Palavras italianas no português

(Publicado também no site Italianismo: https://italianismo.com.br/palavras-italianas-no-portugues)

Algumas línguas são mais receptivas a empréstimos do que outras, assim como certos idiomas, por seu prestígio, são grandes exportadores de vocábulos. Isso tem a ver com diversos fatores, como o desenvolvimento científico e tecnológico de determinados países (por exemplo, hoje em dia a tecnologia digital fala basicamente inglês), seu poder político ou econômico e mesmo sua influência cultural em campos como a filosofia e as artes.

Em cada época histórica, vemos uma nação diferente impor sua língua às demais por conta desses fatores: primeiro o grego, depois o latim, então o francês, agora o inglês. Mas também vemos certos idiomas serem bastante influentes em áreas específicas, nas quais os povos que os falam são mestres, como é o caso da culinária, da perfumaria e da moda em relação à França.

Uma língua que exerceu e ainda exerce grande influência sobre outras em domínios como a música, a pintura e a cozinha, para citar os principais, é o italiano. Como se sabe, a Itália foi o berço do Renascimento, tendo assumido desde o século XIV a liderança nas artes com pintores como Giotto e poetas como Dante e Petrarca. Ao mesmo tempo, Marco Polo trazia da China aquela que seria a marca registrada dos italianos, o macarrão. E Leonardo da Vinci descortinava a Idade Moderna com sua pintura, suas descobertas científicas e suas invenções tecnológicas.

A língua portuguesa não passou incólume à influência italiana. E não só em vocábulos óbvios como pizza, cappuccino e máfia, mas também em muitos outros, cuja origem peninsular muitos desconhecem. E é deles que vou falar aqui.

Primeiramente, termos ligados à música, arte que a Itália praticamente revolucionou nos séculos XVI e XVII, como adágio, andante, ária, arpejo, bandolim, cantata, contralto, falsete, madrigal, maestro, piano, serenata, solfejo, sonata, soprano, tarantela, tenor, tocata, trêmulo, trombone, vibrato, viola, violino e violoncelo.

Nas artes plásticas, temos afresco, aquarela, artesão, caricatura, pastel, vinheta; no teatro e no circo, arlequim, camarim, colombina, comediante, palhaço, polichinelo, trampolim.

Na culinária, além dos óbvios espaguete, lasanha, ravióli e talharim, temos também banquete, brócolis, cantina, mortadela, polenta, risoto, salame e salsicha, dentre muitos outros. O próprio nome da massa, macarrão, é de origem italiana.

Na literatura, palavras como barcarola (um tipo de cantiga) e soneto também vieram da Itália.

Mas o italiano nos deu igualmente palavras de muitas outras áreas, como a navegação e a guerra, com alarme, alerta, artilharia, esquadra, esquadrão, fragata e piloto; as finanças (bagatela, bancarrota, banco, boletim, boleto, estorno, florim, saldo) e a moda (cafona, capuchinho, pantalona). E deu ainda capricho, carnaval, escarpa, gazeta, grotesco, imbróglio, pedestal, poltrona, porcelana, portfólio, e um sem-número de outras palavras que vieram enriquecer o nosso idioma.

E, para finalizar, me despeço com mais uma palavra tipicamente italiana: tchau!

A origem da palavra “Carnaval”

Já que estamos em pleno Carnaval, é sobre ele que vamos falar hoje.

A etimologia da palavra Carnaval é uma das mais controversas que existem. Assim como a origem dessa festividade remonta à Pré-História e a ritos pagãos da fertilidade, em que se comemorava o início do ano agrícola e pedia-se aos deuses uma boa safra, a origem da palavra também se perde na escuridão do passado. Alguns autores, como Körting (Lateinisches-Romanisches Wörterbuch, “Dicionário Latino-Românico”), sustentam que teria vindo do latim carrus navalis, barco ornamentado que entre os romanos abria desfiles alegóricos como os das Saturnalia e das Bacchanalia, festas em celebração da chegada da primavera e do vinho.

Outros, porém, como Antenor Nascentes, na esteira de vários estudiosos, apontam a origem em carnem levare, “suspender a carne”, isto é, suprimir o consumo desse alimento durante a Quaresma, portanto já no período cristão do Império Romano. Wilhelm Meyer-Lübke, no seu Romanisches Etymologisches Wörterbuch (Dicionário Etimológico Românico), dá essa origem para o francês e o provençal. Policarpo Petrocchi apresenta o baixo latim carnelevamen, depois modificado para carnelevare, como étimo do antigo pisano carnelevare, do napolitano carnolevare, do calabrês carnalevare, do siciliano carnilivari, do vicentino carlavare e do veneziano carlevar. A forma primitiva carnelevare teria sido depois mudada para carnelevale em milanês (1130) e, por etimologia popular, em carne, vale!, isto é, “adeus, carne!”. Essa etimologia é confirmada por Corominas em seu Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana. Já o Duden – Das Herkunftswörterbuch, o principal dicionário etimológico do alemão, apresenta ambas as hipóteses, dando, no entanto, mais crédito à segunda.

Em espanhol, a forma paralela carnal teria sido a responsável pela mudança da vogal, de carneval para carnaval. A ideia básica de suspensão do consumo de carne é reforçada por formas paralelas como o espanhol carnestolendas, o catalão carnestoltes (ambas do latim tollere, “retirar”) e o italiano carnelasciare e carnasciare, assim como o romeno lăsatul de carne, todas do latim laxare, “deixar, abandonar”. O próprio latim já apresentava carneprivium, “privação da carne”, o que dá alguma convicção a essa etimologia. De certo, somente que o antecessor do termo em todas as línguas modernas é o italiano carnevale, especialmente em face da grande fama dos carnavais italianos (o de Veneza, principalmente) durante a Renascença.

O que calma tem a ver com calor?

Nesse calorão que anda fazendo, é preciso beber muita água e manter a calma. Mas o que a calma tem a ver com o calor? Ao contrário do que possa parecer, tem muito a ver.

Tudo começa com o grego kaûma, “calor”, parente de palavras que deram em português cáustico, cautério e cauterizar, portanto termos que remetem à ideia de “fogo, queimar”. Kaûma passou ao italiano como calma, em que o u foi trocado pelo l por analogia com as palavras caldo, “quente”, e calore, “calor” — ocorreu aí a famosa pseudoetimologia, do mesmo modo como o nosso redemoindo virou rodamoinho por se acreditar que tenha algo a ver com rodar (afinal os redemoinhos são ventos que rodam).

Pois bem, o italiano calma significava originalmente o mesmo que o grego kaûma: calor. Mas, por uma metonímia do tipo “efeito pela causa”, passou a designar a pasmaceira provocada pelo calor, e daí quietude, falta de movimento, de agitação. Essa calma era especialmente a ausência de ventos no mar, a calmaria que impedia os navios de navegar ou os obrigava a utilizar remos. Daí para o sentido de tranquilidade enquanto ausência de tensão nervosa foi um pulinho. E daí também surgiram o adjetivo calmo e o verbo acalmar. Posteriormente apareceu o medicamento contra ansiedade chamado calmante.

Pois é, nestas noites quentes, abrasadoras, cáusticas, tem gente até tomando calmante para conseguir dormir.

O estilo “Carluxo” de Bolsonaro

Leio num site de notícias que no debate de hoje à noite na Rede Globo Bolsonaro deverá adotar o “estilo Carluxo”, isto é, aquela atitude mais radical, raivosa e aguerrida que, por sinal, notabilizou o presidente desde sempre e que contrasta com a imagem “Bolsonarinho paz e amor” que às vezes seus marqueteiros tentam vender ao eleitorado.

Esse tipo de postura política ganhou o nome de Carluxo por referência ao filho do presidente, Carlos Bolsonaro, principal idealizador e incentivador dessa postura, e cujo apelido – não sei se usado por ele próprio ou se a ele impingido pela imprensa – é um diminutivo carinhoso de Carlos. O que chama aqui minha atenção é a grafia com x desse apelido, a meu ver inadequada. Se a alcunha é utilizada pelo próprio Carlos e por seus íntimos, resta saber se o próprio filho do presidente a grafa com x. Se o faz, é um direito seu. Mas, se não, ou seja, se o apelido lhe foi dado pela mídia, então temos aí um deslize ortográfico. É que ‑ucho é um sufixo diminutivo, por vezes afetuoso, que ocorre em palavras como gorducho, pequerrucho, capucho, fofucho e outras e cuja grafia correta é com ch e não com x (falei semana passada sobre a questão da grafia com x ou ch de imbroxável; este é mais um caso em que a língua portuguesa nos coloca em situação de insegurança).

Mas por que o sufixo ‑ucho é com ch e não com x? Mais uma vez, temos de recorrer à etimologia para explicar. Acontece que esse sufixo é um empréstimo do sufixo diminutivo italiano ‑uccio, por sinal muito frequente em nomes de pizzarias como Micheluccio, Freduccio, etc. (Atenção: isto não é merchandising de pizzarias, ok?) Em italiano, o cc seguido de i soa como /tch/, portanto a pronúncia desse sufixo é /utcho/. Quando aportou em terras portuguesas, lá pelo século XVI, formando os primeiros derivados, o ch português também tinha som de /tch/, logo a transcrição de ‑uccio por ‑ucho foi natural. Somente tempos depois foi que o ch português perdeu o som /tch/ e assumiu a pronúncia atual, que se confunde com a do x. Mas a ortografia manteve o ch mesmo assim, pois nosso sistema é parcialmente fonético (melhor seria dizer fonológico) e parcialmente etimológico. É por isso, por exemplo, que eliminamos o h dos dígrafos th, rh, ph, mas mantivemos o h de hora, hoje, etc.

Conclusão: o colérico filho de Bolsonaro deveria ser Carlucho e não Carluxo. A menos que o próprio, como disse acima, prefira a grafia com x. Aí é uma escolha dele, e ninguém tem nada com isso.

Bom debate hoje à noite!