A origem da palavra “Carnaval”

Já que estamos em pleno Carnaval, é sobre ele que vamos falar hoje.

A etimologia da palavra Carnaval é uma das mais controversas que existem. Assim como a origem dessa festividade remonta à Pré-História e a ritos pagãos da fertilidade, em que se comemorava o início do ano agrícola e pedia-se aos deuses uma boa safra, a origem da palavra também se perde na escuridão do passado. Alguns autores, como Körting (Lateinisches-Romanisches Wörterbuch, “Dicionário Latino-Românico”), sustentam que teria vindo do latim carrus navalis, barco ornamentado que entre os romanos abria desfiles alegóricos como os das Saturnalia e das Bacchanalia, festas em celebração da chegada da primavera e do vinho.

Outros, porém, como Antenor Nascentes, na esteira de vários estudiosos, apontam a origem em carnem levare, “suspender a carne”, isto é, suprimir o consumo desse alimento durante a Quaresma, portanto já no período cristão do Império Romano. Wilhelm Meyer-Lübke, no seu Romanisches Etymologisches Wörterbuch (Dicionário Etimológico Românico), dá essa origem para o francês e o provençal. Policarpo Petrocchi apresenta o baixo latim carnelevamen, depois modificado para carnelevare, como étimo do antigo pisano carnelevare, do napolitano carnolevare, do calabrês carnalevare, do siciliano carnilivari, do vicentino carlavare e do veneziano carlevar. A forma primitiva carnelevare teria sido depois mudada para carnelevale em milanês (1130) e, por etimologia popular, em carne, vale!, isto é, “adeus, carne!”. Essa etimologia é confirmada por Corominas em seu Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana. Já o Duden – Das Herkunftswörterbuch, o principal dicionário etimológico do alemão, apresenta ambas as hipóteses, dando, no entanto, mais crédito à segunda.

Em espanhol, a forma paralela carnal teria sido a responsável pela mudança da vogal, de carneval para carnaval. A ideia básica de suspensão do consumo de carne é reforçada por formas paralelas como o espanhol carnestolendas, o catalão carnestoltes (ambas do latim tollere, “retirar”) e o italiano carnelasciare e carnasciare, assim como o romeno lăsatul de carne, todas do latim laxare, “deixar, abandonar”. O próprio latim já apresentava carneprivium, “privação da carne”, o que dá alguma convicção a essa etimologia. De certo, somente que o antecessor do termo em todas as línguas modernas é o italiano carnevale, especialmente em face da grande fama dos carnavais italianos (o de Veneza, principalmente) durante a Renascença.

4 comentários sobre “A origem da palavra “Carnaval”

  1. Professor, observo o surgimento de uma expressão meio estranha. Não sei se ela está restrita a uma região determinada (pelo menos ouço muitos baianos falando isso) ou se também ocorre em outros lugares do país. É a expressão POSSA SER, em vez de PODE SER, no seguinte contexto: “POSSA SER que ele esteja dizendo a verdade.”/”POSSA SER que ele faça a atividade mais tarde.”
    O que me causa estranheza é que o povo em geral não usa bem o subjuntivo, mas agora, em lugar do requerido indicativo, usa justamente essa forma. Faria sentido se fosse no contexto de sentença subordinada: EMBORA POSSA SER considerado o melhor jogador do mundo, fulano…
    Quanto ao anglicismos, observei outro muito usado, sobretudo nas redes sociais: ELABORAR (calque do inglês ELABORATE), creio que um falso cognato. Em inglês é muito usado no sentido de “explicar em detalhes”.

    1. Fábio, eu desconhecia essa expressão “possa ser”, mas me parece um caso de hipercorreção ou hiperurbanismo. Como o subjuntivo é um modo pouco usado, sobretudo pelos menos letrados, ele soa imponente e parece ser mais correto que “pode ser”. Mas também pode ser influência do advérbio “talvez”, que, mesmo na oração principal, exige o subjuntivo: “talvez ele possa jogar no domingo”. E “pode ser” é sinônimo de “talvez”, tanto que esse advérbio é “peut-être” em francês e “maybe” em inglês, ambos literalmente significando “pode ser”.
      Quanto a “elaborar”, eu já vi gente usando no sentido de “raciocinar a respeito, procurar compreender”: “eu ainda não elaborei direito o que aconteceu”.

      1. Deve ser uma expressão local mesmo. Recentemente eu até ouvi um famoso youtuber baiano utilizá-la. Quanto a “talvez”, lembro que no catalão é “potser”, literalmente “pode ser”.
        Obrigado pelo retorno, Professor Aldo.

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