, uma gramática mais complexa do que idiomas próximos como espanhol, italiano, francês e inglês.

Por exemplo, nossa colocação pronominal padrão — mesóclises à parte — inclui um número de regras bem superior ao das demais línguas citadas. Nesse sentido, penso que, se fôssemos pensar em reformular a gramática normativa, deveríamos nos pautar não pela abonação de construções que só se encontram na fala informal ou vulgar, mas sim pela simplificação de regras tendo por baliza aquilo que as gramáticas de nossas línguas-irmãs já fizeram, às vezes séculos atrás. Sim, porque o estudo histórico das línguas nos mostra que o espanhol e o italiano, para citar os exemplos mais próximos, também já tiveram uma colocação pronominal complicada, mas a simplificaram e racionalizaram sem que isso significasse uma barbarização desses idiomas.

Assim, penso que, como em tudo na vida, o bom senso reside no caminho do meio: nem tanto ao mar nem tanto à terra. O discurso jurídico não precisaria ser tão prolixo e extravagante para ser preciso e inequívoco; sem dúvida, poderíamos prescindir das mesóclises tanto quanto as demais línguas do mundo, que desconhecem tal colocação. Por outro lado, poderíamos escrever com elegância e sem ambiguidade mesmo que adotássemos regras morfológicas e sintáticas mais simples e racionais, como as que encontramos ao lermos em espanhol, francês, italiano e sobretudo inglês. Por que não? Essa infrutífera guerra promovida por certos linguistas contra os gramáticos poderia terminar num consenso em que todos, sobretudo os falantes do português, sairiam ganhando.