Uma etimologia alternativa para “coração”

Dizem alguns etimólogos que a palavra coração vem de um suposto latim vulgar *coratione, formado de cor, “coração”, e do sufixo ‑tionem, que aparece em nationem, operationem etc. (em português, nação, operação). Meu colega Mário Eduardo Viaro, etimólogo e professor da USP, em artigo na revista Língua Portuguesa, faz até uma analogia com coragem, que vem do francês antigo corage e é formado de cor + sufixo ‑age. Só que essa explicação não me parece totalmente satisfatória. Primeiro, ‑age é sufixo que indica qualidade (por exemplo, bobagem = qualidade de bobo, vassalagem = condição de vassalo). Portanto coragem é a qualidade de quem tem coração (visto como a sede das virtudes humanas). Além disso, ‑age é sufixo masculino em francês, e corage (que atualmente tem a forma courage) é de fato palavra masculina em francês. Essa palavra nasceu no francês e passou às outras línguas, inclusive à nossa, por empréstimo.

coração seria, segundo a hipótese acima, formado de cor + sufixo ‑ção. Só que esse sufixo é feminino, mas coração é palavra masculina tanto em português quanto em espanhol (corazón). Além disso, ‑ção é sufixo que designa ação e não qualidade (por exemplo, organizarorganização, embromarembromação). Seria estranho que se ligasse ao substantivo cor e não a um verbo de ação. Afinal, que ação o coração desempenha além de bater?

O mais provável é que o sufixo ‑ção de coração não venha do latim ‑tionem, mas seja na verdade um aumentativo, pois é sabido que muitas palavras que herdamos do latim vulgar eram aumentativos ou diminutivos de palavras latinas. Por exemplo, orelha vem de auricula, diminutivo de auris; agulha vem de acucula, diminutivo de acus; o francês soleil, “sol”, vem de soliculus, diminutivo de sol, e assim por diante. O latim vulgar também tinha os sufixos aumentativos ‑acium e ‑aciam (que deram os nossos sufixos ‑aço de golaço e mulheraço e ‑aça de barcaça, bem como o espanhol ‑azo/‑aza e o italiano ‑accio/‑accia) e o sufixo aumentativo ‑onem, que deu ‑ão em português, ‑ón em espanhol e ‑one em italiano.

Pois bem, é provável que coração seja um aumentativo de cor, aliás um superaumentativo, já que tem dois sufixos de aumento. A palavra no latim vulgar devia ser *coracionem, isto é, cor + ‑acium + ‑onem. Evidentemente, não há como provar essa tese, já que não existe registro histórico dessa forma, mas tampouco existe da forma *corationem. Portanto, aqui o julgamento deve se dar muito mais em bases probabilísticas do que empíricas. De todo modo, creio que a hipótese aqui apresentada tenha mais probabilidade de ser verdadeira — ao menos parece mais plausível — do que a outra.

Aliás, o Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana, de Joan Corominas, também aventa essa hipótese para o espanhol corazón. E uma forma primitiva de coração era corção, que ainda sobrevive como sobrenome.

Como a origem dessa palavra é controversa, o que deve ser levado em conta é a probabilidade de cada uma das hipóteses etimológicas. E creio que a hipótese de um aumentativo de cor é mais provável que a de um substantivo indicativo de ação.

Ainda sobre o português e o “brasileiro”

Em dezembro de 2024, lancei no meu canal do YouTube Planeta Língua o vídeo “Brasileiro é uma língua distinta do português?”, no qual falo sobre a afirmação dos linguistas Fernando Venâncio e Marcos Bagno de que o português falado no Brasil será nas próximas décadas uma língua distinta do português de Portugal — segundo Bagno, essa cisão até já aconteceu. Teríamos então (ou já temos) a “língua brasileira”.

No vídeo, explico que há critérios científicos, portanto objetivos, para decidir se duas ou mais expressões linguísticas configuram uma só ou mais de uma língua, critérios estes que os dois linguistas conhecem, mas não aplicam, apresentando no lugar suas convicções pessoais, fruto de militância política e ideológica.

É uma realidade que nas ciências humanas é muito viva a crença de que não há dados objetivos, fatos concretos observáveis e testáveis segundo o método científico, mas tudo é questão de ponto de vista. E se esse ponto de vista for o marxista, melhor ainda. Nem a linguística, a mais exata das ciências humanas, consegue escapar desse dogma, jamais provado e muitas vezes desmentido.

A questão é que choveram comentários ao meu vídeo, a maioria vinda de pessoas leigas no assunto, algumas até semialfabetizadas, mas que, graças à “democratização” promovida pelas redes sociais, acham que sua opinião vale o mesmo que o parecer abalizado de um especialista no assunto. E na medida em que supostos especialistas como Bagno e Venâncio também substituem pareceres técnicos por opiniões pessoais, qualquer um pode ser doutor em linguística, não é mesmo? E dá-lhe coisas como “eu falo brasileiro, e pronto!”, “o português é a língua mais linda do mundo”, “eu não entendo o que os portugueses falam, então é outra língua”, e por aí vai. Esse tipo de comentário não merece que eu perca meu tempo nem o dos leitores comentando. Porém também há comentários de pessoas que se dizem formadas em Letras, mas que, novamente, apresentam visões pessoais e relativistas como verdades absolutas.

O que ocorre, e que já comentei certa vez num artigo chamado “200 milhões de linguistas”, é que, diferentemente de assuntos como astronomia e medicina, que as pessoas comuns sabem que não dominam e por isso não se atrevem a debater com especialistas, todo mundo acha que entende de língua (assim como todo mundo acha que entende de futebol) só porque é falante. Some-se a isso a suposta falta de cientificidade das ciências humanas, em que a opinião vale mais do que o fato, e temos o que temos.

No vídeo, expliquei que o que define uma língua é seu sistema, isto é, quantos e quais são seus fonemas, seu modo de flexionar nomes em gênero e número, seu modo de conjugar os verbos, a ordem das palavras na frase, etc. E nesse ponto há praticamente uma total concordância entre as variedades portuguesa e brasileira do idioma, o que já não é verdade em relação ao galego, língua muito próxima do português, mas com sistema distinto em muitos aspectos.

Na verdade, as pessoas tendem a prestar muito mais atenção às diferenças do que às semelhanças. Se compararmos duas versões do mesmo texto, uma lusitana e outra brasileira, notaremos que as diferenças não chegam a 2%: uma palavra diferente aqui ou ali, um infinitivo no lugar de um gerúndio acolá, e nada mais. Mesmo assim, essas diferenças não estão em nível de sistema e sim de norma (a gramática da língua portuguesa permite tanto estou estudando quanto estou a estudar). Em outras palavras, são usos e costumes diferentes dentro de uma mesma gramática, do mesmo modo como em São Paulo se usa você foi e no Pará se diz tu foste. Paulistas e paraenses falam línguas diferentes?

Portanto, sobretudo em nível formal, as diferenças entre português e “brasileiro” são meramente de uso, não de essência. O que chama a atenção de muita gente é a diferença entre o português brasileiro falado informal, especialmente o dos falantes menos escolarizados, e o português lusitano falado informal. Mas a língua portuguesa é muito mais do que apenas o registro informal em sua modalidade oral na boca dos menos letrados: a língua é uma construção histórica que, no caso do português, existe sem solução de continuidade do século XII até o presente e que, ao longo de todo esse tempo, passou por muitas mudanças, tendo tido, portanto, alguns sistemas diferentes. A cada uma dessas fases históricas da língua, com seu sistema particular, dá-se o nome de língua funcional. Logo, o português tem sido uma grande sucessão de línguas funcionais dentro da mesma língua histórica. Até o século XIV, o galego constituiu com o português um único sistema — em outras palavras, eram a mesma língua. Desde então, o português foi-se afastando do galego, que, por sua vez, foi-se aproximando do castelhano. Hoje, português e galego são línguas mutuamente intercompreensíveis, mas distintas, com sistemas fonológico, morfológico, sintático e léxico diferentes.

Aliás, o critério da inteligibilidade recíproca não é válido para distinguir idiomas. Muitos brasileiros têm dificuldade de entender a pronúncia lusitana, mas os portugueses entendem os brasileiros perfeitamente bem. Do mesmo modo, brasileiros e bolivianos se entendem bem, mesmo falando idiomas distintos. Já eu nem sempre entendo bem certos sulistas ou nordestinos, especialmente os da zona rural.

Vou contar um caso anedótico. Certa época, na minha sala na Universidade de São Paulo, todo dia duas senhoras nordestinas entravam para fazer a faxina. Elas conversavam entre si o tempo todo, mas eu não entendia bulhufas do que elas falavam. A única expressão que eu compreendia (ou pelo menos achava que compreendia) era “marrapai”, que eu deduzia ser “mas, rapaz!”. Será que essas senhoras não falavam a mesma língua que eu?

Se tomarmos a língua falada em Paris por imigrantes congoleses ou senegaleses e mesmo por seus filhos já nascidos e criados na capital francesa, diremos que aquilo não é francês. Se compararmos as normas orais informais das mais diversas línguas com suas normas-padrão, encontraremos abismos em quase todas. Se compararmos as normas orais informais dos vários países em que uma mesma língua (português, espanhol, francês, inglês) é falada, igualmente encontraremos diferenças chocantes.

Por exemplo, no espanhol platino usa-se o pronome pessoal reto vos, que inexiste na Espanha e no restante da América, e misturado ao oblíquo te; os canadenses usam vous no lugar de tu e constroem suas frases de modo bem diferente dos franceses; um americano de classe baixa diz coisas como I ain’t got no money em vez de I don’t have any money; em compensação, ingleses de classe baixa têm uma pronúncia chamada cockney que nem os próprios ingleses de outras classes sociais entendem. Seríamos então levados a concluir que nos Estados Unidos ou na Jamaica não se fala inglês, que no Quebec ou no Senegal não se fala francês, que na Argentina não se fala espanhol. Isso faz algum sentido?

É óbvio que o modo de falar dos brasileiros, especialmente os menos cultos, com seus anacolutos e topicalizações, orações clivadas, próclises generalizadas, mistura de pessoas verbais, etc., é gritantemente diferente do modo como os portugueses, mesmo os menos cultos, falam. Mas ao ouvirmos um professor brasileiro, um português e um angolano falando numa mesa-redonda sobre linguística (posso testemunhar porque já participei de muitas assim), temos clareza de estar ouvindo a mesma língua. O mesmo quando lemos textos escritos por esses professores. Um português ou um angolano que me leia neste momento — ou que assista aos meus vídeos — não terá dúvida de que estou usando a mesma língua que eles.

Senão vejamos. Leiam o trecho abaixo, escrito pelo meu colega, o Prof. Marco Neves, da Universidade de Lisboa:

Já recebi esta pergunta várias vezes. A resposta é esta: os portugueses não traduzem, em geral, os nomes das pessoas. Traduzimos os nomes de algumas personagens históricas, os nomes dos papas, os nomes da Bíblia, os nomes de alguns reis. É verdade que até o século XIX era muito habitual traduzirmos outros nomes, mas agora é algo excepcional.

Que lhes parece? É uma língua distinta da que vocês, meus leitores, falam ou escrevem? A versão oral do texto acima, disponível no canal de vídeos do Prof. Neves, tampouco difere do modo como um brasileiro falaria, exceto, é claro, pela pronúncia.

Leiam agora o seguinte trecho:

No fondo, o reintegracionismo non é máis que unha das dúas opcións normalizadoras que existen hoxe en día dentro do galego. Para comprender en que consiste esta opción e os fundamentos nos que se sustenta, cremos imprescindible coñecer primeiro en que consiste un proceso de normalización lingüística e as razóns polas que se levan a cabo estes procesos nas distintas sociedades. Para iso propoñémosche que vaias á páxina seguinte, onde ofrecemos, de forma resumida e sen complicacións, unha breve explicación destas realidades.

Isto é galego. É a mesma língua que o português? É bem parecida, sim, mas é a mesma língua?

Bagno e alguns colegas seus de universidades brasileiras defendem a construção de uma gramática normativa cem por cento brasileira, que abone coisas como “aconteceu dois acidentes” e “a mulher que o marido é médico”, sem falar da próclise em início de período e outros brasileirismos. Ao mesmo tempo, acusam SEM PROVAS a gramática atual de ser baseada no português lusitano do século XIX, de escolher arbitrariamente só os exemplos que comprovem as idiossincrasias dos gramáticos, e uma série de outras calúnias apresentadas como verdades científicas.

A questão é que eles forçam a barra ao tentar introduzir na norma-padrão do idioma usos que são exclusivos do português brasileiro informal oral — e a norma-padrão serve para guiar o registro formal escrito. No âmbito do português escrito formal (literário, acadêmico, jurídico, jornalístico, técnico, burocrático), o que os brasileiros usam correntemente é a gramática normativa que está em vigor tanto no Brasil quanto em Portugal — exceto por alguns deslizes resultantes de má escolarização. Portanto, não é possível comparar alhos com bugalhos. Uma coisa é constatar que a fala dos brasileiros, sobretudo dos menos letrados, que é a maioria da população, é diferente da portuguesa; mesmo assim, em nível de norma e não de sistema. Outra coisa é comparar a fala e a escrita das pessoas verdadeiramente cultas de todas as nações lusófonas.

É claro que falas informais são diferentes não só entre países, mas também entre regiões de um mesmo país. É claro que o português do século XXI é diferente do galaico-português do século XII. É claro sobretudo que diferentes regiões (incluindo diferentes países) têm pronúncias diferentes, às vezes difíceis de compreender, mas a língua não é sua fonética, é sua fonologia, sua morfologia, sua sintaxe e seu léxico. E nesse ponto diferenças, se há, são tão mínimas que qualquer pessoa de bom senso, que não esteja agindo de má-fé para sustentar uma ideologia política ou para “lacrar” nas redes sociais, reconhece que a afirmação de que no Brasil se fala ou se falará em breve um idioma distinto do português, uma nova língua românica, talvez uma língua crioula descendente do português, é tão absurda quanto afirmar que português e espanhol são a mesma língua.

Um último ponto: toda a argumentação de Bagno, Venâncio e dos comentaristas do meu vídeo se dão na mesma língua em que estou escrevendo agora. E que, salvo melhor juízo, é o português.

Intriga intrincada e intrigante

O título desta postagem parece um trava-língua, não é? Mas é que tanto intrigar (e daí intriga e intrigante) quanto intrincado (ou intricado) provêm do latim intricare, que significa “embaraçar”, derivado de tricae, “trama, embaraço”. Logo, intricare é enredar numa trama, meter em embaraço, embaraçar, donde algo intricado ou intrincado é algo embaraçoso, muito complexo, de difícil solução. E já no latim tricae significava também “intrigas, mexericos”, no sentido de embaraçar alguém por meio de fofocas ou maledicências.

Daí que intrigar quer dizer para nós tanto “aguçar ou despertar a curiosidade” — portanto, algo complexo, que nos intriga, isto é, nos deixa curiosos, é intrigante — quanto “falar mal de alguém” — e, neste caso, quem fala mal dos outros é intrigante no sentido de “fofoqueiro, mexeriqueiro”.

Desse sentido original de “trama” (de uma linha, um tecido) resultou que a trama, o enredo de uma novela, romance ou peça teatral também se chama intriga. Mas atenção: a famosa futrica, que igualmente é uma fofoca ou maledicência, não tem nada a ver etimologicamente com as tricae latinas; futrica deriva de futre, “maltrapilho”, do francês foutre, este de um latim vulgar não documentado *futtere, que em latim literário era futuere, “copular, ter relações sexuais”, o qual deu em português uma palavra de baixo calão que eu não preciso mencionar aqui e é fácil de deduzir pela evolução fonética, não?

A misteriosa história do sovaco

Pois é, gente, o sovaco também tem história. Ou melhor, a palavra sovaco tem história. Ou não. É que várias palavras da nossa língua surgiram muitos séculos atrás, antes mesmo de o português ter-se tornado uma língua escrita, portanto deixando atrás de si um rastro obscuro. Muitas dessas palavras podem ter seu passado seguramente reconstruído a partir de evidências indiretas, enquanto outras não. Por exemplo, o verbo aguçar não tem antecedentes documentados, mas sabemos que aguçar é tornar agudo, e agudo vem do latim acutus, termo sobejamente registrado em documentos escritos. E também sabemos que o latim vulgar criava verbos a partir de adjetivos com o sufixo ‑iare. Assim, de minutus, “miúdo”, saiu exminutiare, que nos deu esmiuçar; de captus, “capturado”, resultou captiare, que nos legou caçar, e assim por diante. Logo, acutus deve ter produzido um verbo *acutiare, que evoluiu para o nosso aguçar.

Só que com o sovaco o buraco é mais embaixo. Antenor Nascentes, em seu dicionário etimológico, afirma que A. Coelho sugeriu que essa palavra proviria do latim subbracchium, de sub, “sob, embaixo”, e bracchium, “braço”, ou, literalmente, “debaixo do braço”. Mas essa etimologia tem um problema, que o próprio Nascentes aponta: subbracchium daria em português *sobraço e não sovaco ou mesmo a forma paralela sobaco, que existe em espanhol e é de onde o vocábulo provavelmente veio. Nascentes também descarta o étimo *subarcus, “sob o arco”, pela mesma impossibilidade de tal evolução fonética irregular.

Indo agora ao dicionário etimológico Corominas, da língua espanhola, encontramos que sobaco pode ter resultado do cruzamento de subala, “sob a asa”, e subhircus, formado de sub, que já vimos que significa “sob”, e hircus, “cheiro de bode” (o nosso conhecido bodum). Teríamos então o híbrido *subacus, jamais documentado. Essa hipótese é plausível, mas como bater o martelo se não podemos comprová-la diretamente, apenas deduzi-la a partir de um raciocínio bastante tortuoso? Se o elemento sov‑ de sovaco parece obviamente remeter ao prefixo sub, a origem do restante da palavra permanece obscura e, talvez, malcheirosa.

“África” é um nome racista?

Tenho sempre dito que o negacionismo, fundamentado em notícias falsas, por vezes fabricadas propositalmente, não é exclusividade da direita: a esquerda, especialmente a identitarista (faço questão de distinguir entre identitarista e identitário: o segundo luta por causas justas, o primeiro faz delas instrumento de luta pelo poder), é tão negacionista quanto, apenas produz desinformação sobre outras questões.

Leio no portal de notícias G1 a matéria Filósofos africanos consideram que a palavra ‘África’ é uma injúria racial, e que continente deveria ser renomeado (disponível em https://g1.globo.com/educacao/noticia/2024/09/13/filosofos-africanos-consideram-que-a-palavra-africa-e-uma-injuria-racial-e-que-continente-deveria-ser-renomeado.ghtml), em que o professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade de Pretória, África do Sul, Jonathan Okeke Chimakonam é entrevistado. A matéria se inicia com as seguintes perguntas: “Os africanos devem ser chamados de negros ou a categorização das pessoas pela cor da pele é uma prática racista? E quanto à África? O nome do continente é uma injúria racial porque foi escolhido pelos exploradores europeus e baseado no clima, e não nas pessoas, e deveria ser renomeado?”

A partir dessas perguntas, o entrevistado, de quem se deduz que, sendo professor de uma das mais importantes universidades africanas, deveria ter um conhecimento razoável de história, geografia e mesmo de etimologia, não hesita em desfiar um rosário de informações mentirosas a fim de sustentar sua tese wokista de que tudo o que os indivíduos brancos fazem ou fizeram tem sempre uma intenção racista (mesmo que os negros façam o mesmo em relação aos brancos, mesmo que qualquer etnia faça o mesmo em relação a qualquer outra etnia).

Diz Chimakonam:

O nome África foi dado ao continente pelos exploradores, escravagistas e colonizadores europeus que chegaram como comerciantes e exploradores nos anos 1400. Acredita-se que “África” tenha sido tirado do grego aphrike, que significa sem frio; em latim, traduz-se para aprica, que significa ensolarado.

Agora vamos aos fatos. Em primeiro lugar, o nome do continente não surgiu nos anos 1400, dado “pelos exploradores, escravagistas e colonizadores europeus”. Na verdade, o nome Africa já era correntemente usado pelos romanos para designar o norte do continente, especialmente a Líbia e o Egito, a única parte do extenso continente que eles conheciam à época. Igualmente chamavam seus habitantes de afri, donde saiu o nosso prefixoide afro (de afrodescendente, por exemplo). Segundo a Wikipédia,

Afri era um nome latino usado para se referir aos habitantes do que era então conhecido como norte da África, localizado a oeste do rio Nilo, e em seu sentido mais amplo referindo-se a todas as terras ao sul do Mediterrâneo, também conhecido como Líbia Antiga. Este nome parece ter originalmente se referido a uma tribo nativa da Líbia, um ancestral dos berberes modernos; […] O nome tinha sido geralmente ligado com a palavra fenícia ʿafar que significa “poeira”, mas uma hipótese de 1981 afirmou que deriva da palavra berbere ifri (plural ifran) que significa “caverna”, em referência aos moradores de cavernas. A mesma palavra pode ser encontrada no nome dos Banu Ifran da Argélia e Tripolitânia, uma tribo berbere originária de Yafran (também conhecida como Ifrane) no noroeste da Líbia, bem como da cidade de Ifrane no Marrocos.

Como ocorre muitas vezes nos estudos etimológicos e onomásticos (onomástica é o ramo da etimologia que estuda os nomes próprios), não há certezas absolutas quanto à origem de nomes muito antigos, mas o simples benefício da dúvida já seria suficiente para que não se lançassem acusações levianas e desprovidas de evidências contra certas palavras ou nomes. O que se sabe com certeza — e que contradiz veementemente o argumento de Chimakonam — é que o nome da África não foi dado pelos colonizadores europeus do século XV nem tem relação com o suposto grego aphriké, vocábulo que nem consta nos dicionários de grego. Em grego clássico, aphrós significa “espuma” (daí o nome da deusa Afrodite, nascida da espuma do mar), e phriké é a agitação do mar encapelado. Tampouco África tem a ver com o verbo latino aprico, “aquecer ao sol”. O ilustre professor chega até a confundir o grego phriké com o latim frigus, “frio” ao dizer que aphriké é “sem frio”. Uma verdadeira salada de pseudoetimologias!

Mas ele segue em frente em sua argumentação falaciosa:

Os antigos judeus se referiam a pessoas de outras nações e crenças como gentios, o que era uma calúnia porque os identificavam como forasteiros. Os antigos chineses se referiam aos povos da Mongólia como bárbaros, e a lista continua.

Só que gentio deriva de gente, portanto não tem nada a ver com “forasteiro”, e bárbaro é um termo de origem grega para designar os povos não gregos, logo essa palavra jamais foi empregada pelos chineses para referir-se aos mongóis. Mas, como diz o próprio Chimakonam, “a lista continua” — no caso, a lista de fake news identitaristas:

De fato, em muitos casos, os nomes são calúnias destinadas a rebaixar essas pessoas ou lugares. Por exemplo, aprendemos com os relatos de Homero, o antigo poeta grego, que, quando os gregos encontraram pela primeira vez os povos do leste da África, eles os chamaram de aethiops ou Aithiops, que significa rosto queimado pelo sol.

Voltemos à Wikipédia:

Não é muito certo quão velha é a palavra Etiópia, cujo uso mais antigo aparece na Bíblia em Gênesis, capítulo 2. E também na Ilíada, onde o nome aparece duas vezes, e na Odisseia, onde aparece três vezes. O uso mais antigo atestado na região é um nome cristianizado do Reino de Axum no século IV, em escrituras de pedra do Rei Ezana. O nome ge’ez ʾĪtyōṗṗyā e seu cognato português são considerados por alguns estudiosos serem derivados da palavra grega Αἰθιοπία, Aithiopia, de Αἰθίοψ, Aithiops ‘um etíope’, derivado, por sua vez, de palavras gregas que significam “de rosto queimado”. No entanto, O Livro de Axum, uma crônica em ge’ez compilada no século XV, alega que o nome é derivado de ’Ityopp’is — um filho (não mencionado na Bíblia) de Cuxe, filho de Cam, quem, de acordo com a lenda, fundou a cidade de Axum. Plínio, o Velho alega, igualmente, que o nome da nação deriva de alguém cujo nome foi Aethiops. Uma terceira etimologia, sugerida por pesquisadores etíopes recentes e o poeta laureado Tsegaye Gabre-Medhin, traça o nome às palavras “egípcias, velhas e negras”: Et (Verdade ou Paz), Op (Alto ou Superior) e Bia (Terra ou País), sendo Etiópia a “terra de paz superior”.

Mais uma vez, o étimo “de rosto queimado” é apenas uma hipótese, por sinal, a mais fraca em termos de evidências científicas. Mas, entre a “terra da paz superior” e a “terra dos rostos queimados”, os wokistas preferem a segunda, já que precisam de um argumento para sua autovitimização. Aliás, se a ideia é criar falsas etimologias para incriminar os brancos opressores, escravistas, racistas, misóginos, homofóbicos, fascistas, etc., então que tal relacionar África com o grego áphron, “irrefletido, inconsequente, disparatado, tolo”?

Mas o sábio filósofo africano prossegue: “o nome África é uma injúria racial. Aphrike ou aprica refere-se ao clima quente do continente, talvez em exagero, com a falsa impressão de que o continente é ‘sem frio’. Se o continente é quente e não tem frio, isso o tornaria o proverbial fogo do inferno, não é mesmo?”

Agora ele nos brinda com a informação de que a referência ao alegado clima quente da África é uma injúria racial (por essa lógica, o nome da Islândia, que significa “terra do gelo”, também seria uma ofensa aos islandeses, não?) e conclui por meio de um raciocínio altamente tortuoso que, se a África é quente (do ponto de vista dos europeus, obviamente), então ela tem a ver com fogo, e fogo tem a ver com inferno, logo, por uma série questionável de silogismos, a África é o próprio Inferno da tradição judaico-cristã, certo? Viram como é fácil misturar sofismas lógicos com pseudoetimologias para criar bandeiras de luta identitarista e bombar nas redes sociais?

Mas a cereja do bolo vem agora:

Alguém se pergunta por que os defensores do racismo científico em algumas universidades europeias nos anos 1700 e 1800 […] decidiram classificar os povos indígenas africanos com a cor preta, os índios americanos com o vermelho, alguns povos asiáticos com o marrom, outros com o amarelo e os europeus com o branco? […] esses sãovários níveis de degeneração, com exceção da cor branca, que é intocada, pura e imaculada. Em nossa opinião, identificar um ser humano com qualquer cor é racismo. Identificar-se como branco é desconsiderar os outros como não brancos, o que é racismo indireto, e chamar alguém de qualquer outra cor — como negro — é uma subordinação racial direta.
A essência do projeto de categorização de cores da humanidade era estabelecer a hierarquia racial como parte de uma tentativa de defender o racismo científico e justificar a escravidão, a opressão colonial e a exploração.

Portanto, segundo Chimakonam, chamar os negros de negros (embora seja essa a cor de sua pele) é racismo, mas chamarem-se os próprios brancos de brancos (embora essa também seja a cor da sua pele) não é porque, na visão do filósofo, a cor branca é diferente das demais (talvez ela tenha alguma propriedade óptica que as demais cores do espectro não têm, alguma propriedade oculta que os físicos ainda não descobriram). Mas será que denominar os negros como afrodescendentes, os asiáticos como orientais, os índios como povos originários ou os brancos como caucasianos muda alguma coisa em relação ao racismo? O que motiva o ódio entre etnias é uma simples questão estética como a cor da pele? Ou será que o preconceito e a discriminação nascem do choque entre culturas, em que grupos sociais com hábitos muito diferentes, por vezes inconciliáveis, são forçados a habitar o mesmo espaço?

Pois o pensador sul-africano propõe alterar o nome do continente africano para Anaésia, termo derivado de duas palavras do idioma igbo, ana e esi, que significam “terra ou local de origem”: o continente onde se originou a espécie humana e onde a primeira língua humana foi falada. Nome bonito de significado idem. Mas até que ponto — e a que custo — se deve mudar um nome com milênios de tradição apenas porque um acadêmico sul-africano que pouco ou nada entende de etimologia ou história acha que o nome atual é ofensivo? Se for assim, proponho mudar o nome da América, que faz alusão a um branco europeu racista, opressor, colonialista, escravagista, capitalista selvagem — e por que não machista, homo e transfóbico? — chamado Américo Vespúcio. Gostaram da ideia?

Gatuno tem a ver com gato?

Um dos nomes que se dão ao ladrão e que hoje em dia está meio fora de moda é gatuno. Mas de onde veio esse termo? Teria ele algo a ver com gatos?

De fato, a palavra gatuno vem de gato e nos chegou no século XVIII através do espanhol, sendo uma das muitas em que o sufixo -uno se juntou a um nome de animal. Também temos em espanhol cabruno, vacuno e outros, que correspondem aos adjetivos portugueses cabrum (ou caprum), vacum, carneirum, ovelhum, bodum (que, como substantivo, significa “mau cheiro”), zebrum, galinhum, gatum (equivalente ao espanhol gatuno, que significa “felino”).

A origem dessas palavras está no latim, em que o sufixo -unus se unia a substantivos para formar adjetivos indicadores de relação. Assim, temos lacus, “lago” > lacunus (donde as palavras portuguesas lacuna e laguna, esta vinda pelo espanhol), portus, “porto” > Portunus, “Portuno, deus dos portos” tribus, “tribo” > tribunus, “tribuno, magistrado da tribo”, e também vacca, “vaca” > vaccunus, “bovino, vacum”. Algumas palavras admitiam adjetivos terminados tanto em -inus quanto em -unus. Por exemplo, de vacca derivou vaccinus (e daí o português científico vacina, pois as vacinas eram testadas em vacas antes de ser aplicadas em humanos) e vaccunus (em espanhol, “vacina” se diz vacuna). Igualmente temos caprinus e caprunus a partir de cabra, sendo que o primeiro deu em português caprino.

Portanto, a palavra espanhola gatuno referia-se originalmente a gato, sendo sinônima de felino. Como os gatos são animais muito espertos e rápidos (experimente deixar um pedaço de carne sobre a pia na presença de um bichano e distraia-se apenas um minuto para ver o que acontece), passou-se a atribuir propriedades felinas ao ladrão sorrateiro, e assim, com o tempo, gatuno tornou-se sinônimo de ladrão, malfeitor, fora da lei.

Velhas palavras de roupa nova

Como se sabe, o português descende do latim. Isso explica por que a maior parte do nosso léxico é formada de palavras de origem latina. Mas nem todas essas palavras foram herdadas diretamente, muitas delas nos chegaram por meio de empréstimos. Para tornar mais clara essa noção, vamos explicar primeiramente a diferença entre herança e empréstimo.

Palavras herdadas, também chamadas de vernáculas ou hereditárias, são aquelas que já existiam no chamado latim vulgar, isto é, o latim coloquial das classes populares de Roma, e permaneceram na fala das pessoas, geração após geração, à medida que a língua lentamente evoluía, até o ponto em que já não podia mais ser chamada de latim, tão diferente que estava do idioma latino original, passando em determinado momento histórico a ser denominada português. O conjunto desses vocábulos herdados é o que se chama léxico patrimonial.

Mas esse léxico patrimonial contava com relativamente poucas palavras, principalmente aquelas mais usadas pelo povo simples e pouco ou nada letrado: termos referentes ao cotidiano, ao trabalho braçal, às partes do corpo, a animais e plantas, e assim por diante.

Por outro lado, a partir do século XII, quando o português se tornou um idioma de cultura, no qual passaram a ser redigidos documentos oficiais, textos religiosos, tratados filosóficos e científicos, bem como obras literárias, a língua precisou incorporar termos que até então não possuía, palavras das esferas política, jurídica, filosófica, científica, religiosa, além de termos abstratos em geral. O lugar onde nossa língua, assim como a maioria das línguas da Europa, foi buscar esses novos vocábulos foram as línguas clássicas, isto é, o latim literário (distinto do latim vulgar do mesmo modo como a norma-padrão do português difere do linguajar coloquial e regional) e o grego clássico, este principalmente através do latim, já que a própria língua latina havia se enriquecido com empréstimos do grego.

Por essa razão, muitas palavras portuguesas de origem latina nos chegaram por via erudita, tomadas de empréstimo ao latim, colhidas nos dicionários latinos por pessoas cultas, em geral escritores, pensadores, teólogos, filósofos e poetas. Só para se ter uma ideia, a quantidade de latinismos (palavras importadas do latim literário) introduzidos por Camões em Os Lusíadas é imensa.

Mas, à época de Camões, o Renascimento, também algumas palavras herdadas foram “repaginadas”, ganharam nova roupagem. É que, paralelamente a palavras hereditárias já existentes e, por sua origem popular, consideradas vulgares, os escritores da época introduziam na língua as formas latinas originais dessas palavras. Assim, ao lado da vernácula fugidio passávamos a ter a erudita fugitivo, junto a ancho ganhamos também amplo, e assim por diante.

A partir daí, ambas as formas conviviam por certo tempo, após o qual podiam seguir dois caminhos: ou continuavam a coexistir, mas com nuances de significado ligeiramente diferentes (por exemplo, dizemos que uma coisa fugaz, efêmera, é fugidia, mas um criminoso que se evadiu da prisão é fugitivo) ou a inovação erudita suplantava o termo antigo vulgar, que deixava pouco a pouco de ser usado. É o caso de seenço, do latim silentium, que deu lugar a silêncio. Ou de ẽemigo, do latim inimicum, depois substituído por inimigo.

Não só palavras herdadas estavam sujeitas a esse “banho de loja”, tecnicamente chamado de refecção ou restauração: também palavras de origem culta que haviam sofrido evolução fonética mais profunda, distanciando-se da matriz latina, podiam ser relatinizadas. Um caso curioso é o do latim florem, “flor”, que deu chor, pronunciado /tchor/, em português antigo por herança direta. Tempos depois, foi refeito para flor, mas, com o uso contínuo e a ação de um fenômeno fonético muito frequente em português, o chamado rotacismo (troca de l por r), mudou para fror e, por dissimilação, isto é, pela transformação do segundo r em l para diferenciar-se do primeiro, facilitando a pronúncia, deu frol (o sobrenome Fróis nada mais é do que o plural de frol). Na Renascença, houve nova refecção, e frol passou novamente a flor, que resiste bravamente até hoje — mas na fala inculta, especialmente no Nordeste, é pronunciada como fulô.

Outro caso semelhante é o do latim simplex, que sofreu rotacismo e se tornou simpres, ainda vivo à época de Camões, para mais tarde restituir o l, dando o nosso atual simples.

Muitas vezes, uma palavra latina que já existia na língua como vernácula ressurge em sua forma culta com significado bem diferente. Casos assim são orelha x aurícula, desenho x desígnio, feltro x filtro, espicho x espículo, e muitos outros.

Um caso recente de restauração de palavra herdada, que ainda está em processo, é o de mosteiro, do latim monasterium, que vem ultimamente cedendo cada vez mais lugar ao culto monastério. Só que desta vez a fonte de inspiração não é o latim clássico e sim o inglês moderno. E quem está impulsionando essa mudança não são os literatos ou eruditos e sim alguns maus tradutores de livros e dubladores de filmes, que, por falta de informação ou de tempo (especialmente a dublagem ou legendagem de filmes tem de ser feita a toque de caixa), fazem traduções literais e, a partir do inglês monastery, inventam monastério em português. Mas, enquanto o uso de monastério é cada vez mais frequente em filmes e documentários, os frades católicos ainda se referem ao seu claustro como mosteiro.

Um último caso interessante é o da palavra latina defensa, que entrou três vezes em nosso idioma. A descendente mais antiga desse termo em português é devesa, vocábulo vernáculo que quer dizer “cerca de árvores”. No século XII surge defesa, empréstimo do latim com queda do n. Já no século XVI nossa língua incorpora defensa, “alambrado”, esta última igual à forma latina.

A glória olímpica

Estamos em plenos Jogos Olímpicos de Paris, e a olimpíada é o momento máximo para os atletas da maioria dos esportes, aquele no qual eles podem atingir a glória, a fama, os louros da vitória e quem sabe até a imortalidade — se não do corpo, pelo menos do feito prodigioso.

Então resolvi falar sobre a curiosa origem de duas palavras ligadas ao triunfo olímpico: glória e fama.

A primeira nos chegou por via culta do latim glōria, ae, que tinha o mesmo significado do português. Essa palavra provém do protoitálico, língua falada na Península Itálica por volta de 800 a.C., que deu origem, dentre outros idiomas, ao latim, e sua forma provável era *gnōsia, portanto parente do grego γνῶσις (gnȭsis), “conhecimento”, e do elemento ‑γνωσίᾱ (‑gnōsíā), que aparece em palavras como agnosia, por exemplo. Sua origem remota é o indo-europeu *ĝneh3-s-, “conhecer”, que deu o latim cognōscere (e daí o português conhecer e cognição), bem como o inglês know.

O curioso da evolução de *gnōsia para glōria não é a transformação do s entre vogais em r, fenômeno muito comum na passagem do latim arcaico ao clássico, chamado rotacismo; é a transformação do encontro inicial gn em gl por outro processo bem conhecido, a dissimilação, isto é, a alteração de um fonema para torná-lo mais distinto do que lhe está contíguo a fim de facilitar a pronúncia. A mutação gn > gl não era comum em latim. O normal era a simples perda do g, como em gnōscō > nōscō, gnātos > nātus, quando se encontrava em início de palavra — mas não quando estivesse no meio. Por isso, temos ignārus e ignōrāre. Porém também temos gnārus (pela lógica, deveria ser nārus), mas aí a explicação é a analogia com ignārus. A manutenção de gn nessas palavras pode, portanto, ser devida à posição não inicial e átona das sílabas em questão.

A explicação para a evolução inusitada de glōria é a seguinte: em *gnōsia > *gnōria > glōria, o acento pode ter desempenhado algum papel na dissimilação. Pode-se supor que a conexão semântica de “glória” com “conhecer” já não era mais percebida, o que fez com que não ocorresse a restauração de gn.

Quanto a fama, sua origem é o latim fāma, ae, que remete a uma raiz indo-europeia *bheh2, a qual também deu o latim fārī, “falar”, e fābula, “conversa, narrativa”, que resultou em português no verbo falar. Logo, quem é famoso é muito falado, e ter glória é ser conhecido por todos.

Boa sorte aos atletas brasileiros!

Os direitos sagrados dos trabalhadores

Vocês lembram da presidAntA Dilma Rousseff, a “mulher sapiens”, inventora do dilmês, língua na qual é possível estocar vento, dobrar uma meta sem saber qual é, aquela em que o Sol é inútil porque brilha durante o dia quando tudo está claro?

Pois é, num certo pronunciamento no Dia Internacional da Mulher, abafado na ocasião por um dos muitos panelaços, a mulher que saudou a mandioca comprometeu-se a não tocar nos “direitos sagrados dos trabalhadores”, ao mesmo tempo em que defendeu mudanças nas regras de acesso a benefícios trabalhistas. Trocando em miúdos, Dilma tentou explicar como pretendia tocar naquilo que ela própria considerava intocável.

Sim, intocável! Pois é exatamente este o significado da palavra sagrado. Segundo o dicionário Michaelis, “diz-se de uma coisa em que não se deve mexer ou tocar”. E tanto esse dicionário quanto o Houaiss definem sagrado como algo “que não se deve infringir, inviolável”.

Sagrado é o particípio passado do verbo sagrar, do latim sacrare, derivado de sacer, sacra, sacrum, “que não pode ser tocado, sem ser manchado ou sem manchar” (Dicionário Latino-Português, de Francisco Torrinha). Esse adjetivo remonta à raiz indo-europeia *sak‑, “santificar”, que, além de sacer, deu em latim sancire, “sancionar, santificar”, sanctus, “santo”, sacerdos, “sacerdote, aquele que torna sacro”, sacrificare, “sacrificar, tornar sacro, oferecer aos deuses”, e muitas outras palavras.

Na teogonia indo-europeia, essa raiz sempre caminhou junto com outra, *n̥-tag‑, “não tocado”, que nos legou íntegro, inteiro, intacto. Portanto, o que é sagrado, ou santo, deve permanecer íntegro, inteiro, e por isso não pode ser tocado. Diversas religiões, aliás, consideram o contato do corpo humano — especialmente das mãos — com objetos sagrados uma forma de conspurcação.

Nesse sentido, mexer nos direitos “sagrados” dos trabalhadores é uma contradição lógica e etimológica. Talvez apenas mais uma das tantas contradições daquele tão contraditório governo.

A nação que roda sem sair do lugar

Caro Aldo, recentemente, o jornalista David Ribeiro disse em seu blog que “o Brasil não consegue sair de seu estado de colônia nem mesmo etimologicamente, pois, ao longo da história, tem sempre rodado sem sair do lugar”. O que ele quis dizer com isso? Por que o Brasil não sai do estado de colônia nem mesmo etimologicamente? Enfim, o que a etimologia tem a ver com isso?
Obrigado.
Emerson Felipe Lascuola

O colunista citado por Emerson utilizou uma fina imagem para representar a estagnação histórica do nosso país que, no entanto, exige para ser plenamente compreendida um conhecimento mais aprofundado de etimologia. É que a palavra colônia, assim como “colono” e “cultura”, provém do verbo latino colere, “cultivar, cuidar, tratar, preparar, habitar (especialmente a terra)”. Ou seja, colônia é a terra entregue ao colono para ser cultivada. E o colono é aquele que cultiva, isto é, o lavrador. Nos tempos coloniais, as terras brasileiras eram entregues pela coroa portuguesa a nobres que nela vinham morar e instalar plantações. O sentido básico de “cultivar” do verbo colere se estendeu a toda uma família de palavras designativas de cultivo, inclusive em sentido metafórico: agricultura (cultivo do campo — em latim, ager), piscicultura (criação de peixes), cultura (de soja, de bactérias, do intelecto), etc.

Mas qual a relação etimológica, levantada pelo blogueiro, entre a palavra colônia e nosso eterno rodar sem sair do lugar, que nos impede de ser uma grande nação, embora tenhamos tudo para isso? É que colere, descendente da raiz indo-europeia *kwel, significava originalmente “rodar, revolver”. Portanto, ao rodar sem sair do lugar, o Brasil está fazendo o mesmo movimento que o colono faz ao revolver a terra para cultivá-la.

Essa raiz indo-europeia também deu o grego kyklos, “roda, círculo”, que passou via latim ao português ciclo; boukolos, “criador de bois”, que nos deu bucólico; e polos (do indo-europeu *kwolos), “eixo” (em torno do qual a roda gira, donde, por metáfora, temos os polos da Terra). De *kwel também vieram o sânscrito chacra (cada um dos círculos energéticos do nosso corpo), o inglês wheel, “roda”, e o latim collum, “pescoço”, do qual derivaram colo, colete, colar e colarinho.

E por falar em coluna, esta palavra, embora pareça também pertencer à família de colere, tem outra origem: o verbo latino *cellere, “elevar-se”, de que também procedem excelso, excelência e colina.