Ainda sobre o aportuguesamento de palavras

Na semana passada, tratei aqui neste blog (ou blogue) do aportuguesamento da palavra inglesa tweet, que resultou no substantivo tuíte e no verbo tuitar. É bem verdade que o verbo inglês to google, “pesquisar no Google”, que deu googlar em português, ainda não se transformou em guglar, mas isso pode acontecer a qualquer momento. Meu leitor Patrick menciona já ter visto short e funk grafados como xorte e funque (e, neste último caso, suponho que a pronúncia seja de fato funque e não fanque). Isso me faz ressuscitar duas postagens do tempo em que eu tinha um blog (ou blogue) no site (ou saite) da extinta revista Língua, os quais passo a reproduzir abaixo.

Os blogues da internete

Até 1943, o português tinha uma ortografia de base etimológica (pharmacia, physica, etc.). Isso incluía não só palavras de origem grega ou latina, mas também estrangeirismos como abat-jour, kimono, football, club, etc. (até hoje alguns times têm Football Club no nome).

Com a reforma ortográfica daquele ano, que substituiu o critério puramente etimológico por um misto (predominantemente fonológico, com resquícios de etimologia), passou-se a adaptar à nova grafia muitas palavras estrangeiras, inclusive nomes próprios. Com isso, Garibaldi, no Rio Grande do Sul, virou Garibáldi, Mayrinck e Brodowsky, em São Paulo, tornaram-se Mairinque e Brodósqui, e assim por diante. Na contramão disso, como que para dar um certo charme, Bahia manteve o h, Joinville os dois ll, e Paraty o y. Nem mesmo nomes de personagens históricos foram poupados: Ruy Barbosa hoje é Rui Barbosa, Gregorio de Mattos atualmente se assina Gregório de Matos, e por aí vai. (Nada semelhante ocorre em outras línguas: Shakespeare não virou Shakespear, Debussy não se tornou Debussi nem Goethe hoje é Göte; a prosseguir essa tendência, daqui a um século serei Bizóqui.)

Atualmente, termos recentes vindos da linguagem da informática também estão passando por esse processo. Por isso, já se lê aqui e ali blogue em lugar de blog e – pasmem – internete em lugar de internet.

Diante da permanente importação de palavras estrangeiras, fenômeno corrente em todas as épocas, mas ainda mais em tempos de globalização, as línguas costumam adotar certos critérios sobre o que fazer com a palavra recém-chegada. Idiomas como o francês e o inglês, de ortografia radicalmente etimológica, simplesmente adotam essas palavras tal qual se escrevem na língua de origem. Idiomas que tendem a adaptar a grafia em geral pesam os prós e os contras dessa adaptação. Por isso, mesmo nessas línguas há uma grande quantidade de palavras que mantêm a grafia original, seja porque se manteve a fonética original, seja por conveniência do uso, inclusive do uso internacional.

Por essa razão, o italiano grafa Paraguay e Uruguay com y e Tokio e Pakistan com k mesmo não tendo essas letras em seu alfabeto. Por essa razão também grafa club, film, blog e internet mesmo que palavras terminadas em consoante sejam estranhas ao sistema fonológico italiano.

Enquanto isso, o português é a única língua europeia de maior alcance internacional a grafar Paraguai, Uruguai, Tóquio, Paquistão, clube, filme e agora também blogue e internete. É possível encontrar grafias diferentes, como blogg, klubb, internätt (e também internett ou internæt), Paragvæ ou Urugvaj, mas só em línguas escandinavas ou do Leste europeu.

A questão é até que ponto vale a pena adotar grafias que vão na direção contrária à dos demais idiomas? Num momento em que o português aspira a internacionalizar-se (e não são poucos os desafios a tal aspiração, mas não vou tratar dessa questão nesta postagem), a adoção de grafias que se afastam da tendência geral não parece uma política inteligente. A reforma ortográfica de 1943 e suas subsequentes de 1971 e 2009 tiveram o propósito de pôr ordem no caos e facilitar a grafia, não o de estabelecer uma doutrina ideológica de caráter purista ou xenófobo.

Você tem um sítio?

Que o vocabulário de uma língua varia de uma região para outra, e mais ainda de um país para outro de mesmo idioma, todo mundo sabe. No entanto, essas variações, às vezes sutis, podem pegar de surpresa até linguistas experientes como eu, que dirá o falante leigo e incauto? Basta viajarmos um pouco pelo Brasil para percebermos que a lomba (isto é, ladeira) dos gaúchos não tem nada a ver com a lombada (quebra-molas) dos paulistas, mas que a macaxeira dos nordestinos tem tudo a ver com o aipim ou mandioca do Centro-Sul do país.

Pois bem, estava eu certa vez participando de um congresso internacional e acabei travando contato com uma famosa linguista da Universidade de Lisboa. Depois de um bom tempo de conversa, ao nos despedirmos, trocamos cartões de visita; o meu continha, além de nome, endereço residencial, telefone e e-mail, o endereço do meu website. A professora, após ler atentamente o cartão, olhou fixamente nos meus olhos e perguntou: “Você tem um sítio?”

A primeira coisa que imaginei é que o meu endereço residencial lhe tivesse causado alguma estranheza e ela tivesse sido levada a acreditar que eu morava na zona rural. Respondi-lhe, um tanto envergonhado: “Não, não tenho sítio não, mas bem que eu gostaria. Na verdade, quando eu me aposentar, meu sonho é ir morar num sítio, bem longe do burburinho da cidade grande, no meio da bicharada!”

De repente, ela irrompeu numa gargalhada e me perguntou, perplexa: “Mas do que estás a falar? Perguntei-te se tu tinhas um sítio, pois, pelo que estou a ver aqui no teu cartão, tu tens!”

E eu insisti: “Não, não, a minha casa fica na cidade mesmo, num bairro bastante urbanizado.”

Vendo que eu não estava entendendo nada, a douta lusitana me questionou: “Ora, se não tens sítio, então que vem a ser este teu www.aldobizzocchi.com.br? Este sítio leva teu nome, não é teu por acaso?

Só então me dei conta de que ela estava se referindo ao sítio da internet, ou melhor, àquilo que nós brasileiros conhecemos quase exclusivamente como site. Assim como eu não me lembrei de imediato que em Portugal “site” se diz sítio, ela tampouco parecia saber que no Brasil sítio é uma pequena propriedade rural, algo como uma quinta em Portugal.

Desfeito o mal-entendido, ela prometeu que acederia ao meu sítio (isto é, acessaria o meu site) assim que chegasse ao hotel.

Moral da história: as línguas pregam peças até nos linguistas.

7 comentários sobre “Ainda sobre o aportuguesamento de palavras

  1. Caro prof. Aldo, desculpe. Ainda não entendi se nós, pobres mortais, podemos grafar “saite”, “xorte”, por exemplo. Até hoje nunca vi essas palavras grafadas dessa forma em dicionários ou no VOLP, diferentemente de “blogue”, que consta tanto no VOLP quanto no Houaiss digital. Nem precisava do Houaiss, só o fato de estar no VOLP já me dá a tranquilidade de dizer que foi oficialmente aportuguesada e ninguém pode questionar.

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    1. Aí é que está o ponto, Patrick: se não estão dicionarizadas, essas formas oficialmente não existem. Ou seja, alguns cronistas, como o Eduardo Affonso, por exemplo, até grafam jocosamente feicebuque, feiquinius, e por aí afora, mas trata-se de gozação. Num texto sério, eu jamais grafaria “saite” ou “xorte”.

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  2. Olá, professor Aldo Bizzocchi, acabo de descobrir seu blogue após a leitura de seu artigo “Tuíte ou tuitar: aportuguesamento ou derivação” publicado no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. A propósito do aportuguesamento de palavras inglesas, gostaria de saber se há algum dicionário de anglicismos que traga as regras para vestir o vocábulo estrangeiro à portuguesa, quando os estrangeirismos forem extremamente necessários, como o faz o Dicionário de Galicismos de Carlos Góis a respeito das palavras francesas.
    Parabenizo-o pelo blogue e agradeço-lhe de antemão a atenção dispensada.

    Atenciosamente,
    Márlon Rodrigues

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