A glória olímpica

Estamos em plenos Jogos Olímpicos de Paris, e a olimpíada é o momento máximo para os atletas da maioria dos esportes, aquele no qual eles podem atingir a glória, a fama, os louros da vitória e quem sabe até a imortalidade — se não do corpo, pelo menos do feito prodigioso.

Então resolvi falar sobre a curiosa origem de duas palavras ligadas ao triunfo olímpico: glória e fama.

A primeira nos chegou por via culta do latim glōria, ae, que tinha o mesmo significado do português. Essa palavra provém do protoitálico, língua falada na Península Itálica por volta de 800 a.C., que deu origem, dentre outros idiomas, ao latim, e sua forma provável era *gnōsia, portanto parente do grego γνῶσις (gnȭsis), “conhecimento”, e do elemento ‑γνωσίᾱ (‑gnōsíā), que aparece em palavras como agnosia, por exemplo. Sua origem remota é o indo-europeu *ĝneh3-s-, “conhecer”, que deu o latim cognōscere (e daí o português conhecer e cognição), bem como o inglês know.

O curioso da evolução de *gnōsia para glōria não é a transformação do s entre vogais em r, fenômeno muito comum na passagem do latim arcaico ao clássico, chamado rotacismo; é a transformação do encontro inicial gn em gl por outro processo bem conhecido, a dissimilação, isto é, a alteração de um fonema para torná-lo mais distinto do que lhe está contíguo a fim de facilitar a pronúncia. A mutação gn > gl não era comum em latim. O normal era a simples perda do g, como em gnōscō > nōscō, gnātos > nātus, quando se encontrava em início de palavra — mas não quando estivesse no meio. Por isso, temos ignārus e ignōrāre. Porém também temos gnārus (pela lógica, deveria ser nārus), mas aí a explicação é a analogia com ignārus. A manutenção de gn nessas palavras pode, portanto, ser devida à posição não inicial e átona das sílabas em questão.

A explicação para a evolução inusitada de glōria é a seguinte: em *gnōsia > *gnōria > glōria, o acento pode ter desempenhado algum papel na dissimilação. Pode-se supor que a conexão semântica de “glória” com “conhecer” já não era mais percebida, o que fez com que não ocorresse a restauração de gn.

Quanto a fama, sua origem é o latim fāma, ae, que remete a uma raiz indo-europeia *bheh2, a qual também deu o latim fārī, “falar”, e fābula, “conversa, narrativa”, que resultou em português no verbo falar. Logo, quem é famoso é muito falado, e ter glória é ser conhecido por todos.

Boa sorte aos atletas brasileiros!

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