Uma curiosidade sobre os advérbios de intensidade “muito” e “pouco”. É muito comum utilizarmos a expressão “muito pouco” para nos referirmos a algo cuja quantidade ou intensidade é menor do que a utilização isolada do termo “pouco” expressaria. E faz sentido. O interessante é que, caso utilizássemos da maneira contrária, ou seja, “pouco muito”, denotando quantidade ou intensidade leve ou moderadamente aumentadas, ficaria bizarro e isso nunca aparece na linguagem diária ou em textos. Como explicar esse tratamento tão diverso para situações teoricamente semelhantes? Obrigado.
Luiz Otavio Andrade
Luiz, sua pergunta é muito interessante. O que ocorre é que em português a palavra muito exerce duas funções: pronome indefinido adjetivo e advérbio elativo. Em várias outras línguas há termos distintos para cada uma dessas funções. Por exemplo, em inglês o pronome é much, mas o elativo é very. Observe: “He has much money” (Ele tem muito dinheiro), mas “He is very rich” (Ele é muito rico). O mesmo se dá em francês (beaucoup x très), alemão (viel x sehr) e espanhol (mucho x muy), dentre outras. O pronome adjetivo qualifica ou quantifica o substantivo, enquanto o advérbio elativo intensifica o pronome ou adjetivo.
Quando digo, por exemplo, “muito pouco dinheiro”, muito é elativo do pronome adjetivo pouco, que por sua vez é adjunto adnominal de dinheiro. Só que pouco não pode atuar como elativo — não dizemos, por exemplo, “Ele é pouco rico” —; por isso, a combinação pouco muito não é possível em português. Além disso, pouco muito tem o mesmo significado de pouco: “ele tem pouco dinheiro”, razão pela qual pouco muito é uma expressão desnecessária.
Dinheiro pouco, tenho muito kkkkkk.
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Prof. Aldo, não entendi duas coisas: o que quer dizer advérbio elativo? Nunca ouvi ou li a palavra “elativo”. Pelo menos não me recordo.
Acredito que a segunda coisa que não entendi tem a ver com a primeira: o exemplo “Ele é pouco rico” não é possível em português, mesmo sendo a palavra “rico” um adjetivo. Porém numa frase como “Ele é pouco atuante”, entendo que “pouco” é advérbio modificador do adj. “atuante”.
Saudações,
Patrick.
Patrick, o advérbio elativo é aquele que permite formar de maneira analítica um superlativo absoluto; por exemplo, “muito belo” = “belíssimo”, “muito bom” = “ótimo”. De fato, houve uma certa imprecisão na minha explicação. O que eu quis dizer não é que não possa haver um elativo “pouco” por oposição a “muito” e sim que esse elativo não pode formar superlativos absolutos.
Obrigado.
Em Português até recentemente também tinha dois termos: muito e mui. Tenho um conhecido que às vezes ainda usa mui.
Sem dúvida, “mui” ainda existe na língua, mas atualmente só é usado em ofícios e outros documentos burocráticos ultraformais, que geralmente começam com “Venho mui respeitosamente à presença de V.S.ª…”.
De fato, as estruturas efetivas das línguas são prodigiosas em lacunas (ver asteriscos), ou anomalias. Assim é que, na utilização dos elementos [muito] e [pouco], vamos ter:
-Fulano tem dinheiro [neutro]
-Fulano tem muito, muito dinheiro
-Fulano tem muito dinheiro
-*Fulano tem pouco muito dinheiro
-*Fulano tem pouco, pouco dinheiro
-Fulano tem pouco dinheiro
-Fulano tem muito pouco dinheiro
Esta ordem vale, de igual modo, para os núcleos-adjetivos:
-Fulano é feliz [neutro]
-Fulano é muito, muito feliz
-Fulano é muito feliz
-*Fulano é pouco muito feliz
-*Fulano é pouco, pouco feliz
-Fulano é pouco feliz
-Fulano é muito pouco feliz
O estranhamento com relação a [rico], em “Ele é pouco rico”, não se deve à inviabilidade estrutural, mas à inusualidade da estrutura. Talvez o mesmo ocorra com as frases anotadas com asterisco, acima.
Não é raro acontecer de o [pouco], embora não o [muito], vir antecedido pela partícula [um], como em:
-Fulano é um pouco astucioso [=Fulano é pouco astucioso].
Do ponto de vista estritamente gramatical, não sei o que essa partícula – o [um] – faz aí, pois não tem função alguma, sendo mera disposição da fala.
Em relação a “Fulano é um pouco astucioso” x “Fulano é pouco astucioso”, percebo uma diferença semântica sutil: na primeira frase, há um juízo negativo (Fulano deveria ser mais astucioso do que é), ao passo que, na segunda, há um juízo positivo ou, pelo menos, benevolente (Fulano não é totalmente desprovido de astúcia).
Numa análise “a sangue frio”, isto é, semântica, “Fulano ser um pouco astucioso” e “Fulano ser pouco astucioso”, dizem a mesma coisa: [fulano tem apenas uma pequena medida de astúcia, em ambos os casos]. Mas o sentido na linguagem não é somente semântico, pois que tem o viés estilístico e pragmático. Há, ou pode haver (eu acho mesmo que há) diferenças estilísticas entre “um pouco estudioso” e “pouco estudioso”, mas estes sentidos adicionais se devem à nossa impressão pessoal do que é ouvido ou pronunciado, em termos de emotividade/expressividade: nós costumamos achar que uma das expressões “diz mais e melhor” do que a outra e, aí, a gente confunde com a semântica, que continua a mesma. Semântica, Estilística e Pragmática são, de fato, indissociáveis na prática, mas, em teoria, deveriam ser separadas, até onde se pode ir, é claro…
Certa vez, eu lia um texto do Benveniste em que ele tentava explicar por que não se chama [caneta] de [chiclete], ou vice-versa. (Não, os termos aludidos não eram esses, mas estão na mesma direção argumentativa!). E nem sei se era Benveniste, viu, mas isso não importa! rsrsrs
Sabe o que acontecia? Faltava a Pragmática para explicar direito. Textos de Linguística muito antigos não dão conta de certos problemas da linguagem. Em suma:
A GENTE NÃO USA A LINGUAGEM, MAS UMA PRAGMÁTICA DA LINGUAGEM.
Tudo o que sabemos da Linguagem resulta do que apreendemos, enquanto a Linguagem mesma NÃO ESTÁ À NOSSA DISPOSIÇÃO, por ser ampla demais.
As nossas gramáticas são uma pragmática, apenas!